ENTRE O PRANTO
E O ABRAÇO
Valdester Cavalcante Pinto Junior*
A vida – eis o derradeiro hábito que devemos perder, porque é o primeiro que adquirimos. (ALEXANDRE DUMAS FILHO. Paris, 27.07.1824: Marly-le-Roi, , 27.11.1895).
Dois acontecimentos, separados por poucos metros e um intervalo de minutos, enlaçaram-se de tal modo que se confundiram dentro de mim. Um conduzia ao limite da perda; o outro, ao alívio da vida restituída. Entre ambos, descobri, mais uma vez, o verdadeiro peso da medicina.
Fui chamado às pressas para assistir uma menina submetida a uma cirurgia naquela mesma manhã. Pouco depois do procedimento, ela sofrera parada cardiorrespiratória prolongada, de uns vinte e cinco minutos. Sua circulação mantinha-se apenas por elevadas doses de drogas vasoativas. A conclusão era inevitável: sem a implantação imediata de um sistema de suporte circulatório mecânico, morreria em poucas horas.
Seu pai foi informado da gravidade do quadro e, ao chegar ao leito da filha, encontrou-nos tentando oferecer à ciência mais uma oportunidade de vencer o tempo. Aproximou-se da menina, tomou-lhe a mão e, entre lágrimas, suplicava para que ela permanecesse viva.
Enquanto o
observava, uma pergunta surgiu em silêncio.
Que vida é esta, a minha, que tantas vezes me impõe o dever de lutar quando tudo parece anunciar o desfecho? Mais difícil, porém, do que enfrentar a doença é permanecer diante daquele que vê partir o próprio filho sem condição de fazer absolutamente nada. Existem dores perante as quais o conhecimento se cala. Nesses instantes, a medicina já não basta.
Expliquei-lhe a terapêutica que iniciaríamos imediatamente. Não lhe ofereci promessas, somente a possibilidade. Depois, retirei-me, discretamente. Pareceu-me que aquele era um instante a pertencer somente aos dois.
Sentei-me do lado de fora, enquanto a equipe preparava o circuito de suporte circulatório. Pela porta entreaberta, via aquele pai acariciar os cabelos da pequena, segurar-lhe a mão e falar-lhe ao ouvido. Não conseguia ouvir suas palavras. Tampouco era necessário.
Ali permaneciam
apenas um pai e sua filha.
Em mim conviviam a tristeza daquela cena, o cansaço acumulado de semanas sem verdadeiro descanso e um sono insistente que tornava os movimentos lentos. Levantei-me e caminhei pelos corredores da unidade de terapia intensiva, tentando afastar a exaustão.
Eis que, de inopino,
fui chamado pelos pais de outra criança.
Ela havia sido operada uma semana antes. Também perpassara dias de extrema instabilidade, durante os quais a foice parecera rondar seu leito, com insistência. Naquela ocasião, entretanto, encontrava-se estável. O ambiente ao redor era outro. Havia serenidade onde, dias antes, existira meramente apreensão.
A diferença entre aqueles dois quartos era quase insuportável.
Em um deles, um pai velava a filha sem saber se voltaria a ouvir sua voz. No outro, outro genitor preparava-se para levá-la para casa.
Ao me aproximar, ele sorriu. Havia nos seus olhos uma leveza que reconheci de imediato: era o alívio de quem voltava a respirar depois de alguns dias vivendo suspenso entre a esperança e o temor.
Então, aproximou-se de mim e perguntou, com simplicidade, se poderia me dar um abraço.
Nunca me esquecerei daquele instante.
Não havia solenidade. Tampouco discurso. Meramente um homem envolvendo outro nos braços.
Durante alguns segundos, tive a impressão de que alguém dividia comigo um peso que, até então, eu acreditava carregar sozinho. O cansaço pareceu diminuir. O sono desapareceu. O corredor continuava o mesmo, as responsabilidades eram semelhantes, a menina permanecia lutando pela vida no quarto ao lado. Nada havia mudado. E, no entanto, tudo era diferente.
Na medicina, convivemos diariamente com perdas, limitações e incertezas. As histórias interrompidas costumam permanecer conosco por muito mais tempo do que aquelas que terminam bem. Talvez por isso, às vezes, nos esqueçamos de quantas vidas conseguimos devolver às suas famílias!
Naquele dia, Deus permitiu que eu transitasse por dois quartos para que não me esquecesse do sentido da minha vocação.
Saí de um deles
conduzindo o pranto de um pai.
No outro, recebi um abraço.





