domingo, 18 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - Fisiografia Intimista (VM)

FISIOGRAFIA
INTIMISTA
Vianney Mesquita*

 (Para Jesuino, Sousa Nunes, Ítalo, Reginaldo e Márcio Catunda)


 
 

Com vistas a decodificar estas estâncias, no âmbito brasileiro, impõe-se comparar a semântica da ciência geográfica e seus saberes afins com igual sub-ramo da linguística a se referir ao ser humano no concerto feminino.

 

Adentro em carta a topografia.
Desguarnecida te vejo, “des” calças,
Sem o uniquini, que pouco cobria,
Nem o corpete provido de alças.
 
Prodigiosa antropogeografia,
De uma Serra Pelada o ouro exalças.
A navegar nesta cartografia,
Em cuja ria, minhas mãos são balsas.
 
Há dois serrotes, lisos e carnudos,
E a popança, de lados polpudos,
Com cânion e cava dúplice hidrográfica.
 
Convém, leitor, cotejar a semântica,
Pois cofio e exploro a Mata Atlântica.
Na rica testa gênito-orográfica.



CRÔNICA - Apostas (AG)

 APOSTAS
Aluísio Gurgel*


O cheiro de tinta fresca do jornal recém-chegado se misturava ao café forte que o Bodinho servia, mas o verdadeiro combustível daquela calçada, defronte da 4400, era a paixão traduzida em palpites.

Na Fortaleza dos anos 1970, a Praça do Ferreira não era apenas o coração da cidade. Era também o maior e mais barulhento pregão de apostas esportivas que o Ceará já conheceu. 

Moedas de cruzeiro mudavam de mãos com a mesma velocidade com que se desfaziam as reputações dos centroavantes no Clássico-Rei do fim de semana. Quem passava por ali jurava que o futebol era uma ciência exata, cujo veredito final dependia do humor do jornaleiro tricolor e das provocações dos alvinegros. 

Apostar, portanto, nunca foi uma novidade digital, mas uma necessidade crônica do torcedor de validar a sua própria intuição diante dos pares. O que hoje as plataformas chamam de green, na banca do Bodinho era o sorriso irônico de quem embolsava o dinheiro do rival enquanto saboreava um pastel na calçada. 

A grande diferença do presente não está no ato de arriscar, mas na solidão do gesto: o torcedor contemporâneo joga isolado contra uma grande corporação estrangeira invisível, mediado pela frieza da tela do smartphone. No reduto do Bodinho, a aposta exigia o olho no olho, o aperto de mão e a coragem de sustentar o palpite diante de uma plateia de testemunhas prontas para a galhofa no outro dia. 

Essa transição para as telas acabou por “pasteurizar” o folclore que cercava o palpite desportivo, transformando o rito sagrado da resenha em pura estatística de mercado. Onde antes havia o debate caloroso sobre a contusão do ponta-esquerda ou o peso da camisa, hoje operam gráficos de rendimento e frias análises de probabilidade.

No entanto, por mais que tentem “gourmetizar” o palpite com termos em inglês e influenciadores de terno, a alma do negócio continua sendo a mesma audácia que movia os boêmios da Praça do Ferreira. As Bets modernas apenas herdaram o DNA daquela Fortaleza analógica e vibrante, provando que a tecnologia muda as regras do jogo, mas a velha mania humana de desafiar a sorte no futebol permanece invicta.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - Ânsia Inócua (VM)

ÂNSIA INÓCUA
Vianney Mesquita*

 

(Para a acadêmica Giselda Medeiros)

 


“Os desejos infrenes são a fonte donde jorram os males afligentes das pessoas”  

(DIÓGENES LAÉRCIO, historiador/biógrafo romano de filósofos antigos)

 



Desabonar a dádiva improvisa
Ajusta-se à conduta racional:
Repele a ideia infesta e inconcisa,
Rejeita a incoerência exordial.
 
Não se haverá de ter como baliza
Desfecho imediato, excecional,
De um desejo infrene, o qual divisa
Veloz adimplemento natural.
 
A resposta, ao ser da Providência,
Não se sujeita à humanal vigência,
Porque restrita ao deciso Augusto.
 
Conservemos, por isso, a leniência,
No sítio da avidez, a paciência,
E Deus concederá o foro justo.





ARTIGO - As Azeitornas de Tales (AG)

 AS AZEITONAS
DE TALES
Aluísio Gurgel*

  

As primeiras opções conhecidas foram compradas por volta de 600 anos antes de Cristo pelo filósofo grego Tales de Mileto. Ele acreditava que o próximo verão traria uma farta colheita de azeitonas.

Para lucrar com essa ideia, ele poderia ter comprado prensas de azeitona que estariam em alta demanda se ele estivesse certo, mas ele não tinha dinheiro suficiente para comprar as máquinas. Então ele foi aos donos de prensas de azeitonas e pagou-lhes para garantir a opção de alugar suas prensas no verão por um preço específico. 

Tales estava certo: quando a colheita chegou, havia tantas azeitonas que o preço do aluguel de uma prensa disparou. Tales pagou o valor combinado aos donos das prensas, então as alugou por um preço maior e ficou com a diferença. Tales executou a primeira opção de compra conhecida. 

O significado filosófico da ação de Tales com as prensas de oliva é mostrar que os filósofos podem obter riqueza e sucesso material, mas seu verdadeiro interesse está na busca do conhecimento e na compreensão do mundo, não no dinheiro em si. 

Segundo relatos históricos e filosóficos, Tales usou seu conhecimento para prever uma grande colheita de azeitonas, e então investiu todo o seu dinheiro alugando todas as prensas de azeite da região. Na época da colheita, devido à alta demanda, pôde cobrar o que quisesse pelo uso das prensas, garantindo uma grande fortuna. 

Essa ação ilustra a aplicação prática da sabedoria e a capacidade de prever eventos para criar oportunidades, além de demonstrar que a filosofia não é apenas uma atividade abstrata, mas também permeada por um conhecimento prático do mundo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - Data Festiva (VM)

DATA FESTIVA
 12.10.2026
 Vianney Mesquita*



Well Morais
(Da Academia Cearense da Língua Portuguesa)
 

  

"Um dia de anos é sempre de recordações"

JÚLIO DINIS

 

Ao perlustrar meus símplices anais
Agora, dia doze de outubro,
Inopinadamente, eis que descubro
O maior dia de um dos meus cem mais.
 
A folhinha expressa a data em rubro -
E isto adiantar muito me apraz –
Assisadamente não encubro
As comemorações deste rapaz.
 
Ele retém haveres perspicazes
E didactogias eficazes,
Veras alegações gramaticais.
 
Eis por que com fervor cinjo este lente
De maneira animosa e mui contente,
Professor imortal Well Morais.


**********

 

COMENTÁRIOS AO SONETO

“DATA FESTIVA”

Souza Nunes*

 

"A habilidade mata a sabedoria. Eis uma das pouquíssimas coisas tristes e certas"

Lord Chesterton

 

Meu ínclito mestre e confrade Vianney Mesquita, parabéns pela rara maestria no trato da palavra, aliada a uma      consciência rigorosa dos recursos expressivos do idioma vernáculo!

A homenagem ao acadêmico Well Morais materializou-se em realização poética de elevada estirpe. 

De primorosa arquitetura formal, apurado lavor estilístico e inequívoca densidade erudita, seu soneto testemunha a eloquência de uma arte em que a disciplina formal não obsta a inspiração, pois antes lhe confere maior vigor e expressividade.               

Tais estrofes honram, por igual, o engenho de quem o concebeu e os méritos de quem os inspiro.

Venturoso o   homenageado a quem coube tão distinto intérprete de suas virtudes; não menos afortunado o poeta   que encontrou, na excelência humana e intelectual do homenageado, matéria digna daquela perenidade de que nos fala o antigo prolóquio romano: Verba volant, scripta manent.

CRÔNICA - Compreender a Vida Não Exaure o Viver (AG)

COMPREENDER

A VIDA

NÃO EXAURE

O VIVER

Aluísio Gurgel*

 

Um caixão funeral fechado é solenemente retirado de um pequeno avião. Não se sabe quem foi. Apesar da inquietação e da curiosidade, com prumo sigo meu rumo.


 

Ao despertar, mergulho no curso da vida. À tarde, noticiam o falecimento de Lito Sousa, de Aviões e Músicas. A cena volta à memória. O caixão continua fechado.

 

Quem pratica voo livre se habitua a observar: uma encosta, o movimento das nuvens, a direção do vento, as condições de pouso. Tudo exige atenção. Lito pertence a esse universo.

 

Seu nome traz a aviação, o aerodesporto, as explicações e o entusiasmo. A notícia chega e encontra tudo isso.

 

No sonho, sigo meu caminho. O dia prossegue. A voz de Lito ecoa no infinito. A coincidência permanece, a pergunta também. 

“A vida não é um problema para ser resolvido; é um mistério para ser vivido. Então, viva!” (Stuart Hiller, em “Tuff Turf”, 1984)


Soneto Decassilábico Lusitano - Regalos da Melodia (VM)

REGALOS 
DA MELODIA
Vianney Mesquita*

(Para a Acadêmica Gorete S. Oliveira – ACLP. Cad. 01)


Costumeiramente, a música (boa) acalma espíritos alvoroçados e alivia preocupações. 

(Miguel de CERVANTES Saavedra. Alcalá de Henares, 29.09.1547; Madrid, 22.04.1616).


 

Condescendente e tênue melodia,
Aquieta e pacifica os corações,
Concede singeleza às intenções,
Ao render gênio e corpo em harmonia.

Célere, nos transporta à Parusia,
De logo elimina as dissensões,
Conduz-nos breve à cortesania

E inuma por eterno as frustrações.
Da malvadez é atlética afasia,
Malquerença eivada de anartria,
Jazigo eternal das ilusões.

Spalla, brando eflúvio da estesia,
Consolidado doce de acalmia
Circunstância de amenas emoções.

domingo, 11 de outubro de 2026

CRÔNICA - É de Dar Dó (RV)

 É DE DAR DÓ
Reginaldo Vasconcelos* 

 

O País está dividido entre um grande contingente de pessoas pragmáticas e lúcidas e outra massa humana, também numerosa, de indivíduos passionalmente alucinados, encantados por um sonho dourado, imbuídos de uma pretensa causa épica, heroica e justa, cultuando e seguindo cegamente uma liderança demiúrgica.

Cada um dos dois grupos é ainda amalgamado pelo espírito de corpo, pelo sentimento de manada – uma saborosa pulsão gregária natural do ser humano, que consiste em se sentir irmanado a outros de mesmo ideário, destino e paixão, compondo uma uníssona multidão, como se verifica na devoção futebolística.

 

Hoje eu tenho estimados parentes e amigos ideologicamente capturados pela horda mítica, que a princípio me inspiravam respeito democrático, e eu me abstinha de especular a cerebração controversa que portavam, focando as nossas relações em aspectos da vida e da memória afetuosamente compartidos. 

Na minha infância, quando alguma coisa me frustrava e eu me queria revoltar, minha mãe me indagava, repreensivamente: “Você está com pena de si mesmo!?” – o que me fazia abandonar a vertente queixosa e derrotista e adotar uma atitude proativa. Desde então introjetei que ser objeto de compaixão, de si ou de outrem, seria desonroso e aviltante.


Eu tenho um filho adotivo que cegou, e que, a despeito de ter conquistado espantosa autonomia profissional e social, às vezes me vem instar – sobre alguma coisa que o tato não lhe permita identificar ou fazer – pedindo, retórica e alegremente, para lhe “emprestar os olhos”. 

Mas não nos compadecemos dele, que logo se revelou resignado ao desígnio de Deus e feliz com o copo da sua sorte quase cheio, com apenas dois dedos de ar abaixo da borda, margem suprida por seus muitos talentos e pelo carinho da família. Até porque os olhos de sua alma e da sua inteligência enxergam longe. 

Mas hoje eu não consigo evitar o impulso indômito de devotar um profundo sentimento piedoso e solidário àqueles meus queridos amigos e parentes, ante a desdita de que foram acometidos: a cegueira intelectual aparentemente irreversível sobre os evidentes fatos históricos, bem como sobre a verdadeira índole de personalidades estrangeiras antigas e de personagens nacionais contemporâneos. 

Parece que vão morrer e secar negando a luz, tateando nas trevas, aferrados ao equívoco,  sem a graça de ter o vislumbre revelador da realidade que os cerca.  É realmente de dar dó.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - Frugais Opções (VM)

 FRUGAIS
OPÇÕES
(Para o Dr. Reginaldo Vasconcelos)
 
Vianney Mesquita*

 

Quando a escolha é impossível,
o melhor é não criar dificuldades.
 
(GEORGE MACDONALD. Escritor escocês. Huntly, 10.12.1824; Ashtead-UK, 18.09.1905).
  


 
Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.

Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.

Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.


Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.