segunda-feira, 26 de março de 2018

ARTIGO - Segurança Pública: Falta Plano e Vocação (CA)



SEGURANÇA PÚBLICA:
FALTA PLANO E VOCAÇÃO
Cândido Albuquerque*



A tragédia na qual se converteu a Segurança Pública do Ceará é um resultado previsível e esperado, conforme já afirmei várias vezes neste espaço. Nos últimos anos, enquanto o crime se organizava, os governos desmantelavam a Polícia Civil e, portanto, a sua capacidade de investigação. 

Ao contrário, investiu-se na Polícia Militar, especificamente no Batalhão Raio, com suas motos luminosas e um policial na garupa segurando um fuzil, aparato inofensivo ao crime organizado. Era a opção pelo visível, pelo “eleitoralmente correto”, segundo os especialistas! O Batalhão Raio, por óbvio, é importante, mas não para combater as organizações criminosas.

Estava, assim, criado o ambiente propício para o fortalecimento das facções. O Estado não investigava, e o crime se organizava! Sem inteligência policial e sem capacidade de investigação ficou fácil para o crime. Estranho, nesse contexto, seria o crime não ter se estabelecido. A situação ficou tão grave que o Ministério Público entrou com uma ação judicial para o fim de obrigar o Governo do Estado a contratar, via concurso, delegados de polícia. Ou seja, criamos, talvez inconscientemente, o ambiente para a tragédia que vivemos hoje.

Esse é o pior momento da história da Segurança Pública do Estado do Ceará. Estamos sob o signo do medo. Os bairros de Fortaleza estão loteados entre facções, as quais agem e se comportam como donatárias da cidade. Claramente, os criminosos não entenderam aquela mensagem segundo a qual os bandidos do Ceará teriam duas opções: “cadeia ou cemitério”.  Ignoraram a mensagem e dominaram o Estado.

O grave, nesse contexto, é que não se tem visto a elaboração, por parte do Governo do Estado, de um plano para enfrentar a crise. Pelo contrário, nos últimos seis meses muitas unidades da Justiça Criminal foram fechadas, inclusive 22 na Capital, em ação que contou com a participação dos Três Poderes: o Tribunal de Justiça mandou o projeto de lei, a Assembleia aprovou, e o Governador sancionou! Nesse contexto, será que o Poder Público cearense está legitimado para reclamar da violência, ou é hora de admitir os erros e buscar as soluções? Os presídios, na prática, estão sob a administração das facções, e mesmo a colocação de bloqueadores de sinais nas penitenciárias, como se tem visto, tornou-se um assunto tormentoso, a bem demonstrar a falta de vocação do Governo.

Nos últimos meses as autoridades da área de Segurança passaram a acusar o Governo Federal de não adotar ações nacionais de combate ao crime. O Estado tenta terceirizar o problema ao pretender “nacionalizar” as causas.

Será que a explicação se sustenta? Penso que não! Em nenhum país do mundo se combateu a violência urbana sem inteligência, ou seja, sem investigação. No Ceará, o contingente da Polícia Judiciária é tão pequeno que algumas cidades nem mesmo estão servidas de um delegado, o que significa que nada está sendo investigado adequadamente. Esse fato, por si só, mostra que o Governo do Estado do Ceará não levou a sério a questão da Segurança Pública. Negligenciou o contingente policial – o da polícia de investigação – em um momento de crise aguda como esse! O momento reclama a participação integral do Estado.

E não se diga que o problema decorre da falta de tecnologia. Sim, tecnologia é fundamental, e já temos alguma coisa, mas de nada adianta tecnologia se não houver pessoal para utilizá-la. Segurança no Ceará, hoje, é prioridade, uma questão de sobrevivência, pelo que não podemos mais esperar. Precisamos de um plano para a segurança pública do Estado, o que, aliás, venho cobrando desde 2014, e com maior insistência desde janeiro de 2017. Aumentar o contingente do Batalhão Raio, por exemplo, não chega a ser um plano, já que o crime organizado somente pode ser combatido com investigação, com “inteligência policial” e com um Judiciário capaz de responder às demandas em tempo razoável. O Estado precisa funcionar de maneira orgânica no combate ao crime organizado. Perdemos o norte, criamos o problema e agora precisamos resolver!




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