quinta-feira, 27 de agosto de 2026

RESENHA - Habilidade Natural (Vianney Mesquita) (SN)

 HABILIDADE NATURAL
(Vianney Mesquita)
e o risco da maquinização do humano
Sousa Nunes*

 

A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889 – 26.05.1976).

 

 

O breve e indispensável artigo do confrade Vianney Mesquita sobre a Habilidade Natural — HN, em face da Inteligência Artificial, é uma defesa da dignidade do ato de pensar. E, vindo de sua lavra, não surpreende que a reflexão se exprima pensada, cogitada e ponderada, numa linguagem primorosa, em que o erudito convive, sem afetação, com a harmonia da língua. 

Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, aquilo que o engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão. 

Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a palavra que a exprima. À época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo, resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação, sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem, estreita-se o próprio mundo interior. 

Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe, de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e contemplativa significa consentir, pouco a pouco, em uma perigosa maquinização do humano. 

E ocorre-me Manuel Bandeira, no inesquecívelMomento num café” (em Estrela da Manhã, 1936): diante do enterro que passava, todos cumpriam maquinalmente o gesto convencional; apenas um homem interrompeu o automatismo e descobriu-se, por um instante, diante da vida, da morte e do mistério de existir. A palavra decisiva talvez seja justamente esta: maquinalmente. Há o risco de que estejamos ingressando numa civilização que lê automaticamente, escreve instintivamente, responde inconscientemente, e, por fim, vive maquinalmente – unificando as referidas moções comunicativas. 

É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar o próprio pensamento. 

Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o qual não há verdadeira criação. 


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