domingo, 1 de dezembro de 2013

ARTIGO

GRATAS RECORDAÇÕES
Por Vianney Mesquita*

Jamais consigo deslembrar das minhas procedências beiradeiras, nelas inserto seu linguajar específico -- esse idioleto, quase patois, incluso na derradeira flor do Lácio, mencionada no poema decassilábico lusitano, de Olavo Bilac, Língua Portuguesa.

Eis que fui convidado pela Professora Doutora Maria Nobre Damasceno, decerto inadvertidamente, para servir como batista de O Sagrado Chão da Vida, feito escrevinhador do texto de saída.

Aqui ela incursiona pela literatura de teor narrativo, após trazer ao ecúmeno leitor estudioso das Ciências Pedagógicas dos países de código lusitânico diversos trabalhos de eminente vulto científico, na qualidade de bem recepcionada autora, docente-pesquisadora dessa grande área do saber ordenado, apreciada na ambiência acadêmica de todo o Brasil e transposta às raias nacionais.

Bastou a primeira vista d’olhos pela sua composição, em língua-prosa simples e clara e justa e agradável, em torneios bem delineados, para que me fossem clareados os depósitos da minha retenção de fatos recuados, bendita evocação de sucessos cujo repasse me entorna de nostalgia e feliz saudade de quadros da infância, adolescência e nova adultícia, influenciadores da pessoa que hoje experimento ser.

Maria Nobre Damasceno transmuda-se aqui na Maria Montessori do campo, das famílias na ambiência rural, de que coincidentemente sou parte, a fim de descrever, com a exatidão do escritor experimentado, as delícias dessa Mãe-Terra, divisada pelo historiador londrino Arnold Toynbee, as peripécias e brincadeiras pueris, os tipos humanos e suas idiossincrasias, bem assim as dificuldades de vida dos seus pais e de sua família.

Em contrapartida, relata os expedientes penosos e inteligentes como remédios para os óbices econômico-financeiros e problemas de toda sorte que costumam, ainda hoje, envolver os habitantes das glebas pastoris, ora liberais e muníficas na bonança, no entanto ferozes e excessivamente  parcimoniosas nos apuros, como sucede nos tempos de seca e de enchentes.

Malgrado debulhar o enredo da vida em família no interior do Ceará, o fato de individualizar a sua não subtrai a oportunidade de os leitores aí se retratarem. Foi o que sucedeu comigo, porquanto estas constituem ocorrências próprias da esfera rural nordestina, de sua cultura, e arraigadas nos costumes peculiares, fiéis à tradição campesina, onde pouco mudou, a despeito das grandes fulgurações da chamada “Modernidade líquida”, expressão cunhada pelo sociólogo polaco Zigmunt Bauman. Estas coincidem, exempli gratia, com a rede mundial de computadores, as novas formas (legítimas ou não) de composição dos contingentes familiares, os hábitos citadinos e comportamentos supervenientes.

Sob o prisma taxinômico, porque habituada a proceder a classificações consentâneas nos seus copiosos ensaios acadêmicos, a crônica de O Sagrado chão da vida – saga de uma família, se expressa magnificamente coordenado, por exemplo, ferindo o assunto o capítulo O baú da memória, onde,  pro rata tempore, concede vazão à narrativa, ao nomear paulatinamente seus diversos segmentos, de sorte a imprimir ordem racional e ensejadora de perfeita leitura e decodificação apropriada à história, rica em detalhes, porém deseixada de rodeios e sobejos pormenores.

No concernente à forma, a linguagem se exibe simples, entretanto correta, respeitosa às regras da Língua, e (não poderia ser diferente) fiel ao jargão interiorano, harmonizada ao léxico aí falado e escrito, fato denotativo de que se trata de pessoa habílima no ofício de escrever, mesmo inaugurando modalidade diversa daquela de seu trato universitário.

Consoante o leitor mais atilado pode alcançar, tomei tenência em não lhe furtar o hors d’ouvre da narração – refeição principal – ao desta adiantar detalhes, deixando-lhe ao talante o lance de, por si mesmo, revelar a estesia da composição e deleitar-se com os sucessos contados.


Muito me contenta levar meus emboras a essa autora de vulto da literatura pedagógica nacional, agora extraordinariamente entrada nos meandros da crônica histórico-familiar, quando traz para o clarão das nossas letras este escrito, conquanto ligeiro, de substancial recheio temático alusivo à vida na zona rural do Ceará e cuja narração, não obstante o tempo a que se refere, não perdeu, de jeito algum, sua efetividade.
*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).

Nenhum comentário:

Postar um comentário