segunda-feira, 10 de setembro de 2018

CRÔNICA - Aula de Urbanidade e Decência (VM)

AULA DE URBANIDADE
E DECÊNCIA
Vianney Mesquita*


O agradecimento é a memória do coração. (LAO-TSÉ).


Dês que sou partícipe de entidades culturais e científicas, já havendo, inclusive, dirigido, por dois mandatos, na qualidade de Presidente, a Academia Cearense da Língua Portuguesa – onde ocupo a Cadeira de número 37, cujo patrono é o linguista Estêvão Cruz – a melhor circunstância de satisfação e enlevo por mim experimentada sucedeu durante a Reunião Ordinária da Arcádia Nova Palmaciana, no dia inaugural deste mês.

Aquele sodalício da minha aldeia de nascimento e coração, que tem por divisa a expressão Palmam qui Meruit Ferat, é dirigido, com determinação e sabedoria, pelo árcade novo Eládio Dionísio, criptônimo do Dr. Fernão de la Roche d’Andrade Sampaio, pessoa culta e experiente – a despeito de sua juventude – o qual conduz o Instituto com o máximo zelo e sem incorrer em qualquer deslize.

Palmácia tomou-se de júbilo àquela ocasião, quando, além dos assuntos ordinários da Casa, ocorreu o lançamento de dois livros – Reminiscências e Lorotas, de colheita do árcade novo Adamastor Urano, o palmaciano Dr. José Damasceno Sampaio, atual presidente da Academia Cearense de Letras Jurídicas, e Franciscos Moradores do Céu, da lavra do árcade novo autor destes comentários, cujo criptônimo é Jovem Chronos (V.M.).

Foi aquele um instante histórico, porquanto Franciscos..., iniciante da terceira dezena de obras deste autor, é a primeira edição com selo da novel Instituição (a deusa helena Thike), com apenas dois anos de estabelecida, a cuja Sessão Ordinária acorreram 34 dos 40 árcades novos donos de cátedras do Silogeu, fato de ocorrência difícil em estabelecimentos desse jaez no Ceará, onde, recorrentemente, a comparência é, salvante exceções, sempre muito pequena.

O móvel deste escrito, no entanto, transitados já dez dias de sucedimento da Reunião, oportunidade em que os conterrâneos (boa parte residente em Fortaleza) tiveram o lance de se cumprimentar e “tirar o atraso” das conversas, descansa no intento de tornar midiática minha imensa gratidão àquela que batizou o livro, a árcade nova Iolita Polínia – Professora Lúcia Rocha Andrade Sampaio, desde criança conhecida por “Lucinha” – mãe do Presidente Eládio Dionísio (Dr. Fernão) e mulher de um dos mais refulgentes intelectuais palmacianos – o professor de Língua Portuguesa Vicente de Paulo Sampaio Rocha (in memoria aeterna erit justus).

Demonstrando extraordinária retenção de recuadas ocorrências, Iolita Polínia discorreu historicamente, sob conversa leve e profunda – prova inconteste de seu preparo intelectual e formação familiar esmerada – acerca da pessoa deste escriba, trazendo detalhamentos impressionantes a respeito da minha família ancestral, em alocução sincera e comprovada em escritos que compulsou, fato outra vez  denotativo de sua educação requintada, vazada  na urbanidade e na decência, diga-se, en passant, peculiares aos demais componentes de seu agrupamento familial.

Esta manifestação pública de reconhecimento, portanto, Professora Lucinha – árcade nova Iolita Polinia – é a lembrança perpétua do meu coração, como indica o notável filósofo chim, Lao-Tse, na sentença de abertura destas notas.

Gratíssimo ad aeternam.


ARTIGO - Prostituição Eleitoral (HE)


PROSTITUIÇÃO ELEITORAL
Humberto Ellery*


Humor se constitui, desde os filósofos pré-Socráticos, como um poderoso (e perigoso) instrumento capaz de potencializar os efeitos que se pretende para um discurso, desde que utilizado com parcimônia e elegância. Na última reunião da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo conversei longamente com o confrade José Augusto Bezerra sobre isso.

No capítulo III De Risu, do sexto livro Oratoria de Quintiliano, aprendemos que o riso é necessário para abordarmos assuntos sérios, pelo poder que tem de relaxar e desarmar espíritos, sendo imperioso o cuidado de evitar rir de desgraças e também de debochar, escarnecer de modo a ofender as pessoas. Daí eu gostar de, mantidos os devidos cuidados,  sempre relacionar um assunto sério com uma anedota. 

Dito isso, lembrei de um fato narrado pelo Menestrel de Itapoã, o Juca Chaves, que certa vez sentou-se num avião a caminho da Boa Terra, ao lado de outro “avião”. Segundo suas palavras era uma morena de olhos verdes, tão linda que o deixou completamente enlouquecido.

Disposto a conquistar a jovem a qualquer preço resolveu jogar pesado e partiu direto para o ataque:

– Minha filha, por um milhão de dólares você faria amor comigo?

A moça, surpreendida com tanta ousadia, e pelo inusitado da situação, apenas conseguiu balbuciar:

– Hein?

Antes que a jovem conseguisse recuperar o fôlego o Menestrel insistiu:

– Pense bem: um milhão de dólares cash, estão aqui nesta pasta.

A jovem ficou uns instantes atônita, em seguida sorriu e admitiu:

– Um milhão de dólares não são de se jogar fora, né? Eu topo!”.

O conquistador inveterado, mas também um tremendo “mão-de-porco”, perguntou em seguida;

– E por quinhentos merréis, topa?

A garota enfureceu-se e perguntou, cheia de indignação e altivez:

– O senhor está pensando que sou alguma prostituta? O Juca, sem se alterar, apenas disse:

– Minha querida, esta questão você mesma já definiu ao responder minha primeira pergunta. Nós agora já estamos na fase de negociação de preços.

Vi nessa historinha uma analogia muito clara com um fato acontecido recentemente na campanha eleitoral, quando Geraldo Alckmin negociou, com êxito, uma parceria com diversos partidos reunidos no tal Centrão.

Com isso conseguiu o maior tempo de propaganda na TV, e costurou já os apoios no Congresso Nacional, de que precisará para governar, caso seja eleito. Seus adversários encheram-se de indignação, considerando que, dentre os políticos que compõem o grupo, há 41 investigados na Lava Jato. Ohh!

O Alckmin argumentou que fez o acordo não com os fichas-sujas, mas  com os partidos, e todos esses partidos têm bons quadros, com os quais ele pretende governar, apenas com o que cada partido tem de melhor. Infelizmente, porém, quase todos os partidos políticos do Brasil abrigam em suas hostes políticos com os quais ele não pretende dialogar.

O mais indignado foi o Robespierre Incorruptível, o Mito, pois ele vai ser eleito já no primeiro turno e vai governar sem o “toma-lá-dá-cá”. Vai “dar-murro-na-mesa”, vai subjugar o Congresso Nacional aos seus projetos de governo, e não vai “lotear” o ministério entre os partidos.

É provável que tenha esquecido que procurou ninguém menos que o Valdemar Costa Neto (condenado e preso no Mensalão), para ter o apoio do PR (com mais de um minuto de TV e fundo partidário) e para ter o Senador Magno Malta como seu Vice. A negociação emperrou quando ficou claro que ele deveria apoiar o PR no Rio de Janeiro, o que dificultaria a eleição de seu filho Flávio ao Senado Federal.

Em maio do ano passado, em vários encontros, ele tentou uma negociação com o mesmo Valdemar para se transferir para o PR, com a condição de ser o seu candidato a Presidente da República. O Valdemar não aceitou, para não se comprometer tão cedo com uma candidatura majoritária, uma vez que ele prefere se coligar com outros candidatos e ampliar sua base parlamentar no Congresso Nacional.

Pois é: em duas oportunidades, na fase de negociação sua aliança com o PR não prosperou, mas ele não teve nenhum prurido ético de sentar numa mesa e tentar fazer acordos com o varão de Plutarco chamado Valdemar Costa Neto.

Talvez por um milhão de dólares, quem sabe?



COMENTÁRIO

De fato, é vergonhosa essa barganha de políticos em busca de verbas e tempo de rádio e TV, e depois de apoio no Congresso.

A contrapartida é o loteamento de cargos, a serem ocupados por apaniguados partidários, gente que vai para a Administração Pública, em seus vários escalões, sem qualificação técnica e sem compromisso ético, mas apenas para atender os interesses políticos dos “padrinhos”.

De fato é estranhável esse namoro prévio entre o grupo de Bolsonaro e o de Valdemar da Costa Neto, um deles se apresentando como paladino da moral pública, o outro um corrupto notório.

Na hipótese de terem sido exitosas as negociatas, restariam duas possibilidades a lucubrar: a um, Valdemar participar do Governo Bolsonaro arrependido e regenerado; a dois, o Mito trair o seu discurso e embarcar nas práticas ímprobas de que é vezeiro o Costa Neto.

Todo modo, como no caso do avião, ninguém precisou se corromper, nem se regenerar. O favor era grande, mas a compensação era mínima. Salvaram-se o capital de um e a moral do outro. A prostituta, na analogia, pode ter sido o Valdemar, que esperava mais vantagens do eventual futuro governo. 

Reginaldo Vasconcelos        


domingo, 9 de setembro de 2018

ARTIGO - A Guerra Suja (RMR)

GUERRA SUJA
Rui Martinho Rodrigues*


A campanha eleitoral trouxe de volta o tema do regime militar, tortura e morte. A discussão padece de alguns vícios. Um deles, para a terminologia da História, é o anacronismo.

Trata-se uma interpretação dos acontecimentos do passado tomando como referência o presente. É óbvio que o regime de 64 não foi democrático. Só a generais era dado exercer a presidência, o Executivo editava atos institucionais, cassava mandatos e havia censura. Foi uma “ditadura à brasileira” (“ditamole”, no jargão da caserna), como disse o Marco Antônio Villa ou uma “ditabranda”, segundo a Folha de São Paulo? Cada lado esgrime os seus argumentos.

“Ditadura cruel” é a tese de quem apresenta uma lista com centenas de mortos, exilados, cassados e torturados. “Ditabranda” ou “ditamole” para quem alega que: em vinte e um anos o regime castrense brasileiro matou menos, no contexto de uma guerrilha, do que as polícias de São Paulo ou do Rio de Janeiro, consideradas isoladamente, matam em um ano, em plena democracia, sem que haja uma guerra revolucionária.

A “passeata dos cem mil”, após a morte do estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, no restaurante da UFRJ, havia sido proibida, mas não foi molestada pelas forças de segurança e personalidades que saíram à frente da manifestação foram recebidos, na semana seguinte, pelo “general de plantão no governo”. O Superior Tribunal Militar, no período, absolveu 68% dos réus, segundo Thomas Skidmore, na obra Brasil: de Castelo a Tancredo.

A intervenção militar se deu, no primeiro momento, sob a influência de importantes lideranças civis, como os governadores Carlos Lacerda (1914 – 1977) do então Estado da Guanabara; Ademar de Barros (1901 – 1969) SP; Magalhães Pinto (1909 – 1996), MG; Juracy Magalhães (1905 – 2001), Bahia; Ney Braga (1917 – 2000), Paraná; Ildo Meneghetti (1895 – 1980) Rio Grande do Sul. 

Somente o governador de Pernambuco, Miguel Arraes (1916 – 2005), colocou-se contra a intervenção militar. Houve marchas de senhoras e setores do Clero. O empresariado e toda a imprensa, a exceção do jornal Última Hora, apoiaram a intervenção. Por isso há quem use a expressão “golpe civil militar”.

Havia a chamada guerra fria (a III Guerra Mundial, travada por outros meios). Tivemos uma guerra irregular ou revolucionária, um tipo de conflito que descamba para a chamada guerra suja. Os EUA criticaram os militares brasileiros. Veio, porém, o “11 de setembro” e eles levaram prisioneiros para fora do país, com objetivo de usar práticas violentas fora do território americano.

A Inglaterra torturou e matou guerrilheiro do Ira, grupo armado separatista irlandês. A Alemanha “suicidou” todos os integrantes do grupo Baden-Meinhof. A Itália torturou e matou integrantes das Brigadas Vermelhas. A Espanha, sob o governo democrático do Partido Socialista Operário Espanhol, criou um grupo de extermínio para combater o movimento separatista basco Eta. Ninguém faz guerra suja com as mãos limpas.

O regimente castrense, tipo peculiar brasileiro, ditadura à moda da casa, guarda semelhança com o consulado romano, no qual, em situações excepcionais, o governo era entregue a um general por tempo limitado, ao término do qual deveria ser substituído, a quem eram dados poderes excepcionais. Os nossos generais receberam mandatos por tempo limitado e assumiram poderes excepcionais, falando em abertura, foram substituídos e entregaram o Poder sem serem expulsos pela força. Mas não se fala em consulado de 64.


sábado, 8 de setembro de 2018

CRÔNICA - Máquina de Descascar Laranjas (TL)


MÁQUINA DE
DESCASCAR LARANJA
Totonho Laprovitera*



Antigamente – nunca mais vi uma – existia uma máquina manual de descascar laranja. De estrutura em ferro pintado, com praticidade e facilidade, ela funcionava da seguinte maneira: Prendia-se a fruta a dois eixos que, à manivela giravam ao mesmo tempo, enquanto uma pontiaguda e afiada lâmina em aço se ajustava à profundidade de corte, acertando a espessura desejada da operação. Aí, terminada a intervenção, o vendedor tirava com uma faca um chaboque cônico e dava a laranja para o freguês chupar.


Na entrada principal do antigo Estádio Presidente Vargas, do lado de fora, lembro que tinha um bocado delas. Ao redor de cada carrinho que carregava a tal máquina, um emaranhado de assanhados fios de casca de laranja se derramava em desenhos ao nodoado chão calçado de mosaico cinza.

Pois é, quando penso nessas coisas, parece que eu estou é vendo o velho e saudoso amigo Dr. Motinha dizer:  Lembrar é fácil para quem tem memória. Esquecer é difícil para quem tem coração. William Shakespeare!







COMENTÁRIO

Meu pai era um grande apreciador de laranjas. Moramos um tempo em sua fazenda, final dos anos 50, próximo a um posto agrícola do Dnocs (projeto agronômicos do pai da Ana Miranda, a qual, por isso, também morou lá na sua infância), em cujo perímetro irrigado se produziam laranjas às carradas. 

Havia uma guarita de madeira defronte à casa do Agrônomo Chefe (construída pelo Dr. Miranda uma década antes), onde se acumulavam quatro metros cúbicos de laranjas maduras e douradas, que cheiravam de longe, aonde íamos buscar as frutas que degustávamos nos alpendres da fazenda, descascadas por meu pai.

Ele tinha uma faquinha alemã de lâmina inoxidável com medida de uma chave, de finíssimo lavor, cujo cabo se compunha com uma pata de gazela mumificada em seu pelo e casco originais, servida de uma bainha de couro guarnecida de prata, na borda de entrada e na sua ponta – idêntica a essa da gravura que tem cabo de osso.

Manuseava ele esse trinchete, na mão canhota, com imensas habilidade e precisão, ao tempo em que girava a laranja na outra mão, produzindo simétricas rodelas de casca que iam saltando longe, como moedinhas cunhadas em escala industrial – sem jamais ferir o âmago da fruta.  

Mas em nossa casa em Fortaleza não havia esse ritual, pois ele tinha uma dessas máquinas a que o Totonho se refere em sua catita croniqueta, com a qual meu jovem pai descascava laranjas com a mesma rapidez, embora sem o mesmo charme.

Essa máquina foi um dia subtraída furtivamente por um cunhado dele, meu tio portanto, fino artista plástico e alcoólatra compulsivo, que antes de ser salvo pelo AA se apropriava do que pudesse para trocar nos botecos por cachaça. Memórias do coração.

Reginaldo Vasconcelos
         

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

ENSAIO - Guerras Modernas (RMR)


GUERRAS MODERNAS
Rui Martinho Rodrigues*



(TRECHO)

Temos uma situação de risco crescente. A bomba atômica foi outro fator que contribuiu para evitar uma grande guerra. Achava-se que não haveria vencido nem vencedor. Hoje, com a guerra virtual permitindo a paralisação do inimigo pela internet, usando vírus; com mísseis de alta precisão atingindo apenas pequenos alvos; com a guerra espacial podendo neutralizar as comunicações e a orientação pelo GPS, com a destruição de satélites, surge a perspectiva de vitória. Um general russo diz que pode ganhar uma guerra sem disparar um tiro (guerra virtual). Sistemas antimísseis prometem defesa contra represálias por partes das forças inimigas que sobrevivam a um ataque preventivo. 
(CONTINUA) 

ACIONE O LINK ABAIXO PARA LER A ÍNTEGRA DESTE ENSAIO




POTOCA (CRÔNICA) - Árabe e Índio Brasileiro (VM)


ÁRABE E ÍNDIO
BRASILEIRO
Vianney Mesquita*



Piada – piado, pieira, pio. Pilhéria, dito picante, remoque, picuinha, chiste. FRANCISCO FERNANDES e CELSO PEDRO LUFT – Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa. São Paulo: Globo, 1995).



Parabenizo, antes, o jornalista Reginaldo Vasconcelos pelo escrito de hoje – veraz, comedido e oportuno – a respeito do atentado de ontem (06.07.2018), em Juiz de Fora-MG, ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, mais uma ação criminosa a nos envergonhar, em especial por parte do povo latino-americano, e que quase levou a óbito aquele postulante ao mais alçado lugar do Poder Executivo patrial, sugestionado pelo Barão de Montesquieu.

A fim, no entanto, de amatar um pouco status quo de tal modo degradante pelo qual transita o Brasil, reproduzo esta piada ouvida recentemente de um amigo, com o sal e a pimenta peculiares à gostosura da graça brasileira, diametralmente contrária ao ror de desconchavos morais que, de há muito, assacam esta Pátria, à qual me ponho genuflexo no dia em que perfaz 196 anos que se independizou de Portugal, em 7 de setembro de 1822.

***
Na primeira dezena de junho, um homem, medianamente escolarizado, com procedência familiar da costa sul da Bahia, ao adentrar um ônibus Fortaleza-João Pessoa, deu de cara com uma mulher muito bonita, cerca de 40 anos, pernas bem torneadas, vultosas e cruzadas, com indumento vistoso e curto, postada na segunda fila de assentos. Interesse imediato o tomou de assalto e achou de aboletar-se na cadeira vizinha à dela. De esguelha, fitou-lhe a sinistra e certificou-se de que não usava aliança, fato que alimentou sua vontade de entabular conversa com a moça, o que fez incontinenti.

 Está em gozo de férias, ou vai à Paraíba a serviço?

– Sou de Natal, me chamo Joana Angélica. Passei uns dias aqui na casa de um parente e agora me dirijo, depois de ficar dois dias em JP, a umas escolas secundárias de Bayeux, Mamanguape e Santa Rita, fazer em uma semana umas palestras para os jovens da rede pública estadual de ensino.

– A senhora, então, é professora, pedagoga?

– Não. Sou sexóloga.

– Sexóloga... E o que faz um sexólogo.

– É a pessoa versada em sexologia, ramo científico cuja finalidade é estudar normativamente a sexualidade e os problemas fisiológicos ou psíquicos com ela relacionados. Constitui missão importante e espinhosa.

– Sim. É claro! Muitas pessoas pensam que sexo e sexualidade são coisas simples, mas, ao que parece, não é bem assim...

Dra. Joana Angélica, muito loquaz e, havendo simpatizado com esse seu circunstante, conversou à farta acerca de temas sexuais e sexológicos, até que, desde certo momento, prosseguindo nos meandros do seu ofício, a pouco e pouco, foi debulhando curiosidades insertas no tema.

A certa altura da palestra, informou que os árabes são os homens mais bem-dotados de órgãos sexuais, pois os portadores das maiores genitálias em todo o Mundo. Na sequência, aduziu a informação de que, de todas as raças hominídeo-descendentes, os índios brasileiros são os machos que possuem o orgasmo mais demorado, superior ao dobro de tempo orgástico dos demais seres humanos.

Fez, então, parênteses na conversa e disse:

– Estamos quase chegando a Mossoró, dialogando há quase três horas, e o senhor ainda não me disse seu nome.

– Ah, sim, é verdade! Chamo-me Muhamad Pataxó.



ARTIGO - O Mito Vira Mártir (RV)


O MITO VIRA MÁRTIR
“BRASIL, ACIMA DE TUDO;
DEUS, ACIMA DE TODOS”.
e
Reginaldo Vasconcelos* 

A primeira coisa que me ocorre sobre o atentado a faca contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, acontecido ontem (06.09.18), em Minas Gerais, às vésperas do Dia da Independência do Brasil, é a imensa parcela de culpa dele mesmo no episódio – segundo os cânones da “vitimologia” – ciência que estuda a participação da vítima para o desfecho do sinistro em que foi vitimada.

Bolsonaro vinha se oferecendo em holocausto, mesmo antes da campanha, mas principalmente após o seu início, quando os ânimos se acirraram – e eu já vinha comentando isso com os íntimos, sempre que via o “Mito” nos braços do povo, sem os cuidados necessários, com base na minha longa experiência no Palácio da Abolição, na Assistência do Governador e na Casa Militar, acompanhando eventos, campanhas políticas e viagens do Executivo Estadual pelos belicosos sertões do interior do Ceará. 

A segunda observação que faço é quanto à falha evidente da equipe de segurança que servia ao candidato, que permitiu a aproximação de um estranho, de feição lombrosiana, o qual teve tempo de sacar a faca, brandi-la no ar (como um vídeo flagrou), antes de se aproximar e desferir a estocada.

Embora evitando abordar preventivamente a pessoa suspeita, que realmente poderia ser um mero simpatizando do candidato, os policiais deveriam tê-lo sob vigilância velada, de modo a poder abafar a sua eventual ação agressiva logo que ela se insinuasse.   

Especialistas em segurança de autoridades não podem se envolver com a euforia do evento, nem permanecer fitando a pessoa a ser protegida, mas manter inspeção visual sobre o ambiente circundante, preferivelmente de óculos escuros e usando coletes, inclusive considerando a hipótese de ter que proteger a autoridade com o próprio corpo, aos primeiros sinais da deflagração de um ataque.

Antes de tudo, os componentes de equipes de segurança precisam se conhecer muito bem fisionomicamente, de forma prévia, para facilmente se identificarem na multidão, e durante um eventual tumulto – policiais federais, policiais militares locais, guarda-costas particulares – para que não seja possível que um popular se infiltre e aproxime, confundindo-se com um deles – o que neste caso pode ter acontecido.

Contudo, o fato é que o desfecho mórbido do atentado a Bolsonaro poderia ter sido mais grave, enquanto, do ponto de vista eleitoral, não poderia ser mais auspicioso, pois quem sofria uma antipatia aguda e contava com reduzido espaço de propaganda para mitigar essa rejeição, passa agora a ser o foco das atenções na imprensa e objeto da comiseração popular  e da solidariedade pública.

Vitimado pela onda de violência a que a insegurança pública vem expondo a cidadania brasileira – cujo combate firme é o seu principal mote de campanha – ele agora se torna um mártir dentro da sua própria tese, o que certamente vai aproximá-lo do público e ampliar a sua popularidade, arrastando para a sua causa muitos indecisos, branco-ou-nulos e não-sabem-ou-não-quiseram-responder.

É claro que os seus opositores vão explorar o episódio como sendo consequência da incitação à violência de que Bolsonaro é acusado – porém, hastear esse argumento pode ser um tiro no pé, porque o que o candidato defende é exatamente o “monopólio estatal do uso da força”, na expressão de Max Weber – ou a violência oficial reflexa e justa contra a escalada criminal – e não será inteligente apoiar ou justificar a ação ilícita praticada contra quem se insurgia vigorosamente contra ela.

07 de setembro de 2018

         

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

RESENHA - Programa Da Hora (06.09.18)


PROGRAMA “DA HORA”
APRESENTADOR
ALFREDO MARQUES
TV UNIÃO
 06.09.18

O Programa Da Hora – que vai ao ar, ao vivo, de segunda a sexta-feira, às 12:30h, com reprise às 18:30h, pela TV União (Canal 17.1 na TV aberta e 521 na Multiplay) – na edição desta quinta-feira (06.09) teve a participação do seu apresentador titular Alfredo Marques, e dos também advogados Roberto Pires e Reginaldo Vasconcelos, presidente da ACLJ. Na edição ao vivo, antecipado para as 12:00h, durante o período da propaganda eleitoral.



A edição foi toda dedicada a discutir a moral pública no Brasil – começando pelo desvirtuamento do Auxílio-Moradia para os magistrados brasileiros, um benefício justo para os juízes substitutos (em princípio de carreira), lotados nas comarcas mais distantes, e por período incerto. 

Essa verba, mais de 4.00o reais, que tornou-se um penduricalho salarial, ou salário indireto, é indevidamente aproveitado por quem já está estabilizado em entrância especial, e possui casa própria – e até vivendo em mansões, como a imprensa registrou em relação ao casal Marcelo e Simone Bretas, ambos juízes no Rio de Janeiro, que assim mesmo acumulam a vantagem.

Falou-se também do parecer da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, em que considerou a atipicidade penal da conduta do candidato Bolsonaro à Presidência da República, ao dizer que fuzilaria todos os partidários do PT. 

Alfredo Marques considerou que essa declaração pode configurar o delito de incitação ao crime, já que a a Procuradora Raquel entende não se poder subsumir o caso a um dos crimes contra a honra, ou ao crime de ameaça.

De fato, pela fragmentariedade do Direito Penal, bem como pelo princípio da intervenção mínima, esses crimes não se configuram quando não há uma pessoa física identificada como vítima, bem como quando o agente pratica o ato de forma reflexa a um agressão sofrida, ou com intenção de fazer graça. Evidentemente todos consideram o absoluto despropósito dessa atitude do candidato, atentando contra a  cultura de paz de que o País está carecendo.

Instado por Alfredo Marques, na sua condição de  intelectual de Academia Literaria, Reginaldo Vasconcelos discorreu sobre o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, causado por incúria governamental, lamentando o infausto terrível  para a cultura brasileira, sua História, sua memória, e para o patrimônio cultural da humanidade  um raro museu enciclopédico, que reunia documentos históricos e arqueológicos, peças de arte, mobiliário da Monarquia Brasileira, coleções geológicas e biológicas importantes, relíquias étnicas, antropológicas e paleontológicas.

Relembra Reginaldo que, há muitos anos, na condição de jovem repórter entrevistou em Fortaleza  o paleontólogo Alexander Kellner, um teuto-brasileiro radicado no Rio de Janeiro desde a infância, que vem muito ao Ceará pesquisar fósseis de pterodáctilos encontradiços na Chapada o Araripe. Ele era diretor de paleontologia do Museu Nacional, e apareceu verdadeiramente arrasado nas reportagens sobre as perdas dolorosas.


Roberto Pires provocou o colega de bancada a respeito do colete com grafismos temáticos que este usava  – comparando-o à cortina de sua casa – e referindo a um telespectador que indagou pelo Whatsapp do programa se o convidado seria advogado dos congelados”, personagens de época de uma novela da Globo, atualmente em exibição. 

Rindo das invectivas bem-humoradas do Roberto, que tem ótima veia cômica, Vasconcelos esclareceu que escolhera aquele colete porque a temática de suas estampas remete ao acervo do Museu Nacional, agora perdido para sempre.

Ao final, Alfredo Marques concitou de público Lula da Silva a aproveitar o tédio do cárcere para produzir uma autobiografia em que exponha os esqueletos que ainda se escondem nos armários da República, a que Reginaldo Vasconcelos acrescentou que, se o ex-presidente fizesse isso, resgataria sua imagem de grande estadista e de honrado patriota.

Roberto Pires concluiu com um apelo aos brasileiros, no sentido de que façam uma faxina moral nesse País, neste momento eleitoral, evitando votar em qualquer político com ilicitudes no currículo.