quinta-feira, 17 de setembro de 2026

QUADRÍPTICO LITERÁRIO - (FSNF)

 QUADRÍPTICO LITERÁRIO
(Mote: Habilidade Natural – HN)
Sousa Nunes*

 

Somente o influxo da arte comunica durabilidade à escrita. Só ele marmoriza o papel, transformando a pena em escopro. (RUI BARBOSA DE OLIVEIRA. Salvador, 5.11.1849; Petrópolis, 1.3.1923).


Notações do Editor da Vernáculo 

Well Moraes

   

Esta conjunção de quatro breves textos foi procedida com base em publicações efetuadas, em conexão com a internet, em órgãos distintos e com arrimo na dicção da inventiva de Vianney Mesquita,  conforme à frente mencionada --, a fim de se mostrar na Vernáculo – revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa - o acolhimento, favorável à ideação do produtor da seção de abertura deste quadríptico linguístico, da parte de três paredros da Codificação Lusitana aqui em Fortaleza, conforme consta à continuação. 

O tema concerne à opinião ali expressa, contraposta à noção de Inteligência Artificial (hoje sob exagerado crédito e, muitas vezes, erroneamente empregada) Habilidade Natural – novel dicção originada do seu autor, partícipe dos quadros da mencionada ACLP, conforme o são os assinantes das peças três e quatro. Entrementes, o escritor, cearense de renome, Reginaldo Vasconcelos, Presidente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, responde pela seção 2 deste pequeno complexo textual. 

 

1 Habilidade Natural - HN

Vianney Mesquita

        


                

 Seja qual for a linguagem que empregares, somente aplicarás o que és. (RALPH WALDO EMERSON – escritor e filósofo estadunidense. Boston, 25.5.1803; Concord, 27.4.1852)

       

Em razão de entender como absolutamente necessário, acho oportuno declarar que, nas escritas por mim produzidas e publicizadas, onde quer que o sejam, somente recorro à HABILIDADE NATURAL – HN, com suporte em estudos efetivados em estabelecimentos escolares amparados pela legislação nacional, por intermédio de pessoas afeitas a matérias diversas, em universidades e ambientes de prova (laboratórios, exempli gratia), bem como em informações obtidas com amparo na autodidaxia praticada à extensão da experiência.  

Em adição  e esta é a ocasião de o atestar  ao fazer menção a obras e ideações doutros produtores desses bens, como instituições e órgãos semelhados, procedo às notações bibliográficas das quais me vali, consoante as ordenações legais do País, em particular, do direito autoral, inclusas as preceituações da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. 

Entendo que, à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – IA, conquanto seja magnificamente aditada no tempo fluente, porém com estremas de emprego, só é factível de a ela se socorrer em situação de dúvidas as mais diversas – por exemplo, de natureza histórica – conforme se procede com as consultas a dicionários, volumes gramaticais e correlatos. 

Assim, toda escrita e qualquer produto editorial assente na IA e não na HN, embora, como divisado hodiernamente, em textos “magnificamente” escritos (às vezes com 90 por cento de “auxílio” da IA e não pelos autores), deixa de retratar intenção e SABER NOVO, no entanto, somente repetição do que já se encontra exprimido em achados naturais e descobertas de investigadores, quer em tempos recentes ou em períodos mais transatos.  

Conquanto o pensamento ora exposto seja suscetível de contestação do lado de quase cem por cento da comunidade leitora nos países de Língua Portuguesa, a mim não me custa o conduzir pela via deste meio de propagação coletiva, de sorte a conformar até obrigação o ato de exteriorizá-lo.

 

2 Nova Expressão – Habilidade Natural

Reginaldo Vasconcelos

     


  
A língua é o trajo do pensamento. (SAMUEL JOHNSON – escritor britânico. Lichfield, 18.9.1709; Londres, 13.12.1784)             

 

Na manhã de 21 de agosto de 2026, telefonou-me o confrade Stênio Pimentel, demonstrando-se ainda assente na disciplina rígida da sua formação de “homem do mar”, que militou na Armada do Brasil, na fase áurea da sua juventude. 

Ele ainda está afeito à formalidade de quem, na maturidade, foi longamente enquadrado nos rigores funcionais da administração bancária, exercida em várias instituições financeiras, nacionais e estrangeiras.  

Ligou, então, para, em posição de sentido e em continência, comunicar a este Presidente haver aplicado um neologismo autoral em mensagem que postou no nosso Grupo de WhatsApp. 

Explicou que a palavra por ele aplicada, dirigindo-se carinhosamente a um coirmão da entidade, não repousa nos dicionários do idioma português, e que, portanto, ainda não está abonada pela lexicografia nacional.  

Esse telefonema e o seu teor, por uma coincidência magnífica, tangenciam o texto do dia anterior, remetido ao Blog pelo Professor Vianney Mesquita, um terceiro confrade, o maior experto em linguística românica da nossa Academia. 

No seu artigo Habilidade Natural, o Mestre Vianney inaugura essa expressão (HN), fazendo um contraponto à novel “Inteligência Artificial” (IA), e frisando que não a aplica na sua lavra literária, porque segue o próprio cabedal intelectual, citando as fontes dos estudos que empreende.  

Os dois abordam aspectos semelhantes, mas distintos, quando Vianney propugna pelo uso clássico da língua, ainda que de forma original e criativa, enquanto o Stênio revela que os dicionários são fontes relativas de consulta, já que apenas reúnem termos encontradiços em obras gráficas que os lexicógrafos coligiram.  

Assim, as edições dicionárias, analogicamente, são como papagaios que aprenderam e registram muitos verbetes, que se atualizam em novas edições – como outros louros que aprendam a falar. Se, porém, os vocábulos elencados estão corretamente escritos e aplicados, só os filólogos o dirão.  

Criar neologismos, com efeito, é perfeitamente permitido aos redatores cultos que precisem suprir lacunas semânticas no idioma que dominam, a bem da clareza, da sintonia fina da retórica e do discurso, DESDE QUE aplicando radicais condizentes com o latim, o grego, o árabe e com a gramática primordial do idioma. 

Vianney Mesquita, por seu turno, expressa nas entrelinhas que a IA tem sabença de textos alheios de que vai sendo informada e de que se vai apropriando, para aplicar combinações mais ou menos coerentes, porém não possui sapiência própria para criar fórmulas de dizer de maneira bela e correta, inovando artisticamente ao comunicar a humana cerebração, que é insuperável.  

       

3 A propósito da Habilidade Natural, 

de Vianney Mesquita       


Ítalo Gurgel     

                        

A língua é uma cidade para cuja construção cada ente humano contribuiu com uma pedra. (R. W. EMERSON)       

 

O texto do Vianney, confrade ilustre e amigo preclaro, distingue-se, desde o título, pela agudeza de uma formulação que contrapõe à Inteligência Artificial a expressão Habilidade Natural — HN, achado vocabular ao mesmo tempo engenhoso e provocador. 

A declaração afronta tema de incontestável atualidade e o faz sob perspectivas particularmente relevantes: a autoria, a honestidade intelectual, a formação do conhecimento, o respeito às fontes e a responsabilidade de quem subscreve e publica um texto. 

Fiel à sua reconhecida erudição e ao zelo que sempre dedicou ao vernáculo, o autor não se limita a registrar uma preferência pessoal: suscita uma reflexão necessária sobre os limites entre o auxílio instrumental e a substituição do trabalho criador. É possível seconcordar ou não, integralmente, com a rígida separação estabelecida entre HN e IA; permanece, contudo, o mérito maior da declaração: lembrar que nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, dispensa o discernimento, a experiência, a consciência ética e a responsabilidade autoral. 

Num tempo em que a tecnologia frequentemente se antecipa à reflexão sobre os próprios efeitos, Vianney traz ao debate uma advertência lúcida, corajosa e oportuna. 

 

4 HABILIDADE NATURAL, de Vianney Mesquita,
e o risco da maquinização do humano

Sousa Nunes

 

A linguagem é a morada do ser. (MARTIN HEIDEGGER, pensador e reitor acadêmico alemão. 26.09.1889 – 26.05.1976).

 

O breve e indispensável artigo do confrade Vianney Mesquita sobre a Habilidade Natural — HN, em face da Inteligência Artificial, é uma defesa da dignidade do ato de pensar. E, vindo de sua lavra, não surpreende que a reflexão se exprima pensada, cogitada e ponderada, numa linguagem primorosa, em que o erudito convive, sem afetação, com a harmonia da língua.  

Concordo com o citado mestre, quando reivindica, para a criação intelectual, a primazia de experiência, leitura, investigação, memória cultivada e exercício pessoal da inteligência. A máquina é capacitada a consultar, ordenar, combinar e restituir, com espantosa velocidade, o que o engenho humano acumulou. Existe, entretanto, a distância essencial entre a informação recomposta e o pensamento amadurecido – o conluio da resposta instantânea com o saber conquistado na intimidade silenciosa da reflexão. 

Eis um dos grandes perigos atuais: a fase da máquina está a destruir o tempo humano. Este é aquele de leitura demorada, escuta, reflexão e contemplação. É o período em que uma ideia repousa em nós antes de encontrar a palavra que a exprima. A época da máquina é a mesma da pressa, do automatismo, resposta imediata, superfície. E, quando a velocidade substitui a meditação, sobra depauperado, também, o vocabulário — e, empobrecendo-se a linguagem, estreita-se o próprio mundo interior. 

Heidegger deixou-nos a luminosa advertência, exprimida à epígrafe, de que a linguagem é a morada do ser. Se habitamos o mundo pela linguagem, perder a intimidade com as palavras é, de algum modo, desperdiçar parcelas de nós mesmos, porquanto somos também o que conseguimos nomear, pensar e dizer. Por isso, abandonar a escrita pensada, criativa, reflexiva e contemplativa significa consentir, pouco a pouco, que ocorra uma perigosa maquinização do humano.  

E ocorre-me Manuel Bandeira, no inesquecívelMomento num café” (em Estrela da Manhã, 1936): diante do enterro que passava, todos cumpriam maquinalmente o gesto convencional; apenas um homem interrompeu o automatismo e descobriu-se, por um instante, diante da vida, da morte e do mistério de existir. A palavra decisiva talvez seja esta: maquinalmente. Há o risco de que estejamos ingressando numa civilização que lê automaticamente, escreve instintivamente, responde inconscientemente, e, por fim, vive maquinalmente – unificando as referidas moções comunicativas. 

É contra esse empobrecimento que o valioso texto do erudito Vianney Mesquita adquire especial oportunidade. Conduz-nos a lembrar de que nenhuma tecnologia deveria dispensar o ser humano da aventura insubstituível de formar o próprio pensamento.  

Parabéns, doutíssimo confrade e ínclito mestre palmaciano. Sua reflexão merece os mais elevados encômios, porque, ao defender a Habilidade Natural, postula, em última instância, o que ainda nos cabe preservar: a soberania da inteligência humana, o lavor da palavra e o tempo interior sem o qual não há verdadeira criação.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário