domingo, 11 de outubro de 2026

CRÔNICA - É de Dar Dó (RV)

 É DE DAR DÓ
Reginaldo Vasconcelos* 

 

O País está dividido entre um grande contingente de pessoas pragmáticas e lúcidas, e outra massa humana, também numerosa, de indivíduos passionalmente alucinados, encantados por um sonho dourado, imbuídos de uma pretensa causa épica, heroica e justa, cultuando e seguindo cegamente uma liderança demiúrgica.

Cada um dos dois grupos é ainda amalgamado pelo espírito de corpo, pelo sentimento de manada – uma saborosa pulsão gregária natural do ser humano, que consiste em se sentir irmanado a outros de mesmo ideário, destino e paixão, compondo uma uníssona multidão, como se verifica na devoção futebolística.

 

Hoje eu tenho estimados parentes e amigos ideologicamente capturados pela horda mítica, que a princípio me inspiravam respeito democrático, o que me fazia abster de especular a cerebração controversa que portavam, focando as nossas relações em aspectos da vida e da memória, afetuosamente compartidos. 

Na minha infância, quando alguma coisa me frustrava e eu me queria revoltar, minha mãe me indagava, repreensivamente: “Você está com pena de si mesmo!?” – o que me fazia abandonar a vertente queixosa e derrotista e adotar uma atitude proativa. Desde então introjetei que ser objeto de compaixão, de si ou de outrem, seria desonroso e aviltante.


Eu tenho um filho adotivo que cegou, e que, a despeito de ter conquistado espantosa autonomia profissional e social, às vezes me vem instar – sobre alguma coisa que o tato não lhe permita identificar ou fazer – pedindo, retórica e alegremente, para lhe “emprestar os olhos”. 

Mas não nos compadecemos dele, que logo se revelou resignado ao desígnio de Deus e feliz com o copo da sua sorte quase cheio, com apenas dois dedos de ar abaixo da borda, margem suprida por seus muitos talentos e pelo carinho da família. Até porque os olhos de sua alma e da sua inteligência enxergam longe. 

Mas hoje eu não consigo evitar o impulso indômito de devotar um profundo sentimento piedoso e solidário àqueles meus queridos amigos e parentes, ante a desdita de que foram acometidos: a cegueira intelectual aparentemente irreversível sobre os evidentes fatos históricos, bem como sobre a verdadeira índole de personalidades estrangeiras antigas e de personagens nacionais contemporâneos. 

Parece que vão morrer e secar negando a luz, tateando nas trevas, aferrados ao equívoco,  sem a graça de ter o vislumbre revelador da realidade que os cerca.  É realmente de dar dó.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Lusitano - Frugais Opções (VM)

 FRUGAIS
OPÇÕES
(Para o Dr. Reginaldo Vasconcelos)
 
Vianney Mesquita*

 

Quando a escolha é impossível,
o melhor é não criar dificuldades.
 
(GEORGE MACDONALD. Escritor escocês. Huntly, 10.12.1824; Ashtead-UK, 18.09.1905).
  


 
Essencialmente não retenho escolha,
Sou pajem de modestas condições,
Malgrado com espontâneas opções,
Receio que o Senhor Destino as tolha.

Se porventura a preferência encolha,
Assente em circunspectas tenções,
Conforme da epígrafe as moções,
Dispor-me-ei no imo desta bolha.

Entendo não condiz gerar estorvo
Ao ordenado pela Mãe Natura
Aquiescente aos intentos de Deus.


Vindo de Cima o íntegro absorvo
E, ungido pela intenção mais pura,
Avante induzirei projetos meus.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Soneto Decassilábico Português - 45 Cães em Rico Português (VM)

45 CÃES EM RICO
PORTUGUÊS
Vianney Mesquita*

 

Cada língua é um templo em que se encerra a alma dos que a falam.

(Oliver Wendell Holmes Jr., jurista, professor, filósofo e escritor dos EEUU. Boston 8.3.1841; Washington, 6.3.1935)

                                                                                                            

Tentação de Jesus Cristo

Porco-sujo, Capiroto e Tição;
Satanás, Zarapelho e Pé-cascudo;
Diacho, Maldito e Cramulhão,
Cafuçu, Sapucaio e Cravelhudo.
 
Dianho, Diale, Zarapelho e Rabudo;
Azucrim, Cão-tinhoso e Legião;
Encardido, Manfarrico e Beiçudo,
Temba, Fute, Jeropari e Rabão.
 
Pero-botelho, Belzebu e Nico;
Não-sei-que-diga, Chifrudo e Futrico,
Coisa-ruim, Anjo-mau e Arrenegado.
 
Lúcifer, Cafute, Exu e Dragão;
Pata-rachada, Mico e Capetão,
Coisa-à-toa, Tinhoso e Excomungado.

(Há muito mais sinônimos!)


NOTA ACADÊMICA - ACLJ em Culto da Memória

ACLJ
EM CULTO
DA MEMÓRIA

 


Em 04 de maio de 2022 a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promoveu a sua 11ª Assembleia Aniversária, no auditório principal do Palácio da Luz, em Fortaleza.

No evento, cumprindo o primeiro item de sua pauta interna, tomou posse como Membro Correspondente da ACLJ, no Estado de Rondônia, o Engenheiro Maurílio Vasconcelos.

 

Cearense radicado em Porto Velho há muitos anos, Maurilio repetiu o grande sucesso empresarial que tivera em Fortaleza nos anos 60/70, aqui com o célebre Curso Cipam, preparatório para o exame vestibular, tendo ele lá prosperado novamente, com uma portentosa construtora.


Um segundo tópico da mesma pauta foi a investidura de Ricardo Cavalcante – empresário e lider de classe, Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), com assento na cúpula da Confederação Nacional da Indústria (CNI) – o qual recebeu naquela data a dignidade de 21º Membro Benemérito da nossa entidade, que aniversariava. 


Marcando ainda a efeméride daquele undécimo aniversário da ACLJ, na sua pauta social, fez-se a outorga da Medalha Evaldo Gouveia (nosso Membro Benemérito Histórico, autor do Cântico Acelejano – a dita “Canção da Academia”).


A divisa que foi concedida aos quatro grandes artistas sônicos cearenses contemporâneos, nacionalmente consagrados sob a designação de “Pessoal do Ceará”, o Ednardo, o Fausto Nilo, o Fagner e o Belchior – este último in memoriam, representado pela sua filha Vannick. 

Em culto da memória, postamos abaixo um link que, uma vez acionado, preferivelmente em tela grande (e com pipoca e Coca-cola), poder-se-á apreciar a íntegra daquele festim parnasiano, celebração à sublimidade das letras e das artes – e em exaltação ao talento alencarino – ocorrido cinco anos atrás, enquanto os participantes poderão ver a si próprios vivendo aquele momento memorável da nossa Academia.


O vídeo foi produzido e editado pela CL Produções, e convertido de DVD para MP4 pelo ripper George Tabatinga, Membro Titular da ACLJ e integrante da Arcádia Alencarina.

ACIONE O LINK ABAIXO

https://drive.google.com/file/d/1C78rZGMFM-UrMCHZHk4d0soZPZAwIsJ0/view?usp=sharing 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

ARTIGO - Fromage (RV)

FROMAGE
Reginaldo Vasconcelos*

 


Eu vou começar a minha tese lembrando aquela anedota de um ingênuo brasileiro que chegou à conclusão de serem os franceses tão ignorantes que “chamam queijo de fromage, quando a gente está vendo que é um queijo”. 

Esse exemplo simplório expõe o fenômeno que o psiquismo opera nas pessoas, quando elas fazem a separação entre a realidade ontológica intrínseca e a percepção prática das coisas. 

Um queijo é um produto do leite pecuário, que, através de um processo químico provocado, se torna sólido e divisível com uma faca, o qual continua sendo isso em qualquer lugar, não importando o código linguístico que receba, aqui ou alhures. 

Da mesma maneira, um automóvel nos parece ser apenas um objeto útil e natural que serve para nos levar de um canto a outro, assim como uma fruta que se tira da árvore e saboreia.

 

Ora, todo mundo sabe o que é um carro – sua cor, sua marca, seu modelo, o ano de sua fabricação. Mas ninguém tem presente ser aquilo uma caixa de chapa de metal ou de uma matéria plástica sucedânea, sobre quatro rodas de borracha, semelhante a uma antiga carruagem, que, em vez de cavalos, é tracionada por um engenho de ferro ou de alumínio, o qual, por meio da combustão de um líquido inflamável, produz uma sequência de explosões internas, fazendo girar um eixo que impulsiona os seus pneus e o remove velozmente. É isso que ele é, indiferente ao vocábulo idiomático que o designe. 

Pois bem, quem pensa a realidade administrativa de um país que adote um regime democrático de direito como o nosso pensa ser ele como aquele queijo da anedota, ou como o automóvel que circula pelas ruas, enfim, uma coisa pronta e acabada pela natureza como a fruta que se tira da árvore e se consome. 

Ninguém percebe com clareza que um grupo de aventureiros se alterna e se encastela no poder e no comando, cheio de autoridade, atuando em defesa de privilégios próprios, naquela base de “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. 

Claro que ressalvamos as exceções que firmam a regra, pois na história do País, e do Estado, houve políticos dotados de absoluta idoneidade e espírito público, que se sacrificaram no exercício das funções, como Castelo Branco, Virgílio Távora e Lúcio Alcântara – para dar  exemplos mais domésticos.  

Para que reflitamos sobre como, e para que, se faz esse “queijo” da estrutura administrativa nacional, e como esse “carro” governamental deveria seguir sua trajetória, vou lançar mão de uma alegoria muito simples. 

Imaginemos uma cena bíblica em que um grupo nômade de um povo original chegue a uma planície fértil e se resolva nele estabelecer e prosperar. 

Naturalmente naquela população tem homens e mulheres, jovens e maduros, alguns mais hábeis e capazes, que detêm patrimônio em gados e cavalos, e exercem liderança, outros menos desenvoltos, menos dotados de tirocínio e de descortino do intelecto. Uns mais laboriosos, outros menos. Uns com melhor sorte e saúde, outros menos favorecidos pelo fado do destino.

 

Mas todos vivendo em regime de mutualismo e simbiose, servindo à comunidade na medida de sua disposição e seu pendor, e nessa mesma medida sendo por ela protegidos – estivadores, artesãos, artistas plásticos, marceneiros, agricultores, pecuaristas, pedreiros – curandeiros sarjando as pústulas, xamãs exercendo o sacerdócio, e assim por diante.

 

Então, os mais atinados percebem ser necessário designar alguns elementos do grupo que se empreguem unicamente ao bem comum. Estes se instalarão no planalto, e não precisarão mourejar e suar na lavoura de alimentos. 

Nem no trato dos gados, nem no amanho da terra, nem nas oficinas que produzam bens da vida, porque vão cuidar dos interesses comuns, enquanto serão providos pelos que trabalham e produzem na planície, de todo o necessário para a sua subsistência. 

Pronto. Temos aqui, analogicamente, os magistrados, que vão equacionar os conflitos pessoais, e os milicianos em geral, que garantirão a ordem social e protegerão o território de invasores. 

Mas também os ditos “físicos”, que se dediquem aos enfermos desvalidos; e os coveiros, que lhes vão sepultar os restos mortais... Enfim, todo o funcionalismo, que cuida também dos mananciais hídricos e das vias públicas, por exemplo. 

Pois então estão aqui representadas as funcionalidades tripartites de Montesquieu, ditas “os Três Poderes”. As Forças Armadas e as polícias, os servidores das três esferas de governo, inclusive os seus titulares: o presidente, os governadores e prefeitos. 

Todos sustentados, através dos tributos, por aqueles que produzem riqueza nos três setores da economia – o primário, o secundário e o terciário – o agro, a indústria e o comércio, neste incluído o de serviços. 

Mas a mentalidade pública passa a entender enviesado esse sistema, empregados do povo tratados como autoridades supremas, seres intocáveis, “suas excelências”, senhores do erário e do dinheiro circulante, fazendo leis e as interpretando, tributando e multando a cidadania ao seu talante ao bel prazer. Encastelados em seus palácios, cercados de seguranças, em carros blindados, como se assumissem serem inimigos sociais. Os simples da população os enxergando como monarcas, e eles próprios assim mesmo se sentindo. 

Essa é a democracia de direito, o pior sistema de governo, mas ainda melhor que todos os outros, segundo queria Winston Churchill.

Não. Ela é melhor do que as ditaduras marxistas, em que aqueles do planalto passam a oprimir violentamente quem trabalha na planície para sustentar seus privilégios. E é melhor do que as monarquias absolutistas, ambos regimes liberticidas. 

Mas a democracia é melhor aplicada e preservada no parlamentarismo europeu, em que um Primeiro-Ministro pode, usando a sua bicicleta, frequentar a padaria, como fazia habitualmente Boris Johnson. 

E é melhor aplicada nas monarquias constitucionais, em que o soberano recebe da Nação a condição vitalícia e hereditária de Chefe de Estado, e não de Governo, para representar a identidade do povo e a dignidade nacional, com a família real simbolizando e exemplando a cellula mater daquela sociedade.

 

ARTIGO - O Desperdício do Sono (VCPJ)

O DESPERDÍCIO
DA MADRUGADA
Valdester Cavalcante Pinto Jr.*

Não queiras ser amigo do sono 
para que a pobreza não te oprima. 
(BÍBLIA. Provérbios, 20,13.)

  

 QUARTETOS DO SONO
Vianney Mesquita


Senil sono soez, razão pretexta [ê],
Vetusta sorna cujo uso apresta
Segunda e terça e quarta e quinta e sexta,
Em cama, rede ou estrado bate a sesta.
 
No sabatino, ainda, o quase autista,
Desidioso e tardo, se contrasta
No concernente ao abstencionista
Averso ao tempo que aqueloutro gasta.
 
No domingo, inclusive, não malgasta –
Conquanto a aleia camarada insista –
O tempo em modorras dessa casta,
A fim de ignavos se omitir da lista.
 
Tranquila ideação a estória ilustra
Pois bom emprego temporal se exorta
E ao preguiçoso renitente frustra
Por não querer adentrar esta porta. 


Sempre tão discretos na chegada e demasiado insolentes quando permanecem, os anos vão consumindo o sono aos poucos, como quem subtrai parcelas de uma dívida que jamais termina de ser paga. E, para tornar a velhice ainda mais pedagógica, algumas das mazelas que a vida foi acumulando pelo caminho descobrem, sabe-se lá por qual refinamento de crueldade, que a madrugada é o momento mais apropriado para reivindicar protagonismo.       

É, então, que aquela antiga e civilizada sensação de acordar refeito sobra pertencendo a um passado remoto, provavelmente à mesma época em que os joelhos obedeciam sem protesto, as pernas não formulavam reivindicações trabalhistas e o corpo ainda não fazia questão de enviar, durante a alva, relatórios circunstanciados sobre suas pequenas e numerosas tragédias.       

A aurora tornou-se, com efeito, o grande tribunal das preocupações. Deitado, no escuro, a pessoa acha de examinar problemas que, durante o dia, pareciam perfeitamente administráveis. À noite, porém, adquirem proporções épicas. Uma dificuldade qualquer se transforma numa crise existencial. Dúvida banal assume a (in)dignidade de enigma metafísico. Configura um ponto que não dá chance a soluções com urgência administrativa, um desfecho sem possibilidade de acontecer.  

Existe, aliás, uma espécie de solenidade ridícula nesse procedimento. O cidadão fica o dia inteiro ocupado com coisas concretas e, quando chega – empós tanta demora – o momento de repousar, sua inteligência resolve se dedicar ao abstrato, improvável e absolutamente inútil. É como se o cérebro, depois de cumprir expediente, resolvesse abrir uma repartição clandestina durante o alvorecer, exclusivamente para protocolizar preocupações que ninguém solicitou.       

O detalhe mais divertido — se nisso existe graça — é que, mesmo quando há solução, ela raramente se encontra às três da manhã. O período noturno ante solar não costuma produzir desenlaces, pois, quando muito, enseja versões mais sofisticadas dos problemas. É o expediente em que o cérebro trabalha horas extras exclusivamente para concluir que não sabe o que fazer.       

E, como se isso não bastasse, costumeiramente, ainda mostra a descoberta como se representasse grande revelação. 

“É preciso pensar nisso”. 

Sim, é preciso; mas amanhã, uma vez tomado o café. Após uma noite de sono. Depois que a questão deixar de parecer o fim da civilização e voltar a ser o que sempre foi: um pequeno aborrecimento que ganhou dimensões monumentais porque encontrou um homem acordado às três da manhã.       

O ofício, naturalmente, também presta sua generosa contribuição ao martírio. Depois de um dia inteiro em pé, as pernas, que aparentemente desenvolveram “consciência” própria, resolvem iniciar uma rebelião, quando o restante do organismo suplica por tréguas. E lá vêm elas: inquietas, impacientes, insubordinadas — como se tivessem passado o dia inteiro esperando a hora de declarar guerra ao sono.

E assim se completa o espetáculo: o corpo quer dormir, as pernas intentam protestar e a cabeça, essa incansável funcionária pública da desgraça, decide convocar uma reunião extraordinária para discutir tudo o que não é passível de ser resolvido antes do amanhecer.

Não há pauta. Não há ata. Tampouco deliberação. Existem somente pensamentos propagando-se em círculos, com a respeitabilidade burocrática de uma repartição que funciona há décadas sem jamais ter produzido um resultado.       

O caso, portanto, remansa em saber como explicar a esse velho que problemas verdadeiros ou imaginários, graves ou ridículos, urgentes ou absolutamente inúteis, precisam respeitar o horário comercial.       

Problema algum deveria ter acesso à mente depois das dez da noite. Se for realmente importante, que espere o sol nascer. Se não tiver condição de aguardar, provavelmente, não é tão importante assim. Caso, todavia, continuar insistindo ao correr da matina, que ao menos tenha a decência de oferecer uma solução. Isto porque permanecer acordado para pensar em um problema sem resolução é uma espécie particularmente refinada de estupidez: uma ideia que só floresce depois da meia-noite e que, infelizmente, encontrou no velho seu mais fiel patrocinador.       

Tente, entretanto, explicar isso a ele.       

A pessoa anosa personagem desta croniqueta, naturalmente, não ouvirá. Estará ocupada demais, às 3h40 da manhã, resolvendo mentalmente a vida inteira — inclusive problemas que ainda não aconteceram, outros que já passaram e alguns que jamais existiram. Tudo isso, evidentemente, com a seriedade de quem acredita que o destino da humanidade depende de não conseguir dormir.       

Essa constitui uma das mais curiosas perversidades da condição humana: receber uma mente capaz de imaginar o infinito e decidir empregá-la, no curso da antemanhã, para reconstituir uma conversa ocorrida há quinze anos, antecipar uma desgraça que jamais acontecerá, ou encontrar, pela décima segunda vez, uma solução para um problema que já deveria ter sido esquecido. Há quem chame isso de reflexão. Outros preferem nominar de prudência. A madrugada, mais honesta, sabe que muitas vezes não passa de desperdício intelectual com pretensões filosóficas.       

É neste ambiente que reside a ironia maior: enquanto alguns passam a noite tentando resolver dificuldades que não têm condição de afastar, outros conseguem transformar a própria cabeça numa espécie de depósito de quinquilharias mentais, onde se acumulam ressentimentos, hipóteses, temores, lembranças, conjecturas e outras inutilidades cuidadosamente guardadas como se, em algum momento, alguém viesse pagar bom preço por elas. Não vem. O amanhecer chega, bem diferente para os entorpecidos insertos numa das epígrafes: a vida continua e a maioria dessas preocupações revela, como fecho dessa estória, a sua verdadeira importância: NENHUMA!


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CRÔNICA - A Noite Em Que Vi o Futuro (AG)

 A NOITE
EM QUE VI O FUTURO

Aluisio Gurgel*


Era uma sexta-feira, 28 de agosto de 1970. O céu abafado de San Antonio guardava o bafo pesado do final de verão texano. O ar condicionado dos carros parecia um luxo distante e o asfalto ainda exalava o calor do sol que se pusera pelas 19h28. Eu estava lá dentro, espremido na penumbra do Jam Factory, um clube noturno e de dança situado na zona central (perto da área de Jack White com a Nueva, onde anos mais tarde restaria apenas o asfalto de um parque de estacionamento). O ambiente fedia a cerveja barata, tabaco americano sem filtro e o suor coletivo de uma juventude que vestia calças boca de sino e camisas xadrez desabotoadas.



A noite prometia peso. Os britânicos do Deep Purple vinham espalhar o fogo do recém-lançado álbum In Rock, mas a atmosfera nos bastidores azedara antes mesmo de os amplificadores Marshall começarem a rugir. Ritchie Blackmore, o homem da guitarra Fender Stratocaster que liderava a banda, prostrou-se no quarto do hotel, combalido por uma séria indisposição que o impedira de sair da cama para o segundo concerto da noite.

O pânico rondava os promotores. Cancelar a atuação num clube lotado de malucos ávidos estava absolutamente fora de questão. Foi então que o empresário local Joe Miller achegou-se de um adolescente de cabelos fartos e encaracolados, que circulava pelo clube como um fã devoto: Christopher Charles Geppert. 


Vi quando o chamaram ao canto. Vi-o hesitar, engolir em seco e apertar a correia de uma guitarra Gibson Flying V vermelha que pesava quase tanto quanto ele. Quando subiu ao palco improvisado da velha cave urbana, os amplificadores zumbiram com a eletricidade crua dos anos setenta. Ian Gillan empunhou o microfone e avisou sem rodeios que o guitarrista titular não estava em condições. 


O burburinho foi instantâneo, mas bastaram os primeiros acordes desajeitados e intensos para que o ceticismo derretesse. Christopher não era Blackmore – faltava-lhe a frieza cirúrgica do mestre britânico, mas sobrava-lhe uma alma texana que encaixou nos riffs de blues-rock como uma luva gasta. 


Tocaram o que ele sabia, improvisaram até as mãos começarem a arder nos trastes e transformaram um potencial desastre corporativo numa lenda de porão.Poucos anos mais tarde, o mundo conheceria o rapaz com o nome de Christopher Cross, a cantar Sailing e outros clássicos que compôs, e baladas de rádio FM – assim entronizado como ganhador de cinco Grammy Award em uma mesma premiação (fato jamais repetido). Porém, fecho os olhos e ainda ouço o som cortante da Flying V rasgando a noite quente de agosto, numa altura em que ninguém fazia ideia de que assistíamos ao nascimento improvável de duas histórias ao mesmo tempo.