terça-feira, 27 de dezembro de 2016

CRÔNICA - Infeliz Ano Velho (RV)


INFELIZ ANO VELHO
Reginaldo Vasconcelos*


Certamente alguém nasceu, alguém se casou, alguém prosperou, alguém sorriu neste ano fatídico que se encerra nestes dias. Mas, no geral, a quadra tem sido de depuração e sofrimento. Pode-se dizer que foi um "ano funil", para o qual convergiu o desfecho dramático de processões malsãos que já estavam longamente em gestação. 

O Brasil vinha em aguda mas até então assintomática enfermidade, controlando crônica doença moral com bálsamos sociais e com falsa propaganda, e de repente entra em colapso e passa por grave cirurgia política. Entra em profunda crise administrativa e econômica. 



Sofre a amputação de membros podres, a ablação de órgãos falidos, com a implantação de pernas de pau da pior cepa, à falta de madeira de lei, do melhor cedro ou mogno, no bosque humano de Brasília. Uma dolorosa intervenção para uma longa convalescença, uma cura difícil, incerta, imprevisível.

Santos Dumont, por seu turno, que se teria angustiado com os primeiros bombardeios aéreos, tremeu no túmulo, desta vez pelos desastres aviatórios dramáticos que ocorreram neste ano.



Em patacoada cucaracha morre nas montanhas da Colômbia, em avião da Venezuela e piloto da Bolívia, um time de futebol brasileiro quase todo, e agora, quase todo um grupo vocal do exército russo, cavalgando um velho Tupolev, se precipita no oceano – para não falar nos helicópteros tantos que se acidentaram no Brasil.

O Oriente Médio vira um pântano desumano e retorna à mais tacanha Idade Média, lançando mão do mais perverso instrumental bélico moderno para trucidar populações civis, para barbarizar inocentes, fazendo prova cabal da existência do demônio, para quem ainda duvidasse do inferno sobre a Terra.

Decapitações em massa em nome de Deus, destruição de monumentos históricos pelo obscurantismo fanático, hordas de famílias escorraçadas, com mulheres e crianças feridas e famélicas, em peregrinações bíblicas na direção da caridade dos povos e do acolhimento das nações.

Na Europa, gente que foi recebida e aceita nos países se volta contra os seus benfeitores por motivação de ódio étnico, de intolerância religiosa, de fundamentalismo ideológico, matando gente a granel com desarrazoada violência.   

Por fim, nos Estados Unidos, a eleição de um histrião ao trono mais poderoso do Planeta, para repetir a história trágica do mundo de forma farsesca, reprisando episódios em que o poder maior recaiu sobre Hitleres e Neros.

Aqui no nosso microcosmo cearense dois grandes ícones da sociedade nos deixaram de repente neste ano, Yolanda Queiroz e Ivens Dias Branco, capitães de empresas que lideravam os dois grupos econômicos mais tradicionais e mais portentosos do Estado, enlutando suas famílias e a nossa confraria, já que ambos eram nossos Membros Beneméritos.


Pessoalmente, este ano me levou logo em janeiro  o velho pai, produzindo para mim e os meus uma das esquinas mais abruptas do destino.

Resta-nos então fazer a indagação desesperada que fez a cantora americana Madonna, no último dia 25, após a morte do seu colega e amigo, o artista sônico inglês George Michael: “Será que 2016 não poderia acabar logo?”.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

TROVA - (VA)


TROVA DE VICENTE ALENCAR

Com estrelas brilha o céu
é bela noite de Natal
a Lua coloca o véu
Não há outra noite igual.
  
Sinto teus lábios querida
tal qual um beija-flor,
és meu amor, minha vida,
neste universo de amor.



domingo, 25 de dezembro de 2016

GLOSSÁRIO - Curiosidades Latinas - 6 (VM)


GLOSSÁRIO DE PARÊMIAS, ANEXINS E CURIOSIDADES LATINAS (6)
Seleção de Vianney Mesquita*


Actio personalis moritur cum persona =A ação pessoal extingue-se com o indívíduo” (Aforismo jurídico).

Actor agit quando vult, et non cogitur, sed contrarium est in reo =O autor demanda quando quer, sem poder ser obrigado a isso; quanto ao réu, porém, dá-se o contrário (Aforismo jurídico).

Actor et reus, idem esse, non potest =Ninguém pode ser autor e réu ao mesmo tempo” (Aforismo jurídico).
.

Actor forum rei sequi debet. = “O autor deve seguir o foro do réu” (Aforismo jurídico).

Actore non probant, réus absolvitur  = “Se o autor não pode provar, absolve-se o réu” (Aforismo jurídico).

Actori non licet quod reo denegatur =Ao solicitador (autor) não é lícito o que ao réu se denega” (Aforismo jurídico).

Actore onera probandi incumbit = “Ao promovente incumbem os onera da prova” (Aforismo jurídico).


Actum est = “Acabou-se”; “ao perdido, perder-lhe o sentido”. “Lá se foi tudo quanto Marta fiou”.

Actum nihil dicitur, cum aliquid superest agendum = “Ato nada diz quando está incompleto”.

Actus agentum nunquam ultra eorum intentionem operantur = “O ato jamais produz efeito além da intenção dos agentes” (Aforismo jurídico).

Actus, a principio nullus, nullum producit effectum = “O ato, nulo de seu princípio, nenhum efeito produz” (Aforismo jurídico).

Actus corruit, omissa forma legis = “O ato é nulo, quando se omite a forma da lei” (Aforismo jurídico).

Actus debet semper interpretari, ut aliquid operetur, non uti sit inanis et inutilis O ato há-de sempre ser interpretado de sorte que produza algum efeito, e não para que reste inútil (Aforismo jurídico).

Actus in dubio, validus interpretari debet = “O ato, em caso de dúvida, há que ser interpretado como valioso” (Aforismo jurídico).

Actus judiciais potentior est extrajudicial = “O ato judicial pode mais do que o extrajudicial” (Aforismo jurídico).

Actus legitimi condicionem non recipiunt neque-diem = “Os atos legítimos não dependem de condição, nem de dia” (Direito Canônico).




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

PRECE DE NATAL (VA)


PRECE DE NATAL
Vicente Alencar*

 Meu senhor,
toda a humanidade crê em tí,
como Gaspar, Belquior e Baltazar
também acreditaram.

Meu Senhor,
nesta data do teu aniversário,
que a paz,
a humildade,
as virtudes de cada um
construam com muito brilho,
com muito amor,
a esperança na ressurreição
em um mundo melhor!

Meu Senhor,
que seu manto de Paz,
na alegria de Nossa Senhora
e na sabedoria de São José,
possa nos levar ao messias.

Que o caminho de todos nós
Leve-nos à verdade e a vida
como ensinaste.

Meu Senhor,
na glória de Deus,
ajudai-nos a todos.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

NOTA OFICIAL - Retribuição de Boas Festas


ACLJ
RETRIBUI VOTOS DE BOAS FESTAS
AO GOVERNO DO ESTADO

A ACLJ retribui publicamente a mensagem de boas festas do Governo do Estado, na pessoa do seu titular e da Primeira Dama, Dr. Camilo Santana e Dona Onélia.
O cartão de natal oficial deste ano lembra a resistência e a esperança que inspira o juazeiro, árvore da caatinga que sobrevive à seca, se mantendo firme e verdejante.

Esta é uma bela analogia com o sofrido povo cearense, “antes de tudo um forte”, como timbrou Euclides da Cunha em relação aos nordestinos.

Ao Governador Camilo, nossos votos de um bom natal e de felicidades no ano novo, juntamente com a sua família, a jovem consorte e seus dois filhos graciosos.

Bem como auguramos-lhe boa sorte, sabedoria e resiliência para enfrentar os tempos difíceis que todo o País vive, atravessando estiagem administrativa, inanição política e miséria financeira sem precedentes na ficção ou na História.


A DIRETORIA     

CRÔNICA DE NATAL - A Cesta Vazia (AF)


Crônica de Natal
A Cesta Vazia
Altino Farias*


Empresário de sucesso, era figura de destaque na sociedade e no mundo dos negócios da cidade. Tinha modos finos à mesa de restaurantes igualmente finos, e maneira rude e fria de tratar as pessoas.

Ano após ano, no mês de dezembro, sempre recebia muitas cestas de Natal enviadas por parceiros de negócios, políticos, magistrados e até amigos. Então, mandava sua secretária separar o que lhe interessava: bons uísques, vinhos finos, champanhe, patês, castanhas; e dar fim no que sobrasse, sem se preocupar com o destino daqueles produtos. Frio e rude como sempre.

Mas naquele ano foi diferente. Em meio a muitas cestas repletas de artigos nobres, recebeu uma vazia. Completamente vazia. Ficou intrigado. Pela primeira vez em muito tempo procurou o cartão do remetente, que sempre desprezava. Não havia cartão, somente aquela cesta insolitamente vazia. Aborreceu-se.

Quem teria a ousadia de enviar-lhe uma cesta de Natal vazia? Noutra hipótese, quem teria o desplante de subtrair todo o seu conteúdo, deixando de resto apenas a própria cesta? Seria uma brincadeira de mau gosto? Alguém queria ridicularizá-lo? Irritou-se mais ainda ao pensar detidamente sobre o fato.

   
Os dias que antecedem ao Natal são corridos para todos, e aquele homem tinha sua atenção nos negócios a fechar para cumprir a meta anual da empresa que se misturavam a muitos compromissos sociais de sua atribulada agenda pessoal.

Embora vivendo esse turbilhão, não parava de pensar na cesta vazia. Quem a enviou? Por quê? Quem lhe subtraiu o suposto precioso conteúdo? Por que deixar uma cesta vazia chegar ao destinatário? Ainda irritado, não encontrou respostas.

   
Telefonemas, apertos de mão e sorrisos prontos. Num breve intervalo entre uma coisa e outra, veio-lhe um pensamento: a cesta estava vazia propositadamente para que ele mesmo a preenchesse e enviasse a alguém. Ora, como não havia pensado nisso antes!? Mas... Preenchê-la com o que? Enviar a quem?

Receber é fácil. Dar impessoalmente, também. Receber e dar algo fazendo com que um abraço verdadeiro e um olhar amigo completem o significado desses atos, porém, é mais difícil.

Então, aquele homem rude e frio no tratar com pessoas deletou a lista de cestas de Natal que mandara sua secretária elaborar para aquele ano e pôs-se, entusiasmado, a elaborar uma nova. Uma não, três! 

Na primeira lista estavam entidades de assistência a necessitados. Procurou saber das que passavam por maior dificuldade e conversou pessoalmente com seus gestores, identificando a melhor forma de prestar-lhes auxílio. Lista fechada, tudo foi cuidadosamente providenciado. O carinho com que tratou esse assunto não impediu seu anonimato perante o grande público, num gesto elegante e inédito para ele.

Na segunda lista, buscou na memória amigos de verdade que foram ficando pelo meio de sua caminhada rumo ao mundo gelado e tenso no qual vivia. Garotos do bairro, do futebol na rua, colegas de classe, companheiros de faculdade, parceiros do início da vida profissional, das brincadeiras de bar. Impossível, mas a preocupação foi grande para não esquecer ninguém.

Com ajuda da família preparou lindas cestas, muito sortidas e enfeitadas com laços vermelhos de cetim, comentando sobre cada um daqueles amigos perdidos no tempo à medida o trabalho avançava. O habitual cartão de congratulações padrão da empresa, que acompanhava suas cestas até então, foi substituído por outro, com mensagem pessoal escrita de próprio punho, encerrada sempre com palavras de amizade, carinho e otimismo.


 A terceira lista foi para “aqueles” que fazem da vida apenas um imenso balcão de negócios. A maioria gente influente: empresários de sucesso, profissionais liberais famosos, políticos, magistrados, funcionários públicos de altíssimo escalão. Para eles enviou... Cestas vazias, como a que ele próprio recebera. Agora o anonimato, em vez de remeter à humildade e solidariedade, instigava uma reflexão: “UMA CESTA VAZIA? MAS QUEM SE ATREVEU A ENVIAR UMA CESTA VAZIA PARA MIM?”, pensariam eles num primeiro momento. Depois, que sabe...

Com a mente leve dormiu naquela noite de Natal um sono bom e profundo. Talvez quisesse sonhar com Papai Noel novamente depois de longos anos, embora não se julgasse merecedor de tal graça. Na manhã seguinte foi acordado cedo pela esposa e filhos, todos ao seu redor, na cama do casal, como não acontecia há muito. Olhou em volta e viu aquela cama como uma grande cesta de Natal cheia de presentes valiosos e amados e, numa oração silenciosa, agradeceu ao misterioso remetente daquela cesta vazia. Parece que Bom Velhinho, enfim, o havia visitado.


Um Feliz Natal a todos!
Que suas “cestas” estejam sempre 

repletas de amor e carinho.


COMENTÁRIO:

Perfeito. Parece, como se dizia "de primeiro" que foi "de vera". Grande abraço,

Luiz Rego

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NOTAS JORNALÍSTICAS - Confraternização Na Embaixada e Homenagem ao Poeta


EMBAIXADA 
DA CACHAÇA
CONFRATERNIZAÇÃO 
COM UM VETERANO

O movimento Pelos Bares da Vida, capitaneado pelo engenheiro, cronista e blogueiro Altino Farias (membro da ACLJ), tem sede no Empório Embaixada da Cachaça, onde realizou neste último sábado uma confraternização natalina, em torno de um dos mais antigos donos de bar em Fortaleza, o “Seu Airton” (que na imagem destacamos), com 30 anos de atividade no ramo.


Na foto, Altino Farias está sentado ao chão com chapéu panamá, vestindo a camisa azul da ACLJ; em pé, de blusa roxa e chapéu de feltro, o arquiteto Romeu Duarte. Perto dele, de boina azul claro, o poeta Luciano Maia. Mais para o centro, de óculos escuros e camisa laranja, o cronista Dejoces Batista, que aprecia versar sobre a vida boêmia e os boêmios, como abaixo exemplificamos. 

A Embaixada da Cachaça é um pub especial, com área climatizada onde funciona uma butique de bebidas finas, inclusive cachaças de alta qualidade, o único destilado brasileiro mundialmente conhecido, que o nome da casa prestigia.   

Altino Farias, há dois anos, convenceu o confrade Reginaldo Vasconcelos a lhe ceder o imóvel ocioso, e com o sócio Átilla  criou esse agradável ambiente, familiar e cultural, para ali congraçar a intelectualidade boêmia da cidade, promovendo lançamento de livros e exposições de arte em seus espaços.



A Embaixada faz realmente um trabalho de diplomacia entre os bares da cidade, notadamente os mais tradicionais, alguns daqueles botequins muito simples, que no Rio de Janeiro são apelidados de “pés-sujos” – de modo que os proprietários se frequentam entre si. Na imagem, na galeria de arte da Embaixada, um frequentador mostra o cartaz homenageando o bar concorrente neste caso, um dos que já não existem mais, por aposentadoria do dono. 

Aliás, não há concorrência nesse ramo de negócios, porque cada bar tem clima único, tem horário e dia mais próprios, músicos diferentes se apresentam, em datas diferentes; tem sua clientela cativa, além de frequentadores que são itinerantes entre eles. Um bar não substitui o outro, pois todos se somam como opções recreativas.

Serviço:

Embaixada da Cachaça: Rua João Brígido, 1245 - Joaquim Távora - Segunda à Sábado - Defronte à Procuradoria da República. Fone 30.85.04.28  



A HIENA
Dejoces

Noite de sexta-feira, Butikim De Uma Mesa Só abarrotado de Rinocerontes. Ao largo, Seu Airton superfaturando no caderninho da confraria.

A criatura surgiu como uma fera que abandona o esconderijo para dar o bote. Encruado, trazia na pele acobreada marcas de fome, nas mãos, garras esmaltadas e um anel de rubi. 

Cabeça descomunal, mais focinho que rosto, o sorriso era de subserviência, mas os olhos tinham o brilho de ódio dos impotentes. Cumprimentou a Manada e partiu pra cima do Véi: 

– O senhor é o proprietário? 

– A privada é no fim do corredor – retrucou o Véi, se fazendo de abestado. 

A manada fez silêncio, o circo estava armado. 

– O senhor tem alvará? – mordeu a criatura.

– Só Brahma e Antártica – frescou o Véi.

– Infelizmente, vou ter que fechar o bar – rosnou a criatura, crendo alcançar a jugular.

– Duvido! Faz mais de uma hora que eu quero fechar e nem sinal dessa cambada querer ir embora. 

Pressionada pela Manada, a hiena desapareceu. Fim dos tempos, e o Véi nunca teve alvará. Só Brahma e Antártica. 



LUCIANO MAIA 
RECEBE
MEDALHA RACHEL DE QUEIROZ
NA CONFRATERNIZAÇÃO DA 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE BIBLIÓFILOS



No último dia 15 de dezembro, durante a confraternização de natal da Associação Brasileira de Bibliófilos, o poeta Luciano Maia, Consul da Romênia em Fortaleza, membro da Academia Cearense de Letras e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, recebeu a Medalha Rachel de Queiroz, instituída pela ABbi.

O evento e a outorga da medalha tiveram lugar no Ideal Clube, e a entrega da láurea foi feita pelo bibliófilo José Augusto Bezerra, que também pertence às três referidas instituições literárias, sendo Membro Benemérito da ACLJ, e Presidente da ACL e da ABbi. 

Na imagem abaixo, o homenageado entre José Augusto e sua mulher, Ana Maria Jereissati, que acima lhe coloca a insignia, e ele em seguida faz o discurso de agradecimento.


ARTIGO - Seguir a Lei (RMR)


SEGUIR A LEI
Rui Martinho Rodrigues*


Não temos líderes. Temos dezenas de partidos que não têm caráter de partido. Há indícios de que a maioria dos agentes políticos têm envolvimento com práticas ilícitas, comprometendo a legitimidade do sistema representativo, assim desmoralizado.

O judiciário politizou-se, ao seguir a trilha do ativismo judicial, embriago pelo que Nietzsche chamou de “vontade de potência”. Alegando preservar a estabilidade normativa, sob a desculpa de preservar a estabilidade normativa, o STF usa e abusa da “interpretação conforme”, decretando que textos normativos sejam lidos ao arrepio da literalidade dos mesmos, ao invés de simplesmente legislar negativamente. Legislar deste modo não salva a estabilidade normativa.

O STF vai além: substitui o Legislativo, alegando preencher lacunas do ordenamento jurídico, legislando positivamente, em flagrante abuso da autopoiese do Direito, inclusive fazendo uso de interpretação extensiva para restringir direito; ou aplicando pena sem prévia cominação legal, como o afastamento de um parlamentar do seu mandato, sem pedir licença à Câmara.

Quando o Legislativo não introduz uma inovação no ordenamento jurídico está vetando tacitamente a pretensão. Tal não se confunde com uma procuração dada ao Judiciário para legislar.

A Constituição atual é excessivamente analítica, dirigente, programática e com vagueza dos princípios nela positivados. O STF tem se aproveitado disso para usurpar a função legislativa, como Supremo Legislativo Federal, de natureza eminentemente política. A judicialização da política politiza o STF.

A política apaixona, divide e gera conflitos. O Judiciário deveria ser o ente pacificador, mas está se revelando um provocador de conflitos. Quem julga não deve legislar, para não ter poder ilimitado. Temos nesta atitude uma forma grave de abuso de poder, não tipificada na lei penal. A separação dos poderes está sendo abertamente violada.

O MP não deveria legislar. Camuflar a iniciativa legislativa sob o manto da iniciativa popular não convalida o vício de origem da iniciativa inconstitucional. Quem acusa não deve definir os limites da própria atuação.

O ativismo do MP é mais compreensível do que o judicial. Temendo um acordão, os procuradores enveredam pelo ativismo, buscando mobilizar a opinião pública contra alguma medida do tipo “salva ladrão”, termo da Itália para a legislação que barrou a operação “Mãos Limpas”.

A República sofre de falência geral de órgãos. No Império Romano esta situação levou ao domínio dos “senhores da guerra”, que passaram a exercer o poder arbitrariamente nas áreas sob seu domínio. O Império Otomano viu surgirem os “jovens turcos”, levando à Revolução de Ataturk.

Nós tivemos, na primeira República, o tenentismo, que depois de algumas quarteladas derrubou a Primeira República e deu no Estado Novo. Seu último suspiro foi 64, quando os tenentes já eram marechais. Agora o MP e a magistratura encarnam o espírito do tenentismo, trocando o ativismo de farda pelo ativismo da toga.

Seria mais sábio e mais prudente seguir a lei, sem mais legoleios, sem ativismos e sem salvadores da pátria. Não faz sentido lutar pelo comando de um navio que naufraga.



COMENTÁRIO:

Perfeito professor.

Somente algumas inquirições: o caso é que se deixarmos "cada macaco no seu galho" o país não anda! (?). Ou melhor, anda para o bolso de alguns, uns, melhor dizendo.

Grande abraço,

Luiz Rego