domingo, 20 de novembro de 2016

ARTIGO - Seguir ou Continuar (LM)


SEGUIR OU CONTINUAR?
Luciano Maia*


A nossa língua, como qualquer outro idioma, é um organismo vivo, naturalmente sujeito às transformações de caráter endógeno e exógeno, como tudo, aliás, no Universo. Por outro lado, existem as desnecessárias intervenções novidadeiras e o desrespeito, fruto da ignorância, à nossa língua. Ignorância que vem, quase sempre, travestida de erudição.

Assistimos hoje no Brasil a uma verdadeira onda de ligeirices no uso da nossa língua, com agressivos ataques ao nosso vernáculo. “Com os últimos resultados, a equipe segue líder”. Não é necessário ser estudioso da nossa língua para perceber nesta frase uma desnecessária afetação. Ou nesta: A vítima segue hospitalizada”. Nos dois casos, o verbo a ser empregado, de forma natural, sem frescura, é o verbo continuar.



Nos últimos anos, a imprensa no Brasil parece disposta a sepultar o verbo continuar,de uso tão frequente e útil no nosso vernáculo, em todas as circunstâncias. Na nossa língua, o verbo seguir está mais afeito à ideia de movimento (real ou abstrato): seguir andando, seguir uma ideia, seguir um caminho e assim por diante. Em resumo, o verbo seguir não se presta, de forma adequada, a substituir o verbo continuar, que não exige necessariamente movimento: continuar dormindo, continuar ouvindo o discurso etc.

Outra afetação hoje muito ouvida nos telejornais são as saudações “ótima-tarde”, “ótima-noite”, e assim por diante, quando o normal, o natural, seria o nosso “boa-tarde”, o nosso “boa-noite”. Não vemos ninguém na rua, ou em qualquer lugar, dizer “ele segue aposentado” ou “ótima-noite, José”. A naturalidade faz falta...

Também na crônica esportiva ouvimos tolices como esta: “Ele é um visionário”, pretendendo dizer que alguém previu uma situação ocorrida depois, como o resultado de uma partida. Vidente, alguém com visão premonitória, seria a palavra para isso. Visionário é outra coisa. Um visionário é alguém que sonha em realizar mudanças revolucionárias, acredita num futuro grandioso, geralmente utópico.

E os políticos? Estão a proferir besteiras, eles também: “O deputado pensa de forma errática”. Errático é vagamundo, nômade, errante. Não errôneo, como pretende a frase acima. Parece que a onda, impingida pela ignorância, não vai pegar.  Não nos obrigamos a seguir essas bobagens. Continuaremos a falar a nossa língua de forma natural. Na verdade, não consigo atinar sobre o que desejam os novidadeiros da fala.


Publicado no O Povo em 25/10/2016



COMENTÁRIO:

Particularmente, creio eu que cada empresa de comunicação deveria ter um departamento de linguagem, composto por expertos em gramática portuguesa, para que se evitassem tantas aberrações na redação e na elocução de seus repórteres.

Também seria útil que a Academia Brasileira de Letras tivesse uma participação ativa na proteção da língua pátria, emitindo recomendações pontuais às entidades nacionais sobre a maneira correta de aplicar o idioma, a cada vez que os acadêmicos constatassem erro em algum órgão da imprensa e em documentação oficial de específico órgão público – além de editar e divulgar regularmente bulas sobre as formas idiomáticas recomendadas, corrigindo as erronias mais comumente observadas.

Há vícios de linguagem intoleráveis que são adotados por repórteres de TV de todo o País, como a repetição da palavra “aí” no meio das frases, sem a menor necessidade, como no seguinte exemplo: “O tenente baleado estava aí há 15 anos na corporação, e deixa aí mulher e três filhos”.

Também se observa a inexplicável abolição da preposição “a”, na acepção de dar “direção no tempo, no espaço ou de limite nocional”, na dicção do Dicionário Houaiss. Então, diz o repórter que “daqui um mês…”, quando deveria dizer “daqui a um mês” – “daqui dez dias”, "daqui  vinte quilômetros”.  

Já entre os entrevistados a praga do momento é a aplicação de uma “muleta verbal” que nada acrescenta ao conteúdo nem à clareza da mensagem: a palavra “assim”, que se desdobra em “aí… assim…”, “então assim…”. Esse cacoete evoluiu da expressão “tipo assim”, agora desmembrada em “tipo”, e “assim”, ambos de descabida e aleatória aplicação.

Mas, especialmente entre os políticos, em vez da supressão da preposição “a”, a febre é a viciosa adição da preposição “de”, em todas as brechas que encontram em sua fala. Então, temos: “Nós entendemos de que o mais recomendável seria…”; “Quero registrar de que o nosso partido não concorda…”; “A gente acredita de que…”; “Levando em conta de que”.

Porém, nada é mais estranho que a tentativa de concordância verbal com os pronomes demonstrativos, conforme exemplos abaixo, uso canhestro que parece ter saído das elevadas fórmulas gramaticais abonadas pelo último grupo político que esteve no poder: “Sou um daqueles que defende…”; “Estou entre os que pensa…”.

A lógica mais primária indica que “aqueles defendem”, e que se o falante se diz entre alguns, todos eles “pensam”.  Contra fatos não há argumentos. Mesmo quando quem argumenta com o absurdo é o incensado e já falecido gramático mineiro Celso Cunha.

Agora, quando o Presidente da República aplica uma corretíssima mesóclise – conserta-lo-ei” – demonstrando que conhece e respeita a língua vernácula, toda a mídia faz deboche. O Brasil é mesmo uma grande piada.

Reginaldo Vasconcelos     



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