sexta-feira, 17 de abril de 2026

NOTA SOCIAL - Homenagem a Vicente Alencar

 A “VOZ DA PALAVRA” ENTREVISTA
O COMUNICADOR
VICENTE ALENCAR,
REI DA PALAVRA E DA VOZ.


A revista Voz da Palavra, editada por Gilson Pónthes e Pedro Blum, em sua edição de Abril de 2026, traz matéria de capa sobre o jornalista e radialista Vicente Alencar, Membro Titular e Secretário-Geral da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e da Arcádia Alencarina, além de compor outras entidades literárias do Estado. 

Vicente, cuja história de vida se coaduna com o nome da revista – ele rei da palavra e da voz – dá uma interessante entrevista sobre a sua longa experiência de comunicador, desde muito cedo no rádio, mas também nas editorias de jornais da Capital, notadamente no trato do futebol cearense, criador do epíteto de “Leão do Pici” do Fortaleza Esporte Clube, o seu time preferido. 

Vicente Alencar também se notabiliza como grande biógrafo do clã dos Alencares cearenses, nobilíssima família a que pertence e cuja história conhece, sobre a qual discorre brilhantemente em palestras que profere. Também  brilha como fino trovador e se tem consagrado como o melhor Mestre de Cerimonia do Estado, mercê do belo timbre vocal e da pronúncia escorreita.           



NOTA CULTURAL - Poetas da Serra Azul

A POESIA DA SERRA AZUL,
DO SEU MUSEU,
E OS SEUS MENTORES. 


O jornalista e documentarista Roberto Bomfim, que integra a ACLJ em sua Arcádia Alencarina, e também o Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), é o atual Presidente do Museu Arqueológico Tertuliano de Melo, localizado na Fazenda Coité, no Distrito de Serra Azul, no Município Cearense de Ibaretama. 

O acervo do museu começou a ser reunido por Tertuliano de Melo Neto, proprietário da fazenda, em cuja região ocorrem muitos achados arqueológicos legados por autóctones antigos, e os foi catalogando e colecionando em espaço próprio do seu imóvel pré-serrano.


Acolitado por Roberto Bomfim, Tertuliano, de epíteto carinhoso Neto Melo, fundou a instituição, mas infelizmente faleceu um ano atrás, deixado ao seu parceiro a direção da entidade museológica que instalaram.

Agora Bomfim tem a gentil iniciativa de lançar um primoroso libreto que traz toda a poesia do ambiente telúrico e cultural da Serra Azul, colhendo inspirados poemas de jovens envolvidos no projeto do museu.

Naturalmente dedica esse trabalho a Neto Melo in memoriam, e encerra a galeria lírica e beletrista do libreto com uma peça poética primorosa do acadêmico cearense imortal Virgílio Maia, que enfeita e enobrece a contracapa.         



CRÔNICA - Não Tenho Nada a Ver com Isso (RV)

NÃO TENHO NADA
A VER COM ISSO
Reginaldo Vasconcelos*

 

Não tenho nada a ver com isso. Nada “disso que está aí” me diz respeito. Autorreferente, ninguém me representa. Nasci, me criei e envelheci nessa mixórdia, em que se pretende fazer crer, em que se deseja acreditar em conspícua gravidade moral e nobreza de intenções, quando as únicas coisas sérias realmente neste país são o carnaval e o futebol. O resto é baderna, é mentira, enganação, concupiscência (algo tão feio e disforme como este seu designativo idiomático, que nenhuma outra língua do Planeta pode traduzir corretamente).

 

Bem, mesmo o futebol e o carnaval têm sido conspurcados e vilipendiados pela anarquia institucional que grassa e reina neste mundo de meu Deus, em que o Brasil é uma piada de mau gosto, onde só se costuma ser levado a sério quando Momo está reinando, quando as fantasias de palhaço e as bundas nuas nos remetem à realidade anárquica nacional. Montesquieu há muito tempo se revira no túmulo e se pudesse rasgaria seus tratados sobre a tripartição de poderes que engendrou, enquanto os gregos e romanos que repousam nos mausoléus da História pasmam com o que se tem feito de suas puras concepções de democracia e de república. 

Em menino eu pensava erradamente que a molecagem dos garotos de então, os quais (fossem criados na rua ou nos mais conceituados educandários clericais) saltavam muros para fugir das aulas, para penetrar nas festas, para furtar pomares, e por qualquer nonada espancavam-se nas calçadas e nos pátios de colégios, e se sodomizavam uns aos outros em mutualidade combinada, ou em troca por alguma prenda – pensava eu incorrendo em crasso equívoco que essas condutas fossem privativas da infância masculina da minha época. 

Qual nada, desde sempre, e inclusive atualmente, o mundo adulto pratica iniquidades semelhantes, sob os seus ternos vistosos e em seus discursos empolados – enganando, traindo, furtando, espancando, condenando e até matando pessoas inocentes, com o agravante de que atraíram para o seu covil imundo de negociata, politicagem e bandidagem as mulheres, que nos seus belos penteados e “taieres” elegantes pensam ter conquistado a liberdade pessoal e o paraíso terrestre, quando apenas somaram às suas nobres funções naturais e biológicas a estiva cruenta das obrigações funcionais – horários, expedientes, metas, chefias, patrões... 

Aliás, a ética dos meninos que fomos só execrava a covardia, gravíssimo atentado à hombridade pessoal, de tal sorte que, quando insultado por um pirralho menor, para evitar a pecha de covarde, se lhe mandava chamar o irmão mais velho para a briga. Pela mesma razão, em mulher não se batia “nem com uma flor”, conforme o jargão daquele tempo, assim como a maior ofensa possível era malferir a moral da mãe do outro com impropérios. Hoje, enquanto a legislação se esforça para proteger o universo feminino da sanha dos homens, cada vez mais são elas estupradas, violentadas, agredidas e mortas por amantes e maridos. 

O que o mundo infantil não percebia e não percebe é a gravidade das dores, das tragédias físicas, das doenças e das mortes; é a infelicidade de ter filhos com deficiências incuráveis; é a seriedade, a importância e a pungência das salas de cirurgia, das amputações e das camas de hospitais; são as angústias dos tribunais e a tortura do cárcere, seja merecido, seja injusto; é a abordagem tenebrosa dos facinorosos armados que empestam e predam a sociedade impunemente – razões pelas quais a minha avó aconselhava os netos chorosos a guardarem suas lágrimas para os sofrimentos do futuro. 

Os delinquentes adultos de todos os tipos e matizes – de pichadores de muros a banqueiros desonestos, a falsos magistrados, a políticos mistificadores e corruptos, a bandidos sanguinários – decidem estes viver à margem da grandeza dos artistas inspirados, que colorem o mundo, embelezam a vida e enlevam as almas; à margem do mérito dos doutores que fazem ciência para que se produzam remédios, aviões, automóveis, computadores e aparelhos celulares; à margem da existência de grandes e pequenos empresários que se associam para dar empregos e produzir riquezas em geral; à margem da importância dos que enfrentam realmente chão de fábrica ou solo rude de plantar e criar, e assim alimentar a humanidade. 

Eu apenas vejo, acompanho, sofro, lamento, denuncio. Mas, pessoalmente, de fato, não tenho, nunca tive e jamais terei nada a ver com isso. 

               

quinta-feira, 16 de abril de 2026

LIVRO - Totvs Tvvs (VM)

 Lançamento de  Totvs Tvvs
25º livro de Vianney Mesquita

 

Oh! Bendito seja o que semeia livros / livros a mancheias/ E manda o povo pensar! (CASTRO ALVES)

 

Em reunião ordinária realizada na cidade de Palmácia-CE, no dia 11 deste mês, tomou posse o Presidente eleito para o período de 2026 a 2027, o imortal palmaciano Dr. José Damasceno Sampaio (árcade novo Adamastor Urano), escritor e advogado atuante, em substituição ao Prof. Fernão de La Roche d’Andrade Sampaio, o qual desenvolveu por dez anos elevada administração, desde a Fundação daquele Sodalício (Palmam qui meruit ferat), em 2016.

A Assembleia dos árcades novos, na Sede citadina de nascimento dos celebrados professores e autores cearenses Vicente de Paulo Sampaio Rocha e José Rebouças Macambira, foi assinalado por intensa e excelsa programação, quando, também, foram investidos em cátedras do Silogeu serrano acadêmicos eleitos em seção anterior. 

Um dos pontos de destaque do Encontro coincidiu com a participação da cantora e intelectual cearense Carol Damasceno, acompanhada do seu consorte-chefe da orquestra, a qual premiou os árcades novos e demais assistentes com excepcionais peças musicais, de insuperável essência, aplaudida de pé a cada manifestação de sua estesia artística. 

No âmbito da mencionada conferência da Arcádia Nova Palmaciana, experimentou ressalto o lançamento do 25º livro do árcade novo Jovem Chronos (Vianney Mesquita) – um dos quatro fundadores do Ateneu palmaciano (com Francisco Antônio Guimarães, Iolanda Andrade e Risoleta Muniz), também componente de destaque desta Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, bem como da Academia Cearense da Língua Portuguesa. 

Antes, porém, da ocorrência-parte da assentada de 11.04.2026, ocorrida na Escola Professora Giselda Coelho Teixeira, no Basílio, o Presidente José Damasceno Sampaio transferiu às mãos do Autor o diploma de Presidente de Honra ad vitam, “pelos relevantes serviços prestados nos atos de fundação e consolidação desta Arcádia”. 

Sequencialmente, reproduzem-se a alocução do Dr. Damasceno, após a qual está expresso o discurso do imortal da ACLJ, ANP e ACLP, em agradecimento pela ideia. 

 

TOTVS TVVS – 25º LIVRO DO PORTFOLIO DO ÁRCADE NOVO VIANNEY MESQUITA

                                          José Damasceno Sampaio

Palmácia, 11 de abril de 2026

Saudações (...)

       

Constitui satisfação muito especial, para mim e todos os palmacianos, proceder ao lançamento de mais uma obra do imortal desta Entidade Acadêmica, o Professor João VIANNEY Campos de MESQUITA, árcade novo Jovem Chrónos, Cadeira número dois, um dos fundadores da nossa tão estimada Arcádia Nova Palmaciana, no decurso dos seus dez anos de funcionamento, pois instituída em 2016.       

Totus Tuus – Temas do Catolicismo Pós-Tridentino, sob editoração da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo  – por intercessão, seja expresso, do Senhor Presidente, advogado e escritor Reginaldo Vasconcelos  é o vigésimo quinto livro do escritor compatrício, aqui nascido em 17 de agosto de 1946, Vianney Mesquita, membro-titular e fundador na Arcádia Nova Palmaciana. Seu patrono na ACLJ, onde ocupa cátedra, é o também intelectual palmaciano José Rebouças Macambira, escritor e professor internacionalmente apreciado.       

Neste bem alentado quantitativo, 25 bens literários e científicos somente em livro, impende exprimir, não está contabilizada a produção de centenas de artigos e motes de ambas as mencionadas grandes áreas do saber, editados em periódicos cearenses e nacionais, na maioria vinculados à sua alma mater – e minha, também, tenho o orgulho de expressar – a Universidade Federal do Ceará, e outros organismos de ensino, pesquisa e extensão literárias e de pesquisa no Brasil.       

A produção multímoda do nosso Autor cobre matérias do trato científico e literário, como, entre muitas outras motivações, Escrituração de Textos do Saber Parcialmente Unificado, Filosofia, Sociologia, Poesia, Literatura e Crítica Literária. E, neste passo, conforme é o bem de que cuido agora, a temática descansa na Religião Cristã Católica, cujo assunto é objeto de publicação de dois outros volumes seus, intitulados ...E o Verbo se Fez Carne e Franciscos Moradores do Céu – este com o selo da Arcádia Nova Palmaciana – Solar dos Sampaios, editado aqui em Palmácia em 2018.       

O produtor de bens editoriais sob comento, e que nos enleia e enobrece neste momento, sempre foi muito bem recepcionado pela crítica, cuja reunião de conceitos, se procedida, resultaria num imenso infólio, parte do qual alguns pequenos juízos de terceiros a Editora achou de expender como fecho do livro ora sob escólio.       

Para ser breve e agradável, conforme recomenda o brocardo latino Esto brevis et placebis, arremato esta alocução, oportunidade em que, no meu nome e acolitado pelo nosso Silogeu, Arcádia Nova Palmaciana, dirigimos parabéns mais uma vez ao preclaro concidadão Vianney Mesquita.  Isto se dá em razão da sua colheita escritural de elevada qualidade, que afidalga por demais a nossa Terra e enriquece o relicário da inteligência e da cultura locais, com obra religiosa de acrisolado valor, representativa do modo de pensar no Alto comum ao povo condutor das palmas da nossa Paróquia, agora sob direção espiritual da nova Diocese de Baturité.

 

 

***

 

 

“AGRADECIMENTO – LEMBRANÇA DO CORAÇÃO”

Vianney Mesquita

 

Constitui prazer renovado estar aqui, numa reunião de posses diversas da nossa Arcádia Nova Palmaciana, ora procedendo ao lançamento do meu livro Totvs Tvvs – Temas do Catolicismo Pós-Tridentino.       

Acerca dele, o árcade novo Adamastor Urano, o palmaciano Dr. José Damasceno Sampaio, discorreu com palavras bondosas, alevantando, consequentemente, o valor literário e religioso de tão singela produção.  

Nosso novo Presidente, empós dez anos do subido comando do árcade novo Eládio Dionísio – o Professor Fernão de la Roche d’Andrade Sampaio  exprimiu rápidas considerações a respeito do meu trabalho editorial, configurado em 25 produtos em livros, sendo este o derradeiro, inclusive havendo já outro sendo trabalhado para lançamento ligeiro. 

Conforme disse Lao-Tsé, Gratia et memoria cordis  o agradecimento é a memória do coração  de tal sorte que o íntimo da minha pessoa remansa reconhecido pelas benignas observações do Presidente, no mesmo passo em que manifesto reconhecimento às membras e membros do nosso Silogeu, por haverem por sustentado, com os aprovos dos habitantes do Solar dos Sampaios, os interesses desta Academia, a qual terá, decerto, existência extensa, prazerosa e historicamente registada. 

Sou reconhecido aos conterrâneos pelo apoio concedido aos imortais deste Sodalício, na certeza de que, por eles, a palma citada na nossa divisa será magnificamente conduzida. 

Obrigado. Vianney Mesquita, árcade novo Jovem Chrónos.

CRÔNICA - Um Pouco Baço (SQC)

Um pouco baço
Sávio Queiroz Costa*

 

Outro dia me peguei olhando para um copo. Não havia nada de especial nele. Era um copo desses comuns, de vidro grosso, sobrevivente de quedas, lavagens apressadas e muitos almoços sem importância. 

Um copo honesto. Cumpria sua função com a serenidade das coisas que já entenderam o mundo. Mas não brilhava. 

Fiquei algum tempo com ele na mão, girando-o contra a luz, como se procurasse um defeito que justificasse aquilo. Não havia trinca, não havia sujeira. Ainda assim, o brilho tinha ido embora. Pensei: ficou baço. 

E, como acontece com certas palavras, essa não se satisfez em ficar apenas no copo.

Fiquei algum tempo com ele na mão, girando-o contra a luz, como se procurasse um defeito que justificasse aquilo. Não havia trinca, não havia sujeira. Ainda assim, o brilho tinha ido embora. Pensei: ficou baço.

E, como acontece com certas palavras, essa não se satisfez em ficar apenas no copo. Há coisas que, com o tempo, não se quebram – o que seria até mais fácil de lidar. Elas apenas deixam de reluzir. Continuam ali, inteiras, funcionais, até confiáveis. Mas já não devolvem a luz com o mesmo entusiasmo. Como se tivessem aprendido alguma coisa que nós ainda não sabemos bem o quê. Talvez seja isso o envelhecimento em sua forma mais discreta. 

Não o corpo, que esse se encarrega de dar sinais mais evidentes. Nem a memória, que vez ou outra tropeça para nos lembrar da sua existência. Falo de algo mais sutil. Uma espécie de ajuste fino entre o que esperamos e o que aceitamos. 

A juventude, ao que parece, é luminosa por excesso. Tudo brilha demais, às vezes até sem necessidade. Há um desperdício de intensidade nas coisas  um exagero de brilho que beira a imprudência. A gente se espanta com facilidade, se entusiasma por pouco, acredita com uma confiança que hoje nos pareceria quase irresponsável. 

Depois isso passa. 

Não de repente – nunca de repente. Vai diminuindo aos poucos, como a luz de uma tarde que não chega a escurecer, mas também já não é dia pleno. O mundo não perde a graça, mas perde um pouco do brilho. E, curiosamente, isso não chega a ser uma perda. É uma troca. 

Ganha-se em nitidez o que se perde em brilho. As coisas ficam mais claras – ainda que menos luminosas. A gente passa a enxergar melhor, embora com menos encantamento. E talvez haja uma certa paz nisso, uma economia de espanto que torna a vida mais habitável. 

Os objetos sabem disso há mais tempo. 

O móvel antigo que já não reluz, mas sustenta tudo. A faca que perdeu o polimento, mas corta melhor do que nunca. O copo – sempre ele – que já não brilha, mas permanece firme, presente, suficiente. 

As pessoas, suspeito, aprendem com os objetos. Não deixam de rir, nem de se interessar pelas coisas. Apenas já não precisam que tudo cintile o tempo todo. Há uma espécie de descanso no olhar. Uma maneira mais tranquila de atravessar os dias, como quem não precisa mais confirmar a cada instante que a vida está acontecendo. E está. Só que sem o mesmo brilho. 

De vez em quando, é verdade, bate uma certa saudade daquela luz mais intensa – quase imprudente – que iluminava tudo. Mas logo passa. Porque também havia cansaço ali, um excesso difícil de sustentar por muito tempo. 

O copo continuava na minha mão. Coloquei-o de volta sobre a mesa com um cuidado que ele certamente não exigia. Fiquei olhando mais um pouco, agora sem tentar entender. Apenas aceitando. 

E me ocorreu, sem qualquer drama, que talvez não haja nada de errado nisso. 

Nem no copo.

Nem no tempo.

Nem em nós. 

Talvez o brilho não desapareça, apenas se recolha. 

Fica mais discreto.

Menos exibido.

Quase íntimo. 

E é por isso que, quando a gente se reconhece – assim, de repente – em alguma coisa ligeiramente opaca, não chega a ser uma perda. 

É só o tempo, com sua delicadeza um pouco irônica, nos ensinando a brilhar para dentro.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

ESTROFES DE GERALDO AMANCIO

ABENÇOADA CAGECE 

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CRÔNICA - O Homem que Guardava o Mundo (SQC)

 O Homem que
guardava o mundo
Sávio Queiroz Costa*

 

Conheci um homem que guardava o mundo numa sala. 

Não era um mundo grande – nada disso. Cabia inteiro em algumas prateleiras, duas vitrines e uma mesa antiga de madeira escura, marcada por pequenos círculos de copos esquecidos. Ali repousavam conchas do mar, uma bússola que já não apontava para lugar nenhum, uma pedra vulcânica trazida por um amigo distante, um inseto aprisionado em âmbar que talvez fosse verdadeiro – ou talvez não – e um telescópio pequeno demais para alcançar qualquer estrela importante. 

“Meu gabinete de curiosidades” – disse ele, com um sorriso discreto, como quem apresenta um velho amigo. 

Fiquei olhando aquelas coisas todas como quem visita um pequeno planeta doméstico. Cada objeto tinha uma história. Ou melhor: tinha a promessa de uma história. 

A concha vinha de uma praia onde ele nunca mais voltou. 

A bússola pertencera a um avô que jamais navegou. A pedra negra fora comprada num mercado de rua em Lisboa, embora o vendedor jurasse que vinha da Islândia. 

E o inseto no âmbar – bem, aquele ninguém sabia ao certo de onde vinha. Talvez de um antiquário, talvez de uma conversa bem contada. 

O curioso é que, apesar da diversidade, nada parecia fora de lugar. Tudo ali coexistia com a tranquilidade das coisas que encontraram finalmente um destino. 

Foi então que percebi a estante ao lado. Livros. Muitos livros. 

Volumes grossos de História Natural, atlas antigos com mares que ainda escondiam monstros, relatos de viagem escritos por homens que acreditavam sinceramente ter visto dragões em alguma parte do Oriente. Havia também dicionários, enciclopédias, tratados científicos e alguns romances discretamente misturados, como se tivessem entrado ali sem pedir licença. 

Os livros pareciam vigiar silenciosamente as curiosidades da sala, como professores pacientes observando alunos distraídos. 

Perguntei a ele para que serviam tantos livros. Ele respondeu, com a simplicidade de quem repete algo que já pensou muitas vezes: “O gabinete mostra o mundo. A biblioteca tenta compreendê-lo”. 

Achei bonito aquilo. Porque o gabinete era feito de espantos. Cada objeto era um pequeno susto da realidade: veja isto, veja aquilo, veja como o mundo é vasto e estranho. 

Já a biblioteca era feita de perguntas: Por que essa concha tem esse desenho? De onde vem essa pedra? Como funciona essa bússola que perdeu o norte? 

Passei ainda algum tempo ali, olhando, ora para as vitrines, ora para as estantes. 

E me ocorreu que talvez toda vida humana seja construída assim: primeiro reunimos coisas que nos maravilham – lembranças, viagens, encontros, pequenas relíquias sentimentais – e depois passamos o resto do tempo tentando entender o que tudo aquilo quer dizer.

Alguns fazem isso com objetos. Outros com livros. Outros, ainda, com memórias. 

Antes de ir embora, voltei os olhos uma última vez para a sala. O gabinete continuava silencioso, exibindo o mundo em miniatura. A biblioteca permanecia imóvel, paciente, esperando que alguém abrisse um de seus volumes e tentasse decifrar o enigma. 

Talvez seja esse o equilíbrio secreto das coisas. O mundo existe para nos espantar. E os livros, para nos consolar da nossa ignorância.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CRÔNICA - Três Amores (AG)

 TRÊS AMORES
Aluísio Gurgel*

 

Dizem que temos pelo menos três amores em nossas vidas. O primeiro é uma descoberta incrível que arrebata e encanta o coração apaixonado. Nada é temido. Nada representa risco. Tudo é avassalador — é o amor da adolescência. 

O segundo acontece na vida adulta e traz em si a tradução de todas as fraturas que um relacionamento in fieri pode provocar. Ele é pródigo em decepções e desilusões. Ele ensina tudo o que é necessário não fazer para nos relacionarmos bem com alguém — é o amor traído, a entrega não correspondida a contento, cujas cicatrizes marcam para sempre. 

O terceiro é o amor maduro, é o amor sem cobranças nem imposições. Ele é construído com base na segurança emocional mas a partir de critérios de racionalidade. Costuma ser o amor para o envelhecimento e o coroamento da vida — é o amor que dignifica e protege, que dá sentido à caminhada rumo ao desconhecido e à eternidade.