quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - Data Festiva (VM)

DATA FESTIVA
 12.10.2026
 Vianney Mesquita*



Well Morais
(Da Academia Cearense da Língua Portuguesa)
 

  

"Um dia de anos é sempre de recordações"

JÚLIO DINIS

 

Ao perlustrar meus símplices anais
Agora, dia doze de outubro,
Inopinadamente, eis que descubro
O maior dia de um dos meus cem mais.
 
A folhinha expressa a data em rubro -
E isto adiantar muito me apraz –
Assisadamente não encubro
As comemorações deste rapaz.
 
Ele retém haveres perspicazes
E didactogias eficazes,
Veras alegações gramaticais.
 
Eis por que com fervor cinjo este lente
De maneira animosa e mui contente,
Professor imortal Well Morais.


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COMENTÁRIOS AO SONETO

“DATA FESTIVA”

Souza Nunes*

 

"A habilidade mata a sabedoria. Eis uma das pouquíssimas coisas tristes e certas"

Lord Chesterton

 

Meu ínclito mestre e confrade Vianney Mesquita, parabéns pela rara maestria no trato da palavra, aliada a uma      consciência rigorosa dos recursos expressivos do idioma vernáculo!

A homenagem ao acadêmico Well Morais materializou-se em realização poética de elevada estirpe. 

De primorosa arquitetura formal, apurado lavor estilístico e inequívoca densidade erudita, seu soneto testemunha a eloquência de uma arte em que a disciplina formal não obsta a inspiração, pois antes lhe confere maior vigor e expressividade.               

Tais estrofes honram, por igual, o engenho de quem o concebeu e os méritos de quem os inspiro.

Venturoso o   homenageado a quem coube tão distinto intérprete de suas virtudes; não menos afortunado o poeta   que encontrou, na excelência humana e intelectual do homenageado, matéria digna daquela perenidade de que nos fala o antigo prolóquio romano: Verba volant, scripta manent.

CRÔNICA - Compreender a Vida Não Exaure o Viver (AG)

COMPREENDER

A VIDA

NÃO EXAURE

O VIVER

Aluísio Gurgel*

 

Um caixão funeral fechado é solenemente retirado de um pequeno avião. Não se sabe quem foi. Apesar da inquietação e da curiosidade, com prumo sigo meu rumo.


 

Ao despertar, mergulho no curso da vida. À tarde, noticiam o falecimento de Lito Sousa, de Aviões e Músicas. A cena volta à memória. O caixão continua fechado.

 

Quem pratica voo livre se habitua a observar: uma encosta, o movimento das nuvens, a direção do vento, as condições de pouso. Tudo exige atenção. Lito pertence a esse universo.

 

Seu nome traz a aviação, o aerodesporto, as explicações e o entusiasmo. A notícia chega e encontra tudo isso.

 

No sonho, sigo meu caminho. O dia prossegue. A voz de Lito ecoa no infinito. A coincidência permanece, a pergunta também. 

“A vida não é um problema para ser resolvido; é um mistério para ser vivido. Então, viva!” (Stuart Hiller, em “Tuff Turf”, 1984)


Soneto Decassilábico Lusitano - Regalos da Melodia (VM)

REGALOS 
DA MELODIA
Vianney Mesquita*

(Para a Acadêmica Gorete S. Oliveira – ACLP. Cad. 01)


Costumeiramente, a música (boa) acalma espíritos alvoroçados e alivia preocupações. 

(Miguel de CERVANTES Saavedra. Alcalá de Henares, 29.09.1547; Madrid, 22.04.1616).


 

Condescendente e tênue melodia,
Aquieta e pacifica os corações,
Concede singeleza às intenções,
Ao render gênio e corpo em harmonia.

Célere, nos transporta à Parusia,
De logo elimina as dissensões,
Conduz-nos breve à cortesania

E inuma por eterno as frustrações.
Da malvadez é atlética afasia,
Malquerença eivada de anartria,
Jazigo eternal das ilusões.

Spalla, brando eflúvio da estesia,
Consolidado doce de acalmia
Circunstância de amenas emoções.

domingo, 11 de outubro de 2026

CRÔNICA - É de Dar Dó (RV)

 É DE DAR DÓ
Reginaldo Vasconcelos* 

 

O País está dividido entre um grande contingente de pessoas pragmáticas e lúcidas e outra massa humana, também numerosa, de indivíduos passionalmente alucinados, encantados por um sonho dourado, imbuídos de uma pretensa causa épica, heroica e justa, cultuando e seguindo cegamente uma liderança demiúrgica.

Cada um dos dois grupos é ainda amalgamado pelo espírito de corpo, pelo sentimento de manada – uma saborosa pulsão gregária natural do ser humano, que consiste em se sentir irmanado a outros de mesmo ideário, destino e paixão, compondo uma uníssona multidão, como se verifica na devoção futebolística.

 

Hoje eu tenho estimados parentes e amigos ideologicamente capturados pela horda mítica, que a princípio me inspiravam respeito democrático, e eu me abstinha de especular a cerebração controversa que portavam, focando as nossas relações em aspectos da vida e da memória afetuosamente compartidos. 

Na minha infância, quando alguma coisa me frustrava e eu me queria revoltar, minha mãe me indagava, repreensivamente: “Você está com pena de si mesmo!?” – o que me fazia abandonar a vertente queixosa e derrotista e adotar uma atitude proativa. Desde então introjetei que ser objeto de compaixão, de si ou de outrem, seria desonroso e aviltante.


Eu tenho um filho adotivo que cegou, e que, a despeito de ter conquistado espantosa autonomia profissional e social, às vezes me vem instar – sobre alguma coisa que o tato não lhe permita identificar ou fazer – pedindo, retórica e alegremente, para lhe “emprestar os olhos”. 

Mas não nos compadecemos dele, que logo se revelou resignado ao desígnio de Deus e feliz com o copo da sua sorte quase cheio, com apenas dois dedos de ar abaixo da borda, margem suprida por seus muitos talentos e pelo carinho da família. Até porque os olhos de sua alma e da sua inteligência enxergam longe. 

Mas hoje eu não consigo evitar o impulso indômito de devotar um profundo sentimento piedoso e solidário àqueles meus queridos amigos e parentes, ante a desdita de que foram acometidos: a cegueira intelectual aparentemente irreversível sobre os evidentes fatos históricos, bem como sobre a verdadeira índole de personalidades estrangeiras antigas e de personagens nacionais contemporâneos. 

Parece que vão morrer e secar negando a luz, tateando nas trevas, aferrados ao equívoco,  sem a graça de ter o vislumbre revelador da realidade que os cerca.  É realmente de dar dó.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - Frugais Opções (VM)

 FRUGAIS
OPÇÕES
(Para o Dr. Reginaldo Vasconcelos)
 
Vianney Mesquita*

 

Quando a escolha é impossível,
o melhor é não criar dificuldades.
 
(GEORGE MACDONALD. Escritor escocês. Huntly, 10.12.1824; Ashtead-UK, 18.09.1905).
  


 
Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.

Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.

Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.


Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - 45 Cães em Rico Português (VM)

45 CÃES EM RICO
PORTUGUÊS
Vianney Mesquita*

 

Cada língua é um templo em que se encerra a alma dos que a falam.

(Oliver Wendell Holmes Jr., jurista, professor, filósofo e escritor dos EEUU. Boston 8.3.1841; Washington, 6.3.1935)

                                                                                                            

Tentação de Jesus Cristo

Porco-sujo, Capiroto e Tição;
Satanás, Zarapelho e Pé-cascudo;
Diacho, Maldito e Cramulhão,
Cafuçu, Sapucaio e Cravelhudo.
 
Dianho, Diale, Zarapelho e Rabudo;
Azucrim, Cão-tinhoso e Legião;
Encardido, Manfarrico e Beiçudo,
Temba, Fute, Jeropari e Rabão.
 
Pero-botelho, Belzebu e Nico;
Não-sei-que-diga, Chifrudo e Futrico,
Coisa-ruim, Anjo-mau e Arrenegado.
 
Lúcifer, Cafute, Exu e Dragão;
Pata-rachada, Mico e Capetão,
Coisa-à-toa, Tinhoso e Excomungado.

(Há muito mais sinônimos!)


NOTA ACADÊMICA - ACLJ em Culto da Memória

ACLJ
EM CULTO
DA MEMÓRIA

 


Em 04 de maio de 2022 a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promoveu a sua 11ª Assembleia Aniversária, no auditório principal do Palácio da Luz, em Fortaleza.

No evento, cumprindo o primeiro item de sua pauta interna, tomou posse como Membro Correspondente da ACLJ, no Estado de Rondônia, o Engenheiro Maurílio Vasconcelos.

 

Cearense radicado em Porto Velho há muitos anos, Maurilio repetiu o grande sucesso empresarial que tivera em Fortaleza nos anos 60/70, aqui com o célebre Curso Cipam, preparatório para o exame vestibular, tendo ele lá prosperado novamente, com uma portentosa construtora.


Um segundo tópico da mesma pauta foi a investidura de Ricardo Cavalcante – empresário e lider de classe, Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), com assento na cúpula da Confederação Nacional da Indústria (CNI) – o qual recebeu naquela data a dignidade de 21º Membro Benemérito da nossa entidade, que aniversariava. 


Marcando ainda a efeméride daquele undécimo aniversário da ACLJ, na sua pauta social, fez-se a outorga da Medalha Evaldo Gouveia (nosso Membro Benemérito Histórico, autor do Cântico Acelejano – a dita “Canção da Academia”).


A divisa que foi concedida aos quatro grandes artistas sônicos cearenses contemporâneos, nacionalmente consagrados sob a designação de “Pessoal do Ceará”, o Ednardo, o Fausto Nilo, o Fagner e o Belchior – este último in memoriam, representado pela sua filha Vannick. 

Em culto da memória, postamos abaixo um link que, uma vez acionado, preferivelmente em tela grande (e com pipoca e Coca-cola), poder-se-á apreciar a íntegra daquele festim parnasiano, celebração à sublimidade das letras e das artes – e em exaltação ao talento alencarino – ocorrido cinco anos atrás, enquanto os participantes poderão ver a si próprios vivendo aquele momento memorável da nossa Academia.


O vídeo foi produzido e editado pela CL Produções, e convertido de DVD para MP4 pelo ripper George Tabatinga, Membro Titular da ACLJ e integrante da Arcádia Alencarina.

ACIONE O LINK ABAIXO

https://drive.google.com/file/d/1C78rZGMFM-UrMCHZHk4d0soZPZAwIsJ0/view?usp=sharing 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

ARTIGO - Fromage (RV)

FROMAGE
Reginaldo Vasconcelos*

 


Eu vou começar a minha tese lembrando aquela anedota de um ingênuo brasileiro que chegou à conclusão de serem os franceses tão ignorantes que “chamam queijo de fromage, quando a gente está vendo que é um queijo”. 

Esse exemplo simplório expõe o fenômeno que o psiquismo opera nas pessoas, quando elas fazem a separação entre a realidade ontológica intrínseca e a percepção prática das coisas. 

Um queijo é um produto do leite pecuário, que, através de um processo químico provocado, se torna sólido e divisível com uma faca, o qual continua sendo isso em qualquer lugar, não importando o código linguístico que receba, aqui ou alhures. 

Da mesma maneira, um automóvel nos parece ser apenas um objeto útil e natural que serve para nos levar de um canto a outro, assim como uma fruta que se tira da árvore e saboreia.

 

Ora, todo mundo sabe o que é um carro – sua cor, sua marca, seu modelo, o ano de sua fabricação. Mas ninguém tem presente ser aquilo uma caixa de chapa de metal ou de uma matéria plástica sucedânea, sobre quatro rodas de borracha, semelhante a uma antiga carruagem, que, em vez de cavalos, é tracionada por um engenho de ferro ou de alumínio, o qual, por meio da combustão de um líquido inflamável, produz uma sequência de explosões internas, fazendo girar um eixo que impulsiona os seus pneus e o remove velozmente. É isso que ele é, indiferente ao vocábulo idiomático que o designe. 

Pois bem, quem pensa a realidade administrativa de um país que adote um regime democrático de direito como o nosso pensa ser ele como aquele queijo da anedota, ou como o automóvel que circula pelas ruas, enfim, uma coisa pronta e acabada pela natureza como a fruta que se tira da árvore e se consome. 

Ninguém percebe com clareza que um grupo de aventureiros se alterna e se encastela no poder e no comando, cheio de autoridade, atuando em defesa de privilégios próprios, naquela base de “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. 

Claro que ressalvamos as exceções que firmam a regra, pois na história do País, e do Estado, houve políticos dotados de absoluta idoneidade e espírito público, que se sacrificaram no exercício das funções, como Castelo Branco, Virgílio Távora e Lúcio Alcântara – para dar  exemplos mais domésticos.  

Para que reflitamos sobre como, e para que, se faz esse “queijo” da estrutura administrativa nacional, e como esse “carro” governamental deveria seguir sua trajetória, vou lançar mão de uma alegoria muito simples. 

Imaginemos uma cena bíblica em que um grupo nômade de um povo original chegue a uma planície fértil e se resolva nele estabelecer e prosperar. 

Naturalmente naquela população tem homens e mulheres, jovens e maduros, alguns mais hábeis e capazes, que detêm patrimônio em gados e cavalos, e exercem liderança, outros menos desenvoltos, menos dotados de tirocínio e de descortino do intelecto. Uns mais laboriosos, outros menos. Uns com melhor sorte e saúde, outros menos favorecidos pelo fado do destino.

 

Mas todos vivendo em regime de mutualismo e simbiose, servindo à comunidade na medida de sua disposição e seu pendor, e nessa mesma medida sendo por ela protegidos – estivadores, artesãos, artistas plásticos, marceneiros, agricultores, pecuaristas, pedreiros – curandeiros sarjando as pústulas, xamãs exercendo o sacerdócio, e assim por diante.

 

Então, os mais atinados percebem ser necessário designar alguns elementos do grupo que se empreguem unicamente ao bem comum. Estes se instalarão no planalto, e não precisarão mourejar e suar na lavoura de alimentos. 

Nem no trato dos gados, nem no amanho da terra, nem nas oficinas que produzam bens da vida, porque vão cuidar dos interesses comuns, enquanto serão providos pelos que trabalham e produzem na planície, de todo o necessário para a sua subsistência. 

Pronto. Temos aqui, analogicamente, os magistrados, que vão equacionar os conflitos pessoais, e os milicianos em geral, que garantirão a ordem social e protegerão o território de invasores. 

Mas também os ditos “físicos”, que se dediquem aos enfermos desvalidos; e os coveiros, que lhes vão sepultar os restos mortais... Enfim, todo o funcionalismo, que cuida também dos mananciais hídricos e das vias públicas, por exemplo. 

Pois então estão aqui representadas as funcionalidades tripartites de Montesquieu, ditas “os Três Poderes”. As Forças Armadas e as polícias, os servidores das três esferas de governo, inclusive os seus titulares: o presidente, os governadores e prefeitos. 

Todos sustentados, através dos tributos, por aqueles que produzem riqueza nos três setores da economia – o primário, o secundário e o terciário – o agro, a indústria e o comércio, neste incluído o de serviços. 

Mas a mentalidade pública passa a entender enviesado esse sistema, empregados do povo tratados como autoridades supremas, seres intocáveis, “suas excelências”, senhores do erário e do dinheiro circulante, fazendo leis e as interpretando, tributando e multando a cidadania ao seu talante ao bel prazer. Encastelados em seus palácios, cercados de seguranças, em carros blindados, como se assumissem serem inimigos sociais. Os simples da população os enxergando como monarcas, e eles próprios assim mesmo se sentindo. 

Essa é a democracia de direito, o pior sistema de governo, mas ainda melhor que todos os outros, segundo queria Winston Churchill.

Não. Ela é melhor do que as ditaduras marxistas, em que aqueles do planalto passam a oprimir violentamente quem trabalha na planície para sustentar seus privilégios. E é melhor do que as monarquias absolutistas, ambos regimes liberticidas. 

Mas a democracia é melhor aplicada e preservada no parlamentarismo europeu, em que um Primeiro-Ministro pode, usando a sua bicicleta, frequentar a padaria, como fazia habitualmente Boris Johnson. 

E é melhor aplicada nas monarquias constitucionais, em que o soberano recebe da Nação a condição vitalícia e hereditária de Chefe de Estado, e não de Governo, para representar a identidade do povo e a dignidade nacional, com a família real simbolizando e exemplando a cellula mater daquela sociedade.