“TOMBOU O JEQUITIBÁ”
Reginaldo Vasconcelos*
A minha meninice conheceu a existência de Cid Carvalho pela radiofonia cearense. Morávamos no sítio da família, na então boscareja Messejana, pelo período em que se construía a casa de meu pai, na “Nova Aldeota”, em Fortaleza, no final dos anos 60.
Ao meio dia o vozeirão de Cid Carvalho nos chegava ao aparelho de rádio pelo éter, por entre os cajueiros e mangueiras da chácara, trazendo as notícias momentosas – “Alô senhoras, alô senhores, aqui trabalha Cid Carvalho...”.
Até que meu pai nos revelou que a Delegacia do Trabalho contratara o radialista para ministrar um curso de relações humanas, de que ele e os demais fiscais participavam. Então, pelos comentários paternos, tomei ciência da erudição daquele eloquente locutor.
Na sequência, o destino me fez colega de colégio do Antonino, primogênito de Cid, e a partir do grêmio estudantil, que presidi, partimos para uma empresa de promoções e propaganda como sócios.
Éramos formalmente representados nos registros burocráticos por Dona Luce e Dona Estefânia, a mãe dele e a minha mãe, pois ainda não tínhamos idade para constituir personalidade jurídica e com ela figurar.
Nessa época tive a primeira oportunidade de defrontar Cid Carvalho, em sua residência – o jornalista histórico, o radialista destacado, o jurista refinado, o advogado de escol, o professor de toda uma geração de bacharéis em Direito da Universidade Federal – e que chegaria a ser, em 1988, um dos mais profícuos Senadores Constituintes da República do Brasil.
No particular, Cid era o especialista desportivo do futebol alencarino, o apreciador de música clássica, o bibliófilo diletante, o adorador de passarinhos canoros, o filho e seguidor do célebre Jáder de Carvalho.
Jáder fora outro ícone do jornalismo, da advocacia e da política cearenses, um inspirado bardo de texto épico e telúrico, detentor do título sucessivo de 3º Príncipe dos Poetas Cearenses, concedido pela Academia Cearense de Letras – ateneu que ele e o filho Cid vieram, consecutivamente, integrar.
O meu sócio juvenil Antonino Carvalho viria a ser, em futuro, meu professor de Direito na Universidade de Fortaleza, e quando pensamos em fundar a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, pai, filho e neto foram grandes bastiões da referida iniciativa.
Antonino compondo conosco o elenco inaugural, Cid como Presidente de Honra da nova entidade de letrados e Jáder de Carvalho, in memoriam, Patrono Perpétuo da Cadeira de nº 1, fundada e ocupada vitaliciamente pelo ilustre filho seu.
Eis que na tarde desta última sexta-feira, 10 de julho, o confrade Sávio Queiroz Costa, em dramática e poética expressão do seu gênio literário, enviou-me uma triste mensagem de elevado simbolismo: “Tombou o Jequitibá...”. Morrera, aos seus 90 anos, Cid Carvalho, um imenso arvoredo de proficiência e de honradez.
De fato, perderam os passarinhos que naquele simbólico jequitibá entoavam os seus belos trinados; perderam os que recebiam ao meio dia as ondas eletromagnéticas da Rádio Cidade; perdemos nós, os intelectuais cearenses, que tínhamos em Cid Carvalho o caule titânico do bom exemplo e a frondosa umbela de sabedoria e descortino.
“Doa a quem doer”, reverberará doravante em nós outros uma ausência doída e um silêncio doloroso. Ele, cristão espiritista, sendo imortal nas letras, na sua fé, além disso, certamente é “imorrível”.







