Leitura
do soneto
Frugais
Opções de
vianney
mesquita
(Em homenagem ao Dr.
Reginaldo Vasconcelos, Presidente da ACLJ)
Ana Paula de Medeiros Caratti*
“Quando a escolha é impossível, o melhor é não criar dificuldades”. (GEORGE MACDONALD. Escritor escocês. Huntly, 10.12.1824; Ashtead-UK, 18.09.1905).
Frugais Opções**, soneto decassilábico português de autoria do Mestre
palmaciano Vianney Mesquita, brota de uma alma que aprendeu a escutar o tempo e
já não se inquieta perante o que não é capaz de controlar. Os mais jovens atravessam
a vida acreditando que têm nas mãos as rédeas do próprio destino. Quem já tocou
a Lira dos Oitent’Anos é mais atento aos mistérios da vida e nos ensina que nem
todos os caminhos se abrem à força de nossas vontades. Ao refletir acerca do poema sob comentário, transportei-me à leitura que fiz, à época do meu Doutoramento, indicada pelo meu inesquecível orientador, Prof. Dr. Raimundo Hélio Leite, ex-Reitor da Universidade Federal do Ceará. Ele me aconselhou a ler A Filosofia da Vontade, de Paul Ricouer. Nessa obra, o Filósofo francês, de enorme prestígio internacional, discute a relação entre o que o ser humano sabe decidir e o que, embora não tenha escolhido, integra inevitavelmente sua existência. Para o Escritor valentino (Valence, 27.2.1913; Châtenay-Malabry, 20.5.2005), nossas decisões estão continuamente relacionadas a condições que não escolhemos: nosso corpo, as necessidades, a história e os limites impostos pela própria vida. Essa ideia encontra correspondência com o primeiro quarteto das estâncias ora comentadas.
Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.
O Sonetista reconhece a tensão expressa nos estudos de Ricouer: possuímos desejos e possibilidades de escolha, mas sabemos que nossa vontade não governa soberanamente os acontecimentos. Daí a escolha de V.M. sobre a expressão Senhor Destino, ou seja, representa algo a nos fugir da vontade.
Outro aspecto interessante nos estudos de Ricoeur é o modo como ele discute a atitude humana perante o inevitável. No soneto, o segundo quarteto e o primeiro terceto conduzem uma ideia muito semelhante à noção de consentimento, estágio mais maduro do ser humano ante o que não está habilitado a governar.
Na segunda quadra, observam-se contornos de recolhimento que o Escritor desenha, quando as possibilidades de escolha se contraem. Nestas circunstâncias, o Autor de Estâncias Decassilábicas Lusitanas (Palmácia: Arcádia Nova Palmaciana, 2024) mostra-nos que tem uma atitude reflexiva sobre o que escapa ao seu domínio. Quando diz Dispor-me-ei no imo desta bolha, há, decerto, um refúgio interior, um espaço onde a alma é passível de reorganizar seus desejos e encontrar abrigo ante as imposições exteriores.
Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.
No primeiro terceto, o Poeta transforma o consentimento em atitude
espiritual:
Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.
Diante da ordem natural e dos desígnios divinos, sua voz poética
não se rebela inutilmente, mas procura compreender e acolher. A filosofia de
Ricoeur explica a estrutura da aceitação, no mesmo passo em que a poesia de
Vianney Mesquita lhe confere uma dimensão de fé.
O segundo trio de
pés arremata a ideia da Filosofia da Vontade:
Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.
Depois de reconhecer os limites de sua condição, V.M. reafirma a disposição de realizar seus projetos. Não se entrega à inércia, tampouco abandona seus desejos. Reconhece o que não está apto a governar, mas preserva o que ainda lhe compete realizar. A razão reconhece os limites, enquanto a espiritualidade oferece sentido à aceitação.
Vianney Mesquita nos ensina que não somos inteiramente senhores das circunstâncias que nos perpassam, mas que também não estamos presos à passividade diante delas. Ricoeur, ao seu turno, assim leciona: entre o escolhido por nós e o que a vida nos impõe, permanece um território íntimo de liberdade. É nesse espaço que o Sonetista expõe sabedoria: acolhe os desígnios que o ultrapassam, mas não abandona os projetos ainda a lhe florescerem na alma. Seu consentimento não é rendição passiva, porém configura uma modalidade amadurecida de ter esperança.
Aprendamos com os Mestres que nem todos os caminhos obedecem à
vontade humana, todavia, ainda nos pertence a graça de escolher como continuar
caminhando.
** Texto aqui publicado no dia 9.10.2026
FRUGAIS OPÇÕES
Vianney Mesquita
(Para o Dr. Reginaldo Vasconcelos)
Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.
Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.
Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.
Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.




















