EGRÉGORA
DO
PENSAMENTO
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*
Aforismo e sentença são duas modalidades
eternais. Orgulho-me de expressar em dez palavras o que um ou vários exprimem
num ou em vários volumes. (FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE, filósofo e
linguista tedesco. Rocken, 15.10.1844; Weimar, 25.08.1900).
Há um lugar — talvez imaginário, decerto mais necessário do que a própria realidade — onde o pensamento se reúne, antes de a palavra se converter em sentença e a diferença restar transmudada em condenação.
Ali, por um instante, a pessoa humana abandona a confortável certeza de estar sempre correta e se concede a rara extravagância de escutar.
Chamemos de EGRÉGORA esse local: uma inteligência não pertencente a ninguém, mas que nasce entre muitos. É um locus invisível, onde as consciências, ao contrário de experimentar o enfrentamento, ousam pensar umas com as outras.
Vivemos, entretanto, em um curioso século de antigas paixões. O ódio, que outrora necessitava de espadas, descobriu a elegância das palavras. Aprendeu a vestir-se de argumento, a se manifestar feito convicção, a pedir aplausos, enquanto desumaniza.
De efeito, a pouco e pouco, o outro parou de ser semelhante para tornar-se adversário. Entrementes, o adversário se fez inimigo; e este adverso, por algum estranho capricho da inteligência, decidiu parecer indigno de existir. Talvez nos faleça, por consequente, não mais informação, mas sabedoria.
Precisamos, com efeito, reaprender a olhar, sem transformar nossa óptica em julgamento, escutar, deixando de preparar o veredicto e discordar, não convertendo em pecado a divergência.
Impõe-se, ainda, nos recordemos do que nossas paixões fazem questão de ocultar:
–
a razão é suscetível de ser brilhante, entretanto, a humanidade é anterior a
ela;
– ninguém possui o monopólio da verdade e, talvez, a primeira virtude de uma inteligência esteja em desconfiar da própria certeza;
– esta reunião de pensamentos conforma, portanto, uma pequena egrégora contra a grande epidemia da indiferença;
– nossas ideias não representam trincheiras, mas pontes; e
– nossas palavras não servem para fabricar inimigos, mas a fim de devolver ao outro o rosto que o preconceito lhe surripiou.
Tudo isto ocorre porque o mundo não é feito somente do que acontece, mas também daquilo que acreditamos estar sucedendo.
O universo, por conseguinte, é composto de histórias por nós narradas, verdades repetidas, medos recebidos como herança e, ainda, pelos futuros que somos capazes de imaginar.
Eis, quiçá, nossa responsabilidade:
– pensar é também escolher o mundo que ajudamos a transformar em possível.
– Se o ódio aprendeu a reunir multidões, que o cuidado aprenda a jungir consciências.
Se a intolerância encontrou voz, que a humanidade encontre linguagem.
Se a violência se tornou hábito, que a lucidez se torne resistência.
Se nos
disseram que o mundo é assim e que nada há a fazer, permitamo-nos a mais subversiva
das esperanças: imaginar que é possível ser diferente.
Que nossa Egrégora do Pensamento seja esse encontro improvável entre razão e sensibilidade, dúvida e esperança, pessoas que não pensam igualmente, mas ainda acreditam no outro como digno de ser ouvido.
Certamente, a civilização não sinaliza o formulado contra os outros, mas o que logramos estabelecer, sem deixar ninguém de fora da condição humana.
E talvez seja esta a nossa tarefa:
–
pensar juntos, para que o mundo não precise continuar sendo algo cogitado pelo ódio, em
vez de ser refletido por nós.

Nenhum comentário:
Postar um comentário