Sobre uma
“Libação Prévia”
Sousa Nunes*
Há textos que se limitam a anunciar um livro; outros, mais raros, começam por lhe preparar a atmosfera. A Libação Prévia no Ritual de um Lançamento Invulgar, de Vianney Mesquita, pertence a esta segunda espécie. Antes de ser comentário ao romance “Dona Quitéria – a Senhora de Caraúbas”, de Ítalo Gurgel, é um testemunho de amizade intelectual — e a amizade, quando servida pela cultura e pela fidelidade, também constitui uma forma superior de crítica.
O ensaio do ínclito confrade Vianney Mesquita possui, ademais, uma característica que imediatamente denuncia o seu autor: a abundância culta, a erudição profunda. Sérgio Milliet, Stendhal, Eça, Zola, Cronin, Conan Doyle, as Brontë, Camões, Virgílio, Homero, Oliveira Paiva, Chesterton e Wilde comparecem à sua conversação como velhos conhecidos chamados à mesa. Não constituem ornamentos adventícios: pertencem ao mundo espiritual de quem escreve e ajudam a revelar a extensão de uma vida consagrada aos livros e à reflexão percuciente.
Há ainda, em sua página, a graça peculiar do polemista. Vianney sabe que a crítica pode iluminar uma obra, mas sabe igualmente que pode, por vezes, pretender substituí-la. Daí os seus floreios de espada contra os “criticastros”, temperados por uma ironia que ora sorri, ora mostra os dentes. Contudo, vencida a escaramuça, permanece aquilo que verdadeiramente lhe importa: proclamar a singularidade de Dona Quitéria e resguardar ao futuro leitor o prazer da descoberta.
E nisso reside talvez a melhor virtude de sua prelibação: Vianney aproxima-nos do romance sem no-lo retirar. Indica-nos a porta, mas não invade conosco os aposentos. Diz-nos que ali estão a família, a terra, a memória, a religiosidade sem ostentação, a experiência humana transfigurada pela ficção; e detém-se a tempo, reconhecendo que todo verdadeiro romance deve conservar, até o instante da leitura, alguma região inviolada de mistério.
Ítalo Gurgel encontra, assim, em Vianney Mesquita, não simplesmente um leitor antecipado, mas uma testemunha afetuosa de sua chegada ao romance. E Vianney, celebrando o livro do amigo, acaba por oferecer-nos também um pouco de si mesmo: sua erudição, suas fidelidades, suas implicâncias, seu humor e essa antiga confiança na literatura como território onde a memória pessoal pode alcançar uma duração maior que a vida.
Esta Libação Prévia cumpre, portanto, o que promete o título: ergue a taça antes da cerimônia. E fá-lo com a generosidade de quem sabe que, nas repúblicas das letras, os melhores brindes não são os que celebram somente o livro que nasce, mas também as amizades que o tempo não conseguiu envelhecer.
Parabéns, grandes mestres! O gigante leitor, que nos oferta essa maravilhosa prelibação, e o romancista, que nos aguarda no dia 1º de setembro, com o fruto de seu espírito invulgar.
Comentário:
Posto, enfim, no sossego do meu quarto d’hotel, em S. José dos Campos, dou-me a satisfação de reler as apreciações críticas do confrade Vianney Mesquita acerca de “Dona Quitéria: A Senhora de Caraúbas”, romance histórico que o amor à terra natal, em boa hora, inspirou-me. Desvanecido é como me quedo diante do texto – tão rico e tão marcado pela “abundância culta” e “erudição profunda” de que fala outro dileto amigo, Sousa Nunes, ao comentar o comentário (desculpem-me o poliptoto).
Vianney extraiu do romance predicados destilados pela genuína amizade que cultivamos e que prosperou, ao largo de muitos anos, no rastro da admiração e respeito mútuos. Encheu-me de imodéstia perceber que o confrade colheu, em minhas páginas, amostras de originalidade, atributo que enxerga como “a circunstância mais ressaltada nesta obra cabalmente singular, absolutamente original”.
Mais adiante, senti fisgadas de orgulho (para não dizer “vaidade”), quando o mestre palmaciano me anteviu oferecendo ao público das nove nações lusófonas “este volume de insuperável axiologia literária”. Imaginei meu livrinho nas vitrinas de Luanda; em Maputo, um lançamento agendado; já em Lisboa, uma palestra. Dá-se, porém, que, antes disso, há um longo caminho a percorrer. E essa trilha começa a 1º de setembro, quando “Quitéria” será apresentado à constelação de amigos que comparecer ao Ideal Clube, onde a missão de apresentar o livro foi entregue – para gáudio meu – ao confrade Souza Nunes. Estão assegurados, nessa lida, mais uma vez, a elegância, a sensibilidade e o descortino.


Nenhum comentário:
Postar um comentário