LÚCIO BRASILEIRO
E
EU
Reginaldo Vasconcelos*
Iniciei minha atividade jornalística com a coluna intitulada “Vida Moderna”, no suplemento “TC Revista”, tabloide editado por Ciro Saraiva, que era encartado nas edições de sábados do jornal Tribuna do Ceará, por volta de 1976, e para mim a música tema dessa época é “Wuthering Heights” (Morro dos Ventos Uivantes), composição da inglesa Kate Bush, inspirada no clássico romance de mesmo nome, da também britânica Emily Brontë.
Então, quando reuni uma coletânea de artigos da
minha coluna de jornal, para publicar em livro, em 1992, procurei LB nos
estúdios da TV Jangadeiro, onde ele apresentava um programa de entrevistas, para
lhe pedir que escrevesse um prefácio. Fui muito bem recebido, mas ele quis
reduzir a tarefa a escrever uma aba de capa, que ele nunca escreveu, pois a
capa dessa minha primeira brochura era destituída de “orelhas”.
Mas nesse primeiro encontro pessoal que eu
tive com LB eu notei o seu incômodo com qualquer contato físico, aceitando o
aperto de mão com resistência e desconforto, como também a mão no ombro, muito mais
a intimidade de um abraço, o que já me fez perceber a sua restrição a estímulos
externos. Claro que por disciplina social LB se condicionava a apertar mãos e
receber os amplexos necessários.
Não
estive mais com ele, até que a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo
resolveu agraciá-lo com a Medalha Parsifal Barroso, em 2014, seu “Jubileu de
Diamante” na imprensa. Eram então 60 anos de jornalismo ininterrupto, um
recorde mundial. A façanha não tem registro no Guinness Book porque o amigo
Antenor Barros Leal tentou, mas não conseguiu encontrar toda a sequência de
artigos publicados por LB nos jornais de Fortaleza, de modo que não seria
possível provar a sua contínua e sexagenária maratona jornalística.
Em 2024 o empresário Beto Studart resolveu
produzir a biografia de LB, me contratou para escrever a obra, a que o próprio
LB quis dar o título “A Vida Como Obra de Arte”.

Beto Studart promoveu uma
apoteótica noite de autógrafos na Praça BS, convidando e recebendo o creme
de la creme da sociedade cearense, verdadeiramente um grande happening
para a história da cidade.
Lúcio Brasileiro, obviamente, tinha outra canção para incensar a sua memória do ingresso na imprensa, que, inclusive, pediu e foi executada no piano de Felipe Adjafre e cantada por César Barreto, na noite do lançamento da sua biografia – música cujo título é “Tudo Foi Ilusão”, composição de Anísio Silva, um bolero nacional – o gênero musical mais apreciado no Brasil dos anos 50.
Ficamos amigos desde então, e logo em seguida
ele partia para a Espanha de navio, e como só embarcaria no Rio de Janeiro, e iria
até lá por via aérea, para não pagar por excesso de bagagem deixou a mala principal
comigo, para enviar pelo Fernando Lima, videomaker que gravou as
entrevistas que tivemos com ele para o livro, o qual iria para a Europa no
mesmo navio, a partir de Fortaleza.
Em dezembro de 2024, LB nos convidou para a reunião de final de ano que ele promovia no seu restaurante Ugarte, no Cumbuco, evento que denominava “Escola Unidos do Natal”.


Ele queria homenagear o seu
biógrafo principal, Beto Studart, que idealizara a obra e viabilizara o meu
trabalho, mas este não pôde se fazer presente desta vez.
Eu ainda recebi LB na Tenda Árabe, recinto da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, aonde, a pedido, ele foi gravar
um depoimento pessoal sobre a opereta “A Valsa Proibida”, objeto de um
documentário histórico que estávamos produzindo, com o cineasta Roberto Bomfim,
sob os auspícios do Benemérito Ivens Jr.
Capricho do destino, parece que ele foi agradecer inconscientemente ao Stênio Pimentel, membro da ACLJ, filho do autor da
peça de teatro referida, de pseudônimo “Silvano Serra”. Stênio conta que na sua
tenra juventude reconheceu LB e o retirou do ônibus em que ambos transitavam,
para tomar banho e um pouco de café em sua casa, pois o jovem jornalista vinha
de uma festa e estava muito embriagado.
Já no natal de 2025, convidados novamente para
o seu Natal do Ugarte, nós fomos ao Cumbuco no helicóptero de Beto Studart. Além do próprio Beto e do Flávio, seu irmão, estavam conosco os
jornalistas Fernando César Mesquita e Egídio Serpa. Foi a última vez que vimos LB.
Na manhã seguinte à sua morte em Portugal, no
dia 23 de abril, a sua irmã Norma comentou comigo ao telefone que, triste com o
passamento de LB, entretanto confortada por não ter havido sofrimento,
considerando que ele não suportaria a prostração da velhice que possivelmente o
atingiria, fazendo-o depender de terceiros na sua intimidade, ele que sempre fora
tão independente e reservado.
Na mesma manhã recebi o relato de uma grande
amiga dele sobre as circunstâncias da morte, quando se dirigia a Ibiza, na
Espanha – cidade em que ele localizava as origens da sua família materna, os
Quezado. Mas o voo atrasou por três longas horas em Lisboa. Ele então teria
consumido bastante vinho no bar do hotel, caído e socorrido ao hospital, onde
veio a falecer.
No mesmo dia me enviaram uma sequência de
áudios e de entrevistas em que LB se estava despedindo, dizendo estar pronto
para se encontrar com Deus, afirmando que queria morrer em Ibiza e que desta
vez estava indo para nunca mais voltar.
Era sabido que, ao morrer, ele queria
ser cremado e que as suas cinzas deveriam ser lançadas no mar de Ibiza, pela
amiga cearense Maria de Jesus Witt, dona do restaurante “Es Molino de Sal”, em
Fermera, próximo a Ibiza.
Soube que Maria de Jesus e seu marido teriam
decorado um dos seus iates para fazer o lançamento das cinzas de LB no mar de
Ibiza, mas não sei se a família dele cooperou. Ele também deixou dito no livro
de memórias que suas exéquias acontecessem em Fortaleza, na Igreja Cristo Rei,
e que os seus amigos, na ocasião, vestissem todos ternos pretos... mas isso eu sei
que não aconteceu, infelizmente.