sexta-feira, 25 de setembro de 2026

ARTIGO - A Bucha (LRF)

 A Bucha,
ou o
segredo que
envelheceu nas Arcadas
Luiz Rego Filho*
 

Não sei se o leitor já reparou que os túmulos, quando postos no lugar errado, falam mais que os vivos. Um morto no cemitério é apenas um morto; mas um morto no pátio de uma Faculdade de Direito é já uma tese, uma suspeita, uma jurisprudência.

Assim sucede com Júlio Frank, professor alemão, protestante erudito, sepultado no pátio menor das Arcadas, em São Paulo, onde ainda hoje o mármore parece assistir às aulas, às promoções, às nomeações e às esperanças dos rapazes que ali entram com livros debaixo do braço e saem, não raro, com o Estado debaixo da capa. 

A Faculdade de Direito da USP registra que Frank, nascido em Gotha, em 1808, foi professor do Curso Anexo, contratou-se em 1834, tornou-se figura lendária entre os estudantes e fundou, com alguns deles, uma sociedade secreta de auxílio estudantil e difusão de ideias liberais, conhecida como Bucha (FACULDADE DE DIREITO DA USP, [s.d.]). 

Chamava-se, no alemão universitário, Burschenschaft, isto é, sociedade de jovens, irmandade estudantil, confraria de rapazes. Como tudo que vem de longe se aclimata mal e bem nos trópicos, a palavra comprida encolheu, perdeu consoantes, ganhou malícia brasileira e ficou “Bucha”. 

Gustavo Barroso grafa “Burschenchaft” e diz que os estudantes e o povo a chamavam simplesmente assim: Bucha. Acrescenta, com a pena carregada de suspeita, que ela teria sido “dona da província paulista” e “senhora dos destinos do Brasil” (BARROSO, 1993a). 

Aqui convém abrir a janela, leitor. Entra ar, mas entra também dúvida. Barroso escreveu a sua História Secreta do Brasil como quem levanta o tapete da sala e encontra, não pó, mas serpentes. Viu maçonarias, iluminismos, carbonários, judeus, positivistas, bucheiros, todos atados num mesmo novelo. 

A obra tem documentação, tem memória, tem rumores; tem também preconceitos violentos e interpretações que a história posterior não pode aceitar como sentença. Sirva-nos, pois, Barroso, como fonte de acusação, não como cartório da verdade absoluta. 

E que acusação fazia ele? Primeira: que a Bucha não era mera sociedade de socorro a estudantes pobres. O auxílio existia, sim; era o rosto caridoso. Mas, por trás dele, segundo Barroso, havia recrutamento, juramento, disciplina, silêncio, promoção de membros, obstrução dos independentes e uma política subterrânea capaz de fazer carreiras. 

No volume 2, ao tratar da “semente do bacharelado”, ele afirma que certos moços menos estudiosos e menos capazes figuravam mais do que outros de valor real, por pertencerem ao círculo oculto, e que a Justiça brasileira teria sido desviada dos interesses superiores da própria Justiça para os interesses de um poder secreto (BARROSO, 1991). 

Segunda acusação: que o fundador, Júlio Frank, não seria Júlio Frank. Seria, segundo Barroso, Karl Ludwig Sand, o estudante alemão que assassinou August von Kotzebue em 1819. Barroso ajunta idades, viagens, silêncios, fugas, rumores de antigos bucheiros, manuscritos de campanha contra Napoleão, e daí conclui que Frank teria chegado ao Brasil com identidade encoberta (BARROSO, 1993a). 

Mas a historiografia mais segura corrige o romancista da suspeita: documentos alemães, como registro de batismo em Gotha, e carta à Universidade de Göttingen, apontam para Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, nascido em 1808, o que torna muito frágil a identificação com Sand, oficialmente executado em 1820 (CARVALHO, 2007). 

A terceira acusação é ainda mais grave: a Bucha, nascida na mocidade, teria envelhecido no poder. O mini-documento anexado descreve a sociedade como uma cadeia de privilégios, com hierarquia de catecúmenos, crentes, apóstolos e, acima ou atrás deles, os invisíveis – ex-alunos já postos nas magistraturas, nos governos, nos bancos, nos escritórios, nas presidências, nos conselhos e nos salões onde a República toma café sem ata (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]). 

Dizia-se que o lema latino era Fiducia, Libertas, Amicitia: confiança, liberdade e amizade. Bonitas palavras, dessas que cabem em vitral, brasão ou discurso de paraninfo. Mas a crônica, que é prima magra da história, sabe que as palavras bonitas às vezes usam luvas. A amizade, ali, cobraria silêncio; a liberdade, obediência; a confiança, reciprocidade de cargos. Se o irmão estivesse em apuros, defendia-se o irmão; se precisasse de cargo, abria-se a porta; se traísse a ordem, vinha o ostracismo, isto é, a morte civil sem atestado de óbito (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]). 

Vede agora como uma sociedade estudantil pode tornar-se uma repartição invisível do destino. Entrava o moço, não por inscrição, mas por escolha. Era observado. Media-se-lhe a ambição, a discrição, a docilidade, o talento e, sobretudo, a utilidade futura. Passado o primeiro crivo, vinha o padrinho, o juramento, a incorporação ao corpo secreto. O rapaz cuidava que entrara numa fraternidade; talvez tivesse ingressado numa carreira paralela. O que para o pobre era auxílio, para o ambicioso era passaporte, e para o Estado, perigo. 

Não admira, pois, que a Bucha apareça sempre à beira das coisas grandes. O artigo do Sesc-SP lembra que a organização teve papel relevante na formação da elite dirigente, que membros seus estiveram na Convenção Republicana de Itu, que nomes como Campos Salles, Francisco Glicério, Américo de Campos e Rangel Pestana aparecem associados ao republicanismo paulista, e que, no Governo Provisório da República, Ruy Barbosa, Campos Salles e Quintino Bocaiúva são apontados como bucheiros (CARVALHO, 2007). 

O mesmo levantamento inclui, entre presidentes ligados à tradição bucheira, Prudente de Moraes, Campos Salles, Rodrigues Alves, Washington Luís, Júlio Prestes, Afonso Pena, Wenceslau Braz e Arthur Bernardes (CARVALHO, 2007). 

O leitor dirá: “Mas então a República Velha foi uma assembleia da Bucha?” Não sejamos tão apressados. A história não gosta de cadeados únicos para portas múltiplas. A economia do café, o federalismo oligárquico, a política dos governadores, o coronelismo, a fragilidade eleitoral, os pactos regionais, tudo isso existiu. Mas a Bucha, segundo os textos examinados, teria sido um mecanismo de seleção e reprodução de quadros, uma máquina discreta de promoção de bacharéis, uma espécie de filtro das Arcadas pelo qual passavam os nomes destinados a sentar-se nos tribunais, ministérios, governos e redações. 

Barroso, no volume 4, vai além. Afirma que as gerações educadas pela Bucha, fundada por Júlio Frank no início da Regência ou no fim do Primeiro Reinado, chegaram afinal ao poder, e associa a ela, com linguagem apocalíptica, a queda do Império, a corrupção republicana, quarteladas, pronunciamentos, 1924, 1930, 1932 e 1935 (BARROSO, 1993b). Aqui, outra vez, convém separar o fato da febre. Que as Arcadas formaram grande parte da elite republicana é fato; que todos os males nacionais caibam numa só gaveta secreta é excesso de polemista. 

O mini-documento prossegue com a hipótese moderna: a Bucha teria enfraquecido depois de 1930, quando Getúlio Vargas golpeou o coração das oligarquias paulistas; mas, em vez de morrer, teria transmutado-se. Deixaria os porões, as velas, as senhas em alemão, e passaria aos jantares fechados, associações de antigos alunos, conselhos, escritórios, clubes, grupos discretos, indicações profissionais e esse brasileiríssimo sacramento chamado QI – quem indica (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]). 

É um diagnóstico plausível, desde que não se venda como prova o que ainda é interpretação. A Bucha formal pode ter desaparecido; o bucheirismo social, isto é, a cultura de pertencimento fechado, proteção mútua e promoção endógena, pode sobreviver muito bem sem ata, sem capuz, sem caveira e sem juramento. Aliás, o segredo moderno é mais eficaz quando deixa de parecer segredo. Ninguém precisa esconder uma chave quando todos chamam a fechadura de tradição. 

O Sesc-SP registra que, em 1930, a Bucha sai da cena política e, no ano seguinte, surge a Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, voltada à preservação das tradições acadêmicas; também registra a incerteza sobre a continuidade da Bucha depois disso (CARVALHO, 2007). 

Portanto, o diagnóstico honesto é este: não há prova suficiente, nos textos examinados, de que exista hoje uma sociedade secreta formal chamada Bucha operando como ordem organizada; há, sim, fortes indícios históricos e sociológicos de permanência de redes de elite, fechadas, seletivas e influentes, derivadas da tradição das Arcadas. 

E o prognóstico? O prognóstico é machadiano, isto é, desconfiado. Enquanto o Brasil confundir mérito com sobrenome, concurso com padrinho, currículo com pertencimento, independência com isolamento e instituição com clube, a Bucha continuará existindo, ainda que morta. Existirá como fantasma administrativo, como etiqueta de salão, como telefonema oportuno, como convite para jantar, como vaga que já tinha dono antes do edital, como parecer que nasce pronto, como amizade que abre a porta antes que o candidato bata. 

O mal que fez – ou que simboliza ter feito – pode ser contado em oito pecados republicanos. Primeiro, corrompeu a ideia de mérito, porque substituiu capacidade por filiação. Segundo, desigualou as oportunidades, pois o estudante livre competia com o estudante apadrinhado. Terceiro, capturou carreiras públicas, especialmente as jurídicas, onde a aparência de neutralidade é tão necessária quanto a toga. Quarto, misturou interesse público e lealdade privada. Quinto, alimentou oligarquias, dando verniz acadêmico à política de grupos. Sexto, produziu silêncio, que é a forma educada da cumplicidade. Sétimo, enfraqueceu a confiança social, pois o povo passa a suspeitar que a Justiça, a política e a universidade obedecem a salas onde ele nunca entrará. Oitavo, ensinou ao Brasil uma pedagogia amarga: a de que o mundo não é movido apenas pelo esforço, mas pelo pertencimento. 

Eis, leitor, a Bucha: não a esponja da cozinha, mas a que enxuga nomes; não a bucha do canhão, mas a que prepara disparos silenciosos; não a bucha vegetal, mas uma trepadeira social, nascida à sombra de um túmulo e crescida nas paredes do Estado. Foi sociedade? Foi. Foi filantrópica? Também. Foi liberal? Disse sê-lo. Foi rede de privilégios? Muitos indícios apontam que sim. Ainda existe? Como ordem formal, não se prova; como espírito de casta, seria ingenuidade enterrá-la. 

E quanto a Júlio Frank, deixemo-lo no pátio menor, com sua pedra e seu mistério. A História oficial lhe dá Gotha, 1808, magistério, pobreza, protestantismo, túmulo insólito e juventude fascinada (FACULDADE DE DIREITO DA USP, [s.d.]; CAMPOS NETO, 2003). 

Barroso lhe dá Sand, crime, fuga, máscara e sombra (BARROSO, 1993a). Entre uma e outra versão, a prudência recomenda ficar com os documentos, sem perder de vista o fascínio do mito. Porque, no Brasil, meu caro leitor, há mortos que descansam; e há mortos que fazem carreira. 

Referências 

BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil. v. 2. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora, 1991. 

BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil. v. 3. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora, 1993. 

BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil. v. 4. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora, 1993. 

BURSCHENSCHAFT PAULISTA: a sociedade secreta que moldou o Brasil: mini-doc. [S.l.: s.n.], [s.d.]. Documento digital fornecido pelo usuário. 

CAMPOS NETO, Antonio Augusto Machado de. Júlio Frank’s Memory. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 98, p. 713-724, 2003. Disponível em: https://revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67613. Acesso em: 24 maio 2026. 

CARVALHO, Herbert. A herança liberal de Júlio Frank. Revista Problemas Brasileiros, Sesc-SP, 27 jun. 2007. Disponível em:

https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/4330_A%2BHERANCA%2BLIB ERAL%2BDE%2BJULIO%2BFRANK. Acesso em: 24 maio 2026. 

FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Elementos agregados à arquitetura. São Paulo: FDUSP, [s.d.]. Disponível em: https://direito.usp.br/patrimonio-historico/1456ea1f9571-elementos-agregados-a-arquitetura. Acesso em: 24 maio 2026.

(Imagens da Wikipedia)


POEMA - Colírio Bíblico (VM)

 Colírio Bíblico
Vianney Mesquita*

       

Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da trave que está em seu olho? (Bíblia. Mateus, 7. 3-14).

 

 

Guarda ele o vezo de bater no alheio
Embora configure o transgressor,
Mesmo hominídeo feito um infrator,
Jamais na má conduta impôs um freio.
 
Transportador de hábito tão feio
Agora ao escurecido do amargor
Não enjeita afastar o deslouvor
Em um ensejo que, indulgente, veio.
 
Cumpre, de efeito, em dita circunstância,
Livrar-se desta ordem à própria instância,
Posto ao reboque de ínferos escolhos;
 
Enceguecendo o cisco do vizinho,
De vez repudiar tal desalinho
E a viga escritural sacar dos olhos.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

NOTA ACADÊMICA - Arcádia Alencarina - 11ª Reunião


 ARCÁDIA 
ALENCARINA

DÉCIMA PRIMEIRA
REUNIÃO

 

A undécima reunião dos fardonados, na Sala Irmãos Ximenes, na noite desta terça-feira, dia 22 de setembro, teria sido boa... se não tivesse sido ótima. 


Começou com o árcade que é patrono da Sala, o falecido poeta Paulo Ximenes, anunciando aquela sessão em vídeo, produzido por IA, da lavra do confrade George Tabatinga.



O quórum severamente apertado deu azo a outros improvisos criativos, com o Dr. Nonato de Castro assumindo ad hoc a Presidência Emérita, na justificada ausência do titular Rui Martinho Rodrigues, enquanto o Presidente da ACLJ resolveu que fará a condução dos eventos da entidade doravante, já que a intensa agenda social do seu tradicional Mestre de Cerimônia passou o incompatibilizá-lo com a função.

 

   


O Presidente pediu à Ana Paula que exibisse na tela o belo trailer da 2ª Reunião da Entidade, realizada no dia 05 de setembro de 2023, elaborado pela Cira Leona. Apontou as coincidências cabalísticas que aquele vídeo apresenta, e, em seguida, comparou com a atualidade três parágrafos proféticos do discurso que ele proferiu naquela data, sobre o governo petista que então principiava.

ACIONE O LINK

https://youtu.be/3m7WrSkIe9s?feature=shared 


A palavra foi então franqueada e diversos assuntos culturais foram tratados, sendo lidas peças literárias autorais. Falaram George Tabatinga, Roberto Bomfim, Luciara Aragão, Nonato de Castro, e o Membro Correspondente no Rio de Janeiro, Wagner Coelho. 

O Presidente voltou ao momentoso tema da inteligência artificial, arte do especialista carioca Noaci Teixeira, convidado à Tenda Árabe na terça-feira anterior, o maior experto em computação deste Estado, pessoa que foi submetida a uma dura  saga pessoal, galhardamente superada, pela sua resiliência moral e devoção religiosa. 


No final ouviu-se um belíssimo samba composto artificialmente pelo confrade Pedro Araújo, com letra de cunho filosófico – um perfeito casamento entre a alegria daquele gênero musical com a delicadeza do poema musicado – “Voz da Consciência”.


ACIONE O LINK

https://drive.google.com/file/d/1EFA3pz7sOOJlqIPLtufcL9lAUH5T-m50/view?usp=sharing 



A reunião foi apoteoticamente encerrada com a execução do Hino Nacional, fervorosamente entoado por todos, seguido do tradicional brinde com vinho do Porto. 




O jantar na Tenda Árabe, desta vez um sápido e substancioso creme de batatas e ossobuco, feito e servido em panela de barro, guarnecido com fatias do excelente pão-do-mestre.

    

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CRÔNICA - Do Pó ao Pó e Um Agrônomo do Centro (LRF)

 DO PÓ AO PÓ, COM SUOR NO MEIO
(E UM AGRÔNOMO NO CENTRO)
Luis Rego Filho*

Quia pulvis es et in pulverem reverteris II  
“Ad locum revertere”.
 

No princípio era o pó. Depois veio o homem. Depois veio o suor. E, logo em seguida, veio o engenheiro agrônomo para explicar a reação química – no caso, eu, modestamente metido até o tornozelo nesse destino universal. A Bíblia, sempre econômica e certeira, resolveu a biografia humana em meia linha: “és pó e ao pó tornarás.” Não especificou se haveria estágio probatório, nem progressão funcional, nem gratificação por insalubridade existencial. Apenas decretou. O texto é tão sucinto que parece despacho de repartição celestial. 

O que a Escritura não detalha – talvez por economia de pergaminho – é que entre o pó inicial e o pó final existe o suor intermediário. E é justamente aí que entro eu, engenheiro agrônomo, profissão que consiste basicamente em explicar para os outros aquilo que a terra já sabe desde o período Devoniano. Porque o suor humano, essa água salgada que brota do esforço, não é só testemunho moral do trabalho: é solução eletrolítica em estado de poesia. Quando cai no chão, não evapora filosoficamente; reage cientificamente. Troca íons com argilas, negocia com minerais, conversa com microrganismos. O sódio cochicha com o cálcio, o potássio flerta com o magnésio, e o solo, que é um anfitrião paciente, registra tudo em sua contabilidade coloidal. 

Eu passo o dia estudando essas conversas subterrâneas. Enquanto o cidadão comum pensa que está apenas suando, eu sei que ele está participando de um simpósio geoquímico. Cada gota que escorre de uma testa humana é uma carta de recomendação enviada ao subsolo: “Segue pequeno lote de nutrientes, favor reincorporar ao sistema”. 

Há profissões que lidam com cifras, outras com leis, outras com pessoas. A minha lida com partículas. Sou uma espécie de tradutor simultâneo entre o mundo mineral e o mundo vivo. Traduzo o idioma do cálcio para o dialeto da raiz, interpreto a gramática do nitrato para a sintaxe da folha. Em termos mais diretos: explico ao pó por que ele ainda é gente e explico à gente por que ela já é um pouco pó. 

É inevitável que, exercendo esse ofício, a gente adquira uma certa intimidade com o destino. Enquanto alguns temem o fim, eu o analiso em laboratório. Outros escrevem testamentos; eu escrevo laudos de fertilidade. Para muitos, a palavra “mineralização” é metáfora. Para mim, é rotina. 

Descobri, aliás, que a natureza é o único sistema realmente organizado que já existiu. Nada se perde, tudo se troca, tudo se recicla. O homem sua, o suor nutre o solo, o solo nutre a planta, a planta nutre o homem, e o homem volta a suar – um circuito fechado mais eficiente que qualquer política pública. A Terra não desperdiça nem lágrima. 

No fundo, a engenharia agronômica é a arte de acompanhar esse vai-e-vem sem atrapalhar. Não criamos o ciclo; apenas tentamos não estragar o mecanismo. Somos fiscais discretos do casamento entre a química e a vida. Se der certo, colheita. Se der errado, relatório. 

E assim sigo, profissionalmente envolvido com o destino universal, observando com certo orgulho técnico que a sentença bíblica não é só teológica – é pedológica. O homem veio do pó, voltará ao pó, e durante o intervalo presta consultoria involuntária ao solo através das glândulas sudoríparas. 

Moral quase científica: o ser humano é um fertilizante em estágio provisório. 

Quanto a mim, aceito serenamente. Afinal, quando chegar a hora final, estarei apenas mudando de função – de engenheiro agrônomo para componente do horizonte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

QUADRÍPTICO LITERÁRIO - (FSNF)

 QUADRÍPTICO LITERÁRIO
(Mote: Habilidade Natural – HN)
Sousa Nunes*

 

Somente o influxo da arte comunica durabilidade à escrita. Só ele marmoriza o papel, transformando a pena em escopro. (RUI BARBOSA DE OLIVEIRA. Salvador, 5.11.1849; Petrópolis, 1.3.1923).


Notações do Editor da Vernáculo 

Well Moraes

   

Esta conjunção de quatro breves textos foi procedida com base em publicações efetuadas, em conexão com a internet, em órgãos distintos e com arrimo na dicção da inventiva de Vianney Mesquita,  conforme à frente mencionada --, a fim de se mostrar na Vernáculo – revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa - o acolhimento, favorável à ideação do produtor da seção de abertura deste quadríptico linguístico, da parte de três paredros da Codificação Lusitana aqui em Fortaleza, conforme consta à continuação. 

O tema concerne à opinião ali expressa, contraposta à noção de Inteligência Artificial (hoje sob exagerado crédito e, muitas vezes, erroneamente empregada) Habilidade Natural – novel dicção originada do seu autor, partícipe dos quadros da mencionada ACLP, conforme o são os assinantes das peças três e quatro. Entrementes, o escritor, cearense de renome, Reginaldo Vasconcelos, Presidente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, responde pela seção 2 deste pequeno complexo textual. 

 

1 Habilidade Natural - HN

Vianney Mesquita

        


                

 Seja qual for a linguagem que empregares, somente aplicarás o que és. (RALPH WALDO EMERSON – escritor e filósofo estadunidense. Boston, 25.5.1803; Concord, 27.4.1852)

       

Em razão de entender como absolutamente necessário, acho oportuno declarar que, nas escritas por mim produzidas e publicizadas, onde quer que o sejam, somente recorro à HABILIDADE NATURAL – HN, com suporte em estudos efetivados em estabelecimentos escolares amparados pela legislação nacional, por intermédio de pessoas afeitas a matérias diversas, em universidades e ambientes de prova (laboratórios, exempli gratia), bem como em informações obtidas com amparo na autodidaxia praticada à extensão da experiência.  

Em adição – e esta é a ocasião de o atestar – ao fazer menção a obras e ideações doutros produtores desses bens, como instituições e órgãos semelhados, procedo às notações bibliográficas das quais me vali, consoante as ordenações legais do País, em particular, do direito autoral, inclusas as preceituações da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. 

Entendo que, à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – IA, conquanto seja magnificamente aditada no tempo fluente, porém com estremas de emprego, só é factível de a ela se socorrer em situação de dúvidas as mais diversas – por exemplo, de natureza histórica – conforme se procede com as consultas a dicionários, volumes gramaticais e correlatos. 

Assim, toda escrita e qualquer produto editorial assente na IA e não na HN, embora, como divisado hodiernamente, em textos “magnificamente” escritos (às vezes com 90 por cento de “auxílio” da IA e não pelos autores), deixa de retratar intenção e SABER NOVO, no entanto, somente repetição do que já se encontra exprimido em achados naturais e descobertas de investigadores, quer em tempos recentes ou em períodos mais transatos.  

Conquanto o pensamento ora exposto seja suscetível de contestação do lado de quase cem por cento da comunidade leitora nos países de Língua Portuguesa, a mim não me custa o conduzir pela via deste meio de propagação coletiva, de sorte a conformar até obrigação o ato de exteriorizá-lo.

 

2 Nova Expressão – Habilidade Natural

Reginaldo Vasconcelos

     


  
A língua é o trajo do pensamento. (SAMUEL JOHNSON – escritor britânico. Lichfield, 18.9.1709; Londres, 13.12.1784)             

 

Na manhã de 21 de agosto de 2026, telefonou-me o confrade Stênio Pimentel, demonstrando-se ainda assente na disciplina rígida da sua formação de “homem do mar”, que militou na Armada do Brasil, na fase áurea da sua juventude. 

Ele ainda está afeito à formalidade de quem, na maturidade, foi longamente enquadrado nos rigores funcionais da administração bancária, exercida em várias instituições financeiras, nacionais e estrangeiras.  

Ligou, então, para, em posição de sentido e em continência, comunicar a este Presidente haver aplicado um neologismo autoral em mensagem que postou no nosso Grupo de WhatsApp. 

Explicou que a palavra por ele aplicada, dirigindo-se carinhosamente a um coirmão da entidade, não repousa nos dicionários do idioma português, e que, portanto, ainda não está abonada pela lexicografia nacional.  

Esse telefonema e o seu teor, por uma coincidência magnífica, tangenciam o texto do dia anterior, remetido ao Blog pelo Professor Vianney Mesquita, um terceiro confrade, o maior experto em linguística românica da nossa Academia. 

No seu artigo Habilidade Natural, o Mestre Vianney inaugura essa expressão (HN), fazendo um contraponto à novel “Inteligência Artificial” (IA), e frisando que não a aplica na sua lavra literária, porque segue o próprio cabedal intelectual, citando as fontes dos estudos que empreende.  

Os dois abordam aspectos semelhantes, mas distintos, quando Vianney propugna pelo uso clássico da língua, ainda que de forma original e criativa, enquanto o Stênio revela que os dicionários são fontes relativas de consulta, já que apenas reúnem termos encontradiços em obras gráficas que os lexicógrafos coligiram.  

Assim, as edições dicionárias, analogicamente, são como papagaios que aprenderam e registram muitos verbetes, que se atualizam em novas edições – como outros louros que aprendam a falar. Se, porém, os vocábulos elencados estão corretamente escritos e aplicados, só os filólogos o dirão.  

Criar neologismos, com efeito, é perfeitamente permitido aos redatores cultos que precisem suprir lacunas semânticas no idioma que dominam, a bem da clareza, da sintonia fina da retórica e do discurso, DESDE QUE aplicando radicais condizentes com o latim, o grego, o árabe e com a gramática primordial do idioma. 

Vianney Mesquita, por seu turno, expressa nas entrelinhas que a IA tem sabença de textos alheios de que vai sendo informada e de que se vai apropriando, para aplicar combinações mais ou menos coerentes, porém não possui sapiência própria para criar fórmulas de dizer de maneira bela e correta, inovando artisticamente ao comunicar a humana cerebração, que é insuperável.  

       

3 A propósito da Habilidade Natural, 

de Vianney Mesquita       


Ítalo Gurgel     

                        

A língua é uma cidade para cuja construção cada ente humano contribuiu com uma pedra. (R. W. EMERSON)       

 

O texto do Vianney, confrade ilustre e amigo preclaro, distingue-se, desde o título, pela agudeza de uma formulação que contrapõe à Inteligência Artificial a expressão Habilidade Natural — HN, achado vocabular ao mesmo tempo engenhoso e provocador. 

A declaração afronta tema de incontestável atualidade e o faz sob perspectivas particularmente relevantes: a autoria, a honestidade intelectual, a formação do conhecimento, o respeito às fontes e a responsabilidade de quem subscreve e publica um texto. 

Fiel à sua reconhecida erudição e ao zelo que sempre dedicou ao vernáculo, o autor não se limita a registrar uma preferência pessoal: suscita uma reflexão necessária sobre os limites entre o auxílio instrumental e a substituição do trabalho criador. É possível seconcordar ou não, integralmente, com a rígida separação estabelecida entre HN e IA; permanece, contudo, o mérito maior da declaração: lembrar que nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, dispensa o discernimento, a experiência, a consciência ética e a responsabilidade autoral. 

Num tempo em que a tecnologia frequentemente se antecipa à reflexão sobre os próprios efeitos, Vianney traz ao debate uma advertência lúcida, corajosa e oportuna. 

 

4 HABILIDADE NATURAL, de Vianney Mesquita,
e o risco da maquinização do humano

Sousa Nunes

 

A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889 – 26.05.1976).

 

O breve e indispensável artigo do confrade Vianney Mesquita sobre a Habilidade Natural — HN, em face da Inteligência Artificial, é uma defesa da dignidade do ato de pensar. E, vindo de sua lavra, não surpreende que a reflexão se exprima pensada, cogitada e ponderada, numa linguagem primorosa, em que o erudito convive, sem afetação, com a harmonia da língua.  

Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, o que o engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão. 

Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a palavra que a exprima. A época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo, resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação, sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem, estreita-se o próprio mundo interior. 

Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe, de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e contemplativa significa consentir, pouco a pouco, que ocorra uma perigosa maquinização do humano.  

E ocorre-me Manuel Bandeira, no inesquecível “Momento num café” (em Estrela da Manhã, 1936): diante do enterro que passava, todos cumpriam maquinalmente o gesto convencional; apenas um homem interrompeu o automatismo e descobriu-se, por um instante, diante da vida, da morte e do mistério de existir. A palavra decisiva talvez seja esta: maquinalmente. Há o risco de que estejamos ingressando numa civilização que lê automaticamente, escreve instintivamente, responde inconscientemente, e, por fim, vive maquinalmente – unificando as referidas moções comunicativas. 

É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar o próprio pensamento.  

Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o qual não há verdadeira criação.