Rosa Montemurro Grieco:A Escolha Um ensaio sobre Rosa Luiz Rego Filho*
Há histórias de família que resistem ao esquecimento não por sua grandiosidade, mas por sua economia. Não precisam de guerras ou de tronos para justificar sua permanência na memória. Basta que alguém, um dia, tenha feito uma sopa, arrumado duas malas e ficado sozinha num cais olhando um navio desaparecer no horizonte. Esta é a história de Rosa Montemurro Grieco.
Há acontecimentos que, se fossem inventados, pareceriam exagerados. Mas a vida não tem compromisso com a verossimilhança. Acontece. Depois, deixa aos sobreviventes o trabalho de encontrar algum sentido.
I. Uma sopa, uma morte
Toda tragédia doméstica tem um antes tão banal que dói lembrar.
Rosa era casada com Giovanni Grieco, sapateiro na Avenida Mem de Sá, no Estácio
— bairro que, sem saber, gestava naquela mesma década o samba que atravessaria
o século. Giovanni trabalhava com sapatos: vendia-os, consertava-os, sustentava
com aquele ofício uma casa cheia de crianças.
Legumes, feijão, massa ou arroz, verduras: o que a estação oferecesse e o que a despensa permitisse. Talvez por isso seja tão apropriado que apareça nesta história logo no início. O minestrone é, por natureza, uma comida de adaptação. Quando voltou para servi-lo, Giovanni estava debruçado sobre a mesa.
Morto.
Um infarto fulminante havia transformado, em poucos minutos, uma esposa em viúva, cinco crianças em órfãs, e um filho ainda por nascer em herança póstuma de um nome. Meses depois, nasceria o menino. Chamar-se-ia Giovanni — como se, diante da morte, Rosa só conseguisse responder com a repetição de um nome, uma pequena obstinação contra o desaparecimento. Mas nomes não pagam contas. E as dificuldades vieram, junto com um golpe que levou o pouco que restava. E aquela mulher, agora com seis filhos, precisou enfrentar uma das perguntas mais cruéis que podem ser feitas a uma mãe: Como salvar todos quando não se pode manter todos ao lado de si?
II. A decisão
Na Basilicata, em Lauria – cidade dividida em duas margens pelo torrente Caffaro, ainda com as cicatrizes recentes da Primeira Guerra – viviam os pais de Rosa: André Montemurro e Maria Domingas Gargano. Cartas atravessaram o Atlântico antes que qualquer filho o fizesse. E, em algum ponto dessa correspondência silenciosa, tomou-se a decisão. Pietro Francisco Grieco, com cerca de cinco anos, e o pequeno Giovanni Grieco, com aproximadamente três, seriam enviados à Itália. Viveriam com os avós.
Dizer “enviados” é uma palavra limpa demais para o que realmente aconteceu: uma mãe dobrando roupas pequenas em duas malas, tentando explicar a crianças que ainda não tinham idade para compreender distância o que significava um oceano. E então, o cais.
Praça Mauá. Rio de Janeiro. Década de 1920.
Dois meninos pequenos não poderiam simplesmente embarcar sozinhos num navio transatlântico. Rosa encontrou pessoas que viajariam para a Itália e, de alguma maneira que a memória familiar já não consegue reconstruir inteiramente, aquelas pessoas assumiram a responsabilidade pelas crianças durante a travessia.
E então aconteceu o impensável. A mãe ficou. Os filhos partiram. Dezessete dias de mar – uma eternidade sem telefone, sem fotografia, sem certeza alguma além da fé. Hoje, quando atravessamos um oceano em algumas horas, talvez seja difícil compreender o significado daqueles dezessete dias. O navio desaparecia no horizonte e, com ele, desaparecia qualquer possibilidade de saber imediatamente se as crianças estavam bem, se haviam adoecido, se choravam, se perguntavam pela mãe. Não havia telefone no bolso. Não havia mensagem. Não havia fotografia chegando no mesmo instante. Havia o oceano.
III. Do outro lado do oceano
Depois de aproximadamente dezessete dias de mar, Pietro e Giovanni chegaram à Itália. Mas a Itália para a qual aquelas duas crianças brasileiras foram enviadas não era a Itália das fotografias turísticas que conheceríamos muitas décadas depois. Era uma Itália que acabara de sair de uma guerra. E Lauria também carregava suas cicatrizes.
A pequena cidade da Basilicata, na província de Potenza, estava dividida em duas partes – Lauria Superiore e Lauria Inferiore – separadas pelo torrente Caffaro e assentadas entre montanhas do sul da Itália. Era uma terra de relevo difícil, de agricultores, artesãos, pequenos comerciantes e famílias acostumadas havia gerações a fazer contas com aquilo que a terra e o trabalho conseguiam oferecer. Pietro e Giovanni chegaram a uma cidade de pouco mais de dez mil habitantes – suficientemente pequena para que as famílias se conhecessem e suficientemente grande para que a ausência também tivesse endereço.
A guerra terminara poucos anos antes. Mais de cem homens de Lauria, jovens e adultos entre dezoito e quarenta anos, haviam partido para a Primeira Guerra Mundial e não voltaram. Seus nomes ficaram numa lápide. Mas antes de ficarem na pedra, ficaram nas casas. Havia mães sem filhos. Mulheres sem maridos. Crianças sem pais. Homens que tinham voltado diferentes daqueles que haviam partido.
Pietro e Giovanni talvez fossem, naquele lugar, apenas mais dois meninos sem pai. A diferença é que o pai deles não ficara numa trincheira. Giovanni Grieco morrera diante de uma mesa, no Rio de Janeiro, enquanto Rosa preparava um minestrone. E agora seus filhos estavam do outro lado do Atlântico.
Esperava-os André Gargano, o avô. Com ele e Maria Domingas Montemurro começaria outra infância. Não sabemos exatamente como era a casa, em que cômodo dormiam, qual foi a primeira refeição que receberam, se choraram naquela primeira noite — essas coisas a documentação talvez nunca consiga devolver. Mas sabemos alguma coisa sobre o mundo que existia ao redor deles.
Lauria era uma terra de partidas. Durante décadas, homens e mulheres da Basilicata haviam atravessado o oceano em direção às Américas. Havia uma palavra que, provavelmente, não precisava ser explicada às crianças: América. Podia ser Estados Unidos. Podia ser Argentina. Podia ser Brasil. Podia ser um irmão que havia partido, um tio que mandava dinheiro, um primo do qual chegava uma carta, um vizinho que desaparecera da rua e reaparecia anos depois falando de Nova York, Buenos Aires, São Paulo ou Rio de Janeiro.
Naqueles primeiros anos depois da guerra, a vontade de partir continuava enorme. Em 1920, milhares de pessoas deixaram a Basilicata. Era como se o oceano não separasse apenas dois continentes. Separasse duas possibilidades de vida. De um lado, a aldeia, a montanha, a família, a terra conhecida. Do outro, a promessa. E toda promessa de emigrante contém uma mentira necessária: a de que partir é apenas partir. Nunca é. Parte quem embarca. Mas parte também alguma coisa de quem fica. Rosa sabia disso no Rio de Janeiro. André e Maria Domingas talvez soubessem disso em Lauria. E Pietro e Giovanni aprenderiam sem que ninguém precisasse lhes explicar.
Curiosamente, enquanto aqueles dois meninos faziam o caminho inverso – do Brasil para a Itália – muitos italianos sonhavam justamente com o caminho contrário. Eles chegavam à terra da qual tantos queriam sair. Mas a América começava a fechar algumas de suas portas: os Estados Unidos estabeleceram cotas de imigração em 1921 e tornaram-nas ainda mais restritivas em 1924. Para muitos italianos, principalmente do sul, aquele antigo sonho americano tornava-se mais difícil. Outros destinos ganharam importância – Argentina, Brasil, outras Américas.
É possível imaginar as conversas em alguma casa de Lauria: “Quem recebeu carta da América?”; “Fulano vai partir”; “O dinheiro chegou”; e talvez, em alguma delas, alguém apontando para Pietro e Giovanni: “Esses vieram do Brasil”; Havia uma pequena ironia naquela história: enquanto adultos italianos procuravam uma maneira de atravessar o oceano em busca de futuro, duas crianças atravessaram o mesmo oceano em sentido contrário porque sua mãe, no Brasil, já não conseguia garantir-lhes aquele futuro.
Mas havia ainda outra transformação acontecendo. A Itália estava inquieta. A guerra terminara, mas a paz não trouxera imediatamente tranquilidade. Vieram conflitos sociais, dificuldades econômicas, disputas políticas e violência. Em 1922, Mussolini chegou ao poder.
O fascismo começou a ocupar o Estado, as ruas e, progressivamente, a vida cotidiana. Pietro e Giovanni cresceriam justamente durante esses anos: enquanto aprendiam a viver com os avós, a Itália também aprendia – ou era obrigada a aprender – a viver sob um novo regime.
Talvez as crianças não compreendessem nada disso. Crianças raramente sabem que estão vivendo dentro da História. Para elas, História era outra coisa: era frio, era fome, era brincar, era receber uma bronca do avô, era aprender uma palavra e esquecer outra, era perguntar pela mãe – até deixar de perguntar.
Este talvez tenha sido o verdadeiro perigo que Rosa não podia calcular quando arrumou aquelas duas pequenas malas no Rio de Janeiro. Ela sabia que seus filhos atravessariam o oceano. Não sabia que atravessariam também a infância.
IV. Oito ou nove anos
Rosa guardava na memória os meninos que deixara no cais. Mas os meninos não permaneceram aqueles meninos. Cresceram em direção aos avós, que passaram a ocupar – silenciosa, inevitavelmente – o espaço cotidiano do afeto.
Oito ou nove anos não são apenas oito ou nove anos quando se começa com três ou cinco.
São quase uma vida inteira.
Quando Pietro e Giovanni finalmente fizeram novamente o caminho de volta, já não eram as crianças que Rosa havia colocado no navio. Lauria lhes dera uma casa. André e Maria Domingas lhes deram criação. A Itália lhes dera outra infância. E o tempo fizera o restante. Anos depois, decidiu-se o regresso. Outra travessia, mais quinze ou dezesseis dias de mar.
V. O reencontro
No cais da Praça Mauá, novamente, Rosa esperava – vestido cinza desbotado, um pequeno chapéu na cabeça, e uma expectativa que nenhuma palavra consegue medir. Ela reconheceria os filhos. Mas será que os filhos reconheceriam a mãe?
Alguém que acompanhava os rapazes indicou: aquela era a mãe deles. Pietro, então com cerca de treze ou quatorze anos, tinha passado praticamente toda a infância em Lauria e um temperamento mais atrevido; Giovanni, mais novo e mais quieto, estava ao seu lado.
Pietro dirigiu-se àquela mulher. Não em português – a língua que talvez já não fosse inteiramente sua – mas em italiano, a língua das ruas de Lauria, dos avós, da escola, dos amigos de infância, e daqueles oito ou nove anos que o separavam do Brasil.
– Piacere di conoscerla, signora. Prazer em conhecê-la, senhora.
Não houve grosseria. Não houve rejeição, nem voz alterada. Pietro fez algo mais devastador, sem sequer compreender inteiramente o que fazia: tratou a própria mãe como uma desconhecida, na língua da distância que ela mesma, para salvá-lo, o obrigara a aprender.
Talvez nenhuma acusação pudesse ter ferido Rosa tanto quanto aquela educação. Ele não a insultara. Não a rejeitara. Não levantara a voz. Chamou-a de signora. E talvez estivesse justamente nessa palavra a dimensão inteira da tragédia: a mulher que o carregara no ventre, que o alimentara, que arrumara sua pequena mala e tivera coragem de colocá-lo num navio para que pudesse sobreviver, transformara-se, depois de tantos anos de ausência, numa senhora. Numa desconhecida.
E havia ainda uma crueldade involuntária maior: Rosa enviara o filho à Itália justamente para não perdê-lo. Ele voltou vivo – mas voltou falando a língua que provava exatamente o quanto havia sido perdido.
Há, guardadas todas as diferenças históricas, um eco remoto de A Escolha de Sofia. Não porque as situações sejam equivalentes – não são. Sofia enfrentou a violência absoluta de um carrasco nazista, obrigada a uma escolha monstruosa entre os filhos. Rosa não tinha um soldado diante de si. Tinha a pobreza. Tinha seis filhos. Tinha a viuvez. Tinha as contas. Tinha o Atlântico. Tinha aquela forma silenciosa de violência que a necessidade exerce quando transforma decisões impossíveis em decisões necessárias.
Talvez, por isso, a pergunta certa não seja “por que Rosa mandou os filhos embora?”, mas sim: “o que teria acontecido se não os tivesse mandado?”. Nunca saberemos. Essa é a crueldade das escolhas verdadeiras: conhecemos as consequências do que fizemos, jamais as do que deixamos de fazer.
Pietro voltou. Giovanni voltou. Estavam vivos. Tinham sido criados pelos avós. Sob certa perspectiva, a decisão de Rosa dera certo. Mas existe uma contabilidade que não cabe em livros-caixa – e o preço apareceu no cais, pronunciado por um adolescente em italiano.
VI. O que restou
A vida, porém, não tem cerimônia. Depois da tragédia, vem o dia seguinte. Depois do choro, alguém precisa preparar o almoço. Depois do enterro, há roupa para lavar. Depois da separação, crianças continuam sentindo fome. E Rosa continuou. Criou os filhos. E novamente aparece o minestrone: a sopa que preparara para Giovanni no dia em que ele morreu tornou-se também símbolo da sobrevivência da família. Por volta das duas e meia, três horas da tarde, vinha aquela refeição que muitas vezes valia por almoço e jantar – e havia também a grande broa de pão italiano. O pão era apoiado contra o peito, protegido pelo avental, e dali se cortavam grandes fatias. Sobre o pão, azeite. Sobre o azeite, o minestrone quente.
Pão, azeite e sopa.
Pouco, quando enumerado. Tudo – ou muito – quando era tudo o que havia. A grandeza de Rosa Montemurro Grieco não está numa heroicidade construída depois dos fatos, nem numa mulher sem medo ou culpa, muito menos numa personagem sem sofrimento. Está em ter continuado fazendo o que precisava ser feito: quando o marido adoeceu, fez sopa.
Quando morreu, enterrou-o. Quando nasceu o filho póstumo, deu-lhe o nome do pai. Quando não pôde manter todos os filhos consigo, confiou dois aos próprios pais, do outro lado do oceano. Quando um deles voltou chamando-a de senhora, suportou. Quando chegou a hora da comida, alimentou.
Há quem atravesse a vida realizando grandes gestos. Rosa atravessou
a sua realizando os pequenos gestos que impedem uma família de desaparecer. Talvez,
muitos anos depois, ninguém consiga reconstruir exatamente a data do navio, o
nome das pessoas que acompanharam os meninos ou cada circunstância daquela
viagem. Os documentos registram nascimentos, casamentos, mortes. Mas a memória
familiar guarda outra coisa: um vestido cinza desbotado, um pequeno chapéu,
duas malas arrumadas sobre uma cama, uma frase em italiano no cais da Praça
Mauá – e uma tigela de minestrone.
É curioso aquilo que uma família escolhe para não esquecer.
Talvez seja esta a verdadeira história de Rosa Montemurro Grieco: uma mulher a quem a vida retirou quase todas as possibilidades de escolha – e que, ainda assim, continuou escolhendo.
Escolheu mandar. Escolheu esperar. Escolheu receber de volta.
Escolheu perdoar o tempo. E, sobretudo, escolheu alimentar. No fim, talvez uma
família sobreviva exatamente assim: uma geração inteira cabendo, silenciosamente,
numa tigela de minestrone.

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