quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

LÍNGUA DE CAMÕES

REMÉDIO PARA BARATA  
(Periplaneta americana)

Por Vianney Mesquita*


                                 Quem não quer aplicar novos remédios deve esperar novos males (Francis Bacon)



Certa feita, aqui em Fortaleza, fui a um depósito de material de construção, em verdade um empório de mercadorias não comestíveis, – dada a enorme variedade de produtors – e pedi a um dos caixeiros (palavra fora de moda = balconista) algum “remédio para baratas”.

Incontinenti, ele, alegre e zombeteiro, me respondeu, indagando: “então, as bichinhas do senhor estão doentes?" 

A pergunta produziu nas demais pessoas, de fora e dentro do balcão, um jorro de riso, pela graça realmente originada, em decorrência da falta de conhecimento - dele e de seus circunstantes - a respeito das características homonímicas e polissêmicas de termos e dicções do léxico português, fato, aliás, a tornar este código glossológico uma língua admiravelmente literária.

A surpresa e o aborrecimento, entretanto, bem depois, se dissolveram, quando cuidei do fato de aqueles compradores e caixeiros da loja constituírem um conjunto desprovido de maiores haveres informativos, de escolaridade insuficiente para o alcance do que retruquei, ao explicar ao protagonista do chiste, evidentemente com termos diversos dos que vêm à frente, o fato de ele não ter razão, pois remédio possui diversas acepções, aplicáveis na dependência de certas necessidades e circunstâncias.

Não posso dizer que o motejo não me haja causado enfado, como adiantei, notadamente pelo fato de haver ocorrido publicamente, contudo, passemos a refletir, tendo por mote este sucesso passado no depósito, a respeito de algumas significações do termo "remédio".

Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar ("Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa". São Paulo: Objetiva, 2005) colheram no Fichário do “Índice do Vocabulário Português Medieval”, de Antônio Geraldo da Cunha (Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, 1986), 1390 como ano de registro do vocábulo “remédio”, palavra polissêmica por excelência, consoante se divisará à frente.

Cumpre informar, por oportuno, o fato de que, em Lexicologia e Linguística, polissemia é a propriedade de palavras e expressões denotarem uma multiplicidade de sentidos como:

  manga – de camisa e de farol; fruta; local de pastagem de animais; verbo mangar; etc. E

 prato – vasilha; comida; iguaria; de balança; de banda de música; manzape; etc.

Sob o prisma da Gramática, a polissemia é fenômeno ordinário nas línguas naturais, sendo escassos os vocábulos que a não expressam. É diferente de homonimia, por ser a mesma palavra e não unidades de ideias com procedências diversas que convergiram foneticamente.

São causas da polissemia, apontadas por Houaiss e Villar (Opus citatum):

  empregos figurados, por metáfora ou metonímia, extensão de sentido, analogia etc; e

  empréstimo de acepção que a palavra possui noutra língua. Seu étimo é do Francês polysémie, procedente do Grego polúsemos, os o, – que tem muitos sentidos (Grego poli = numeroso; sema = ato, sinal, marca + o sufixo ia.
  
Remédio” é, pois, como falei, noutros torneios, para o caixeiro do Depósito à avenida Jovita Feitosa, tudo aquilo – substância ou recurso – empregado não somente para combater uma doença ou fazer cessar uma dor, mas também o que serve para amatar sofrimentos morais, atenuar os males da vida, eliminar uma inconveniência, um mal, um transtorno.

Trata-se de um recurso, uma solução; aquilo que protege, auxilia, retifica falha ou defeito. É emenda, corretivo, “regulagem”, retificação.

Como vocábulo polissêmico por excelência, por exemplo, no campo jurídico, trata-se de providência para reparar um dano ou estabelecer relação de direito interrompida (“remédio jurídico”). A Penitência ou Confissão, terceiro Mandamento da Igreja Católica, é “remédio” religioso, ao passo que a seção do divã se trata de “remédio” psicológico.

Na sua ampla variação sinonímica, “remédio” é, ainda, droga, emenda, expediente, forma, jeito, maneira, medicamento, meizinha, curativo, penso, modo, recusa, saída, salvatório. 

Por que, então, remédio deixaria de ser veneno para acabar com as minhas saudabilíssimas “Periplanetae americanae” de estimação?

*Vianney Mesquita
Professor da UFC
Escritor e Jornalista
Membro da Academia Cearense 
da Língua Portuguesa
Titular da Cadeira de nº 22 da ACLJ

ARTIGO

IRRIGANDO A ATMOSFERA
*Por Cássio Borges


O problema da alta evaporação no espelho d’água do Açude Castanhão está detalhadamente exposto no livro que escrevi em 1999, intitulado “A Face Oculta da Barragem do Castanhão – Em Defesa da Engenharia Nacional”. Na realidade, essa megabarragem foi construída em local errado, tendo em consideração que na seção do Rio Jaguaribe onde ela foi construída não havia um boqueirão – uma garganta cavada entre duas serras – adequado para comportar um açude com 6, 7 bilhões de m3 de acumulação d’água.   

Para que isto fosse possível, os engenheiros responsáveis por esse megaprojeto tiveram que “construir” artificialmente um boqueirão, para que tal obra comportasse o volume  de água pretendido. Um absurdo!  Em consequência,  o comprimento dessa barragem ficou em 10.500 metros formando, assim, um imenso espelho d’água   em sua bacia hidráulica, exposto à evaporação.  Ironicamente, era como se quisessem fazer irrigação na atmosfera...  Para vocês terem uma ideia, a barragem do Açude Orós tem 600 metros de comprimento, e a do Açude Banabuiú, 1.200 metros.   

O pretendido Açude Castanheiro, previsto pelo DNOCS no Rio Salgado,  em Lavras da Mangabeira, teria apenas 90 metros de comprimento e uma acumulação de até 2 bilhões  de m3. Mas esta importante  obra foi descartada pela Secretaria de Recursos Hídricos do Estado o Ceará  para não prejudicar  (reter) a água que seria destinada ao  Açude Castanhão. São erros de engenharia ou desconhecimento da Ciência Hidrológica? Incompetência ou outros interesses? Vocês tirem suas próprias conclusões.

*Cássio Borges
 Engenheiro Civil
  Especialista em 
 Recursos Hídricos
Membro Honorário
       da ACLJ  



sábado, 14 de dezembro de 2013

SAUDAÇÃO AO NOVO ACADÊMICO BENEMÉRITO - IVENS DIAS BRANCO

"Ilustre Mesa Diretiva, que cumprimento na pessoa do nosso Presidente de Honra, o Senador Cid Carvalho. Senhores acadêmicos, meus confrades, que, na pessoa do nosso Presidente Rui Martinho Rodrigues eu saúdo. Particularmente, exalto o Dr. Ivens Dias Branco, grande homenageado desta noite, e a Dra. Graça da Escócia, essa juveníssima senhora, que tanto contribuiu para viabilizar esta homenagem. Dr. Igor Barroso, aqui representando sua digníssima avó, Dona Yolanda Queiroz, a Primeira Dama do empresariado cearense. Sr. Roberto Smith, representando o Governador Cid Gomes, Dra. Fátima Veras, Magnífica Reitora da Unifor, exemplo do grande valor da mulher cearense.  Demais autoridades, seleta plateia de familiares e convidados, meu pai e minha mãe aqui presentes, minhas senhoras e meus senhores.




Não se pode falar em Ivens Dias Branco sem falar do grupo empresarial que ele preside, assim como não se poderia falar em Bilac sem referir à poesia, nem citar Aldemir Martins sem remeter às artes plásticas,  pois todos esses são casos típicos em que o homem e a sua obra se confundem.

A empresa está completando seis décadas sob o comando do nosso homenageado, ou doze lustros, ou sessent’anos, como diria Olavo Dutra, um dos patronos perpétuos desta casa. E a firma conta mais vinte quatro anos desde a primeira padaria do saudoso pai e mentor do Dr. Ivens, o insigne Manuel Dias Branco.

Portanto, nos meus atuais 58 anos, que já não me são poucos, quando nasci em Fortaleza a empresa M. Dias Branco já era um patrimônio da cidade, servindo ao nosso povo o bíblico alimento, movimentando heroicamente a então muito pobre economia do Estado, na medida em que este mais empobrecia de algodão, e que os produtos da oiticica e da carnaúba perdiam espaço no mercado exterior.

A empresa Dias Branco, entretanto, crescia, passo a passo, step by step, ininterruptamente, fiel ao seu ramo de negócios, com determinação e denodo, e continuou crescendo enquanto na nossa pauta de exportações floresciam a castanha de caju e a lagosta, e enfim o Ceará conhecia melhores horizontes.

Na capital crescia a indústria de viagens (deflagrada pelo jornalista Stênio Azevedo, outro patrono desta Academia, que foi o nosso primeiro Secretário de Turismo) – e no interior se vencia a seca com a grande açudagem e a irrigação, sob os auspícios do DNOCS do Dr. Cássio Borges, nosso membro emérito honorário.


Como todos sabem, hoje a M. Dias Branco se expandiu e superou fronteiras, tornando-se um dos grandes orgulhos empresariais do nosso Estado, situando-se entre os portentos nacionais. Isso gera em cada cearense uma dívida moral para com essa empresa – mais precisamente para com o seu presidente, o capitão dessa nau gloriosa – a quem ora homenageamos, e que nos dá a honra de aceitar a homenagem.

Portanto, a alma de qualquer dos nossos conterrâneos deve uma reverência espontânea àquela fábrica engalanada de verde, a Fábrica Fortaleza, que perfuma a rodovia com o odor das bolachas, ao se adentrar a cidade homônima;

Bem como devemos uma mesura moral aos monumentais prédios que iluminam o Mucuripe, ostentando a marca do Moinho Dias Branco; também assim devemos um preito respeitoso à tradicional residência da família, na Av. Antônio Sales, projetada no passado pelo arquiteto Armando Farias, precocemente falecido, marido da poetisa Concita e pai do cronista Pedro Altino, membros desta Academia.

Empresa bem estruturada, que os empregados adoram e os clientes respeitam – e é como jornalista que o tenho percebido e registrado. Absolutamente correta nas suas condutas trabalhistas e fiscais, recolhendo impostos e oferecendo trabalho em grande número, sempre em sintonia com o poder público e preocupada em cumprir da forma mais ampla o seu papel na sociedade.


Ivens Dias Branco construiu um império industrial, mas se enganam os que pensam que o seu maior patrimônio sejam haveres da matéria. Pois ainda não é.  O grande  cabedal de Ivens Dias Branco está na memória do pai, na honradez do seu nome, nos imensos bens sociais que ele faz dimanar do seu trabalho. A grande fortuna desse homem, Senhores, são os muitos amigos, os milhares de empregados felizes, os milhões de clientes satisfeitos. Seu tesouro é principalmente a família, aqui presente, coesa e unida, que ele e sua mulher Consuelo produziram – uma riqueza de bens imateriais inestimáveis.

Enfim, esse é o retrato do homem que sucedeu ao pai nos negócios e os engrandeceu exponencialmente, a quem outorgamos hoje o laurel maior do silogeu, o título de Membro Benemérito. Pessoa cujo nome qualquer cearense deve temperar a garganta antes de pronunciar – e que nem mesmo o nosso Ceará Moleque, de Quintinho Cunha e Chico Anysio, que um dia vaiou o sol, ousa glosar com sua facécia irreverente.
  
Posto isso – deixem-me antes temperar a garganta: Hum! Hum! Francisco Ivens de Sá Dias Branco, seja bem vindo a esta modesta casa de letras, para constar entre os seus imortais, cujo lema latino é: “non male sedet, qui bonis adhaeret” (nunca faz o mal, quem aos bons faz companhia)".

Reginaldo Vasconcelos















POSSE DE IVENS DIAS BRANCO


Na noite da última quinta-feira, dia 12 de dezembro, a ACLJ promoveu sua segunda Assembleia Geral do ano, em que tomou posse na dignidade de Membro Benemérito o industrial Ivens Dias Branco, que está completando 60 anos à frente do Grupo M. Dias Branco.





O nome de Ivens foi proposto para essa investidura pelo jornalista e sociólogo Arnaldo Santos, que lhe vestiu a pelerine ritual, e o Secretário-Geral Reginaldo Vasconcelos foi incumbindo de fazer o discurso de saudação ao novo Acadêmico Benemérito.




Também falou, abrindo a solenidade, o Senador Cid Carvalho, Presidente do Honra da entidade. A mesa estava composta ainda pelo Presidente Rui Martinho Rodrigues, pelo homenageado, pela Magnífica Reitora da Unifor Fátima Veras, pelo diretor do Grupo Edson Queiroz, Igor Queiroz Barroso, pelo Sr. Roberto Smith, representando o Governador Cid Gomes, pelo ex-governador Lúcio Alcântara e pelo Desembargador Durval Aires Filho.



Na sequência, foi descerrado o retrato do saudoso Chanceler Edson Queiroz, pintura em óleo sobre tela que fará parte da galeria da ACLJ. O jornalista Edilmar Norões, titular da Cadeira de nº 3 da Academia, da qual Edson Queiroz é o Patrono Perpétuo, e o empresário Igor Queiroz, neto do retratado ilustre, fizeram o descerramento do quadro.  








Após a solenidade, que ocorreu no auditório da ACI, o homenageado ofereceu aos convidados um coquetel, no terraço da cobertura do Edifício Perboyre e Silva, e um show musical com o compositor Evaldo Gouveia.   





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sábado, 7 de dezembro de 2013

CONTO

UMA HISTÓRIA DE AMOR
*Por Rui Martinho Rodrigues

Renata amava Mário, que amava Lia, que amava Mário. Sim, e isso foi antes dos versos famosos. O triângulo assim formado desfez-se quando Mário casou com Lia, uma mocinha muito ingênua e recatada. Renata, moça muito desenvolta e experiente, para os padrões da época, mais conhecida como Renatinha, não se mostrou abalada.

Mário, tenente da Polícia Militar, era um sujeito muito refinado, contrastando com os seus colegas de corporação, entre os quais ainda havia muitos remanescentes dos tempos das volantes, que varavam os sertões, enfrentando cangaceiros. O tenente era um homem da cidade, dado aos livros, com acentuado gosto por literatura, principalmente poesia. Depois de umas doses, recitava sempre alguns versos de Camões e de outros bardos famosos. Também tinha muito gosto por História. Mas sua paixão maior era a bebida.

Na polícia o jovem tenente fez amizade com alguns colegas que também apreciavam o esporte de esvaziar copo. Lia, a jovem esposa, se desesperava com a bebedeira do marido. A mulher do tenente era uma mocinha ingênua e frágil, dominada por angústias. E era o tipo de pessoa que desabafa com todo mundo as tristezas que sente. As suas insatisfações com a prática esportiva do marido, campeão de levantamento de copo, não eram segredo pra ninguém.

Um sargento, da mesma corporação do tenente Mário, chegou a conversar com a jovem senhora sobre o assunto. Era um macumbeiro exímio. Garantiu que faria um “trabalho” e o maridão ia enjoar a bebida. Tinha que ser a meia noite. Tinha que ser a meia noite. Precisava de uma garrafa de cana e outros ingredientes. Dentro da Lia a mocinha ingênua e angustiada topou. Era um tempo em que havia mocinhas ingênuas, jovens senhoras sem malícia.


Uma noite em que o tenente estava como oficial de dia, no quartel, Lia e o sargento rumaram para uma encruzilhada, num subúrbio distante. Depois de muita cachaça o audacioso sargento abusou da mulher do tenente. Ao amanhecer, Lia estava bêbada, com os cabelos desalinhados e a roupa rasgada, meio desorientada, manifestando evidentes sinais de desespero.

O tenente, homem refinado, ao retornar ao lar não encontrou a jovem esposa. As horas passavam e nada de Lia. Lá pelo meio da tarde apareceu a desditosa senhora. Vinha acompanhada de um casal de velhos, moradores do subúrbio, por quem havia sido recolhida. Vestia uma roupa simples, da velhinha suburbana. Quando viu o marido chorou desesperadamente.


Dadas as explicações, Mário, homem de temperamento contido, formal, procedeu metodicamente, conforme o figurino dos tempos da brilhantina. Despachou os velhinhos, depois dos agradecimentos. Vestiu o uniforme e deu uma surra de espada na amada esposa. Depois chamou “um carro de praça”. Foi deixar a chorosa Lia na casa dos sogros. Repudiou a esposa. Dirigiu-se ao quartel e matou o sargento.

Embora o crime tenha sido praticado no interior do quartel, o tenente conseguiu evadir-se. O comandante decretou sua prisão. O oficial encarregado de prendê-lo, um tenente da sua turma na Escola de Polícia, procurou-o:

– “Macho véi”, o coronel mandou eu te prender. Onde é que a gente pode te esconder?

– Não amigo, é melhor acabar logo com isso. Vamos pro quartel. Eu me entrego.

– Não senhor. Vamos falar com o capitão Muniz. Duvido que ele concorde com isso.

O capitão Muniz, companheiro das práticas esportivas dos dois tenentes, muito bem classificado no campeonato de levantamento de copos, decidiu esconder o companheiro no sítio do pai, nos arredores da cidade. Afinal não era possível abandonar um amigo numa hora como aquela. E aquele sargento tinha que morrer, afinal, o atrevido abusou da mulher de um oficial. A coisa esfriou. Mário apresentou-se para não ser considerado desertor. Preso no quartel, passou a receber a visita do antigo amor: a Renatinha.
 
Julgado, Mário foi absolvido. E não foi sob a alegação de defesa da honra. Tendo se dirigido ao quartel, no dia da tragédia, Mário, aos gritos, com a mão na pistola, que permanecia no coldre, interpelou o sargento sobre o acontecido. Sabendo que a interpelação não era para brincadeira, o sargento desembainhou o sabre e avançou para o tenente, na presença de várias testemunhas.

O marido ofendido, por sua vez, saca da pistola e movimenta o ferrolho para engatilhar a arma. A bala “atravessa” na entrada do cano. Era uma “falha de alimentação”, na hora crucial. Não havia outra opção: o bravo tenente correu, com o sargento em seu encalço. Desenganchar uma pistola naquelas circunstâncias não é fácil. Mas o bravo tenente conseguiu, correndo ao redor de uma grande mesa, ou rodando em torno de uma coluna, conforme a versão (nenhuma tragédia tem uma só versão).

O audacioso sargento morreu e deu de presente a legítima defesa para o tenente, cuja honra havia ofendido, no tempo em que tal coisa exigia faxina com um detergente muito especial: sangue humano. Ainda mais se tratando uma personalidade formal, apreciadora de Camões e tudo mais.

Mário saiu da prisão e foi morar com a Renatinha. Não havia divórcio. União consensual era “mancebia”. Mas o casal viveu como se casado fosse, conforme a expressão forense, “more uxório”, isto é, da maneira mais respeitosa possível, durante vinte e tantos anos. Continuou a carreira na PM. Foi até major. Reformou-se como tenente-coronel. Continuou também a carreia esportiva: levantamento de copo. Veio a cirrose. A saúde do velho coronel agravou-se. Subitamente estoura a notícia: o coronel Mário voltou para dona Lia.

Quando o coronel estava morrendo, nos últimos momentos, buscou a paz com dona Renatinha, manifestando o desejo de vê-la, em sucessivos recados. Renatinha, sentindo o peso dos anos como o das mágoas, não atendeu ao pedido. Após o desenlace, Lia, com a cortesia dos casais de novela, mandou convidar Renatinha para a cerimônia fúnebre.

O convite foi rejeitado.

*Rui Martinho Rodrigues
Professor e Advogado
Presidente da ACLJ

Titular da Cadeira de n°10

RESENHA

JUSTICIABILIDADE – SUPERIOR TRIBUNAL FEDERAL

Por Vianney Mesquita*
(Sobre o livro de Antônio Colaço Martins Filho)


Descansa a dicção justiciabilidade de direitos fundamentais sociais na possibilidade de se reclamar judicialmente a garantia de tais direitos, no caso deste livro, em sede derradeira de recurso junto ao Excelso Pretório.

Assuntos dos mais preeminentes na senda prolígera do Direito é este trazido pelo Dr. Antônio Colaço Martins Filho para cotejo, aportando às opera jurídica do País contributo de peso, a fim de auxiliar na delineação doutrinária definitiva no referente aos entendimentos, muita vez equívocos, a respeito das decisões emanadas da Corte Suprema.

Importa saber, com efeito, se e de qual maneira os direitos de fundamento social assentando obrigação de fazer do Organismo Estatal são passíveis de exigência judicial.

O Dr. Martins Filho ajuntou, para colação e exame detido, 52 decisos do Máximo Tribunal, publicados de 1997 a 2009, referentes a processos petitórios de decisões de cunho mandamental, constrangendo o Executivo a aprestar condições reais para a prática dos direitos sociais a prestação.

Ao cabo de seu ensaio, restou manifesto o fato de o Forum Culmíneo do País haver protegido sob sua larga umbela a justiciabilidade dos direitos fundamentais sociais, com maior ou menor intensão, consoante maior ou menor proximidade dos direitos em relação ao valor fundamental da dignidade da pessoa humana (MARTINS FILHO,2010), tomando em conta a conformação positiva conferida pela Grande Carta de 1988 e as balizas lindeiras ínsitas nessa Constituição, bem como nela explícitas, vertidas, particularmente, nos Princípios da Reserva dos Poderes e da Reserva do Possível.

Ao compulsar este livro, tem o leitor o ensejo de apreciar, conforme o fiz com imenso aprazimento, o matemático emprego do jargão forense, fato a exigir, para sua consecução, a exata aplicação das regras e da elocução na língua de Clóvis Bevilacqua. 

Isto porquanto o autor, sobre ser distinto prelecionador do léxico jurídico, cultua, também, com inusitado apego estético, as delícias deste código no qual se expressa o titular de uma das cadeiras da Academia Cearense da Língua Portuguesa, o jurista Prof. Dr. Paulo Bonavides.

A julgar, por conseguinte, pela preeminência temática do volume, bem assim em razão do seu bem reflexionado teor, penso poder este ser adotado como referência para disciplinas dos diversos programas de pós-graduação, lato e stricto sensu, do Brasil, Portugal e demais nações lusófonas, sucesso, sem dúvidas, de honrosa elevação para as letras forenses brasileiras.
*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CRÔNICA

PARA UM SÓ BANQUETE
Por Paulo Maria de Aragão*

As pessoas tendem a acreditar que as coisas más só acontecem aos outros e não se desapegam dos bens transitórios, ao esquecerem que desta vida se leva apenas o que se dá. Grandes crimes da humanidade sempre foram perpetrados por tiranos, hostis à sabedoria pontificada pelos ensinamentos de Jesus Cristo. Assim, cristãos eram conduzidos ao Coliseu romano onde as feras lhes dilaceravam as carnes para o divertimento superior. Modernamente, a carnificina pode ser vista com o uso de aparelhagem sofisticada, movida pelo mesmo instinto de ferocidade.

Manifesta também é a violência na miséria, lançada pela corrupção, de propagação epidêmica, manipulada pelo “príncipe” e asseclas que dilapidam o erário conscientemente, indiferentes ao dever da boa governabilidade. Os melhores homens não vivem para construir fortunas, o que os move é a esperança de serem úteis a uma boa causa. Poderão enfrentar obstáculos, porém deixarão um nome acatado e a morte fecundará os atos de suas vidas.
Invoque-se, por tempestivo, o fim da jornada material no desfecho da peça em que Shakespeare faz Hamlet, o príncipe da Dinamarca, dizer verdades ao rei: “É possível que alguém pesque com o verme que comeu um rei, e depois coma o peixe que engoliu o verme”. Retruca, então, o soberano: “Que queres dizer com isso?”. Aquele responde: “Nada, apenas, mostrar-vos como um rei pode viajar pelas entranhas de um mendigo”. O diálogo evidencia o findar de qualquer superioridade existencial de um indivíduo sobre outro.
Desse modo, quão doloroso é conhecer a pobreza depois de uma vida na opulência! Da mesma forma, ser belo e ver passar o tempo! Esse tempo contínuo, indefinido e irreversível, que deforma o corpo num descenso inevitável. Esse tempo, que impulsiona projetos e sonhos, que levará ao esquecimento os soberbos após o velório e a missa de sétimo dia. Dá-se, assim, continuidade à jornada visceral de todos, apesar de sucessores de “príncipes” permanecerem obstinados como todo-poderosos.

Aportou-se no terceiro milênio. As práticas são as mesmas do mundo velho. A convivência social se embrutece, e a miséria mantém-se como bom negócio político. Tudo se banaliza. O assunto é a eleição e, inacreditável, cogitam-se nomes para 2018! Estarão vivos?

Descortina-se mais um Natal. Presépios expostos nos templos e nos lares. Cintilam enfeitadas e vistosas árvores. Paira no ar a evocação à decantada festa. À meia-noite de 24 para 25 de dezembro, os sinos repicam chamando os fiéis para a missa do galo, hoje restrita em função da violência. Presenteia-se quem não precisa. Em profusão, enviam-se cartões de boas-festas a destinatários tirados à toa de listas telefônicas, muitos já habitando novas dimensões.

Neste caleidoscópio de relações da sociedade tida como moderna, a ceia natalina clama reflexão por uma vida sentida e não meramente vivida. Como já dito, Hamlet surpreende o rei sobre o destino dado a Polônio: “Numa ceia? Onde?” Para dele ouvir: “Não onde come, mas onde é comido”. Certa assembleia de vermes políticos está com ele agora: o verme é o único imperador da dieta, cevamos as demais criaturas para que nos engordem, mas nós mesmos nos cevamos para as larvas. O rei gordo e o mendigo esquelético são apenas iguarias diferentes, dois pratos diversos, contudo destinados a um só banquete.

*Paulo Aragão
Advogado, professor e membro
do Conselho Estadual da OAB-CE. 
Titular da Cadeira nº37 da ACLJ