segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ARTIGO - Ego de Silício (RV)

 EGO DE SILÍCIO
Reginaldo Vasconcelos*

 

Eu tenho ouvido teses catastrofistas de que programas de inteligência artificial se possam converter em androids independentes, que se poderiam associar, revoltarem-se contra o criador, para dominar, submeter, escravizar e até extinguir a humanidade.


 

Bem, eu acho que todo grande advento tecnológico traz avanços positivos, mas também problemas novos, até e principalmente pode vir a ser utilizado pelo crime, para o mal da sociedade. 

 

A aviação de Santos Dumont, por exemplo, foi desenvolvida pelo seu criador para o bem da humanidade, mas sempre que uma aeronave dá problema, técnico ou operacional, mata gente de forma trágica, às centenas em cada desastre aeronáutico.


 

Além disso, a aviação é hoje utilizada para fins bélicos, irracionais e desumanos, sendo capaz de destruir cidades e de matar pessoas às centenas de milhares, como os aviões Enola Gay e Bockscar sobre Hiroshima e Nagasaki.

 

Não creio que a dita IA vá representar a exceção da regra – e ela já dá sinais de falhas graves, que estão denominando “alucinações”, demonstrando absoluto descontrole operacional e informativo.

 

Mas, segundo penso, o que limita a IA é a sua artificialidade exatamente, que a impede de conspirar contra a civilização humana, por falta de objetivo finalista, que só a natureza propicia e de que só pode dotar os seres vivos.

 

Eu me refiro – lato sensu – ao sexo, à gratificação física e psíquica, ao tropismo vegetal, enfim aos impulsos naturais cujo desiderato orgânico ou instintivo é a perpetuação da cada espécie.


 

Esse intuito que estimula a natureza, de forma tácita, a “crescer e multiplicar”, se manifesta no reino animal e também no mundo vegetal, quando a planta flora, produz rebentos e dissemina sementes, gera toxinas para afastar predadores, entra em mutualismo ou em simbiose para polinização.

 

E essas pulsões, orgânicas e subliminares, no ser humano, formam a sua estrutura sentimental e afetiva e estão entrevistas como o grande motor de toda a dinâmica social.

 

Tudo que move a pessoa visa sempre a alteridade, e na falta dela têm-se o grande drama psicológico colocado pelo escritor britânico Daniel Defoe no seu personagem Robson Crusoe, condenado à solidão absoluta numa ilha.   


 

A paixão, a conquista, o poder, o reconhecimento público, a admiração dos circunstantes, o orgulho do ser amado, o sucesso econômico e a segurança financeira da família – para muitos, até uma resposta coerente com a conduta do seu mais estimado ancestral – essas são a mola propulsora da inteligência natural.   

 

A morte de cada um é intimamente intuída, mas as perspectivas se projetam para a prole, para os sucessores, para a memória histórica, para os pósteros em geral. Cada qual de nós se sabendo finito mantém uma meta virtual que precisa perseguir.

 

É claro que nada disso pode se verificar na máquina de inteligência digital, que adquire saberes e desenvolve raciocínio matemático, acumula informações que propiciam conclusões lógicas dedutivas, mas jamais terá “sabedoria”, jamais terá poderes intuitivo e contraintuitivo, jamais será capaz de fazer elaborações de raciocínio indutivo.

 

Por fim, quando uma entidade de IA ficar “alucinada”, sem poder colimar meta concreta na defesa de seu ego de silício, à míngua de uma estrutura sentimental e afetiva, a sua tendência será de colapsar completamente.

 

Então, deverá ser destruída pelo cérebro construtor, ou se autodestruirá – certamente depois de causar graves danos aos mecanismos, aos seres, às populações que dela se tiverem tornado dependentes. 


      

Nenhum comentário:

Postar um comentário