sexta-feira, 12 de agosto de 2022

CICLO GEOGRÁFIOCO CEARENSE - Itapajé

ACLJ 
CICLO GEOGRÁFICO CEARENSE

(A HISTÓRIA E O POVO)

 
ITAPAJÉ

Itapajé, cidade norte-cearense, a 122 km de Fortaleza, com cerca de 51 mil habitantes, está comemorando 163 anos de sua fundação, desde quando, em 08 de julho 1859, a sede do Município foi transferida para a região de Uruburetama. 

Itapajé ostenta o dado histórico de ser a cidade natal do célebre intelectual Quintino Cunha (1875-1943), orador excepcional, advogado, poeta faceto, grande piadista, precursor do humorismo cearense, que empresta o nome a um bairro de Fortaleza  cidade em que está sepultado, sob o epitáfio, ditado por ele mesmo: "O Padre Eterno segundo, reza a Escritura Sagrada, tirou o mundo do nada, e eu nada tirei do mundo". 

A Cidade amarga a vergonha de haver permitido demolir recentemente a casa em que nasceu Quintino Cunha, para a construção de um prédio de apartamentos.


Deveria o proprietário do imóvel e construtor do prédio, pelo menos, dar o nome de Quintino Cunha ao novo edifício em construção. 

Itapajé também foi palco de um episódio político curioso, quando, em 1947, recepcionou os escritores baianos Jorge Amado e Zélia Gattai para um comício comunista, que foi frustrado a cacete pela população católica da Cidade. 

Este fato está relatado no livro “Um Chapéu Para Viagem”, da Zélia Gatai, que militava longamente com o marido no Partido Comunista, até que, já na maturidade, abandonaram essa agremiação política apostataram do marxismo. 

O nome da Cidade de Itapajé (ita + pajé), em tupi, refere o frade de pedra que sobressai à topografia montanhosa em que o Município se insere. 

Itapajé reverencia os habitantes originais da região, os índios Guanacés, de índole gentil, ainda muito presentes na genética do povo tradicional, em que os simples prevalecem. Tem ainda a marca histórica de ter sido a segunda cidade do Brasil a libertar os seus escravos, em 1883.




A feira livre da Cidade é armada aos sábados com uma boa oferta de frutas nativas da serra e de hortaliças e legumes de cultivo familiar, além de artigos de vestuário popular. 

Itapajé também se notabiliza pela produção artesanal de linguiças e de paçoca de carne seca confeccionada no pilão, além de outras iguarias cearenses de origem indígena, a base de milho, mandioca ou banana.

Reginaldo Vasconcelos (ACLJ) - Sávio Costa (ACLJ) - Lúcio Alcântara (ACL-ACLJ)
Deputado Danilo Forte

As famílias tradicionais de Itapajé são a dos Sales e a dos Bastos, do Dr. Alcides, dentista, comerciante, maestro, fundador da banda de música da cidade e de sua loja maçônica; a dos Gomes, do empresário João, fundador da indústria beneficiadora de algodão; a dos Rocha, comerciantes de tecidos; a dos Vieira, do agropecuarista Raimundo; a dos Forte, do político Danilo, hoje destacado Deputado Federal.


A Universidade Federal do Ceará, sob o Reitor Cândido Albuquerque, acaba de inaugurar em Itapajé o Campus Jardim de Anita, em estrutura construída e doada à UFC pelo itapajeense José Maria Melo, próspero representante comercial no Rio se Janeiro, falecido em 2011.

José Maria Melo e Anita Inára

O nome “Jardim de Anita” foi uma homenagem do doador do imóvel a Anita Inára Bertulis de Melo, natural da Letônia, com a qual foi casado e era viúvo.

Diretor Marcelo Melo - Deputado Danilo Forte
 
Reitor Cândido Albuquerque (ACLJ)


Nota do Editor: Vide esta matéria no Instagram da ACLJ (http://www.instagram.com/aclofocial)

ARTIGO - Conhecimento, Paixão e Polarização I

 

PARTE I
DE NOVA SÉRIE
 
CONHECIMENTO, PAIXÃO
E POLARIZAÇÃO I

Rui Martinho Rodrigues*

 

O mundo está polarizado, encolerizado. A intolerância encontra arrimo na denúncia da intolerância do outro. As redes sociais são apontadas como a grande culpada pela conflagração das sociedades pelo mundo afora, apresentando-se de modo desigual entre diferentes países. Não se trata, todavia, de fenômeno tão novo quanto as tecnologias digitais, embora a difusão massiva e instantânea de (des)informação e de opiniões exerça influência muito relevante. As crises que se seguiram a Primeira Guerra Mundial polarizaram a Europa. Os anos trinta foram marcados por radicalização e polarização da sociedade brasileira. Os ânimos se exaltam mais facilmente em tempo de crises. 

A conflagração das sociedades resulta da confluência das crises de (i) referências valorativas, (ii) do descrédito dos tradicionais formadores de opinião, (iii) do desgaste dos modelos de organização política, (iv) da súbita e ampla transformação cultural e de inumeráveis fatores. 

Abaladas estas referências, a comunicação é prejudicada pela diversidade que os significantes adquirem em razão da multiplicidade de significados, prejudicando o fenômeno social básico que é a comunicação. Não há sociedade sem comunicação entre os seus possíveis integrantes. Signos linguísticos formam os sistemas em que cada um deles é o que o outro não é, conforme Ferdinand de Saussure (1857 – 1913). A inobservância da demarcação dos significados dos signos gera uma verdadeira babel e convida ao conflito. 

Os gregos decidiam, na ágora, sobre problemas como fazer a guerra ou a paz, além de sacrifícios aos deuses por ocasião de epidemias. A complexidade da sociedade contemporânea nos coloca diante de problemas que desafiam a compreensão até dos eruditos e especialistas. 

Os candidatos a herdeiros dos reis filósofos de Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.) propõem uma reengenharia social. O fracasso do filósofo citado, quando tentou aplicar em Siracusa os princípios de sua famosa obra “A República” não desanimou seus prosélitos que insistem no empreendimento demiúrgico, apesar da revisão do pensamento do autor citado em obra posterior “As leis”. O fracasso de todas as tentativas posteriores não abala os pretensos criadores de uma nova sociedade e por meio dela um novo homem.

Parece haver o que Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996), na obra “A estrutura das revoluções científicas” descreve como o fenômeno da incomunicabilidade dos paradigmas, também conhecido como cegueira dos paradigmas. Gaston Bachelard (1884 – 1962), na obra “O novo espírito científico”, mencionou obstáculos epistemológicos aos novos conhecimentos. Thomas Kuhn usou, ainda, a expressão “vacina contra a realidade”, que tem sido divulgada como imunização cognitiva. Tudo isso se restringe aos aspectos epistemológicos como entrave à percepção e ao entendimento da realidade. Outros fatores relevantes são: (i) paixões e (ii) interesse, fenômenos ligados às (iii) transformações das línguas vivas, (iv) cosmopolitismo, (v) mobilidade social e geográfica e (vi) manipulação por parte de comunicadores, (vii) de intelectuais e (viii) de líderes políticos. 

A incomunicabilidade dos paradigmas gera o diálogo de surdos, exaspera e estimula conflitos. O exame de cada um dos aspectos aludidos exige um esforço de síntese. Aqui apenas formulamos um esboço de alguns aspectos relevantes como indicação para futuros estudos, procurando perspectivas não muito lembradas. Os obstáculos epistemológicos da Bachelard e a imunização cognitiva de Kuhn resultam de convicções e de instrumentos teóricos de apreensão da realidade. 

Rubem Alves (1933 – 2014), em um de seus escritos, disse com propriedade que quem usa anzol grande só pesca peixes grandes e pensa que isso confirma a hipótese de que naquele lago só existem peixes grandes. Conscientemente ou não ele explicou didaticamente a cegueira dos paradigmas e o obstáculo epistemológico. A hegemonia de um paradigma impõe o uso de categorias de análise e métodos, a exemplo do anzol grande que só pega peixe grande alimenta os pressupostos da tradição teórica, metodológica e política com um forte viés de confirmação. 

A confusão entre (i) o positivismo de Auguste Comte (1798 – 1857) e positividade; (ii) a Teoria da Relatividade e o relativismo cognitivo e axiológico; (iii) liberdade de agir e de fazer (negativas) e liberdade de ser (positivas); (iv) desejos e direitos; direitos potestativos e direitos dotados de exigibilidade contra terceiros; desigualdade e diferença são considerações que serão abordadas oportunamente em sequência.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

NOTA ACADÊMICA - Retomada da Terça Cultural na Tenda Árabe

 REUNIÃO NA
TENDA ÁRABE


Na noite desta terça-feira, dia 09 de agosto, reuniu-se para jantar na Tenda Árabe um grupo de membros da ACLJ, em torno de amigos da Instituição, alguns retornando e outros se integrando, após a pandemia, ao convívio literário da Embaixada da Cachaça. 

Presentes o Presidente da ACLJ Reginaldo Vasconcelos, o Presidente Emérito Rui Martinho Rodrigues, o Secretário-Geral Vicente Alencar, o Segundo-Secretário Altino Farias, o Terceiro-Secretário Adriano Vasconcelos. 


Ainda o Poeta Luciano Maia, o Engenheiro Humberto Ellery, o Publicitário Sávio Queiroz Costa, e o Arquiteto e Artista Plástico Totonho Laprovitera, todos membros da ACLJ.

Entre os convidados a odontóloga Thiena Vasconcelos, o Músico e Corretor de Imóveis Rafael Macedo, o Músico e Representante Comercial Marcelo Melo (Comendatário da ACLJ), a Defensora Pública Mônica Barroso, a Bombeira Civil Patrícia Albano (ex-presidente da Cruz Vermelha no Ceará) e o especialista em Tecnologia da Informação Sandro Soares. 

Houve diversas performance musicais e literárias, com a execução de músicas ao violão pelo Marcelo Melo, com a leitura de textos e a declamação de poemas – destaque para o ótimo desempenho da Mônica Barroso recitando Zé Limeira. 

A experiência gastronômica foram pratos da cozinha chinesa – Macarrão Yakosoba, Frango Frito ao Molho de Soja e Arroz Shop Suey – a cargo das culinaristas da família Vasconcelos.   

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (08.08.2022)

 REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
   (08.08.2022)





PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira, que teve duração de uma hora e meia, seis acadêmicos e um convidado especial.  O Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Agente Comercial de Exportação Dennis Clark (Maringá - PR), o Marchant e Publicitário Sávio Queiroz Costa, o Físico e Professor Wagner Coelho (Rio de Janeiro - RJ), o Advogado Sionista Adriano Vasconcelos, o Poeta Paulo Ximenes e o advogado Betoven Oliveira  que participa com sacrifício postural porque convalesce de fratura na perna e ainda não se pode sentar destacado no mosaico iconográfico abaixo pelo esforço que faz para participar e apreço que demonstra às reuniões da ACLJ. 
 

TEMAS ABORDADOS

A reunião virtual da ACLJ desta segunda-feira foi dedicada à discussão sobre a nova fase que a Instituição adentrará, ampliando suas atividades nas redes sociais, notadamente pelo Instagram e pelo Youtube, com matérias jornalísticas e culturais sobre as cidades cearenses, tratando de seus aspectos históricos e sociais,  trabalho que no final de 2023 resultará em um museu virtual em sítio próprio da Internet e numa grande exposição foto-videográfica presencial itinerante.
 

 DEDICATÓRIA

A reunião desta segunda-feira, dia 08 de agosto de 2022, por aclamação do grupo virtualmente reunido, foi dedicada à Promotora de Justiça Elizabeba Rebouças Tomé Praciano, que pertence ao seleto grupo dos Amigos da ACLJ, a qual sugeriu a iniciativa de ingressarmos de rijo no mundo virtual; ao Benemérito Beto Sutdart, que estimulou a medida; ao casal Cira Leona e Rocélio, da CL Produções, que aceitaram o desafio de administrar as edições. 







   

CRÔNICA - A União (PX)

 A União
Paulo Ximenes*

 


O pôr-do-sol na Praia de Iracema, particularmente quando apreciado sobre a Ponte dos Ingleses, é mais precioso do que os das outras praias, conforme as explanações dos guias turísticos aos senhores visitantes. Mas essa beleza encerra uma introspeção que só alumia a vista de quem morou naquele lugar e ali deixou um pedaço da sua vida. O alaranjado nostálgico das nuvens cadentes e as ondas se despedaçando intermitentemente sobre velho quebra-mar – ao sabor das aragens, dos odores dos sargaços e do rebuliço nos cabelos das gurias –, é hoje, para os seus ex-moradores, um fascínio mumificado. O feitiço nos foi usurpado há décadas e só perdurou enquanto houve moradias habitadas nas imediações da Vila Morena. 

Ah! A Vila Morena... Uma edificação mimosa (e testemunha da história) na qual o tempo se encarregou de instalar o famoso Restaurante Estoril, em cuja vizinhança se erguia também, até o final da década de sessenta, um sobrado tão raro e excêntrico quanto ela: o prédio construído para abrigar os engenheiros ingleses que vieram projetar e supervisionar a construção das duas pontes que serviriam para a atracação de navios. 

Muitos anos depois, foi o referido sobrado adquirido por membros da minha família, onde se firmou um clube ou associação particular posteriormente batizada de “União da Família Aguiar Ximenes e Amigos Afins” com estatutos definidos, leis de convivência, reuniões formais, atas lavradas em cartório na forma da lei, etc. e tal, que nós, os filhos dos sócios, chamávamos simplesmente de “União”. 

O certo é que, aos domingos (porque a praia ficava num ruge-ruge medonho) eles contratavam um vigia para tomar conta do portão. Uma vez, ao retornar de um mergulho na piscininha, todo molhado, arrepiado e salpicado de areia, eu tentei entrar no clube. Fui logo interpelado por um deles que me pôs a mão no ombro: 

─ Para aonde vai, menino? ─ Eu vou entrar aqui! 

─ Qual é o nome do seu pai? ─ Salomão Aguiar Ximenes. 

─ Pode entrar. A casa é sua! 

Aquela foi uma iniciativa louvável e inusitada, pois não havia em Fortaleza ou em qualquer outra cidade do Ceará (quiçá do Nordeste) um único relato de um clube de domínio estritamente familiar. Localizava-se na graciosa Rua dos Tabajaras nº 470, no coração da Praia de Iracema, e literalmente se limitava ao norte com a sua majestade – o oceano atlântico. Mais especificamente com as mornas águas da piscininha, que às marés cheias engoliam o nosso campinho de futebol, chicoteavam o nosso baixo muro de pedras, e, não raro, ameaçavam os degraus da nossa pequena varanda. 

Além do prédio antigo, dispunha o terreno de um galpão-bar, de um generoso espaço para recepções e de uma pequena quadra esportiva. No curso da minha memória reluzem traços de uma residência senhorial com muralhas, fosso e barbacã. Largos degraus de escadas, terraços frescos, porão sobre a cozinha, quartos e banheiros com detalhes primorosos. A sonora escadaria em madeira de lei delatava quem nela pisava com sons fantasmagóricos e era ladeada por grandes vitrais coloridos, à moda das igrejas. Seus degraus interligavam o solene salão de visitas aos quartos de dormir. 

As telhas vieram da França, os banheiros eram ataviados com cerâmicas portuguesas e as torneiras se cunhavam de arte. Aquilo se harmonizava com os balaústres da sacada que sustentavam os corrimãos de peitorais. Eu, os meus pais, os meus irmãos, um casal de tios (a Tia Adalgisa e o Tio Cipriano) e mais alguns primos morávamos temporariamente no prédio da União, onde as janelas dos quartos do pavimento superior davam para o mar e me traziam o cheiro dele. Estava bem ali aquele doce mar selvagem mar rugindo a uns poucos metros da minha rede. À noite, suas inquietas ondas, quando não me amedrontavam, solfejavam cantigas de dormir. 

Não vai também me escapar à memória o fato de que, ao final de quase todas das tardes, convergiam para a nossa quadra de esportes as meninas mais bonitas da redondeza, no intuito do vôlei. Só as meninas! Zeza, Vanda, Glorinha, Tânia, Rosa, Vera, Paulinha... E a fogosa senhorinha do bangalô ao lado ainda se debruçava toda prosa sobre a janela enquanto aumentava o volume da sua vitrola. Beatles! Só para eu perceber que estava morando no céu! 

Eight days a week / I love you… / Eight days a week /is not enough to show / I care!”. 

No mais, tudo são lembranças. O sobrado, por decisão da sua diretoria administrativa foi cabalmente vendido e levado à pique com tudo o que lhe havia ao entorno, cedendo lugar ao edifício Iracema Residencial Service, um gaiolão de vários andares que ainda hoje persiste e me maltrata o ego. Da União só herdei uma fotografia em preto-e-branco com a qual eu enfeito a abertura desta crônica.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

ARTIGO - Cidadania Hoje (RMR)

 CIDADANIA HOJE
Rui Martinho Rodrigues*

 

Os gregos substituíram a força pela argumentação na ágora, iniciando o processo democrático (Olivier Nay, 1968 – viva, História das ideias políticas). Procedimento que exige compreensão do objeto discutido e disposição para submeter paixões e interesses à razão. A política, porém, tende a apaixonar. Torna as mentes impermeáveis à razão. Interesses não cedem facilmente diante de arrazoados, ainda que bem fundamentados. 

O Estado contemporâneo trata de temas complexos como matriz energética, inflação, câmbio, segurança pública, política sanitária e reforma tributária. Tais assuntos são indigestos para o homem comum, para eruditos não especializados e até para especialistas. Políticos, ao pedir o voto dos cidadãos, tendem a apresentar soluções simples para os problemas complexos. O eleitor não entenderia explicações profundas. Aspirantes aos cargos eletivos também nem sempre sabem o que dizem. 

Mas nem tudo está fora do alcance do eleitor. A integridade pessoal dos candidatos e o debate sobre costumes são aspectos que homem médio, figura lembrada em manuais de Direito, pode entender. Vozes qualificadas, porém, desqualificam o debate sobre a moralidade do agente público como ingenuidade, má fé ou atitude relacionada a um viés perigoso. Costumes estão sendo tratados como matéria a ser definidas por intelectuais. A moral tradicional é rotulada como preconceito, obscurantismo ou ódio. 

A má política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes concerne. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem (Paul Valéry (1871 – 1945). O homem médio é capaz de ajuizar sobre os costumes, sobre o comportamento social, matéria a ele concernente. Sábios reis filósofos, novos gestores da moral, querem impor uma ortodoxia dos costumes. Divergência agora é heresia. Merece fogueira. Crítica agora é ataque ou crime de ódio. Não existe tal tipo penal, nem sequer qualificadora, agravante ou majorante. Mas juristas falam em tipos inexistentes, como fake news.

Crítica e ataque pessoal a autoridades são confundidos com ataques às instituições. Dirigida a um piloto a crítica não visa a empresa de aviação ou o fabricante. Democracia é, entre outras coisas, liberdade de expressão. Censura prévia é incompatível com a ágora. Autoridades não são imunes à crítica. Democracia é o regime da desconfiança. Por desconfiança instituímos mandatos por tempo determinado, proibimos nomeação de parentes em cargos de livre nomeação e exigimos que atos administrativos se submetam ao princípio da publicidade. Tais exigências não são ataques às instituições, antes existem para resguarda-las. 

A imparcialidade do pesquisador exige, para Leopold von Ranke (1795 – 1886) distanciamento, nos termos da História metódica ou “científica”. Sem o rigor rankeano, Max Weber (1864 – 1920) defende a neutralidade axiológica nos juízos de fato, mas enfatiza a ação finalista do sujeito da história como o cerne da interpretação dos fatos, com metodologia compreensiva, salva a subjetividade. 

Historiadores, contrariamente a Ranke, não são juízes, mas nem sempre podem se furtar a julgar. Barbara Tuchman (1912 – 1989), adepta da história narrativa, escreveu “A marcha da insensatez”, que já no título emite um juízo de valor. O distanciamento, tanto na visão rankeana como na weberiana, é necessário para que os erros sejam limitados. A pesquisa, para Ranke, deveria focar em acontecimentos afastados por Cronos. No futuro, quando personagens polêmicos de hoje tenham passado, não será difícil perceber que crítica não é ataque; autoridades não se confundem com as instituições. A liberdade de expressão não deve ser tolhida por suspeitarmos do agente político, embora com arrimo em fundadas razões. 

Aberta a caixa de Pandora, as virtudes fugiram. Mas ficou a esperança.

 

terça-feira, 26 de julho de 2022

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (25.07.2022)

 REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
   (25.07.2022)





PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira, que teve duração de uma hora e meia, oito acadêmicos e um convidado especial.  O Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Especialista em Câmbio e Comércio Exterior Stenio Pimentel (Rio de Janeiro-RJ), o Agente Comercial de Exportação Dennis Clark (Maringá - PR), o Marchant e Publicitário Sávio Queiroz Costa, o Advogado Sionista Adriano Vasconcelos, o Médico, Teólogo e Latinista Pedro Bezerra de Araújo, o Procurador da UFC Edmar Ribeiro, o Jornalista Wilson Ibiapina (Brasília-DF) e o advogado Betoven Oliveira – que participa com sacrifício postural porque convalesce de fratura na perna e ainda não se pode sentar. 
 

TEMAS ABORDADOS

Na reunião virtual da ACLJ desta segunda-feira os participantes se detiveram longamente sobre a delicada situação política do País neste momento atual, em que um presidente de popularidade incontestável, eleito democraticamente por maioria de votos, que pleiteia a reeleição com apoio de grande parcela da cidadania brasileira, de evangélicos e católicos, assim como de militares em geral – enfrenta grande oposição do Supremo Tribunal Federal, da grande imprensa profissional, de artistas do mainstream nacional e estrangeiro, de patrocinadores internacionais da  chamada "nova ordem mundial" – além de perseguição cerrada de toda a esquerda brasileira. 

Essa acirrada disputa eleitoral que se avizinha e já se ensaia ultrapassa a seara meramente política porque cada um dos concorrentes principais que polarizam o pleito ameaça promover a prisão do oponente, em sendo eleito – movendo contra ele ação penal – tendo ou não justa causa para tanto.
   

A preocupação é com o risco iminente de ruptura institucional absoluta – posto que a desarmonia entre os Poderes da República já se evidencia muito grave, e o povo está dividido em parcelas antagônicas, o que pode conduzir a um levante popular e a uma intervenção militar constitucional por ocasião das eleições, expondo a Nação novamente a um governo de exceção, com suas dantescas consequências.

Na sequência, mudando a fisionomia circunspecta da conversa, que se evita no sempre risonho mosaico iconográfico, Wilson Ibiapina anunciou o lançamento do livro "História de 50 Mil Mulheres", do médico cearense Mariano Freitas, previsto para 10 de agosto, no Ideal Clube. 

Na obra o autor trata dos muitos casos clínicos  curiosos que ele vivenciou em sua longa experiência de esculápio, atendendo a sua clientela feminina. Mariano é natural da cidade de Tauá (a rainha dos Inhamuns), é ginecologista e obstetra, com mais de 50 anos de atividade médica.       

Ibiapina, em seguida, propôs o nome da advogada Manoela Queiroz Bacelar para uma das cadeiras vagas da quadraginta numerati da ACLJ, no que foi apoiado pelo Sávio Costa, primo segundo da Manoela, que ratificou o seu valor intelectual e a sua lhanesa pessoal, requisitos necessários aos titulares acadêmicos.

Por fim, Sávio trouxe à baila o lamentável episódio de vilipêndio à nossa Bandeira Nacional, durante um show nos EUA, cometido por uma subcelebridade norte-americana, de ascendência Brasileira, citando o lapidar comentário do jornalista Alexandre Garcia a respeito desse ato criminoso, que revoltou a parcela ideologicamente hígida do povo brasileiro.

"Quem pisoteia a Bandeira do Brasil, como fez uma cantora brasileira nos Estados Unidos, pisoteia todos nós, nossos pais e avós, nossos filhos e netos. Porque a Bandeira somos nós. É o nosso retrato coletivo".

Nessa frase o ilustre jornalista Alexandre Garcia fala  por toda a nacionalidade, incluindo, obviamente, a nossa Academia, o que nos leva a homenageá-lo aqui com a montagem fotográfica de sua própria imagem vergando a pelerine da ACLJ, realizada há algum tempo, com a sua anuência posterior. 

Em tempo, e a propósito, Wilson Ibiapina apresentou essa crônica magnífica, que abaixo reproduzimos.

 

COM A BANDEIRA
nos dentes

O Ceará é o berço de alguns heróis. Eles se revelaram de muitas maneiras, mas principalmente nas guerras. General Sampaio, que o foi como soldado raso, lutou em muitas batalhas e sagrou-se patrono da Infantaria. Outro cearense que virou herói na guerra do Paraguai foi João Sorongo. O escritor Rui Pinheiro Silva, em seu livro “O Cavalo de Gonela”, recorda esse cearense que era um boêmio que perambulava pelas ruas e botecos da pequena Fortaleza de 1864. 

Quando estourou a guerra do Paraguai o governo partiu para o recrutamento “voluntário”, para reforçar o pequeno Exército que na época não passava de 18 mil homens. João Sorongo caiu na malha da mobilização que juntou homens rudes do interior, sem a menor experiência militar, despreparados, sem instrução. 

Foram todos levados de navio para o Rio de Janeiro, onde, durante alguns meses, receberiam o devido treinamento. Aconteceu que os cearenses não tiveram tempo de passar por essas instruções e foram enviados para o campo de batalha com a coragem e a cara. 

João Sorongo, ainda em Fortaleza, chegou a receber, na hora da partida, uma Bandeira Nacional que havia sido confeccionada com fio de ouro por moças da sociedade cearense. O escritor Rui Pinheiro conta que o boêmio se emocionou, chorou de orgulho e prometeu defender a nossa Bandeira com o sacrifício da própria vida”. 

Sorongo mostrou sua coragem em batalhas de Tuiuti, Itororó e do Avaí, onde “a tropa, sem o mínimo preparo militar, caiu numa emboscada e foi dizimada. João Sorongo  foi encontrado pela tropa do major Carolino Sucupira. Estava com as mãos decepadas. Na boca, entre os dentes, apareciam fiapos da Bandeira. Rui Pinheiro diz que “ali estava o bravo cabo-corneteiro que nem a morte fê-lo entregar a Bandeira brasileira”. 

Estou falando dessa mesma Bandeira que uma cantora filha de brasileiros pisoteou durante um show em São Francisco, na Califórnia. Essa senhora de mais de 50 anos é filha do cantor baiano João Gilberto e da cantora Miúcha. Isabela Gilberto de Oliveira, conhecida como Bebel Gilberto, nasceu em Nova Iorque em 1966. 

Ela sambou sobre a Bandeira depois que a recebeu de um fã. Ela se desculpou. Não sei se será perdoada. Com certeza será sempre lembrada pelo protesto desrespeitoso. Depois de sapatear sobre a Bandeira, ela cantou a música Bananeira: “Bananeira, não sei / Bananeira, sei lá...” 

O boêmio com a Bandeira nos dentes, a cantora com a Bandeira nos pés.

Wilson Ibiapina 

 DEDICATÓRIA

A reunião desta segunda-feira, dia 25 de julho de 2022, por aclamação do grupo virtualmente reunido, foi dedicada ao grupo de trabalho que organizou e realizou a magnífica solenidade de outorga da "Medalha Rachel de Queiroz - Honra ao Mérito Feminino", na noite do último dia 20, no Ideal Clube, honraria instituída pela ACLJ para distinguir seis mulheres cearenses que exercem importantes funções de comando e liderança no Estado.



Dentre as personalidades femininas recipiendárias dessa láurea estiveram a atual Governadora do Estado, Professora Izolda Cela, a primeira mulher a presidir os destinos do Ceará, bem como a Presidente do Tribunal de Justiça, Desembargadora Nailde Nogueira, assim também a Reitora da Universidade de Fortaleza, Fátima Veras. Agraciadas também três importantes empresárias, as senhoras Consuelo Dias Branco, Lenise Queiroz Rocha e Ana Maria Studart.