QUADRÍPTICO LITERÁRIO
(Mote: Habilidade Natural – HN)
Sousa Nunes*
Somente o influxo da arte comunica durabilidade à escrita. Só ele
marmoriza o papel, transformando a pena em escopro. (RUI BARBOSA DE OLIVEIRA. Salvador, 5.11.1849; Petrópolis,
1.3.1923).
Notações do Editor da Vernáculo
Well Moraes
Esta conjunção de quatro breves textos foi procedida com base em
publicações efetuadas, em conexão com a internet, em órgãos distintos e
com arrimo na dicção da inventiva de Vianney Mesquita, conforme à frente mencionada --, a fim de se
mostrar na Vernáculo – revista da Academia Cearense da Língua
Portuguesa - o acolhimento, favorável à ideação do produtor da seção de
abertura deste quadríptico linguístico, da parte de três paredros da
Codificação Lusitana aqui em Fortaleza, conforme consta à continuação.
O tema concerne à opinião ali expressa, contraposta à noção de
Inteligência Artificial (hoje sob exagerado crédito e, muitas vezes,
erroneamente empregada) Habilidade Natural – novel dicção originada do
seu autor, partícipe dos quadros da mencionada ACLP, conforme o são os
assinantes das peças três e quatro. Entrementes, o escritor, cearense de
renome, Reginaldo Vasconcelos, Presidente da Academia Cearense de Literatura e
Jornalismo, responde pela seção 2 deste pequeno complexo textual.
1 Habilidade Natural - HN
Vianney Mesquita
Seja qual
for a linguagem que empregares, somente aplicarás o que és. (RALPH WALDO
EMERSON – escritor e filósofo estadunidense. Boston, 25.5.1803; Concord,
27.4.1852)
Em razão de entender como absolutamente necessário, acho oportuno
declarar que, nas escritas por mim produzidas e publicizadas, onde quer que o
sejam, somente recorro à HABILIDADE NATURAL – HN, com suporte em estudos
efetivados em estabelecimentos escolares amparados pela legislação nacional,
por intermédio de pessoas afeitas a matérias diversas, em universidades e
ambientes de prova (laboratórios, exempli gratia), bem como em
informações obtidas com amparo na autodidaxia praticada à extensão da
experiência.
Em adição – e esta é a ocasião de o atestar – ao fazer menção a
obras e ideações doutros produtores desses bens, como instituições e órgãos
semelhados, procedo às notações bibliográficas das quais me vali, consoante as
ordenações legais do País, em particular, do direito autoral, inclusas as
preceituações da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.
Entendo que, à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – IA, conquanto seja
magnificamente aditada no tempo fluente, porém com estremas de emprego, só é
factível de a ela se socorrer em situação de dúvidas as mais diversas – por
exemplo, de natureza histórica – conforme se procede com as consultas a
dicionários, volumes gramaticais e correlatos.
Assim, toda escrita e qualquer produto editorial assente na IA e
não na HN, embora, como divisado hodiernamente, em textos “magnificamente”
escritos (às vezes com 90 por cento de “auxílio” da IA e não pelos autores),
deixa de retratar intenção e SABER NOVO, no entanto, somente repetição do que
já se encontra exprimido em achados naturais e descobertas de investigadores,
quer em tempos recentes ou em períodos mais transatos.
Conquanto o pensamento ora exposto seja suscetível de contestação
do lado de quase cem por cento da comunidade leitora nos países de Língua
Portuguesa, a mim não me custa o conduzir pela via deste meio de propagação
coletiva, de sorte a conformar até obrigação o ato de exteriorizá-lo.
2 Nova Expressão – Habilidade Natural
Reginaldo Vasconcelos
A língua é o trajo do pensamento. (SAMUEL JOHNSON – escritor britânico. Lichfield, 18.9.1709; Londres, 13.12.1784)
Na manhã de 21 de agosto de 2026, telefonou-me o confrade Stênio
Pimentel, demonstrando-se ainda assente na disciplina rígida da sua formação de
“homem do mar”, que militou na Armada do Brasil, na fase áurea da sua
juventude.
Ele ainda está afeito à formalidade de quem, na maturidade, foi
longamente enquadrado nos rigores funcionais da administração bancária,
exercida em várias instituições financeiras, nacionais e estrangeiras.
Ligou, então, para, em posição de sentido e em continência,
comunicar a este Presidente haver aplicado um neologismo autoral em mensagem
que postou no nosso Grupo de WhatsApp.
Explicou que a palavra por ele aplicada, dirigindo-se
carinhosamente a um coirmão da entidade, não repousa nos dicionários do idioma
português, e que, portanto, ainda não está abonada pela lexicografia
nacional.
Esse telefonema e o seu teor, por uma coincidência magnífica,
tangenciam o texto do dia anterior, remetido ao Blog pelo Professor
Vianney Mesquita, um terceiro confrade, o maior experto em linguística românica
da nossa Academia.
No seu artigo Habilidade Natural, o Mestre Vianney inaugura
essa expressão (HN), fazendo um contraponto à novel “Inteligência Artificial”
(IA), e frisando que não a aplica na sua lavra literária, porque segue o próprio
cabedal intelectual, citando as fontes dos estudos que empreende.
Os dois abordam aspectos semelhantes, mas distintos, quando Vianney
propugna pelo uso clássico da língua, ainda que de forma original e criativa,
enquanto o Stênio revela que os dicionários são fontes relativas de consulta,
já que apenas reúnem termos encontradiços em obras gráficas que os lexicógrafos
coligiram.
Assim, as edições dicionárias, analogicamente, são como papagaios
que aprenderam e registram muitos verbetes, que se atualizam em novas edições –
como outros louros que aprendam a falar. Se, porém, os vocábulos elencados
estão corretamente escritos e aplicados, só os filólogos o dirão.
Criar neologismos, com efeito, é perfeitamente permitido aos
redatores cultos que precisem suprir lacunas semânticas no idioma que dominam,
a bem da clareza, da sintonia fina da retórica e do discurso, DESDE QUE aplicando
radicais condizentes com o latim, o grego, o árabe e com a gramática primordial
do idioma.
Vianney Mesquita, por seu turno, expressa nas entrelinhas que a IA
tem sabença de textos alheios de que vai sendo informada e de que se vai
apropriando, para aplicar combinações mais ou menos coerentes, porém não possui
sapiência própria para criar fórmulas de dizer de maneira bela e correta,
inovando artisticamente ao comunicar a humana cerebração, que é
insuperável.
3 A propósito da Habilidade Natural,
de Vianney Mesquita
Ítalo Gurgel
A língua é uma cidade para cuja construção cada ente humano contribuiu com uma pedra. (R. W. EMERSON)
O texto do Vianney, confrade ilustre e amigo preclaro,
distingue-se, desde o título, pela agudeza de uma formulação que contrapõe à
Inteligência Artificial a expressão Habilidade Natural — HN, achado vocabular
ao mesmo tempo engenhoso e provocador.
A declaração afronta tema de incontestável atualidade e o faz sob
perspectivas particularmente relevantes: a autoria, a honestidade intelectual,
a formação do conhecimento, o respeito às fontes e a responsabilidade de quem
subscreve e publica um texto.
Fiel à sua reconhecida erudição e ao zelo que sempre dedicou ao
vernáculo, o autor não se limita a registrar uma preferência pessoal: suscita
uma reflexão necessária sobre os limites entre o auxílio instrumental e a
substituição do trabalho criador. É possível seconcordar ou não, integralmente,
com a rígida separação estabelecida entre HN e IA; permanece, contudo, o mérito
maior da declaração: lembrar que nenhuma ferramenta, por mais avançada que
seja, dispensa o discernimento, a experiência, a consciência ética e a
responsabilidade autoral.
Num tempo em que a tecnologia frequentemente se antecipa à reflexão
sobre os próprios efeitos, Vianney traz ao debate uma advertência lúcida,
corajosa e oportuna.
4 HABILIDADE NATURAL, de Vianney Mesquita,
e o risco da maquinização do humano
Sousa Nunes
A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889
– 26.05.1976).
O breve e indispensável artigo do confrade Vianney Mesquita sobre
a Habilidade Natural — HN, em face da Inteligência Artificial, é
uma defesa da dignidade do ato de pensar. E, vindo de sua lavra, não surpreende
que a reflexão se exprima pensada, cogitada e ponderada, numa linguagem
primorosa, em que o erudito convive, sem afetação, com a harmonia da
língua.
Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação
intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória
cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a
consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, o que o
engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a
informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta
instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão.
Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a
destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e
contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a
palavra que a exprima. A época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo,
resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação,
sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem,
estreita-se o próprio mundo interior.
Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe,
de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela
linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar
parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar
e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e
contemplativa significa consentir, pouco a pouco, que ocorra uma perigosa
maquinização do humano.
E ocorre-me Manuel Bandeira, no inesquecível “Momento
num café” (em Estrela da Manhã, 1936): diante do enterro que
passava, todos cumpriam maquinalmente o gesto convencional; apenas um homem
interrompeu o automatismo e descobriu-se, por um instante, diante da vida, da
morte e do mistério de existir. A palavra decisiva talvez seja esta: maquinalmente.
Há o risco de que estejamos ingressando numa civilização que lê
automaticamente, escreve instintivamente, responde inconscientemente, e, por
fim, vive maquinalmente – unificando as referidas moções
comunicativas.
É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney
Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma
tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar
o próprio pensamento.
Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua
reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade
Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a
soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o
qual não há verdadeira criação.