quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

NOTA ACADÊMICA - Tales Montano Presidente da ACL

 TALES MONTANO
PRESIDENTE
DA
ACL

  

Neste dia 24 de janeiro tomou posse na presidência da Academia Cearense de Letras – a mais antiga do Brasil  o empresário e educador Tales Montano de Sá Cavalcante, em concorrida solenidade no Palácio da Luz – o grande silogeu alencarino.

Tales sucede ao médico e político Lúcio Gonçalo de Alcântara – sucessivamente Deputado Federal, Senador da República, Prefeito da Capital e Governador do Estado, como também ex-presidente do Instituto do Ceará (a nossa mais antiga instituição cultural) – Histórico, Geográfico e Antropológico – e Membro Benemérito da ACLJ.

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) esteve representada oficialmente por seu presidente Reginaldo Vasconcelos e por seu Secretário-Geral Vicente Alencar.

Também estavam presentes, entre os convidados, os Membros Beneméritos José Augusto Bezerra, Presidente Emérito da ACL, e Ricardo Cavalcante, Presidente da Fiec (à esquerda de Cândido Albuquerque) – e o Membro Honorário Ricardo Guilherme, jornalista, poeta, ator e dramaturgo. 


A Mesa de Honra foi composta pelos presidentes transmitente e empossando, Lúcio e Tales, pelo Presidente do Tribunal Regional do Trabalho, Durval Vasconcelos Maia, pelo Deputado Federal Artur Bruno, pelo Presidente do Instituto do Ceará, General Júlio Lima Verde e pelo Magnífico Reitor da Universidade Federal Cândido Albuquerque, Membro Titular Fundador da ACLJ.

 

O grande destaque do evento foram o belo discurso de passagem do cargo proferido pelo Dr. Lúcio Alcântara, e  a fala do empossado Tales de Sá Cavalcante, aplicando uma retórica lúdica e criativa, sem deixar de ser lírica e erudita ao mesmo tempo.

Entre os convivas, o jornalista veterano Lúcio Brasileiro, que detém o recorde mundial de atividade jornalística ininterrupta, militando na imprensa cearense continuamente já há 70 anos. 

Lúcio é Comendatário da ACLJ, que lhe outorgou a Comenda Governador Parsifal Barroso quando de seu Jubileu de Diamante no jornalismo, ao completar 60 anos de profissão, como também lhe agraciou com a Medalha Comunicador Augustos Borges, em 2021.

 

Também disse presente o jornalista e artista plástico Hermínio Castelo Branco, o famoso cartunista Mino, Membro Benemérito da ACLJ, uma das pessoas mais queridas da sociedade cearense. 

Ao receber o troféu Sereia de Outro neste ano, do Sistema Verdes Mares de Comunicação, Mino fez o Teatro José de Alencar lotado explodir em aplausos e vivas carinhosos.

A cerimônia foi organizada pela Diretora Adjunta da ACL, Cláudia Queiroz, e conduzida magistralmente pela Diretora Administrativa Regina Fiúza, como Mestra de Cerimônia (à direita de Ricardo Guilherme). 

À solenidade seguiu-se coquetel, no salão principal do Palácio da Luz, embalado com boa música ao vivo, sob a  coordenação do Maestro Poty Fontenele – Membro Honorário da ACLJ. 

As fotos são do repórter fotográfico Luiz Carlos Moreira, também Membro Honorário da ACLJ.     

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CANÇÃO - Aspiração (AG & MC)

ASPIRAÇÃO
Aluísio Gurgel*
Márcio Catunda*












CRÔNICA - Dedilson (RV)

DEDILSON
Reginaldo Vasconcelos*


Acaba de falecer no Hospital de Messejana o promotor artístico Dedilson Martins”. Este anúncio necrológico, nos caracteres da TV, em pleno horário nobre, fez-me refletir sobre a força de vontade, esse instrumento que move montanhas.

Ecoaram pelo meu ser as palavras de Santo Agostinho: “Muito cuidado com o que você realmente quer, pois é exatamente o que você terá”. Em seguida, chamei ao telefone alguns que haviam conhecido o Dedilson menino, para dividir com eles a perplexidade que sentia.

O povo iletrado do sertão inventa nomes, combinando sílabas que forneçam um som pomposo, quando decidem variar dos tantos Franciscos, Antônios, Joãos, Josés, Raimundos e Pedros. Os pais batizaram Dedilson com esse nome meio estranho, nem Dilson nem Deusdedith, palavra sem história e sem origem etimológica.

Sobre esse nome brotou um rapaz franzino, que dissentia dos demais da prole, rudos lavradores. Moravam em nossas terras, nas fraldas da represa Lima Campos, imensa família em diminuta choupana de dois vãos, água no pode e pertences em sacos, que a mobília era mínima. Uma velha mesa e alguns tamboretes, o fogão a lenha, uma cama de varas, as redes penduradas nas forquilhas, armadas à noite, uma sobre as outras.

Ele era neto da parteira Deolinda, que aparava todos os filhos da pobreza, mas que, dele mesmo não veria algum bisneto, pois não sendo mulher, Dedilson era fêmeo. Ali e então, isto era grave, não só pelos preconceitos do povinho, desinformado sobre os milênios de uranismo que tem registrado a humanidade, mas principalmente porque aquela flor imperfeita seria sempre uma boca a mais e um braço a menos para as lides do roçado. Sua mãe, como é de regra, protegia-o, enquanto os demais se envergonhavam.

Ao ler aquele obituário na tela da Globo chamei logo Dulce Vasconcelos, que na juventude tanto se divertia com os modos do Dedilson. Em férias conosco na fazenda, folgava em conversar com o rapazola nos alpendres, como fossem duas moças. Parece que o vejo magrinho, de camisa “volta ao mundo”, indagando minha jovem tia sobre matérias de revista, sobre moda, sobre artistas.

Nesse tempo, início dos 60, a televisão em preto e branco mal servia à Capital. Naqueles ermos, onde sequer chegava asfalto, não havia luz elétrica e toda a informação vinha pelo rádio, sempre à pilha, raramente portátil. Dedilson queria saber sobre Aila Maria, com quem tia Dulce acusava parentesco, para alimentar o seu encantamento. Ele perguntou-lhe certa vez se a cantora usava “película”, confundido o termo “peruca”, de uso recente, com a palavra tradicional para as fitas de cinema.

Enfim, enquanto os irmãos lutavam contra as secas, Dedilson sonhava com a mídia: os salões da sociedade, os palcos artísticos, as passarelas coloridas. Veio, viu e venceu, dedicando sua vida ao sonho de menino.

Promoveu shows em Fortaleza, organizou desfiles, realizou concursos de beleza, contratando algumas vezes artistas de renome vindos do Sul-Maravilha. Não juntou dinheiro, e muitas vezes, perfeccionista e visionário, tão pouco lhe rendiam as promoções, que afinal não podia cumprir os compromissos.

Certa vez, depois de uma festa que pouco rendera, quase foi espancado pelos músicos. De outra feita, o cantor Aguinaldo Timóteo, contratado por ele, fracassado o show, levou-o às barras da Justiça. Mas Dedilson, vocação imperiosa, pobreza franciscana, não desistia. Até que a doença o prostrou.

Mal curado de tantas mazelas juvenis, inclusive uma tuberculose violenta, os pulmões não mais arejavam suficientemente o corpo raquítico. Silvana Portugal, linda e nobre mulher cuja beleza adolescente ele revelara em seus concursos, solitária e solidariamente prestou-lhe assistência. Sem ter nada de seu, além de um radinho de pilhas sempre à cabeceira, ele fez à amiga um último pedido: não o deixasse “descer à pedra”, a lousa anônima em que se retalham os indigentes nas faculdades de medicina.

A 19 de março de 1985, um dia de São José muito chuvoso, a pobre flor sertaneja, que já murchara, desprendeu-se da haste. Silvana procurou Luciano Monteiro, empresário magnânimo, patrocinador tradicional das festas do Dedilson, que custeou os seus funerais.

No dia seguinte, Ezaclir Aragão, renomado jornalista, que como muitos da imprensa e dos meios publicitários fora amigos do morto, publicou uma crônica comovida e gentil sobre o seu único legado: aquele radinho de pilhas, que no dia de sua morte desaparecera do hospital.


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ

RESENHA - Como Pequenos Doces Socos no Estômago (MB)

 Como pequenos
doces socos
no estômago
Manoela Bacelar* 

 

Sol, sangue e lágrimas no agreste poético de um amor proibido que sobrevive a uma carta lacrada na posta restante do tempo. 


No Século XIX, Ludwig II, rei da Baviera, foi alvo de uma conspiração política. Uma junta médica assinou um relatório sobre sua saúde mental sem sequer examiná-lo. Paranoia, o diagnóstico. Deposto, morreu sob condições desconhecidas aos 41 anos. Não casou, não fez herdeiros. Era amante das artes. Ludwig II era homossexual. 

A história real do remoto monarca europeu toca a história ficcional contemporânea de Raimundo Gaudêncio, personagem principal de “A Palavra que Resta”, romance de estreia do cearense Stênio Gardel (2021, Companhia das Letras), finalista da 64º edição do Prêmio Jabuti.  

Em linguagem de prosa lírica, o autor maneja o léxico particular do nordeste rural brasileiro com a naturalidade de quem viveu as intensidades do sertão físico e simbólico. Está tudo ali. A paisagem, o
patriarcalismo, a dureza do chão e da honra, o não letramento e o desejo a brotar, não impunemente, entre dois rapazes: Gaudêncio e Cícero.Seis letras só, mas cabia tanta coisa que era pesado.”
  

A viagem literária atravessa quatro partes divididas em muitos e curtos capítulos, medida quase-exata de tempo-espaço para nadar e engolir as águas emocionais dos personagens. Braços dados com Gaudêncio, vi os “olhos cor de terra de Cícero lavrando os seus, a moita, a enchente, a farinhada, vi Seu Nonato com a cara virada no cão” quando os flagra no prazer inocente. Senti a quentura do sangue nas costas. Ouvi a mãe: vá embora. 

Eis a encruzilhada humana onde Ludwig II e Gaudêncio encontram-se. Ambos vítimas da violência de estruturas sociais que repudiam as pluralidades do amor. Século XIX, Século XX, Século XXI. 

No caso de Gaudêncio, outras camadas ampliam seu lugar marginal. A falta de escolaridade e a pobreza financeira fazem dele um refugiado na própria terra e não menos refugiado nas dobras da consciência da própria sexualidade. Isso se evidencia nos diálogos internos de medo, culpa, vergonha e raiva do protagonista, cuja voz costura o fluxo narrativo e se alterna, ora à voz de um narrador em 3ª pessoa, ora às vozes de outros personagens. 

A estética narrativa é contundente. Assim como a descoberta do filicídio representado pela cruz enfiada na terra: o avô de Gaudêncio matara o próprio filho por gostar de homem. O “vá embora” da mãe Caetana guarda uma medida de proteção à vida do filho? Quanto de ódio? O açoite do pai Damião é castigo mitigado frente à morte do irmão? Desonra? 

A crueza das cenas criadas por Stênio remete à crueza da poesia de Augusto dos Anjos: a mão que afaga é a mesma que apedreja... a voz que afaga, a voz que afoga. 

Cícero é a neblina de Gaudêncio, como Diadorim e Riobaldo. Mas neblina grossa é a carta. Por imposição do mesmo sistema brutal de exclusão que o expulsara de casa na juventude, Gaudêncio guarda uma carta cinquenta anos, escrita por Cícero. Não pode ler. É analfabeto. 

Após décadas na estrada como ajudante de caminhoneiro, Gaudêncio usa uma máscara social que não lhe cabe mais. A autoclausura de um muro imaginário se despedaça no momento em que ele esfacela a costela de Suzzanný Dinamarka, uma travesti que quase morre pelas mãos de ira e de catarse de Gaudêncio. 

O enredo surpreende com as possibilidades que Suzzanný representa na vida de Gaudêncio. Coragem, bravura e dignidade são virtudes que compõem o mosaico psicológico transfênix da salvadora. 

A obra cuida de tangenciar o conceito de família e a necessidade de sua reconfiguração, tendo o afeto como centralidade. 

Ao contrário do que a realidade fez com Ludwig II, a ficção permite o amadurecimento do nosso sertanejo. Ora com suavidade, ora com brutalidade, sempre com ritmo; como pequenos socos doces no estômago do leitor. 

Gaudêncio aprende a ler e escrever aos 71 anos. “Era o possível mais certo, o encontro mais interessante, esse, a mão, o lápis e a folha de papel.Mas... o que Cícero diz na carta?


sábado, 21 de janeiro de 2023

CRÔNICA - Raiva em Jaguaribe (MMG)

 RAIVA EM JAGUARIBE
Marcos Maia Gurgel*

 

Voltando para minha casa em Limoeiro, nos finais de semana, eu tinha que pegar um ônibus no terminal rodoviário da cidade de Jaguaribe, pontualmente às 17 horas. 

Jaguaribara, onde eu trabalhava, não tinha linha interurbana para Limoeiro, mas ficava muito perto de Jaguaribe – antes de ser reconstruída em outro local, para dar lugar à represa Castanhão. 

Certo sábado, quando cheguei ao terminal rodoviário de Jaguaribe, o ônibus já havia partido. E agora? – pensei comigo mesmo. Sem perspectiva de um novo coletivo naquele dia, fui informado de que na madrugada de domingo haveria uma outra condução, vinda da cidade de Iguatu. 

Mas o que fazer para passar o tempo, sem que eu me entediasse tanto? Lembrei-me de uma opção e a coloquei em prática. Conhecia o juiz da cidade, colega de faculdade em algumas cadeiras do curso de Direito. 

Fui então à sua residência, mas logo tomei conhecimento de que o “Doutor” só estava na comarca durante as terças-feiras. Então, como segunda opção, procurei a tabeliã, uma prima querida, mas soube que, por seu turno, ela não passava os fins de semana na cidade. 

Ocorreu-me, enfim, uma terceira opção: apresentar-me ao dentista mais famoso da cidade, um primo legítimo de meu pai que eu não conhecia ainda. Na garupa do mesmo moto-táxi continuei na minha peregrinação, em busca de um abrigo temporário, mas o colega e primo-segundo viajara com a família. 

Esgotadas as opções voltei à estação rodoviária, triste e resignado, mas lá eu ouvi a propaganda de um carro de som que anunciava um show do Reginaldo Rossi na cidade. 


Fiquei animado. Contratei outro motoqueiro e me mandei para o clube onde o artista cantaria – mas, de novo, a sorte não me ajudou: Reginaldo Rossi cancelara o show – talvez já sabendo do meu drama, completou a minha desdita. 

A estação rodoviária era então o meu porto seguro derradeiro. Voltei para lá, chamei o garçom de um bar interno, pedi um caldo de carne no copo; “e aí, seu guarda!”; dormi no banco público; o ônibus do Iguatu chegou às cinco da manhã. 

Nota bene: Perdoei Jaguaribe, palco dessa raiva passageira, porque é a terra natal da minha saudosa mãe, a flor mais bela no jardim dos meus afetos eternos.


 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

CRÔNICA - Guerra Fria (RV)

GUERRA FRIA
Reginaldo Vasconcelos*

 

O mundo está novamente em guerra fria, com um foco de incêndio entre a Rússia e a Ucrânia. O Brasil está no jogo, em grande convulsão popular neste momento. Mas, pessoalmente eu folgo, porque eu creio que os Céus estão em festa.

 

O Arquiteto do Universo, Deus Supremo, está fundindo o metal bruto que se encrustou na alma humana, para depurar as ligas nobres, processo do qual sairão engradecidas as virtudes áureas e punidas as salsugens do caráter, o refugo, a escória. 

Todas as injustiças parciais serão certamente convertidas em colossais justiçamentos, individuais e coletivos, e a História Universal demonstra que o mal brota, mas não vinga, e se ele viça volta-se ao final contra os poderosos malfeitores. 

Não há notícia nos escaninhos do passado de quem tenha prosperado para sempre praticando iniquidades, pois todos por fim naufragam na própria lama produzida. A forca, a degola, o calabouço do opróbrio são o destino dos facínoras. 

Ninguém triunfa impondo o mal contra a bonança, a mentira contra a verdade, a cupidez e a perfídia sobre os virtuosos predicados. Da violência mongol, contra a qual se fez a muralha, nasceu uma China portentosa, e ao nazi-fascismo sucedeu a pujança da Eurásia e das Américas democráticas. 

Parafraseando o compositor Ivan Lins, “já está escrito, já está previsto, por todas as videntes, pelas cartomantes; está tudo nas cartas, em todas as estrelas, no jogo dos búzios e nas profecias: cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada”.

ARTIGO - O Incêndio do Reichstag (RMR)

 O INCÊNDIO DO REICHSTAG
Rui Martinho Rodrigues*

 

Historiadores divergem sobre a História ser considerada mestra. Epidemiologistas, urbanistas, economistas e militares valorizam o que chamam “lições da História”. Dizem que as epidemias passadas, o desenvolvimento das cidades, as crises econômicas e os sucessos no campo bélico encerram lições preciosas. Os historiadores, porém, não formam consenso sobre isso. Os que retiram lições do passado consideram aspectos específicos da experiência humana. 

Os que negam à História o papel de professora se opõem ao tradicionalismo que pode vir junto com a ideia de História orientadora. Também por entender que historiadores interpretam fatos e atos cujo significado e alcance não pode ser considerado indubitável. Finalmente porque a visão do historiador tende a ter uma abrangência mais ampla do que os estudos específicos de epidemiologistas, urbanistas, economistas, estrategistas e outros estudiosos de áreas específicas.


Olhando para o conjunto da experiência humana é possível vislumbrar altos e baixos, idas e vindas que descaracterizam uma marcha evolutiva no sentido de mudanças com o significado de aperfeiçoamento. Jacques Le Goff (1924 – 2014), na obra “História e Memória”, ressalta a diferença entre a marcha dos acontecimentos no âmbito científico, tecnológico, da organização política e jurídica, de um lado; diversamente das transformações da condição humana. 

A técnica e a tecnologia de fato avançam e o fazem rapidamente, alcançando notáveis aperfeiçoamentos. A ciência também avança no mesmo sentido, porém o faz mais lentamente, considerando-se o largo tempo decorrido entre as poucas revoluções científicas. Os “avanços” dentro de um mesmo paradigma de ciência não seriam propriamente evolução, mas meros complementos do conjunto de referências cognitivas estabelecidas, na visão da escola do racionalismo pós-crítico (Thomas S. Kuhn, na obra “A estrutura das Revoluções Científicas”). 

A organização jurídica e política, por sua vez, não segue uma direção contínua, mas uma linha sinuosa com alternância da direção seguida. Registre-se, ainda, a natureza polêmica do que seria aperfeiçoamento evolutivo no campo jurídico e político, é um juízo permeado por concepções ideológicas e marcado pela divergência do que seja progresso nas relações sociais, embora haja um núcleo consensual concernente a alguns valores. 

Não existe, todavia, um entendimento pacífico quanto ao modo como defendê-los ou protege-los. A ideia de progresso ou avanço, quando se tem uma definição minimamente consensual sobre o que seja tal coisa afasta a ideia de evolução histórica, no sentido de aperfeiçoamento, problematizando o reconhecimento de lição concernente ao que não se define aperfeiçoamento. 

A evolução, no sentido de aperfeiçoamento, deveria, no entendimento de alguns, atender a três requisitos: (i) alcançar uma melhor convivência do indivíduo consigo mesmo, devendo ter menos conflitos íntimos, dependendo menos de ansiolíticos e soníferos, apresentando menores índices de suicídio; (ii) coexistência mais pacífica e mais cooperativa com o outro, conflitando menos, tendo menores índices de criminalidade e de ações judiciais, tanto penais como civis; e (iii) melhor convivência com a natureza, preservando espécies, biomas, qualidade do ar etc. Tal conjunto não existe. 

Os gregos falavam em eterno retorno. A Antiguidade clássica não reconhecia progresso, mas aceitando a recorrência dos acontecimentos, aceitava a ideia de lições da História. A visão bíblica, segundo a qual a experiência humana levaria ao que se pode considerar como decadência, antevendo o crescimento da iniquidade, pode até ser vista como lição, por mostrar exemplos do que não deve ser feito, entremeado com uns poucos atos virtuosos de agentes da história igualmente escassos. 

Acontecimentos históricos podem oferecer lições em campos específicos. O incêndio criminoso do Reichstag (prédio do parlamento alemão), em fevereiro de 1933, apenas quatro semanas após a posse de Adolf Hitler no governo, é um caso exemplar de aprendizado em matéria específica. O jovem imigrante holandês Marinus van der Lubbe (1909 – 1934), militante comunista, foi responsabilizado. Não se discute muito a condição de autor do crime, a ele atribuída no inquérito que apurou o fato. Mas há quem fale em “operação de bandeira falsa” (feita por uma parte em um conflito, aparecendo como se a outra parte fosse). 

Discute-se a corresponsabilidade do Partido Comunista Alemão ou do Movimento Comunista internacional (MCI), dirigido, na época, desde Moscou. Também há quem avente a hipótese de que o jovem comunista holandês tenha sido inadvertidamente usado pelos nazistas, que depois se aproveitaram do fato. Não se pode afirmar que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (partido nazista) tenha induzido o jovem Lubbe a praticar o crime, mas inquestionavelmente tirou proveito a insensatez do rapaz, tendo implantado a ditadura nazista mais facilmente. 

A onda de choque provocada pelo incêndio criminoso ensejou a decretação do que muitos descrevem como um estado de emergência, da iniciativa de Hitler, com o apoio de democratas indignados com o crime. Começaram (i) as prisões. Primeiro às dezenas, depois às centenas e não demorou para atingirem os milhares. (ii) Advogados deixaram de ter acesso aos autos dos processos; (iii) “flagrantes” foram feitos, não no momento da prática delituosa (flagrante real), sem que fossem encontrados vestígios materiais da prática do crime (flagrante presumido); sem que tenha havido perseguição continuada (flagrante impróprio), conforme Ivan Horcaio (autor contemporâneo), na obra “Dicionário jurídico”. Pior: houve flagrante decretado, embora por definição esta espécie de prisão não se faça mediante decreto, por ser feita quando o ato criminoso é surpreendido no momento em que é praticado ou logo após havendo vestígios do delito ou havendo perseguição continuada, como dito. (iv) Condutas não tipificadas como crime passaram a ser tratadas como delitos. (v) Penas sem prévia cominação legal passaram a ser aplicadas. (vi) Surgiram delitos de opinião. (vii) No iter criminis atos preparatórios passaram a ser apenados. 

Tudo era legitimado, se fosse praticado pelos nazistas. Tudo era crime se praticado por integrantes da oposição. O judiciário se tornou partidariamente seletivo. As garantias do devido processo legal foram afastadas. Não voltaram a ser observadas. A situação só piorou, até as forças aliadas derrotaram o III Reich. 

Talvez a História auxilie a compreensão da realidade, feitas as ponderações pertinentes impostas pelas peculiaridades de cada situação histórica. O efeito bumerangue de certos atos pode ser claramente observada na História. Não é toda semelhança que pode levar aos mesmos resultados ou produzir efeitos análogos. Mas a contribuição da História não deve ser desprezada, como ressalta Marc Bloch, na obra “Apologia da História ou o Ofício do Historiador”.


sábado, 31 de dezembro de 2022

MENSAGEM DE FIM DE ANO - Entre Acelejanos (RV)

ENTRE
ACELEJANOS
Reginaldo Vasconcelos* 

 

Ricardo Cavalcante, atual Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Membro Benemérito da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ), enviou-nos um elegante cartão de natal, que os Correios somente entregaram neste último dia do ano – portanto os augúrios de feliz natal já se confirmaram, mas os votos de um venturoso 2023 ainda nos reforçam as esperanças.


 Ricardo e Rosângela     

Totonho e Elusa

Exultamos ao constatar que a bela ilustração mariana do cartão saiu dos pincéis mágicos do artista acelejano Totonho Laprovitera, o que exalta o simbolismo do gesto e a importância da mensagem, toda ela entre confrades da ACLJ, o que é estimulante e alvissareiro. Gratidão ao Ricardo, saudações ao Totonho, dois dos grandes orgulhos de quantos integram a nossa confraria alencarina. 


ARTIGO - Hegemonia e Ortodoxia (RMR)

 HEGEMONIA
E ORTODOXIA
Rui Martinho Rodrigues*

 

 

O movimento político e cultural impulsionado pelo Iluminismo se aproximou do completo êxito. Secularizou a cultura. A política como engenharia social e antropológica, dirigida por sábios semelhantes aos reis filósofos de A República de Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.) dominou os meios intelectuais e artísticos. 

Pesquisa sociológica, histórica, a reflexão política, filosófica e até teológica, sofreram influência da ideia de uma ordem concebida por sábios, levando Raymond Aron (1905 – 1983) a cunhar a expressão “ópio dos intelectuais”, na obra assim intitulada.

Os iluministas lançaram mão do enciclopedismo para difundir a ideia da engenharia social e antropológica. O advento dos jornais também foi usado para este fim. O surgimento de jornais tem sido associado a uma onda de revoluções, com destaque para a Francesa, de 1789.

 

A Sociedade Fabiana, surgida na Inglaterra, na década de 1880, reuniu intelectuais e líderes de diferentes áreas com o objetivo de promover o socialismo. O título invoca a memória do general e ditador romano Quinto Fabio Maximo (275 a.C. – 203 a.C.), que ganhava batalhas sem travar combates decisivos, fustigando o adversário com escaramuças, desgastando-o até obter vitória. Nem é preciso lembrar a influência do Iluminismo. 

Os fabianos não queriam cargos no governo. Pretendiam mudar o pensamento da sociedade, algo semelhante ao que Mao Tsé Tung (1893 – 1976) expressou ao dizer que tinha como objetivo a conquista de corações e mentes; György Lukcás (1885 – 1971) disse, em um dos seus pronunciamentos, ter como objetivo a conquista da cultura; Antônio S. F. Gramsci (1891 – 1937) declarou o seu pensamento sobre a inutilidade que seria, no ocidente, tomar o palácio de inverno (aludindo ao que foi feito na Revolução Russa), dizendo ser necessário obter a hegemonia ideológica, na obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura; Louis Althusser (1918 – 1990), por seu turno, na obra Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado, dedicada inteiramente ao desafio da hegemonia ideológica. Os frankfurtianos todos dedicaram-se ao problema da indústria cultural e ao domínio da cultura. 

A análise das transformações culturais e políticas do momento deve começar pelo sentido em que usamos as palavras ideologia, hegemonia, guerra cultural. Este último aspecto guarda relação com os conceitos de liberdade, igualdade, bem-estar social, segurança jurídica e justiça. Um pequeno ensaio como este só pode oferecer uma degustação do desafio de tentar compreender o tempo presente. 

Ideologia expressava um conjunto de conceitos e explicações que orientavam escolhas políticas e sociais, pessoais ou coletivas. Adquiriu o sentido de uma percepção ou discurso distinto do conhecimento epistemologicamente válido, fundado na razão e nos fatos. Servir a um poder ou projeto de poder, legitimando-o, é o seu objetivo. (Dicionário de ciências sociais, FGV. Coordenado por Benedicto Silva). Hegemonia, para os estoicos, era a razão que anima e governa o mundo, merecedora do poder e do domínio sobre tudo (Dicionário de Filosofia; Nicolas Abbagnano).

 

Guerra cultural sofre objeção de quem argumenta contra a banalização da palavra guerra. Carl P. V. G. Clausewitz (1780 – 1831), na obra Da Guerra, definiu guerra como a continuação da política por outros meios. Aceita a proposição do general prussiano, o corolário do seu conceito também é válido: política é uma guerra travada por outros meios. Guerra é um conjunto de meios para alcançar um fim contrariando a resistência de opositores. 

Clausewitz distinguia guerra real de guerra absoluta. Real é a observável na experiência histórica. Absoluta é a pertencente ao mundo das ideias e concepções abstratas. Guerra cultural não banalizando o conceito, cabe perfeitamente na concepção de guerra absoluta do pensador citado. Visa impor uma mudança cultural, política e econômica radical, valendo-se de todos os meios para submeter a resistência.

O conjunto de conceitos e explicações que orientam escolhas políticas, posto a serviço de um poder ou projeto de poder (ideologia), impacta em tudo, influenciando a visão de mundo. A política é impactada pela ideologia no que concerne à liberdade, igualdade, bem-estar, justiça e segurança jurídica. No campo político e ideológico, omissão, informação parcial, satanização do outro, negação e adulteração de dados alternadamente com o discurso abstrato, conceitos indeterminados e promessas sedutoras são armas largamente usadas. 

A manipulação  seja como doutrinação, como catequese ou outra forma de proselitismo, pode ser flagrada no magistério e na mídia quando ideias ou modelos apresentados não são submetidos ao contraditório. A falta de objeção às visões e aos autores ministrados é imperdoável. Teoria do valor trabalho versus teoria marginal do valor; liberdade de agir e de fazer versus liberdade de ser; igualdade de todos em tudo (sem exemplo histórico, abstração utópica) versus igualdade de todos em algo (perante a lei, não na lei); igualdade de alguns em tudo (os reis filósofos de Platão) versus igualdade de alguns em algo (menores, gestantes, idosos, aposentadoria, serviço militar para homens).

 

Não fazer distinções como estas, apresentando propostas vagas, baseadas em conceitos indeterminados é uma poderosa tática de proselitismo. No conto Teoria do Medalhão, de J. M. Machado de Assis (1839 – 1908), um pai ensina o filho a fazer sucesso valendo-se, entre outras coisas, do discurso vago, que permite a qualquer um entender como algo com que concorda. 

Bem-estar é outra arma na guerra cultural. É um conceito indeterminado. Abraham H. Maslow (1908 – 1970) definiu uma hierarquia de necessidades que qualificou como básicas, roteiro da plena realização. O psicólogo esqueceu a subjetividade. A hierarquização das necessidades é apresentada por ele como um dado objetivo. 

O prato de comida, o celular da nova geração, a roupa de marca e tantas outras coisas não exercem atração conforme uma hierarquia definida de necessidades, embora existam tendências. A subjetividade das necessidades faz do bem-estar uma sequência interminável de desejos. A transformação da cupidez em direito legítimo e a sua frustração como opressão é uma poderosa arma no campo da guerra política no campo cultural. 

Criamos uma sociedade de inimputáveis, já que a opressão entendida como aspiração não realizada por culpa de terceiros exclui a responsabilidade individual. Quem oprime é o outro. O sucesso é responsabilidade do Estado provedor e da sociedade. A liberdade de ser, ao excluir o sentido do dever, introduz a instabilidade da modernidade líquida (Zygmunt Bauman, 1925 – 2017) e com ela a incerteza e a insegurança.

 

A desorientação se agrava quando se pensa que “livre pensar é só pensar” (Millôr Fernandes [Milton Viola Fernandes], 1923 – 2012). O pensamento é uma alvenaria. Os seus tijolos são conceitos e dados cimentados por rigorosa vigilância epistemológica. Não basta pensar sobre inflação quando não se conhece um conjunto de saberes como a teoria quantitativa da moeda, a elasticidade-preço etc. Não basta pensar as relações sociais sem distinguir a teoria de estratificação social baseada na origem da renda versus teoria de estratificação baseada na quantidade de renda (posição no mercado). Pensar exige estudo prévio. 

A hegemonia é ortodoxia. Sataniza a divergência como ignorância ou má-fé, projetando no outro a própria condição. Os que resistem à catequese passam à condição de insensíveis, preconceituosos ou fascistas. A exitosa guerra cultural ocupou os sindicatos, as escolas, a mídia e o aparato estatal. Mas nunca é tarde para defender a liberdade de agir, a igualdade de todos em algo, a liberdade de consciência e a paz da segurança jurídica, do governo das leis.