domingo, 22 de fevereiro de 2026

VÍDEO - Pater Noster


PATER NOSTER

Reginaldo Vasconcelos*

 

A família, no retiro de Carnaval deste ano, na Fazenda Três Corações, no Município de Morada Nova, elevando preces em súplica pela saúde de um amigo com diagnóstico médico de recidiva, em vias de tratamento e remissão.      



 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

ARTIGO - Nem Crítica, Nem Sátira: Puxa-Saquismo Escrachado (BA)

NEM CRÍTICA,
NEM SÁTIRA:
PUXA-SAQUISMO ESCRACHADO
Barros Alves*

 

A tradição satírica do Carnaval sempre esteve associada à liberdade de crítica, ao riso que desafia o poder e à irreverência que desnuda hierarquias. Quando essa tradição é instrumentalizada por interesses governamentais ou por estruturas financiadas com recursos públicos, contudo, perde sua essência e se converte em peça de propaganda. É sob esse prisma que se deve analisar a atuação da Acadêmicos de Niterói e sua sintonia com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Sátira e crítica patrocinadas pelo poder para atingir adversários não são sátira nem crítica. São, antes, a forma mais rudimentar de adesismo, o puxa-saquismo explícito travestido de irreverência. A sátira clássica, em sua genealogia, sempre mirou o alto da pirâmide social, não o rés do chão. Em Portugal, Manuel Maria Barbosa du Bocage fez do sarcasmo uma arma contra hipocrisias e privilégios. 

No Brasil colonial, Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, fustigou elites políticas, religiosas e econômicas. No Ceará, Antônio Sales conheceu a perseguição e o exílio interno ao confrontar a oligarquia aciolina. A sátira, quando autêntica, cobra um preço; e esse preço costuma ser pago por quem critica o poder, não por quem o serve. 

O que se observou, entretanto, foi a inversão dessa lógica. Ao adotar discursos e representações que coincidem com a narrativa governamental e ao fazê-lo num contexto de financiamento público e visibilidade massiva, a escola de samba não ampliou o debate democrático, mas estreitou-o. A irreverência carnavalesca, que poderia ser plural e incômoda para todos os lados, tornou-se seletiva. E a seletividade, em política, raramente é inocente. 

Há ainda um elemento agravante: o tempo. Em período pré-eleitoral, manifestações culturais de grande alcance que reproduzem discursos favoráveis a governos ou hostis a adversários suscitam questionamentos legítimos sobre equilíbrio e lisura. Não se trata de censurar a expressão artística, princípio essencial, mas de reconhecer que a fronteira entre arte, propaganda e uso indireto de recursos públicos pode se tornar perigosamente difusa. 

Quando essa difusão ocorre diante de milhões de espectadores, a crítica deixa de ser apenas estética e passa a ser institucional. Cabe aos órgãos responsáveis pela fiscalização eleitoral, entre eles o Tribunal Superior Eleitoral-TSE, avaliar se houve desvio de finalidade, promoção indireta ou tratamento desigual no espaço simbólico que o Carnaval ocupa na vida nacional. A omissão, real ou percebida, alimenta a sensação de que a legislação vale de modo desigual conforme o ator político envolvido. 

O dano maior, porém, é cultural. O Carnaval brasileiro sempre foi território de ambiguidade: celebração e denúncia, festa e crítica, riso e inconformismo. Quando a sátira se subordina ao poder, perde sua força transformadora e passa a funcionar como adereço. Em vez de desconforto, produz conforto; em vez de questionar, confirma. 

A Acadêmicos de Niterói, ao optar por essa linha, corre o risco de esvaziar justamente aquilo que poderia torná-la relevante: a capacidade de falar contra, não a favor; de tensionar, não de acomodar. E qualquer governo, inclusive o de Lula, que se beneficie dessa acomodação deve ser igualmente criticado. E punido. Democracias saudáveis dependem de arte livre, inclusive e, sobretudo, quando ela incomoda quem governa. 

Sem isso, a sátira deixa de ser coragem e se converte em ornamento. E o Carnaval, que historicamente foi espaço de inversão simbólica do poder, transforma-se apenas em palco de sua reafirmação. Picadeiro de uma palhaçada. 

#Publicado no Jornal O Estado - Edição de 19/02/2026

ARTIGO - Antes do Começo (LRF)

ANTES DO COMEÇO
(DE PRIMEIRO, DE NOVO!)
Luiz Rego Filho*

  

Crônica Autobiográfica com Cronologia Completa, Trilha Sonora Histórica e Comentários Stanislawpontepretianos Obrigatórios (Relatório oficial do Festival de Besteira que Assola o País — Supervisão póstuma de Stanislaw Ponte Preta, com carimbo reconhecido em cartório celestial)    



ACIONE O LINK ABAIXO 
PARA ACESSAR A ÍNTEGRA DO ARTIGO

https://drive.google.com/file/d/14Urj_gRG8po_pj6Ye9lo2C8b7khVOlHL/view?usp=sharing 

LITERATURA - Críticas Despresumidas (RTC)

 Críticas
Despresumidas

Mais um Bem Literário do Árcade Novo Palmaciano
 
Robério Telmo Campos*

  

Tem o leitor cearense e brasileiro a oportunidade de degustar a derradeira produção em livro do autor ora sob comentário, publicada em conjunto pela Arcádia Nova Palmaciana (Palmácia-CE) e a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (Fortaleza-CE), intitulada Reservas da Minha Étagère (2025). Ali, conforme declara o próprio árcade novo Jovem Chrónos, remansam “críticas despresumidas” a títulos sobre Literatura, Direito, Ciências Sociais e da Saúde, muito bem recepcionadas pela ala da Literatura Cearense, quase todos inseridos na produção em ciência do nosso Estado. 

Desde quando, muito jovem, me achei concentrado nos estudos secundários, experimentando a ventura de deparar professores de Português e Literatura de muito boa qualidade, passei a encarar com maior responsabilidade e cuidado os regramentos e modos de falar e escrever em Língua Nacional. 

Assim, tanto no que respeita à correção quanto no concernente ao jeito de expressar, nas mais diversas situações, procuro usar o máximo possível das boas maneiras para exprimir um pensamento, o que configura, na expressão da palavra, o que é chamado de estilo. 

Muito embora, exteriormente ao escrito literário  por exemplo, em crônicas, contos, romances, estórias pessoais etc., notadamente no âmbito do Saber de Ciência  certas pessoas pensem que não é possível praticar a escrita dotada de elocução bonita, fácil e agradável, elas escorregam no engano. Isto porque, mesmo se tratando de matéria científica, exatamente o que se trabalha no âmbito das universidades e lugares de pesquisa, impõe-se arrumar a composição, seja em que ramo do conhecimento for, para que não chegue totalmente insossa ao leitor, que dela vai extrair somente – e nem sempre – a verdade que o pesquisador demandou achar como saber novo, tendo de absorver, engolir quase à força, aquela ideia desprovida de sabor comunicativo, conquanto dotada de verdade relativa. 

Deparo, ainda, porém, mencionada dificuldade, pois, na Universidade Federal do Ceará, operando na seara onde se enlaçam as ciências agronômicas, econômicas, contábeis e outros galhos do conhecimento ordenado, todas com seus sub-ramos, afirmo não ser simples levar a efeito essa disposição. Além de mim, obrigado por força de ofício a produzir conhecimento e revelá-lo por intermédio de experimentos assentados na Filosofia da Ciência e na sua metodologia, dependo dos meus orientandos de Mestrado e Doutorado, quando procuram suas investigações em sentido estreito, no Programa de Pós-Graduação em Economia Rural. De tal modo, esses procedimentos, na verdade, embora possíveis, não se mostram de simples execução, não me deixando, no entanto, conduzir a reveses, na qualidade de orientador de ciência, antes, porém, de defensor de um extraordinário código linguístico como este em que operamos. 

Estas ligeiras e despretensiosas observações, e não sendo este o meu motivo acadêmico condutor, foram reveladas a fim de chamar a boa atenção do consultante para a copiosa produção do nosso conterrâneo, parente-irmão e colega de Academia (pois, como a minha, também ele transporta sua  Alma Mater** – a celebrada Universidade Federal do Ceará-UFC), Vianney Mesquita, figurando este livro como o vigésimo quarto do seu portfólio, além de dezenas de artigos publicados em revistas acadêmicas do Ceará e do Brasil. Também é detentor de prêmios literários, e pertence às Academias Cearense de Literatura e Jornalismo, Cearense da Língua Portuguesa e a nossa estimada e apaixonante Arcádia Nova Palmaciana, da qual foi um dos fundadores – Árcade Novo Jovem Khrónos. 

VM é muito conhecido em nosso meio como corretor de textos acadêmicos stricto sensu, trabalho que executa para os nove países onde se fala e escreve a Língua Portuguesa. E, sob o ponto de vista da História de Palmácia, com esta produção multíplice – temática variada - retrata o seu maior escritor em todos os tempos, pelo que convido o prezado leitor a ler, no livro sob comentário, o texto do Prof. Edmar Ribeiro, da Universidade Federal do Ceará, intitulado História Literária Cearense – Literatos Palmacianos – Figura Preeminente, onde esse comentarista cuida, com zelo e verdade, da matéria atinente aos escritores da nossa Terra. Indico, também, o artigo de entrada do livro, do Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, da Universidade Federal do Ceará. 

Verdadeira graça é o fato de esta ser a quarta produção à luz com o sinete da Arcádia Nova Palmaciana, incluindo-se Franciscos Moradores do Céu (2018) Encontro de Contas – Balancete de Juízos Literários, Filosóficos, Linguísticos e Históricos (2024) e Estâncias Decassilábicas Lusitanas – Medidas em Arte Maior (2024) – todas do anotado palmaciano, sob a guarda dos árcades novos, proprietários do Solar dos Sampaios, Lúcia Andrade Sampaio e Fernão de La Roche d’Andrade Sampaio, a quem somos todos agradecidos. 

Boa leitura deste Reservas da minha Étagère.

 E melhor descodificação.



*O Prof. Dr. Robério Telmo Campos é docente titular do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Federal do Ceará. Árcade Novo Robério Júpiter, da Arcádia Nova Palmaciana. Produtor de livros e artigos científicos na área da Economia Rural. 

(** A Alma Mater é a universidade onde a pessoa se formou)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - No Lugar de Zeus (VM)

 NO LUGAR DE ZEUS
Vianney Mesquita*

                                  

Compreendemos mais por intuição do que por via do raciocínio. A intuição clara e viva, pois, é o caráter do gênio. (JAIME LUCIANO BALMES YURPIÁ, sacerdote, filósofo e teólogo espanhol. Vic, 28.08.1810; 09.07.1848).


Prof. Olímpio 

Do Olimpo Monte seu nome provêm,
Com nobre acepção celestial
Daí por que seu denodo advém
Para do Orbe austero ser fanal.
 
Da Humanidade reta é o sinal
E ao compassivo a correção convém,
Quando se apropinqua ao ideal
De modelar na reedição do bem.
 
Naquele ensejo em qu’este ser nasceu
Nova excelência o Senhor promoveu
Enquanto da fraterna grei cuidava.
 
Querer dali lhe retirar alguém
Utópico conforma-se, porém,
Pois quando Zeus chegou você já estava.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ARTIGO - A Munificência Produtiva do Escritor Luciano Dídimo (VM)

A Munificência Produtiva
do Escritor
Luciano Dídimo
Vianney Mesquita*



 

Revela apreciável realce, constitui um ideal dos mais belos, ao modo instado ao Senhor Deus na epígrafe, o momento propício de experimentar-se proceder a rápidas considerações acerca de mais uma triunfante diligência gráfica para circulação pública do tão celebrado autor, Luciano Dídimo, em A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade, relativos à sua figura de cidadão e escritor da melhor índole, neste volume sob o rito de imersão batismal no jordão librário do Ceará.

 

Aqui ele pluraliza encantadoras produções, de sublimidade transposta às raias ordinárias dos bens poemáticos, ao dispor, em relevo, a gentileza, a brandura e as mercês de seu gênio acumulado de positividade, transferidas, na sua maioria, para estrofes do estalão decassilábico, porém adicionadas de estâncias de arte menor – silabadas em sete ictos – e dodecassílabos alexandrinos, tudo no âmbito da bitola constitutiva do provençal sonet. 

Sob a perspectiva histórica de ideação da craveira compositiva a que recorre o bardo sob comento – é oportuno exprimir, em velocíssima informação, carecente de incontáveis complementos – têm ressalto o italiano Francesco Petrarca e o português Francisco Sá de Miranda, entre quase inumeráveis outros seguidores e preceptores, conforme o pai do lavrador o exemplar sob comentário – Horácio Dídimo Pereira Barbosa Vieira – Rafael Sânzio de Azevedo e Otacílio Colares, ao se mencionar, por ensejada a ocasião, apenas literatos cearense.

 Eis, por consequente, um Tomé são-joanino a presumir além do que divisa, sem ser preciso ver para crer, nem introduzir os dedos nas injúrias da pessoa ledora, feito um Dydimus, um To’Oma aramaico, gêmeo, duplo, em tempos distintos e distantes, de dois Horácios (menestréis Horácio Dídimo e Quinto Horácio Flaco) a creditar brandura e indulgência aos seus iguais circunjacentes, tanto integrantes do sistema familiar como outros partícipes de suas circunstâncias amistosas.

A isto ele procede, máxime, por intermédio dos expedientes da arte maior, do jeito como se exprimiu há pouco, pois a pluralidade é ofertada em pés decassílabos lusitanos, magnanimamente produzidos, com suporte numa alma branda, leve e benfazeja, admirada e aplaudida, pelos bem-afortunados leitores brasileiros e da língua portuguesa. 

O Autor objeto destas fugazes notações, Luciano Dídimo Camurça Vieira, causídico operante no Tribunal Regional do Trabalho, no Ceará, e administrador da gema, já possui várias edições em formatos digitais e versões impressas, ao sabor de uma afluência selecionada de consulentes, no Brasil, em Portugal e nas outras sete nações lusófonas – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial. 

O doutor Luciano Dídimo estreou a mostra do seu alteado estro, no ano de 2011, com O Meu Carmelo é Marrom, acompanhado de A Rosa da Certeza (2016), contando, ainda, com o excecional séquito de A Rosa Marrom (2020), adido de A Rosa VerdeSonetos de Esperança (2022) e da Rosa de PérolaSonetos Preciosos (2024). Mencionados proveitos editoriais são faustosamente ortografados, a ornar de estimação sua obsequiosa habilidade literária, motivo por que é admirado pelo universo ledor, sancionado em diversas análises críticas, as quais costumam avultar, sistematicamente, a essência dos seus bem mensurados escritos, favorecidos de certificação pela diligente e pertinaz massa de avalistas coestaduanos. 

Neste lance prazenteiro, em decisão perto de conformar um atavio redundante, talvez pensem alguns – pois já devidamente apetrechado pelo rematado ânimo estral que enroupa sua caminhada rítmica -, o produtor da conjunção consoada A Rosa CinzentaSonetos de Interioridade decidiu aduzir ao contexto já nutrido de medidas lusitanas de dez acentos, e poucos pés bilaquianos e setessílábicos da melhor verve, inscrições epigrafadas de passagens bíblicas, menções a fragmentos da lavra de romancistas, poetas e outros intelectuais do Ceará, do Brasil e do inteiro orbe escritural, incluindo o molde literário humano Horácio Dídimo, Miguel Ângelo de Azevedo – o Nirez, São João da Cruz, Rachel de Queirós et multi alii. 

Ao manobrar de tal maneira, concedeu um teor mais real e denso e ameno e distinto e vigoroso e donairoso ao livro, à luz do farol harmônico e integral da peça, uma vez que o complexo de quadras e trísticos, haja vista sua precisão em dignidade e elegância estética, está absolutamente desnecessitado de inclusões com o intento de lhe ajuntar e completar valor. 

Peculiaridade proveitosa, também, cursa nesta edição, configurada no fazimento de versos base com arrimo em concertos musicados ao lavradio de compositores brasileiros, conduta coberta de urbanidade e indicadora da valorização e benquerença de Luciano Dídimo em relação aos mentores de joias do cancioneiro nacional, com a honrosa e reta manifestação do seu reconhecimento, disposto na condição de intelectual, distinto da imensa cópia popular. 

O polido agente de A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade – neste passo atreito aos propósitos de consultantes avezados à sensibilidade poética – ao concertar suas harmonizações, reflete semelhantemente ao acerado e zombeteiro intelectual franco, François-Marie Arouet, dito Voltaire (in Dicionário da Sabedoria. São Paulo: Fittipaldi – 1985, vol. 3, decodificação livre e com acréscimos), o qual, ao se enjeitar aqui suas acerbas maledicências ao Cristianismo, alcança a poesia como humanamente necessária, pois quem não aprecia versos detém o desalento, um espírito áspero e carregado, uma vez que os modelos versíficos estampam a música da alma. 

Fazendo-se adições à conjectura do principal componente da parede intitulada Jovem Alemanha (Junges Deutschland), Lwdwig Börne (1786-1837, Ibidem), há de se entender, por conseguinte, segundo reflete seguramente, também, o trovador Luciano Dídimo, que, caso não houvesse inspiração, a vida não iria além de uma chaga icorosa, vez por outra sanguinolenta. As balizas métricas, plenas de dons, malgrado os males que devem ser denegados, nos outorgam o surripiado pela Mater Natura: autorizam-nos a vivência de um tempo áureo, que não envelhece, e a nós transfere uma felicidade sem nuvens e um verdor eterno. 

Por via da coerência, não se descortina nada capaz de ser verazmente poético, se não for plenificado de autenticidade, à maneira do conteúdo encantador, recheado de graça do Rosa Cinzenta Sonetos de Interioridade, ora disposto ao exame da imensa aleia admirante do alevantado conjunto manifesto pelo corpo arguto e a razão diserta do comentado sonetista. 

Despeje-se na observação, preclaro consulente! 

Fortaleza, fevereiro de 2026.


ENSAIO - Formação Humana Entre Disciplina, Intemporalidade e Tempo Social (LRF)

 FORMAÇÃO HUMANA
ENTRE DISCIPLINA,
INTERIORIDADE
E TEMPO SOCIAL
Luiz Rego Filho*

 

Um ensaio técnico-filosófico a partir de Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico De Masi


1. Introdução 

O debate contemporâneo sobre educação, trabalho e sentido da vida humana encontra-se marcado por paradoxos profundos: nunca houve tanto acesso à informação, e nunca se observou tamanha fragilidade da atenção; nunca se produziu tanto, e nunca se discutiu tanto o esgotamento humano; nunca se falou tanto em bem-estar, e nunca se registrou tamanho vazio existencial. Nesse cenário, o diálogo hipotético entre Pierluigi Piazzi, Monir Nasser e Domenico De Masi permite iluminar, por contraste e convergência, os limites estruturais do modelo civilizatório vigente. 

Embora oriundos de campos distintos – pedagogia, ensaísmo filosófico e sociologia do trabalho – os três compartilham uma crítica comum à superficialidade contemporânea, ao culto da facilidade e à dissolução do tempo formativo. Este ensaio propõe analisar as incoerências aparentes, as afinidades profundas e a síntese possível entre esses pensamentos, sustentando que sua convergência aponta para um projeto integrado de formação humana no pós-produtivismo. 


2. Educação como tensão formativa: o núcleo do pensamento de Piazzi 

Pierluigi Piazzi construiu sua crítica educacional a partir da rejeição da pedagogia permissiva e do que denominou, em diversos textos e palestras, de infantilização prolongada do sujeito moderno. Para o autor, aprender não é um processo naturalmente prazeroso, mas um exercício de enfrentamento cognitivo e emocional, no qual a frustração exerce papel estruturante (PIAZZI, 2007). 

Segundo Piazzi, o cérebro humano se desenvolve mediante treino deliberado, repetição e esforço continuado, sendo prejudicado pela gratificação imediata e pela cultura do entretenimento permanente (PIAZZI, 2008). Essa posição o coloca frontalmente contra modelos educacionais que transformam o aluno em cliente e a escola em prestadora de serviços de conforto emocional. 

Do ponto de vista filosófico, Piazzi sustenta uma antropologia implícita: o ser humano não nasce pronto, tampouco eticamente estruturado. A educação, nesse sentido, é um processo civilizatório que exige limites, autoridade legítima e responsabilidade compartilhada entre família e escola. Sem essas balizas, o que emerge não é liberdade, mas dispersão. 


3. Interioridade e resistência ao espírito do tempo em Monir Nasser

Em contraste com a dimensão institucional da obra de Piazzi, Monir Nasser desenvolve uma crítica radical à modernidade a partir da experiência interior. Seus textos recusam a lógica da produtividade, da aceleração e da visibilidade, operando deliberadamente à margem do circuito acadêmico e mercadológico (NASSER, 2012).

Para Nasser, a crise contemporânea não é apenas educacional ou econômica, mas ontológica. A substituição do silêncio pelo ruído, da contemplação pela estimulação contínua e da sabedoria pela informação gera um empobrecimento da experiência humana. Em suas reflexões, a educação moderna fracassa não por excesso de rigor, mas por ausência de profundidade. 

O autor rejeita tanto a pedagogia utilitarista quanto os projetos de engenharia social otimistas. A formação humana, em sua perspectiva, passa pela aceitação da finitude, pelo enfrentamento da solidão e pela recuperação de uma relação não instrumental com o tempo (NASSER, 2016). Trata-se de uma educação que não visa adequar o indivíduo ao sistema, mas preservar sua interioridade diante dele.


4. Tempo, trabalho e criatividade em Domenico De Mais 

Domenico De Masi introduz no debate uma dimensão estrutural: a organização social do trabalho e do tempo. Seu conceito de ócio criativo propõe superar a dicotomia entre trabalho, estudo e lazer, defendendo que a criatividade emerge precisamente da interpenetração dessas esferas (DE MASI, 2000). 

O sociólogo critica a centralidade absoluta do emprego na definição da identidade humana e alerta para os efeitos patológicos da cultura do hipertrabalho, como burnout, alienação e perda de sentido. Para De Masi, o avanço tecnológico deveria liberar tempo humano para atividades intelectuais, artísticas e relacionais, e não intensificar a exploração (DE MASI, 2014). 

Entretanto, o autor reconhece – ainda que nem sempre com a devida ênfase – que o ócio criativo exige formação cultural sólida. Sem educação intelectual e ética, o tempo livre tende a ser colonizado pelo consumo passivo, convertendo-se em vazio existencial ou entretenimento alienante. 


5. Incoerências aparentes e conflitos reais

À primeira vista, os três pensadores parecem inconciliáveis. Piazzi desconfia do ócio; De Masi o valoriza. Monir Nasser rejeita projetos institucionais; Piazzi atua diretamente neles. De Masi acredita em reorganização social; Nasser suspeita de qualquer promessa redentora da técnica ou da política.

Contudo, essas tensões não configuram contradições insolúveis, mas níveis distintos de análise. Piazzi opera no plano da formação cognitiva e ética; Nasser, no plano da existência; De Masi, no plano da estrutura social. O conflito surge quando um nível pretende substituir os demais.


6. Afinidades estruturais: o que os une

Apesar das diferenças, os três convergem em pontos fundamentais:

 

a)    Crítica à cultura da facilidade – seja na educação (Piazzi), na vida interior (Nasser) ou no trabalho (De Masi); 

b) Defesa do tempo lento como condição de aprendizado, pensamento e criação; 

c)  Rejeição do entretenimento como substituto do sentido; 

d) Centralidade da formação humana, e não apenas da performance econômica.

Essas afinidades revelam uma crítica comum ao paradigma produtivista, ainda que expressa em linguagens distintas. 


7. Síntese possível: um projeto integrado de formação humana 

Se reunidos, Piazzi, Nasser e De Masi dificilmente produziriam um manual pedagógico ou um plano de políticas públicas convencional. O resultado mais plausível seria um manifesto técnico-filosófico sustentado por três pilares:

 

1.  Disciplina formativa (Piazzi): sem esforço, não há estrutura cognitiva nem ética;

 

2. Interioridade e silêncio (Nasser): sem profundidade, a disciplina degenera em adestramento;

 

3. Reorganização do tempo social (De Masi): sem tempo livre qualificado, caráter e interioridade não se sustentam. 

Essa síntese aponta para uma educação exigente, uma vida interior preservada e uma sociedade que não sacrifique o humano à produtividade. 


8. Considerações finais 

A crise contemporânea não é resolvida por mais estímulos, mais flexibilidade ou mais eficiência. Ela exige formação, sentido e tempo. O diálogo implícito entre Piazzi, Nasser e De Masi revela que a superação do esgotamento civilizatório depende menos de soluções fáceis e mais de uma reconciliação entre disciplina, profundidade e liberdade temporal.

Trata-se, em última instância, de recolocar a pergunta fundamental que a modernidade tentou silenciar: para que, afinal, educamos, trabalhamos e vivemos? 


Referências (ABNT) 

DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. 

DE MASI, Domenico. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2014. 

NASSER, Monir. O vazio e o silêncio. São Paulo: É Realizações, 2012. 

NASSER, Monir. A perda do sentido. São Paulo: É Realizações, 2016. 

PIAZZI, Pierluigi. Os filhos que não dão certo. São Paulo: Aleph, 2007. 

PIAZZI, Pierluigi. O sucesso escolar não é um jogo. São Paulo: Aleph, 2008.