O Peso dos Encontros
Valdester Cavalcante Pinto Júnior*
Fortíssimo é quem se escuda por trás de sua
fraqueza.
(PIERRE DE LUZ, historiador e biógrafo francês. O mesmo Pierre Paul
Soulanges Émile Henry de la Balnchetaí. 1893-1956)
Não sei até onde vai dar essa peleja. Não escolho essa palavra por acaso. Há vocábulos e expressões que já transportam uma pequena tragédia sonora, e peleja me parece uma delas. Pronunciá-la é quase admitir que estamos diante de uma luta que ninguém desejou, entretanto, por alguma ironia da existência, somos obrigados a travar.
O convívio com pessoas que não sabem dividir espaços – e que, para completar a obra, só parecem encontrar alguma satisfação quando logram se convencer de que são somente elas – tem o curioso poder de transformar um lugar de trabalho em um pequeno teatro de guerra.
Há criaturas que não ocupam um espaço – usurpam-no. Não dividem a luz – precisam apagá-la ao redor. Não convivem – estabelecem territórios. E, como toda pequena tirania, têm início por coisas aparentemente insignificantes, até que respirar no mesmo ambiente se torna quase um ato de resistência.
É curioso observar o modo como algumas pessoas precisam diminuir os outros para experimentar a própria grandeza. Assim, passam a vida medindo presenças, contando aplausos e disputando a atenção alheia, sob um constante e vigoroso aparato de holofotes luminosíssimos, como se a existência fosse uma cerimônia na qual só houvesse um protagonista.
Que pobreza de espírito deve ser essa de precisar que o outro desapareça para sentir-se inteiro!
Há, porém, situação ainda mais sutil nessa história. Existem encontros que nos tornam maiores. Depois deles, saímos mais leves, dispostos, bem capazes de criar, pensar e agir. E existem os que fazem exatamente o contrário. Não deixam feridas visíveis, o que é uma grande vantagem para quem as provoca, mas retiram lentamente nossa disposição para a vida.
É assim que certos ambientes nos latrocinam, sem levar a mão ao bolso em tempo algum. Primeiramente, conduzem o entusiasmo. Depois, a espontaneidade. Em seguida, transportam a vontade de falar. A posteriori, até o que antes nos dava prazer já parece um esforço desnecessário.
É então que descobrimos uma verdade pouco conveniente: às vezes, não é o trabalho que nos cansa. São os encontros. E o maior equívoco dessas pequenas disputas está, certamente, em imaginar que a convivência exige a vitória de alguém, como se fosse necessário haver um vencedor para o outro existir. O mundo, felizmente, todavia, é mais generoso – e mais sensato — do que certas pessoas. Somos diferentes, pensamos de maneiras distintas, ocupamos lugares diversos. E é exato dessa pluralidade a nascer alguma coisa que merece ser chamada de mundo comum.
O problema é inaugurado quando alguém acredita que um espaço compartilhado é uma ameaça à sua importância. De tal sorte, já não basta marcar comparecimento, impondo-se, porém, a necessidade de ser magnificamente notado ao lume dos refletores. Sobra insuficiente fazer bem, sendo preciso que ninguém realize melhor. Não satisfaz meramente ter voz. Impende silenciar os demais.
E assim, pouco a pouco, a convivência deixa de ser encontro e se perfaz competição. Esta, sem dúvida, é a mais ordinária de tirania: aquela que não precisa de grandes poderes, uniformes ou decretos. Resolve uma pessoa convencida de que sua importância depende da insignificância dos outros. Há, porém, uma espécie de força muito mais rara: a de não precisar esmagar ninguém para permanecer de pé.
Há grandeza em dividir a luz. Inteligência em reconhecer o brilho alheio. Liberdade em não precisar ser o único. Eis minha peleja: não vencer nem tomar o lugar de ninguém, tampouco disputar a condição de protagonista. Cumpre somente preservar em mim aquilo que certos encontros insistem em corroer – a alegria, a dignidade, a capacidade de criar e, sobretudo, a liberdade de existir sem transformar o outro em adversário, pois um ambiente é até passível de ser compartilhado por muitas pessoas e, ainda assim, a somente uma pertencer – psicológica e enfermiçamente.

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