terça-feira, 9 de junho de 2020

ARTIGO - As Palavras e as Coisas (RMR)

AS PALAVRAS
E AS COISAS
Rui Martinho Rodrigues*



Palavras têm sido consideradas por uns como naturalmente ligadas ao que designam. Outros consideram-nas meramente convencionais. Platão (428 – 348) reconheceu o convencionalismo, já que os vários entes podem receber nomes diversos. Mas defendeu a reserva da inteligibilidade da linguagem. A dinâmica das línguas precisa da moderação da gramática normativa para que a comunicação possa ter um mínimo de clareza. A disputa entre convencionalismo e essencialismo foi afastada por Karl Raymond Popper (1902 – 1994), que recusa ambas as posições e repudia o voluntarismo da ressignificação das palavras como um convite ao sofisma.

Os estruturalistas e pós-estruturalistas, vindos dos estudos de literatura e linguística, diversificaram-se em diferentes tendências por diversos campos do conhecimento, chegando ao desconstrutivismo. A oposição entre linguística e gramática favoreceu a ressignificação das palavras. Abriu a porta para o relativismo cognitivo e axiológico. 

A interpretação da História, marcada por um certo reducionismo de tudo ao conflito, fortaleceu as teses da omnipresença da vigilância e do controle entendidos como sempre ilegítimos, como se observa nas obras de Michel Foucault (1926 – 1984), com destaque para a obra “As palavras e coisas”. A isso somou-se o entendimento de que se deve mudar o foco da educação escolar, evitando o “conteudismo”. A ênfase passa a ser, de um lado, na capacidade de pensar; de outro, nos valores, promovendo a solidariedade, a paz e a justiça com a ajuda de técnicas de psicologia, conforme descrito por Pascal Bernardin, na obra “Maquiavel pedagogo”, com farta documentação da União Europeia e do Ministério da Educação da França.

Ministrar valores no ensino oficial é adotar uma ortodoxia. Fazê-lo por meio de técnicas psicológicas é manipulação de consciência. Justiça e solidariedade são conceitos indeterminados. Caso seja oficializado um entendimento de tais valores teremos uma consciência proposta pelo Estado, teremos totalitarismo. 

Ensinar a pensar se faz nas disciplinas de lógica, epistemologia e nas metodologias científicas, não com técnicas de convencimento ou pregação de determinados entendimentos do que seja justiça ou solidariedade. A escola da pregação de valores tende a ser catequética. Saber pensar não prescinde dos conteúdos. Não se pensa só com método, sem substância objetiva a ser processada. Não se faz construção sem tijolos e outros materiais que são os conteúdos da obra.

O projeto iluminista de refazer consciências por meio de um saber supostamente unívoco, calcado na superioridade das ciências da natureza sobre o senso comum, deixou o legado totalitário da presunção de esclarecimento. No campo dos valores isso é trágico. Abre o caminho para a  uma consciência oficial. Um pensar correto que se distingue da lógica e da epistemologia, leva ao uso abusivo de palavras ao sabor de interesses e paixões.


Manifestações pacíficas, propostas de descentralização da federação e de Estado mínimo, sem um partido organicamente constituído, defendendo a liberdade de expressão pode ser rotulada como fascista. Vândalos portando facas, coquetéis molotov e bastões, defesa do controle da liberdade de expressão pela criação de um conselho nacional da imprensa ou pela censura das redes sociais e a ideia de um Estado poderoso e controlador são adjetivados como defensores da democracia. O convencionalismo semântico extremado desorienta até pessoas inteligentes e cultas, sob a influência do efeito manada promovido por intelectuais e pela grande imprensa.

REPRODUÇÃO – Capítulo do Livro Franciscos Moradores do Céu (VM)



NOVE DE JUNHO
DIA DE
SÃO JOSÉ DE ANCHIETA*

Vianney Mesquita**


[...] nasceu em San Cristóbal de la Laguna (Arquipélago de Tenerife) uma das sete grandes Canárias (Espanha) no dia 19 de março de 1534, e faleceu na hoje Anchieta, antigo Município de Reritiba, Estado do Espírito Santo – Brasil, onde desenvolveu vida apostolar intensa e santa, desde aqui aportado em 13 de junho de 1553, na companhia de vários sacerdotes, dirigidos pelo Padre Luís da Gram.

O processamento canonizador desse Sacerdote-jesuíta representou um dos mais longos percursos canônicos da História Eclesiástica (nada menos do que 417 anos), ocorrência a me tocar próximo, pelo fato de haver tomado convivência, muito cedo, com o Apóstolo do Brasil, nas lições de História Pátria dirigidas pelos professores dessa disciplina.

Já em 1617, o Santo Presbítero – cujo culto ocorre em 9 de junho – era apontado em campanha, na Bahia, para que fosse beatificado, o que somente veio a suceder em 22 de junho de 1980, distante 34 anos de sua canonização, em 3 de abril de 2014, pelo Papa Francisco, e há 417 de seu exício terreno, ocorrido em 9 de junho de 1597, com a idade de 63 anos.

Alguns comentaristas da Religião e da Literatura (Anchieta, além de católico estremado, era completo literato), em seus entrelaçamentos, exprimem a ideia de que pode haver sido circunstância fautora de atraso nesses procedimentos canônicos a perseguição aos Padres Jesuítas ocorridas no País por parte de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, ministro de Dom José, nos anos Oitocentos, o que culminou com a expulsão dos inacianos, em 1759.

Matéria de 15 de dezembro de 2013, por mim divisada no Estado de São Paulo, assinada pelo jornalista José Maria Mayrink (8;2013), e da qual fiz paráfrase e muitos acrescentamentos, dá conta de que, logo depois do passamento do Padre José de Anchieta na então Reritiba, no Estado do Espírito Santo, a propagação de suas virtudes, amplamente conhecidas em Portugal e Brasil, aportou em Roma e circulou por todo o orbe católico.

Desta sorte – continua, com engano, Mayrink (Opus citatum) – “em 1624” (1634? 1644?), o Papa Inocêncio X (seu nome no século era Giovanni Battista Pomphili e dirigiu a Igreja de 1644 a 1655) deu por aberta a causa da beatificação de Anchieta.

É de imposição, de passagem, se atentar para o equívoco do redator do Estadão, ao indicar o ano de 1624, quando era Sumo Pontífice o Papa Urbano VIII (1623-1644) – Maffeo Barberini – não Inocêncio X. Quero crer haver acontecido escorrego de natureza gráfica.

Nos Oitocentos, o Primeiro Conde de Oeiras e Primeiro Marquês de Pombal, o prefalado Sebastião José de Carvalho e Melo (Lisboa, 13 de maio de 1699 – Pombal – Portugal, 08 de maio de 1872), perseguiu os padres da Companhia de Jesus até sua expulsão do Brasil e de Portugal em 1759, período durante o qual todos os processos de beatificação e canonização ficaram suspensos, tendo sido a causa do Padre José de Anchieta retomada somente em 1875.

Estagnado o processamento jurídico-canônico no curso desse compridíssimo lapso, sem razões aparentes, até o apostolado de Paulo VI (Giovanni Battista Montini), o qual durou de 1963 a 1978, eis que o Brasil recorreu a esse Pontífice para lhe rogar a beatificação (8:2013), esta materializada em 1980, por via de um breve de João Paulo II.

Em adição, quiçá para justificar o retardamento do petitório da causa, já ouvi de pessoas, sem registro escrito, mas por caminhos orais e em opiniões esposadas antes de 1980 – ano da beatificação – a ideia de que as honras de beato, tampouco, evidentemente, de santo, jamais seriam concretizadas.

Tal ocorreria, à suposição desses árbitros, em razão de escritos laudatórios do Padre José de Anchieta ao terceiro governador geral do Brasil de 1558 a 1572, Mem de Sá (irmão do escritor Sá de Miranda), [conforme está] no De Gesti di Mendi Saa Praesidis in Baiilia (referido, por exemplo, em Barbosa, na tese de doutorado sustentada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, transferido para o livro As Letras e a Cruz (9:2006).

Também o fato pode residir em comunicação opósita do Padre Anchieta, em “detratação” aos inimigos oficiais, como os franceses expulsos pelo Governador, aqui deixados por Nicolau Durand de Villegaignon, e – isto sim, é importante – os brasileiros autóctones, os índios – aliados dos franceses contra Portugal, a quem o Padre-Escritor também se dirigira, na inteligência dos mencionados analistas (e sem a minha anuência, pelo menos in limine), com discurso muito carregado e ofensivo aos nacionais aborígines.


*A canonização de São José de Anchieta somente ocorreu no dia 3 de abril de 2014, por breve do Papa Francisco (Jorge Bergoglio).



CRÔNICA - Cearenses na Amazônia (GB)


CEARENSES
NA AMAZÔNIA
JO GU BAS*


NO longínquo ano de 1888, o avô Nereu da Silva Gusmão fora, como muitos nordestinos, para a Amazônia, em busca de tentar fortuna colhendo “leite” dos seringais, para vendê-lo aos norte-americanos e europeus. Lá, casou-se com a indígena Iracema, de “lábios de mel”, no dizer do escritor José de Alencar. Poucos anos depois ela seria tragada pelas enxurradas do Rio Xingu.

DESTA UNIÃO tiveram um filho, nominado pelo pai de Luiz Gusmão Sobrinho, que veio a unir-se com uma Iracema, que também seria levada pelas águas do mesmo rio. Tiveram três descendentes: Moacir, Iracema e Iraci – esta, viva aos noventa e dois anos de idade, excelente costureira residindo no bairro de Fátima, com filhas e netos. Seu marido chamava-se Jofre.

PASSANDO a página da vida para os tempos da Segunda Guerra Mundial (1939/1945), constata-se que o sonho de enriquecer na Amazônia permaneceria nas veias de seus descendentes. Nereu Gusmão Rocha, filho de nossos tios Pedro/Hermínia Gusmão Rocha, não teve sorte, atingido que foi pela malária. Voltou para escapar em nossa terra natal, o velho e querido São Francisco de Assis – hoje Itapagé, nome indígena de frade de pedra.

Rio Xingu em momento de Calma
O TIO Tibúrcio Bastos, outro que nas selvas esteve por alguns anos, em visita à nossa residência narrou uma perigosa aventura em que se envolveu. Residente numa cabana de índios, viu quando estes raptaram um garoto louro e de olhos azuis. Perseguidos, tiroteio de um lado e flechadas de outro, tiveram fim com um acordo: um boi foi suficiente para os raptores. 

ÀQUELA época, a febre amarela e o sarampo tiraram a vida de milhares de nordestinos. Hoje, é o denominado Covid-19 que a muitos ataca e morrem. Enquanto os que arduamente trabalham tentando mantê-los vivos, malfeitores e aliados a políticos enriquecem com a venda de produtos. Que Noé não os deixe entrar no barco salvador!


domingo, 7 de junho de 2020

POEMA - Quereres (RV)

QUERERES
Reginaldo Vasconcelos*


Quero querer todas aquelas que me queiram,
o querer solar de amar e amar e amar e amar.

Viver para querê-las como os beija-flores querem as flores, 
para beijar, beijar, beijar, beijar.


Para encantá-las como o concriz encanta e diz, no seu cantar 
e no matiz ruivo do amarelo.

Quero viver para querer seres gentis, olhos falantes, bocas silentes, 
feminis modos de dizer e de calar... 
e de amar, amar, amar, amar.

Mas o querer lunar que me faz gris me quer matar.
Quer me levar pela Estrada de Santana 
com Petrúcio, Belchior, Ricardo, Evaldo...


Quero  cavalgar Pégaso ao luar, espantar curiangos assim
passar o Cemitério do Alecrim, 
voar, voar, voar, voar.

Querer morrer, flanar, deixar a vida por um triz, 
como prediz a Natureza, e festejar no Infinito. 
Bailar, bailar, bailar, bailar.






POEMA - Dorme, Meu Amor (VA)


DORME,
MEU AMOR
Vicente Alencar*


Dorme, meu amor,
dorme com as canções
reservadas pelo meu coração
para te fazer feliz.

Dorme, meu amor,
dorme sabendo que meus versos
são destinados ao teu
coração.


Dorme, meu amor,
na ampla certeza de que,
mesmo não estando
nos meus braços,
estás comigo.

Os dias que nos separam,
as noites que passamos longe
um do outro,
aumentam meus desejos
e meus sentimentos,
todos dedicados a ti.



sábado, 6 de junho de 2020

POEMA - Poiesis (AA).


Poiesis
Alana Alencar*

Minha estética completa a métrica da rima, como obra de casulo que alimenta a borboleta em cor... que como bicho-seda tece e fia o rigor na melodia da escrita.

Na paciência dessa estética mística, sem padrão, enquadro a tela que, opaca, 
espera a mágica do artista...

...como náufrago à deriva que delira terra à vista e empresta ao poema 
"toda sorte e direção".


Minha estética, efêmera, incita a desordem criativa... que ao ler-me em bula pelos, pele, pede à paisagem, fria, flores de um verão qualquer...

que presumida fêmea oscila entre o verbo e a lei que ostento... que, às avessas, carne crua, inspira em ato-alívio a impossibilidade de esquecer.

Minha estética, nobre, escancara a sílaba perdida... soletra ponto acento vírgula. Espera aflita. Geme estática... como Belchior, em ode, paira e delira, fartamente encaixa-se, 
estética de intensidade rara.



terça-feira, 2 de junho de 2020

ARTIGO - Pequeno Ensaio Sobre o Ódio (HE)

PEQUENO ENSAIO
SOBRE O ÓDIO
Humberto Ellery*



Sempre que escrevo algum artigo e o lanço no cyberspace, expressando minha opinião sobre qualquer assunto, eu o faço como quem abriu uma gaiola e deixou aquela opinião voar livremente. Jamais me preocupo com réplicas ou tréplicas, mesmo porque opinião é como boca, todo mundo tem uma. 

Como Chesterton, repito: “Não me julguem pretensioso ou arrogante por afirmar que a melhor opinião sobre qualquer assunto é sempre a minha, ao contrário, é pela mais absoluta humildade; não tenho nenhum apego às minhas opiniões, estou sempre disposto a trocá-las por outras, desde que fique demonstrado que estas novas opiniões são melhores que as minhas”.

 Peço aos que me contestam apenas que se atenham às opiniões e aos argumentos, critiquem à vontade, uns e outros. Isso de crítica construtiva depende do criticado, toda a crítica feita a mim é sempre construtiva, é sempre bem-vinda, aproveito sempre para melhorar: “Prefiro a crítica que me corrige, ao elogio que me corrompe” (Santo Agostinho).

Ultimamente, entretanto, mais que criticar minhas modestas opiniões, tenho percebido, principalmente entre os que costumo chamar “bolsonáticos”, um hábito muito peculiar de criticar a mim (argumentum ad hominem), e não ao que pode e deve ser criticado: opiniões e argumentos.

Sou tenazmente crítico do atual (des)governo, mesmo tendo votado no Bolsonaro (no 2º turno, fique bem claro!), levando em conta que a volta do PT ao Poder seria mais pernicioso ao País (esta minha opinião já subiu no telhado). 

Em recente crítica que fiz ao modo do “Mito” (des)governar a Nação, pude observar duas críticas ao meu texto completamente incompreensíveis. O meu amigo Reginaldo Vasconcelos afirmou que assim eu me manifestava por sentir ódio ao “Mito”.

Ora, quem costuma ler minhas críticas já deve ter observado que jamais critico pessoas, mas fatos, atos, atitudes, providências, e sempre mantendo uma linguagem civilizada, educada e respeitosa, sem nunca passar nem perto do que poderia ser qualificado como injúria, calúnia ou difamação.

Surpreende principalmente porque meu preclaro amigo Reginaldo é jornalista, e mais do que isso, é Presidente da Academia Cearense de Literatura e JORNALISMO, sodalício do qual tenho a honra de ser membro (por amizade de quem me convidou, o Beto Studart, (Membro Benemérito) e não por eventuais méritos meus, que não sou jornalista nem literato, apenas amo muito tudo isso.

Sendo o Reginaldo um jornalista, e afirmando que a minha  crítica é um ato de ódio, ele está desqualificando não só a Imprensa Nacional, que em sua imensa maioria tem criticado o (des)governo do “Mito”, como até a mídia internacional, que vai do esquerdista Le Monde ao conservador The Guardian, passando por todos os grandes jornais americanos, europeus e asiáticos. Será apenas ódio o que os move? Lembra a piada: “Se todo mundo parasse de me perseguir eu deixaria de ser paranóico”.

Até revistas Médico-Científicas, que não cuidam de políticas que não sejam referentes à Saúde, como a The Lancet, e a Jama – Journal of the American Medical Association, têm feito críticas acerbas sobre sua interferência desastrosa na política de combate ao Covid-19, com reflexos absolutamente deletérios sobre a imagem do Brasil. 

O grande intelectual e político americano Adlai Stevenson dizia que o papel da imprensa era “separar o joio do trigo; e publicar o joio”. A função primeira do jornalista, como olhos, ouvidos e, principalmente boca da sociedade, é criticar, se for para elogiar vá ser assessor de relações públicas ou publicitário. 

Suponho, peço que me perdoem se eu estiver errado, que por seu incontestável amor ao “Mito”, amor que se traduz num sectário “culto à personalidade”, eles (“bolsonáticos”) são levados a uma estreiteza mental que os faz acreditar que se alguém não ama o “Mito” é porque o odeia. Tivessem lido Érico Veríssimo saberiam que “o sentimento contrário ao amor não é o ódio, mas a indiferença”. 

Aliás, acredito que o ódio nem mesmo é um sentimento, mas uma patologia. Como entender que uma pessoa psicologicamente sadia mantenha seu coração permanentemente destilando sentimentos de vingança, vontade de destruir, matar alguém que, vá lá, o prejudicou? Odiar é como beber um copo de veneno na esperança de assim matar seu inimigo.

George Bernard Shaw (que foi também jornalista), disse que “o ódio é a arma dos covardes”. Com perdão do grande intelectual irlandês, mas discordo da assertiva, pois a ser assim o que seria a arma dos bravos? A vingança?

É o que dá pra entender: se o covarde não tem coragem de perpetrar uma vingança (quem sabe, matar), o objeto do seu ódio, e fica remoendo o ódio, o bravo, sem medo, mataria seu desafeto! Isso não acontece, pois os verdadeiramente bravos não odeiam, pois conhecem o enlevo, o prazer divino do perdão.

Ainda no terreno das discordâncias, permito-me discordar do poeta sambista Ataulfo Alves, pois perdão não “foi feito pra gente pedir”, mas para doar. Perdonum, perdonnare, pardonnér, vergeben, forgive – até etimologicamente é um ato de doação, de amor, e que inunda meu coração, não deixando espaço para sentimentos (ou patologias) torpes, rasteiros, abjetos, como ódios, ressentimentos, inveja, mágoas. 

Vou concluir citando o grande filósofo espanhol Ortega y Gasset (para fingir uma erudição que não tenho) que nas Meditações do Quixote ensinou que “o Amor é um divino arquiteto que baixou ao mundo – segundo Platão – “a fim de que tudo no Universo viva em conexão”. A inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica a inconexão, isola e desliga, atomiza o orbe e pulveriza a individualidade”.



COMENTÁRIO

Gosto de comentar os artigos do meu amigo, concunhado e confrade da ACLJ, o insigne Humberto Ellery, porque eles são supinamente inteligentes, embora muitas vezes dominados pelo ódio ideológico, obumbrados pelo que Rui Martinho chama “cegueira dos paradigmas”.  

Não há quem me faça bater bocar com os “tudólogos” da Praça do Ferreira, ou mesmo da Volta da Jurema, e sempre que um amigo de uma cidade sertaneja me liga para debulhar seus disparates sobre o que ele entende da política nacional eu concordo plenamente. Não perco o meu latim.

Este artigo do Humberto Ellery eu vou comentar forçosamente (pelo artigo 14), porque fui citado, e injustamente tachado de mau jornalista, que ataca as pessoas e não se restringe a contestar as ideias que elas venham a expressar.

Ora, eu procuro ser absolutamente racional, e nunca passional, quando combato alguma tese, sendo totalmente inverídica a afirmação de que lhe haja denegrido pessoalmente alguma vez, ao discordar do que ele diz.

Agora afirma que não pratica violência verbal e que é a encarnação do “Humbertinho Paz e Amor”, quando ataca as pessoas que defendem Bolsonaro de “bolsomínios”, quando o termo certo é “bolsonaristas”, e de (des)governo a sua administração, que é legítima e democrática.

Por fim, curioso Ellery citar Erico Veríssimo, segundo o qual o contrário do amor seria a indiferença e não o ódio. Pois tudo o que o articulista não tem sido é indiferente, notadamente quando abona uma mídia totalmente odienta e viciada, que se preocupa em induzir o povo a crer em suas opiniões mal-enjambradas, em vez de informar os fatos de maneira verídica e imparcial.

Para esses órgãos de imprensa que Humberto Ellery acha ótimos, aos quais costuma fazer eco sem qualquer posição lúcida e crítica, tudo de mau que ocorre, inclusive os efeitos da pandemia, seria culpa do Presidente da República, e tudo que seja positivo seria obra dos Governos dos Estados, do STF ou do Parlamento Nacional.

Ontem houve um movimento popular pacífico pró-Governo Bolsonaro, em São Paulo, constituído por famílias inteiras, envolvidas na bandeira do Brasil. O grupo foi ameaçado de ataque por um grupo baderneiro de black blocs mascarados, patrocinados pelo PT, por uma torcida de futebol organizada, e por facções criminosas.

Esse segundo grupo queimou o pavilhão nacional gritando impropérios contra o Presidente, e, frustrado por ter sido contido pela Polícia na sua atuação beligerante, praticou quebra-quebra, saques, toda sorte de vandalismo violento contra bens públicos e privados.

Pois a grande imprensa informava ontem à noite que os dois grupos se constituíam, um deles de defensores de Bolsonaro, e o outro de defensores da democracia no Brasil. Pergunto:  Ellery está amando isto, ou a isto ele estaria “indiferente”?

Reginaldo Vasconcelos       

    

ARTIGO - Erro ou Maquiavelismo (RMR)


ERRO OU
MAQUIAVELISMO
Rui Martinho Rodrigues*


O deputado Márcio Moreira Alves (1936 – 2009) pronunciou um discurso agressivo contra os militares, em 1968, que deflagrou uma crise cujo desfecho foi a decretação do AI – 5. Anos depois, um filho de um político que teve grande protagonismo na crise de 1968, confidenciou-me que o propósito era mesmo fazer com que os “gorilas” reagissem e se desmascarassem.

A jogada fez mais do que isso: rendeu uma imagem mista de heroísmo e de martírio aos autores. O outro lado da moeda foi a imagem negativa dos militares que caíram na provocação. A ser verdadeira esta versão, foi uma cartada inteligente, embora sem muitos escrúpulos. Maquiavélica? Filiada a uma ética teleológica? Certamente. Nicolau Maquiavel (1469 – 1527) aconselhou aparentar virtude, sem necessariamente precisar ser virtuoso.

Temos visto sucessivas manifestações de apoio ao Governo Federal, nas últimas semanas. Os críticos dizem que se trata de algo semelhante ao “queremismo” de Getúlio Dorneles Vargas (1882 – 1954), movimento político de 1945, quando manifestações estimuladas pelo Palácio do Catete faziam parte de projeto continuísta do caudilho.

Pode ser. E Governos não devem manipular pronunciamentos populares, já que isso tanto lhes subtrai autenticidade como legitimidade. Registre-se, todavia, que as atuais demonstrações de apoio ao Governo, comportando, em seu meio críticas aos “tripulantes” do STF e do Congresso, têm sido pacíficas. Nelas não houve um carro arranhado ou flor arrancada de um jardim. Surgiram agora grupos recrutados nas torcidas organizadas. 

Tais grupos têm conduta agressiva. No Ceará até surgiu uma facção criminosa a partir de uma dessas organizações. Seus integrantes não são motivados pelo sentimento de responsabilidade cidadã. Facções criminosas, nas eleições de 2018, ameaçavam os eleitores do atual Presidente.

Isso levanta a suspeita de que o crime organizado esteja se tornando um ator político relevante. A conduta sugere uma prática mercenária, na medida em que se trata de ação política supostamente preocupada com a defesa da democracia, exercida por membros de organizações criminosas nem um pouco democráticas.

O recrutamento de mercenários, substituindo as forças de segurança, é um indício grave de deturpação das práticas políticas. Resultado: pessoas agredidas, vitrinas quebradas, depósitos de lixo incendiados.

A violência contra manifestações pacíficas é um sintoma preocupante. A crítica aos “tripulantes” das instituições tem levado a ataques contra as próprias instituições, fato igualmente preocupante, apesar da distinção possível entre a crítica aos titulares dos cargos, aqui chamados “tripulantes”, não ser a mesma coisa que ataque às instituições em si.

Aproveitar-se disso para recorrer a mercenários perigosos contra manifestações pacíficas foi o meio usado com sucesso para abafar as jornadas de junho de 2013. O Brasil tolerou a violência naquela ocasião.

Agora a cena se repete. Será uma provocação semelhante à de 1968, para levar o adversário a sair dos limites constitucionais? Caso seja, trará benefícios para o País? Não. Todos seremos prejudicados. Apostar no pior é um grave erro. 

O sucesso na repressão às manifestações pacíficas criará uma ordem baseada na violência. Depois alguns poderão vestir a fantasia de vítima. Outros serão apontados como vilões, mas poderão se defender dizendo que foram forçados a agir como agiram. A jogada poderá custar muito caro para o Brasil e para os seus mentores.





COMENTÁRIO

Dentre os que viveram o período, ninguém diz, e dentre os que vieram depois, ninguém pergunta, por que razão a deplorável ditadura de direita de 1964 aconteceu.

Será que os militares estavam entediados nos quarteis, sem fazer nada, e então resolveram tomar o poder e massacrar os cidadãos?

Claro que não. A chamada revolução de 64 ocorreu porque havia movimentações modernosas contra a democracia brasileira, pelos simpatizantes das ditaduras de esquerda mundo a fora. Foi uma contrarrevolução antecipada. 

Então, vale lembrar aquelas brigas de irmãos que, surpreendidos na refrega pela mãe, um deles diz logo em sua defesa: “Foi ele quem começou!”.

Pois bem. Bolsonaro foi eleito por maioria de votos em processo eleitoral absolutamente regular, é o titular do Poder Executivo da República, legítimo Primeiro Magistrado da Nação e o Comandante em Chefe das Forças Armadas Brasileiras, e não tomou nenhuma medida antidemocrática até agora. Trocar desaforos com repórteres impertinentes não significa atentado à liberdade de imprensa, ao contrário do que se tenta propalar.

Mas os pretensos futuros candidatos à Presidência da Republica, no Congresso e nos Governos dos Estados, bem como o péssimo jornalismo de setores da grande imprensa, com suas matérias menos informativas que dedutivas e indutivas, assim também o ativismo político do STF, praticando uma democracia de mão única, estão em vias de precipitar um levante popular e militar. Depois! depois! Aí vai caber nos perguntarmos: Quem foi que começou ??????

Reginaldo Vasconcelos