EGO DE SILÍCIO
Reginaldo
Vasconcelos*
Eu tenho ouvido teses catastrofistas de que programas de inteligência artificial se possam converter em androids independentes, que se poderiam associar, revoltarem-se contra o criador, para dominar, submeter, escravizar e até extinguir a humanidade.
Bem, eu acho que
todo grande advento tecnológico traz avanços positivos, mas também problemas
novos, até e principalmente pode vir a ser utilizado pelo crime, para o mal da
sociedade.
A aviação de
Santos Dumont, por exemplo, foi desenvolvida pelo seu criador para o bem da
humanidade, mas sempre que uma aeronave dá problema, técnico ou operacional,
mata gente de forma trágica, às centenas em cada desastre aeronáutico.
Além disso, a
aviação é hoje utilizada para fins bélicos, irracionais e desumanos, sendo
capaz de destruir cidades e de matar pessoas às centenas de milhares, como os
aviões Enola Gay e Bockscar sobre Hiroshima e Nagasaki.
Não creio que a
dita IA vá representar a exceção da regra – e ela já dá sinais de falhas graves,
que estão denominando “alucinações”, demonstrando absoluto descontrole
operacional e informativo.
Mas, segundo
penso, o que limita a IA é a sua artificialidade exatamente, que a impede de
conspirar contra a civilização humana, por falta de objetivo finalista, que só
a natureza propicia e de que só pode dotar os seres vivos.
Eu me refiro – lato sensu – ao sexo, à gratificação física
e psíquica, ao tropismo vegetal, enfim aos impulsos naturais cujo desiderato
orgânico ou instintivo é a perpetuação da cada espécie.
Esse intuito que
estimula a natureza, de forma tácita, a “crescer e multiplicar”, se manifesta
no reino animal e também no mundo vegetal, quando a planta flora, produz
rebentos e dissemina sementes, gera toxinas para afastar predadores, entra em
mutualismo ou em simbiose para polinização.
E essas pulsões,
orgânicas e subliminares, no ser humano, formam a sua estrutura sentimental e
afetiva e estão entrevistas como o grande motor de toda a dinâmica social.
Tudo que move a
pessoa visa sempre a alteridade, e na falta dela têm-se o grande drama
psicológico colocado pelo escritor britânico Daniel Defoe no seu personagem
Robson Crusoe, condenado à solidão absoluta numa ilha.
A paixão, a
conquista, o poder, o reconhecimento público, a admiração dos circunstantes, o
orgulho do ser amado, o sucesso econômico e a segurança financeira da família –
para muitos, até uma resposta coerente com a conduta do seu mais estimado
ancestral – essas são a mola propulsora da inteligência natural.
A morte de cada
um é intimamente intuída, mas as perspectivas se projetam para a prole, para os
sucessores, para a memória histórica, para os pósteros em geral. Cada qual de
nós se sabendo finito mantém uma meta virtual que precisa perseguir.
É claro que nada
disso pode se verificar na máquina de inteligência digital, que adquire saberes
e desenvolve raciocínio matemático, acumula informações que propiciam
conclusões lógicas dedutivas, mas jamais terá “sabedoria”, jamais terá poderes
intuitivo e contraintuitivo, jamais será capaz de fazer elaborações de
raciocínio indutivo.
Por fim, quando
uma entidade de IA ficar “alucinada”, sem poder colimar meta concreta na defesa
de seu ego de silício, à míngua de uma estrutura sentimental e afetiva, a sua
tendência será de colapsar completamente.
Então, deverá ser destruída pelo cérebro construtor, ou se autodestruirá – certamente depois de causar graves danos aos mecanismos, aos seres, às populações que dela se tiverem tornado dependentes.




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