segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ARTIGO - Lançamento Invulgar (VM)

                    

Libação Prévia no
Ritual de um
Lançamento Invulgar
(Comentos Curtos sobre o Romance de Ítalo Gurgel)
 Vianney Mesquita*

                                                 

O crítico é um arquiteto a posteriori, habilitado a desmontar o conjunto da obra peça por peça, para dizer como foi feita e com que material. E nessa tarefa mexeriqueira de desmontagem e remontagem, mais uma vez se engana e ficam sobrando parafusos. (Sérgio Milliet da Costa e Silva – escritor, poeta e pintor. São Paulo, 20.09.1898; 09.11.1966). 

Notações de Entrada

No dia inaugural de setembro de 2026, o cearense aficionado em matérias de qualidade aguarda, sobranceiro, a solenidade de entrega do fotografado romance ao universo ledor – o primeiro desse gênero, do farto portefeuille temático deste professor, jornalista, poeta, orquidófilo e imortal cearense (nascido em Caraúbas-RN) Ítalo Gurgel.      

Eis uma apreciadíssima pessoa em todas as ricas ambages humanas e intelectuais por onde transita, com sucesso e glória inusitados, pretextos pelos quais seus circunstantes sempre o aceitam e recebem e abraçam e recolhem e aplaudem no regaço familial extenso das amizades autênticas e ininterruptas.

Em decorrência de nossas aproximações bem anosas, desde os meados dos anos de 1970, na qualidade de docentes da Universidade Federal do Ceará, bem assim na Academia Cearense da Língua Portuguesa, provei da ventura de ler por antecipado e ao abrigo de obséquio seu o livro sob comentário ligeiro, ainda não editado, de inexcedíveis legitimidade e mérito, porém, ainda, desassistida do anteâmbulo firmado pelo imortal Linhares Filho. 

A Mano a Mano com os Criticastros       

Impende exprimir o fato de que não faço glosas acerca do que não saboreio, procedendo a tais escoliações somente quando o produto não é acompanhado de defeituações de qualquer natureza, por mínimas que sejam, o que, aliás, o arquiteto ao depois, mencionado pelo pintor e literato paulistano Sérgio Milliet na epígrafe destas notas, aproveita sempre para desbaratar a produção, mesmo que desazadamente, sem um motivo rijo capaz de pejar a semente literária e infelicitar quem a agricultou.

Vez por outra  não é transgressor manifestar pela via deste parêntese  há um desmontador de parafusos sergiomilletiano, aqui em Fortaleza – somente um, seja expresso  que assim se conduz em relação a mim, atitude reduzida, mensura temporis, porque, em todas as ocasiões, lhe respondo ao contestar as irracionais alusões. Demais disso, indigito grosserias linguísticas e sem-razões toscas em seus bens editoriais, valiosos, seja dito en passant, numbateu-levou” operoso, de resultados imediatos e efeitos duradores.       

Já no que concerne ao rematado Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas, quero ver quem demonstra a coragem covarde de arrematar contra! Sofreria, decerto (se o escritor norte-rio-grandense fosse um arengueiro de marca maior semelhado ao desnaturado criticastro), respostadas semelhantes à do arengado que, como réplica, espessa por excelência, ouviu do aplaudido autor de Le Rouge et le Noir, Henri-Marie Beyle, chamado Sthendal (Grenoble, 23.01.1783; Paris, 27.03.1843) o que vem ligeiro à continuação. Sthendal partiu para a briga, armado com os aços da palavra, a um sujeito que dirigiu comentações com acres desdouros a uma de suas obras: Este homem não tem a minha opinião; logo, é um imbecil; critica o meu livro, então é um celerado, ladrão, assassino, jumento, falsificador, canalha, covarde (Confer Della Nina, in Mesquita. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013, p. 11). Comportou-se meio exagerado o escritor de Rome, Naples et Florence e De l’amour? Sim. E, evidentemente, ninguém vai respostar assim, caso suceda com o romance do Prof. Ítalo. Tal não há de, não tem como acontecer...! 

Também é o instante azado de eu exprimir, conforme muita vez já o fiz, a ideação de que não é cabível adentrar com profundez a explicação de uma obra, porquanto vai subtrair o hors d’ouevre do prato principal, o acepipe dirigido ao leitor, a quem incumbe ler, decodificando ao seu modo, um artefato artístico, máxime se estável, segundo é conformado o gênero romanceado de que labilmente cuido. 

Impõe-se, entretanto, mormente em direção aos consulentes menos apercebidos das taxionomias literárias, discorrer, conquanto efemeramente, a respeito desta relevante matéria, segundo exprimido à continuidade.       

O Gênero Romance       

Das castas artísticas por meio das quais o literato robustece e propagandeia sua mais ardorosa inspiração, o romance é um dos mais apreciados. Tal sucede, certamente, porque, em se cuidando de narração mais ou menos dilatada, aqui bem distendida e para gáudio do leitor -, nele são traçados fatos imaginários, passíveis de veracidade, pois às vezes incitados por ventos autênticos, cujo fulcro é suscetível de ser topado em veracíssima relação histórica passada em Caraúbas, Aracati e contiguidades, relato de aventuras, exame de costumes ou tipos psicológicos, análise social ou em quaisquer pretextos relevantes, quando se logra estabelecer uma peça deleitosa, a conquistar a simpatia e o interesse do consultante, segundo é ocorrente com Dona Quitéria – a Senhora das Caraúbas, emparelhado com precisão a essas ligeiríssimas exegeses.

Vários – e indispensáveis – são os requisitos para um bom romance restar caracterizado, o mais relevante dos quais desfecha na originalidade, conforme o intelectual sob relação obedeceu na completude. 

Já expressei, muita vez, a ideia de que, conquanto haja editado alguns volumes e artigos em periódicos, no âmbito da ciência, no concerto crítico e na senda da prática religiosa católico-romana, jamais venci o temor de trazer à luz editorial uma composição gradeada pela estirpe culto-estética de narração romanesca. Isto, sempre, porque me divisava feito um dublê, verdadeiro menecma nalguns pontos da trama e do estilo, com romancistas que havia lido, bem como achava uns parecidos com os outros. 

Quiçá haja ocorrido essa circunstância em virtude de pruridos de perfeição, os quais constantemente tocaram minha exigente recepção de mensagens artísticas, jamais no que respeita ao estado de originalidade, condição literária que privilegio para, de leve, articular, neste passo, estas concisas e lacônicas notações sobre esta e o restante da produção desse vate, professor e produtor de crédito nacional, Ítalo Gurgel.

Não em raras ocasiões, me divisei perdoado da quiçá inocente parecença dos meus originais romanescos nunca publicados com os de outrem, lembrando-me, até, da identidade estilística de Eça de Queirós, no O Crime do Padre Amaro, Emílio Zola, em Faute de l’Abbe Mouret; senão, também, da comparação a que eu tinha o costume de proceder, mostrando certa similitude nas produções de Archibald Joseph Cronin (Cardross – UK, 19.06.1896; Montreux – Suiça, 06.01.1981), por exemplo, na A Cidadela, os estilos, as personagens e motivos de Sir Arthur Conan Doyle, exempli gratia, n’As Aventuras de Sherlock Holmes; e as irmãs Brontë – Anne, Charlotte e Emily – com pseudônimo dos Bells-Currer, Ellys e Acton; e ao confrontar Camões com Vergílio e Homero, Oliveira Paiva com Aluisio de Azevedo ... e tantas outras colações empreendidas, até com alguma razão ao fazê-las, a fim de me inocentar, não de plágio, mas de contrafeições elocutórias em que era capaz de incorrer sob influência de suas leituras.

Ex expositis, conforme anunciado há pouco, são deixadas à parte, intencionalmente, neste comentário, diversas exigências da escrita literária, tantas de que a Teoria da Literatura faz divisão, com vistas a distinguir a originalidade. É, pois, a circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente original, agora sob apressada relação.

Remansa manifesto, quando convido com instância, também, o atributo da novidade para comentar, o fato de que, no romance sob notícia, texto que me estimulou o contentamento de cronista, cursam os requisitos da boa literatura, de sorte que, privilegiando, neste lance, o aspecto de singularidade criadora, não significa exprimir que o autor preteriu os demais, pois, ao reverso, os valorizou ao extremo, porquanto bem calçado, incólume e intactamente, do pressuposto da raridade componente da trama, das personagens, literatura e elocução, motivo pelo qual não se parece com NINGUÉM, consoante sucedeu comigo.

No lance em que o consultador proceder à decifração textual deste romance de IG – quem sabe – ele vai deparar o inesperado... Os romancistas existem para nos dizerem algo sobre os romancistas – evoca-nos Lord Chesterton. Tenham, portanto, a convicção de que os bons terminam bem, ao contrário dos maus – eis o que são os romances – na sentença de Oscar Wilde. 

Progredimos, com efeito, na ideação de que, na qualidade de leitor impertinente, a quem não é todo escrito que satisfaz, me deleito com este lépido e honesto parecer acerca de Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas revistado da entrada ao termo, impressionando-me com suas meadas perspicazes, teceduras consentâneas e conducentes a um fecho. 

 A Jeito de Fim 

Impressionaram-me, sobremodo, as vinculações autênticas e sinceras a que o autor procede com a família, os locais de ocorrência da contagem romanesca, a religião cristã-católica  sem, entretanto, recorrer à carolice, no exagero da santidade fingida e santimônia antibíblica das mãos postas e das mostras de veneração forçada, posando para os holofotes da sociedade, comportamento a que me não afaço e até antipatizo na circunstância de cristão católico praticante.       

Com efeito, Ítalo Gurgel, sob a estampa e fiel aos sabores da codificação linguística de Geraldo Jesuíno da Costa, Linhares Filho e Sousa Nunes – cânones de escritores coestaduanos – presenteia o público das nove nações lusófonas com este volume de insuperável axiologia literária, cujos teores vão ser conhecidos no dia primeiro de setembro que vem. 

A obra é acobertada pela magia harmoniosa e impressionante do primo especialista há pouco mencionado, GJ, ao complementar o conteúdo de Dona Quitéria  a Senhora de Caraúbas, com o continente de sua raríssima estese, configurado no desenho de toda a produção, um santuário visível, com ornamentos exteriores aformoseando o interno teor imageticamente sacrossanto do Romance.       

Conquanto não haja lido, ainda, as notações preambulares do imortal acadêmico lavrense José Linhares Filho, bem que eu queria ter a igual certeza de minha redenção lá no Assento Etéreo como a retenho acerca da coerência, racionalidade, beleza e precisão das manifestações acerca da produção italogurgeliana por parte do amigo e decantado estudioso da Literatura Lusitana, notadamente de Fernando Pessoa. 

Na expectativa pressurosa encontro-me relativamente à oração a ser proferida a respeito do Romance pelo jovem e perito professor de língua portuguesa e código inglês, docente do Colégio Farias Brito e presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o escritor Sousa Nunes, uma das personalidades mais estimadas no âmbito da intelectualidade cearense, tanto em razão de seus aprestos intelectuais, entretanto, jamais pelo refinado apuro cidadão a lhe presidir o caráter humano e suas ações de elevada urbanidade.       

Então, escritor Ítalo Gurgel, eis que faço esta prelibação, na minha espirituosidade comedida, pois não achegado à carraspana  sob a companhia de um Vinum bonum et suave, Bonis bonum, pravis prave, Cunctis dulcis, sabor ave Mundana laetícia!, no aguardo da festa de lançamento do seu mais novo bem editorial. 

Abraço vigoroso!

                   

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