quinta-feira, 29 de outubro de 2026

POEMA - Sino de Bronze (GT)

SINO DE BRONZE
George Tabatinga *

(A Berilo Neves)



Velho bronze imortal de estranho fado
Instrumento de Deus, sagrado e forte,
Alma férrea da fé, voz do passado
Das crenças eternais vigia e norte
 
És da igreja de Cristo o eterno brado
És nume tutelar da humana sorte
Ora alegre a espelhar sons de noivado,
Ora triste, a chorar, lembrando a morte
 
O nosso coração também é sino
Na catedral do peito encarcerado
Tangido pela força do destino
Em cântico de amor sonoro e lindo
Ou em repiques de dor, despedaçado
Hás de sempre tocar, chorando ou rindo.

 

# Nota editorial: O autor desse belíssimo poema, Berilo Neves (1899-1974), aqui destacado por George Tabatinga, foi um jornalista e literato piauiense.




RESENHA - Três Crônica, Mil Carnavais (AR)

 TRÊS CRÔNICAS,

MIL CARNAVAIS
Alison Ramos*



O carnaval é o mote dos três textos: “Muitos Carnavais”, “Simbora Amar” e “O Inverno e o Carnaval”, de Reginaldo Vasconcelos. No entanto, o assunto, ainda que localizado no centro dos escritos, não ultrapassa a sua função de pretexto. Há, muito além desse elemento temático, necessário a todo princípio, uma poesia que nos permitiria atribuir, antes de tudo, valor lírico às crônicas. Esse lirismo, pelo menos no sentido básico do termo, está atravessado pela nostalgia. Nota-se, assim, a emergência de uma subjetividade que volta ao passado, fazendo desse tempo parte de sua expressão presente.

Nessa mistura, em que o ontem e o hoje se tornam quase indiscerníveis, o asfalto funciona como o misterioso fio que se desenrola e sustenta essa viagem lírica sob as rodas do tempo.  Quem não deseja ir rumo ao interior – geográfico – espelho de um interior maior e tão distante que a vista não alcança? A resposta poderia ser óbvia, mas é necessário que se diga: só aqueles que são capazes de ir “simbora” num ato de amor.

Não se trata de um amor ideal. Antes, é aquele amor que todos conhecem, mesmo sem saber. É o amor de quem escreve, como diria Proust, n’ A Busca do Tempo Perdido. É, no caso das crônicas, o amor de um folião que reconhece os retalhos mais coloridos de carnavais passados para compor a sua colcha. 

É o amor que não transcende, mas, permanecendo na imanência de todas as coisas – da Natureza – desdobra-se nas sensações. São os “trovões”, que rasgam “abismos celestes, abrindo-se em relâmpagos colossais”, que anunciam o inverno: “carnaval da natureza, que se fantasia de verde a festejá-lo, numa alegoria gigantesca.” No viço de tais fenômenos maravilhosos, brotam amores que, efêmeros, deixam o traço de um amor absoluto, sobre o qual aqueles que creem diriam tratar-se do amor de Deus.


Passada a folia de mil carnavais, em que dois tempos se cruzam – o presente e o passado – fecundando a vida dionisíaca e a criação poética, fica a quarta-feira. Não há mais cinzas, mas apenas a catarse de quem sobrevive e um asfalto lavado de saudade. 


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

RESENHA - Leitura do Soneto Frugais Opções (APMC)

 Leitura do soneto
Frugais Opções de
vianney mesquita
(Em homenagem ao Dr. Reginaldo Vasconcelos, Presidente da ACLJ)

Ana Paula de Medeiros Caratti*

 

 

“Quando a escolha é impossível, o melhor é não criar dificuldades”. (GEORGE MACDONALD. Escritor escocês. Huntly, 10.12.1824; Ashtead-UK, 18.09.1905). 

 

Frugais Opções**, soneto decassilábico português de autoria do Mestre palmaciano Vianney Mesquita, brota de uma alma que aprendeu a escutar o tempo e já não se inquieta perante o que não é capaz de controlar. Os mais jovens atravessam a vida acreditando que têm nas mãos as rédeas do próprio destino. Quem já tocou a Lira dos Oitent’Anos é mais atento aos mistérios da vida e nos ensina que nem todos os caminhos se abrem à força de nossas vontades. 

Ao refletir acerca do poema sob comentário, transportei-me à leitura que fiz, à época do meu Doutoramento, indicada pelo meu inesquecível orientador, Prof. Dr. Raimundo Hélio Leite, ex-Reitor da Universidade Federal do Ceará. Ele me aconselhou a ler A Filosofia da Vontade, de Paul Ricouer. Nessa obra, o Filósofo francês, de enorme prestígio internacional, discute a relação entre o que o ser humano sabe decidir e o que, embora não tenha escolhido, integra inevitavelmente sua existência. Para o Escritor valentino (Valence, 27.2.1913; Châtenay-Malabry, 20.5.2005), nossas decisões estão continuamente relacionadas a condições que não escolhemos: nosso corpo, as necessidades, a história e os limites impostos pela própria vida. Essa ideia encontra correspondência com o primeiro quarteto das estâncias ora comentadas. 

Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.

 

O Sonetista reconhece a tensão expressa nos estudos de Ricouer: possuímos desejos e possibilidades de escolha, mas sabemos que nossa vontade não governa soberanamente os acontecimentos. Daí a escolha de V.M. sobre a expressão Senhor Destino, ou seja, representa algo a nos fugir da vontade. 

Outro aspecto interessante nos estudos de Ricoeur é o modo como ele discute a atitude humana perante o inevitável. No soneto, o segundo quarteto e o primeiro terceto conduzem uma ideia muito semelhante à noção de consentimento, estágio mais maduro do ser humano ante o que não está habilitado a governar. 

Na segunda quadra, observam-se contornos de recolhimento que o Escritor desenha, quando as possibilidades de escolha se contraem. Nestas circunstâncias, o Autor de Estâncias Decassilábicas Lusitanas (Palmácia: Arcádia Nova Palmaciana, 2024) mostra-nos que tem uma atitude reflexiva sobre o que escapa ao seu domínio. Quando diz Dispor-me-ei no imo desta bolha, há, decerto, um refúgio interior, um espaço onde a alma é passível de reorganizar seus desejos e encontrar abrigo ante as imposições exteriores. 

Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.

 

No primeiro terceto, o Poeta transforma o consentimento em atitude espiritual:

 Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.
 

Diante da ordem natural e dos desígnios divinos, sua voz poética não se rebela inutilmente, mas procura compreender e acolher. A filosofia de Ricoeur explica a estrutura da aceitação, no mesmo passo em que a poesia de Vianney Mesquita lhe confere uma dimensão de fé.

 

O segundo trio de pés arremata a ideia da Filosofia da Vontade:

Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.
 

Depois de reconhecer os limites de sua condição, V.M. reafirma a disposição de realizar seus projetos. Não se entrega à inércia, tampouco abandona seus desejos. Reconhece o que não está apto a governar, mas preserva o que ainda lhe compete realizar. A razão reconhece os limites, enquanto a espiritualidade oferece sentido à aceitação. 

Vianney Mesquita nos ensina que não somos inteiramente senhores das circunstâncias que nos perpassam, mas que também não estamos presos à passividade diante delas. Ricoeur, ao seu turno, assim leciona: entre o escolhido por nós e o que a vida nos impõe, permanece um território íntimo de liberdade. É nesse espaço que o Sonetista expõe sabedoria: acolhe os desígnios que o ultrapassam, mas não abandona os projetos ainda a lhe florescerem na alma. Seu consentimento não é rendição passiva, porém configura uma modalidade amadurecida de ter esperança. 

Aprendamos com os Mestres que nem todos os caminhos obedecem à vontade humana, todavia, ainda nos pertence a graça de escolher como continuar caminhando.

 

** Texto aqui publicado no dia 9.10.2026 

FRUGAIS OPÇÕES
Vianney Mesquita
(Para o Dr. Reginaldo Vasconcelos)

Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.
 
Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.
 
Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.
 
Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.

 

* Prof.a Dr.a Ana Paula de Medeiros Caratti
Professora do Departamento de Estudos Interdisciplinares, UFC.
Academia Cearense da Língua Portuguesa
Cadeira 12

REFLEXÕES - Que Coisas Mais Loisas! (AG)

 QUE COISAS
MAIS LOISAS!
Aluísio Gurgel*

 

 SEMINAL

Passava horas olhando o mar enquanto você crescia no meu ventre. Esperava que ele retornasse mas nunca foi mais do que uma esperança. Minha vida não era compatível com retornos. Tanto é que agora há, ao meu lado, uma linda mulher que criei e eduquei e que hoje cria e educa o seu próprio filho muito melhor do que eu jamais poderia fazer – e isto me causa imenso orgulho de viver.

RONDÓ DO JULGADOR

O julgador que se comporta normalmente alcança o equilíbrio. O julgador que se mantém em equilíbrio alcança a santidade. O julgador que se mantém em santidade se comporta normalmente.

FRASES

Hoje, luta-se pela liberdade da verdade.

DE UM BISCOITO DA SORTE

A gratidão não custa nada – e tem um valor imenso.

OUTRO LUXO

Ouvir a Passacaglia, de Händel, com o seu rosto descansando no meu peito.

ESPELHO MEU

Não conseguiria conviver comigo de outra forma que não fosse sendo eu.

FAMA FAZ FAMA

Havia chegado ao Texas há uma semana e aquele bom povo me convidou para um concerto da banda Deep Purple. Aceitei no ato. A surpresa foi um guitarrista local substituindo o Ritchie Blackmore que estava bichado de gripe. O nome do substituto? Christopher. Christopher Geppert, que depois assumiu o nome artístico de Christopher Cross e em uma mesma edição do Grammy Award levou quatro das cinco premiações, algo que jamais se repetiu.

S T F 

Qual é o conflito constitucional envolvido? Se não houver um, nem se dê ao trabalho de considerar.

INESQUECÍVEL 

Na Jakominiplatz, em Graz, fui incumbido de adquirir as passagens diretamente com o motorista. Ele, um simpático senhor de óculos e boné, fez a gentileza de se aproximar para me ouvir pedir baixinho e com delicadeza: zwei tag karte, bitte! – pela concordância, percebi haver acertado tudo de primeira.

LINDO

O Maestro Poty disse por três vezes em uma mesma noite na Academia que eu estou lindo. É sério? Estou lindo mesmo? Adoraria uma foto, mas na falta me conformo com as palavras. 

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

A crônica carnavalesca deve uma enorme a José Cassiano da Silva. Ele atendia por “Seu Muriçoca”. Sua história de vida se confunde com a história do Teatro José de Alencar. 

No carnaval, entre a passagem de um bloco e outro, alguns circunstantes desfilavam no corso por conta própria, em grupos ou solitariamente. “Seu Muriçoca”, um negro alto e magro, se vestia de demônio, todo de vermelho, com chifres e capa preta, e se fazia acompanhar de um anão que conduzia um livro. À depender de quem estivesse vendo o desfile, ele parava, apontava lentamente e o anão presumivelmente anotava o nome da pessoa que ele indicou com o cajado.

CONVOCAÇÃO 

Vamos parar de proteger os nossos sentimentos e vivê-los?

METEOROLOGIA 

As nuvens com as bundinhas todas viradas para nós revelam soprar o vento Sudeste, num setembro cheio de venturas. 

FRASES IV

“A verdade que chega tarde sempre parece violenta.”

TRIO

Há a triste história do jovem Rocco Scott LaFaro que viveu apenas vinte e cinco anos, vitimado por um acidente automobilístico. Foi pouco tempo de vida, é verdade. Mas o suficiente para deixar sua marca atemporal como contrabaixista em um trio que tinha Paul Motian na bateria e Bill Evans no piano.

ERRO DE ORIENTAÇÃO 

Quando, na década de 1990, dizíamos que o Século XXI seria o Século do Judiciário não era exatamente a isto que estávamos nos referindo.


MENSAGEM FILOSÓFICA - Um Tempo Para o Amor (PN)

 AMÓRIS TÉMPUS
(EM LATIM)
Pierre Nadie*

Témpus vivéndi,
Gáudio plénum,
Sapiéntis est consílium,
In ânima inscúlptum.
 
Qui pácem desíderat
Prúdens sit ac cônscius,
Vita cito trãnsit,
Ímprobos aut negligéntes non ampléctitur,
Nec tardos exspéctat.
 
Amare dum ádhuc pótest
Sánum et réctum est,
Quia vita transitória,
Inutilisque omnis fletus.
 
Quicúmque síbi dícit:
Carpe, carpe díem,
Si fídes in eo non est,
Vánitas, mérae voluptátes.
 
Âmor in corde náscitur,
In mente hóminis créscit,
Sed eléctio voluntátis
Viam sequéndam índicat.
 
Sícut rádix árborem sústinet,
Quae, fórtis et sana créscens,
frúctus abundántes prodúcit,
Âmor et fídes iustítiam et pácem páriunt
 
Et Deo grátias ágam
fónti amóris indelébili.
Útinam flátus Spíritus êxcitet
tolerántiam et pácem in mundo!

 

TRADUÇÃO

Um Tempo para o Amor

Um tempo para viver,
repleto de alegria —
este é o conselho dos sábios,
inscrito na alma.
 
Quem deseja a paz
deve ser prudente e atento;
a vida passa depressa,
não acolhe os perversos nem os negligentes,
e não espera pelos indolentes.
 
Amar, enquanto ainda é possível,
é sensato e correto,
pois a vida é passageira,
e todo pranto é em vão.
 
Quem diz a si mesmo:
“Aproveite, aproveite o dia” —
se lhe falta a fé,
isso não passa de vaidade — mero prazer.
 
O amor nasce no coração,
cresce na mente humana,
mas é a escolha da vontade
que determina o caminho a seguir.
 
Assim como a raiz sustenta a árvore —
que, crescendo forte e saudável,
produz uma colheita farta —
também o amor e a fé dão origem à justiça e à paz.
 
E eu darei graças a Deus,
fonte indelével do amor.
Que o sopro do Espírito desperte
a tolerância e a paz por todo o mundo!
 


domingo, 18 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - Fisiografia Intimista (VM)

FISIOGRAFIA
INTIMISTA
Vianney Mesquita*

 (Para Jesuino, Sousa Nunes, Ítalo, Reginaldo e Márcio Catunda)


 
 

Com vistas a decodificar estas estâncias, no âmbito brasileiro, impõe-se comparar a semântica da ciência geográfica e seus saberes afins com igual sub-ramo da linguística a se referir ao ser humano no concerto feminino.

 

Adentro em carta a topografia.
Desguarnecida te vejo, “des” calças,
Sem o uniquini, que pouco cobria,
Nem o corpete provido de alças.
 
Prodigiosa antropogeografia,
De uma Serra Pelada o ouro exalças.
A navegar nesta cartografia,
Em cuja ria, minhas mãos são balsas.
 
Há dois serrotes, lisos e carnudos,
E a popança, de lados polpudos,
Com cânion e cava dúplice hidrográfica.
 
Convém, leitor, cotejar a semântica,
Pois cofio e exploro a Mata Atlântica.
Na rica testa gênito-orográfica.



CRÔNICA - Apostas (AG)

 APOSTAS
Aluísio Gurgel*


O cheiro de tinta fresca do jornal recém-chegado se misturava ao café forte que o Bodinho servia, mas o verdadeiro combustível daquela calçada, defronte da 4400, era a paixão traduzida em palpites.

Na Fortaleza dos anos 1970, a Praça do Ferreira não era apenas o coração da cidade. Era também o maior e mais barulhento pregão de apostas esportivas que o Ceará já conheceu. 

Moedas de cruzeiro mudavam de mãos com a mesma velocidade com que se desfaziam as reputações dos centroavantes no Clássico-Rei do fim de semana. Quem passava por ali jurava que o futebol era uma ciência exata, cujo veredito final dependia do humor do jornaleiro tricolor e das provocações dos alvinegros. 

Apostar, portanto, nunca foi uma novidade digital, mas uma necessidade crônica do torcedor de validar a sua própria intuição diante dos pares. O que hoje as plataformas chamam de green, na banca do Bodinho era o sorriso irônico de quem embolsava o dinheiro do rival enquanto saboreava um pastel na calçada. 

A grande diferença do presente não está no ato de arriscar, mas na solidão do gesto: o torcedor contemporâneo joga isolado contra uma grande corporação estrangeira invisível, mediado pela frieza da tela do smartphone. No reduto do Bodinho, a aposta exigia o olho no olho, o aperto de mão e a coragem de sustentar o palpite diante de uma plateia de testemunhas prontas para a galhofa no outro dia. 

Essa transição para as telas acabou por “pasteurizar” o folclore que cercava o palpite desportivo, transformando o rito sagrado da resenha em pura estatística de mercado. Onde antes havia o debate caloroso sobre a contusão do ponta-esquerda ou o peso da camisa, hoje operam gráficos de rendimento e frias análises de probabilidade.

No entanto, por mais que tentem “gourmetizar” o palpite com termos em inglês e influenciadores de terno, a alma do negócio continua sendo a mesma audácia que movia os boêmios da Praça do Ferreira. As Bets modernas apenas herdaram o DNA daquela Fortaleza analógica e vibrante, provando que a tecnologia muda as regras do jogo, mas a velha mania humana de desafiar a sorte no futebol permanece invicta.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - Ânsia Inócua (VM)

ÂNSIA INÓCUA
Vianney Mesquita*

 

(Para a acadêmica Giselda Medeiros)

 


“Os desejos infrenes são a fonte donde jorram os males afligentes das pessoas”  

(DIÓGENES LAÉRCIO, historiador/biógrafo romano de filósofos antigos)

 



Desabonar a dádiva improvisa
Ajusta-se à conduta racional:
Repele a ideia infesta e inconcisa,
Rejeita a incoerência exordial.
 
Não se haverá de ter como baliza
Desfecho imediato, excecional,
De um desejo infrene, o qual divisa
Veloz adimplemento natural.
 
A resposta, ao ser da Providência,
Não se sujeita à humanal vigência,
Porque restrita ao deciso Augusto.
 
Conservemos, por isso, a leniência,
No sítio da avidez, a paciência,
E Deus concederá o foro justo.