domingo, 14 de outubro de 2018

REFLEXÃO - Desabafo (MG)


DESABAFO
Marcos Gurgel*
  
Pensamentos, imaginações, esperanças e torturas. Tortura ao pensar, imaginar e esperar, esperar bons tempos, resoluções, decisões de vida; até quando, meu Deus?


Hoje eu estou tenso, nervoso e deprimido, hoje eu estou sofrido; olho ao meu redor e só vejo eu depois de mim. E é exatamente aí que eu me pergunto: Será o fim?

Ledo engano, pois não há fim para quem luta, não há derrota para quem persiste. Só há vitórias para quem insiste.


ARTIGO - Semeando Saberes (AS)


SEMEANDO saberES
Arnaldo Santos*


Devotados à profissão que escolheram, historicamente mal remunerados, quase sempre cumprindo jornadas de trabalho extenuantes, em locais muita vez insalubres, distantes e perigosos – onde quase não existe infraestrutura de comunicação e, menos ainda, tecnológica – diariamente, milhares de homens e mulheres dedicam o melhor dos seus esforços para estabelecer um Brasil melhor e mais desenvolvido.

Para chegarem aos seus locais de trabalho, os profissionais a que nos referimos, em algumas regiões do País, são obrigados a se deslocar em barcos perigosos, muitas vezes até remando, ou de bicicleta, e a cavalo, por estradas intransitáveis, pelo interior do Brasil.

Se já não bastassem todas essas adversidades, a falta de reconhecimento, e quase nenhuma valorização, mais recentemente, esses profissionais passaram a ser impedidos de desempenhar suas funções pela violência a que estão expostos, quando não são eles as próprias vítimas de brutais agressões físicas em seu ambiente laboral.

O leitor já deve ter percebido que estamos nos referindo aos professores, cujo dia em sua homenagem transcorre nesta segunda-feira (15.10), e não há motivos para comemorações. Ao contrário, temos sobradas razões para lamentar e refletir sobre a realidade vivenciada.

Ultimamente, muito se fala na melhoria da qualidade do ensino, significativos investimentos são feitos na rede de ensino, mas muito pouco é realizado em favor dos nossos docentes, embora sejam somente eles capazes de promover as transformações necessárias na formação da nossa juventude, pela transmissão do conhecimento.

Escolas com boa infraestrutura física são importantes, tecnologia educacional embarcada em sala de aula, também, como é necessário o transporte escolar para que as crianças cheguem às escolas, mas nada substitui o professor. Por tal pretexto, oferecer-lhes uma boa formação, melhores condições de trabalho, segurança em sala de aula e remuneração digna é um dever que se impõe e que a sociedade cobra.

Ainda há tempo!



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

ARTIGO - Pequeno Tratado Sobre a Ética (RV)


PEQUENO TRATADO
SOBRE A ÉTICA
Reginaldo Vasconcelos*


O noticiário brasileiro e mundial tem sido dramático nestes dias. Terremotos, tsunamis, erupções e furacões sacodem as regiões menos felizes, no que tange a situações sismológicas e meteorológicas do Planeta.

Mas também quanto à ação humana sobre a Terra as notícias são dantescas – o jornalista assassinado na embaixada de seu país, em outro país, e a filha que mata a mãe pela herança, com a ajuda do marido.

A família morta em acidente de trânsito na estrada, com um infeliz sobrevivente ileso de três anos de idade, que passou três dias velando os destroços e os cadáveres na mata, antes de ser localizado.  

Na política interna, a “cavalaria” federal a tanger uma “boiada” de políticos profissionais corruptos para os “currais” presidiais, exatamente quando o País tenta fazer uma faxina moral através do voto.     

Deus, em sua concepção absoluta, está acima do bem e do mal, de qualquer ética e qualquer lógica. Sua vontade é soberana e aleatória, em relação a todos os destinos fragmentários do universo. Mas as duas outras vertentes divinas, a racional e a intuitiva, essas já se vinculam aos compromissos éticos firmados entre a pessoa e a sociedade, entre a sociedade e a Natureza.

A ética é matéria de estudos e palestras, é cátedra universitária em que especialistas diplomados discorrem sobre o tema, e sobre o mesmo tema editam livros e tratados. Mas ninguém define com exatidão o que objetivamente seja “ética”, que permanece um conceito um tanto vago e impreciso.

Mas é fácil entender a ética como o conjunto deontológico de pactos que os seres racionais são obrigados a firmar – consigo mesmos, com os circunstantes, com estamentos sociais – sejam explícitos, sejam tácitos, para viabilizar a existência gregária pelo estabelecimento dos “costumes”.

À medida que a sua consciência amadurece, a nova pessoa vai percebendo o que deve fazer e não fazer, segundo as necessidades existenciais e os regramentos da vida em sociedade, e a partir daí vai elegendo as suas condutas e vai formatando o seu caráter.

O mandamento católico “não matarás”, correspondente à norma penal que tipifica “matar alguém” como o crime principal – não infringi-los é o primeiro compromisso que a ética jurídica e a ética mística nos impõem, seguido pelo respeito ao patrimônio alheio – que desde a infância, tacitamente, se assume.

Para além das cautelas que a sensatez nos aconselha, em última instância ninguém está livre das tragédias. São “atos de Deus”, como a Marinha da Inglaterra as qualifica. Mas dos delitos jurídicos e morais é possível se abster, para manter a lisura e evitar a desgraça dos repreendidos e apenados.

Estranhamente, talvez por falha no DNA do seu caráter, ou má formação familiar, quem sabe em resposta a experiências mais agudas vividas, alguns indivíduos não suportam as pressões da competição social e do consumismo e se munem de disposição e coragem para a delinquência contumaz – mentir, roubar e até matar, se necessário, para a satisfação de sua concupiscência desmedida.

Há outros que não enveredam por essa senda amoral e desonesta, apenas por falta de oportunidade ou de coragem. Não se impõem freios éticos para manter conduta lícita, mas a falta de propostas e ensejos desonestos de aparência segura – e o medo da punição penal – vão lhes poupando dos deslizes.

Mas há aqueles que decidem intimamente desde cedo fazer parte do bem, daquilo que denomino “Mundo São”. Determinam-se a obedecer todos os compromissos éticos – e por isso não desejam, não planejam e não aceitam cometer quaisquer delitos, sejam patrimoniais, sejam de sangue – ressalvada aqui a ira santa, a reação justa, a legítima defesa, a autotutela, que a submissão pusilânime e a covardia não são cláusulas do compromisso cidadão. 

Esses virtuosos adquirem a habilidade de vencer as tentações do mundo, de dizer “não” ao canto mavioso da sereia, imunes à sensação enganadora de estarem sendo tíbios sobre os próprios interesses, de que os pruridos morais sejam  a fraqueza dos otários, que atuam em detrimento do bem-estar dos seus e de seu próprio sucesso social e econômico.

Resta uma palavra de solidariedade por aqueles que por toda a vida tomaram essa rota da legalidade e da virtude, e que de repente se vêem moralmente alvejados, feridos ou ameaçados pela seta da execração e da Justiça, pela casual contaminação sofrida da conduta de insuspeitados delinquentes entre os seus próximos, seus parentes, seus afetos – ou até por um deslize completamente inadvertido, o que infelizmente acontece vez por outra.

        

ARTIGO - Mãos Lavadas (ES)


Mãos lavadas
Edmar Santos*


O segundo turno das eleições para presidente do Brasil põe o povo brasileiro em um dilema: votar em um lado que traz a sombra inapagável de um regime militarista que teve seus traços violentos, porém, que trouxe algum avanço; ou do outro lado votar num regime de liberalismo com pecha de libertino e viés comunista, mas que conseguiu atrair a simpatia dos menos favorecidos, principalmente com as políticas de assistência.

Deixem que o povo decida, diria Pilatos, enquanto lavava suas mãos. No entanto, não há a quem o povo martirizar dessa vez. Aliás, se alguém sofrerá martírio esse será o próprio povo, a depender de sua escolha. Que cruz nos espera?



Entre a fogueira e a fornalha, qual seria a melhor escolha? Avaliar as propostas vale muito pouco, são pontos criados dentro de um planejamento da busca de poder. Ainda que se possa utilizar para se fazer críticas e cobranças, pouco falam de quem os propôs e de suas personalidades; certamente o período de propaganda política é também insuficiente para embasar uma boa análise e escolha.

Não há mais tempo. Uma moeda e duas faces, cara ou coroa você deve escolher. A proposta que tem o pisar firme das botas militares ou a proposta que usa sandálias de retirantes?



Uma nação que se propõe a ser grande não pode vislumbrar uma política que negligencie a educação. A dificuldade de escolha está na dificuldade de discernimento, esse, só se aprende com o tempo e com educação, que ensine a pensar e aprender. A proposta que colocar segurança à frente de educação livre e eficiente é uma enganação. Votem bem, não lavem as mãos para esse momento!




COMENTÁRIO

Absolutamente congruente o tema abordado pelo nosso articulista, trazendo reflexão sobre o dilema do povo brasileiro neste momento eleitoral. De um lado a esquerda, que conquistou o poder e o manteve por longos 15 anos, até o colapso total de seu projeto, com a prisão e a deposição de seus políticos. 

Eleita sob a promessa de corrigir os já conhecidos vícios éticos da direita, a esquerda, entretanto, incorporou a suas práticas ilícitas, pela política de coalizão que praticou. Não promoveu de forma consistente a educação de qualidade e o emprego qualificado, e permitiu que o crime organizado criasse um Estado paralelo. Na verdade, só se tira o povo da pobreza ensinando o pescar, em vez de trocar peixe por apoio eleitoral. 

Do outro lado temos a nova direita, que exsurge agora como a solução final para os desvios gerais e os delitos naturalizados por todas as bandeiras da velha política brasileira. Mas entendo que não dá para lavar as mãos. É preciso enfrentar a realidade, e assumir os riscos – e os riscos são enormes.

O nosso Edmarus Sanctorum não frisa que o impasse se dá entre a certeza de uma política de esquerda fracassada, ainda vigente sob um vice de sua escolha, e a dúvida sobre o compromisso democrático e a capacidade administrativa da nova vertente, que prega, sem disfarces, o direitismo extremado.

A simpatia das multidões de pobres nordestinos – cada um, um voto – foi deliberadamente conquistada pela esquerda com a criação de uma bolha de prosperidade, por meio de medidas assistencialistas e expansão do crédito fácil, enquanto políticos ficavam ricos, os ricos ficavam mais ricos, e o País quebrava, ao tempo em que se espoliavam as  empresas estatais.

Também é preciso manter as mãos sujas diante do fato de que o militarismo não é, necessariamente, sinônimo de incompetência, de improbidade e de opressão. No mundo todo, da China aos Estados Unidos, os militares são vistos como heróis da pátria, sempre dispostos a defender as leis e o povo, se necessário com o sacrifício da própria vida, contra toda iniquidade.

Em país europeu vimos um idoso ceder, espontânea e orgulhosamente, sua posição numa fila, a um jovem oficial. E ninguém achou estranho.

Reginaldo Vasconcelos
     


terça-feira, 9 de outubro de 2018

ARTIGO - A Incógnita (RMR)


A INCÓGNITA
Rui Martinho Rodrigue*


Pesquisas erraram muito. Nenhum acontecimento justifica a quebra da longa série de levantamentos. Dilma Rousseff, em MG, primeira colocada nas previsões, teve a quarta votação. Rodrigo Pacheco, com 3,6 milhões de votos, tomou o lugar da ex-presidente, seguido por Carlos Viana, com 3,5 milhões. Até Dinis Pinheiro, dado como em quarto lugar, ultrapassou a candidata supostamente em primeiro lugar.


Os paulistas deram nove milhões de votos ao major Olímpio, um obscuro principiante em política; e seis e meio milhões a Mara Gabrilli, assim eleita senadora. Eduardo Suplicy, suposto campeão de votos, ficou sem mandato. Janaína Pascoal, coautora do pedido de impeachment, foi consagrada com mais de dois milhões de votos, alcançando 9,92% do total. A tese do golpe foi repudiada.


Não foi o erro de uma pesquisa isolada, mas uma longa série de levantamentos. Não aconteceu um fato novo de grande impacto nas vésperas da eleição. A discrepância entre as séries de pesquisas e os resultados foi muito além da margem de erro. A semelhança entre as pesquisas de muitos institutos oferece uma proteção relativa contra a suspeita de fraude.

Mas os institutos Paraná e o XP Investimentos, que vinham discrepando dos demais, foram inexplicavelmente desprezados pela imprensa. O segundo dos institutos citados, por ser ligado ao banco vinculado a Paulo Guedes, ministro de um eventual governo Bolsonaro, era tratado como suspeitíssimo. Os resultados aqui aludidos não foram os únicos que contrariaram as previsões. A larga diferença entre previsões e resultados em um grande número de casos, sem um acontecimento que explique as “surpresas”, ensejam uma grave suspeita.

A votação sem precedentes dada a Janaína Pascoal e a Mara Gabrilli, problematizam seriamente a acusação de misoginia atribuída aos candidatos aliados a elas e aos seus eleitores. “Misógino”, “preconceituoso”, “fascista” e “comunista” são palavras que estão sendo usadas com grande elasticidade semântica. Até fobia, patologia psiquiátrica, está sendo usada com prodigalidade para desqualificar quem pensa diferente.

Há quem profligue o uso indiscriminado do adjetivo comunista, como no caso de quem assim considera a social democracia. Deploro, todavia, quando isso se faz seletivamente, apontando o dedo para quem dispara o “título” de comunista, enquanto atribui fobais e preconceitos contra quem faz juízo moral conservador, ao invés de criticar o mérito da questão. O recurso é inescrupuloso e merece a mesma reprimenda.

Tão grave quanto confundir social democracia com comunismo é rotular de fascista quem quer menos Estado ou defende teses liberais. Mas há quem condene a primeira conduta e pratique a segunda, ferindo a dignidade da maioria silenciosa que saiu da sua apatia e deu votação estrondosa a Bolsonaro, que não tinha dinheiro, estrutura partidária, tempo de televisão, nem oratória ou máquina governamental da União, de Estado ou município.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

NOTA JORNALÍSTICA - Central das Eleições 2018 - TV Diário


ACADÊMICOS DA ACLJ
NA
CENTRAL DAS ELEIÇÕES
DA
TV DIÁRIO

A TV Diário promoveu ontem (07.10.18), como tradicionalmente faz há muitos anos, o programa especial Central das Eleições, para acompanhar, ao vivo, as apurações do pleito de 2018.


O Diretor da emissora, Jornalista Roberto Moreira, que apresentou a maratona televisiva, entre as 17 e as 21 horas, convidou para comentar as apurações os jornalistas Paulo César Norões e Reginaldo Vasconcelos, ambos titulares da ACLJ.





Também trabalharam nas transmissões, apresentando as tabelas de atualização das apurações de votos em tempo real, emanadas diretamente do Tribunal Regional Eleitoral, e do Tribunal Superior Eleitoral, a repórter Marcela de Lima e o Editor de Política do DN, Inácio Aguiar.

Roberto Moreira, também imortal da ACLJ, aproveitou a oportunidade para fazer de público o lançamento da nova feição gráfica do Jornal Diário do Nordeste, cuja versal física passa a circular em formato tabloide, ganhando ainda uma nova e mais moderna plataforma digital.

A transmissão recebeu a visita discreta do Diretor do Grupo Edson Queiroz, o Chanceler Edson Queiroz Neto, acompanhado da esposa, Ticiana Rolim Queiroz. Ele também integra de forma honorífica a nossa Academia, na casta dos seus Membros Beneméritos, sucedendo seu ilustre e saudoso pai, Airton Vidal Queiroz.


COMENTÁRIO

Cearense de verdade não assiste a cobertura pela Globo News e sim pela TVD, a mais qualificada e próxima da nossa realidade – e com a qualificada participação do nosso confrade e presidente Reginaldo Vasconcelos (Na imagem, Marcos com os pais Cássio e Mariinha).

Marcos André Borges



ARTIGO - Os Poços do Dnocs (CB)


OS POÇOS DO DNOCS
Cássio Borges*


Em reunião da Associação os Servidores do Dnocs no último dia 25 de agosto, tomei conhecimento de uma denúncia que determinado deputado teria feito, segundo a qual “o Dnocs estaria utilizando critérios políticos para perfuração de poços”.  Este fato me fez recordar a falsa versão do final da década de 90, envolvendo “o deputado Inocêncio de Oliveira, líder do PFL na Câmara, que tinha em suas terras poços perfurados pelo Dnocs”. 

Os denunciantes  contra o deputado pernambucano não tiveram o cuidado de apurar que perfurar poços em propriedades  privadas sempre foi rotina no Dnocs, mediante pagamento e demais condições conveniadas. O mesmo em relação à construção de açudes em propriedades particulares, o vitorioso programa  da  “Açudes em Cooperação”, uma versão pioneira no Brasil do atual projeto do Governo Federal, denominado de Parceria Público Privada-PPP. Foram mais de 35.000 poços perfurados e mais de 900 açudes construídos pelo Dnocs nesta modalidade.

Comentando este fato, o saudoso jornalista Themístocles de Castro e Silva, em artigo publicado no Jornal O Povo no dia 28 de novembro de 1998, disse o seguinte: Posso garantir aos senhores que milhares de propriedades rurais nordestinas salvaram os animais com os poços do Dnocs

Com o escândalo que promoveram patrulhando o deputado pernambucano, o Governo cancelou os convênios, disso resultando o desativação de dezenas ou centenas de perfuratrizes, que hoje não devem passar de sucatas. O Brasil seria mais feliz se toda a corrupção que o devora se restringisse aos poços do Dnocs, construídos em cooperação com particulares mediante pagamento. E Inocêncio, independente  de ser deputado, como cidadão nordestino, pagou o seu”.

Themístocles citou Rachel de Queiroz em seu artigo quando ela diz: “O Dnocs perfurou um poço na minha Fazenda “Não Me deixes”, com a profundidade de 78 metros. E foi a salvação do meu gado; do meu gado só, não; dos moradores da fazenda e de muita gente dos arredores. Não preciso dizer mais nada”.

Outro aspecto que deve ser considerado é o “vale tudo” que determinados setores do Governo do Estado do Ceará está promovendo com o intuito de extinguir o Dnocs, sejam quais  forem  as consequências atuais e futuras, lembrando obviamente que o Dnocs não é só o Estado do Ceará. Portanto, um crime contra a nossa Região.

Jornal O Povo – 26 de novembro de 1998


CRÔNICA - A tábua de Deus (RV)


A TÁBUA DE DEUS
Reginaldo Vasconcelos*


Não pratico mais a boemia, já faz algum tempo. Não que tenha adquirido qualquer desapreço à frivolidade dos botecos, aos improvisos líricos da folgança noturna, à estética feliniana das orgias. Não. Continuo a valorizar tudo isso com o mesmo vigor, com a mesma seriedade que devoto aos cultos e aos templos – tudo a seu tempo e modo certo.

É que hoje faleço de amigos que valham a pena acompanhar. Muitos dos velhos companheiros estão velhos, vários faliram, ficaram pobres de cobre ou de esperança. Outros se acovardaram às próprias mulheres e abandonaram o gosto pelas impróprias, que sempre flutuam nas noites de esbórnia.

Há ainda alguns que perderam a poesia, que demitiram seus duendes, que deliram os filósofos, que vazaram da esfera supra-real do mundanismo e caíram na senda da fé na vida eterna, embriagados de aprumo e certeza. Estes, uma vez na pinguela mística, não voltam mais à terra firme. Não se deve tocar neles, que vão retos e crentes, ou escorregam para o caos.

Mas mantenho algumas sentinelas avançadas, espiões infiltrados, infantaria do hedonismo notívago, gente que forma nas gerações mais novas da família, a qual me traz frequente notícia da alegria. Um dia desses, meu irmão me dizia de uma farra, de quando nela apareceu Luciano Maia, o poeta-mor do nosso meio, já na madrugada, já na última taberna. Vinha bêbado, mas reciclado. De certo fora em casa, se banhara, mudara de roupa, beijara a mulher adormecida, e partira para um segundo, quem sabe terceiro turno de recreio.

Contou-me o informante que o vate boêmio, solitário, incorporou-se à sua roda, elogiou o assunto, impôs uma dose de vinho do Porto a uma das moças da mesa, com delicadeza irresistível. Perguntado, afirmou conhecer-me. Até se declarou amigo meu, agora exagero seu, para honra minha. Pode ser que apenas suprisse a memória, turbada pelo álcool, com qualquer sentença afirmativa. No fim da tertúlia entregou a carteira a um do grupo e pediu lhe pagasse a conta, e que lhe apontasse o automóvel, que não lembrava onde deixara.

Mas há um detalhe crucial. O bardo chegou à tasca às voltas com uma frase lapidar, que repetia entre dentes, como quem vai degustando um tinto, intrigado com o buquê, investigando suas notas de sabor. Por fim, resolveu compartilhar com a mesa a oração poética da qual estava enamorado: “A TÁBUA DE DEUS FERIU MEU ROSTO!”. 

Meu irmão, que me relatava o ocorrido, não anotara o autor da frase, mas apenas que o poeta a atribuía a uma famosa poetisa, sem contudo acrescentar em que contexto aquele período se inseria. Mas tanto fazia. Não interessava a razão da denúncia, porque o seu encanto está na fórmula – o ferimento, o instrumento, o lugar da lesão, o autor do gesto.

Viajei ao Rio de Janeiro logo em seguida, para encontrar Artur da Távola, levando comigo aquela oração, contagiado pela magia de seus termos, pela forma hipnótica daquela metáfora e o seu lamento: a mulher ferida, a delicadeza do rosto, a rudeza da arma, o prestígio do agressor.

Em Copacabana, com um tio poeta que me hospedava em sua casa, caminhando na rua, no vagar de seus passos, entre uma farmácia e um Banco, uma quitanda e uma banca de revistas, transmiti-lhe aquele dístico mágico. “A TÁBUA DE DEUS FERIU MEU ROSTO!”.

Tio Zecarlos estancou um pouco a marcha, no meio da calçada – torrente de gente indo e vindo – para saborear as palavras. E me pagou com um outro fragmento poético, da lavra de Castro Alves, que  comparou ao anterior, pela eficiente síntese que consegue: “Às vezes quando o sol nas matas virgens / A fogueira das tardes acendia...”. Conta-me que, ouvindo Eça de Queiroz ler a poesia “Aves de arribação, em que esse trecho se insere, Eduardo Prado teria observado: “Aí está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos”.

No outro dia, já com Artur da Távola (advogado, radialista, jornalista, escritor, ex-deputado, ex-exilado político, Senador da República, musicófilo), quando nos entrevistávamos sobre a vida, entre rolinhos primavera do melhor chinês do Rio, no mesmo bairro carioca, repassei-lhe aquela frase poética colhida na noite cearense. “Adélia Prado!” – ele logo identificou a autoria. Então lembrei que a mesma Adélia, em um outro poema, fala do Criador em outro verso, menos queixoso, mais resignado: “Às vezes Deus me tira a poesia: eu olho pedra, e vejo pedra mesmo”.

Da janela do restaurante víamos o mar. Távola então concluiu a conversa, respondendo enfim à primeira pergunta que eu lhe fizera àquele dia, e que até ali ele deixara no ar, sobre o que preferia mesmo ser, entre tantos títulos que detém: “Sou poeta. Sinto-me poeta. É isso que sou”.

Fevereiro de 2006

Aos poetas Luciano Maia e Romeu Duarte, bem como José Carlos Mourão da Rocha e Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros (Artur da Távola), estes últimos in memoriam.



domingo, 7 de outubro de 2018

CRÔNICA - Protesto de Jovino Alencar (VA)


Desde 14 de Maio de 2018
o Banco do Brasil
está piorando
(Enviado por Vicente Alencar*)



Aqui, Jovino Nunes de Alencar, velho jornalista e comerciante aposentado, de 89 anos, ainda lúcido, andando pelas “bocas da vida”, como dizem os iletrados. E ainda tendo muita coisa para dizer e para criticar usando o Blog do meu parente e amigo, Vicente Alencar.

Pois bem, como todo mundo sabe, inclusive o Governo do Estado e a Prefeitura de Fortaleza – ambos deram o “calado por resposta” – Fortaleza, há pouco mais de um ano perdeu, sete agências do Banco do Brasil, fechadas pelo Governo Federal – inclusive a do Aeroporto Internacional Pinto Martins (do qual agora tiraram o nome, do portal da frente). Os dois referidos organismos nada lutaram para evitar o pior.  

Nesta Cidade de três milhões de almas, e com medo de uma possível reprimenta dos chefes de Brasília, nem Camilo nem Roberto Cláudio deram um “pio”.

Coitados! Mas os clientes se lascaram e continuam se lascando, principalmente os idosos de duas outras agências, que foram transferidos para o endereço chique da Av. Santos Dumont, 2456 esquina com a Rua Nunes Valente.

Alguns gerentes, e outros funcionários, geralmente são gente muito boa. Mas não podem fazer nada diante de um ESTILO com apenas dois Caixas-Rápidos, e um terceiro que trabalha pela metade, pois não se pode sacar dinheiro nele.

Muitas vezes você fica com  seus 70, 80 anos, ou mais, esperando até 40 minutos. É de lascar!! É muita gente presente e poucos caixas para atender. As pessoas reclamam pouco, por isso estou aqui, em nome das que ficam caladas.

Para a direção do BB em Brasília: Se essa agência tivesse vinte Caixas Eletrônicos ainda seria pouco, mas tem menos de dez por cento, só dois...

Enfim, só um pouco mais, em nome daqueles que tem a Juventude Renovada por quatro vezes (de 20 em 20 anos) e estão na minha faixa, de mais de 80.

É, o Banco do Brasil (existente desde 1808) está piorando... quando deveria ser ao contrário. Renovo, pois, o meu protesto, neste 7 de Outubro, Dia das Eleições, para um manancial de malandros e corruptos, muito poucos sérios.