A Bucha,
ou o
segredo que
envelheceu nas Arcadas
Luiz Rego Filho*
Não sei se o leitor
já reparou que os túmulos, quando postos no lugar errado, falam mais que os
vivos. Um morto no cemitério é apenas um morto; mas um morto no pátio de uma
Faculdade de Direito é já uma tese, uma suspeita, uma jurisprudência.
Assim sucede
com Júlio Frank, professor alemão, protestante erudito, sepultado no pátio menor
das Arcadas, em São Paulo, onde ainda hoje o mármore parece assistir às aulas, às
promoções, às nomeações e às esperanças dos rapazes que ali entram com livros debaixo
do braço e saem, não raro, com o Estado debaixo da capa.
A Faculdade de Direito
da USP registra que Frank, nascido em Gotha, em 1808, foi professor do Curso Anexo,
contratou-se em 1834, tornou-se figura lendária entre os estudantes e fundou, com
alguns deles, uma sociedade secreta de auxílio estudantil e difusão de ideias liberais,
conhecida como Bucha (FACULDADE DE DIREITO DA USP, [s.d.]).
Chamava-se, no
alemão universitário, Burschenschaft, isto é, sociedade de jovens, irmandade
estudantil, confraria de rapazes. Como tudo que vem de longe se aclimata mal e
bem nos trópicos, a palavra comprida encolheu, perdeu consoantes, ganhou malícia
brasileira e ficou “Bucha”.
Gustavo Barroso grafa “Burschenchaft” e diz que os estudantes
e o povo a chamavam simplesmente assim: Bucha. Acrescenta, com a pena carregada
de suspeita, que ela teria sido “dona da província paulista” e “senhora dos
destinos do Brasil” (BARROSO, 1993a).
Aqui convém abrir a
janela, leitor. Entra ar, mas entra também dúvida. Barroso escreveu a
sua História Secreta do Brasil como quem levanta o tapete da sala e encontra,
não pó, mas serpentes. Viu maçonarias, iluminismos, carbonários, judeus, positivistas,
bucheiros, todos atados num mesmo novelo.
A obra tem documentação, tem memória,
tem rumores; tem também preconceitos violentos e interpretações que a história
posterior não pode aceitar como sentença. Sirva-nos, pois, Barroso, como fonte de
acusação, não como cartório da verdade absoluta.
E que acusação fazia
ele? Primeira: que a Bucha não era mera sociedade de socorro a estudantes
pobres. O auxílio existia, sim; era o rosto caridoso. Mas, por trás dele, segundo
Barroso, havia recrutamento, juramento, disciplina, silêncio, promoção de membros,
obstrução dos independentes e uma política subterrânea capaz de fazer carreiras.
No volume 2, ao tratar da “semente do bacharelado”, ele afirma que certos moços
menos estudiosos e menos capazes figuravam mais do que outros de valor real, por
pertencerem ao círculo oculto, e que a Justiça brasileira teria sido desviada
dos interesses superiores da própria Justiça para os interesses de um poder
secreto (BARROSO, 1991).
Segunda acusação:
que o fundador, Júlio Frank, não seria Júlio Frank. Seria, segundo Barroso,
Karl Ludwig Sand, o estudante alemão que assassinou August von Kotzebue em
1819. Barroso ajunta idades, viagens, silêncios, fugas, rumores de antigos
bucheiros, manuscritos de campanha contra Napoleão, e daí conclui que Frank
teria chegado ao Brasil com identidade encoberta (BARROSO, 1993a).
Mas a
historiografia mais segura corrige o romancista da suspeita: documentos
alemães, como registro de batismo em Gotha, e carta à Universidade de Göttingen,
apontam para Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, nascido em 1808, o que torna
muito frágil a identificação com Sand, oficialmente executado em 1820
(CARVALHO, 2007).
A terceira acusação
é ainda mais grave: a Bucha, nascida na mocidade, teria envelhecido no poder. O
mini-documento anexado descreve a sociedade como uma cadeia de privilégios, com
hierarquia de catecúmenos, crentes, apóstolos e, acima ou atrás deles, os
invisíveis – ex-alunos já postos nas magistraturas, nos governos, nos bancos,
nos escritórios, nas presidências, nos conselhos e nos salões onde a República toma
café sem ata (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]).
Dizia-se que o lema latino era Fiducia, Libertas, Amicitia: confiança, liberdade e amizade. Bonitas
palavras, dessas que cabem em vitral, brasão ou discurso de paraninfo. Mas a crônica,
que é prima magra da história, sabe que as palavras bonitas às vezes usam luvas.
A amizade, ali, cobraria silêncio; a liberdade, obediência; a confiança, reciprocidade
de cargos. Se o irmão estivesse em apuros, defendia-se o irmão; se precisasse
de cargo, abria-se a porta; se traísse a ordem, vinha o ostracismo, isto é, a morte
civil sem atestado de óbito (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]).
Vede agora como uma
sociedade estudantil pode tornar-se uma repartição invisível do destino.
Entrava o moço, não por inscrição, mas por escolha. Era observado. Media-se-lhe
a ambição, a discrição, a docilidade, o talento e, sobretudo, a utilidade
futura. Passado o primeiro crivo, vinha o padrinho, o juramento, a incorporação
ao corpo secreto. O rapaz cuidava que entrara numa fraternidade; talvez tivesse
ingressado numa carreira paralela. O que para o pobre era auxílio, para o
ambicioso era passaporte, e para o Estado, perigo.
Não admira, pois,
que a Bucha apareça sempre à beira das coisas grandes. O artigo do Sesc-SP
lembra que a organização teve papel relevante na formação da elite dirigente, que
membros seus estiveram na Convenção Republicana de Itu, que nomes como Campos
Salles, Francisco Glicério, Américo de Campos e Rangel Pestana aparecem associados
ao republicanismo paulista, e que, no Governo Provisório da República, Ruy Barbosa,
Campos Salles e Quintino Bocaiúva são apontados como bucheiros (CARVALHO,
2007).
O mesmo levantamento inclui, entre presidentes ligados à tradição
bucheira, Prudente de Moraes, Campos Salles, Rodrigues Alves, Washington Luís,
Júlio Prestes, Afonso Pena, Wenceslau Braz e Arthur Bernardes (CARVALHO, 2007).
O leitor dirá: “Mas
então a República Velha foi uma assembleia da Bucha?” Não sejamos tão
apressados. A história não gosta de cadeados únicos para portas múltiplas. A
economia do café, o federalismo oligárquico, a política dos governadores, o coronelismo,
a fragilidade eleitoral, os pactos regionais, tudo isso existiu. Mas a Bucha, segundo
os textos examinados, teria sido um mecanismo de seleção e reprodução de quadros,
uma máquina discreta de promoção de bacharéis, uma espécie de filtro das Arcadas
pelo qual passavam os nomes destinados a sentar-se nos tribunais, ministérios, governos
e redações.
Barroso, no volume
4, vai além. Afirma que as gerações educadas pela Bucha, fundada por Júlio
Frank no início da Regência ou no fim do Primeiro Reinado, chegaram afinal ao
poder, e associa a ela, com linguagem apocalíptica, a queda do Império, a
corrupção republicana, quarteladas, pronunciamentos, 1924, 1930, 1932 e 1935
(BARROSO, 1993b). Aqui, outra vez, convém separar o fato da febre. Que as
Arcadas formaram grande parte da elite republicana é fato; que todos os males
nacionais caibam numa só gaveta secreta é excesso de polemista.
O mini-documento
prossegue com a hipótese moderna: a Bucha teria enfraquecido depois de 1930,
quando Getúlio Vargas golpeou o coração das oligarquias paulistas; mas, em vez
de morrer, teria transmutado-se. Deixaria os porões, as velas, as senhas em alemão,
e passaria aos jantares fechados, associações de antigos alunos, conselhos, escritórios,
clubes, grupos discretos, indicações profissionais e esse brasileiríssimo sacramento
chamado QI – quem indica (BURSCHENSCHAFT PAULISTA, [s.d.]).
É um diagnóstico
plausível, desde que não se venda como prova o que ainda é interpretação. A
Bucha formal pode ter desaparecido; o bucheirismo social, isto é, a cultura de
pertencimento fechado, proteção mútua e promoção endógena, pode sobreviver
muito bem sem ata, sem capuz, sem caveira e sem juramento. Aliás, o segredo
moderno é mais eficaz quando deixa de parecer segredo. Ninguém precisa esconder
uma chave quando todos chamam a fechadura de tradição.
O Sesc-SP registra
que, em 1930, a Bucha sai da cena política e, no ano seguinte, surge a
Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, voltada à preservação
das tradições acadêmicas; também registra a incerteza sobre a continuidade da
Bucha depois disso (CARVALHO, 2007).
Portanto, o diagnóstico honesto é este: não
há prova suficiente, nos textos examinados, de que exista hoje uma sociedade secreta
formal chamada Bucha operando como ordem organizada; há, sim, fortes indícios
históricos e sociológicos de permanência de redes de elite, fechadas, seletivas
e influentes, derivadas da tradição das Arcadas.
E o prognóstico? O
prognóstico é machadiano, isto é, desconfiado. Enquanto o Brasil confundir
mérito com sobrenome, concurso com padrinho, currículo com pertencimento,
independência com isolamento e instituição com clube, a Bucha continuará
existindo, ainda que morta. Existirá como fantasma administrativo, como etiqueta
de salão, como telefonema oportuno, como convite para jantar, como vaga que já
tinha dono antes do edital, como parecer que nasce pronto, como amizade que
abre a porta antes que o candidato bata.
O mal que fez – ou
que simboliza ter feito – pode ser contado em oito pecados republicanos.
Primeiro, corrompeu a ideia de mérito, porque substituiu capacidade por filiação.
Segundo, desigualou as oportunidades, pois o estudante livre competia com o estudante
apadrinhado. Terceiro, capturou carreiras públicas, especialmente as jurídicas,
onde a aparência de neutralidade é tão necessária quanto a toga. Quarto, misturou
interesse público e lealdade privada. Quinto, alimentou oligarquias, dando verniz
acadêmico à política de grupos. Sexto, produziu silêncio, que é a forma educada
da cumplicidade. Sétimo, enfraqueceu a confiança social, pois o povo passa a suspeitar
que a Justiça, a política e a universidade obedecem a salas onde ele nunca entrará.
Oitavo, ensinou ao Brasil uma pedagogia amarga: a de que o mundo não é movido
apenas pelo esforço, mas pelo pertencimento.
Eis, leitor, a
Bucha: não a esponja da cozinha, mas a que enxuga nomes; não a bucha do canhão,
mas a que prepara disparos silenciosos; não a bucha vegetal, mas uma trepadeira
social, nascida à sombra de um túmulo e crescida nas paredes do Estado. Foi sociedade?
Foi. Foi filantrópica? Também. Foi liberal? Disse sê-lo. Foi rede de privilégios?
Muitos indícios apontam que sim. Ainda existe? Como ordem formal, não se prova;
como espírito de casta, seria ingenuidade enterrá-la.

E quanto a Júlio
Frank, deixemo-lo no pátio menor, com sua pedra e seu mistério. A História
oficial lhe dá Gotha, 1808, magistério, pobreza, protestantismo, túmulo
insólito e juventude fascinada (FACULDADE DE DIREITO DA USP, [s.d.]; CAMPOS
NETO, 2003).
Barroso lhe dá Sand, crime, fuga, máscara e sombra (BARROSO,
1993a). Entre uma e outra versão, a prudência recomenda ficar com os
documentos, sem perder de vista o fascínio do mito. Porque, no Brasil, meu caro
leitor, há mortos que descansam; e há mortos que fazem carreira.
Referências
BARROSO, Gustavo.
História Secreta do Brasil. v. 2. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora,
1991.
BARROSO, Gustavo.
História Secreta do Brasil. v. 3. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora,
1993.
BARROSO, Gustavo.
História Secreta do Brasil. v. 4. 1. reedição. Porto Alegre: Revisão Editora,
1993.
BURSCHENSCHAFT
PAULISTA: a sociedade secreta que moldou o Brasil: mini-doc. [S.l.: s.n.],
[s.d.]. Documento digital fornecido pelo usuário.
CAMPOS NETO, Antonio
Augusto Machado de. Júlio Frank’s Memory. Revista da Faculdade de Direito,
Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 98, p. 713-724, 2003. Disponível em: https://revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67613.
Acesso em: 24 maio 2026.
CARVALHO, Herbert. A
herança liberal de Júlio Frank. Revista Problemas Brasileiros, Sesc-SP, 27 jun.
2007. Disponível em:
https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/4330_A%2BHERANCA%2BLIB
ERAL%2BDE%2BJULIO%2BFRANK. Acesso em: 24 maio 2026.
FACULDADE DE DIREITO
DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Elementos agregados à arquitetura. São Paulo:
FDUSP, [s.d.]. Disponível em: https://direito.usp.br/patrimonio-historico/1456ea1f9571-elementos-agregados-a-arquitetura.
Acesso em: 24 maio 2026.
(Imagens da Wikipedia)