O
esquerdismo e
as
sombras da caverna
Sávio Queiroz Costa*
No Livro VII de A República, Platão descreve homens que vivem acorrentados, desde a infância, no interior de uma caverna. Imobilizados, enxergam apenas uma parede sobre a qual são projetadas sombras produzidas por uma fogueira. Como nunca conheceram outra realidade, tomam aquelas imagens pelo mundo verdadeiro. Para eles, a sombra não é uma representação das coisas: é a própria coisa.
Quando retorna para libertar os antigos companheiros, é recebido com desconfiança e hostilidade. Seus olhos, desacostumados à escuridão, já não distinguem bem as sombras. Os prisioneiros interpretam isso como prova de que sair da caverna o tornou confuso e perigoso. Preferem a segurança da ilusão conhecida à inquietação de uma verdade que exigiria rever tudo aquilo em que sempre acreditaram.
A alegoria oferece uma poderosa chave para compreender o esquerdismo, quando ele abandona a condição de pensamento político e assume a forma de uma visão total do mundo.
Nesse ambiente, a ideologia converte-se em caverna. As correntes já
não são feitas de ferro, mas de palavras de ordem, categorias rígidas, culpas
coletivas e certezas morais. As sombras são narrativas selecionadas e repetidas
até adquirirem aparência de verdade incontestável. Os responsáveis pelas
projeções podem ser partidos, movimentos, intelectuais, artistas,
universidades, meios de comunicação ou burocracias que se atribuem a
prerrogativa de decidir quais ideias são legítimas e quais devem ser afastadas
do debate.
Tudo passa a ser interpretado segundo o mesmo roteiro. A sociedade divide-se entre opressores e oprimidos; as diferenças individuais desaparecem sob identidades coletivas; o mérito torna-se suspeito; o fracasso é sempre atribuído a estruturas externas; e a discordância deixa de ser um erro intelectual para transformar-se em falta moral. Já não basta demonstrar que o adversário está equivocado: é preciso apresentá-lo como mau, ignorante ou indigno de participar da discussão.
É nesse ponto que a ideologia começa a substituir a realidade.
Quando um fato confirma a narrativa, ele é celebrado como evidência definitiva. Quando a contradiz, é relativizado, omitido ou desqualificado. Em vez de permitir que os acontecimentos corrijam a teoria, exige-se que os acontecimentos se curvem a ela. A experiência concreta perde importância diante da explicação previamente estabelecida. Não se investiga para descobrir a verdade; selecionam-se fragmentos do mundo para confirmar aquilo em que já se decidiu acreditar.
A linguagem exerce papel central nesse processo. As palavras deixam de servir apenas à descrição da realidade e passam a funcionar como instrumentos de controle. Certos termos são proibidos, outros recebem significados inteiramente novos, e conceitos vagos são empregados para encerrar discussões, antes mesmo que elas comecem. Quem domina o vocabulário tenta também delimitar o pensamento, pois aquilo que não pode ser nomeado dificilmente pode ser discutido.
O policiamento da linguagem produz o policiamento da consciência.
Surge, então, a figura do dissidente: aquele que ousa virar a cabeça e perceber a fogueira por trás das sombras. Pode ser alguém que pertenceu à própria esquerda, mas começou a questionar suas contradições; um intelectual que se recusou a ajustar os fatos à doutrina; ou simplesmente um cidadão que observou uma distância crescente entre o discurso e a vida real.
A reação contra ele costuma ser reveladora. Em vez de responder aos seus argumentos, procura-se desabonar sua pessoa. A dúvida é tratada como traição; a independência, como desvio; a ironia, como ofensa intolerável. O indivíduo deve ser rotulado, isolado e, quando possível, silenciado. Assim como os prisioneiros de Platão preferem atacar aquele que regressa à caverna, o militante dogmático frequentemente combate quem ameaça romper o confortável cenário das sombras.
Há uma razão humana para essa resistência. Abandonar uma ideologia não significa apenas mudar de opinião. Pode significar perder amizades, prestígio, pertencimento e até uma identidade construída durante anos. A caverna oferece segurança: nela, o mundo é simples, os culpados estão previamente identificados e todas as respostas parecem disponíveis. Do lado de fora, porém, existe a complexidade – e a complexidade exige humildade.
A verdade raramente se apresenta pura, imediata e conveniente. Como a luz do Sol para o prisioneiro recém-libertado, ela pode doer. Obriga-nos a reconhecer erros, abandonar slogans e admitir que pessoas das quais discordamos talvez estejam certas em determinados pontos. Pensar livremente não é trocar um conjunto de certezas por outro, mas aceitar o risco permanente de rever as próprias convicções.
Por isso, a crítica ao esquerdismo não deve conduzir à construção de uma caverna de sinal contrário. Também a direita, o conservadorismo, o liberalismo, o nacionalismo e a religião podem degenerar em sistemas fechados, incapazes de tolerar perguntas. A alegoria de Platão não concede certificado de lucidez a nenhum grupo político. Ela nos adverte de que todo ser humano pode confundir a parte com o todo, a versão com o fato e a sombra com a realidade.
A caverna começa quando uma ideia se declara imune ao questionamento.
Começa quando a fidelidade ao grupo vale mais do que a honestidade intelectual; quando o adversário deixa de ser alguém com quem se debate e passa a ser um inimigo que precisa ser eliminado moralmente; quando a censura recebe nomes virtuosos; e quando a mentira se torna aceitável por estar supostamente a serviço de uma boa causa.
Combater o esquerdismo dogmático, portanto, não é perseguir pessoas nem negar a legitimidade de toda preocupação social. É recusar a pretensão de que uma doutrina detenha o monopólio da virtude, da compaixão e da verdade. É defender o direito de examinar ideias sem pedir licença, confrontar narrativas com fatos e discordar sem ser condenado ao silêncio.
Sair da caverna é um exercício permanente. Nenhum de nós conquista definitivamente a luz; todos carregamos preconceitos, interesses e zonas de cegueira. A liberdade intelectual exige vigilância, inclusive contra nossas próprias certezas.
A luz não pertence à direita nem à esquerda. Pertence à verdade — e a verdade não teme perguntas.
O esquerdismo transforma-se em caverna quando projeta suas
narrativas na parede, chama as sombras de realidade e persegue quem ousa
caminhar em direção à luz. Libertar-se é recuperar o direito de olhar para o
mundo sem os filtros da ideologia e ter coragem de enxergá-lo como ele é, não
como alguém determinou que deveria ser.

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