domingo, 27 de novembro de 2016

CRÔNICA - Morre Fidel (RV)


MORRE FIDEL
UMA BOA CAUSA 
COM UM MAU RESULTADO
Reginaldo Vasconcelos*


A data é imprecisa – final dos anos cinquenta, início dos sessenta – eu menino caminhava com meu pai por uma estrada sertaneja, nas proximidades da fazenda em que assistíramos de perto à miséria de uma seca. Perguntei a ele o que era a tal revolução de que eu ouvia falar pelo rádio e nas conversas dos adultos.

Meu pai me respondeu simplificando, mas, por acaso, sendo muito fiel ao que de fato acontecia: “Um sujeito sai perguntando às pessoas do povo se estão satisfeitas com o Governo, e vai reunindo um grupo de insatisfeitos para enfrentar o Exército e tomar o poder”.

Ele, que nunca foi marxista, e sempre foi muito libertário, passava uma certa simpatia na voz pelo que acontecia então em Cuba. Certamente, fosse um jovem cubano, teria meu pai subido a Sierra Maestra com os revoltosos de Fidel, e teria apoiado a “faxina moral” que justificou o “paredon”.

Mas, seguramente, teria se revoltado contra a implantação da ditadura, e se insurgido contra o alinhamento à Rússia, que Fidel Castro a princípio negava pretender, mas que levou a cabo logo na sequência e assim permaneceu perpetuamente.

Morreu meu pai octogenário em janeiro, morre agora Fidel Castro, que era seis anos mais velho. Aquele seguiu inimigo da corrupção e das injustiças sociais até a morte, porém sempre pela via democrática da direita. Este último partiu de uma causa nobre e em seguida ficou refém da conjuntura mundial, obrigado a manter a ditadura sob pena de ver ruir a revolução e assistir à desgraça de sua causa.

O preço foi o isolamento e a indigência do seu povo, que ele tirou da miséria e da ignorância, lhe garantindo educação, saúde e segurança (calcanhares de aquiles do capitalismo), mas que não pode acompanhar a evolução tecnológica e econômica do Planeta, permanecendo onde parou no Século XX.

Nas exéquias de El Comandante dou vivas aos que foram vítima do regime, aos que foram condenados à pobreza digna, aos que se exilaram, aos que foram exilados, às filhas que o execravam, aos que perderam a liberdade de pensar e de ir e vir, aos que foram justiçados… e as minhas condolências ao irmão Raul, aos que tentaram seguir o exemplo em seus países e fracassaram inteiramente. Aos que em vão investiram toda a sua vida pela causa, que infelizmente tomou caminho errático, mas que continuam apaixonados.



COMENTÁRIOS:

Camarada Reginaldo, parabéns pelo comentário desapaixonado e livre de qualquer patrulhamento ideológico, sobre o que o velho comandante Fidel representou para o seu povo, com suas contradições e bravura, ainda que o modelo político, e os métodos autoritários, aos olhos do mundo e de parte dos seus concidadãos, anulem alguns dos resultados positivos alcançados, como nas áreas de saúde, educação e esporte, reconhecidos até por aqueles que o condenam.

Arnaldo Santos




Sobre Fidel:

Penso que, ao fim e ao cabo, foi um tirano a mais. Conquistas? Todos os países tiveram as suas, até o Brasil...

O preço que os cubanos pagam ainda hoje é altíssimo. Estão muito mal. Um médico ganha 30 dólares por mês.

Um cambista ganha mais, lá. O regime apodreceu há muito. Ele quis aguentar o tranco e deu no que deu: totalitarismo, à moda anos 50... Atraso.

Luciano Maia




Caro Reginaldo.

Parabéns pelo excelente artigo sobre Fidel Castro. Mas de quem são as fotos mostradas no artigo?

Abraços.
Cássio



Estimado Cássio, prezado confrade, as fotos são de meu pai e de Fidel. As primeiras, os dois na década de 50, com o mesmo bigode, que certamente era moda.

Nas duas abaixo são o meu genitor, logo que faleceu na UTI, em janeiro deste ano, e a segunda seria do grande ditador cubano, no leito de morte, segundo vazou na Internet. É a única cuja autenticidade é questionável.

A crônica é um gênero de prosa poética que pressupõe fatos verídicos, embora alguns cronistas fantasiem e ficcionem. Não é o meu caso.

Reginaldo 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

POEMAS - Reencarnações e SoFrida (KK)


REENCARNAÇÕES
Karla Karenina*


Esse silêncio de você me chega como os ventos dos Cliffs no inverno.

Esse silêncio de você é como o salto pra morte nas falésias de Moher.


Esse silêncio de você é o soco do carrasco na barriga da mulher que carrega um filho no ventre.

Esse silêncio de você é como o ardor quente do corte na carne das adagas da Catalunha.

Esse silêncio de você é o frio no estômago da espera da proclamação do julgamento de Salem.

O som da turba ensandecida ao redor das fogueiras que me transformaram em cinzas...


Esse silêncio é o do pó depois do ensurdecedor crepidar do fogo na pele, nos músculos, nos ossos...

O silêncio da esperança na fé, na justiça e no amor.
Esse silêncio de você é a lembrança da morte, do nada, do limbo, do umbral e do inferno de Dante...

Esse silêncio também é o bardo de Dalai e de Roger...
É o self meu e de Jung.


Seu silêncio que revela tudo o que há de mais cruel,  todos os meus medos e fins, também me lembra de que sempre renasço e recomeço toda a saga de amar e ser tragada pelo silêncio.

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SoFrida
Karla Karenina*

Como uma Frida disfarçada em bailarina, me contorço e danço e me invisto da máscara da atriz para esconder as dores.

Vêm da alma minhas dores nos músculos, fibras, ossos, coração. Quero gritar o que a música faz em minha psique às voltas com o inconsciente em plena consciência do amor não correspondido.

Édipos, Electras, Antígonas gemem dentro de mim... Todas as tragédias gregas me contorcendo o corpo. O corpo calejado...

Anestesio-me com substâncias químicas e durmo com a esperança de acordar com o amor ao meu lado. Livre dos ferros atravessando as fantasias que prendem meu corpo ao corpo de Kahlo. Khalo com K. Frida Kahlo. Kalo. Karla com K. Kalo. E dói kalar!




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

NOTA ACADÊMICA - Seminário Direito com Arte


SEMINÁRIO DIREITO COM ARTE
JUSTIÇA FEDERAL PROMOVE CULTURA

  
Os juízes federais Marcos Mairton e Bruno Carrá promoveram, no último dia 18 de novembro, no auditório da Sede da Justiça Federal no Ceará, o seminário denominado Direito com Arte.

Contando com o apoio da Associação dos Juízes Federais do Brasil – AJUFE, e da Associação dos Juízes Federais da 5ª Região – REJUFE, o evento, de cunho artístico cultural, trouxe os temas Direito na Música, Direito na Literatura, Direito no Cinema, Papo Justo e Lançamentos de Livros.


A ACLJ esteve representada entre os palestrantes nas pessoas do Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior e da atriz e poetisa Karla Karenina, acadêmicos titulares, e da Juíza Federal Germana Moraes, Membro Honorário da nossa instituição. 






Na  imagem, o Professor Willis Santiago Guerra Filho, a Juíza Federal e Professora Germana Moraes e o Juiz de Direito e Professor Aluísio Gurgel do Amaral Júnior.

ARTIGO - Francisco de Assis (MCMM)

SÃO FRANCISCO DE ASSIS MAGNIFICAMENTE REVISITADO
Maria Célia Mesquita Molinari*


Confesso que, ao receber o convite para fazer a matéria inaugural deste livro, Francisco de Assis – Alegria e Santidade na Pobreza, de Socorro Lima Mesquita, senti um misto de timidez, insegurança e talvez fraqueza.

Veio-me, então, espontaneamente, a vontade de parafrasear a nossa querida Regina Elisabeth Jaborandy de Mattos Dourado Mesquita, e responder: não posso, não sei, meu estudo é pouco.

Depois, concordei com o autor da Teoria da Relatividade, Albert Einstein, para quem Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende da nossa vontade e perseverança.

Senti, então, que não me podia furtar a essa tarefa, ainda mais ao me reportar a São Francisco de Assis, de quem me confesso apaixonada.
       
Na verdade, todas as vezes que reflito sobre bondade, humildade, piedade e tantas outras virtudes, penso em Francisco, que, na minha maneira de entender as coisas do Alto, foi figura fiel do próprio Cristo.

Enche-me de alegria saber que Socorro Mesquita decidiu escrever um livro sobre a vida de um santo, especialmente numa época de permissividade como a que vivemos, quando valores morais, religião, oração, pureza, respeito a Deus e ao próximo são coisas “ultrapassadas”, que significam agir na contramão dos ensinamentos terrenos.
       
O ser humano parece completamente alheio à sua finitude e se preocupa somente com o que é material e passageiro. A fragilidade da vida terrena semelha que atinge somente os outros.

A santidade de Francisco de Assis, tão bem reconfigurada pela Autora, foi radical, uma graça do Espírito Santo, tendo ele recebido e assumido esse favor divino com todas as forças.

Depois da vida mundana que levara, São Francisco abriu os ouvidos e o coração somente para a voz de Deus, a Palavra, o Cristo e nEste para o irmão, amando-o de coração e tendo assim a dignidade de receber no próprio corpo as chagas de Jesus.

Quem tiver a graça de ter nas mãos este volume deixe-se guiar por esta mercê de Cima e medite com profundidade na obediência de Francisco à Palavra, fruto de suas reflexões do Evangelho.

Esta aquiescência franciscense é cópia da atitude de Maria que, ante o anúncio do anjo de que seria mãe do Salvador, em profunda obediência – fruto de oração e interiorização – se lançou nas mãos de Deus e, sem temer o que lhe pudesse acontecer, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – a célebre expressão escritural Ecce ancilla Domini Fiat mihi secundum verbum tuum, expressa no Evangelho deSão Lucas, capítulo 1, versículo 38.

Ainda se pode louvar na vassalagem de São José Operário, então seu prometido em casamento, que renunciou incontinenti aos seus planos de um consórcio comum, uma família (Jesus, Maria e José), sua oficina de carpinteiro, enfim, um sonho normal de todo jovem.

São José, então, ao ser avisado em sonho, por um anjo de que o Filho gerado em Maria o foi pela ação do Espírito Santo, abandonou tudo e a conduziu para sua casa. Passou, também ele, por todas as vicissitudes experimentadas pela mãe e assumiu essa paternidade com responsabilidade e amor ímpar. E, por último, é salutar a prática de meditar na obediência do próprio Jesus que, mesmo

[...] sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais se tornando obediente até a morte, e morte de cruz.

Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a gloria de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor. (Fl2, 6-11).

Muitas vezes, ao evocar São Francisco, eu imaginava como conseguiria um ser humano alcançar a salvação, por não serem as pessoas capazes de imitá-lo em suas virtudes. A certeza da misericórdia do Pai, entretanto, que ama infinitamente a todos os seus filhos e distribui a cada um os seus dons, nos faz ter esperanças e confiar na Sua imensa bondade conhecedora de nossas fraquezas e limites.

Erramos, vacilamos, mas, se abrirmos o coração, tenhamos a certeza de que Deus jamais nos abandona, [...] “nunca se cansa de perdoar-nos; nós é que cansamos de pedir perdão”, como diz o Papa Francisco, verdadeiro arauto do Evangelho de Cristo.

É oportuno expressar o argumento de que o nome deste novo Príncipe de Roma para designar o Pastor do Cristianismo, o qual segue os passos de São Francisco, foi escolhido pelo próprio Espírito Santo e, mais do que nunca, podemos sentir viva essa presença, convidando à conversão, suscitando  evangelizadores sacerdotes e leigos a ajudar esse Embaixador da Santíssima Trindade a conduzir o rebanho para “verdes prados e fontes de águas puras”, a fim de lhe restaurar as forças ( Sl 22, 2-3).

Percebe-se claramente no mundo uma verdadeira batalha entre o bem e o mal: guerras, violência, crimes, sexualidade exacerbada, filhos trazidos ao mundo de maneira irresponsável, êxodo de populações em busca de paz em países estranhos de língua e cultura diferentes. Não que isto seja uma novidade, pois é mesmo uma situação que se repete ao longo dos séculos.

É notório, porém, o fato de que, ao lado de tudo isto, há também um como que “aquecimento” espiritual.  Veem-se pessoas desejosas de aprender e viver a Palavra de Deus, uma expressiva quantidade de jovens que procuram a Palavra (Jornada Mundial da Juventude), muitas pessoas que ingressam em programas de voluntariado para ajudar o próximo,  e um grande número de santos contemporâneos elevados à honra dos altares.

Temos a alegria de contar entre os santos um João XXIII, João Paulo II, Tereza de Calcutá, Faustina Kowalska, como também pessoas que, mesmo não tendo sido elevadas ao múnus da santificação, restam por demais conhecidas as suas obras pelo bem comum, como Helder Câmara, Zilda Arns, Chico Xavier, Irmã Dulce e tantos outros que optaram por pautar suas vidas seguindo a pobreza do Evangelho tão amada por São Francisco.

No contexto evangélico, o pobre é a pessoa honrada, piedosa, espiritualizada, justa (praticante da justiça, ajustado diante de Deus), aberto a Deus e por isso feliz.

O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus: Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo (Mt 4,17). O mundo, todavia, faz uma contraposição a essa mensagem e assinala: felizes os que têm dinheiro e sabem usá-lo para comprar influências, comodidades, poder, segurança e bem-estar (MESQUITA, 2016).

Todos os escritos de São Francisco, ele não os atribuía como de sua autoria e sim de inspiração divina; por isso toda a sua obra é fundamentada nas Escrituras, sobretudo, nos Evangelhos. São frutos da profunda vivência interior, do diálogo com Deus. Ele próprio considera sua produção literária como palavra de Deus e solicita a todos que leiam, conservem e divulguem, trata-se de uma leitura espiritual. (MESQUITA, 2016, citando FASSINI).

É necessário, por conseguinte, aprendermos com o Santo a ter uma vida mais simples e regrada, evitando os desperdícios, com vistas a debelar o consumismo. É possível viver com pouco; amar bem mais o próximo, não ter preconceitos e buscar fazer algo de útil em seu favor, sobretudo dos mais necessitados. É premente a ocasião de amarmos e preservarmos a Natureza, desfrutando a vida em sintonia com o nosso Planeta (IDEM).

Meu desejo sincero é de que muitas pessoas leiam este livro, escrito com o amor, a devoção e a bondade característicos da Autora, e desfrutem dos ensinamentos do Santo tão querido, buscando ao menos um pouco da sua simplicidade e dileção pelo próximo, ao saborear a doçura de SER mais do que TER.


*Maria Célia Mesquita Molinari é professora aposentada, 
imortal da Arcádia Nova Palmaciana (Cleonice Danae), 
titular da Cadeira número 14.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ARTIGO - A Exacerbação do Ódio (RMR)


A EXACERBAÇÃO DO ÓDIO
Rui Martinho Rodrigues*


Há uma exacerbação do ódio. Redes sociais, discursos políticos, convivência em sociedade, inclusive nas famílias, apresentam um animus exaltado. O fenômeno tornou-se mais visível há uns poucos anos. Mas não é tão recente. A violência física, de grande magnitude em quase toda a América Latina e no Brasil em particular, ocorre paralelamente ao crescimento da violência simbólica nos dois lados do Atlântico Norte.

O crime vulgar começa a ser compreendido pelo ângulo da teoria da janela quebrada, que estabelece correlação entre abandono ou descaso e delinquência. Some-se a isso a rapidez e a profundidade das transformações culturais, produzindo choque e desorientação típicos da aculturação. O abandono e o descaso remetem ao problema da impunidade e ausência do Estado em todos os sentidos.

Muito se fala na contribuição das redes sociais para a exaltação dos ânimos. Manifestações sem contato pessoal, aparentemente anônimas, facilitam a manifestação de expressões grosseiras. A tribuna universal, dada a quem não tinha nenhum canal de expressão, liberou as vozes menos afeitas ao debate racional e à cordialidade. O despreparo de quem não sabe discutir ideias nem tem argumentos tende para o ataque pessoal.

Mas o problema é mais complexo, sobretudo no campo da política. Existe a incomunicabilidade dos paradigmas, segundo Thomas Kuhn; ou obstáculo epistemológico, nos termos de Gaston Bachelard. O primeiro entende que os pressupostos subjacentes ao que é dito, por envolventes e numerosos, não podem ser explicados. Entre as bases de todo raciocínio existem escolhas axiológicas nas premissas subentendidas. Para Kuhn, tal valoração seria incomunicável.

Bachelard entende que o conhecimento, embora nos permita ver mais, restringe o campo de visão, como um microscópio. Por isso a comunidade científica é incapaz de compreender as revoluções da ciência, ressalta Kuhn.

Não compreender as razões do diferente está a um passo de atribuir má-fé, interesses particularistas ou projetar a própria ignorância no outro. A ignorância acomete inclusive os doutores que não são doutos, em tempos de especialistas que sabem tudo de nada.

A substituição do exame dos fundamentos das teses debatidas pelo ataque a pessoas ou grupos sociais é uma tática solerte e insidiosa, praticada conscientemente por uns; ou por mera imitação em outros casos. A tática de semear o ódio está elevando a temperatura das relações sociais no mundo inteiro. A era dos ressentidos, da exploração das mágoas dos que sofrem injustiças potencializa os conflitos.


Explicações simplistas, que apresentam as desgraças do mundo pelo prisma das teorias conspiratórias, têm grande parte da responsabilidade pelo atual clima de beligerância. Formadores de opinião adotam esta atitude. Em vinte minutos de um discurso podem-se contar vinte e sete alusões à “classe média alta, branca e cristã” como responsável pelos males do mundo. Cegueira dos paradigmas, ou tática insidiosa de soldado disciplinado cumprindo ordens, ou de ativista fanatizado, o efeito da exploração das emoções é lastimável.


LANÇAMENTO DE LIVRO - De Primeiro (TL)







domingo, 20 de novembro de 2016

ARTIGO - Três Lapsos (VM)


TRÊS LAPSOS DE ENTENDIMENTO
Vianney Mesquita*

Complemento aos excepcionais artigo de
Luciano Maia e comentário de Reginaldo Vasconcelos


Quando me enganares a primeira vez, a culpa será tua; na seguinte, será minha. (Anônimo).


Aproveito o ensejo da apreciação dessas matérias lúcidas para comentar um trio de manias, expressas de jeito absolutamente errado, já tornadas “oficiais”, consoante passo a fazer.

As significações equívocas, antes ocorrentes mais em circunstâncias de uso da língua no universo coloquial, sem o escopo de socializar conhecimento e tampouco de lecionar, também estão hoje nos espaços de emprego da linguagem culta, onde se codificam, por exemplo, feitos e fatos científicos a se propagarem em livros ou quaisquer suportes de informação.

Exibem-se inumeráveis exemplos desses logros elocutórios até em legislações e documentos de órgãos oficiais do Brasil, fato a se deplorar, pois conduzem o leitor à arapuca do erro, desabilitando nosso código glossológico perante os demais do ecúmeno linguístico, nomeadamente deste exercitado nos Estados lusofalantes – o Português.

Reporto-me, pois, a três eventos, os quais a mim me parece oportuno trazer à balha, pelo emprego genérico e indiscriminado em textos de lições escolares, dispostos legais, pronunciamentos formais, discursos e comunicações científicos e literários, peças de doutrina e jurisprudência, Bioestatística governamental et reliqua. 


ALTERNATIVA

Em razão do largo e inadequado uso da dicção alternativa e suas variações cognatas, com acepções distintas daquelas realmente conotadas, impende se tomar em consideração a ideia de alternativa proceder de alter (Latim) = outro, outra.

Por conseguinte, existe, tão-só, UMA alternativa.

Diz-se, em Português correto, “a alternativa é esta”, de sorte a não se cogitar em (cogita-se em) diversas alternativas, num “leque” de alternativas (Proh pudor!), porquanto, por definição, o vocábulo corresponde à “Sucessão de duas coisas reciprocamente exclusivas”, isto é, uma opção entre duas circunstâncias.

Efetivamente, pois, a opção – não sendo uma coisa ou circunstância – será a outra (alter), a alternativa.

Opção constitui, pois, a alternativa para eliminar as construções frasais equivocadas, feitas, amiúde, a contrapelo das regras da Língua, desprezando, in casu, a procedência histórico-linguística das palavras. 


NASCER MORTO

Quiçá inglória seja nossa luta em objeção a sintaxes desse gênero. Todo o Mundo, até o escrevinhador da língua culta (como adiantado há pouco), suporta, aceita e aplica vocábulos e dicções sem qualquer consistência glotológica. Pouco se lhe dá se está ou não depauperando a língua do Dr. Aluísio Gurgel e Geraldo Jesuino.

Muita vez, são expressas até antíteses violentíssimas, como na consagrada (miserável consagração!) e universalizada unidade de ideias NASCER MORTO, empregada pela Bioestatística, até em mensagens de lavra e da responsabilidade estatais, no Brasil. Há, exempli gratia, um órgão do Ministério da Saúde nacional denominado – SISNAC – Sistema Nacional de NASCIDOS VIVOS (de estudo, aqui em caixa-alta).

Se NASCER significa, conceitualmente, começar a ter vida exterior, vir à luz, enxergar a luz, como pode alguém NASCER MORTO? Nascer, então, é igual morrer?

Diga-se, por conseguinte, a mulher pariu um feto sem vida, delivrou um corpo morto, perdeu a criança, ou algo semelhante. NASCER, então, foi, é e será, indefinidamente, o antônimo perfeitíssimo de morrer.

Lamentavelmente, com alternativa, ainda alimentamos expectativa; com relação a nascer morto, entretanto, parece estar a “guerra” definitivamente perdida, a não ser, entre nós do Ceará, com o adjutório da Academia Cearense da Língua Portuguesa, deste Sodalício e dos demais silogeus guardiães da cultura e da nossa riquíssima fala oficial.
       

ENTRE XIS E ÍPSILON OU DEXIS A ÍPSILON?

Eis, neste passo, a derradeira demonstração de emprego atrapalhado de sentenças, na indicação de intervalos com duas grandezas ou coisas, notadamente sobrevindas de trabalhos universitários, onde afloram, sem explicação admissível, os desacertos mais rudes.

É necessário enxergar-se a diferença bem visível nas duas articulações, no caso, verbi gratia, da indicação de intermitência etária.

Ao se exprimir a ideia de as pessoas ouvidas na pesquisa revelarem nas respostas idades DE 28 A 40 anos, evidentemente, são depreendidos como limites os números inferior e superior, onde estão contidos 28 e 40, correspondentes a 27 e 41 anos. Aqueles indicados, pois, com o espaço etário ENTRE 27 E 41 anos, na realidade, contam DE 28 A 40 anos. Caso se aponte ENTRE 28 E 40 anos, há de se admitir o cinturão etário DE 29 A 39 anos.

Muitas vezes, os pesquisadores informam haverem as crianças do seu experimento, por exemplo, nascido ENTRE 2011 E 2012, tal significando dizer, pois, o fato de ainda não terem vindo ao Mundo, porquanto ENTRE 2011 E 2012 nada existe. Decerto, intentaram expressar esse nascimento em 2011 ou 2012, ou seja, DE 2011 A 2012.

De efeito, rematando o caso, ENTRE os anos de 1927 E 1946, estão os períodos DE 1928 A 1945, não do modo como é constante e equivocamente apontado. ENTRE (preposição) e E (conjunção aditiva) são balizas de fora, razão pela qual não devem ser contadas, enquando DE-A hão de acolher consideração.

De tal sorte, a expressão DE XIS A ÍPSILON difere diametralmente da construção frasal ENTRE XIS E ÍPSILON.




(Este texto não traz a palavra que).


* Vianney Mesquita pertence à Academia Cearense de Língua Portuguesa, à Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e é membro fundador da Arcádia Nova Palmaciana (Palmam qui meruit ferat). Professor Adjunto IV da Universidade Federal do Ceará. Escritor e jornalista. Da Federação Internacional de Jornalistas (Bruxelas-Bélgica - UE).

ARTIGO - Seguir ou Continuar (LM)


SEGUIR OU CONTINUAR?
Luciano Maia*


A nossa língua, como qualquer outro idioma, é um organismo vivo, naturalmente sujeito às transformações de caráter endógeno e exógeno, como tudo, aliás, no Universo. Por outro lado, existem as desnecessárias intervenções novidadeiras e o desrespeito, fruto da ignorância, à nossa língua. Ignorância que vem, quase sempre, travestida de erudição.

Assistimos hoje no Brasil a uma verdadeira onda de ligeirices no uso da nossa língua, com agressivos ataques ao nosso vernáculo. “Com os últimos resultados, a equipe segue líder”. Não é necessário ser estudioso da nossa língua para perceber nesta frase uma desnecessária afetação. Ou nesta: A vítima segue hospitalizada”. Nos dois casos, o verbo a ser empregado, de forma natural, sem frescura, é o verbo continuar.



Nos últimos anos, a imprensa no Brasil parece disposta a sepultar o verbo continuar,de uso tão frequente e útil no nosso vernáculo, em todas as circunstâncias. Na nossa língua, o verbo seguir está mais afeito à ideia de movimento (real ou abstrato): seguir andando, seguir uma ideia, seguir um caminho e assim por diante. Em resumo, o verbo seguir não se presta, de forma adequada, a substituir o verbo continuar, que não exige necessariamente movimento: continuar dormindo, continuar ouvindo o discurso etc.

Outra afetação hoje muito ouvida nos telejornais são as saudações “ótima-tarde”, “ótima-noite”, e assim por diante, quando o normal, o natural, seria o nosso “boa-tarde”, o nosso “boa-noite”. Não vemos ninguém na rua, ou em qualquer lugar, dizer “ele segue aposentado” ou “ótima-noite, José”. A naturalidade faz falta...

Também na crônica esportiva ouvimos tolices como esta: “Ele é um visionário”, pretendendo dizer que alguém previu uma situação ocorrida depois, como o resultado de uma partida. Vidente, alguém com visão premonitória, seria a palavra para isso. Visionário é outra coisa. Um visionário é alguém que sonha em realizar mudanças revolucionárias, acredita num futuro grandioso, geralmente utópico.

E os políticos? Estão a proferir besteiras, eles também: “O deputado pensa de forma errática”. Errático é vagamundo, nômade, errante. Não errôneo, como pretende a frase acima. Parece que a onda, impingida pela ignorância, não vai pegar.  Não nos obrigamos a seguir essas bobagens. Continuaremos a falar a nossa língua de forma natural. Na verdade, não consigo atinar sobre o que desejam os novidadeiros da fala.


Publicado no O Povo em 25/10/2016



COMENTÁRIO:

Particularmente, creio eu que cada empresa de comunicação deveria ter um departamento de linguagem, composto por expertos em gramática portuguesa, para que se evitassem tantas aberrações na redação e na elocução de seus repórteres.

Também seria útil que a Academia Brasileira de Letras tivesse uma participação ativa na proteção da língua pátria, emitindo recomendações pontuais às entidades nacionais sobre a maneira correta de aplicar o idioma, a cada vez que os acadêmicos constatassem erro em algum órgão da imprensa e em documentação oficial de específico órgão público – além de editar e divulgar regularmente bulas sobre as formas idiomáticas recomendadas, corrigindo as erronias mais comumente observadas.

Há vícios de linguagem intoleráveis que são adotados por repórteres de TV de todo o País, como a repetição da palavra “aí” no meio das frases, sem a menor necessidade, como no seguinte exemplo: “O tenente baleado estava aí há 15 anos na corporação, e deixa aí mulher e três filhos”.

Também se observa a inexplicável abolição da preposição “a”, na acepção de dar “direção no tempo, no espaço ou de limite nocional”, na dicção do Dicionário Houaiss. Então, diz o repórter que “daqui um mês…”, quando deveria dizer “daqui a um mês” – “daqui dez dias”, "daqui  vinte quilômetros”.  

Já entre os entrevistados a praga do momento é a aplicação de uma “muleta verbal” que nada acrescenta ao conteúdo nem à clareza da mensagem: a palavra “assim”, que se desdobra em “aí… assim…”, “então assim…”. Esse cacoete evoluiu da expressão “tipo assim”, agora desmembrada em “tipo”, e “assim”, ambos de descabida e aleatória aplicação.

Mas, especialmente entre os políticos, em vez da supressão da preposição “a”, a febre é a viciosa adição da preposição “de”, em todas as brechas que encontram em sua fala. Então, temos: “Nós entendemos de que o mais recomendável seria…”; “Quero registrar de que o nosso partido não concorda…”; “A gente acredita de que…”; “Levando em conta de que”.

Porém, nada é mais estranho que a tentativa de concordância verbal com os pronomes demonstrativos, conforme exemplos abaixo, uso canhestro que parece ter saído das elevadas fórmulas gramaticais abonadas pelo último grupo político que esteve no poder: “Sou um daqueles que defende…”; “Estou entre os que pensa…”.

A lógica mais primária indica que “aqueles defendem”, e que se o falante se diz entre alguns, todos eles “pensam”.  Contra fatos não há argumentos. Mesmo quando quem argumenta com o absurdo é o incensado e já falecido gramático mineiro Celso Cunha.

Agora, quando o Presidente da República aplica uma corretíssima mesóclise – conserta-lo-ei” – demonstrando que conhece e respeita a língua vernácula, toda a mídia faz deboche. O Brasil é mesmo uma grande piada.

Reginaldo Vasconcelos