segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ARTIGO - Ego de Silício (RV)

 EGO DE SILÍCIO
Reginaldo Vasconcelos*

 

Eu tenho ouvido teses catastrofistas de que programas de inteligência artificial se possam converter em androides independentes, que se poderiam associar, revoltarem-se contra o criador, para dominar, submeter, escravizar e até extinguir a humanidade.


 

Bem, eu acho que todo grande advento tecnológico traz avanços positivos, mas também problemas novos, até e principalmente pode vir a ser utilizado pelo crime, para o mal da sociedade. 

 

A aviação de Santos Dumont, por exemplo, foi desenvolvida pelo seu criador para o bem da humanidade, mas sempre que uma aeronave dá problema, técnico ou operacional, mata gente de forma trágica, às centenas em cada desastre aeronáutico.


 

Além disso, a aviação é hoje utilizada para fins bélicos, irracionais e desumanos, sendo capaz de destruir cidades e de matar pessoas às centenas de milhares, como os aviões Enola Gay e Bockscar sobre Hiroshima e Nagasaki.

 

Não creio que a dita IA vá representar a exceção da regra – e ela já dá sinais de falhas graves, que estão denominando “alucinações”, demonstrando absoluto descontrole operacional e informativo.

 

Mas, segundo penso, o que limita a IA é a sua artificialidade exatamente, que a impede de conspirar contra a civilização humana, por falta de objetivo finalista, que só a natureza propicia e de que só pode dotar os seres vivos.

 

Eu me refiro – lato sensu – ao sexo, à gratificação física e psíquica, ao tropismo vegetal, enfim aos impulsos naturais cujo desiderato orgânico ou instintivo é a perpetuação de cada espécie.


 

Esse intuito que estimula a natureza, de forma tácita, a “crescer e multiplicar”, se manifesta no reino animal e também no mundo vegetal, quando a planta flora, produz rebentos e dissemina sementes, gera toxinas para afastar predadores, entra em mutualismo ou em simbiose para polinização.

 

E essas pulsões, orgânicas e subliminares, no ser humano, formam a sua estrutura sentimental e afetiva e estão entrevistas como o grande motor de toda a dinâmica social.

 

Tudo que move a pessoa visa sempre a alteridade, e na falta dela têm-se o grande drama existencial colocado pelo escritor britânico Daniel Defoe no seu personagem Robson Crusoe, condenado à solidão absoluta numa ilha.   


 

A paixão, a conquista, o poder, o reconhecimento público, a admiração dos circunstantes, o orgulho do ser amado, o sucesso econômico e a segurança financeira da família – para muitos, até uma resposta coerente com a conduta do seu mais estimado ancestral – essas são a mola propulsora da inteligência natural.   

 

A morte de cada um é intimamente intuída, mas as perspectivas se projetam para a prole, para os sucessores, para a memória histórica, para os pósteros em geral. Cada qual de nós se sabendo finito mantém uma meta virtual que precisa perseguir.

 

É claro que nada disso pode se verificar na máquina de inteligência digital, que adquire saberes e desenvolve raciocínio matemático, acumula informações que propiciam conclusões lógicas dedutivas, mas jamais terá “sabedoria”, jamais terá poderes intuitivo e contraintuitivo, jamais será capaz de fazer elaborações de raciocínio indutivo.

 

Por fim, quando uma entidade de IA ficar “alucinada”, sem poder colimar meta concreta na defesa de seu ego de silício, à míngua de uma estrutura sentimental e afetiva, a sua tendência será de colapsar completamente.

 

Então, deverá ser destruída pelo cérebro construtor, ou se autodestruirá – certamente depois de causar graves danos aos mecanismos, aos seres, às populações que dela se tiverem tornado dependentes. 


      

ARTIGO - Lançamento Invulgar (VM)

                    

Libação Prévia no
Ritual de um
Lançamento Invulgar
(Comentos Curtos sobre o Romance de Ítalo Gurgel)
 Vianney Mesquita*

                                                 

O crítico é um arquiteto a posteriori, habilitado a desmontar o conjunto da obra peça por peça, para dizer como foi feita e com que material. E nessa tarefa mexeriqueira de desmontagem e remontagem, mais uma vez se engana e ficam sobrando parafusos. (Sérgio Milliet da Costa e Silva – escritor, poeta e pintor. São Paulo, 20.09.1898; 09.11.1966). 

Notações de Entrada

No dia inaugural de setembro de 2026, o cearense aficionado em matérias de qualidade aguarda, sobranceiro, a solenidade de entrega do fotografado romance ao universo ledor – o primeiro desse gênero, do farto portefeuille temático deste professor, jornalista, poeta, orquidófilo e imortal cearense (nascido em Caraúbas-RN) Ítalo Gurgel.      

Eis uma apreciadíssima pessoa em todas as ricas ambages humanas e intelectuais por onde transita, com sucesso e glória inusitados, pretextos pelos quais seus circunstantes sempre o aceitam e recebem e abraçam e recolhem e aplaudem no regaço familial extenso das amizades autênticas e ininterruptas.

Em decorrência de nossas aproximações bem anosas, desde os meados dos anos de 1970, na qualidade de docentes da Universidade Federal do Ceará, bem assim na Academia Cearense da Língua Portuguesa, provei da ventura de ler por antecipado e ao abrigo de obséquio seu o livro sob comentário ligeiro, ainda não editado, de inexcedíveis legitimidade e mérito, porém, ainda, desassistida do anteâmbulo firmado pelo imortal Linhares Filho. 

A Mano a Mano com os Criticastros       

Impende exprimir o fato de que não faço glosas acerca do que não saboreio, procedendo a tais escoliações somente quando o produto não é acompanhado de defeituações de qualquer natureza, por mínimas que sejam, o que, aliás, o arquiteto ao depois, mencionado pelo pintor e literato paulistano Sérgio Milliet na epígrafe destas notas, aproveita sempre para desbaratar a produção, mesmo que desazadamente, sem um motivo rijo capaz de pejar a semente literária e infelicitar quem a agricultou.

Vez por outra  não é transgressor manifestar pela via deste parêntese  há um desmontador de parafusos sergiomilletiano, aqui em Fortaleza – somente um, seja expresso  que assim se conduz em relação a mim, atitude reduzida, mensura temporis, porque, em todas as ocasiões, lhe respondo ao contestar as irracionais alusões. Demais disso, indigito grosserias linguísticas e sem-razões toscas em seus bens editoriais, valiosos, seja dito en passant, numbateu-levou” operoso, de resultados imediatos e efeitos duradores.       

Já no que concerne ao rematado Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas, quero ver quem demonstra a coragem covarde de arrematar contra! Sofreria, decerto (se o escritor norte-rio-grandense fosse um arengueiro de marca maior semelhado ao desnaturado criticastro), respostadas semelhantes à do arengado que, como réplica, espessa por excelência, ouviu do aplaudido autor de Le Rouge et le Noir, Henri-Marie Beyle, chamado Sthendal (Grenoble, 23.01.1783; Paris, 27.03.1843) o que vem ligeiro à continuação. Sthendal partiu para a briga, armado com os aços da palavra, a um sujeito que dirigiu comentações com acres desdouros a uma de suas obras: Este homem não tem a minha opinião; logo, é um imbecil; critica o meu livro, então é um celerado, ladrão, assassino, jumento, falsificador, canalha, covarde (Confer Della Nina, in Mesquita. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013, p. 11). Comportou-se meio exagerado o escritor de Rome, Naples et Florence e De l’amour? Sim. E, evidentemente, ninguém vai respostar assim, caso suceda com o romance do Prof. Ítalo. Tal não há de, não tem como acontecer...! 

Também é o instante azado de eu exprimir, conforme muita vez já o fiz, a ideação de que não é cabível adentrar com profundez a explicação de uma obra, porquanto vai subtrair o hors d’ouevre do prato principal, o acepipe dirigido ao leitor, a quem incumbe ler, decodificando ao seu modo, um artefato artístico, máxime se estável, segundo é conformado o gênero romanceado de que labilmente cuido. 

Impõe-se, entretanto, mormente em direção aos consulentes menos apercebidos das taxionomias literárias, discorrer, conquanto efemeramente, a respeito desta relevante matéria, segundo exprimido à continuidade.       

O Gênero Romance       

Das castas artísticas por meio das quais o literato robustece e propagandeia sua mais ardorosa inspiração, o romance é um dos mais apreciados. Tal sucede, certamente, porque, em se cuidando de narração mais ou menos dilatada, aqui bem distendida e para gáudio do leitor -, nele são traçados fatos imaginários, passíveis de veracidade, pois às vezes incitados por ventos autênticos, cujo fulcro é suscetível de ser topado em veracíssima relação histórica passada em Caraúbas, Aracati e contiguidades, relato de aventuras, exame de costumes ou tipos psicológicos, análise social ou em quaisquer pretextos relevantes, quando se logra estabelecer uma peça deleitosa, a conquistar a simpatia e o interesse do consultante, segundo é ocorrente com Dona Quitéria – a Senhora das Caraúbas, emparelhado com precisão a essas ligeiríssimas exegeses.

Vários – e indispensáveis – são os requisitos para um bom romance restar caracterizado, o mais relevante dos quais desfecha na originalidade, conforme o intelectual sob relação obedeceu na completude. 

Já expressei, muita vez, a ideia de que, conquanto haja editado alguns volumes e artigos em periódicos, no âmbito da ciência, no concerto crítico e na senda da prática religiosa católico-romana, jamais venci o temor de trazer à luz editorial uma composição gradeada pela estirpe culto-estética de narração romanesca. Isto, sempre, porque me divisava feito um dublê, verdadeiro menecma nalguns pontos da trama e do estilo, com romancistas que havia lido, bem como achava uns parecidos com os outros. 

Quiçá haja ocorrido essa circunstância em virtude de pruridos de perfeição, os quais constantemente tocaram minha exigente recepção de mensagens artísticas, jamais no que respeita ao estado de originalidade, condição literária que privilegio para, de leve, articular, neste passo, estas concisas e lacônicas notações sobre esta e o restante da produção desse vate, professor e produtor de crédito nacional, Ítalo Gurgel.

Não em raras ocasiões, me divisei perdoado da quiçá inocente parecença dos meus originais romanescos nunca publicados com os de outrem, lembrando-me, até, da identidade estilística de Eça de Queirós, no O Crime do Padre Amaro, Emílio Zola, em Faute de l’Abbe Mouret; senão, também, da comparação a que eu tinha o costume de proceder, mostrando certa similitude nas produções de Archibald Joseph Cronin (Cardross – UK, 19.06.1896; Montreux – Suiça, 06.01.1981), por exemplo, na A Cidadela, os estilos, as personagens e motivos de Sir Arthur Conan Doyle, exempli gratia, n’As Aventuras de Sherlock Holmes; e as irmãs Brontë – Anne, Charlotte e Emily – com pseudônimo dos Bells-Currer, Ellys e Acton; e ao confrontar Camões com Vergílio e Homero, Oliveira Paiva com Aluisio de Azevedo ... e tantas outras colações empreendidas, até com alguma razão ao fazê-las, a fim de me inocentar, não de plágio, mas de contrafeições elocutórias em que era capaz de incorrer sob influência de suas leituras.

Ex expositis, conforme anunciado há pouco, são deixadas à parte, intencionalmente, neste comentário, diversas exigências da escrita literária, tantas de que a Teoria da Literatura faz divisão, com vistas a distinguir a originalidade. É, pois, a circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente original, agora sob apressada relação.

Remansa manifesto, quando convido com instância, também, o atributo da novidade para comentar, o fato de que, no romance sob notícia, texto que me estimulou o contentamento de cronista, cursam os requisitos da boa literatura, de sorte que, privilegiando, neste lance, o aspecto de singularidade criadora, não significa exprimir que o autor preteriu os demais, pois, ao reverso, os valorizou ao extremo, porquanto bem calçado, incólume e intactamente, do pressuposto da raridade componente da trama, das personagens, literatura e elocução, motivo pelo qual não se parece com NINGUÉM, consoante sucedeu comigo.

No lance em que o consultador proceder à decifração textual deste romance de IG – quem sabe – ele vai deparar o inesperado... Os romancistas existem para nos dizerem algo sobre os romancistas – evoca-nos Lord Chesterton. Tenham, portanto, a convicção de que os bons terminam bem, ao contrário dos maus – eis o que são os romances – na sentença de Oscar Wilde. 

Progredimos, com efeito, na ideação de que, na qualidade de leitor impertinente, a quem não é todo escrito que satisfaz, me deleito com este lépido e honesto parecer acerca de Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas revistado da entrada ao termo, impressionando-me com suas meadas perspicazes, teceduras consentâneas e conducentes a um fecho. 

 A Jeito de Fim 

Impressionaram-me, sobremodo, as vinculações autênticas e sinceras a que o autor procede com a família, os locais de ocorrência da contagem romanesca, a religião cristã-católica  sem, entretanto, recorrer à carolice, no exagero da santidade fingida e santimônia antibíblica das mãos postas e das mostras de veneração forçada, posando para os holofotes da sociedade, comportamento a que me não afaço e até antipatizo na circunstância de cristão católico praticante.       

Com efeito, Ítalo Gurgel, sob a estampa e fiel aos sabores da codificação linguística de Geraldo Jesuíno da Costa, Linhares Filho e Sousa Nunes – cânones de escritores coestaduanos – presenteia o público das nove nações lusófonas com este volume de insuperável axiologia literária, cujos teores vão ser conhecidos no dia primeiro de setembro que vem. 

A obra é acobertada pela magia harmoniosa e impressionante do primo especialista há pouco mencionado, GJ, ao complementar o conteúdo de Dona Quitéria  a Senhora de Caraúbas, com o continente de sua raríssima estese, configurado no desenho de toda a produção, um santuário visível, com ornamentos exteriores aformoseando o interno teor imageticamente sacrossanto do Romance.       

Conquanto não haja lido, ainda, as notações preambulares do imortal acadêmico lavrense José Linhares Filho, bem que eu queria ter a igual certeza de minha redenção lá no Assento Etéreo como a retenho acerca da coerência, racionalidade, beleza e precisão das manifestações acerca da produção italogurgeliana por parte do amigo e decantado estudioso da Literatura Lusitana, notadamente de Fernando Pessoa. 

Na expectativa pressurosa encontro-me relativamente à oração a ser proferida a respeito do Romance pelo jovem e perito professor de língua portuguesa e código inglês, docente do Colégio Farias Brito e presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o escritor Sousa Nunes, uma das personalidades mais estimadas no âmbito da intelectualidade cearense, tanto em razão de seus aprestos intelectuais, entretanto, jamais pelo refinado apuro cidadão a lhe presidir o caráter humano e suas ações de elevada urbanidade.       

Então, escritor Ítalo Gurgel, eis que faço esta prelibação, na minha espirituosidade comedida, pois não achegado à carraspana  sob a companhia de um Vinum bonum et suave, Bonis bonum, pravis prave, Cunctis dulcis, sabor ave Mundana laetícia!, no aguardo da festa de lançamento do seu mais novo bem editorial. 

Abraço vigoroso!

                   

terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA - O Futebol Deveria se Chamar Pelé (CRA)

 O FUTEBOL DEVERIA
SE CHAMAR PELÉ
Carlos Rubens Alencar*

  

A Copa acabou e ficou a ressaca. É nesse vazio que a gente volta a falar dele. 

Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23 de outubro de 1940, em Três Corações, Minas Gerais. Cresceu em Bauru, São Paulo, jogando descalço no campinho de terra. 

E aos 17 anos, em 1958, na Suécia, reinventou o que a gente entende por futebol. 

Desde então, em 100 anos de Copa, um nome virou régua. Chega um craque novo: Será melhor que o Pelé? Cai um recorde: Mas o Pelé fez antes. 

Ser Rei é isso, como disse Paulo Vinícius Coelho: Ser coroado aos 17 e passar 70 anos sendo a comparação. 

Puskas tinha o canhão.

Di Stéfano, a elegância.

Cruyff, o cérebro.

Garrincha, o drible de outro planeta.

Beckenbauer, a imponência.

Maradona, o carisma.

Ronaldo, a explosão.

Messi, a modernidade.

Cristiano, a obsessão pelo gol. 

Todos gigantes. Mas todos jogaram o esporte do Pelé. 

Foram 3 Copas do Mundo: 1958, 1962 e 1970. Foram 1283 gols oficiais. Jogou de ponta, de 10, de volante. Até de goleiro já foi. 

Levou o Santos para a África e para a Ásia em excursões históricas. Em 4 de fevereiro de 1969, na cidade de Benin, na Nigéria, a Guerra de Biafra fez um cessar-fogo para o povo ver o Santos de Pelé jogar. O Alvinegro venceu por 2 a 1. 

O mundo segue gritando por um novo Pelé. O marketing cobra um novo Pelé. Não vai ter. Grandeza assim é única e não se repete. 

Por isso, talvez, a gente precise chamar as coisas pelo nome certo. Se futebol é o esporte que ele inventou, então que leve o nome dele. 

A partir de hoje não é mais futebol. É Pelé. 

Aí tudo faz sentido: Messi é o melhor jogador de Pelé da Argentina. Maradona foi o melhor jogador de Pelé de Nápoles. Mbappé é o melhor jogador de Pelé da França. 

Pelé jogou. O mundo parou”. Se o mundo parou, que o esporte leve o nome de quem fez parar. Porque Deus é Deus. E Pelé é Pelé. Nunca houve. Nunca haverá igual.


quinta-feira, 30 de julho de 2026

ARTIGO - Romantismo, Cognição e Política (RMR)

 ROMANTISMO,
COGNIÇÃO E POLÍTICA
Rui Martinho Rodrigues*

 

O romantismo, como movimento artístico e literário, guarda íntima relação com a Filosofia romântica alemã. Ambos surgiram em fins do séc. XVIII e cresceram no séc. XIX, quando alcançaram grande expressão. Foi uma reação à razão mecanicista do Iluminismo, ênfase na subjetividade e um apelo ao nacionalismo ligado à afirmação da identidade alemã. O titanismo evoca a mitologia grega, na figura dos titãs e de Prometeu, expressa a inconformidade com a realidade e a disposição para romper regras e limites, que é uma das marcas do romantismo.

Friedrich Schlegel (1772 – 1829), na obra Conversa sobre poesia, aproxima a Filosofia da obra poética, fragilizando a vigilância epistemológica, que é preciosa ao trabalho do filósofo. Mais tarde Lucio Colletti (1924 – 2001), pensador italiano, referiu-se à dialética hegeliana como uma senhora de costumes cognoscitivos fáceis. Aludiu à mistura de teses e antíteses e à cosmogonia não demonstrada. 

A síntese dialética do voluntarismo romântico com sua antítese, o determinismo positivista, permitiu a Friedrich Engels (1820 – 1895) explicar tanto a natureza como os fenômenos sociais com a dialética, na obra Dialética da natureza. A senhora de costumes cognoscitivos fáceis permitiu tal inversão.

O titanismo dos românticos ensejou revolta contra regras, limites e fatos. Acabou por guardar relação com o ódio, o extremismo, e desconectado da realidade. Tudo isso foi o resultado da inconformidade em face da realidade, conforme Isaiah Berlim (1909 – 1997), na obra Ideias políticas na era romântica. 

Berlin relaciona o extremismo autoritário e a violência com o romantismo, em razão da tendência para a revolta e o desprezo pela realidade das experiências históricas. Isso é dito indiretamente, associando o romantismo a uma profunda mudança na consciência ocidental, em razão da ressignificação do que entendemos por liberdade, do indivíduo e por autoridade legítima, como consequência da extremada rejeição à racionalidade posta pelo Iluminismo. 

A síntese do romantismo com outras tradições cria contradições difíceis de contornar. Surge assim a necessidade de muito contorcionismo lógico, que por sua vez resulta em obras cuja complexidade torna os textos incompreensíveis até para grandes pensadores. 

A Navalha de Ockham, princípio enunciado por Guilherme de Ockham (1287 – 1347), segundo o qual entre muitas explicações para um fenômeno, provavelmente a mais simples é a correta, colide frontalmente com prestigiosos autores incompreensíveis.

Dificilmente uma banca examinadora aprovaria uma tese que os professores não fossem capazes de entender. A incomunicabilidade dos paradigmas, de Thomas Kuhn, na obra A estrutura das revoluções científicas, pode explicar a incompreensão dos seguidores de paradigmas distintos. Quando, porém, uma obra é incompreensível até para grande parte dos seguidores da mesma corrente de pensamento, a situação é diferente. 

Karl Raymond Popper (1902 – 1994), na obra Sociedade aberta, universo aberto, que é um conjunto de entrevistas e conversas com o jornalista Franz Kreuzer, afirma que a falta de clareza, quando se trata de pessoa altamente qualificada do ponto de vista intelectual, sugere fundamentação precária, sugestiva de logomaquia. Também pode significar que o véu de Maya, de fala Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), na obra O mundo como vontade de representação, ilusão que recobre o mundo real. Por trás do referido véu se esconde a vontade cega que move o mundo.

O declínio do debate político e filosófico, no contexto da pós-modernidade, reflete efeitos tardios da síntese dialética do espírito romântico com a relativização cognitiva e das referências axiológicas, em nome de uma cultura plural que prega a tolerância e enfatiza a falibilidade enquanto age de modo dogmático em nome do politicamente correto.


domingo, 19 de julho de 2026

ARTIGO - O Deus Pã e a Arcádia (PN)

 O deus Pã e a Arcádia
Pierre Nadie*

 

Queres conhecer a história de um locus amoenus, onde a paz escondia-se do frenesi da vida urbana e era buscada na harmonia da convivência com a natureza? 

Na região montanhosa do Peloponeso, onde rochas escavadas espreitam grandes abismos, vegetação campestre, sem o dossel de florestas, tocada pelo vento que sopra do Mediterrâneo, era ali que Pã se deliciava, ao lado de pastores e ninfas, numa paz bucólica. Um mito nasceu, com o deus da natureza e dos pastores, em idílica harmonia. 

Arcádia, uma unidade regional da Grécia, que ainda hoje existe com sua Capital Trípoli, é uma região da península do Peloponeso, situação geográfica, que ensejou a mitologia bucólica, exaltando a calmaria e a beleza da natureza, em harmonia com a simplicidade dos pastores. Eles apascentavam seus rebanhos, compondo canções campesinas, nascidas do cenário natural da montanha e encostas, bem distante dos burburinhos e dos contratempos citadinos.  

Esta mitologia de uma visão idílica de harmonia da criatura com a natureza, decantada como reino da felicidade, da simplicidade e da paz em comunhão com a natureza e onde os vícios da civilização não punham os pés, ensejou o nascimento do Arcadismo a cultivar tal harmonia, o qual espalhou-se pela Europa, tendo o primeiro movimento literário surgido em Roma, em 1690, a Arcádia de Roma, cujo lema era inutilia truncat (corte as coisas inúteis).

 

Encontram-se, porém, referências a este mito, nas Bucólicas de Virgílio, com seu gênero pastoril. Também chamadas Éclogas, escritas acerca de 39 a.C., Virgílio apresenta cenário pastoril com cantos de amores e lamentos, servindo de inspiração ao Arcadismo. Ele, segundo alguns, foi o primeiro latino a criar poesia bucólica, com base na poesia neotérica de Calímaco, cujo “sopro” introduz a Bucólica VI: “Quando eu cantava reis e batalhas, Cíntio [isto é, Apolo] puxou-me a orelha e admoestou-me: ‘Ao pastor, ó Títiro, convém apascentar a gorda ovelha e cantar um poema ligeiro”’. 

No Renascimento, também há citações de escritores, como Garcilaso de la Vega que assemelha Arcádia à felicidade e harmonia do Paraíso. 

Mas, foi somente nos séculos XVII e XVIII, que se cunhou a nomenclatura Arcadismo, também denominada Setecentismo ou Neoclassicismo e começaram a surgir Arcádias – academias literárias, sendo a segunda a Arcádia Lusitana, fundada em 1756, com seus membros assumindo nomes de pastores, inspirados na antiga Grécia, e estimulando o retorno ao classicismo. Nesses clubes, poetas e intelectuais eram assíduos em ler obras, cultuar literatura clássica. 

Entre várias obras marcantes, cita-se Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo de Dirceu – publicado nos anos de 1792, 1799, 1812 e, no Brasil, destaca-se o mineiro e inconfidente Cláudio Manuel da Costa (1729–1789), sob pseudônimo Glauceste Satúrnio, que marcou o Arcadismo no Brasil, com Obras Poéticas (1768).  

E qual a etimologia de Arcádia? 

Arcádia deriva do grego Αρκαδία, (no latim Arcas, Arcadis) e remete ao latim fugere urbem (fugir da cidade). O termo pode também ter relação ao semideus Arcas, filho de Zeus e de sua amante, a ninfa Calisto. Arcas remete a Arktos, com a significação de “urso”, em grego. Diz a mitologia que a ninfa Calisto, mãe de Arcas, teria sido transformada em uma ursa por ciúme de Hera, esposa de Zeus, e, por isso, seu filho levou o nome que significa “urso”. Hermes, então, salva a criança, por ordem de Zeus, o qual, depois, teria transformado sua mãe na constelação de Ursa Maior e Arcas na constelação de Ursa Menor. 

Em resumo, pode-se dizer que o Arcadismo se baseia, nos postulados: 

1. Inutilia truncat. Este lema da Arcádia Romana colimava o objetivo maior: extirpar todo o excesso inútil, que, mais tarde, inspirou o neoclassicismo a romper com o requintado do estilo barroco; 

2. Fugere urbem. Deixar o bulício e a corrupção da cidade para encontrar o ‘locus amoenus’: inocência e conexão com a vida campestre, refúgio de harmonia. 

3. Carpe diem. Desfrutar o hoje, mergulhar na realidade que se está vivendo, nas circunstâncias, sem se inquietar demasiado, nem se angustiar com o amanhã. 

Devido ao desejo de uma vida rústica e bucólica, poetas renascentistas tornaram a Arcádia um mito literário: um lugar utópico de inocência, simplicidade, amor e prazeres simples. 

Três sonetos arcadianos 

*Temei penhas (Soneto 98) de Cláudio Manuel da Costa (pseudônimo Glauceste Satúrnio) 


Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
 
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza
 
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano
 
Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.
 
** Soneto I
 
Para cantar de amor tenros cuidados
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi, pois, o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:
 
Já vos vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
 
Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;
 
O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.
 
***Soneto mais característico do Arcadismo brasileiro
 
Estes os olhos são de minha amada,
Que belos, que gentis e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
Os doces frutos da estação dourada.
 
Por eles a alegria derramada
Tornam-se os campos, de prazer gostosos.
Em zéfiros suaves e mimosos
Toda esta região se vê banhada.
 
Vinde olhos belos, vinde, e enfim trazendo
Do rosto do meu bem as prendas belas,
Dai alívio ao mal que estou gemendo.
 
Mas ah! delírio meu que me atropelas!
Os olhos que eu cuidei que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.

 





Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arc%C3%A1dia_(poesia)

https://portrasdonome.blogspot.com/2016/12/arcadia.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Arc%C3%A1dia_(poesia)

https://plataforma.hexag.online/blog-noticias/arcadismo-o-que-e

https://www.arcadialivraria.com.br/quem-somos

https://www.escritas.org/pt/t/13057/i-sonetos-para-cantar-de-amor-tenros-cuidados

REFLEXÃO - Enquanto Não Conquistamos o Nome das Coisas (CRA)

 

ENQUANTO NÃO 
CONQUISTAMOS
O NOME DAS COISAS
Carlos Rubens Alencar*


A verdade não é verdade.
A verdade é verdade.
 
A mentira não é mentira.
A mentira é mentira.
 
A vida não é vida.
A vida é vida.
 
O pudim não é pudim.
O pudim é pudim.
 
O surreal não é surreal.
O surreal é surreal.
 
A morte não é morte.
A morte é morte.
 
O andar não é andar.
O andar é andar.
 
O vencer não é vencer.
O vencer é vencer.
 
A porta não é porta.
A porta é porta.
 
O espelho não é espelho.
O espelho é espelho.
 
O homem não é homem.
O homem é homem.
 
O cachimbo não é cachimbo.
O cachimbo é cachimbo.



 
René Magritte não é René Magritte.
René Magritte é René Magritte.
 
E no fim, tudo é.