domingo, 22 de março de 2026

LITERATURA - Totvs Tvvs (RV)

VIANNEY MESQUITA
em
“Totvs tvvs” 
Reginaldo Vasconcelos*


 

O Confrade Vianney Mesquita parte agora para um novo livro, que enriquecerá sobremaneira a sua extensa produção bibliográfica, desta vez tratando de um de seus temas prediletos, que são os cânones da Igreja Católica Apostólica Romana. Livro sobretudo "simpático", não obstante a circuspecção do assunto abordado. 

O também confrade Arnaldo Santos forneceu um belo texto sobre a obra, inicialmente destinado às abas do livro, exórdio tão bem recebido pelo autor que preferiu aproveitá-lo como prólogo prefacial.

Nas palavras de Arnaldo, que abaixo reproduzimos, ele dá um verdadeiro "testemunho de caráter" à pessoa livresca e ao seu autor, assumindo a modéstia de não se poder aprofundar em tão sublime matéria eclesiástica – considerando que "o sapateiro não pode ir além das sandálias" na pintura de Apeles.

 

 VIANNEY MESQUITA
E SUA VERVE SUBLIME

Meu amigo e confrade João VIANNEY Campos de MESQUITA, mestre de todos nós, no melhor trato do idioma nacional, senhor da gramática lusitana, estando em gestação de mais um produto literário, a mim cometeu a honrosa missão exordial de registrar nas abas do libro impressões sobre este seu novo trabalho bibliográfico, 25º do seu portfólio – o terceiro sobre o emblema temático católico- romano. 

O título da obra, Totvs Tvvs – “Todo Teu”, com o charme latino da letra “v” consonantal – é uma expressão tradicional em que os católicos marianos oferecem a sua alma à Mãe de Deus, frase muito difundida por São João Paulo (Karil Wojtyla), que se notabilizou como o Papa mais devoto de Maria.

Aqui se nega a assertiva popular de que não se deve julgar o voluma pela capa, pois, neste caso, já por tal meio, com o nome do autor e o título do exemplar, se percebe a riqueza do conteúdo que ele conduz, versando filosoficamente sobre a fé cristã, com seus cânones sagrados, sua inspiração por amor divino, virtude e paz.

Malgrado, pessoalmente, não tenho domínio suficiente da matéria para acerca desta produzir uma análise mais profunda, retenho condição, entretanto, de manifestar o louvor e sempre crescente admiração por Vianney, no meu estado de católico raiz, que foi acolhido muito jovem para o serviço laico no Seminário Seráfico em Messejana, Fortaleza-Ce. 

A despeito da minha laicidade religiosa, sou home de fé e de contritas orações, até porque devo a minha feliz carreira na imprensa a tias freiras que me credenciaram, ainda menino, junto ao Arcebispo Dom Aloísio Lorscheider, a assumir os microfones da Rádio Assunção, em Fortaleza, para exercer a inata vocação profissional. 

E foi em situação de prece que li, de Vianney Mesquita, Totvs Tvvs – Temas do Catolicismo Pós-Tridentino, e recomendo que os demais circunstantes façam o mesmo, para enriquecerem a mente com o seu texto primoroso, e alimentarem o espírito com o pão da Verdade Transcendente, e o vinho sagrado da beleza litúrgica vaticana.

Arnaldo Santos

Jornalista, Professor e Sociólogo.

Doutor em Ciência Política pela Universidade Nova de Lisboa. 

 

 

CRÔNICA - A Geografia do Pulgão (LRF)

 

A GEOGRAFIA DO PULGÃO
 
CRÔNICA EM TOM LEVEMENTE CIENTÍFICO,
PROFUNDAMENTE BRASILEIRO.
Luiz Rego Filho*

 

Tessitura de: “Parlim do cavalo alazão” (Aldeia de Arcozelo (Paty do Alferes, RJ): Considerada o maior centro cultural da América Latina em extensão (cerca de 51.000 m²) e “Luizão das Candongas”.


Havia dois professores pesquisadores — daqueles que carregam mais títulos do que sacolas de feira — que resolveram fazer uma visita de campo. 

Iam investigar práticas agrícolas tradicionais numa pequena propriedade no interior de uma baixada litorânea. 

Chegaram equipados. 

Um carregava GPS, planilhas, prancheta, lupa de entomologia e uma suspeita permanente de que a realidade precisava ser confirmada pela literatura revisada por pares. 

O outro carregava citações. 

— Segundo a literatura recente… 

— Conforme estudos internacionais… 

— De acordo com a meta-análise… 

A propriedade era simples, mas viva: mangueiras, galinhas, um cachorro filosófico dormindo à sombra e um vento que parecia saber para onde ia.

O dono da terra, homem de fala tranquila e pele curtida pelo sol, recebeu os visitantes com a hospitalidade clássica da agricultura brasileira: café forte, banco de madeira e uma pergunta. 

— Os senhores vieram estudar o quê? 

— Estamos analisando a incidência de afídeos nas culturas de solanáceas — respondeu o primeiro professor. 

O agricultor piscou duas vezes. 

— Ah… pulgão. Houve um pequeno silêncio acadêmico. 

— Exatamente — confirmou o segundo professor, anotando pulgão = nomenclatura vernacular. 

Começaram então a caminhar pela propriedade. 

Passaram pela baixada. 

Nada de tomate. 

Nada de pimentão. 

Nada de berinjela. 

O professor da prancheta perguntou: 

— O senhor não cultiva solanáceas aqui na baixada? 

— Não. 

— Por quê? O homem respondeu com a naturalidade de quem responde por experiência e não por bibliografia. 

— Por causa do pulgão. Os dois professores se entreolharam como quem encontra uma vírgula fora do lugar. 

— E onde o senhor planta? 

— Lá em cima. 

Apontou para a encosta do morro. 

Subiram. 

Na meia-encosta, lá estavam os canteiros de tomate. 

Saudáveis. 

Folhas abertas. 

Nenhum pulgão aparente. 

Os professores se aproximaram como quem examina um fenômeno paranormal. 

— O senhor percebe menos pulgão aqui? 

— Muito menos. 

— E por quê? O agricultor coçou o queixo. 

— Ah… aqui venta mais. Pausa. 

— E pulgão não gosta muito de vento. 

O professor da prancheta anotou freneticamente. 

O outro fez cara de quem estava tendo um encontro místico com a agronomia. 

— O senhor chegou a testar isso? 

— Não. 

— Não fez experimento? 

— Fiz. 

— Como? 

— Plantei lá embaixo uma vez. 

— E? 

— Encheu de pulgão. Silêncio científico. 

O professor das citações tentou recuperar a autoridade: 

— O senhor sabia que existe uma literatura extensa sobre dispersão de afídeos na camada limite atmosférica? 

— Não.

 

— Sobre a influência da turbulência aerodinâmica na colonização de culturas? 

— Também não. 

— Sobre epidemiologia de viroses transmitidas por pulgões? 

— Não senhor. 

O agricultor olhou para o morro, depois para a baixada e concluiu:

— Eu só sei que lá embaixo dá pulgão e aqui em cima não dá. 

Houve então um daqueles momentos raros em que a ciência encontra a vida real e precisa tirar o chapéu. 

Os dois professores ficaram em silêncio. 

O vento passou. 

Os tomates balançaram.

 Nenhum pulgão. 

O cachorro filosófico apareceu na encosta, olhou para os três e deitou novamente — como quem já sabia de tudo aquilo muito antes da CAPES. 

Na descida, um dos professores murmurou: 

— Curioso… 

— O quê? 

— Nós passamos anos estudando entomologia agrícola. 

— Sim. 

— E ele resolveu o problema com geografia. O outro suspirou. 

— Isso acontece muito. 

— O quê? 

— A ciência demora trinta anos para explicar o que o agricultor já sabe há cinquenta.

Pararam na porteira. 

O agricultor perguntou: 

— Os senhores descobriram o que queriam? 

O professor respondeu: 

— Descobrimos sim. 

— O quê? 

— Que o senhor faz leitura da paisagem. 

O homem sorriu. 

— Não. 

— Não? 

— Eu só olho o lugar. 

E essa talvez seja a diferença fundamental entre conhecimento e sabedoria. 

O conhecimento pergunta: 

— Por quê? A sabedoria pergunta: 

— Onde plantar? 

E, como diria o velho cronista da República do Galeão, se ainda estivesse por aqui: 

No Brasil, o problema não é falta de ciência. 

É excesso de gente que acha que pulgão lê artigo científico antes de pousar no tomate.

O que o Chicó do Alto da Compadecida diria sobre esse caso? 

Se Chicó, o célebre filósofo da caatinga criado por Ariano Suassuna, tivesse presenciado essa cena dos dois professores e do agricultor, provavelmente diria algo mais ou menos assim:

 ______________

Chicó coçando a cabeça, olhando para os canteiros na encosta: 

— Eu só sei que foi assim… 

— Os dois doutor chegaram cheios de estudo, cheio de papel, cheio de nome difícil… afídeo, dispersão atmosférica, camada limite… parecia até nome de doença de bode. 

— Aí perguntaram pro homem por que ele não plantava tomate na baixada. 

— O homem respondeu: 

“Porque lá embaixo dá pulgão.” 

— Aí os doutor perguntaram: 

“E por que aqui em cima não dá?” 

— E o homem disse: 

“Porque aqui venta.” 

Chicó faz aquela pausa clássica, olha para o céu, pensa um pouco e conclui: 

— Pois é… o doutor estudou vinte anos pra descobrir o vento… e o homem descobriu olhando a folha do tomate. 

Depois completa, com ar filosófico: 

— Isso é que dá quando a pessoa aprende primeiro no livro e só depois vai conversar com a planta. 

Mais um silêncio. 

Chicó se anima: 

— Agora uma coisa eu digo: se pulgão soubesse ler tese de doutorado, o tomate da baixada estava salvo.

Olha para João Grilo e finaliza: 

— Mas pulgão é bicho prático… ele vai é onde o vento deixa.

 ______________ 

E provavelmente Chicó encerraria com sua famosa síntese epistemológica nordestina: 

— Uma coisa é conhecimento… outra coisa é saber das coisas. 

— O primeiro a gente aprende na escola. 

— O segundo a gente aprende olhando a roça.




segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA - A Faina (RV)

 

A FAINA
Reginaldo Vasconcelos*


O comboio ferroviário da vida já me levou à estação setuagésima, na longa trajetória da existência. Desta gare longínqua olho para trás e, até onde os olhos da alma alcançam, observo a dura faina dos meus avós, e, em seguida, os labores exaustivos dos meus pais – logo antes dos meus próprios esforços na senda dos meus dias, já uma soma de milhares. 

É verdade que não se conseguem lobrigar os vagões mais distantes na linha do tempo, mas é claro que o trem da família vem de imemoriais paragens, desde a muito pretérita pré-história, passando pela mítica antiguidade e pelo conflituoso medievo. Em passado mais próximo, vejo os avoengos cearense na lida dos gados, no amanho das roças, no arrosto das secas. 

As desposadas, as mães, as donas de casa de todos os tempos, após parturirem cada novo membro da prole, superadas as dores do parto, são escravas das lides culinárias das famílias, cativas das providências higiênicas das casas, linha de frente na precepção dos rebentos, na cura de suas febres, tosses e impetigos, e, ainda, no cuidado ingente com os mais longevos idosos dos seus clãs respectivos. 

Os maridos de muito antanho erguiam as vivendas, e iam à caça, e iam à pesca, e iam às armas quando necessário. Entre arrebóis mais recentes, entregam-se às lavras, às letras, aos números, às leis, aos trânsitos, aos pactos, às trocas – para os mesmos fins antigos de proverem as casas, as mulheres, os filhos, a honra própria e a dignidade das famílias. 

Estruturas da sociedade moderna alteraram as funções, convocando as mulheres para as lutas mundanas entre os homens, embora mantendo-as nas tarefas domésticas, impingindo-lhes direitos e somando os seus deveres. Os músculos dos homens ainda estão na estiva, nas tropas, nas armas, nos mares, nas guerras, embora abrindo espaço de honra ao heroico estrógeno feminino. 

Em suma, o meu preito retórico de admiração e gratidão é para os antigos, homens e mulheres da ascendência de nós todos, mergulhados hoje no breu do esquecimento absoluto, mas de cuja genética somos herdeiros necessários, e cujos esforços e sucessos propiciaram a nossa existência, vencendo pragas, pestes, fomes, fogos, medos, rusgas, e afinal triunfando, para que estejamos aqui contemplando a glória de Deus no firmamento.

   

domingo, 8 de março de 2026

CRÔNICA - O Marinheiro e o Oceano (RV)

 

 O MARINHEIRO E O OCEANO
Reginaldo Vasconcelos*



A visão que tenho da mulher, na minha ótica masculina, tem evoluído no tempo, desde que me entendi como pessoa. Nascido e criado durante o ocaso do obscurantismo milenar – segunda metade do Século XX – experimentei a grande transição cultural que promoveu a igualdade essencial do ser humano.

Mas ainda conheci a mulher encastelada no status de ser especial, sujeita a estritos deveres morais, quando distinguida pelo destino para ser esposa ou freira, ou relegada à condição de pária social, se destinada a suprir os instintos poligâmicos da espécie, neste caso, impiedosamente rotulada de “mulher desonesta.

Para o menino que fui não havia distinção: filho de uma mãe recatada, vivendo numa prole sem irmãs, a mulher, para mim, toda ela, era sempre um ente fabuloso, magnífico, intangível. 

Fossem as professoras, as domésticas, as meninas da vizinhança, todas eram objeto da minha adoração apaixonada. E principalmente as prostitutas, quando a elas tive acesso, na transição da puberdade, causavam-se uma pletora de ternura e encantamento. Éramos como o observador e a montanha verdejante.

Depois, na aurora boreal dos hormônios, sob a virilidade solar da juventude, a essa condição de ser etéreo  e  angelical  da  mulher  – da qual jamais a demiti – somei a de fetiche sensual, fonte aparentemente inesgotável de carinho e de prazer. Galgaram, então, as moças, no meu conceito, o altar votivo do mais enlevado culto erótico, sem perderem a sua deidade, sempre alvo do maior respeito e de grande reverência. Era então o observador na montanha dominando o vale fértil.

Hoje, além de semideusa da estética superior do Universo, na sublimidade intrínseca de sua condição ontológica, e de insuperável objeto tátil e lúdico de deleite, a mulher assume ante os meus olhos a função suprema de companheira imprescindível, alicerce indispensável da estrutura masculina, arcabouço e argamassa do edifício da família.

A mulher se me afigura hoje o complemento essencial do macho, que sem ela não existe como tal, porque sem ela se vai delir moralmente como qualquer criança solitária, perdida no caos da orfandade. 

Na maturidade concluo enfim que tenho vivido em função da mulher, a princípio cativo de seus encantos  como o zangão em torno da abelha rainha  hoje servo absoluto de sua majestade, sempre a serviço de sua nobre alma, em troca de um simples olhar seu de aprovação, ou de um sorriso, ou de um gesto de confiança, ou de um suspiro de prazer que me conceda. Somos agora como o marinheiro e o oceano.

NOTA: Escrito e publicado originalmente no dia 08.03.2005 Dia Internacional da Mulher.

Crônica dedicada a Dona Estefânia, a Dona Tatá e a Dona Jaci (in memoriam). À Graça, à Fana, à Thi e à Júlia. À Vólia e à Jô. A Dona Célia, à Ana Paula e a Ana Sophia. Na pessoa delas, a todas as mulheres do Universo. 

  

ARTIGO - Dia Internacional da Mulher (MA)

 08 DE MARÇO
DIA INTERNACIONAL
DA MULHER
Margarida Alencar*

 

Foi no século passado, exatamente em 1857, que aconteceu, nos Estados Unidos da América, um fato deveras trágico e determinante, para que não se esquecesse, em todos mundo, o dia 08 de março. 

Naquele dia ocorreu um movimento de protesto, feito por mulheres operárias de uma indústria têxtil, em que pediam igualdade de salário e redução da jornada de trabalho para 10 horas diárias.  

Ao tomar conhecimento do protesto, o industrial dono da tecelagem, trancou dentro da fábrica todas as mulheres operárias rebeladas e incendiou o prédio, matando todas elas. Daí ser comemorado, no mundo todo, em 08 de março, o “Dia Internacional da Mulher”. 

Naquela época, mais do que hoje, as mulheres sofriam discriminações em todos os setores da sociedade – não tinham acesso à educação em nível superior, nem direito a votar, e, muito menos, igualdade de salários no mercado de trabalho, dominado totalmente por dirigentes do sexo masculino. 

No nosso País, a primeira mulher a ingressar numa escola de Medicina foi a Sra. Rita Lobato Velho Lopes, no Rio de Janeiro, em 1822. Quanto às mulheres europeias (francesas e suecas), só tiveram acesso às escolas de Medicina, em 1870. 

O direito a votar foi uma outra importante conquista que, nos Estados Unidos, ocorreu em 1920, e no Brasil, somente em 1931. 

Assim, com o tempo, a mulher tem conquistado, passo a passo, importantes vitórias na sociedade. Por todas as conquistas, e certamente pelas que virão, aqui e além, os nosso votos de que tenhamos pleno êxito, hoje e sempre. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

CRÔNICA - Do Pó ao Pó - Com Suor no Meio (LRF)

 DO PÓ AO PÓ,
COM SUOR NO MEIO
Luiz Rego Filho*

 

 

Quia pulvis es et in pulverem reverteris I.

“Ad locum revertere”

 

No princípio era o pó. Depois veio o homem. Depois veio o suor. E, logo em seguida, veio o agrônomo para explicar a reação química. 

A Bíblia, sempre econômica e certeira, resolveu o destino humano em meia frase: “és pó e ao pó tornarás.” Não disse quando, nem como, nem se haveria prazo de carência, juros compostos ou correção monetária. Apenas decretou. É o tipo de sentença que dispensa advogado, perito e junta recursal. 

O curioso é que, entre o pó de origem e o pó de destino, existe um fenômeno intermediário pouco explorado pelos teólogos: o suor. O suor é a autobiografia líquida do ser humano. Ele contém sal, nitrogênio, minerais, restos de metabolismo, traços de esforço e um leve gosto de segunda-feira. 

Outro dia descobri que, quando o suor cai no chão, ele não evapora filosoficamente — ele reage quimicamente. Sim, senhor: o homem trabalha, transpira, pinga no solo e, sem perceber, faz adubação de precisão. Não é metáfora: é troca catiônica. O sódio negocia com o cálcio, o potássio troca cartões com o magnésio, e o solo recebe o visitante como quem diz: “Seja bem-vindo de volta, criatura”. 

Veja que elegante: o homem sua para sobreviver, o suor fertiliza o solo, o solo alimenta a planta, a planta alimenta o homem, e o homem volta a suar. É um sistema fechado, ecológico e sem taxa administrativa. A natureza inventou a economia circular muito antes de qualquer consultor. 

O mais bonito é que a ciência confirma a poesia bíblica. Não só voltaremos ao pó — nós já estamos voltando aos poucos, gota a gota, expediente após expediente. Cada gotícula de suor é um telegrama químico enviado à terra dizendo: “Guarde um lugarzinho pra mim, chego definitivo mais tarde”. 

Os microrganismos, esses burocratas invisíveis, recebem a mensagem e começam o protocolo: transformam ureia em amônio, amônio em nitrato, nitrato em vida vegetal. Enquanto isso, o homem, orgulhoso de sua individualidade, nem desconfia de que já está sendo reciclado em parcelas. 

Há quem ache deprimente essa ideia de dissolução universal. Eu acho prática. É o único sistema realmente igualitário já criado: todos acabam reduzidos à mesma unidade de medida — pó padrão internacional. 

No fundo, a existência humana talvez seja apenas um estágio transitório da geologia. O planeta testa a matéria em forma de gente, observa o desempenho e depois recolhe o material para novo uso. Um dia você é cidadão; no outro, é micronutriente. 

Moral provisória: o homem não trabalha para viver — trabalha para mineralizar-se com dignidade. 

E assim seguimos, bíblicos e bioquímicos, caminhando solenemente para o destino final, que não é o céu nem o inferno, mas algo muito mais democrático: o solo. 

E o solo, convenhamos, nunca reclamou de ninguém.