HABILIDADE NATURAL
(Vianney
Mesquita)
e o risco da maquinização do humano
Sousa Nunes*
A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889 – 26.05.1976).
Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, aquilo que o engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão.
Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a palavra que a exprima. À época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo, resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação, sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem, estreita-se o próprio mundo interior.
Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe, de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e contemplativa significa consentir, pouco a pouco, em uma perigosa maquinização do humano.
É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar o próprio pensamento.
Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o qual não há verdadeira criação.

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