sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CRÔNICA - A Prenda Proletária (AM)


A PRENDA PROLETÁRIA
Assis Martins*

Os presentes quebram pedras. (MIGUEL DE CERVANTES).


Até antes de novembro de 1960 (ano de inauguração da TV Ceará - canal 2), Fortaleza, cidade acanhada de uns 500 mil habitantes, era bastante carente no setor das diversões. A sacada maior era o cinema, principalmente aos domingos, com grande frequência nos cines Majestic, Diogo, Rex, Centro, Moderno e em alguns do subúrbio, como o Nazaré, em Otávio Bonfim, o Cine América (atrás do Colégio Juvenal de Carvalho) e o cinema do Joaquim Távora.

Como opção, havia muitos palcos nos bairros – Teatro Cristo-Rei, Ginásio Santa Maria, no Benfica (onde hoje fica o Museu de Arte-UFC), Coração de Jesus, São Vicente, em Parangaba, e outros, onde ajuntamentos de amadores encenavam peças teatrais.

E foi nesses palcos onde fui, durante muito tempo, o ponto (1) oficial nas peças do Conjunto Teatral Cearense, convivendo com alguns tipos engraçados, cujas presepadas aprecio relembrar. Muitos já fazem parte do folclore teatral do Estado, e penso em enfeixar e publicar essas historinhas, para que não se percam, porque as publicações atinentes só remetem às figuras importantes.

Alguns grupos ainda hoje são lembrados: CTC - Conjunto Teatral Cearense, de J. Cabral, TAF – Teatro de Amadores de Fortaleza, o Teatro dos Gráficos e alguns menores, mas todos atuantes. Muitos talentos saíram dessas troupes e fizeram nome nacional.

Nos anos seguintes, era muito usado o palco do Círculo Operário dos Navegantes, perto da igreja homônima, em Jacarecanga. Foi ali mesmo que o Didi e o Edson aprontaram uma situação engraçada, complicada na ocasião, mas lembrada sempre com muitas risadas. Os dois, companheiros antigos de drama e de farras contumazes, ajudavam semanalmente nas apresentações do nosso conjunto. Edson cuidava com a maior competência dos adereços e materiais em geral (era muito bom contrarregra), ao passo que o Didi era o mestre das instalações elétricas, da colocação dos rompimentos (2) e gambiarras, bem como da organização geral dos bastidores, invisíveis para o público, porém imprescindíveis para um bom espetáculo.

Didi era muito tímido, no entanto, melhorava o desempenho ao tomar algumas, enquanto o Edson era mais desenvolto quando havia garotas, principalmente domésticas, que acompanhavam os filhos dos patrões.

Aconteceu naquele sábado, em que o Chico Duque, velho chapa da dupla, fez um convite para um bingo movido a mel, lá pras bandas do Tirol.  Como tinham muitas amizades na área, pois atuavam da praia da Escola de Aprendizes Marinheiros à Barra do Ceará, com amplo conhecimento de todos os botecos, passaram a manhã na praia do Pirambu até a hora do tal víspora, cujo prêmio principal era um peru!

O Didi levou sorte e ganhou o disputado troféu. Detalhe: o peru era vivo! E, lá se foram, melados como cordão de amarrar pato, rebocando o peru até o Círculo Operário dos Navegantes, onde uma peça dramática ia ser encenada; e não poderiam faltar!Com sorte, ainda chegaram antes do início. Quase houve um desentendimento mais sério com o diretor, e, após muito diálogo, fizeram um acordo satisfatório. A paz reinou no seio de Abraão e o peru ficou amarrado numa ripa atrás do cenário, inquieto, enquanto o dramalhão se desenrolava em longos cinco atos, com muitas lágrimas e irritantes glu-glus. 



(1)No jargão teatral, ponto era o auxiliar de cena que, oculto do público, sentado atrás de uma redoma situada no palco, de posse dos textos que deveriam ser sabidos de cor pelos atores, lhes recordava os diálogos, quando eles falhavam. Com a evolução da tecnologia empregada nas artes teatrais, essa figura já não existe. 

(2) Usado no léxico do teatro, rompimento é (era?) uma peça de cenário composta de dois bastidores ligados por uma bambolina, podendo haver palcos com três ou quatro conjuntos dessas peças. Bambolinas, na linguagem dramática, são ripas de madeira, faixas de tecido ou papel, apostas no vão superior do palco com a serventia de pendurar telões ou para completar o espaço da cena, também podendo ser utilizadas como recurso cenográfico, a fim de simular folhagem, céu etc.


(Ilustração de Audifax Rios.)



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