ROMANTISMO,
COGNIÇÃO E POLÍTICA
Rui Martinho Rodrigues*
O romantismo, como movimento artístico e literário,
guarda íntima relação com a Filosofia romântica alemã. Ambos surgiram em fins
do séc. XVIII e cresceram no séc. XIX, quando alcançaram grande expressão. Foi uma
reação à razão mecanicista do Iluminismo, ênfase na subjetividade e um apelo ao
nacionalismo ligado à afirmação da identidade alemã. O titanismo evoca a
mitologia grega, na figura dos titãs e de Prometeu, expressa a inconformidade
com a realidade e a disposição para romper regras e limites, que é uma das
marcas do romantismo.
Friedrich Schlegel (1772 – 1829), na obra Conversa sobre poesia, aproxima a Filosofia da obra poética, fragilizando a vigilância epistemológica, que é preciosa ao trabalho do filósofo. Mais tarde Lucio Colletti (1924 – 2001), pensador italiano, referiu-se à dialética hegeliana como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. Aludiu à mistura de teses e antíteses e à cosmogonia não demonstrada.
O titanismo dos românticos ensejou revolta contra regras, limites e fatos. Acabou por guardar relação com o ódio, o extremismo, e desconectado da realidade. Tudo isso foi o resultado da inconformidade em face da realidade, conforme Isaiah Berlim (1909 – 1997), na obra Ideias políticas na era romântica.
Berlin relaciona o extremismo autoritário e a violência com o romantismo, em razão da tendência para a revolta e o desprezo pela realidade das experiências históricas. Isso é dito indiretamente, associando o romantismo a uma profunda mudança na consciência ocidental, em razão da ressignificação do que entendemos por liberdade, do indivíduo e por autoridade legítima, como consequência da extremada rejeição à racionalidade posta pelo Iluminismo.
A síntese do romantismo com outras tradições cria contradições difíceis de contornar. Surge assim a necessidade de muito contorcionismo lógico, que por sua vez resulta em obras cuja complexidade torna os textos incompreensíveis até para grandes pensadores.
A Navalha de Ockham, princípio enunciado por
Guilherme de Ockham (1287 – 1347), segundo o qual entre muitas explicações para
um fenômeno, provavelmente a mais simples é a correta, colide frontalmente com
prestigiosos autores incompreensíveis.
Dificilmente uma banca examinadora aprovaria uma tese que os professores não fossem capazes de entender. A incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn, na obra A estrutura das revoluções científicas, pode explicar a incompreensão dos seguidores de paradigmas distintos. Quando, porém, uma obra é incompreensível até para grande parte dos seguidores da mesma corrente de pensamento, a situação é diferente.
Karl Raymond Popper (1902 – 1994), na obra Sociedade
aberta, universo aberto, que é um conjunto de entrevistas e conversas com o
jornalista Franz Kreuzer, afirma que a falta de clareza, quando se trata de
pessoa altamente qualificada do ponto de vista intelectual, sugere
fundamentação precária, sugestiva de logomaquia. Também pode significar que o
véu de Maya, de fala Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), na obra O mundo como
vontade de representação, ilusão que recobre o mundo real. Por trás do
referido véu se esconde a vontade cega que move o mundo.
O declínio do debate político e filosófico, no
contexto da pós-modernidade, reflete efeitos tardios da síntese dialética do espírito
romântico com a relativização cognitiva e das referências axiológicas, em nome
de uma cultura plural que prega a tolerância e enfatiza a falibilidade enquanto
age de modo dogmático em nome do politicamente correto.






