quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

LÍNGUA DE CAMÕES


                             
OS MIL PECADOS QUE SE COMETEM CONTRA A LÍNGUA
Por Márcia Siqueira*

A nível de Brasil, o texto acadêmico anda um horror. Quem escreve, enquanto professor ou pesquisador universitário, não está sabendo colocar as questões segundo as boas regras do Português. Ao invés de trabalhar em cima do significado preciso das palavras, adota um neologismo. As incorreções perpassam todo o texto e, nas mal traçadas linhas, o resultado desvela que o autor não é tão erudito quanto quer fazer parecer.

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Teste de atenção: encontre nas linhas acima pelo menos sete modismos que invadiram a escrita acadêmica nos últimos tempos.

Se o parágrafo passasse pela crítica do jornalista Vianney Mesquita, certamente seria reprovado. Professor [...] da Universidade Federal do Ceará, Mesquita trabalha há 20 anos na revisão de teses e trabalhos acadêmicos e se diz alarmado com a qualidade dos textos que lê.

Segundo ele, manias, chavões e toda sorte de impropriedades estão agredindo a norma culta da língua. E ainda podem dificultar as traduções, essenciais para a difusão da Ciência.

Na avaliação do Professor, não é só na literatura que os autores podem exercer o próprio estilo. [...]  o texto científico também permite que se escreva de modo particular e elegante – ensina. Isso significa respeitar cinco princípios básicos: correção, clareza, precisão, simplicidade e precisão. É justamente aí que começam os problemas. Em boa parte dos textos científicos, o pensamento dá voltas, sem comunicar. Palavras difíceis – e mal empregadas – dificultam ainda mais o trabalho do leitor.

CREDO !

Muitos autores simulam preciosismo na escrita para fingir uma erudição que não possuem – acusa Vianney Mesquita.

O resultado é nefasto para a Língua Portuguesa. Segundo o Professor, parte da responsabilidade por esses deslizes cabe aos tradutores que, na lei do menor esforço, preferem inventar palavras que acabam repetidas por docentes e alunos. Toda a universidade é afetada pela "doença”, mas os sintomas aparecem mais em áreas como Ciências Sociais e Educação.

Neologismos sem função, estrangeirismos, lógicas invertidas, frases feitas e  as chamadas “muletas” do discurso são as falhas mais encontradas por Vianney Mesquita.

Em parceria com o Prof. Dr. José Anchieta Esmeraldo Barreto, ex-reitor da U.F.C., ele lançou o livro A Escrita Acadêmica – acertos e desacertos, nas livrarias a partir do dia 15.

Além das dicas para a correção do texto acadêmico, o material é uma coletânea divertida das bobagens que os dois já corrigiram. São erros grosseiros, como o de um estudante de mestrado que confessou, na abertura da sua dissertação, ter entrado no assunto “como Judas entrou no Credo”. Na verdade, foi Pilatos, lembra Mesquita, lavando as mãos.


DESCULPE O VEXAME

Confira algumas recomendações para melhorar seu texto:

Mostre seu trabalho a um colega e aceite sugestões para melhorá-lo. Lembre-se: a vaidade é inimiga da clareza.

Confira se o texto transmite seu pensamento de modo correto e preciso. Evite exageros.

Tenha sempre à mão um bom dicionário. Consulte-o sempre que tiver dúvidas.

Tente ser fiel ao seu estilo. Seja criativo, mas respeite a língua.

Se preciso, recorra a um especialista. Com o tempo e tomando consciência dos próprios erros, será mais fácil livrar-se deles.
 

*Márcia Siqueira
Jornalista e escritora mineira.
(Matéria publicada no Estado de Minas,
Belo Horizonte, citando Vianney Mesquita,
Titular da Cadeira de nº 22 da ACLJ).

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