Libação Prévia no
Ritual de um
Lançamento Invulgar
(Comentos Curtos sobre o Romance de Ítalo
Gurgel)
Vianney Mesquita*
O
crítico é um arquiteto a posteriori, habilitado a desmontar o conjunto
da obra peça por peça, para dizer como foi feita e com que material. E nessa
tarefa mexeriqueira de desmontagem e remontagem, mais uma vez se engana e ficam
sobrando parafusos. (Sérgio Milliet da Costa e Silva – escritor, poeta e
pintor. São Paulo, 20.09.1898; 09.11.1966).
Notações de Entrada
No dia inaugural de setembro de 2026, o
cearense aficionado em matérias de qualidade aguarda, sobranceiro, a solenidade
de entrega do fotografado romance ao universo ledor – o primeiro desse gênero,
do farto portefeuille temático deste professor, jornalista, poeta, orquidófilo
e imortal cearense (nascido em Caraúbas-RN) Ítalo Gurgel.
Eis uma apreciadíssima pessoa em todas
as ricas ambages humanas e intelectuais por onde transita, com sucesso e glória
inusitados, pretextos pelos quais seus circunstantes sempre o aceitam e recebem
e abraçam e recolhem e aplaudem no regaço familial extenso das amizades
autênticas e ininterruptas.
Em decorrência de nossas aproximações
bem anosas, desde os meados dos anos de 1970, na qualidade de docentes da
Universidade Federal do Ceará, bem assim na Academia Cearense da Língua
Portuguesa, provei da ventura de ler por antecipado e ao abrigo de obséquio seu
o livro sob comentário ligeiro, ainda não editado, de inexcedíveis legitimidade
e mérito, porém, ainda, desassistida do anteâmbulo firmado pelo imortal
Linhares Filho.
A Mano a Mano com os
Criticastros
Impende exprimir o fato de que não faço glosas
acerca do que não saboreio, procedendo a tais escoliações somente quando o
produto não é acompanhado de defeituações de qualquer natureza, por mínimas que
sejam, o que, aliás, o arquiteto ao depois, mencionado pelo pintor e
literato paulistano Sérgio Milliet na epígrafe destas notas, aproveita sempre
para desbaratar a produção, mesmo que desazadamente, sem um motivo rijo capaz
de pejar a semente literária e infelicitar quem a agricultou.
Vez por outra – não é transgressor manifestar
pela via deste parêntese – há um desmontador de parafusos sergiomilletiano,
aqui em Fortaleza – somente um, seja expresso – que assim se conduz em relação
a mim, atitude reduzida, mensura temporis, porque, em todas as ocasiões,
lhe respondo ao contestar as irracionais alusões. Demais disso, indigito
grosserias linguísticas e sem-razões toscas em seus bens editoriais, valiosos,
seja dito en passant, num “bateu-levou” operoso, de resultados
imediatos e efeitos duradores.
Já no que concerne ao rematado Dona
Quitéria – a Senhora de Caraúbas, quero ver quem demonstra a coragem
covarde de arrematar contra! Sofreria, decerto (se o escritor norte-rio-grandense
fosse um arengueiro de marca maior semelhado ao desnaturado criticastro), respostadas
semelhantes à do arengado que, como réplica, espessa por excelência, ouviu do
aplaudido autor de Le Rouge et le Noir, Henri-Marie Beyle, chamado
Sthendal (Grenoble, 23.01.1783; Paris, 27.03.1843) o que vem ligeiro à
continuação. Sthendal partiu para a briga, armado com os aços da palavra, a um
sujeito que dirigiu comentações com acres desdouros a uma de suas obras: Este
homem não tem a minha opinião; logo, é um imbecil; critica o meu livro, então é
um celerado, ladrão, assassino, jumento, falsificador, canalha, covarde (Confer
Della Nina, in Mesquita. Arquiteto a Posteriori.
Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013, p. 11). Comportou-se meio
exagerado o escritor de Rome, Naples et Florence e De l’amour?
Sim. E, evidentemente, ninguém vai respostar assim, caso suceda com o romance
do Prof. Ítalo. Tal não há de, não tem como acontecer...!
Também é o instante azado de eu
exprimir, conforme muita vez já o fiz, a ideação de que não é cabível adentrar
com profundez a explicação de uma obra, porquanto vai subtrair o hors d’ouevre
do prato principal, o acepipe dirigido ao leitor, a quem incumbe ler, decodificando
ao seu modo, um artefato artístico, máxime se estável, segundo é conformado o
gênero romanceado de que labilmente cuido.
Impõe-se, entretanto, mormente em
direção aos consulentes menos apercebidos das taxionomias literárias,
discorrer, conquanto efemeramente, a respeito desta relevante matéria, segundo
exprimido à continuidade.
O Gênero Romance
Das castas artísticas por meio das quais
o literato robustece e propagandeia sua mais ardorosa inspiração, o romance é
um dos mais apreciados. Tal sucede, certamente, porque, em se cuidando de
narração mais ou menos dilatada, aqui bem distendida e para gáudio do leitor -,
nele são traçados fatos imaginários, passíveis de veracidade, pois às vezes
incitados por ventos autênticos, cujo fulcro é suscetível de ser topado em
veracíssima relação histórica passada em Caraúbas, Aracati e contiguidades,
relato de aventuras, exame de costumes ou tipos psicológicos, análise social ou
em quaisquer pretextos relevantes, quando se logra estabelecer uma peça
deleitosa, a conquistar a simpatia e o interesse do consultante, segundo é
ocorrente com Dona Quitéria – a Senhora das Caraúbas, emparelhado com
precisão a essas ligeiríssimas exegeses.
Vários – e indispensáveis – são os
requisitos para um bom romance restar caracterizado, o mais relevante dos quais
desfecha na originalidade, conforme o intelectual sob relação obedeceu
na completude.
Já expressei, muita vez, a ideia de que, conquanto
haja editado alguns volumes e artigos em periódicos, no âmbito da ciência, no
concerto crítico e na senda da prática religiosa católico-romana, jamais venci
o temor de trazer à luz editorial uma composição gradeada pela estirpe culto-estética
de narração romanesca. Isto, sempre, porque me divisava feito um dublê, verdadeiro
menecma nalguns pontos da trama e do estilo, com romancistas que havia lido,
bem como achava uns parecidos com os outros.
Quiçá haja ocorrido essa circunstância
em virtude de pruridos de perfeição, os quais constantemente tocaram minha
exigente recepção de mensagens artísticas, jamais no que respeita ao estado
de originalidade, condição literária que privilegio para, de leve, articular,
neste passo, estas concisas e lacônicas notações sobre esta e o restante da
produção desse vate, professor e produtor de crédito nacional, Ítalo Gurgel.
Não em raras ocasiões, me divisei
perdoado da quiçá inocente parecença dos meus originais romanescos nunca
publicados com os de outrem, lembrando-me, até, da identidade estilística de
Eça de Queirós, no O Crime do Padre Amaro, Emílio Zola, em Faute
de l’Abbe Mouret; senão, também, da comparação a que eu tinha o
costume de proceder, mostrando certa similitude nas produções de Archibald
Joseph Cronin (Cardross – UK, 19.06.1896; Montreux – Suiça, 06.01.1981), por
exemplo, na A Cidadela, os estilos, as personagens e motivos
de Sir Arthur Conan Doyle, exempli gratia, n’As Aventuras
de Sherlock Holmes; e as irmãs Brontë – Anne, Charlotte e Emily
– com pseudônimo dos Bells-Currer, Ellys e Acton; e ao confrontar Camões com
Vergílio e Homero, Oliveira Paiva com Aluisio de Azevedo ... e tantas outras
colações empreendidas, até com alguma razão ao fazê-las, a fim de me inocentar,
não de plágio, mas de contrafeições elocutórias em que era capaz de incorrer
sob influência de suas leituras.
Ex expositis, conforme anunciado
há pouco, são deixadas à parte, intencionalmente, neste comentário, diversas
exigências da escrita literária, tantas de que a Teoria da Literatura faz
divisão, com vistas a distinguir a originalidade. É, pois, a
circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente
original, agora sob apressada relação.
Remansa manifesto, quando convido com
instância, também, o atributo da novidade para
comentar, o fato de que, no romance sob notícia, texto que me estimulou o
contentamento de cronista, cursam os requisitos da boa literatura, de sorte
que, privilegiando, neste lance, o aspecto de singularidade criadora, não
significa exprimir que o autor preteriu os demais, pois, ao reverso, os
valorizou ao extremo, porquanto bem calçado, incólume e intactamente, do
pressuposto da raridade componente da trama, das personagens,
literatura e elocução, motivo pelo qual não se parece com NINGUÉM, consoante
sucedeu comigo.
No lance em que o consultador proceder à
decifração textual deste romance de IG – quem sabe – ele vai deparar o
inesperado... Os romancistas existem para nos dizerem algo sobre os romancistas
– evoca-nos Lord Chesterton. Tenham, portanto, a convicção de que os bons
terminam bem, ao contrário dos maus – eis o que são os romances – na sentença
de Oscar Wilde.
Progredimos, com efeito, na ideação de
que, na qualidade de leitor impertinente, a quem não é todo escrito que
satisfaz, me deleito com este lépido e honesto parecer acerca de Dona
Quitéria – a Senhora de Caraúbas revistado da entrada ao termo,
impressionando-me com suas meadas perspicazes, teceduras consentâneas e conducentes
a um fecho.
A Jeito de Fim
Impressionaram-me, sobremodo, as
vinculações autênticas e sinceras a que o autor procede com a família, os
locais de ocorrência da contagem romanesca, a religião cristã-católica – sem,
entretanto, recorrer à carolice, no exagero da santidade fingida e santimônia antibíblica
das mãos postas e das mostras de veneração forçada, posando para os holofotes
da sociedade, comportamento a que me não afaço e até antipatizo na
circunstância de cristão católico praticante.
Com efeito, Ítalo Gurgel, sob a estampa
e fiel aos sabores da codificação linguística de Geraldo Jesuíno da Costa,
Linhares Filho e Sousa Nunes – cânones de escritores coestaduanos – presenteia
o público das nove nações lusófonas com este volume de insuperável axiologia
literária, cujos teores vão ser conhecidos no dia primeiro de setembro que vem.
A obra é acobertada pela magia harmoniosa
e impressionante do primo especialista há pouco mencionado, GJ, ao complementar
o conteúdo de Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas, com o continente de
sua raríssima estese, configurado no desenho de toda a produção, um santuário
visível, com ornamentos exteriores aformoseando o interno teor imageticamente sacrossanto
do Romance.
Conquanto não haja lido, ainda, as
notações preambulares do imortal acadêmico lavrense José Linhares Filho, bem
que eu queria ter a igual certeza de minha redenção lá no Assento Etéreo como a
retenho acerca da coerência, racionalidade, beleza e precisão das manifestações
acerca da produção italogurgeliana por parte do amigo e decantado estudioso da
Literatura Lusitana, notadamente de Fernando Pessoa.
Na expectativa pressurosa encontro-me relativamente
à oração a ser proferida a respeito do Romance pelo jovem e perito professor de
língua portuguesa e código inglês, docente do Colégio Farias Brito e presidente
da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o escritor Sousa Nunes, uma das
personalidades mais estimadas no âmbito da intelectualidade cearense, tanto em
razão de seus aprestos intelectuais, entretanto, jamais pelo refinado apuro
cidadão a lhe presidir o caráter humano e suas ações de elevada urbanidade.
Então, escritor Ítalo Gurgel, eis que
faço esta prelibação, na minha espirituosidade comedida, pois não achegado à
carraspana – sob a companhia de um Vinum bonum et suave, Bonis bonum,
pravis prave, Cunctis dulcis, sabor ave Mundana laetícia!, no aguardo da
festa de lançamento do seu mais novo bem editorial.
Abraço vigoroso!