terça-feira, 9 de junho de 2026

CRÔNICA - A Gota e o Desenho (TL)

 A GOTA E
O DESENHO
Totonho Laprovitera* 

 

Na subida da serra de Guaramiranga, o verde se espreme e o tempo muda de passo, sossegando os pensamentos até cochilarem. E assim nasceu uma conversa com meu filho Fernando Victor – simples na forma, imensa de significados. 

Falávamos de achar um mote – uma faísca que acende ideias. Então pensei: e se achássemos uma gota perdida no painel da camioneta? Pequena, qualquer, mas guardando um instante inteiro. Seria a gota d’água? 

Minha praia é desenhar. O desenho é desígnio – risco do traço e da própria vida. Nele digo o que as palavras não alcançam. Não se prende ao tempo: é linguagem primeira, diz o que foi e o que será. Ao desenhar, a intuição guia a inteligência. 

Valho-me da simplicidade e da ingenuidade guardadas da infância para enfrentar o que vem. Sou mais forte quando reconheço minhas fraquezas. Sigo aprendiz dos reinos que dão sentido à existência. 

Tenho fé na alma da ciência e no espírito da religião. O impossível é quase certeza – desconfio dele. No universo, sou um viajante tateando o breu da infinitude. 

Gosto do desenho gestual, como risco de estrela cadente. A cabeleira de fogo dos cometas assanha a realidade e lembra que sonhar é acreditar. Linhas azuis, longas, pautam o caderno das minhas memórias. 

Procuro esquecer o que nos faz deslembrar. Espio e matuto: heróis são feitos de medo ou de coragem? Estico a baladeira para alcançar os mundos animal, vegetal, mineral e virtual – e outros tantos. O material passa; o imaterial fica. 

Desenhar, para mim, é moto-contínuo – respirar a vida. 

Tenho trocado o dia pela noite e sinto falta da luz da manhã, que aprofunda a janela da imaginação. Preciso sonhar mais dormindo; acordado, os encantos se encolhem. O corpo arde em chama clara – luz por dentro, lembrança do azul do alto. 

Quero ouvir histórias de criança e cantigas de ninar – guardar o que não tem idade. Quero o coração pulsando a minha arte. Que a loucura me proteja da normose e acenda a criação. Quero ser eu, sem virar número – ser humano até virar luz. 

Ao chegarmos ao Sítio Quatro Águas, a viagem já era outra – e eu também. Havia uma paz em mim, como se a gota imaginada se espalhasse, traçando caminhos invisíveis. Ali, na pausa da paisagem, entendi: a vida não é destino nem pressa de chegar. É o traço – o risco contínuo que traçamos ao seguir. 

E, por fim, talvez tudo comece assim, desse jeito: com uma gota de quase nada… que, de repente, vira mundo.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

POEMA - Mais Coisas & Loisas (AG)

 

MAIS COISAS 
& LOISAS
Aluísio Gurgel*

O BARULHO, O BEM E TUDO
O barulho não faz bem
E o bem nāo faz barulho
Deve-se aplicar a tudo
 
PRAGA DE PAI
Filho és, pai serás!
 
CONSTATAÇĀO

 

AS FLORES

A rosa toda prosa era a mais bela, com aquele seu olhar de sol nascer, um jeito de menina ‘inda amarela, acabou sendo o meu bem querer, o tempo foi passando e eu passando pela vida, eis que de repente me aparece a margarida, juras de amor, tanta loucura, foi demais, juntos brincamos dois carnavais, e novamente náufrago no mar da solidão, fanfarras, bebedeiras e o que desse na veneta, e tão cativa quanto a lua ao resplandecer me embriagou de amor a violeta, em seus louros cabelos me perdi, seu corpo todo conheci, o único defeito era ter pai general, foi transferido p’routra capital, tão pura e tão cheia de inocência, a última das flores foi hortênsia, não permitia a mínima indecência, por isto nosso amor foi à falência, aqui fica uma pausa no meu folhetim, há tantas outras flores que não colho em jardim, mas guardo na memória a grata recordação, das quatro que plantei no coração.


 ISAURA
Totonho Laprovitera*

 

Era querida pelos que tinham seu sangue e pelos que tiveram a sorte de conhecê-la. Isaura possuía um dom raro: bastava chegar para mudar o humor do ambiente. Aparecia nas casas dos parentes trazendo bons ventos. Sentava-se, ajeitava a saia, puxava conversa e, quando se percebia, já estava todo mundo rindo – enquanto suas mãos seguiam, tranquilas, fazendo crochê. 

Suas tiradas eram ligeiras e certeiras, sempre carregadas de sabedoria disfarçada de brincadeira. O bom humor de Isaura não era distração da vida – era inteligência mesmo, pois rir é uma forma elegante de enfrentar o mundo.

Para os sobrinhos, Isaura era figura encantada. Parecia ter nascido com a missão de espalhar leveza. Sabia escutar, sabia aconselhar e, quando o assunto ficava sério demais, logo inventava uma graça que devolvia equilíbrio às coisas. 

Com o tempo, alguns passaram a dizer – meio em tom de brincadeira, meio em tom de verdade – que Isaura era um anjo que havia crescido e resolvido ficar por aqui, andando entre as casas da família, vestida de chita e espalhando alegria. 

E talvez fosse mesmo. 

Porque, afinal, muitas famílias guardam uma pessoa assim: alguém que chega, senta-se, conversa e deixa no ar a sensação de que a vida, apesar de tudo, ainda vale muito a pena. 

Isaura era isso. 

A tia querida de todos os sobrinhos – e, de algum modo, um pouco tia de todo mundo.



segunda-feira, 1 de junho de 2026

CRÔNICA - É Gente e Me Conhece (AGMJ)

 É GENTE, MULHER, 
E ME CONHECE!
 Aluísio Gurgel do Amaral Jr*





Era uma manhã ensolarada de dezembro quando inflei o parapente, corri calmamente pela rampa da Pacatuba e decolei. 

Objetivava voar até Tejuçuoca, refazer o percurso de 110km de voo sem motor, que já havia feito de outras vezes. Usei a encosta da serra para subir, aproveitando ao máximo a corrente de vento ascendente. Atingi a base da nuvem próximo dos 1.300m e segui com ela, passando alto sobre a Tabatinga, depois sobre a Ladeira Grande, mais adiante sobre Penedo...


A cada giro que efetuava tranquilo com o parapente na região térmica da nuvem para conservar altitude, observava a serra de Pacatuba ficar mais distante. Logo, logo também ficou para trás o complexo de elevações que constitui a serra de Maranguape e prossegui meu voo silencioso e sossegado na direção de Itapebussú. A ideia era cruzar a rodovia BR-020, passar no través de Paramoti, seguir na proa de General Sampaio e esticar até Tejuçuoca, pousando ali pelas 16:00h.


Realizar esse voo é sempre sinal de boa forma técnica e causa muita satisfação a qualquer aerodesportista. Pela média, são cinco ou seis horas ininterruptas e o ruído é apenas a aragem nos ouvidos. Normalmente, o piloto se alheia do mundo e foca todo o conteúdo de racionalidade na ação de compreender a natureza e simplesmente voar. A sensação terapêutica é indescritível. Os neurotransmissores em jogo: adrenalina e endorfina.


O voo ia muito bem até eu cometer o tolo equívoco de não avaliar a condição meteorológica há uns cinco quilômetros à frente (exatamente para onde eu ia). Na realidade, não apenas não avaliei: segui voando como se tivesse avaliado. O resultado é que entrei em uma zona na qual não havia mais precipitação térmica – em outras palavras, a inexistência de térmicas significa falta de sustentação; ao invés do parapente voar feito uma asa, ele vai ao chão “paraquedando”.


Perdi altitude rapidamente, sem encontrar uma térmica sequer e dei o voo por acabado a 200m do solo. Meu modo de segurança funcionou ligeiro e me mandou encontrar um local de pouso seguro. Olhei em volta e vi uma casa com um terreiro logo à frente e uma estrada de acesso à rodovia BR-020 – não teria qualquer dificuldade de alugar a garupa de uma motocicleta para me levar até a rodovia, onde tomaria condução para Fortaleza, sem problemas.

A 50m do solo vi uma senhora de um lado da casa e um senhor do outro, ambos idosos. Ela, sentada na varanda, realizava um trabalho manual e ele, do outro lado, nú, tomava banho com uma lata. Ela olhou para cima, me viu e gritou: – Chega, Raimundo, o que é aquilo? – Tratei de fazer o social e gritei daqui de cima: – Seu Raimundo – ele ficou atarantado e eu completei: – Aqui em cima! – ele olhou e não dei descanso: – Posso pousar aí no seu terreiro? – e ele, sem pestanejar, gritou para a mulher: – É gente, mulher, e me conhece – em seguida me liberou: – Pode pousar à vontade!

(11.09.2013)



Aluísio Gurgel do Amaral Jr.
      Titular da Cadeira 
      de nº 14 da ACLJ

CRÔNICA - A Liça (AG)

A LIÇA
Aluísio Gurgel*

 

Era maio de 1993. Eu retornava de Brejo Santo para Jati. Pelas dezoito e trinta fui interceptado por uma Ford F1000 Luxo, após a Piçarra. Desceram dois homens armados querendo saber quem eu era. Identifiquei-me. Observei que estavam em minha jurisdição, armados, descaracterizados e que deveriam ser do serviço reservado e que, portanto, se identificassem. 

O único falante declarou que quem dava as ordens era ele, e perguntou se eu estava armado. Enfiei a mão no paletó e o outro interrompeu, apontando-me a arma. Recomendei-lhe calma e com suavidade retirei e destampei minha caneta esferográfica e a exibi ao falante e disse: “O que eu não puder fazer com a ponta desta caneta, não é com arma que eu vou conseguir!”. 

O falante recuou à camionete, conversou com alguém por meio minuto e me liberou. Reiterei estar em minha jurisdição e que eles se retirassem. Obedeceram. Retornei ao interior do meu Ford Verona sob a noite estrelada, relaxei e me urinei todo.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

POESIA - Coisas & Loisas (AG)

 COISAS & LOISAS
Aluísio Gurgel*

 

CONFIRMAÇÃO
Três cartas do tarot: a cruz,
O cachorro e a estrela
Remetem a você
Inexiste casualidade?
Tudo está escrito?

 

INDESISTÊNCIA I

Por você desistiria do amor da minha vida? Pelo amor da minha vida desistiria de você? E quem disse que sou dado a desistências?

 

CONSTATAÇÃO
Envelhecer é perceber
Que o trabalho dá prazer
E o prazer dá trabalho
 
AO MODO DE VIANNEY
Como está você? Zangado?
O suficiente para amar
E aguentar seus amigos?
 
AO MODO DE RUMI
Não é o que sinto
É o que me faz sentir
Pois o que busco
Também me busca
Mas precisa me fazer bem

 
INDESISTÊNCIA II
Morri bem mais do que me resta viver, porém nunca desisti de amá-la. Faça valer a pena!
 


EPILOGANDO
O maior luxo? Descansar
No seu colo e o meu café!



segunda-feira, 25 de maio de 2026

CRÔNICA - Perigosa Dodora (AG)

 PERIGOSA  DODORA
Aluisio Gurgel *

 

Às vezes é difícil iniciar uma crônica por vários motivos, inclusive aqueles que a gente sequer conhece. Não posso dizer qual era a treta que rolava na ocasião, mas algo causava profundo incômodo à Dodora. Mesmo assim fomos ao teatro. O show era do André Geraissati e o clima estava ameno em São Paulo. 

Platéia elegante e qualificada. Apagam-se as luzes e o canhão vai buscá-lo lá no canto e ao fundo e orienta sua caminhada até o microfone, sob aplauso. Ele se ajeita na cadeira, abraça o violão e entrega uma lindíssima e romântica primeira frase que a Dodora, aqui do meu lado, lenta e longamente, exclama: lindo! 


Ela não exclamou para si. Muito menos para mim. Foi para o André, ela exclamou para ele e em volume que ele ouvisse lá do palco. Ele ouviu e sorriu enquanto prosseguiu dedilhando a canção. Naquele instante, uma voz grave e cavernosa me preencheu a consciência e sussurrou: perigosa Dodora!


POEMA - Morri Algumas Vezes (SQC)

 Morri
algumas vezes
Savio Queiroz Costa*

 


Já morri algumas vezes.
Nunca houve velas,
nem cortejo,
nem mãos fechando meus olhos.
 
Sempre morria um pouco
daquilo que, em mim, ainda acreditava
na eternidade das coisas.



Fiquei de pé,
como ficam as árvores
depois da tempestade:
silenciosas, partidas, vivas.
 
A vida seguiu —
impiedosa e bela —
mesmo enquanto meus escombros
aprendiam a respirar outra vez.
 
Com o tempo, compreendi:
 
há mortes que não levam o corpo. 
Levam apenas o que já não cabia na alma.
 
Desde então,
renasço devagar,
sem anúncio,
sem testemunhas.
 
Como quem floresce
no escuro.
 
Como quem aprende
que sobreviver
também é uma forma de poesia.



quinta-feira, 21 de maio de 2026

EFEMÉRIDE - Jornal O Estado - Noventa Anos de Existência.

JORNAL
O ESTADO
 
NOVENTA ANOS
DE EXISTÊNCIA

 

A nossa Confreira da ACLJ, Gabriela de Palhano, Diretora do Jornal O Estado, está compartilhando com a sociedade o aniversário de 90 anos do noticioso, através das redes sociais do veterano veículo de imprensa cearense, assim como na sua versão impressa, com o programa que recebe o sugestivo título de “Caráter”. Abaixo, o lançamento do Programa Caráter na plataforma do Instagram. 

  


ACESSE O LINK

https://www.instagram.com/reel/DYndg07xj_W/?igsh=MjRod2k5OWd2NnU5 

CRÔNICA - Parapeito de Camarim (AG)

 PARAPEITO
DE CAMARIM
Aluísio Gurgel*

 

Alguns podem até não acreditar, mas houve um fim de tarde em que dei por mim sentada no parapeito do camarim no Teatro José de Alencar, enquanto dois grandes violonistas dialogavam e transferiam de um para o outro o único violão de que dispunham na ocasião. Um já havia ganhado idade, era Sebastião Tapajós, o dono do violão.




O outro era um jovem advogado que não conseguia abandonar o sonho de ser artista. Por coincidência, era também o homem com quem aceitei me casar havia três anos, quando engravidamos no mês de fevereiro de mil, novecentos e oitenta e quatro.


Meu marido elogiava a adaptação que Tapajós havia feito para “Adiós Nonino”, de Astor Piazzola e, em contrapartida, Tapajós elogiava o baião que meu marido compôs. Cada qual deve ter apresentado umas cinco peças, alternadamente, com o violão lá e cá. Algo que na prática dava um pocket concert

Foi quando a sineta tocou, anunciando que o Projeto Pixinguinha iria começar naquela boquinha de noite e meu marido era o arranjador e percussionista do pessoal local que faria a abertura para o Sebastião Tapajós. Entre admirar e aprender com a humildade do artista mais experiente que recebeu o discípulo com toda simplicidade em seu camarim; e “tietar” o homem com quem me casei, preferi ficar com seus lindos olhos azuis e sua magia interior. É feitiço do qual não tenho como me livrar.