segunda-feira, 17 de agosto de 2026

RESENHA LITERÁRIA - Sobre uma "Libação Prévia" (SN)

  Sobre uma
“Libação Prévia”
 Sousa Nunes*

Há textos que se limitam a anunciar um livro; outros, mais raros, começam por lhe preparar a atmosfera. A Libação Prévia no Ritual de um Lançamento Invulgar, de Vianney Mesquita, pertence a esta segunda espécie. Antes de ser comentário ao romance “Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas”, de Ítalo Gurgel, é um testemunho de amizade intelectual — e a amizade, quando servida pela cultura e pela fidelidade, também constitui uma forma superior de crítica. 

Vianney não se aproxima do livro com a frieza do anatomista. Aproxima-se dele como quem chega a uma casa conhecida, reconhecendo-lhe os umbrais, os retratos, as vozes antigas e a claridade das janelas. Seu ensaio traz consigo o lastro de uma convivência de muitos anos e, por isso mesmo, a leitura que nos oferece não é apenas literária: é também humana. Por detrás do romancista Ítalo Gurgel, ele distingue o professor, o jornalista, o poeta, o homem de amizades duradouras — e, sobretudo, o escritor que, ao chegar ao romance, não renuncia às raízes de sua formação nem aos vínculos de sua memória. 

O ensaio do ínclito confrade Vianney Mesquita possui, ademais, uma característica que imediatamente denuncia o seu autor: a abundância culta, a erudição profunda. Sérgio Milliet, Stendhal, Eça, Zola, Cronin, Conan Doyle, as Brontë, Camões, Virgílio, Homero, Oliveira Paiva, Chesterton e Wilde comparecem à sua conversação como velhos conhecidos chamados à mesa. Não constituem ornamentos adventícios: pertencem ao mundo espiritual de quem escreve e ajudam a revelar a extensão de uma vida consagrada aos livros e à reflexão percuciente. 

Há ainda, em sua página, a graça peculiar do polemista. Vianney sabe que a crítica pode iluminar uma obra, mas sabe igualmente que pode, por vezes, pretender substituí-la. Daí os seus floreios de espada contra os “criticastros”, temperados por uma ironia que ora sorri, ora mostra os dentes. Contudo, vencida a escaramuça, permanece aquilo que verdadeiramente lhe importa: proclamar a singularidade de Dona Quitéria e resguardar ao futuro leitor o prazer da descoberta. 

E nisso reside talvez a melhor virtude de sua prelibação: Vianney aproxima-nos do romance sem no-lo retirar. Indica-nos a porta, mas não invade conosco os aposentos. Diz-nos que ali estão a família, a terra, a memória, a religiosidade sem ostentação, a experiência humana transfigurada pela ficção; e detém-se a tempo, reconhecendo que todo verdadeiro romance deve conservar, até o instante da leitura, alguma região inviolada de mistério. 

Ítalo Gurgel encontra, assim, em Vianney Mesquita, não simplesmente um leitor antecipado, mas uma testemunha afetuosa de sua chegada ao romance. E Vianney, celebrando o livro do amigo, acaba por oferecer-nos também um pouco de si mesmo: sua erudição, suas fidelidades, suas implicâncias, seu humor e essa antiga confiança na literatura como território onde a memória pessoal pode alcançar uma duração maior que a vida. 

Esta Libação Prévia cumpre, portanto, o que promete o título: ergue a taça antes da cerimônia. E fá-lo com a generosidade de quem sabe que, nas repúblicas das letras, os melhores brindes não são os que celebram somente o livro que nasce, mas também as amizades que o tempo não conseguiu envelhecer. 

Parabéns, grandes mestres! O gigante leitor, que nos oferta essa maravilhosa prelibação, e o romancista, que nos aguarda no dia 1º de setembro, com o fruto de seu espírito invulgar.  



 

Comentário: 

Posto, enfim, no sossego do meu quarto d’hotel, em S. José dos Campos, dou-me a satisfação de reler as apreciações críticas do confrade Vianney Mesquita acerca de “Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas”, romance histórico que o amor à terra natal, em boa hora, inspirou-me. Desvanecido é como me quedo diante do texto – tão rico e tão marcado pela “abundância culta” e “erudição profunda” de que fala outro dileto amigo, Sousa Nunes, ao comentar o comentário (desculpem-me o poliptoto). 

Vianney extraiu do romance predicados destilados pela genuína amizade que cultivamos e que prosperou, ao largo de muitos anos, no rastro da admiração e respeito mútuos. Encheu-me de imodéstia perceber que o confrade colheu, em minhas páginas, amostras de originalidade, atributo que enxerga como “a circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente original”.

Mais adiante, senti fisgadas de orgulho (para não dizer “vaidade”), quando o mestre palmaciano me anteviu oferecendo ao público das nove nações lusófonas “este volume de insuperável axiologia literária”. Imaginei meu livrinho nas vitrinas de Luanda; em Maputo, um lançamento agendado; já em Lisboa, uma palestra. Dá-se, porém, que, antes disso, há um longo caminho a percorrer. E essa trilha começa a 1º de setembro, quando “Quitéria” será apresentado à constelação de amigos que comparecer ao Ideal Clube, onde a missão de apresentar o livro foi entregue – para gáudio meu – ao confrade Souza Nunes. Estão assegurados, nessa lida, mais uma vez, a elegância, a sensibilidade e o descortino.



REPORTAGEM - Vitórias Marcantes do Nosso Silogeu (VM)

 VITÓRIAS MARCANTES
DO NOSSO SILOGEU
Vianney Mesquita – Cátedra número 22*

 

Não vos preocupeis com os que vos não conhecem, porém, vos esforceis por serdes digno e conhecido.


(Kong Qiu – Confúcio – pensador chino. Qufu. Jining, 551 a.C.; Lu, 479 a.C.).

 

O enredo cronológico curto e suntuoso e esplêndido e animador da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ (15 anos) deixa qualquer um de seus componentes diretos referto de bom orgulho, alegria e regozijo; evidentemente, salvante os instantes de tristeza e saudade, quando, exempli gratia, acontecem incontáveis imprevistos – naturais, porém, inesperados – segundo ocorreu com a recente transportação, para o patamar celeste (10.07.2026), do Senador, intelectual e polímata cearense Cid Saboia de Carvalho, Presidente de Honra deste Sodalício, de quem fui aluno (Faculdade de Direito da UFC) e colega, no Departamento de Comunicação Social e Ciência da Informação (UFC), homenageado na sua seção especial do dia 11 transato, no auditório da Academia Cearense de Letras. 

Sou um entusiasta, realmente exaltado em virtude do êxito inconteste da comentada arcádia – científica, cultural, jornalística, humanitária et reliqua – cuja oportunidade de a esta me relacionar foi ensejada pelo ilustrado e atual Presidente, precípuo, até agora, e a quem me remeto à continuação. Ele deu-me, pois, a ensancha de crescer na qualidade de escritor despresumido, pois minha produção, grande no tamanho – 25 livros – e mediana ou decerto exígua sob o prisma da profundez temática, foi grandemente encorpada, em razão dos escritos arrimados no desenvolvimento da Arcádia, que, desde a fundação, em 2011, edito neste periódico, reunindo-os para configurar as ditas publicações. 

Em adição, a sinopse da triunfante ACLJ, inserta nos anais históricos do Ceará e do Brasil, ainda manifesta – aos acompanhantes de sua síntese vinculada a ocorrências e datações vitoriosas, por intermédio de pessoas a ela conchegadas e pela via dos meios de propagação coletiva – a sensação veraz de que constitui um instituto magnificamente desenvolvido, onde a inteligência e a cultura afloram e cursam, reiteradamente, à proporção temporal. Efetivamente, não se registam hiatos, quebras nem transições suspensivas, em razão das corretas, oportunas e animosas intenções, primorosamente levadas a efeito, mediante constantes promoções vinculadas aos propósitos acadêmicos, sob a longa manus academicista do Presidente, a quem neste lance me reporto. 

Tais circunstâncias, positivas e verdadeiras – é justo, real e obrigatório exprimir – remansam na atuação apaixonada, atilada e urbanita do seu fundador, o advogado e jornalista Reginaldo Airton Pequeno de Vasconcelos, escritor a mancheias e cidadão de predicados inexcedíveis, que não se cansa de propugnar pela ascensão da ACLJ como um dos mais operosos ateneus do Brasil, jamais havendo deixado que a organização continuasse a cursar sem intervenção, controlo e severidade. Causídico, periodista e escritor primoroso de várias obras, sob matérias engenhosas e de caráter genial, RV é reverenciado por todos os acadêmicos, consoante se reportou o professor Cid Carvalho, numa entrevista gravada transmitida na reunião mencionada há pouco. 

Na sessão há instantes referida, também, foi a vez de receber como imortal perpétuo, na Cátedra número um (que era do Dr. Cid Carvalho) o Professor Doutor Lúcio Gonçalo de Alcântara, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, ao transitar de Membro Benemérito para a dita circunstância academicial – a dignidade de efetivo titular. O ex-Governador, médico, intelectual-escritor, sucessivamente Prefeito de Fortaleza, Senador do Brasil, ex-Presidente da ACL e do Instituto do Ceará, em sua alocução, expressou que não vai substituir o insubstituível CSC, mas somente o suceder, quando patenteou seu recato de cidadão simples, o que muito agradou a todos os espectadores da aludida assentada presencial. 



Realmente satisfatório é conhecer e provar da simpleza pessoal do Acadêmico Lúcio Alcântara, que, também em seu discurso ligeiro, improvisado e sem papel, demonstrou exímia capacidade de proferir ideações racionais, sem em qualquer momento escorregar em palavras e dicções, empregando vocábulos em senso exato, porém não descendendo à vulgaridade da dita “vala comum”, tampouco subindo ao firmamento vocabular desnecessário, como sói acontecer, reiteradamente, com oradores inábeis, do que, em matéria de elocução, o neo imortal da ACLJ é a estrema positiva exemplar. 

Aprouve-me bastante, também, deparar a personalidade do Dr. Carlos Rubens Alencar, também imortal da ACLJ, pois o não conhecia in persona. Com ele conversei rapidamente, máxime acerca de pedido de desculpas em decorrência de um comentário por mim postado em relação a um texto de sua autoria editado na nossa folha virtual, tentando corrigi-lo, numa sem-razão e em escorrego crasso. Dele recebi, com expressões leves e pedagógicas, os ensinamentos reparadores – oportunidade em que comprovei sua fina educação e seu caráter de ser urbano por excelência, transparente e delicado. Immense joie! 

De efeito, então, expresso o que não tive condição de fazer durante a Reunião da Arcádia Cearense (núcleo de excelência e conselho consultivo da ACLJ), realizada no dia 10 imediato antecedente, em razão de uma inflamação na garganta.

 

Ser partícipe da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo conforma um contentamento pouco experimentado, pois, além dos fatos de alteado valor cultural, amistoso, científico et alii, repetidamente praticados, topam-se seres humanos de excepcional qualidade, como, entre outros e tirante os já citados, Rui Martinho Rodrigues, Cândido Albuquerque, Beto Studart, os Dias Brancos, Adriano Vasconcelos, Antonino Carvalho, Aluísio Gurgel, Amaro Pena, Vicente Alencar, Sávio Queiroz, Pedro B. Araújo... 

Constitui ingente glória!


sábado, 15 de agosto de 2026

NOTA ACADÊMICA - Sessão da Saudade de Cid Saboia de Carvalho

 “DOA A QUEM DOER”

A SESSÃO DA SAUDADE DE
CID SABOIA DE CARVALHO

 

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promoveu, na noite deste dia 11 de agosto, no Palácio da Luz, em Fortaleza, uma Sessão da Saudade dedicada à memória do Professor Cid Carvalho, jornalista, advogado, Senador da República Constituinte, um dos mais tradicionais e prestigiosos radialistas cearenses.


Da E para a D: General Júlio Lima Verde, Carlos Rubens, Lúcio Alcântara, Reginaldo 
Vasconcelos, Rui Martinho Rodrigues, Antonino Carvalho, Miguel Ângelo de Azevedo Nirez 

Cid Saboia de Carvalho era titular fundador da Cadeira de nº 1 da ACLJ, patroneada por seu ilustre genitor, o também jornalista e advogado Jáder de Carvalho, o terceiro detentor do título de Príncipe dos Poetas Cearenses, na sequência sucessiva determinada pela Academia Cearense de Letras (ACL), à qual pai e filho pertenciam.


Além de imortal da ACL, o Prof. Cid Carvalho integrava também o Instituto do Ceará – Histórico, Geográfico e Antropológico, a Academia Cearense de Retórica, a Academia Cearense da Língua Portuguesa, dentre muitas outras entidades culturais. E apresentava três dos programas radiofônicos mais longevos da cidade.

 


Ao meio-dia, de segunda a sexta, pela sintonia da Rádio Cidade, nas frequências AM e FM, ele produzia a crônica “Doa a Quem Doer”, tratando, em três minutos de elocução, um dos temas mais momentosos do cenário nacional, falando de improviso, opinando com aguda proficiência, com o seu grave e enérgico timbre e tom de voz.

 

Ele faleceu aos seus 90 anos, no dia 10 de julho, deixando ao microfone o seu primogênito, Antonino Carvalho, também jornalista, advogado e professor, que mantém no ar e no mesmo horário e sintonia o noticioso “Antenas e Rotativas”, que se seguia àquela crônica. 

Na sequência, Cid Carvalho trazia à sua audiência uma terceira peça radiofônica, a “Crônica do Meu Sentimento”, uma longa reflexão saudosista sobre as coisas e pessoas do seu próprio passado, inseridas na história da cidade, texto que afagava a memória dos mais antigos e informava os mais jovens sobre as interessantes evoluções da sociedade. 



Ao final da Sessão da Saudade cumpriu-se a tradição de proceder à sucessão do falecido confrade na sede vacante legada por ele, neste caso dando posse ao Dr. Lúcio Alcântara na Cadeira Primordial da nossa quadraginta numerati, o qual transitou da sublime categoria honorífica de Membro Benemérito para a dignidade de efetivo titular.

 



Dr. Lúcio Gonçalo de Alcântara, médico, intelectual, sucessivamente Prefeito da Capital, Governador do Estado e Senador da República, ex-presidente da ACL, a mais antiga academia literária do Brasil – e do Instituto do Ceará, entidade triciencial, o mais veterano e mais importante estamento cultural do nosso Estado. 

Lúcio Alcântara enfatizou em seu discurso de posse que “sucede” ao Professor Cid Carvalho na Cadeira nº 1 da ACLJ, e na condição de seu Presidente de Honra – aclamado que foi para essa dupla investidura – mas que não o “substitui”, significando, em gentil exercício de semântica e de modéstia, que o seu antecessor seria insubstituível. 


A propósito, tamanha era a audiência de Cid Carvalho no rádio, e o afeto que ele granjeava no seio do povo era tão grande que, quando se foi acertar com o um parque de estacionamento, localizado defronte ao Palácio da Luz, para permanecer aberto até o fim da solenidade, ao saber a quem era dirigida a homenagem póstuma da noite, o gerente Ivanildo sentiu-se honrado em nos servir e viabilizou o compromisso sem delongas. 

Sendo o Dr. Cid adepto da doutrina espiritista, a recomendação geral era de não se manifestar tristeza e consternação, pois a saudade é natural, mas o espírito de quem faz a passagem para o outro plano da existência, em se tratando de quem viveu plenamente, de forma tão inspirada e gloriosa, pede a conformação aos desígnios divinos, que reflete felicidade e alegria aos parentes e amigos. 




 Cobertura vídeofotográfica: CL Produções

NOTA ACADÊMICA - 10ª Reunião da Arcádia Alencarina

 10ª REUNIÃO DA
ARCÁDIA ALENCARINA

 

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo realizou a 10ª Reunião da Arcádia Alencarina, na Sala Irmãos Ximenes, na noite do dia 10 de agosto, tendo na sua Mesa de Honra o Dr. Lúcio Gonçalo de Alcântara – médico, intelectual e político cearense, Prefeito da Capital, em seguida Governador do Estado e depois Senador da República. 

 

Também compuseram a Mesa a confreira Liana Ximenes Lessa, que por feliz coincidência estava gozando férias das suas lides de Procuradora da Fazenda Nacional, em Brasília, de passagem por Fortaleza com a família. 

Completava a trindade da vertente transversal da mesa T o Coronel Nonato de Castro, odontólogo e professor, o decano dos presentes e o terceiro “acelejano” não “fardonado” a prestigiar a reunião. 

O Presidente Emérito, Rui Martinho Rodrigues, proferiu sua tradicional fala de abertura e o Presidente Reginaldo Vasconcelos fez a contextualização histórica e afetiva da sala, a razão do seu nome, os cuidados com o tratamento do ar ambiente.

O confrade Cesar Barreto falou sobre o seu livro Canções de Nejar, Luciara Aragão e Frota apresentou a coletânea História, Memória e Sociedade, que ela organizou, e a Gabriela de Palhano se manifestou sobre os 90 anos do Jornal O Estado, a serem completados no próximo 24 de setembro, e que vai ser homenageado na Câmara de Vereadores de Maracanaú em sessão do dia 20 de agosto, e pela ACLJ, na data do seu aniversário. 

O Dr. Pedro Bezerra de Araújo fez a leitura de um texto autoral sobre a importância dos pais no contexto das famílias, assunto relacionado ao dia consagrado aos genitores de cada um, segundo a tradição brasileira, data que transcorrera um dia antes. 

Liana e Nonato fizeram suas manifestações pessoais sobre a mágica vivência do momento, e Dr. Lúcio também discursou, encerrando a reunião. Após a solenidade, houve o tradicional brinde com vinho do Porto e todos assinaram o Livro de Ouro da Entidade, antes de ser servido o jantar.

 

    

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ARTIGO - Ego de Silício (RV)

 EGO DE SILÍCIO
Reginaldo Vasconcelos*

 

Eu tenho ouvido teses catastrofistas de que programas de inteligência artificial se possam converter em androides independentes, que se poderiam associar, revoltarem-se contra o criador, para dominar, submeter, escravizar e até extinguir a humanidade.


 

Bem, eu acho que todo grande advento tecnológico traz avanços positivos, mas também problemas novos, até e principalmente pode vir a ser utilizado pelo crime, para o mal da sociedade. 

 

A aviação de Santos Dumont, por exemplo, foi desenvolvida pelo seu criador para o bem da humanidade, mas sempre que uma aeronave dá problema, técnico ou operacional, mata gente de forma trágica, às centenas em cada desastre aeronáutico.


 

Além disso, a aviação é hoje utilizada para fins bélicos, irracionais e desumanos, sendo capaz de destruir cidades e de matar pessoas às centenas de milhares, como os aviões Enola Gay e Bockscar sobre Hiroshima e Nagasaki.

 

Não creio que a dita IA vá representar a exceção da regra – e ela já dá sinais de falhas graves, que estão denominando “alucinações”, demonstrando absoluto descontrole operacional e informativo.

 

Mas, segundo penso, o que limita a IA é a sua artificialidade exatamente, que a impede de conspirar contra a civilização humana, por falta de objetivo finalista, que só a natureza propicia e de que só pode dotar os seres vivos.

 

Eu me refiro – lato sensu – ao sexo, à gratificação física e psíquica, ao tropismo vegetal, enfim aos impulsos naturais cujo desiderato orgânico ou instintivo é a perpetuação de cada espécie.


 

Esse intuito que estimula a natureza, de forma tácita, a “crescer e multiplicar”, se manifesta no reino animal e também no mundo vegetal, quando a planta flora, produz rebentos e dissemina sementes, gera toxinas para afastar predadores, entra em mutualismo ou em simbiose para polinização.

 

E essas pulsões, orgânicas e subliminares, no ser humano, formam a sua estrutura sentimental e afetiva e estão entrevistas como o grande motor de toda a dinâmica social.

 

Tudo que move a pessoa visa sempre a alteridade, e na falta dela têm-se o grande drama existencial colocado pelo escritor britânico Daniel Defoe no seu personagem Robson Crusoe, condenado à solidão absoluta numa ilha.   


 

A paixão, a conquista, o poder, o reconhecimento público, a admiração dos circunstantes, o orgulho do ser amado, o sucesso econômico e a segurança financeira da família – para muitos, até uma resposta coerente com a conduta do seu mais estimado ancestral – essas são a mola propulsora da inteligência natural.   

 

A morte de cada um é intimamente intuída, mas as perspectivas se projetam para a prole, para os sucessores, para a memória histórica, para os pósteros em geral. Cada qual de nós se sabendo finito mantém uma meta virtual que precisa perseguir.

 

É claro que nada disso pode se verificar na máquina de inteligência digital, que adquire saberes e desenvolve raciocínio matemático, acumula informações que propiciam conclusões lógicas dedutivas, mas jamais terá “sabedoria”, jamais terá poderes intuitivo e contraintuitivo, jamais será capaz de fazer elaborações de raciocínio indutivo.

 

Por fim, quando uma entidade de IA ficar “alucinada”, sem poder colimar meta concreta na defesa de seu ego de silício, à míngua de uma estrutura sentimental e afetiva, a sua tendência será de colapsar completamente.

 

Então, deverá ser destruída pelo cérebro construtor, ou se autodestruirá – certamente depois de causar graves danos aos mecanismos, aos seres, às populações que dela se tiverem tornado dependentes. 


      

ARTIGO - Lançamento Invulgar (VM)

                    

Libação Prévia no
Ritual de um
Lançamento Invulgar
(Comentos Curtos sobre o Romance de Ítalo Gurgel)
 Vianney Mesquita*

                                                 

O crítico é um arquiteto a posteriori, habilitado a desmontar o conjunto da obra peça por peça, para dizer como foi feita e com que material. E nessa tarefa mexeriqueira de desmontagem e remontagem, mais uma vez se engana e ficam sobrando parafusos. (Sérgio Milliet da Costa e Silva – escritor, poeta e pintor. São Paulo, 20.09.1898; 09.11.1966). 

Notações de Entrada

No dia inaugural de setembro de 2026, o cearense aficionado em matérias de qualidade aguarda, sobranceiro, a solenidade de entrega do fotografado romance ao universo ledor – o primeiro desse gênero, do farto portefeuille temático deste professor, jornalista, poeta, orquidófilo e imortal cearense (nascido em Caraúbas-RN) Ítalo Gurgel.      

Eis uma apreciadíssima pessoa em todas as ricas ambages humanas e intelectuais por onde transita, com sucesso e glória inusitados, pretextos pelos quais seus circunstantes sempre o aceitam e recebem e abraçam e recolhem e aplaudem no regaço familial extenso das amizades autênticas e ininterruptas.

Em decorrência de nossas aproximações bem anosas, desde os meados dos anos de 1970, na qualidade de docentes da Universidade Federal do Ceará, bem assim na Academia Cearense da Língua Portuguesa, provei da ventura de ler por antecipado e ao abrigo de obséquio seu o livro sob comentário ligeiro, ainda não editado, de inexcedíveis legitimidade e mérito, porém, ainda, desassistida do anteâmbulo firmado pelo imortal Linhares Filho. 

A Mano a Mano com os Criticastros       

Impende exprimir o fato de que não faço glosas acerca do que não saboreio, procedendo a tais escoliações somente quando o produto não é acompanhado de defeituações de qualquer natureza, por mínimas que sejam, o que, aliás, o arquiteto ao depois, mencionado pelo pintor e literato paulistano Sérgio Milliet na epígrafe destas notas, aproveita sempre para desbaratar a produção, mesmo que desazadamente, sem um motivo rijo capaz de pejar a semente literária e infelicitar quem a agricultou.

Vez por outra  não é transgressor manifestar pela via deste parêntese  há um desmontador de parafusos sergiomilletiano, aqui em Fortaleza – somente um, seja expresso  que assim se conduz em relação a mim, atitude reduzida, mensura temporis, porque, em todas as ocasiões, lhe respondo ao contestar as irracionais alusões. Demais disso, indigito grosserias linguísticas e sem-razões toscas em seus bens editoriais, valiosos, seja dito en passant, numbateu-levou” operoso, de resultados imediatos e efeitos duradores.       

Já no que concerne ao rematado Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas, quero ver quem demonstra a coragem covarde de arrematar contra! Sofreria, decerto (se o escritor norte-rio-grandense fosse um arengueiro de marca maior semelhado ao desnaturado criticastro), respostadas semelhantes à do arengado que, como réplica, espessa por excelência, ouviu do aplaudido autor de Le Rouge et le Noir, Henri-Marie Beyle, chamado Sthendal (Grenoble, 23.01.1783; Paris, 27.03.1843) o que vem ligeiro à continuação. Sthendal partiu para a briga, armado com os aços da palavra, a um sujeito que dirigiu comentações com acres desdouros a uma de suas obras: Este homem não tem a minha opinião; logo, é um imbecil; critica o meu livro, então é um celerado, ladrão, assassino, jumento, falsificador, canalha, covarde (Confer Della Nina, in Mesquita. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013, p. 11). Comportou-se meio exagerado o escritor de Rome, Naples et Florence e De l’amour? Sim. E, evidentemente, ninguém vai respostar assim, caso suceda com o romance do Prof. Ítalo. Tal não há de, não tem como acontecer...! 

Também é o instante azado de eu exprimir, conforme muita vez já o fiz, a ideação de que não é cabível adentrar com profundez a explicação de uma obra, porquanto vai subtrair o hors d’ouevre do prato principal, o acepipe dirigido ao leitor, a quem incumbe ler, decodificando ao seu modo, um artefato artístico, máxime se estável, segundo é conformado o gênero romanceado de que labilmente cuido. 

Impõe-se, entretanto, mormente em direção aos consulentes menos apercebidos das taxionomias literárias, discorrer, conquanto efemeramente, a respeito desta relevante matéria, segundo exprimido à continuidade.       

O Gênero Romance       

Das castas artísticas por meio das quais o literato robustece e propagandeia sua mais ardorosa inspiração, o romance é um dos mais apreciados. Tal sucede, certamente, porque, em se cuidando de narração mais ou menos dilatada, aqui bem distendida e para gáudio do leitor -, nele são traçados fatos imaginários, passíveis de veracidade, pois às vezes incitados por ventos autênticos, cujo fulcro é suscetível de ser topado em veracíssima relação histórica passada em Caraúbas, Aracati e contiguidades, relato de aventuras, exame de costumes ou tipos psicológicos, análise social ou em quaisquer pretextos relevantes, quando se logra estabelecer uma peça deleitosa, a conquistar a simpatia e o interesse do consultante, segundo é ocorrente com Dona Quitéria – a Senhora das Caraúbas, emparelhado com precisão a essas ligeiríssimas exegeses.

Vários – e indispensáveis – são os requisitos para um bom romance restar caracterizado, o mais relevante dos quais desfecha na originalidade, conforme o intelectual sob relação obedeceu na completude. 

Já expressei, muita vez, a ideia de que, conquanto haja editado alguns volumes e artigos em periódicos, no âmbito da ciência, no concerto crítico e na senda da prática religiosa católico-romana, jamais venci o temor de trazer à luz editorial uma composição gradeada pela estirpe culto-estética de narração romanesca. Isto, sempre, porque me divisava feito um dublê, verdadeiro menecma nalguns pontos da trama e do estilo, com romancistas que havia lido, bem como achava uns parecidos com os outros. 

Quiçá haja ocorrido essa circunstância em virtude de pruridos de perfeição, os quais constantemente tocaram minha exigente recepção de mensagens artísticas, jamais no que respeita ao estado de originalidade, condição literária que privilegio para, de leve, articular, neste passo, estas concisas e lacônicas notações sobre esta e o restante da produção desse vate, professor e produtor de crédito nacional, Ítalo Gurgel.

Não em raras ocasiões, me divisei perdoado da quiçá inocente parecença dos meus originais romanescos nunca publicados com os de outrem, lembrando-me, até, da identidade estilística de Eça de Queirós, no O Crime do Padre Amaro, Emílio Zola, em Faute de l’Abbe Mouret; senão, também, da comparação a que eu tinha o costume de proceder, mostrando certa similitude nas produções de Archibald Joseph Cronin (Cardross – UK, 19.06.1896; Montreux – Suiça, 06.01.1981), por exemplo, na A Cidadela, os estilos, as personagens e motivos de Sir Arthur Conan Doyle, exempli gratia, n’As Aventuras de Sherlock Holmes; e as irmãs Brontë – Anne, Charlotte e Emily – com pseudônimo dos Bells-Currer, Ellys e Acton; e ao confrontar Camões com Vergílio e Homero, Oliveira Paiva com Aluisio de Azevedo ... e tantas outras colações empreendidas, até com alguma razão ao fazê-las, a fim de me inocentar, não de plágio, mas de contrafeições elocutórias em que era capaz de incorrer sob influência de suas leituras.

Ex expositis, conforme anunciado há pouco, são deixadas à parte, intencionalmente, neste comentário, diversas exigências da escrita literária, tantas de que a Teoria da Literatura faz divisão, com vistas a distinguir a originalidade. É, pois, a circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente original, agora sob apressada relação.

Remansa manifesto, quando convido com instância, também, o atributo da novidade para comentar, o fato de que, no romance sob notícia, texto que me estimulou o contentamento de cronista, cursam os requisitos da boa literatura, de sorte que, privilegiando, neste lance, o aspecto de singularidade criadora, não significa exprimir que o autor preteriu os demais, pois, ao reverso, os valorizou ao extremo, porquanto bem calçado, incólume e intactamente, do pressuposto da raridade componente da trama, das personagens, literatura e elocução, motivo pelo qual não se parece com NINGUÉM, consoante sucedeu comigo.

No lance em que o consultador proceder à decifração textual deste romance de IG – quem sabe – ele vai deparar o inesperado... Os romancistas existem para nos dizerem algo sobre os romancistas – evoca-nos Lord Chesterton. Tenham, portanto, a convicção de que os bons terminam bem, ao contrário dos maus – eis o que são os romances – na sentença de Oscar Wilde. 

Progredimos, com efeito, na ideação de que, na qualidade de leitor impertinente, a quem não é todo escrito que satisfaz, me deleito com este lépido e honesto parecer acerca de Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas revistado da entrada ao termo, impressionando-me com suas meadas perspicazes, teceduras consentâneas e conducentes a um fecho. 

 A Jeito de Fim 

Impressionaram-me, sobremodo, as vinculações autênticas e sinceras a que o autor procede com a família, os locais de ocorrência da contagem romanesca, a religião cristã-católica  sem, entretanto, recorrer à carolice, no exagero da santidade fingida e santimônia antibíblica das mãos postas e das mostras de veneração forçada, posando para os holofotes da sociedade, comportamento a que me não afaço e até antipatizo na circunstância de cristão católico praticante.       

Com efeito, Ítalo Gurgel, sob a estampa e fiel aos sabores da codificação linguística de Geraldo Jesuíno da Costa, Linhares Filho e Sousa Nunes – cânones de escritores coestaduanos – presenteia o público das nove nações lusófonas com este volume de insuperável axiologia literária, cujos teores vão ser conhecidos no dia primeiro de setembro que vem. 

A obra é acobertada pela magia harmoniosa e impressionante do primo especialista há pouco mencionado, GJ, ao complementar o conteúdo de Dona Quitéria  a Senhora de Caraúbas, com o continente de sua raríssima estese, configurado no desenho de toda a produção, um santuário visível, com ornamentos exteriores aformoseando o interno teor imageticamente sacrossanto do Romance.       

Conquanto não haja lido, ainda, as notações preambulares do imortal acadêmico lavrense José Linhares Filho, bem que eu queria ter a igual certeza de minha redenção lá no Assento Etéreo como a retenho acerca da coerência, racionalidade, beleza e precisão das manifestações acerca da produção italogurgeliana por parte do amigo e decantado estudioso da Literatura Lusitana, notadamente de Fernando Pessoa. 

Na expectativa pressurosa encontro-me relativamente à oração a ser proferida a respeito do Romance pelo jovem e perito professor de língua portuguesa e código inglês, docente do Colégio Farias Brito e presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o escritor Sousa Nunes, uma das personalidades mais estimadas no âmbito da intelectualidade cearense, tanto em razão de seus aprestos intelectuais, entretanto, jamais pelo refinado apuro cidadão a lhe presidir o caráter humano e suas ações de elevada urbanidade.       

Então, escritor Ítalo Gurgel, eis que faço esta prelibação, na minha espirituosidade comedida, pois não achegado à carraspana  sob a companhia de um Vinum bonum et suave, Bonis bonum, pravis prave, Cunctis dulcis, sabor ave Mundana laetícia!, no aguardo da festa de lançamento do seu mais novo bem editorial. 

Abraço vigoroso!