domingo, 1 de março de 2026
CRÔNICA - Três Amores (AG)
TRÊS AMORES
CONTO - LITERATURA INFANTIL - Foguinhos e Bombeiros
FOGUINHOS E
BOMBEIROS
Maria Josefina*
Tã... tã,tã... tãtãtãtãtãtãtãtãtã-tarãm...
É assim que todos os dias são acordados os foguinhos que habitam a cabecinha do menino. Quem toca a corneta é o mais “quentinho” (não é à toa que é chamado pelos outros de Freni, o frenético), querendo logo que Boris (este era o nome do menino) se levante e comece suas atividades diárias.
Não precisava ser assim. Bem que poderia ser como todo menino: acordar, abrir os olhos, se espreguiçar, lembrar que é dia de aula... Virar para o outro lado e fingir estar dormindo. Até que mamãe venha fazer cosquinha no pé. Mas, não... Freni cutuca um, mexe na chama do outro, vai pisar nas labaredas de mais um... Até que todos se levantam para evitar mais provocações do Freni. Assim, começa o dia.
| Fonte: Pinterest |
Boris
dá um salto da cama, corre para o banheiro, joga água na boca, corre para a
cozinha e prepara, ele mesmo, seu leitinho com chocolate. Os foguinhos adoram
quando ele diz: “Duas pro copinho, uma prá boquinha” – jogando uma colherada de
chocolate direto na boca. “Ebaaaaaa!!!” – grita Freni – “Agora tô pronto para
mais um dia”.
Boris corre e vai se vestir para a escola, mas se lembra de que ainda falta o mais importante: fazer xixi. Veste-se, caça os sapatinhos e arruma a mochila. Mamãe já vem com a lancheira pronta, com o copo d’água e um batalhão de bombeirinhos dentro de uma cápsula que parece um foguete.
Quem não gosta disso? Advinha! – os foguinhos. Eles sabem que vão ter que se recolherem ao quartel, e ficarem bem quietinhos, pois os bombeirinhos que o Boris tem são muiiiiiito fortes!
Eles foram recomendados pela Doutora. Dá trabalho engolir. As vezes os bombeirinhos teimam em não querer descer “goela abaixo”, mas Boris entende que é para seu bem, e fala em pensamento: “Colabora carinhas, ôcheee!”.
Os foguinhos, embora eles entendam que é para Boris poder fazer suas atividades sem atropelos, queriam mesmo era ficar correndo de um lado para o outro na cabeça e no corpo de Boris, e brincar, até ficarem “mortos de cansados”.
Mas, vamos voltar no tempo!
Antes da mamãe e do papai levarem Boris para a Doutora, e ela dar uma arrumada na bagunça, Freni e os demais foguinhos eram donos do pedaço.
Eles estavam tão folgados que não deixavam Boris assistir à aula na escolinha que ele tanto ama, e em casa era só peraltice. Ficavam “futucando” o cérebro de Boris: “Vamos brincar... Que aula chata! A professora nem vai notar que a gente saiu!”.
Óbvio – como Boris costuma dizer – que era mentira. A professora estava de olho e tentava, de todo jeito, convencer Boris a ficar. A sorte é que ele é muito inteligente, e, mesmo com a bagunça na cabeça, a orelhinha se esticava para ouvir o que a professora ensinava.
Em casa, os pais falavam e os foguinhos diziam na cabeça do Boris: "Vamos fazer o circo pegar fogo!". E aí era “um Deus nos acuda”.
Até que um dia a coordenadora da escolinha chamou os pais e contou o que estava ocorrendo: Boris estava desatento, saindo da sala quase todos os dias, não conseguia se concentrar no que estava fazendo e criando situações de conflito com os amiguinhos e com as professoras.
Pausa na história.
Vamos ser sinceros: Boris era muito querido na escola, todos queriam ajudar, mas os foguinhos sempre venciam. Não adiantava castigo, conversa, promessas... Os foguinhos sempre levavam a melhor.
Mas... Suspense...
| Fonte: Geral Geek |
Os pais de Boris levaram-no para uma
Doutora que começou a arrumar as coisas. Ela era muito legal, conversava com
Boris, não o criticava pelo que os foguinhos faziam com ele, mas começou a dar
dicas para controlá-los. Para completar, a outra Doutora explicou para Boris e
seus pais que ele precisava formar um quartel de bombeirinhos, que seriam os
responsáveis para “apagar” o entusiasmo dos foguinhos.
Boris resistiu no começo, pois, para ele, estava tudo Ok. Mas quem sofria mais com tudo isto era sua irmã, que passou a ser seu alvo de brincadeiras, as vezes “sem graça”! Uma vez ela desabafou dizendo: “Já sei qual meu propósito de vida! Ser boneca de pano do Boris”.
Os bombeirinhos formaram um exército de combatentes dos foguinhos no corpo de Boris. Ele sentiu isto e aprendeu a perceber quando os foguinhos querem levar a melhor. Diariamente ele reforça seu exército e, com o passar do tempo, Boris aprendeu a controlar os foguinhos, mesmo quando a maioria dos bombeirinhos está de férias.
Isto acontece de sexta-feira a domingo, quando ele não abastece seu corpo com seus amiguinhos bombeiros.
Boris sabe que sempre vão existir foguinhos em seu cérebro, mas sabe também que pode contar com os bombeirinhos e com as “manhas” que a Doutora treinou com ele, por um bom tempo, para dar um “chega-prá-lá” nos foguinhos.
Boris
é um menino feliz, inteligente, amoroso e querido, mesmo que às vezes seja só
um pouquinho chato. Mas... quem não é!???
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
ARTIGO - Vida e Morte das Ditaduras (RMR)
VIDA E
MORTE
DAS
DITADURAS
Rui
Martinho Rodrigues*
Considerações
preliminares
Ditaduras nascem e morrem. Priscila Ivane Laurete Perotti produziu a obra Como nascem as ditaduras, aponta o medo entre os fatores que propiciam o nascimento das tiranias. Nascimento e morte, resultam de acontecimentos interligados. Ditaduras nascem quando morrem democracias. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt publicaram a obra Como as Democracias Morrem, estudo de política comparada que descreve a ação de líderes eleitos democraticamente, que promovem o enfraquecimento das instituições.
Lições da História
Ditaduras nascem e morrem. O medo e a ação de lideranças personalistas ou, segundo Max Weber (1864 – 1920), carismáticas, enfraquecem as instituições. O contexto cultural pode favorecer ou dificultar o surgimento e a manutenção regimes opressivos. Avaliar o papel destes fatores nos leva a contemplar a História tentando vislumbrar as tendências que se relacionam com o advento das ditaduras.
Assim chegamos ao debate sobre a História ser ou não ser mestra. Alguns estudiosos não reconhecem tal qualidade à Clio, seguindo a célebre frase de Karl Marx (1818 – 1883), na obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, segundo a qual a história só se repete como farsa ou como tragédia. Sucede, todavia, que economistas estudam História econômica, urbanistas estudam a História das cidades, epidemiologistas estudam a História das epidemias e assim procedem por acreditar que hão de aprender alguma coisa com a História e não o fariam se crises econômicas, epidemias e o desenvolvimento das cidades fossem apenas uma sucessão de tragédias e farsas.
Não se trata de acreditar numa História nomológica, como as ciências da natureza, com resultados previsíveis em face de um conjunto de fatores. Afastando o determinismo dos fenômenos históricos, ainda temos conhecimentos probabilísticos ou simplesmente tendências não quantificáveis e admitimos que nem tudo é entropia nas ciências da cultura, portanto, tendências podem ser observadas.
Ditaduras nascem, vivem e morrem. Medo, lideranças, instituições, cultura e organizações podem participar da ascensão e queda dos regimes. Poderes sólidos resistem às adversidades como guerras, fracasso econômico, desastres naturais e rebeliões. Praticam violência, restringem liberdades, perseguem pessoas e grupos confessionais, políticos ou étnicos e podem alcançar uma longa duração. Tal resiliência nos motivou a qualificá-los “duros”, distinguindo-os dos que têm curta ou média duração, aqui nomeados como “moles”, embora pratiquem violência. O adjetivo “mole”, neste estudo, indica a falta de resiliência em face dos fatores que levam à sua extinção.
Estudemos o papel dos grupos sociais na dinâmica que sustenta e destitui regimes opressores. Gaetano Mosca (1858 – 1941), na obra A História das Doutrinas Políticas, atribui às elites a direção dos rumos da história e distingue as seguintes elites: guerreira; clerical; econômica; e intelectual. Carl Wright Mills (1916 – 1962), na obra, A Elite do Poder, descreve como dirigentes, nos EUA, os grupos formados pelos super ricos; os chefes militares, que ele nomeou como senhores da guerra; os intelectuais e as celebridades.
Não há contradição entre Mosca e Mills porque o primeiro não disse que todas as elites que nomeou estariam sempre presentes, exerceriam a mesma influência ou seriam aliadas. Mills não mencionou elite clerical nos EUA, mas não contradiz com isso a descrição de Mosca. A diferença entre eles está na alusão feita por Mills às celebridades.
O medo
Ditaduras impõem medo. Pena de morte executada por meios cruéis é uma forma de impor medo. O discurso, ou “narrativa” simpática, introduziu, na execução das penas, formas “piedosas”, como a guilhotina, que decepou centenas de milhares de cabeças na França revolucionária, em nome da “fraternidade”.
No Século XX o paredão de fuzilamento foi mantido. Milhares foram fuzilados. Só na Revolução Cubana foram entre 3.000 e 5.000 “inimigos”. Ditaduras qualificam opositores como inimigos. Na Alemanha, sob o Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemãs, o assassinato foi industrializado: as mortes chegaram aos milhões. Na URSS, conforme denúncia formulada no 20º Congresso do PCUS, os assassinatos e as torturas foram uma prática sistemática no período em que Stalin governou. Estas foram de longa duração, duras em todos os sentidos. Nazistas só foram derrubados por exércitos estrangeiros.
Lideranças
Os fatores que produzem e mantêm ou destituem a ditaduras são variados. Lideranças estão entre tais fatores. Mas alguns regimes tirânicos se apoiam mais em organizações, instituições, narrativas sedutoras como canto de sereia, apoiando-se, ainda, na cultura do povo. Lideranças personalistas tiveram papel saliente em muitos casos. Napoleão Bonaparte (1769 – 1821), general vitorioso, hábil dirigente, preencheu uma lacuna quando a França estava cansada dos revolucionários, depois do terror dos jacobinos.
Stalin (Joseph Vissarionovit, 1879 – 1953) com notável capacidade de planejar e executar projetos de poder, consolidou a ditadura do PCUS. Matou multidões, mas ao invés de câmara de gás ou pelotão de fuzilamento, forçou prisioneiros mal alimentados a longas marchas sob clima rigoroso e os submeteu a condições insuportáveis nas prisões, disfarçando e escamoteando a pena de morte.
Fidel Castro teve como marca o paredão de fuzilamento e, depois de algum tempo, longas penas de prisão, sempre de mais de vinte anos em regime fechado. A exemplo de Stalin, aliou a liderança pessoal à “narrativa” da igualdade e do bem-estar. A defesa do regime é o pretexto comum a todas as ditaduras. A luta contra o racismo ou pela igualdade, a defesa da revolução ou da democracia está sempre presente no discurso das tiranias. Na América Latina, durante a Guerra fria, a defesa da democracia era invocada com razão ou sem razão, argumento que volta a ser apresentado hoje.
Na Europa o Tribunal Constitucional da Romênia anulou, em 2024, uma eleição. Alegou influência estrangeira. O papel político dos tribunais tem aumentado e é um fator novo, criado pelas constituições programáticas, dirigentes e totais, além de terem positivado e constitucionalizado princípios, espécie normativa aberta ao entendimento subjetivo da autoridade.
Instituições
As instituições podem fazer parte da dinâmica das ditaduras. Em Israel e nos EUA os tribunais, no exercício do controle de constitucionalidade, têm conflitado com o poder político, que é dotado de representatividade. Estes exemplos não são ditaduras, mas temos neles uma competição entre poderes, um deles representativo, enquanto o outro deveria ser técnico, mas os embates são de natureza política, porque os princípios constitucionalizados expressam valores que têm natureza política.
Instituições podem ser fragilizadas pela ação de líderes ou por alianças poderosas. Organizações podem sequestrar o Legislativo, o Executivo, o Judiciário, as universidades, as empresas de comunicação e até as forças armadas, a exemplo do que tem acontecido na Venezuela. O medo das longas penas, das prisões sem tipificação de condutas, dos inquéritos e processos sigilosos e a censura são práticas das ditaduras contemporâneas, como na Venezuela e Nicarágua.
Instituições aparelhadas e líderes substituem o respeito que lhes falta pelo medo. O desvirtuamento das finalidades republicanas se dá pela formação de alianças que podem reunir corruptos, grupos ideológicos, empresários, sindicatos e o crime vulgar das facções que controlam territórios, cobram proteção e exploram e tráfico de drogas, mais uma vez a exemplo da Venezuela.
Cultura
Existem culturas de transgressão. Sociedades formadas no convívio com a promiscuidade entre os negócios públicos e privados, nos termos do Estado Patrimonial, descrito por Raymundo Faoro (1925 – 2003), na obra Os Donos do Poder, desenvolvem uma cultura tolerante com a corrupção e o abuso de poder, normalizam o absurdo, não distinguem a instituição dos seus dirigentes. Criticar autoridades se confunde com ataque às instituições, embora seja o contrário. Intelectuais e tecnocratas sabem discernir entre estas coisas, mas preferem iludir as massas e travam a guerra cultural.
A “narrativa” da defesa da igualdade, da superioridade racial ou da democracia é um fator de sustentação das ditaduras. Este último argumento é o sofisma político da atualidade. Intelectuais, por pouco dinheiro e por medo, se vendem. Empresas de comunicação e empreiteiras, por muito dinheiro e por medo, colaboram com as ditaduras. Mas tanto intelectuais como empresas acabam por sofrer restrições das ditaduras. Soltar o gênio da garrafa é mais fácil do que colocá-lo de volta. Foi assim na URSS, onde os intelectuais ajudaram a fazer a Revolução, mas foram severamente perseguidos pelo regime que ajudaram a instaurar, conforme relata Lesley Chamberlain (1951 – viva), obra A Guerra Particular de Lênin.
Organizações
Revoluções são golpes. Prometem transformações amplas, rápidas, profundas. Oitenta anos na Coreia do Norte, setenta e seis na China, setenta e três na URSS e mais de sessenta anos em Cuba e as revoluções não foram concluídas. Então não são transitórias, oprimem permanentemente. A rapidez é promessa falsa.
A
igualdade delas tem os “mais iguais”, como na obra de Georg Orwell (1903 –
1950), A Revolução dos Bichos. Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) advertiu: a
luta por revolução é vontade de potência. Uma anedota diz que a diferença entre
um revolucionário e um liberal é que o primeiro, se gostar de praia, futebol e
cinema quer que todos sejam obrigados a gostar de tudo isso; o liberal só quer
viver como gosta. A vontade de potência cria organizações tais como partidos,
sindicatos ou associações, inclusive facções criminosas, promove o
aparelhamento das instituições, usa de meios ilícitos para cooptar, intimidar e
perseguir.
A
queda
Tiranias duras caem, embora sejam longevas, por força de intervenção estrangeira, como as ditaduras da Alemanha nazista, dos militares japoneses e do fascismo italiano. Manuel Nuriega, do Panama, também foi deposto pelos EUA, em 1989, assim como o regime racista da África do Sul foi destituído pelo embargo internacional e Saddam Houssein caiu quando os EUA invadiram o Iraque.
Alianças que sustentam regimes tirânicos podem entrar em crise em razão de desentendimentos quanto a partilha do butim ou por pressões externas e internas. O desmascaramento do regime pode subtrair apoios. Defecções nas alianças podem abalar o poder: a monarquia do Irã foi deposta quando soldados aderiram às manifestações. Desnudar a torpeza dos tiranos pode contribuir para destituir ditaduras.
A guisa de conclusão
As
tiranias duras permanecem no poder por longo tempo. Alianças amplas, promessas
sedutoras, intimidação e cooptação contribuem para a resiliência delas. A curta
ou média duração das tiranias do tipo “ditamole”, por mais violentas que sejam,
se deve à falta de apoios e à ruptura de alianças; ao desgaste das promessas
não cumpridas e ao descrédito do argumento de defesa da democracia. A longa
duração das ditaduras pode derivar da falta de liderança na oposição, da longa
submissão com a consequente “síndrome de Estocolmo” pois nunca houve uma
revolução de escravos bem sucedida. O apelo: “locupletemo-nos todos” também é
poderoso argumento das ditaduras.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
VÍDEO - Pater Noster
PATER NOSTER
Reginaldo Vasconcelos*
A
família, no retiro de Carnaval deste ano, na Fazenda Três Corações, no Município
de Morada Nova, elevando preces em súplica pela saúde de um amigo com diagnóstico
médico de recidiva, em vias de tratamento e remissão.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
ARTIGO - Nem Crítica, Nem Sátira: Puxa-Saquismo Escrachado (BA)
NEM CRÍTICA,NEM SÁTIRA:PUXA-SAQUISMO ESCRACHADOBarros Alves*
A tradição satírica do Carnaval sempre esteve associada à liberdade de crítica, ao riso que desafia o poder e à irreverência que desnuda hierarquias. Quando essa tradição é instrumentalizada por interesses governamentais ou por estruturas financiadas com recursos públicos, contudo, perde sua essência e se converte em peça de propaganda. É sob esse prisma que se deve analisar a atuação da Acadêmicos de Niterói e sua sintonia com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sátira e crítica patrocinadas pelo poder para atingir adversários não são sátira nem crítica. São, antes, a forma mais rudimentar de adesismo, o puxa-saquismo explícito travestido de irreverência. A sátira clássica, em sua genealogia, sempre mirou o alto da pirâmide social, não o rés do chão. Em Portugal, Manuel Maria Barbosa du Bocage fez do sarcasmo uma arma contra hipocrisias e privilégios.
No Brasil colonial, Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, fustigou elites políticas, religiosas e econômicas. No Ceará, Antônio Sales conheceu a perseguição e o exílio interno ao confrontar a oligarquia aciolina. A sátira, quando autêntica, cobra um preço; e esse preço costuma ser pago por quem critica o poder, não por quem o serve.
O que se observou, entretanto, foi a inversão dessa lógica. Ao adotar discursos e representações que coincidem com a narrativa governamental e ao fazê-lo num contexto de financiamento público e visibilidade massiva, a escola de samba não ampliou o debate democrático, mas estreitou-o. A irreverência carnavalesca, que poderia ser plural e incômoda para todos os lados, tornou-se seletiva. E a seletividade, em política, raramente é inocente.
Há ainda um elemento agravante: o tempo. Em período pré-eleitoral, manifestações culturais de grande alcance que reproduzem discursos favoráveis a governos ou hostis a adversários suscitam questionamentos legítimos sobre equilíbrio e lisura. Não se trata de censurar a expressão artística, princípio essencial, mas de reconhecer que a fronteira entre arte, propaganda e uso indireto de recursos públicos pode se tornar perigosamente difusa.
Quando essa difusão ocorre diante de milhões de espectadores, a crítica deixa de ser apenas estética e passa a ser institucional. Cabe aos órgãos responsáveis pela fiscalização eleitoral, entre eles o Tribunal Superior Eleitoral-TSE, avaliar se houve desvio de finalidade, promoção indireta ou tratamento desigual no espaço simbólico que o Carnaval ocupa na vida nacional. A omissão, real ou percebida, alimenta a sensação de que a legislação vale de modo desigual conforme o ator político envolvido.
O dano maior, porém, é cultural. O Carnaval brasileiro sempre foi território de ambiguidade: celebração e denúncia, festa e crítica, riso e inconformismo. Quando a sátira se subordina ao poder, perde sua força transformadora e passa a funcionar como adereço. Em vez de desconforto, produz conforto; em vez de questionar, confirma.
A Acadêmicos de Niterói, ao optar por essa linha, corre o risco de esvaziar justamente aquilo que poderia torná-la relevante: a capacidade de falar contra, não a favor; de tensionar, não de acomodar. E qualquer governo, inclusive o de Lula, que se beneficie dessa acomodação deve ser igualmente criticado. E punido. Democracias saudáveis dependem de arte livre, inclusive e, sobretudo, quando ela incomoda quem governa.
Sem isso, a sátira deixa de ser coragem e se converte em ornamento. E o Carnaval, que historicamente foi espaço de inversão simbólica do poder, transforma-se apenas em palco de sua reafirmação. Picadeiro de uma palhaçada.
#Publicado
no Jornal O Estado - Edição de 19/02/2026
ARTIGO - Antes do Começo (LRF)
ANTES DO COMEÇO
(DE PRIMEIRO, DE NOVO!)
Luiz Rego Filho*
Crônica
Autobiográfica com Cronologia Completa, Trilha Sonora Histórica e Comentários
Stanislawpontepretianos Obrigatórios (Relatório oficial do Festival de Besteira
que Assola o País — Supervisão póstuma de Stanislaw Ponte Preta, com carimbo
reconhecido em cartório celestial)
https://drive.google.com/file/d/14Urj_gRG8po_pj6Ye9lo2C8b7khVOlHL/view?usp=sharing
LITERATURA - Críticas Despresumidas (RTC)
Críticas
Despresumidas
Tem o leitor cearense e brasileiro a oportunidade de degustar a derradeira produção em livro do autor ora sob comentário, publicada em conjunto pela Arcádia Nova Palmaciana (Palmácia-CE) e a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (Fortaleza-CE), intitulada Reservas da Minha Étagère (2025). Ali, conforme declara o próprio árcade novo Jovem Chrónos, remansam “críticas despresumidas” a títulos sobre Literatura, Direito, Ciências Sociais e da Saúde, muito bem recepcionadas pela ala da Literatura Cearense, quase todos inseridos na produção em ciência do nosso Estado.
Desde quando, muito jovem, me achei concentrado nos estudos secundários, experimentando a ventura de deparar professores de Português e Literatura de muito boa qualidade, passei a encarar com maior responsabilidade e cuidado os regramentos e modos de falar e escrever em Língua Nacional.
Assim, tanto no que respeita à correção quanto no concernente ao jeito de expressar, nas mais diversas situações, procuro usar o máximo possível das boas maneiras para exprimir um pensamento, o que configura, na expressão da palavra, o que é chamado de estilo.
Muito embora, exteriormente ao escrito literário – por exemplo, em crônicas, contos, romances, estórias pessoais etc., notadamente no âmbito do Saber de Ciência – certas pessoas pensem que não é possível praticar a escrita dotada de elocução bonita, fácil e agradável, elas escorregam no engano. Isto porque, mesmo se tratando de matéria científica, exatamente o que se trabalha no âmbito das universidades e lugares de pesquisa, impõe-se arrumar a composição, seja em que ramo do conhecimento for, para que não chegue totalmente insossa ao leitor, que dela vai extrair somente – e nem sempre – a verdade que o pesquisador demandou achar como saber novo, tendo de absorver, engolir quase à força, aquela ideia desprovida de sabor comunicativo, conquanto dotada de verdade relativa.
Deparo, ainda, porém, mencionada dificuldade, pois, na Universidade Federal do Ceará, operando na seara onde se enlaçam as ciências agronômicas, econômicas, contábeis e outros galhos do conhecimento ordenado, todas com seus sub-ramos, afirmo não ser simples levar a efeito essa disposição. Além de mim, obrigado por força de ofício a produzir conhecimento e revelá-lo por intermédio de experimentos assentados na Filosofia da Ciência e na sua metodologia, dependo dos meus orientandos de Mestrado e Doutorado, quando procuram suas investigações em sentido estreito, no Programa de Pós-Graduação em Economia Rural. De tal modo, esses procedimentos, na verdade, embora possíveis, não se mostram de simples execução, não me deixando, no entanto, conduzir a reveses, na qualidade de orientador de ciência, antes, porém, de defensor de um extraordinário código linguístico como este em que operamos.
VM é muito conhecido em nosso meio como corretor de textos acadêmicos stricto sensu, trabalho que executa para os nove países onde se fala e escreve a Língua Portuguesa. E, sob o ponto de vista da História de Palmácia, com esta produção multíplice – temática variada - retrata o seu maior escritor em todos os tempos, pelo que convido o prezado leitor a ler, no livro sob comentário, o texto do Prof. Edmar Ribeiro, da Universidade Federal do Ceará, intitulado História Literária Cearense – Literatos Palmacianos – Figura Preeminente, onde esse comentarista cuida, com zelo e verdade, da matéria atinente aos escritores da nossa Terra. Indico, também, o artigo de entrada do livro, do Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, da Universidade Federal do Ceará.
Verdadeira
graça é o fato de esta ser a quarta produção à luz com o sinete da Arcádia Nova
Palmaciana, incluindo-se Franciscos Moradores do Céu (2018) Encontro
de Contas – Balancete de Juízos Literários, Filosóficos, Linguísticos e
Históricos (2024) e Estâncias Decassilábicas Lusitanas – Medidas em Arte
Maior (2024) – todas do anotado palmaciano, sob a guarda dos árcades novos,
proprietários do Solar dos Sampaios, Lúcia Andrade Sampaio e Fernão de La Roche
d’Andrade Sampaio, a quem somos todos agradecidos.
Boa
leitura deste Reservas da minha Étagère.
E melhor descodificação.
(**
A Alma Mater é a universidade onde a pessoa se formou)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Soneto Decassilábico Lusitano - No Lugar de Zeus (VM)
NO LUGAR DE ZEUS
Vianney Mesquita*
Compreendemos mais por intuição do que por via do raciocínio. A intuição clara e viva, pois, é o caráter do gênio. (JAIME LUCIANO BALMES YURPIÁ, sacerdote, filósofo e teólogo espanhol. Vic, 28.08.1810; 09.07.1848).
Prof. Olímpio
Do Olimpo Monte seu nome provêm,
Com nobre acepção celestial
Daí por que seu denodo advém
Para do Orbe austero ser fanal.
Da Humanidade reta é o sinal
E ao compassivo a correção convém,
Quando se apropinqua ao ideal
De modelar na reedição do bem.
Naquele ensejo em qu’este ser nasceu
Nova excelência o Senhor promoveu
Enquanto da fraterna grei cuidava.
Querer dali lhe retirar alguém
Utópico conforma-se, porém,
Pois quando Zeus chegou você já estava.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
ARTIGO - A Munificência Produtiva do Escritor Luciano Dídimo (VM)
A Munificência Produtiva
do Escritor
Luciano Dídimo
Vianney Mesquita*
Revela apreciável realce, constitui um ideal dos mais belos, ao modo instado ao Senhor Deus na epígrafe, o momento propício de experimentar-se proceder a rápidas considerações acerca de mais uma triunfante diligência gráfica para circulação pública do tão celebrado autor, Luciano Dídimo, em A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade, relativos à sua figura de cidadão e escritor da melhor índole, neste volume sob o rito de imersão batismal no jordão librário do Ceará.
Aqui ele pluraliza encantadoras produções, de sublimidade transposta às raias ordinárias dos bens poemáticos, ao dispor, em relevo, a gentileza, a brandura e as mercês de seu gênio acumulado de positividade, transferidas, na sua maioria, para estrofes do estalão decassilábico, porém adicionadas de estâncias de arte menor – silabadas em sete ictos – e dodecassílabos alexandrinos, tudo no âmbito da bitola constitutiva do provençal sonet.
Sob a perspectiva histórica de ideação da craveira compositiva a que recorre o bardo sob comento – é oportuno exprimir, em velocíssima informação, carecente de incontáveis complementos – têm ressalto o italiano Francesco Petrarca e o português Francisco Sá de Miranda, entre quase inumeráveis outros seguidores e preceptores, conforme o pai do lavrador o exemplar sob comentário – Horácio Dídimo Pereira Barbosa Vieira – Rafael Sânzio de Azevedo e Otacílio Colares, ao se mencionar, por ensejada a ocasião, apenas literatos cearense.
Eis, por consequente, um Tomé são-joanino a presumir além do que divisa, sem ser preciso ver para crer, nem introduzir os dedos nas injúrias da pessoa ledora, feito um Dydimus, um To’Oma aramaico, gêmeo, duplo, em tempos distintos e distantes, de dois Horácios (menestréis Horácio Dídimo e Quinto Horácio Flaco) a creditar brandura e indulgência aos seus iguais circunjacentes, tanto integrantes do sistema familiar como outros partícipes de suas circunstâncias amistosas.
A isto ele procede, máxime, por intermédio dos expedientes da arte maior, do jeito como se exprimiu há pouco, pois a pluralidade é ofertada em pés decassílabos lusitanos, magnanimamente produzidos, com suporte numa alma branda, leve e benfazeja, admirada e aplaudida, pelos bem-afortunados leitores brasileiros e da língua portuguesa.
O Autor objeto destas fugazes notações, Luciano Dídimo Camurça Vieira, causídico operante no Tribunal Regional do Trabalho, no Ceará, e administrador da gema, já possui várias edições em formatos digitais e versões impressas, ao sabor de uma afluência selecionada de consulentes, no Brasil, em Portugal e nas outras sete nações lusófonas – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial.
O doutor Luciano Dídimo estreou a mostra do seu alteado estro, no ano de 2011, com O Meu Carmelo é Marrom, acompanhado de A Rosa da Certeza (2016), contando, ainda, com o excecional séquito de A Rosa Marrom (2020), adido de A Rosa Verde – Sonetos de Esperança (2022) e da Rosa de Pérola – Sonetos Preciosos (2024). Mencionados proveitos editoriais são faustosamente ortografados, a ornar de estimação sua obsequiosa habilidade literária, motivo por que é admirado pelo universo ledor, sancionado em diversas análises críticas, as quais costumam avultar, sistematicamente, a essência dos seus bem mensurados escritos, favorecidos de certificação pela diligente e pertinaz massa de avalistas coestaduanos.
Neste lance prazenteiro, em decisão perto de conformar um atavio redundante, talvez pensem alguns – pois já devidamente apetrechado pelo rematado ânimo estral que enroupa sua caminhada rítmica -, o produtor da conjunção consoada A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade decidiu aduzir ao contexto já nutrido de medidas lusitanas de dez acentos, e poucos pés bilaquianos e setessílábicos da melhor verve, inscrições epigrafadas de passagens bíblicas, menções a fragmentos da lavra de romancistas, poetas e outros intelectuais do Ceará, do Brasil e do inteiro orbe escritural, incluindo o molde literário humano Horácio Dídimo, Miguel Ângelo de Azevedo – o Nirez, São João da Cruz, Rachel de Queirós et multi alii.
Ao manobrar de tal maneira, concedeu um teor mais real e denso e ameno e distinto e vigoroso e donairoso ao livro, à luz do farol harmônico e integral da peça, uma vez que o complexo de quadras e trísticos, haja vista sua precisão em dignidade e elegância estética, está absolutamente desnecessitado de inclusões com o intento de lhe ajuntar e completar valor.
Peculiaridade proveitosa, também, cursa nesta edição, configurada no fazimento de versos base com arrimo em concertos musicados ao lavradio de compositores brasileiros, conduta coberta de urbanidade e indicadora da valorização e benquerença de Luciano Dídimo em relação aos mentores de joias do cancioneiro nacional, com a honrosa e reta manifestação do seu reconhecimento, disposto na condição de intelectual, distinto da imensa cópia popular.
O polido agente de A Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade – neste passo atreito aos propósitos de consultantes avezados à sensibilidade poética – ao concertar suas harmonizações, reflete semelhantemente ao acerado e zombeteiro intelectual franco, François-Marie Arouet, dito Voltaire (in Dicionário da Sabedoria. São Paulo: Fittipaldi – 1985, vol. 3, decodificação livre e com acréscimos), o qual, ao se enjeitar aqui suas acerbas maledicências ao Cristianismo, alcança a poesia como humanamente necessária, pois quem não aprecia versos detém o desalento, um espírito áspero e carregado, uma vez que os modelos versíficos estampam a música da alma.
Fazendo-se adições à conjectura do principal componente da parede intitulada Jovem Alemanha (Junges Deutschland), Lwdwig Börne (1786-1837, Ibidem), há de se entender, por conseguinte, segundo reflete seguramente, também, o trovador Luciano Dídimo, que, caso não houvesse inspiração, a vida não iria além de uma chaga icorosa, vez por outra sanguinolenta. As balizas métricas, plenas de dons, malgrado os males que devem ser denegados, nos outorgam o surripiado pela Mater Natura: autorizam-nos a vivência de um tempo áureo, que não envelhece, e a nós transfere uma felicidade sem nuvens e um verdor eterno.
Por via da coerência, não se descortina nada capaz de ser verazmente poético, se não for plenificado de autenticidade, à maneira do conteúdo encantador, recheado de graça do Rosa Cinzenta – Sonetos de Interioridade, ora disposto ao exame da imensa aleia admirante do alevantado conjunto manifesto pelo corpo arguto e a razão diserta do comentado sonetista.
Despeje-se na observação, preclaro consulente!
Fortaleza,
fevereiro de 2026.






