quinta-feira, 8 de outubro de 2015

CRÔNICA - Cabeça de Vento (HE)


DON’T WOLK, GUY!
Humberto Ellery

Meditando sobre as dificuldades da Dilma em ensacar vento, para revolucionar o mercado de energia (ela já acumula uma enorme quantidade de vento dentro daquela  sua cabeçorra, que eu julgava que não servia para nada), lembrei-me do Lauro Fiúza Júnior, o Laurinho, empresário do setor de energia eólica.

Certa vez, em janeiro de 1968, encontrei o Laurinho e o João Otávio Memória Hyppolito em Miami (encontrar cearense em Miami não é nada raro, mas algumas semanas depois tornamos a nos encontrar em Nova Iorque, no Empire State bldg).

Eu estava lá fazendo um curso de língua e literatura inglesa na Universidade de Miami (U of M), enquanto o Laurinho e o João Otávio acabavam de chegar para simplesmente fazer turismo.

Nós casualmente nos encontramos na esquina da Biscayne Boulevard (Route US 1) com a Flagler Street, à época a principal rua comercial de Miami City. Saímos pela calçada em busca de uma determinada loja que eu já conhecia e estava bancando o tour guide.


Ao nos aproximarmos da esquina o Laurinho, mais avexadinho, vendo que não vinha carro, nem ligou para o sinal de trânsito fechado para pedestres (DON’T WOLK), já foi descendo a calçada e iniciando a travessia da rua pela faixa.

Não dera sequer dois passos quando, do outro lado da rua um policial, muito simpático, ergueu a mão e, olhando para o Laurinho gritou:

– Hey boy! O Laurinho imediatamente estacou. O policial então perguntou (em inglês, evidentemente):

– Você pode me ajudar?

– Claro, respondeu o Laurinho. 

O policial então, fingindo ajustar o dispositivo com os sinais, perguntou:

– Essas placas estão bem posicionadas?

–  Sim, estão.

– Estão bem legíveis?

– Sim, estão.

– E o que está escrito aqui?

E o Laurinho, todo satisfeito:

– Don´t walk!

Ao que o policial, com toda a calma do mundo, falou:

– Então don´t walk, cara!

Enquanto eu, o João Otávio e o policial explodíamos em gargalhadas, o Laurinho deu um sorrisinho amarelo e voltou para a calçada.

Sei não, mas acho que o Laurinho nunca mais “avançou” um sinal de trânsito de pedestres. Pelo menos nos EUA.





CARTA ABERTA - Cid Carvalho (CB)



CARTA ABERTA AO
DR. CID CARVALHO**
Cássio Borges*


Dr. Cid Carvalho

Quando você fala, digo eu, o Ceará inteiro lhe escuta. Isto é verdadeiro. A propósito, ouvi o seu contundente comentário na Rádio Cidade, em meado da semana passada, em defesa do centenário DNOCS.

Entretanto, afirmo-lhe, com toda a segurança de quem lida com esta questão dos recursos hídricos, não somente no Ceará, como em todo o Nordeste, há mais de 50 anos, que os maiores inimigos daquela Instituição estão aqui no Ceará (acredite se quiser), na sua Secretaria de Recursos Hídricos e na COGERH.

Esta última arrecada anualmente, em média, R$ 100 milhões, produto da venda da água (pasme!) dos açudes do próprio DNOCS. Usa este dinheiro, inclusive, para fazer propaganda institucional, afirmando e divulgando abertamente, aqui e alhures, que no Ceará é onde “se pratica a melhor gestão dos recursos hídricos no Nordeste e no Brasil”, no que não concordo com os inúmeros erros de engenharia, inadmissíveis, que se tem cometido aqui no nosso Estado.  

Mas aquela Secretaria não sabe explicar, por exemplo, por que todo o interior está sem água, sequer para se “escovar os dentes”, como é o caso da cidade de Quixeramobim, entre tantas outras noticiadas diariamente pela imprensa. Digo, por falta de planejamento, ou melhor, por não terem os seus gestores cumprido o planejamento existente, previamente elaborado pelo DNOCS, que querem extinguir.  

A causa desta dolorosa situação é a mesma da Sabesp, que ocasionou o problema da falta de água na capital paulista: a venda abusiva e excessiva da água visando o lucro para remunerar os seus acionistas estrangeiros. E no Ceará, para satisfação dos que, há anos, vem fazendo da COGERH uma empresa pública travestida de empresa privada, onerando, substancialmente, as tarifas de água cobradas pela CAGECE aos seus usuários. Ou, melhor dizendo, privatizando a água, podendo fazer dela um instrumento de persuasão e poder... Preciso dizer mais? 

Atenciosamente, Cássio.



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

INFORMAÇÃO LINGÍSTICA - Neologia Necessária (VM)


NEOLOGIA NECESSÁRIA
Vianney Mesquita*


Pouca necessidade de pensar experimentam aqueles que nunca precisam de palavras novas.

Com assento na sentença epigrafada, de autoria do literato italiano Arturo Graf, de tripla nacionalidade, procedente de alemães, nascido em Atenas e com registro de óbito em Turim (19.01.1848 – 31.05.1913), firo este comentário acerca de um pequeno busílis, por mim topado, sempre que se me depara algum escrito acerca da produção, comercialização, cultivo e movimentação agrícola e econômica do coco-da-baía, principalmente, e outros componentes palmáceos alimentares, amanhados como produtos para circulação no mercado, classificados como pertencentes a um só gênero Coco   catulé, bocaiúva, macaúba, coco-espinho etc  os três derradeiros, notadamente, para natural sustento alimentar anima vili.

Não custa referir, pois é ensejado, ao fato de que o babaçu, que no Nordeste do Brasil é tomado pelo vulgo como “coco-babaçu”, não é parte do gênero Coco, mas pertence ao Orbygnia phalerata, além de constituir bem econômico de regular monta no âmbito do comércio de produtos de procedência agrícola no País.

Mencionados estudos, cujos textos relatoriados são por mim transitados para revista, procedem de programas brasileiros de pós-graduação em Agricultura, stricto sensu (com exame extensivo aos outros dois setores da produção), por exemplo, da Universidade Federal de Viçosa, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – ESALQ (USP-Piracicaba), Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA-Mossoró) e, nomeadamente, oriundos do Curso de Economia Rural, da Universidade Federal do Ceará, Campus do Pici, aqui em Fortaleza, um dos melhores programas de pós-láurea em curso no Brasil.

O embaraço reside exatamente em determinar um substantivo para bem retratar, nos relatos de suas investigações, a atividade agrícola-econômica representada pelo Coco nucifera – Linn. 1757, uma das dezenas de espécies, da família Arecaceae, inserta no gênero único de taxinomia do coco, o coco-da-baía, principal cultivar dessa classificação, estudado em nossas escolas sob o prisma científico, na conjunção dos vários ramos do disciplinamento ordenado a envolverem seu exame.

Este impedimento não sucede, v.g., com a cultura do café, à qual, sem qualquer percalço de ordem gramatical, linguística e elocutória, se concedeu o nome cafeicultura, com o “i” do meio fazendo a ponte com os dois substantivos para formar o asserto híbrido, a fim de não retratar ideação diferente (café-cultura, estabelecimento onde se toma café e se cultivam temas em geral, café-livraria), bem assim  e, principalmente  com vistas a obedecer às regras de formação vocabular da Língua Portuguesa, cujo trato, por não ser asado o ensejo, não há de vir agora à colação.

A igual acontece com citricultura, relativamente a cítricos (gênero Citrus, família das rutáceas), plantação, cultura e exploração econômica, por exemplo, de laranja e limão. E, assim, com sericicultura – criação do bicho-da-seda (Bombryx mory), beneficiamento, industrialização e comercialização da seda; com olericultura – cultivo e acrescentamentos econômicos de legumes; mangiferacultura – plantação, acompanhamento dos cultivares de manga (Mangica indica); rizicultura ou orizicultura  cultura e economia do arroz (Oriza sativa); e tantas outras ações agroeconômicas de ofício dos três setores produtivos.

O problema não subsistiria, caso a dicção coco não sugerisse, colada à sequente, a formação de expressões cacofônicas, o registo de cacófato - palavra de som feio, desagradável, discorde ou com sentido errado, advinda dos sons de dois termos juntos; e de unidade de ideia obscena, grotesca ou descontextualizada, proveniente da sílaba final de um vocábulo e a inicial do outro. Isto se dá em decurso de um termo seu homógrafo imperfeito, parônimo – cocô – representativo de excremento e coisa de má qualidade.

Desta sorte, convenhamos, é defesa, por absolutamente descabida, a referência a “cococultura” (aqui como a sugestionar um exame parasitológico de material excrementício), ou a “cocoicultura”, cujo “i” certa pessoa já sugeriu como ligação, a fim de reduzir o efeito da cacofonia, no entanto (me parece), ideia desprovida de sucesso. No tentame de aportar a uma solução, outras insinuações vocabulares apareceram, entretanto, deseixadas de ideação lógica e revéis às normas de formação glossológica em Português, como nos casos de coquicultura, e cocucultura – este que me ressoa ainda mais desarrazoado.

Louvado, com efeito, na configuração latina da denominação taxinômica efetivada pelo célebre e operoso naturalista sueco Carlos de Lineu, em 1757 – Coco nucifera – penso haver encontrado uma proposição verossimilhante, consistente em ajuntar, como primeiro elemento do hibridismo ora sugerido, a palavra nucifera, (+ cultura) com esteio nas razões aduzidas na sequência.

Impende-me, então, elucidar, considerando, em primeiro lugar, o fato de que alguém aventou – e os lexicógrafos, inadvertidamente, aceitaram, introduzindo o verbete nas obras de referência – a expressão nucicultura, como representativa da intenção de “cultura de nozes”, todavia procedente apenas das diversas ocorrências de nogueira, como, por exemplo, nogueira-americana ou nogueira-pecã (carya illynoensis), nogueira-brasileira ou nogueira-de-iguape (Aleurites mollucana), nogueira comum (Juglans regia), nogueira-da-austrália ou macadâmia (Macadamia ternifolia) et reliqua.

Conquanto, sob o prisma da evolução histórica, nuci se reporte a nogueira, a inserção definitiva e oficial da unidade de ideia nucicultura, especificamente para nogueira, nos dicionários é, sem dúvida, no mínimo, apressada, porquanto nuci, como antepositivo, do Latim, alcança todo fruto com amêndoa, castanha, noz e outros, como o são, exempli gratia, a castanha-de-caju, fruto do cajueiro (Anacardium occidentale) – pegada ao pedicelo comestível (caju), bem como todas as espécies do gênero Coco (único).

De tal maneira, pelo fato de estar permanentemente sob registro lexicográfico, é interdito se empregar nucicultura, a não ser para o bem originário das diversas espécies dessas árvores produtoras de nozes – ficando de fora coco-da-baía, catulé ou babão, macaúba, macaíba e quaisquer outras palmáceas.

A sugestão, por conseguinte, é a de se cunhar a palavra NUCIFERACULTURA, a fim de descrever, para emprego nos textos de exame científico, a plantação, o cultivo e seus desdobres econômicos – evidentemente com os inerentes nexos sociais – uma vez que a palavra é bem formada, de nuci – envolvendo todo fruto com noz – somada a fera, também Latim, elemento pospositivo, representativo de “que traz”, “conduz” – isto é, feito de nozes.

Malgrado em detrimento das demais espécies do gênero Coco, as quais praticamente não possuem representatividade econômica, sendo parcas, por tal pretexto, referências mais alentadas na literatura da Economia Agrícola, sobra, pois, como alvitre a expressão neológica nuciferacultura, para aplicação em textos de manifestação do saber parcialmente ordenado relativo a coco-da-baía (Coco nucifera).

Minha expectativa é de que, dentro em poucos anos, os glossários das ciências ditas aziendais, ligadas ao ecúmeno rural, incorporem a sugestão, restando, também, a probabilidade de, em poucos decênios, ou mesmo antes, os dicionários oficiais da Língua Portuguesa, circulantes nos nove países lusofônicos, apropriarem a elocução, ao jeito como procederam com relação à unidade de ideia nucicultura, devidamente em si consignada em tempo relativamente curto.


domingo, 4 de outubro de 2015

ARTIGO - Resiliência (RV)

RESILIÊNCIA
Reginaldo Vasconcelos*

A MENTIRA

O mentiroso compulsivo termina por perder totalmente o contato com a verdade. Passa a não resguardar sequer a verossimilhança daquilo que relata, com o seu próprio testemunho. Todo o seu foco está em produzir sua narrativa imaginária. 

Certa noite, na varanda de casa, apresentei um notório mitômano da vizinhança a um comandante de navio, que estava em férias hospedado conosco, sem oportunidade de prevenir este sobre o vezo daqueloutro.

O mentiroso foi logo se dizendo ex-piloto de avião, narrando voos perigosos que empreendera sobre os Andes – realizando o misancene gestual com as manetas do aparelho. Contou de um pouso forçado que tivera de fazer em Cochabamba, com todos aqueles contratempos dos filmes de suspense.

Cidadão de meia idade, bem posto na vida, de ótima aparência, boa estatura, sotaque do Sudeste (era paulista), muito bem articulado, casado com uma senhora respeitável e com belas filhas moças, estudiosas e educadas, era mesmo constrangedor desconfiar.

Nós de cá já tínhamos vivido e superado esse choque havia anos, mas o nosso visitante, Capitão de Longo Curso do Lloyd Brasileiro, homem muito lido, vivido e viajado, acostumado a cruzar oceanos e correr o mundo no comando de navios transatlânticos, certamente percebeu os exageros e imprecisões da narrativa. Mas ouvia calado.

Ao final, ao saber da procedência paraense do comandante, o falso ex-piloto resolver dizer de quando, certa feita, em uma de suas sagas, navegara em um dos rios da Amazônia, o qual corria com tanta força que a âncora do barco, uma vez lançada, quicava e deslizava na superfície da torrente, sem oportunidade de afundar.

Depois se despediu, com a cortesia de sempre, e foi para casa dormir, deixando o grupo em silêncio por instantes. Entreolhamo-nos, alguém comentou o clima, referiu o frescor da noite, até que todos explodimos em risadas.

A TEIMOSIA

Um fenômeno semelhante à mentira acontece com o teimoso crônico, para quem, depois de desferir uma assertiva qualquer, contestar gratuitamente uma afirmação alheia, assumir uma causa ou adotar uma crença mística, toda a sua energia vai se destinar a defender a todo custo a convicção adquirida.

Sua visão, sua audição e seu raciocínio se tornam seletivos, diante do risco aterrorizante de que de repente a realidade se revele contrária àquilo de que ele está convicto. Ele prefere morrer a admitir um equívoco, a assumir que algum dia esteve errado, e para tanto a lógica cartesiana se torna o inimigo principal.

Conta-se de um teimoso recalcitrante que existiu em Fortaleza, em décadas passadas, ao qual o “Ceará moleque” propunha questões polêmicas, e depois todos entravam a contestar a tese por ele adotada, somente para que se exasperasse.

Diz-se de uma vez que alguém comentou a beleza das dunas litorâneas que da Praça do Ferreira ainda se avistavam. “Não são dunas, aquilo é água”, obtemperou o grande teimoso. Rapidamente a rapaziada se cotizou e alugou um carro para irem todos constatar os fatos e vencer aquela teima.


Em chegando às dunas, desembarcaram – e o sujeito ainda insistia que o motorista do carro não os levara ao local indicado – quando então algum dos rapazes encheu as mãos de areia e lançou sobre o seu peito. “Não me molhe o terno!” foi a sua reação, em flagrante ato falho.

JUCA E ARISTÓTELES

O tema vem a lume aqui porque a vida brasileira atual está totalmente envolvida pela teimosia e a mentira, pela mentira e a teimosia. Enfim, toda a energia política está concentrada em se negar a realidade, em se maquiar evidências, em se convencer a todos de que o erro é acerto e de que o certo está errado.

Militantes petistas sustentam que todo o atual desgoverno do barco público é devido a forças externas, pelas quais as âncoras salvadoras não puderam afundar, enquanto os ideólogos de esquerda defendem inverdades notórias, capazes de se molhar inteiramente nas areias mais sólidas e mais áridas para sustentar sua paralaxe. É o reino do ilusionismo e do auto-engano. Do ilógico, do absurdo, do surreal.

Lula não estudou e não gosta de ler, porque nasceu muito pobre, não teve tempo para o estudo médio nem a oportunidade de se intelectualizar compulsando os clássicos. Enfim, não adquiriu o gosto pela leitura para se ilustrar em humanidades. 

Dilma, por seu turno, filha de um imigrante próspero, teve oportunidade de ser doutora, mas, na época própria, preferiu deixar a sua área de conforto e contestar o regime, através da chamada “luta armada” – perdendo assim, definitivamente, o bonde da cultura e do saber.
  
Por isso mesmo, nem um nem outro sabe que tudo aquilo que fizeram em campanha e nos seus governos, e tudo o que resultou e resultará, não têm, aos olhos do mundo, nenhuma novidade antropológica. A história da civilização está repleta de tipos e de fatos que tais, de modo que para os homens cultos tudo isso é déjà vu, enquanto as consequências tragicômicas têm previsibilidade cristalina. Está tudo compilado na sabença do mundo, pela longa experiência épica acumulada. 

Mistificadores, demagogos, simulacros de líderes, arrivistas; falsos salvadores da pátria, ídolos de pés de barro, criador que usa e depois consome a criatura e vice-versa; traição e cizânia, perfídia e ganância, cobiça e cupidez, impostura e filhotismo. Malversação de dinheiros, cobrança de imposto exacerbada. Nada de novo no front. Tudo isso está registrado desde a mais remota Antiguidade – está no Torá, está na Bíblia, no Alcorão, no Bhagavad Gita. 

Projetos de domínio eterno, pão e circo ao povo trocado por ouro e poder aos governantes, déspotas no varejo jurídico que se passam por democratas no atacado. Tudo isso é muito velho e recorrente, desde sempre e em todos os quadrantes do universo conhecido. Está na mitologia grega, no folclore dos povos, na moral do fabulário, na literatura clássica – os bons leitores sabem disso.

A propósito, na última edição da Revista Isto É, o ator Juca de Oliveira dá uma entrevista admirável – ele que foi stalinista até os 32 anos, foi preso muitas vezes e exilado, mas que teve a rara e necessária resiliência filosófica para abandonar tudo em que creu e em que investiu a juventude.

Foi quando ele percebeu de repente que Stalin não era Deus, ao contrário do que aprendera e ensinara, mas um celerado genocida, e notou que as ex-repúblicas soviéticas optaram todas pelo capitalismo democrático, depois de viverem a experiência socialista – prova cabal de que ele se enganara a vida toda.

Segundo Juca, nas lições de construção dramática de Aristóteles, tecnicamente falando Lula é personagem de comédia, em razão da falta de integridade e de caráter – condições que em literatura e no teatro levam  ao riso e à facécia. 

Já a Dilma, à luz da aristotélica obra A Poética, encarnaria uma tragédia, vivendo o drama de ser presidente sem sê-lo de fato, de tentar se expressar em público e não dizer coisa com coisa. Para o velho ator brasileiro isso é apenas dramático, e não tem graça nenhuma.


    

sábado, 3 de outubro de 2015

APRECIAÇÃO LITEROCIENTÍFICA - Imagens Calidoscópicas (VM)


IMAGENS CALIDOSCÓPICAS
DA FORMAÇÃO HUMANA
Vianney Mesquita*


A ciência é uma esplêndida decoração para a sala superior do homem, se ele possuir no rés-do-chão uma boa dose de bom senso.


A sentença à epígrafe constitui para nós uma lembrança sugerida como judiciosa expressão do médico e escritor estadunidense Oliver Wendel Holmes (não confundir com o jurista homônimo e seu filho), havido pela crônica internacional como um dos melhores autores do século XIX. 
(YCambridge, Massachusetts, 29.08.1809 - Boston, Massachusetts,07.10.1894).

O notável versificador de Sol e Sombra parece querer lembrar o fato  a ser de plena consciência dos produtores do saber de que a communis opinio é indicadora relevante do feito oriundo do conhecimento parcialmente ordenado, ao se contabilizar, é claro, a imaginação de quem sugestiona um princípio com suporte no qual é possível aportar a um ror de deduções, as quais, ajuntadas, perfazem a hipótese, ponto de partida do esforço de descoberta em Ciência.

Neste passo, é expresso um dos pressupostos, ético e intelectivo, esperados do pesquisador – o de ele portar bom sentido, isto é, de poder, perícia ou suficiência para distinguir entre o enganoso e o veraz, separar o bom do mau e diferençar o bem em relação ao que é mal, sem serem requeridas técnicas e ardis – lícitos, é claro  ou reclamadas reflexões mais elaboradas. À míngua dessa habilidade, significa se procurar, debalde, um feito científico, não se tencionando, entretanto, expressar, evidentemente, a noção de que esse saber desordenado, à esquerda dos procederes metódicos, é bastante para encontrar um fato devidamente sistematizado. Restam, pois, outras instâncias a serem apropriadas para configurar uma suposição provável, necessitada, porém, de convalidação, para poder, com base nela, o operário da pesquisa insistir na demanda do evento científico, com boa possibilidade de aportar ao fim perseguido.

O bom e escrupuloso leitor pode facilmente lobrigar neste livro organizado – e escrito, também – pela Professora Doutora Ercília Maria Braga de Olinda, a qualidade indiscutível dos escritos nele acomodados, cujos subscritores das matérias detêm não somente o sentido humano, senão, também, toda a equipagem requerida para conformar o perfil de um investigador de boa crase, conforme é expressa, notadamente no que concerne a sua distinta preparação intelectual.

Formação Humana – Imagens Calidoscópicas recebe a chancela de um pugilo de professores de departamentos e escolas superiores diversas, reunidos em saudável conjunto, a fim de debater, sob o espectro da reflexão sistemática e com cariz interdisciplinar, aspectos relativos ao assunto formação da pessoa, de induvidosa importância nos dias atuais, levando em conta a crise incidente sobre a sociedade do trabalho, ao trazer profunda e grave interferência na vida das comunidades, em especial no âmbito daqueles não portadores de boas circunstâncias de trabalhabilidade. Este, aliás, é um termo neológico ora empregado com certa munificência linguística, no intento de significar a prontidão técnica, o preparo moral e intelectual do trabalhador, que lhe assegurem assumir um lugar oferecido pelo frugal e exigente mercado, mormente aos desempregados, que a literatura chama de contingente de reserva e dicções similares.

Formação Humana – Imagens Calidoscópicas aglomera temas de assunta faculdade analítica, onde os autores se posicionam fidelíssimos aos achados proporcionados pelo seu raciocínio lógico, abandonando o mau vezo de se reportar a posições part pris, tampouco ópticas destorcidas que transponham os sucessos recolhidos nas seus bem compostos raciocínios.

Este, pois, é um livro sincero, muito bem escrito, até com certo padrão elocutório, como redigido apenas por duas mãos e cérebro único, pois a Professora Doutora Ercília Maria Braga de Olinda, zelosamente, logrou imprimir-lhe certa unidade, com vistas a lhe facilitar a decodificação por conta da estesia quase imutável de sua composição.

É, pois, indene de dúvida, uma vitória da indústria humana sobre o marasmo universitário, tão natural no azo da crise, nomeadamente em alguns desvãos do saber, aclamação das forças da vontade a sapatear sobre o fantasma do abatimento, desídia e incompetência do chamado baixo clero universitário.    


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

ARTIGO - O Cearense e Dorothy Lamour (WI)

O CEARENSE E
DOROTHY LAMOUR
Wilson Ibiapina*


Dorothy Lamour
Com amor te matei
Sereia/
Na areia do cinema
Dorothy Lamour
Com ardor te adorei
No drama da primeira fila.”


É assim que começa o poema de Fausto Nilo, depois musicado por Petrúcio Maia.

Naquele tempo, todos os jovens eram apaixonados pela artista norte-americana, nascida em Louisiana. Ela foi Miss Nova Orleans de 1931 e sonhava ser cantora. Virou atriz aos 22 anos. Começou a fazer sucesso quando apareceu nas telas em trajes mínimos e sensuais, no papel de uma garota das selvas, num filme ao estilo de Tarzan. 

O papel de “Ulah” tornou-a a atriz mais cobiçada, sex-symbol do cinema americano. Virou diva. Foi assim que ela chegou às telas de Fortaleza. Aparecia com pouca roupa, despertando a fantasia e o desejo dos adolescentes. Participou de mais de 60 filmes. Atuou até 1987, quando fez seu último filme para o cinema. Ela virou um mito na literatura e na poesia. Rachel de Queiroz, num conto, apresenta a atriz como ideal de beleza no imaginário dos marinheiros, em plena segunda guerra:

"No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de "Tangerine-Girl". Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava á luz da manhã, tinha um brilho de tangerina madura”. 

Na mesma linha, outro cearense, Fausto Nilo, também se encantava:

“A tua cor, o teu nome
Mentira azul
Tudo passou, teu veneno,
Teu sorriso blue
Hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever, Dorothy Lamour." 

E foi com esse encantamento que Fausto Nilo, um dia em visita aos Estados Unidos, decidiu conhecer sua musa pessoalmente. Através de amigos americanos acertou o encontro que seria no rancho em que ela morava perto de Los Angeles. No dia combinado, um portador chegou para avisar que a visita estava cancelada. Velha e feia, não queria que seu fã, Fausto Nilo, mudasse a imagem que tinha dela. Dorothy Lamour,  pseudônimo de Mary Leta Dorothy Slaton – morreu aos 81 anos, em  22 de setembro de 1996. Ataque cardiaco, enquanto dormia. Deixou os filhos Richard Thompson Howard e John Ridgely Howard. Ficou a  saudade da bela mulher que levou Fausto Nilo a “naufragar em seus olhos de mar azul”.


NOTA DO EDITOR:

O arquiteto e compositor Fausto Nilo Costa Júnior nasceu em Quixeramobim, na casa em que viveu o notório beato Antônio Conselheiro, e em que seu pai mantinha um comércio com o nome de Empório Azul.

Não somente por isso o grande poeta coloca sempre a cor azul nas letras de músicas que compõe, mas também porque o seu próprio nome –Nilo – tem sua significação etimológica nessa designação cromática (Do latim, nilus, pelo grego neílos, desde o egípcio e o árabe níl, e do sânscrito nila). Em Dorothy Lamour Fusto refere a essa cor por quatro vezes, uma das vezes em inglês.

Fausto Nilo é Membro Honorário da ACLJ.

NOTA JORNALÍSTICA - Ricardo Guilherme leva o Boticário

RICARDO GUILHERME LEVA
O BOTICÁRIO FERREIRA


Na noite desta quinta-feira, 01 de outubro, a Câmara de Vereadores de Fortaleza concedeu a Medalha Boticário Ferreira ao poeta, jornalista, literato e artista cênico Ricardo Guilherme, coincidindo a homenagem com o seu aniversário de 60 anos de vida e com as comemorações de seus 45 anos de teatro.

A Medalha Boticário Ferreira – cujo paraninfo é o farmacêutico que elaborou o primeiro traçado urbanístico do centro histórico da Cidade – é a maior honraria que a edilidade da Capital instituiu, destinada a agraciar os mais destacados cidadãos de Fortaleza que tenham a ela dedicado o seu gênio e o seu engenho.

Ricardo Guilherme Vieira da Silva, nas artes Ricardo Guilherme, é de fato um dos maiores talentos que o Ceará já produziu, na linha de José de Alencar, de Clóvis Beviláqua, de Helder Câmara, de Rachel de Queiroz, de Patativa do Assaré, de Aldemir Martins, de Chico Anísio, de José Wilker, de Raimundo Fagner...

Diferentemente dos supracitados, Ricardo não alcançou o estrelato nacional porque, a despeito de haver corrido o mundo com sua arte, sempre muito premiado,  nunca se quis fixar no eixo Rio-São Paulo, centro irradiador da cultura no País.

Como se sabe, sem demandar ao “Sul-Maravilha” os grandes nomes locais se restringem ao aplauso e ao reconhecimento de seus coestaduanos – ainda que registrados no rol histórico dos maiores ícones nacionais em suas áreas específicas.

Ricardo Guilherme vive das letras e das artes, com elas e para elas, desde a sua adolescência – poeta, radialista, jornalista, pesquisador, museólogo, ator (teatro, televisão e cinema), dramaturgo, escritor, apresentador de televisão, professor de teatro – qualificações conquistadas pela prática efetiva, de forma empírica e autodidática, com espantoso brilhantismo.

Criou grupos de atores, clubes de poesia, fez rádio-teatro, publicou livros, escreveu peças magníficas, e com uma delas – "Apareceu a Margarida" – correu o País e o Planeta com um sucesso retumbante. Foi sua a primeira elocução da TV Educativa do Ceará, anunciando a sua transmissão inaugural, primeira luz no cristal da emissora. Teve a sua própria casa de espetáculos em Fortaleza, e desenvolveu uma forma inovadora de dramaturgia, chamada de "Teatro Radical", que procura a radicalidade cultural e antropológica brasileira e o radicalismo do fenômeno teatral. 

Os diplomas formais (nacionais e internacionais) de Ricardo Guilherme sobrevieram pela via do reconhecimento público de seu inestimável valor, de seu notável saber, de sua grande expressividade cênica, de seu notório descortino, de seu gênio adventício e criativo – jamais tendo recorrido ele aos títulos universitários como meras credenciais por teoria acumulada – ele que hoje é professor de teatro na Universidade Federal, e vem formando gerações. 

A propositura da outorga da Medalha Boticário Ferreira ao grande artista foi dos Vereadores Toínha Rocha e  João Alfredo, que lhe dirigiram saudações – ela que é neta de J. Cabral, grande precursor do teatro popular cearense, o qual Ricardo Guilherme não conheceu em vida, mas de quem coligiu um grande acervo histórico, que hoje se integra ao museu das artes cênicas criado pelo próprio Ricardo, e que leva seu nome, na Universidade Federal do Ceará.
 
Ricardo Guilherme é membro fundador da ACLJ, integrado ao grupo inaugural da Academia pelo titular Reginaldo Vasconcelos, seu amigo de infância, que portanto foi testemunha privilegiada da vertiginosa ascensão intelectual e artística que ele empreendeu em sua trajetória de vida, e como poucos pode avalizar seus grandes méritos.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

CRÔNICA - Cada Macaco no seu Galho (WI)

CADA MACACO 
NO SEU GALHO
Wilson Ibiapina*


Laurence Peter foi um educador e administrador canadense, que morreu em 1990. Ficou mundialmente famoso pelo livro Princípio de Peter, que no Brasil ganhou o título de “Todo Mundo é Incompetente. Inclusive Você”. Ele, que se intitulava um "hierarquiologista”, afirma no livro que em uma hierarquia todo empregado tende a subir até seu nível de incompetência. 

Entre os muitos exemplos cita o de um operário de uma indústria qualquer. Realiza tarefas braçais com alto nível de produtividade. Sua pontualidade e respeito à hierarquia resultam em sua promoção para o cargo de chefia. Um desastre. Não supervisiona seus subordinados nem faz com que cumpram suas jornadas de trabalho. Um jornalista é excelente repórter. Tão bom que resolvem promovê-lo a chefe de redação. Na nova função, não consegue fechar uma pauta nem cobrar  matérias dos antigos colegas.

Isso tudo me faz lembrar um jornalista cearense que por pouco não virou um próspero empresário do agronegócio. Tudo começou quando ele comprou  um extenso terreno. Depois, com financiamento do BNB, adquiriu milhares de mudas de urucu (ou urucum), uma árvore nativa na América que serve para temperar comida, o famoso colorau. Suas sementes são consideradas medicinais, fornecendo vitaminas e usadas no tratamento de problemas estomacais, vermes e hemorroida.

Contratou um verdadeiro exército de trabalhadores pra fazer o plantio, embora nenhum deles tivesse a mínima experiência. Até São Pedro ajudou, mandando chuva na época certa. Mas aí aconteceu o inesperado. As mudas de urucum, ao invés de crescer, perderam o viço, começaram a murchar. Bastou o exame de um técnico para descobrir a  causa. As mudas foram plantadas dentro dos saquinhos plásticos em que nasceram. As raízes  não conseguiram fixar-se ao solo. 

O jornalista ficou com o prejuízo e com a lição: não se meta com o que não conhece.  O Princípio de Peter mostra que a aptidão das pessoas pode mudar bruscamente, fazendo com que elas atinjam o seu nível de incompetência.