domingo, 11 de dezembro de 2016

ARTIGO - DELAÇÃO DO FIM DO MUNDO (RV)


DELAÇÃO DO FIM DO MUNDO
O POLICHINELO DESNUDADO
Reginaldo Vasconcelos*


No Brasil, ninguém decide ingressar na política partidária por ser altruísta ou patriota. Os idealistas autênticos são raríssimos nessa atividade. A esmagadora maioria procura integrar o poder público pela via eleitoral, em quaisquer dos seus níveis, para se locupletar com as benesses dos cargos – essa é a mais cristalina realidade.

Há os que vendem sua popularidade midiática a um partido político, pensando que como administrador ou parlamentar se pode fazer uma grande obra humanitária, mas logo encontram o desengano e desparecem do cenário.

Outros representam igrejas, sindicados e demais instituições de numerosos integrantes, e então entram facilmente na política com fins corporativos. Ainda existem ricos empresários que, cansados de subornar mandatários, resolvem eles mesmos participar do processo legislativo ou decisório para proteger pessoalmente seus negócios.

Mas, em grande parte, o que há na política é aventureiro descarado – falsos ideólogos, que inapetentes intelectuais, incompetentes profissionais, fracassados na vida, descobrem no meio político partidário o reino da malandragem desvairada, da mentira cavilosa, da ilusão dos desvalidos, do enriquecimento fácil.  
    
Em seguida se profissionalizam na política, se reelegem seguidas vezes por meio de falsas promessas de campanha, de manobras, de conchavos, e, não satisfeitos, alguns colocam os próprios cônjuges na carreira, para garantir a alternância da família no poder.

Muitos adotam ainda o “filhotismo”, legando a membros da prole o seu “capital eleitoral”, criando verdadeiras dinastias políticas, como se o voto do eleitorado de cabresto fosse um patrimônio pessoal.

Os salários dos ocupantes de cargos eletivos, em todas as esferas da administração pública, são generosos, e às vezes excessivos, acumulando vantagens que vão sendo criadas por normas espúrias – emendas e portarias – conforme tem evidenciado o recente movimento contra os “supersalários” de alguns membros dos três Poderes da República, os quais recebem remunerações superiores aos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal, o que é inconstitucional.    

Todavia, há uma cotação informal relativa às despesas de campanha para a eleição de candidato para um mandato qualquer, de modo que cada cargo pleiteado tem um preço definido e consabido – e sabidamente o valor que o candidato se obriga a gastar para se eleger é sempre muito superior ao montante que o eleito vai receber em subsídios e proventos.

Ora, se esse dispêndio eleitoral supera muitas vezes a receita salarial do parlamentar ou executivo, é óbvio que outras compensações financeiras, não republicanas, são por ele previstas e consideradas.

É verdade que o candidato não suporta sozinho as despesas de campanha, os seus comícios, a sua propaganda. O cofre público financia grande parte da farra eleitoral, através da verba partidária e do horário gratuito de rádio e de TV.

Mas, pior ainda, as grandes campanhas se financiavam também com as grandes empresas que contratam com os governos, as chamadas empreiteiras, que absurdamente a lei até recentemente permitia fizessem doações oficiais a partidos políticos, dinheiros que elas recuperavam em obras superfaturadas, compensações negociais ilícitas futuras que lhes garantiam tacitamente os candidatos.

Acontece que as verbas oficialmente doadas precisam ter aplicação contabilizada, para prestação de contas perante os tribunais eleitorais. Com elas, para os políticos, fica muito difícil enriquecer, para entrar na política pobre e sair dela milionário, como soe acontecer.

Então, surge aí a figura das contribuições de “caixa dois”, com numerário extraoficialmente distribuído por empresas aos “homens da pasta preta” dos partidos, em agências de publicidade, em escritórios de advogados, em contas bancárias secretas estrangeiras, nos chamados “paraísos fiscais”.

Contribuição oficial a campanha eleitoral por empreiteira de governos era uma aberração legal até aqui, e o caixa dois era e continuará sendo ilícito. Mas essa prática, de fato generalizada, era tacitamente aceita por uma ética parcial vigente no meio político, dentro de um pacto silencioso entre os que militam nessa área, um segredo de polichinelo, de que não se falava abertamente, mas que todos sempre souberam que existia – e mais – para eles era essencial que ela existisse.

“A política é assim mesmo” – teria dito recentemente o Presidente Michel Temer, justificando o assédio de seu ministro raposa velha, a um jovem outro, ainda indefesa galinhola. O mesmo argumento conformista valia para defender quem recebia recursos de empreiteiras através do caixa dois – o que não exclui quase ninguém – além daqueles políticos magnatas que se autofinanciam nas suas campanhas e se auto-ajudam nas manetas do poder, protegendo suas empresas e seu patrimônio.

Agora a “delação do fim no mundo”, feita pelos executivos da Odebrecht, coloca a nu o polichinelo mentiroso. O que todos sabiam, ou desconfiavam, agora estão todos vendo escancarado, para espanto das massas ingênuas que idealizam a política e viam políticos farsantes como líderes sociais. E com um Supremo Tribunal “acovardado”, nas palavras proféticas de Lula da Silva, o nosso País segue à deriva. Que Deus de apiade de nossas almas!

Ilustrações: Pinturas de Pablo Picasso.


sábado, 10 de dezembro de 2016

NOTA LITERÁRIA - Totonho Lança Novo Livro

DE PRIMEIRO
TOTONHO LANÇA NOVO LIVRO


O acadêmico Totonho Laprovitera estará lançando um novo livro na próxima quarta-feira, dia 14, no Ideal Clube.

A obra, intitulada “De Primeiro”, é uma deliciosa coletânea de crônicas memorialísticas em que o autor remonta a infância e a juventude dele e de sua geração em Fortaleza, incluindo viagens que ele fez, e lugares em que viveu pelo mundo afora. Vale conferir. 

O título do livro é uma conhecida expressão do “cearensês”, utilizada pelo narrador que vai remeter a sua narrativa ao passado. O termo é verbete do e-book “Dialeto Cearense”, acessível pelo link existente neste Blog. Abaixo, o convite para a noite de autógrafos.


GLOSSÁRIO - Curiosidades Latinas - 5 (VM)


GLOSSÁRIO DE PARÊMIAS, ANEXINS E CURIOSIDADES LATINAS (5)
Seleção de Vianney Mesquita*


 Accipe, Redde, Cave = “Toma, dá, acautela-te”.

Conforme Arthur Rezende (p.7), Santo Antônio diz que cada criatura nos concede três vozes, uma que diz accipe; outra redde; e outra, cave. Toma, homem, meu uso e préstimo e rende por ele as graças, e guarda-te do castigo, senão fores agradecido.

Accipere, quam-facere, praestat-injuriam = “É melhor receber uma injúria do que fazê-la; antes sofrer o mal do que praticá-lo”.

Accipiat-felis, quae-vellent-rodere-mures = “O que há de levar o rato dá ao gato”.

Accusare-nemo-debet-nisi-coram-Deum (Aforismo jurídico) = “Ninguém é obrigado a acusar a si próprio, a não ser estando Deus no momento”.

Acerrima-proximorum-odia = “O ódio dos parentes mais próximos é o mais amargo, o mais implacável”.

A-contrario-sensu = “Pela razão contrária; pelo contrário”.

A-cruce-salus = “Na cruz está a salvação. Da cruz vem a salvação”.

Acta-est-fabula = “Terminou a peça”.

Derradeiras palavras de Augusto (Gaius Julius Caesar Octavianus Augustus), fundador e primeiro imperador romano. Era como, no Drama antigo, se anunciava ao público o final da apresentação teatral.

Actiones-transeunt-ad-haeredes-et-in-haeredes (Aforismo jurídico) = “As ações – isto é, o direito de postular perante a Justiça – passam aos herdeiros e também contra os herdeiros”.

Actio-personalis-moritur-cum-persona (Aforismo jurídico) = “A ação pessoal extingue-se ao morrer a pessoa”.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ARTIGO - Uma nova Trança de Patacoadas Federais (RV)


UMA NOVA TRANÇA DE PATACOADAS FEDERAIS
Reginaldo Vasconcelos*


O Ministro Marco Aurélio Mello não deveria ter concedido a liminar solicitada pelo partido Rede Sustentabilidade, visando destituir o Senador Renan Calheiros da Presidência do Senado. Ponto. Deveria ter antes submetido o pedido ao Pleno do Tribunal, pois ele estava diante de uma conjuntura política muito grave.

Mas o Senador Renan Calheiros, que é réu junto ao Supremo Tribunal, além de indiciado em mais uma dezena de procedimentos penais, não poderia ter se recusado a receber a intimação, tampouco deveria ter desobedecido à ordem, muito menos ter lançado ofensas pessoais ao Ministro Marco Aurélio. Ponto.     

Então, ao reverter a decisão liminar de Marco Aurélio o Supremo Tribunal teve que sacrificar a autoridade do Poder Judiciário como um todo – não por ter exarado entendimento diverso daquele que fundamentara a decisão monocrática do seu Ministro  mas o sacrifício moral deflui do fato de ter sido a ordem deste afrontosamente descumprida, e ele próprio desmoralizado gravemente  e ainda assim ficar vencido.



Então, o Supremo Tribunal Federal toldou a água, com a liminar de um de seus mais experientes ministros, e depois bebeu a água toldada, com a decisão acachapante de não a referendar, sem nenhuma fundamentação jurídica válida, mas movido por óbvia motivação política, tendo em vista as consequências nefastas que a ordem monocrática causaria às medidas do Governo contra a crise financeira.

A decisão liminar do Ministro Marco Aurélio não falecia do requisito essencial denominado periculum in mora, ao contrário do que alegaram alguns de seus pares, na motivação de seus votos no Plenário. Alegaram não haver previsão agendada para viagem do Presidente Temer até o fim do mandato de Calheiros  como se substituições eventuais fossem todas previsíveis.  

Ora bolas! Não pode haver previsão em agenda alguma para doença repentina ou súbito falecimento de um presidente, que é vulnerável e mortal como todo mundo, fato que, em ocorrendo neste caso, colocaria na substituição direta do Presidente um réu criminal perante o STF. Essa eventualidade caracterizava o perigo, e justificaria a urgência da medida.

Mas então arranjaram uma saída parajurídica para o impasse, interpretando que a Constituição proíbe que um réu substitua eventualmente o Presidente da República, mas não impede que este seja ou permaneça efetivamente Presidente do Senado e do Congresso Federais.

Isso é um rematado contrassenso, pois a única extravagância permitida a um Presidente da República interino é fazer um voo no avião presidencial à província em que nasceu, enquanto o Presidente efetivo do Congresso, sendo réu em processo crime, pode criar leis penais que o beneficiem – como, aliás, se tem observado tentativas no momento.



Nada disso estaria acontecendo se não tivessem reeleito Renan para o Senado, e para a sua presidência, quando ele já respondia a inquérito, e em função disso até já renunciara, e se não tivessem remanchado nove anos para denunciá-lo. Mas Renan foi reeleito, permanece no cargo e vai levar a cabo a aprovação das medidas salvadoras propostas pelo Poder Executivo. Ótimo.

Mas, embora tenha ganhado a queda de braço com o Supremo Tribunal, recusado acintosamente a intimação e cometido crime de desobediência a ordem judicial, tudo faz parecer tenha ele obtido a chamada “vitória de Pirro”, aquela em que o vencedor amarga consequências tão graves que seria melhor não ter vencido.

Renan responde a muitos procedimentos penais, pode ainda vir responder a outros, e ele humilhou e constrangeu exatamente quem vai julgá-lo muito em breve, e que, neste caso, por razões políticas, se viu forçado a lhe dar ganho de causa. Mas, provavelmente, em sua homenagem, o STF vai plantar e regar um frondoso pezinho de cá-te-espero.


  
     

COMENTÁRIOS:

Parabéns pelo artigo. Temos que repensar até o Supremo. Uma pena.

Vicente Alencar



O problema do Brasil é o eleitor, ou os aventureiros colocados por ele no poder. O Pelé quase foi crucificado quando certa vez afirmou que “o brasileiro não sabe votar”. Ele tinha toda a razão.

Aliás, ironizando uma célebre canção ufanista de Ary Barroso, “Aquarela do Brasil”, Aldir Blanc e Maurício Tapajós compuseram uma música que denominaram “Querellas do Brasil”, cujo primeiro verso sentencia: “O Brazil não conhece o Brasil”.

Um grupo eleito pelo voto levou o País à bancarrota. Afastado do poder, os náufragos sobreviventes de sua base parlamentar de apoio trabalham para que não se consertem os rumos errôneos, tentando envolver a Nação em um grande abraço de afogado.

Entre os Estados da Federação, três deles se encontram falidos, por absoluta má gestão. E o nosso regime é democrático. Todos os responsáveis foram eleitos.

Fernando Pimentel, hoje denunciado por corrupção, que no Governo de Minas Gerais condecorou as mais desprezíveis personalidades, afundou o Estado em profunda crise financeira.

No Rio de Janeiro acontece o mesmo, e os ex-governadores foram presos e respondem a processos criminais.

No Rio Grande do Sul outro descalabro, causado pelos últimos governantes. A Capital Federal sofreu tamanha farra nas finanças de um governo petista que teve que cancelar o carnaval, por falta de verbas.   
  
“Do Brasil S.O.S. ao Brasil”, termina aquela irônica canção, que se notabilizou na voz de Elis Regina.

Reginaldo Vasconcelos

     

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

ARTIGO - O Fim do Brasil (RMR)


O FIM DO BRASIL
Rui Martinho Rodrigues*


Felipe Miranda publicou um livro intitulado “O fim do Brasil”. Previa uma recessão longa e profunda. Foi processado por quem o acusava de tentar prejudicar a reeleição da presidente Dilma. Uma economista de um banco disse algo assemelhado. Foi demitida por solicitação do ex-presidente Lula. O desastre foi mais profundo e chegou mais cedo do que o anunciado.

A crise econômica se liga a um impasse político cuja solução não está no horizonte. O nosso presidencialismo, havido como imperial, revelou-se quase um parlamentarismo de fato. O Congresso só pensa na Lava Jato. O presidente Temer é refém do Legislativo. A sociedade tornou-se palco de movimentos corporativistas, aliados à cegueira ideológica e ao projeto de poder desmascarado em Curitiba. A aliança assim formada ameaça paralisar o Brasil.

A maioria silenciosa, cujo inércia foi quebrada pelos escândalos que ruborizaram o Macunaíma, tem o mérito de não ser organizada, porque organização significa dominação e manipulação. Mas o preço desta liberdade e autenticidade é uma relativa impotência política, por exclusão das instituições. Estas estão funcionando, mas sob o domínio de uma maioria sem representatividade e preocupada em escapar da Lava Jato. A nova oposição só pensa em reconquistar o poder a qualquer preço.

Esperava-se restabelecer a confiança dos investidores, com alguma recuperação da economia. Tais expectativas não estão se confirmando. A gravidade da crise não favorece a paciência. A pressa ameaça a continuidade da racionalidade econômica adotada pela equipe do governo Temer, que se encontra diante de um dilema: se vetar a legislação gestada no Congresso, havida como contrária à Lava Jato, ficará sem base parlamentar. Caso sancione a lei havida como “salva ladrão” terá de enfrentar a fúria da sociedade, cujo sono foi desperto pelos exageros de um governo do qual o PMDB fazia parte e, embora não governasse, tem responsabilidade pelo apoio a ele dado.

Inobstante ser necessário impor limites ao abuso de autoridade praticado por grande parte dos integrantes da magistratura e do MP, neste momento o que está posto é a tentativa de salvar corruptos.

A parte do governo anterior que continua no poder não tem credibilidade diante dos brasileiros e enfrenta o ódio daqueles de quem eram sócios no Poder, que são peritos em vender ilusões, difamar, causar tumultos, enquanto se apresentam como “do bem”, apontando quem deles discorda como “do mal”.

Quem responsabilizava as dificuldades do seu governo como consequência de uma herança maldita de décadas longínquas, agora aponta todas as dificuldades como consequência de uns poucos meses de governo. É fácil vender ilusões, afirmar que os males da falta de recursos são escolha voluntária de gente “do mal”.

Pressionado pelo populismo demagógico; premido por Congresso preocupado em escapar da cadeia, Temer poderá vir a ser cognominado como “o breve”. Teríamos, então, eleição indireta no atual Congresso.

Felipe Mirando, ao descrever o fim do Brasil, estaria certo? A tempestade é perfeita.


domingo, 4 de dezembro de 2016

NOTA JORNALÍSTICA - Morre Ferreira Gullar


MORRE O POETA MARANHENSE 
FERREIRA GULLAR


Morreu Ferreira Gullar, artista plástico e intelectual completo, eminentemente poeta, membro da Academia Brasileira de Letras, que se notabilizou na juventude como ativista de esquerda, filiado ao Partido Comunista, tendo sido preso e exilado. Depois, por fim, apostatou.

Quem não foi esquerdista aos 20 anos não tem coração. Quem continua esquerdista na maturidade não tem cérebro”, segundo o jornalista e político francês Georges Benjamim Clemenceau. Gullar tinha coração e tinha juízo.

Deus o tenha.


Tenho um coração,
Dividido entre a esperança e a razão.
Tenho um coração,
Bem melhor que não tivera.

(Ferreira Gullar, em Borbulhas de Amor)


sábado, 3 de dezembro de 2016

CRÔNICA - O Fim de Ano do Fim do Mundo (RV)


O FIM DE ANO
DO FIM DO MUNDO
Reginaldo Vasconcelos*


Temos vivido neste ano um período histórico agitado, em todo o Planeta, com o surpreendente resultado do plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a restauração dos laços diplomáticos com Cuba por Obama, a inesperada eleição do caricato Donald Trump à presidência dos EUA, o acordo do Governo da Colômbia com os guerrilheiros das Farc, a previsível, mas nunca esperada morte de Fidel Castro, o subsecular ditador cubano aposentado.


No Brasil, o Presidente Temer luta para aprovar medidas restritivas, a fim de controlar os gastos do Governo, e para melhorar um ensino médio caquético, e os causadores da aguda crise nacional, apeados do poder, reúnem um Exército de Brancaleone, armando uma cruzada contra todas as mudanças, de forma reacionária, para se contrapor a tudo que é tentado em prol da salvação geral, assim como no passado foram contra a promulgação constitucional. Debalde.



Se verificassem constatariam que não havia alunos estudiosos entre os que invadiram as escolas, açulados pelas esquerdas, porque estes estavam estudando para concorrer no ENEM, e que não há operário de escol entre os que protestam sob o rótulo de “trabalhadores”, pois os realmente operosos não têm magoas do destino. Do mesmo modo, não há patriotas entre os políticos que atacam o Governo pela via do “quanto pior, melhor”.


Não há trabalhadores rurais laboriosos e produtivos entre os que se envolvem em protestos violentos, nem professores cultos entre os que dão instruções ideológicas aos alunos, e tentam fazer política partidária com eles, até porque não há intelectuais genuínos entre os fundamentalistas. É, portanto, a revolta do lodo.

Estados completamente falidos, funcionalismo nas ruas reclamando salários, ex-presidentes da República sob graves suspeitas, governadores indiciados e presos, os presidentes das duas Casas do Congresso multiprocessados,  um preso, o outro em vias de sê-lo, ambos réus da Justiça Federal. Enquanto isso, hordas de heróis inúteis se colocam como rebeldes sem causa definida, agitando bandeiras rotas e gastando pilhas nos megafones. Em vão.

  
Agora, ao se fechar o cerco da Operação Lava Jato em torno dos políticos corruptos, notadamente quando a empreiteira Odebrecht faz acordo de leniência e incrimina em torno de duzentas “excelências” das legislaturas e administrações públicas mais recentes, o Parlamento entra em desespero para aprovar com urgência uma lei que os proteja das tenazes da Justiça.


Nada feito. A casa caiu. A chamada “delação do fim do mundo”, que será levada a cabo por 77 executivos da empreiteira, envolvendo tanta gente dos poderes federais, é inexorável. De nada adiantará militantes queimar pneus e quebrar vidraças, nem isolados Ministro do Supremo Tribunal tentarem advogar a causa de alguns.  

Restará aos envolvidos a palavra de desalento que deixou gravada na torre de controle aéreo do aeroporto de Medellín o desastrado piloto Quiroga, ao perceber que morreria, e com ele os seus passageiros, por tentar aplicar a lei do Gerson: Jesus!




NOTA DO EDITOR:

“Aplicar a Lei do Gerson” é uma expressão que designa o ato de procurar levar vantagem, ainda que por meio aético ou ilícito.

A origem do termo é um anúncio publicitário de uma marca de cigarros, do fim da década de 60, em que o jogador de futebol Gerson de Oliveira Nunes aconselha a aquisição do produto, por ser melhor e mais barato que os concorrentes. Portanto, em seu argumento, ele não estimula nenhuma conduta indigna.

Mas, sendo um atleta da Seleção Brasileira de Futebol, ao divulgar um hábito insalubre foi castigado pela opinião pública, que passou a relacionar seu nome ao vezo de contornar as normas para se locupletar, notadamente os políticos, aplicando o famoso “jeitinho brasileiro”.

Ao que se tem apurado e divulgado, o inditoso aeronauta boliviano Miguel Quiroga, proprietário e piloto do avião que se acidentou com o time de futebol brasileiro da cidade de Chapecó, em Santa Catarina, matando mais de 70 pessoas, neste último dia 26 de novembro, visando fazer economia, não fez a recomendada escala de abastecimento e caiu nas montanhas da Colômbia, a poucos minutos do aeroporto de destino, por falta de combustível.
   

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

GLOSSÁRIO - Curiosidades Latinas - 4 (VM)


GLOSSÁRIO DE PARÊMIAS, ANEXINS E CURIOSIDADES LATINAS (4)
Seleção de Vianney Mesquita*


Ab-uno-disce-omnes = “E que um só vos ensine a conhecer a todos...”

Enéas, ao contar a Dido as perfídias dos gregos, ao falar de Sinon, cujas mentiras decidiram os troianos a dar entrada na cidade ao famoso cavalo de madeira, diz:


Accipe-nunc-danaum-insidias-et-crimine-ab-uno-disce-omnes... = “Ouvi desses gregos as pérfidas mentiras. E que um só vos ensine a conhece-los todos”.

Cita-se, em geral, a respeito de atos de perfídia que bastam para patentear o caráter de um homem ou de uma coletividade.


Ab-urbe-condita = “Desde a fundação da cidade”.

Também se escreve: A.U.C. Contamos nossa era a começar do nascimento de Cristo (a.C.), enquanto os romanos contavam desde a fundação de Roma: aIb-urbe-condita. Esse ano corresponde a 753, antes do Nascimento.


Abusus-non-tollit-usum = “O abuso não impede o uso”.


Abyssus-abyssum-invocat (Salmo 41, v. 3) = “O abismo chama o abismo”.

Expressão figurada de um Salmo de David, isto é, uma desgraça chama outra; uma falta nos leva a outra.

Decerto é dessa expressão que procede o ditado “uma desgraça nunca vem sozinha”.


A-cane-non-magno-saep-tenetur-aper. (Ovídio, Remedia amoris, 422) = “Muitas vezes o javali é seguro por um cãozinho; entre nossos inimigos, muitas vezes, devemos mais temer os menores”.


A-capite-ad-calcem = “Da cabeça aos pés”.


Acceptans-actum, cum-omnibus suis qualitatibus-aceptarevidetur. (Aforismo jurídico) = “O aceitante de um ato aceita-o com todas as suas qualidades”.


Accepto-damnum, januam-claudere = “Pôr fechaduras na porta depois desta arrombada”.


Accessiti = Em linguagem escolástica, se diz do postulante que obteve votos suficientes.


Accessorium-sui-principalis-naturam-sequitur. (Brocardo jurídico) = “O acessório segue naturalmente o seu principal”.

Quando se vende um automóvel, subentende-se que os pneus devem ir junto.


Accid-in-puncto-quod-nun-speratur-in-anno. (Palavras do Imperador Romano-Germânico Fernando I) = “Acontece num momento o que se esperava não acontecer em um ano”.


Accipe-coronam-ducalem-ducatus-Venetarum = “Recebe a coroa ducal do Ducado de Veneza”.

Fórmula com a qual, desde o Doge Riniero Zeno (1259), o Príncipe reeleito recebia do conselheiro mais novo o barrete dogal.


Accipe-pileum-pro-corona = “Recebe o barrete no lugar da coroa”, isto é, que vale tanto quanto a coroa.

Fórmula da imposição do barrete doutoral no ato de conferir a coroa de louros.


Accipe-librum-et-devora-illum. (Apocalipse 10, v. 9) = "Toma o livro e devora-o".


Accipe-quod-tuum, alterique-da-suum = “Toma o que é teu e dá o que é alheio ao seu dono”.

Palavras de Felipe II, rei da Espanha.



COMENTÁRIO:

Meu amigo Vianney, paladino no seu incansável ofício. Nossa Língua e nós te somos gratos.

Geraldo Jesuino