segunda-feira, 25 de maio de 2026

CRÔNICA - Perigosa Dodora (AG)

 PERIGOSA  DODORA
Aluisio Gurgel *

 

Às vezes é difícil iniciar uma crônica por vários motivos, inclusive aqueles que a gente sequer conhece. Não posso dizer qual era a treta que rolava na ocasião, mas algo causava profundo incômodo à Dodora. Mesmo assim fomos ao teatro. O show era do André Geraissati e o clima estava ameno em São Paulo. 

Platéi elegante e qualificada. Apagam-se as luzes e o canhão vai buscá-lo lá no canto e ao fundo e orienta sua caminhada até o microfone, sob aplauso. Ele se ajeita na cadeira, abraça o violão e entrega uma lindíssima e romântica primeira frase que a Dodora, aqui do meu lado, lenta e longamente, exclama: lindo! 


Ela não exclamou para si. Muito menos para mim. Foi para o André, ela exclamou para ele e em volume que ele ouvisse lá do palco. Ele ouviu e sorriu enquanto prosseguiu dedilhando a canção. Naquele instante, uma voz grave e cavernosa me preencheu a consciência e sussurrou: perigosa Dodora!


POEMA - Morri Algumas Vezes (SQC)

 Morri
algumas vezes
Savio Queiroz Costa*

 


Já morri algumas vezes.
Nunca houve velas,
nem cortejo,
nem mãos fechando meus olhos.
 
Sempre morria um pouco
daquilo que, em mim, ainda acreditava
na eternidade das coisas.



Fiquei de pé,
como ficam as árvores
depois da tempestade:
silenciosas, partidas, vivas.
 
A vida seguiu —
impiedosa e bela —
mesmo enquanto meus escombros
aprendiam a respirar outra vez.
 
Com o tempo, compreendi:
 
há mortes que não levam o corpo. 
Levam apenas o que já não cabia na alma.
 
Desde então,
renasço devagar,
sem anúncio,
sem testemunhas.
 
Como quem floresce
no escuro.
 
Como quem aprende
que sobreviver
também é uma forma de poesia.



quinta-feira, 21 de maio de 2026

EFEMÉRIDE - Jornal O Estado - Noventa Anos de Existência.

JORNAL
O ESTADO
 
NOVENTA ANOS
DE EXISTÊNCIA

 

A nossa Confreira da ACLJ, Gabriela de Palhano, Diretora do Jornal O Estado, está compartilhando com a sociedade o aniversário de 90 anos do noticioso, através das redes sociais do veterano veículo de imprensa cearense, assim como na sua versão impressa, com o programa que recebe o sugestivo título de “Caráter”. Abaixo, o lançamento do Programa Caráter na plataforma do Instagram. 

  


ACESSE O LINK

https://www.instagram.com/reel/DYndg07xj_W/?igsh=MjRod2k5OWd2NnU5 

CRÔNICA - Parapeito de Camarim (AG)

 PARAPEITO
DE CAMARIM
Aluísio Gurgel*

 

Alguns podem até não acreditar, mas houve um fim de tarde em que dei por mim sentada no parapeito do camarim no Teatro José de Alencar, enquanto dois grandes violonistas dialogavam e transferiam de um para o outro o único violão de que dispunham na ocasião. Um já havia ganhado idade, era Sebastião Tapajós, o dono do violão.




O outro era um jovem advogado que não conseguia abandonar o sonho de ser artista. Por coincidência, era também o homem com quem aceitei me casar havia três anos, quando engravidamos no mês de fevereiro de mil, novecentos e oitenta e quatro.


Meu marido elogiava a adaptação que Tapajós havia feito para “Adiós Nonino”, de Astor Piazzola e, em contrapartida, Tapajós elogiava o baião que meu marido compôs. Cada qual deve ter apresentado umas cinco peças, alternadamente, com o violão lá e cá. Algo que na prática dava um pocket concert

Foi quando a sineta tocou, anunciando que o Projeto Pixinguinha iria começar naquela boquinha de noite e meu marido era o arranjador e percussionista do pessoal local que faria a abertura para o Sebastião Tapajós. Entre admirar e aprender com a humildade do artista mais experiente que recebeu o discípulo com toda simplicidade em seu camarim; e “tietar” o homem com quem me casei, preferi ficar com seus lindos olhos azuis e sua magia interior. É feitiço do qual não tenho como me livrar.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

ARTIGO - Eu e Lúcio Brasileiro (RV)

 

EU

LÚCIO BRASILEIRO
Reginaldo Vasconcelos*

 

A coluna de jornal com que Lúcio Brasileiro estreou na imprensa cearense, tanto o seu pseudônimo quanto a atividade jornalística, foi publicada na edição de 13 de agosto de 1955 da Gazeta de Notícias – exatamente quando nasci, mais de 70 anos atrás, contados da data destas notas atuais. 

Na verdade, quando a coluna “Pela Sociedade”, assinada por ele, começou a circular, Lúcio Brasileiro tinha apenas 16 anos, e eu, sete meses de existência.

Cresci nos anos 60 ouvindo falar no jovem jornalista, maldito e detratado pela nossa classe média, porquanto ele já cortejava seletivamente o “ecossistema” dos “clubes elegantes” da cidade (principalmente o Ideal), que eram frequentados pelo estrato social composto por empresários e políticos, entidades que discriminavam fortemente a ninguendade popular. 

Os clubes eram associações fechadas e com um número restrito de integrantes, e com um crivo apertado para a admissão de um novo sócio, que pudesse vir a superar suas muralhas para frequentar seus restaurantes, suas piscinas, suas festas. 

Lúcio Brasileiro contou com o beneplácito dos colegas bem-nascidos dos bons colégios do passado, e, afinal, conseguiu a simpatia dos mais ricos e importantes, reportando inteligentemente na coluna social suas vidas glamorosas.



Logo LB obteve “permanentes” – carteirinhas que abriam exceções e davam ingresso a determinados desprovidos de fortuna financeira e de poder, notadamente os mais destacados jornalistas. Dentre estes, LB brilhou exponencialmente, jovem bonito por trás de um pomposo bigodão, olhando de cima os pobres mortais que não ostentassem algum prestígio – inclusive os colegas de profissão que não obtinham os mesmos privilégios e ficavam ressentidos.

Mas ele se destacou principalmente porque passou a prestar uma verdadeira “mentoria” de boas maneiras e de elegância ao grand monde alencarino, personalidades que se reuniam regularmente com ele nas rodas de baralho, em suas casas e no cassino do Ideal. Era um Ceará ainda muito provinciano e pouco viajado além-fronteiras, e mesmo além-divisas do Estado, num tempo em que eram muito “distantes” os grandes centros nacionais – a cidade do Rio de Janeiro, então Capital do País, e São Paulo, o maior polo industrial.

Lúcio Brasileiro tornou-se íntimo de governadores e de celebridades em geral, frequentando todos os grandes eventos da Capital cearense, dimanando noções intuídas e aprendidas de etiqueta social – o que a população machista da época considerava “frescura”, regramentos de conotação efeminada. Aliás, uma das pechas que lançavam injustamente contra ele era de “homossexualismo”, um gravíssimo labéu naquele tempo.

Lúcio namorava beldades, mas não se vinculava a alguma delas por noivado ou casamento, o que reforçava as suspeitas quanto à sua orientação sexual, pois era um tempo em que, por volta dos 18, 20 anos, todos os rapazes se casavam, raríssimas e malvistas exceções, enquanto as moças da mesma idade que não fossem desposadas passavam a ser vistas na condição de rejeitadas. 

Mas LB flanava sobranceiro sobre a maledicência popular, sem responder às invectivas, no máximo lembrando o belo provérbio que certa vez eu o ouvi articular: “Ladram os cães... e a caravana passa”. 

Porém, em certo momento, os cães não se limitaram a latir, mas resolveram morder a caravana que passava. Lançaram a público gravíssimas suspeitas absolutamente infundadas de que LB tivesse o hábito hediondo de praticar necrofilia – um distúrbio psíquico que causa atração sexual por cadáveres insepultos. 

O jornalista Augusto Borges trazia para si o demérito de haver deflagrado esse boato, me contando, pessoalmente, que, na redação de um jornal em que ambos trabalhavam, um grupo de jovens repórteres acompanhava, de madrugada, o “fechamento” da edição, quando alguém lançou o desafio sobre qual deles teria coragem de ingressar no cemitério. 

Ainda segundo Augusto Borges, o grupo teria se dirigido ao Cemitério São João Batista, subornado o porteiro, e somente LB teria se disposto a adentrar no campo-santo, aprofundar-se nele e retornar tranquilamente. Então, no outro dia, numa brincadeira de mau gosto, Augusto teria publicado uma nota no jornal dando conta de que LB fora visto vagando a desoras entre os túmulos na necrópole. 

Mas o próprio LB me apresentou outra versão, dizendo que retornava de uma noitada no Country Clube com Gisa, sua namorada, conduzindo-a à casa dela, próxima ao Cemitério. Então, ele tentou convencer o porteiro a deixá-los entrar, para terem a experiência exótica de namorar entre os sepulcros. 


Talvez o LB quisesse emular com a sua bela namorada cenas de cinema, arte que ele tanto apreciava, quem sabe lembrando Norka Russkaya, dançarina russa que performava sobre túmulos, ou a brasileira Luz Del Fuego.   

Aí passou um carro de reportagem d’O Estado, que publicou no outro dia que ele fora visto ali em altas horas – em nota do seu parente Venelouis, o dono do jornal. 

Seja qual for a versão real talvez as duas verdadeiras, primeiramente aquela a que Augusto Borges referia, e depois esta que ele mesmo relatou – a tragédia que se seguiu foi a exploração do fato pelos que deploravam LB, na imprensa e fora dela. 

Em dois momentos da minha infância testemunhei a malícia pública contra ele, quando, uma vez, fui ao mercado e vi uma obra de literatura de cordel sobre “O homem que come defunto” – e parte do povinho interpretava o verbo “comer” literalmente, “antropofagicamente”, o que era ainda tão absurdo quanto grave. 

De outra feita, LB passou em seu automóvel, um Simca Chabord, diante do Colégio Castelo Branco, do qual minha casa era defronte, e a estudantada que estava na calçada explodiu em vaias, apupos e gritos referentes ao boato ofensivo. Mas ele continuou impassível ao volante do seu carro – os cães ladrando e a “caravana” indo em frente.

Sim. Nada o abalava, naquela toada do adágio popular: “O que vem de baixo não me atinge”. De fato, não atingia, até porque a nata da sociedade dedicou a ele um jantar de desagravo, no Náutico Atlético Cearense, e consta que os colegas causadores do escândalo em alegada boa-fé, foram até lá se desculpar. 

Neno Cavalcante, irmão mais jovem de LB, contou que o diretor da TV Ceará, Guilherme Neto, quis dar à vítima da boataria, que trabalhava na emissora, uma oportunidade de defesa. Convidou-o a dar uma entrevista a Narcélio Limaverde, mas LB pareceu não dar nenhuma importância à calúnia que sofria, desviando-se da resposta que o entrevistador quis provocar: 

– Lúcio, qual foi a coisa que mais lhe entristeceu na sua vida? 

Ele respondeu: 

– Foi quando disseram que eu sou analfabeto. 

De fato, ele nunca recrudesceu, nunca reagiu e nunca pareceu estar abalado com a campanha contra ele. Nunca nutriu ressentimento contra os colegas causadores do imbróglio, razão pela qual o jornalista Ciro Saraiva teria dito que: “Lúcio Brasileiro não se importa com nada, nem consigo mesmo”. 

A contrario sensu, a primeira pergunta que fiz a LB para a sua biografia foi sobre a razão de não se ter ele casado, rapaz bonito e elegante, tão bem relacionado como era. A sua resposta foi aguda: “Não casei porque gosto tanto de mim mesmo que nunca me quis dividir com outra pessoa”. 

Eu evitei transcrever a resposta nesses termos no livro sobre ele para não passar a ideia falsa de que ele fosse egoísta, o que não era. Pelo contrário, era humano, generoso, solidário. Era mesmo desprendido e caridoso. Certa vez ele vendeu o próprio carro para financiar uma festa em homenagem a um amigo. Perguntado o porquê dessas suas esquisitices, a resposta recorrente era apenas: “Porque eu sou assim...”. 

É que LB tinha traços de autismo moderado – era solipsista, autorreferente, excêntrico, pontual, organizado, sistemático, excepcionalmente focado e inteligente, dotado de memória prodigiosa, que lhe possibilitava ter de cor todos os fatos, todas as datas, todos os locais e todas as escalações dos times de futebol das seleções. Ele respondeu sobre Copas do Mundo em um programa de TV que dava prêmios por respostas acertadas, mas ele só permaneceu respondendo até obter a quantia necessária para o pagamento de uma dívida, cedendo o espaço restante para outro respondente. 

Lúcio Brasileiro não se incomodava com quem estivesse contra ele, pois o respeito daqueles cujo afeto lhe importava o satisfazia inteiramente – seus maiores amigos (que ele classificava como seus “irmãos civis”), e os seus grandes protetores e eventuais provedores na nossa “alta sociedade”. Entre os irmãos civis de LB posso citar Lustosa da Costa e Frota Neto, Sabino Henrique e Pádua Lopes, Paulino Rocha e Tarcísio Tavares, João Soares Neto e Fernando César Mesquita, todos esses jornalistas.

 

Ivens Dias Branco e José Macedo despontam entre os grandes empresários que tiveram por ele estima paternal, enquanto o casal Virgílio e Luiza Távora resplandecia no altar votivo do seu amor e de sua eterna gratidão.

Quanto às mulheres que atravessaram a sua vida, além da já referida namorada Gisa, constam uma anônima aeromoça, morena voluptuosa a que Tarcísio Tavares se refere; a bela Kitti Mourão, uma grande paixão que o acometeu; a Wanda Palhano, que narra a festa, o flerte, a dança, que iniciaram sua íntima amizade.

 

Principalmente Fernanda Quinderé e Wilma Patrício, suas grandes amigas, desde sempre e para sempre.

   

terça-feira, 19 de maio de 2026

ARTIGO - Lúcio Brasileiro e Eu (RV)

 LÚCIO BRASILEIRO
E
EU
Reginaldo Vasconcelos*



Iniciei minha atividade jornalística com a coluna intitulada “Vida Moderna”, no suplemento “TC Revista”, tabloide editado por Ciro Saraiva, que era encartado nas edições de sábados do jornal Tribuna do Ceará, por volta de 1976, e para mim a música tema dessa época é “Wuthering Heights” (Morro dos Ventos Uivantes), composição da inglesa Kate Bush, inspirada no clássico romance de mesmo nome, da também britânica Emily Brontë.

Então, quando reuni uma coletânea de artigos da minha coluna de jornal, para publicar em livro, em 1992, procurei LB nos estúdios da TV Jangadeiro, onde ele apresentava um programa de entrevistas, para lhe pedir que escrevesse um prefácio. Fui muito bem recebido, mas ele quis reduzir a tarefa a escrever uma aba de capa, que ele nunca escreveu, pois a capa dessa minha primeira brochura era destituída de “orelhas”. 

Mas nesse primeiro encontro pessoal que eu tive com LB eu notei o seu incômodo com qualquer contato físico, aceitando o aperto de mão com resistência e desconforto, como também a mão no ombro, muito mais a intimidade de um abraço, o que já me fez perceber a sua restrição a estímulos externos. Claro que por disciplina social LB se condicionava a apertar mãos e receber os amplexos necessários. 

Não estive mais com ele, até que a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo resolveu agraciá-lo com a Medalha Parsifal Barroso, em 2014, seu “Jubileu de Diamante” na imprensa. Eram então 60 anos de jornalismo ininterrupto, um recorde mundial. A façanha não tem registro no Guinness Book porque o amigo Antenor Barros Leal tentou, mas não conseguiu encontrar toda a sequência de artigos publicados por LB nos jornais de Fortaleza, de modo que não seria possível provar a sua contínua e sexagenária maratona jornalística. 


Em 2024 o empresário Beto Studart resolveu produzir a biografia de LB, me contratou para escrever a obra, a que o próprio LB quis dar o título “A Vida Como Obra de Arte”.

Beto Studart promoveu uma apoteótica noite de autógrafos na Praça BS, convidando e recebendo o creme de la creme da sociedade cearense, verdadeiramente um grande happening para a história da cidade.



Lúcio Brasileiro, obviamente, tinha outra canção para incensar a sua memória do ingresso na imprensa, que, inclusive, pediu e foi executada no piano de Felipe Adjafre e cantada por César Barreto, na noite do lançamento da sua biografia – música cujo título é “Tudo Foi Ilusão”, composição de Anísio Silva, um bolero nacional – o gênero musical mais apreciado no Brasil dos anos 50. 

Ficamos amigos desde então, e logo em seguida ele partia para a Espanha de navio, e como só embarcaria no Rio de Janeiro, e iria até lá por via aérea, para não pagar por excesso de bagagem deixou a mala principal comigo, para enviar pelo Fernando Lima, videomaker que gravou as entrevistas que tivemos com ele para o livro, o qual iria para a Europa no mesmo navio, a partir de Fortaleza.


 
Em dezembro de 2024, LB nos convidou para a reunião de final de ano que ele promovia no seu restaurante Ugarte, no Cumbuco, evento que denominava “Escola Unidos do Natal”. 

Ele queria homenagear o seu biógrafo principal, Beto Studart, que idealizara a obra e viabilizara o meu trabalho, mas este não pôde se fazer presente desta vez. 

Eu ainda recebi LB na Tenda Árabe, recinto da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, aonde, a pedido, ele foi gravar um depoimento pessoal sobre a opereta “A Valsa Proibida”, objeto de um documentário histórico que estávamos produzindo, com o cineasta Roberto Bomfim, sob os auspícios do Benemérito Ivens Jr.

 

Capricho do destino, parece que ele foi  agradecer inconscientemente ao Stênio Pimentel, membro da ACLJ, filho do autor da peça de teatro referida, de pseudônimo “Silvano Serra”. Stênio conta que na sua tenra juventude reconheceu LB e o retirou do ônibus em que ambos transitavam, para tomar banho e um pouco de café em sua casa, pois o jovem jornalista vinha de uma festa e estava muito embriagado. 

Já no natal de 2025, convidados novamente para o seu Natal do Ugarte, nós fomos ao Cumbuco no helicóptero de Beto Studart. Além do próprio Beto e do Flávio, seu irmão, estavam conosco os jornalistas Fernando César Mesquita e Egídio Serpa. Foi a última vez que vimos LB.

 



Na manhã seguinte à sua morte em Portugal, no dia 23 de abril, a sua irmã Norma comentou comigo ao telefone que, triste com o passamento de LB, entretanto confortada por não ter havido sofrimento, considerando que ele não suportaria a prostração da velhice que possivelmente o atingiria, fazendo-o depender de terceiros na sua intimidade, ele que sempre fora tão independente e reservado. 

Na mesma manhã recebi o relato de uma grande amiga dele sobre as circunstâncias da morte, quando se dirigia a Ibiza, na Espanha – cidade em que ele localizava as origens da sua família materna, os Quezado. Mas o voo atrasou por três longas horas em Lisboa. Ele então teria consumido bastante vinho no bar do hotel, caído e socorrido ao hospital, onde veio a falecer. 

No mesmo dia me enviaram uma sequência de áudios e de entrevistas em que LB se estava despedindo, dizendo estar pronto para se encontrar com Deus, afirmando que queria morrer em Ibiza e que desta vez estava indo para nunca mais voltar. 

Era sabido que, ao morrer, ele queria ser cremado e que as suas cinzas deveriam ser lançadas no mar de Ibiza, pela amiga cearense Maria de Jesus Witt, dona do restaurante “Es Molino de Sal”, em Fermera, próximo a Ibiza.

Soube que Maria de Jesus e seu marido teriam decorado um dos seus iates para fazer o lançamento das cinzas de LB no mar de Ibiza, mas não sei se a família dele cooperou. Ele também deixou dito no livro de memórias que suas exéquias acontecessem em Fortaleza, na Igreja Cristo Rei, e que os seus amigos, na ocasião, vestissem todos ternos pretos... mas isso eu sei que não aconteceu, infelizmente.

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

ARTIGO - Não há Civilização Sem Mineração (CRA)

 NÃO HÁ CIVILIZAÇÃO
SEM MINERAÇÃO
Carlos Rubens Alencar*

 

Em um planeta onde só 11% da superfície é útil, minerais sustentam energia, tecnologia e a própria vida. E ninguém fala sobre isso. 

Acordei esta semana pensando em Galileu Galilei e o reconhecimento da ignorância.

Desde que as redes sociais foram criadas, a informação mudou. O empobrecimento dos conceitos é visível. Munidos de um “brinquedinho” na mão, todos acham que podem tudo. Alguns, como Tristan Harris, já se arrependeram. Difundir opiniões sem base científica virou um clique. E audiência não falta. 

Há quem, captando o momento, vire influenciador. É uma nova profissão. 

Nosso planeta orbita o Sol, move-se com a galáxia e nunca retorna ao mesmo ponto do espaço. As alterações do polo magnético produzem transformações na atmosfera e no clima. 

O desenvolvimento humano, desde os primórdios, sempre esteve ligado à energia. Nunca o mundo dependeu tanto dela. 

E é aqui que ocorre uma grave desinformação: sustentabilidade e desenvolvimento dependem de minerais. O planeta tem 510 milhões de km², mas dois terços são mar. Excluídas as áreas geladas, desertos como Saara e Atacama, florestas como a Amazônica e as áreas urbanas, sobram 60 milhões de km² úteis. É nessa fração que estão os minerais que sustentam a civilização e a própria vida. Não há vida sem mineração. 

Enfim, tomei café, fui à janela e lembrei do Esteves da Tabacaria e da “ilusão do conhecimento”. A verdadeira inteligência traz humildade de saber que há sempre mais a aprender, enquanto o orgulho cega.