A
ORIGEM DO NOME
"CABEÇA
CHATA"
PARA
IDENTIFICAR CEARENSE
Wilson
Ibiapina*
Segundo Leonardo Mota, folclorista,
jornalista, advogado e escritor, foram os piauienses e maranhenses que nos
batizaram de cabeças-chatas durante a guerra pela independência, que é por onde
vou começar essa história. Dia 13 de março a batalha do Jenipapo completou 194 anos.
Poucos sabem dessa briga, que foi decisiva para a independência do Brasil. Ela ocorreu às margens do riacho Jenipapo, no Piauí. Piauienses, maranhenses e cearenses enfrentaram as tropas do major João José da Cunha Fidié, comandante das tropas portuguesas encarregadas de manter o norte da ex-colônia fiel ao Reino de Portugal.
Dom João VI, de volta a Portugal, reconheceu que a independência do Brasil era difícil de conter-se. Aí achou de preservar o norte, reunindo Pará, Maranhão e Piauí como colônia portuguesa. Enviou então para Oeiras, capital do Piauí, o major Fidié.
Os brasileiros, sem armas de guerra e sem
experiência, perderam a batalha, mas ajudaram a mudar o destino da tropa
portuguesa, que foi aquartelar-se em Caxias, no Maranhão. Lá, piauienses e
cearenses fizeram um cerco, obrigando o major Fidié a se render, preservando a
unidade nacional.
Para que a independência se fizesse em terras
piauienses foi preciso a ajuda dos cearenses. Eram homens simples, vaqueiros e
roceiros humildes praticamente com a coragem e a cara. Receberam uns bonés,
achatados, grandes que, segundo Leonardo Mota (o Leota) deram origem ao apelido
de “cabeças-chatas”, alcunha que nunca mais nos largou. Há quem diga que temos
a cabeça chata porque dormimos em rede.
Leota lembra que em São Paulo acham que o
achatamento de nossas cabeças vem do fato de, desde criancinha, nossas mães
darem pancadinhas na nossa cabeça, estimulando-nos: “Cresça, meu filho; cresça
para ir ganhar dinheiro em São Paulo”...
Leonardo Mota dizia que temos um consolo: o
mal é de muitos. “Na Europa, os alsacianos são os cabeças-quadradas (têtes carrées) e os naturais de Calais
são os cabeças-de-areia (têtes sableuses).
Essa história está no livro Cabeças-Chatas, de
Leonardo Mota, editado pela Casa do Ceará em Brasília, em que ele traça o
perfil de alguns cabeças-chatas como Paula Nei, Capistrano de Abreu, Quintino
Cunha e o jangadeiro Francisco José Nascimento, o Dragão do Mar, um dos líderes
da abolição dos escravos no Ceará, que se antecipou ao Brasil em mais de quatro
anos.
COMENTÁRIO:
Um fato que o nosso Leota suprime, ao
especular sobre a nossa legendária bracocefalia (do qual ele certamente sabia),
é que os índios encontrados nas praias cearenses eram chamados de “cambebas”,
do tupi, “cabaças chatas”. Canga=cabeça; peba=chata.
Outrossim, creio que não prospera essa lenda de que o
apelido se devesse ao formato das boinas, mas certamente à dificuldade de
encaixá-las nas cabeçorras alencarinas. Não faz sentido que a cobertura do tal
fardamento fosse exclusivamente para os cearenses, se a tropa improvisada era multiestadual.
Contudo, para mim, a característica dos
autóctones não explica totalmente o formato predominante dos crânios cearenses,
porque não me consta que grandes personalidades locais de todos os tempos, de
rostos largos e pescoços curtos, tivessem ascendência indígena.
O conúbio do guerreiro branco com a bugra dos
lábios de mel nunca saiu da ficção romântica. A miscigenação não marcou as nossas
primeiras famílias – salvo nas camadas mais humildes da população.
Reginaldo Vasconcelos
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