DO PÓ AO PÓ, COM SUOR NO MEIO
(E UM AGRÔNOMO NO CENTRO)
Luis Rego Filho*
Quia pulvis es et in pulverem reverteris II
“Ad locum revertere”.
No princípio era o pó. Depois veio o homem. Depois veio o suor. E, logo em seguida, veio o engenheiro agrônomo para explicar a reação química – no caso, eu, modestamente metido até o tornozelo nesse destino universal. A Bíblia, sempre econômica e certeira, resolveu a biografia humana em meia linha: “és pó e ao pó tornarás.” Não especificou se haveria estágio probatório, nem progressão funcional, nem gratificação por insalubridade existencial. Apenas decretou. O texto é tão sucinto que parece despacho de repartição celestial.
O que a Escritura não detalha – talvez por economia de pergaminho – é que entre o pó inicial e o pó final existe o suor intermediário. E é justamente aí que entro eu, engenheiro agrônomo, profissão que consiste basicamente em explicar para os outros aquilo que a terra já sabe desde o período Devoniano. Porque o suor humano, essa água salgada que brota do esforço, não é só testemunho moral do trabalho: é solução eletrolítica em estado de poesia. Quando cai no chão, não evapora filosoficamente; reage cientificamente. Troca íons com argilas, negocia com minerais, conversa com microrganismos. O sódio cochicha com o cálcio, o potássio flerta com o magnésio, e o solo, que é um anfitrião paciente, registra tudo em sua contabilidade coloidal.
Eu passo o dia estudando essas conversas subterrâneas. Enquanto o cidadão comum pensa que está apenas suando, eu sei que ele está participando de um simpósio geoquímico. Cada gota que escorre de uma testa humana é uma carta de recomendação enviada ao subsolo: “Segue pequeno lote de nutrientes, favor reincorporar ao sistema”.
Há profissões que lidam com cifras, outras com leis, outras com pessoas. A minha lida com partículas. Sou uma espécie de tradutor simultâneo entre o mundo mineral e o mundo vivo. Traduzo o idioma do cálcio para o dialeto da raiz, interpreto a gramática do nitrato para a sintaxe da folha. Em termos mais diretos: explico ao pó por que ele ainda é gente e explico à gente por que ela já é um pouco pó.
É inevitável que, exercendo esse ofício, a gente adquira uma certa intimidade com o destino. Enquanto alguns temem o fim, eu o analiso em laboratório. Outros escrevem testamentos; eu escrevo laudos de fertilidade. Para muitos, a palavra “mineralização” é metáfora. Para mim, é rotina.
Descobri, aliás, que a natureza é o único sistema realmente organizado que já existiu. Nada se perde, tudo se troca, tudo se recicla. O homem sua, o suor nutre o solo, o solo nutre a planta, a planta nutre o homem, e o homem volta a suar – um circuito fechado mais eficiente que qualquer política pública. A Terra não desperdiça nem lágrima.
No fundo, a engenharia agronômica é a arte de acompanhar esse vai-e-vem sem atrapalhar. Não criamos o ciclo; apenas tentamos não estragar o mecanismo. Somos fiscais discretos do casamento entre a química e a vida. Se der certo, colheita. Se der errado, relatório.
E assim sigo, profissionalmente envolvido com o destino universal, observando com certo orgulho técnico que a sentença bíblica não é só teológica – é pedológica. O homem veio do pó, voltará ao pó, e durante o intervalo presta consultoria involuntária ao solo através das glândulas sudoríparas.
Moral quase científica: o ser humano é um fertilizante em estágio provisório.
Quanto a mim, aceito serenamente. Afinal, quando chegar a hora
final, estarei apenas mudando de função – de engenheiro agrônomo para
componente do horizonte.

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