quinta-feira, 9 de setembro de 2021

ARTIGO - O Impasse (RMR)

 O IMPASSE
Rui Martinho Rodrigues*

 

É tempo de impasse. Em todo o mundo eleições acabam em quase empate. As sociedades estão divididas. Não apenas as massas estão sem uma referência minimamente agregadora. O cosmopolitismo, a difusão e vulgarização da contracultura e até do niilismo impulsionado pela pós-modernidade, juntamente com a secularização confundida com banalização decorrente da perda de sacralidade, tudo isso evidenciou diferenças, feriu interesses, semeou paixões e discórdias. 

O segredo e a privacidade acabaram, destruídas pelas tecnologias de informação, com a omnipresença de câmaras e a invasão de computadores e demais registros eletrônicos cuja defesa é impossível, com exceção do sistema eleitoral brasileiro, indevassável, segundo o TSE. As imperfeições dos líderes e dos dirigentes das instituições tornaram-se públicas.

O que era semelhante a um rebanho, com alguma coesão, perdeu a unidade em razão do relativismo cognitivo e axiológico da pós-modernidade, da desmoralização dos que eram havidos como referência moral. Os pais perderam influência, entre outras coisas, em razão do combate ao patriarcalismo. Professores, clérigos, políticos, magistrados e intelectuais cometeram suicídio moral pelas próprias condutas depois que tudo passou a ser publicado. Doutrinas, líderes e instituições restaram abaladas. Todos agora são ovelhas desgarradas. 

 

A crise de lideranças e instituições 

As redes sociais quebraram o monopólio da (des)informação, antes exercido pela grande imprensa e pela intelligentsia, palavra que inicialmente designava a intelectualidade russa influente, engajada em movimentos vanguardistas de natureza política. Agora o termo é aplicado aos intelectuais engajados em todo o mundo. As paixões tendem a acompanhar o engajamento. 

A ideia de “ter lado” foi estimulada pela afirmação descontextualizada de que todos têm preferências, opiniões e juízo próprio, sendo impossível a neutralidade axiológica. Faltou distinguir juízo de valor de juízo de realidade, o que potencializou o facciosismo do engajamento político. A neutralidade impossível ou perniciosa é aquela de natureza valorativa, por isso adjetivada como axiológica. A aferição da realidade exige honestidade, não engajamento. 

Os integrantes da intelligentsia se sentem moral e intelectualmente superiores. São admirados. Cultivam a imagem de esclarecidos, corajosos e altruístas quando enfrentam os seus moinhos de vento. O esclarecimento pode ser tão equivocado quanto a visão do personagem central de Miguel de Cervantes Saavedra (1547 – 1616), na obra “Dom Quixote de La Mancha”. 

A coragem de enfrentar monstros abstratos, despersonalizados, ausentes ou de compreensão difícil, com nomes como “sistema”, “alienação” ou “obscurantismo” e outros mais, além de atrair admiradores alimenta a autoestima, tão valorizada em nossos dias. Antônio Houaiss, em seu dicionário, associa intelectual aos eruditos, sábios, que vivem predominantemente do saber. Mas um engenheiro nuclear e um físico teórico, inteligentes, com muito estudo, vivendo do saber, não são contados entre os intelectuais, mas como técnicos e cientistas.

Thomas Sowell (1930 – vivo), na obra “Os intelectuais e a sociedade”, identifica os intelectuais como aqueles que tratam de questões abstratas e se vinculam aos movimentos políticos, ao modo da intelligentsia. O engajamento demiúrgico destes herdeiros dos reis filósofos de Platão (428 – 348 aC), na luta pela reengenharia da sociedade do homem, levou Sowell, na obra citada, a adjetiva-los como “intelectuais ungidos”. Até filósofos, literatos ou juristas não necessariamente se incluem entre os intelectuais, se não forem ungidos. 

Antônio F. Gramsci (1891 – 1937), na obra “Os intelectuais e a organização da cultura”, descreve os intelectuais como organicamente vinculados às classes sociais. O uso da categoria teórica classe como determinante do fenômeno social em sua totalidade expressa um grave reducionismo. Mas o que estamos examinando é o perfil dos intelectuais ungidos no imaginário da sociedade. 

O pertencimento orgânico às classes é um entendimento que sugere engajamento, mais uma vez a semelhança com a intelligentsia se faz presente. Maximilian K. E. Weber (1864 – 1920), no ensaio “A ciência e a política como ofício e vocação”, e Karl Mannheim (1893 – 1947), em seus escritos sobre a sociologia do conhecimento, não seguiram o determinismo de classe na definição do perfil dos intelectuais. O intelectual de Mannheim é “desamarrado”. 

Pequenos burgueses como Karl H. Marx (1818 – 1883) e milionários como Max Horkheimer (1895 1973), da Escola de Frankfurt, e Friedrich Engels (1820 – 1895) foram grandes revolucionários, contrariando a tese do determinismo de classe esposada por eles mesmos. Mas a intelligentsia, embora em sua maioria não seja proletária, consegue ser adversária da burguesia, apesar de adotar hábitos burgueses; acredita que não é a consciência que faz a experiência, mas a experiência que faz a consciência, conforme palavras de Marx. Mas, curiosamente, fala em nome da experiência proletária que não têm. O povo começa a descobrir estas coisas, ainda que não tenha acesso a alguns destes detalhes. Aliás, nem todos os intelectuais conhecem todos estes detalhes. Refiro-me aos ungidos descritos por Sowell, que integra a intelligentsia. 

Revestidos com a couraça do altruísmo, defendendo os oprimidos, combatem o “sistema impiedoso” que nos últimos séculos diminuiu a mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, diminuiu o analfabetismo, aumentou os anos de escolaridade, o acesso aos bens que proporcionam conforto e assegurou proteção e direitos às minorias, os ungidos conseguem prestígio e exercem grande influência. Isso porque intelectuais (ungidos) habitam o mundo da abstração. Facilmente concebem um mundo melhor, sem apresentar soluções práticas, viáveis. 

A influência do racionalismo romântico, como o de Georg W. F. Hegel (1770 – 1831) contribuiu para isso. Até os seus críticos, que viraram o seu pensamento de pernas para o ar, mas não modificaram o titanismo incrustrado nele adotam o seu método. Também o racionalismo de Renê Descartes (1596 – 1650) está presente nas ideias dos que o criticam, agravado, porém, pelo abandono da dúvida metódica, que foi substituída pela certeza virtuosa do bem. Quem assim procede não se abala com o fracasso das experiências práticas. 

A falseabilidade exigida pela vigilância epistemológica do racionalismo crítico, de Karl R. Popper (1902 – 1994), poderia chamar à realidade os nefelibatas comparáveis ao personagem que pisava nos astros distraída, do poema musicado “Chão de Estrelas”, de Orestes Barbosa. 

A virtude dos ungidos propõe a distribuição dos bens que eles próprios não têm; com a sabedoria e a coragem de quem ataca moinhos de vento; e a consciência de quem defende dulcineias montando pangarés, quero dizer, teorias que Popper classifica como vanilóquios. Este não é o perfil dos eruditos em geral. Parte deles não é assim, não se caracteriza como intelectuais no sentido de membro da intelligentsia, não se sente ungido, aptos a exercer o papel de demiurgo; não necessariamente consome drogas ilícitas; nem se entrega a outras práticas contestadoras. 

 

A orfandade política 

A divisão da sociedade dificulta a governabilidade. Em Israel quatro eleições não resolveram o impasse da falta de maioria para formar um governo. Resultados eleitorais são contestados nas democracias mais sólidas. O Reino Unido não fez a “digestão” da saída da União Europeia, aprovada em consulta popular. A voz das urnas já não pacifica a política. Embora todos se digam democratas, muito não se conformam com os resultados eleitorais. 

O desfrute do bem-estar foi apresentado não mais como um direito potestativo, mas como um crédito dotado de exigibilidade contra terceiros. Norberto Bobbio (1909 – 2004), na obra “A era dos Direitos”, revela temor sobre a impossibilidade de atender ao volume de demandas em curso. Aristóteles, na obra “A política”, discorrendo sobre a decadência dos regimes políticos, afirma que a democracia, quando degradada, tende para a demagogia. Inflar direitos e esvaziar obrigações seria um sinal do ocaso daquilo que John Locke (1632 – 1704) nomeou como governo consentido, tendo amparo ainda nas garantias individuais da Carta de 1215, que os barões arrancaram do Rei João Sem Terra. 

O problema fiscal, na forma de dívida, decorrente do desequilíbrio fiscal, só chegaria a longo prazo, quando os economistas da metade do século XX estivessem mortos, vaticinou o Lord John M. Keynes (1883 – 1846). Acertou. Os contemporâneos dele estão mortos e os governos não sabem o que fazer com tanta dívida. Não param de injetar dinheiro na economia formando uma bolha que está causando pesadelos nos economistas e nos políticos. 

A desorganização do pensamento, com as lideranças caindo do pedestal pela superexposição que as novas tecnologias introduziram, somadas a vulgarização e banalização dos mores deixou as instituições desacreditadas e fragilizadas. Explicações simples, apontando vilões, propondo fórmulas salvadoras, ainda que invariavelmente tenham fracassado, tornou-se um caminho aberto. O problema é grave. Mas certamente se resolverá. Resta saber qual será a dor do parto histórico da solução. A literatura nos últimos tempos só produz distopias. Será isso um vaticínio?

 

CRÔNICA - Mug (TL)

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (06.09.2021)

  REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
   (06.09.2021)




PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira,  que teve duração de quarenta minutos, seis acadêmicos. Compareceram ao grupo o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Bacharel em Direito e Especialista em Comércio Exterior Stênio Pimentel (Estado do Rio)o Advogado e Pesquisador Sionista Adriano Vasconcelos, o agrônomo e pesquisador Luis de Moraes Rego Filho (Rio das Ostras-RJ), o Jornalista Wilson Ibiapina (Brasília) e o Poeta Paulo Ximenes.



 TEMAS ABORDADOS

Wilson Ibiapina, tendo em vista a véspera do Dia da Pátria, abriu a reunião fazendo uma crítica retrospectiva histórica da Independência Brasileira, proclamada em 07 de setembro de 1822, pelo Imperador do Brasil Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon  Dom Pedro I.

Pontuou Ibiapina, desmistificando a História Oficial, que, na verdade, o Grito do Ipiranga é uma grande alegoria do ato político do Imperador, pois na verdade teria sido deliberado pela Imperatriz, Maria Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, a primeira esposa de D. Pedro I, Imperatriz Consorte do Império do Brasil, Rainha Consorte do Reino de Portugal e Algarves.  Segundo o jornalista, D. Leopoldina teria sido a grande mentora do Governo Imperial, "anjo da guarda de orelha" do marido Imperador.

Wilson Ibiapina registrou ainda que o famoso quadro de Pedro Américo, retratando o Imperador Pedro I dando o "grito" pela independência, às margens do Riacho Ipiranga, seria uma bela alegoria pictórica, que não corresponderia à realidade fática  — até porque o Imperador aparece acompanhado de soldados de sua tropa de honra, todos em fardas de gala, quando se costumava viajar em roupas rústicas.

Nota ele que os belos cavalos montados por Pedro I e seu séquito, na imagem de Pedro Américo, não seriam as montarias adequadas para viagens prolongadas, no Século XIX. Tais deslocamentos seriam feitos com muares — ou em "lombos de burros"  que têm a resistência necessária, enquanto os cavalos, animais mais delicados, se prestavam melhor ao uso desportivo, e ao transporte urbano e suburbano. 

Reginaldo comentou que, de fato, os pintores não se vinculam à realidade, mas ao simbolismo e à estética. Trajes e cenários, em pinturas artísticas, são arbitrários, perseguindo-se somente, nos retratos, a fidelidade das proporções corporais e dos traços fisionômicos dos modelos. A não ser no hiper-realismo, um moderno gênero em que se imitam as fotografias paradigmas.   

Mas também é verdade que Dom Pedro (na época ainda o Príncipe Regente) estava em viagem oficial, em meio a conflitos políticos e militares, de modo que não seria absurdo que se fizesse acompanhar de sua guarda pessoal — hoje os Dragões da Independência — todos vestidos a caráter. Também é lembrar que nas viagens em que a pressa era importante se usavam mesmo cavalos, que eram trocados a cada estação de pouso, fazendas equidistantes sempre em torno de 10 léguas. 


PERFORMANCE LITERÁRIA

Na sequência Reginaldo fez referência ao livro "Uma História do Samba", do escritor cearense Lira Neto, obra em três volumes, cujo primeiro tomo lhe foi cedido pelo amigo Edmilson Nascimento.

Lira Neto realiza uma grande pesquisa sobre o advento do samba, no Rio de Janeiro, vindo do Recôncavo Baiano, nos primórdios do Século XX, no começo nome dado a folguedos de matriz africana realizados nos morros cariocas, depois passando a denominar o estilo musical que se desenvolveu a partir deles.

A história mais curiosa do livro é a revelação de que, na raiz das escolas de samba do Rio de Janeiro está uma iniciativa virtuosa do Maestro Heitor Villa-Lobos, que resolveu resgatar as manifestações festivas que ocorriam nas favelas, sincretizando cultos africanos e indígenas, e haviam sido proibidas pelo Governo havia 40 anos, por serem movidas a cachaça e causarem embriagues e desordem.

Em 1939 o Maestro convocou ao seu escritório o mais notório representante das comunidades afros do então Distrito Federal, José Gomes da Costa, o Zé Espinguela, morador do Morro do Quitungo, em Irajá, que compareceu certo de que seria contratado para fazer um despacho de macumba — já que ele era dono de um "terreiro" e era muitas vezes contratado por pessoas da sociedade para esses "trabalhos espirituais".

Mas o que o grande Villa-Lobos queria, maestro já nacional e mundialmente famoso,  era que Zé Espinguela organizasse o seu grupo étnico para realizar uma grande performance folclórica, teatral, musical e dançante, que se apresentasse nos teatros e em praças públicas, para reabilitar o seu valor cultural na sociedade carioca, e produzir um documentário para o cinema americano. O nome dado ao bloco carnavalesco foi "Sodade do Cordão".

Também se inaugurou de logo a figura da "rainha de bateria" — a celebridade de belas formas físicas desfilando em trajes sumários. Villa-Lobos convidou uma morena calipígia que fazia fama no teatro, chamada Anita Otero, para assumir essa função.

O documentário foi gravado, a bordo de um transatlântico atracado no Rio, mas não fez grande sucesso. Porém, a partir daí, o samba e o carnaval de rua ingressaram na vida brasileira, com apoio dos Governos e grande interesse da imprensa.     

  


    DEDICATÓRIA 

A sessão virtual da ACLJ realizada nesta segunda-feira foi dedicada ao advogado fortalezense Betoven Rodrigues de Oliveira, que acaba de ser agraciado com o título "Advogado Padrão" pela seccional cearense da Ordem dos Advogados do Brasil.



Betoven, frequentador habitual das reuniões virtuais da ACLJ, ainda na condição de convidado, que o torna candidato a uma futura Cadeira Numerada, destaca-se na profissão pela reconhecida ética com que se porta na operação do Direito, além do grande saber jurídico de que é notório detentor.
 
Vocação inata que já se revelou na faculdade, Betoven foi galgando o respeito da sua classe  profissional, e não raro colegas o procuram para colher sua opinião e consultar a sua experiência. E mesmo  entre os demais operadores do Direito com os quais sua profissão se relaciona, como juízes e integrantes do Ministério Público local, Dr. Betoven produz admiradores e amigos. 
 

    

COMENTÁRIOS

 

Eu estive presente? Parece que eu comentei, detalhadamente, os locais de viagens frequentes do Duque de Caxias.

Luiz Rego

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Prezado Amigo-Irmão, Colega e Presidente Reginaldo Vasconcelos, divido com os eminentes membros desta emérita Academia Cearense de Literatura e Jornalismo  ACLJ a honra e a satisfação de haver sido agraciado com a Medalha de Advogado Padrão do Ano de 2021, pela valorosa Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Ceará. Essa láurea é uma grata recompensa e um portentoso estímulo de prosseguir a trilha de meu esmerado e profícuo empenho profissional nos 36 (trinta e seis) anos da árdua, mas gratificante Advocacia alencarina. Recebam os meus sinceros agradecimentos. 

Betoven Rodrigues de Oliveira


 

 


domingo, 5 de setembro de 2021

ARTIGO - Falência Múltipla de Órgãos (RMR)

 FALÊNCIA MÚLTIPLA
DE ÓRGÃOS
Rui Martinho Rodrigues*

 

Durante as "jornadas de junho", em 2013, quando manifestações sacudiram o Brasil, o Jornal espanhol El País, descreveu a nossa crise como falência múltipla de órgãos. Havia insatisfação com tudo. Jornadas de junho certamente é um nome inspirado nas chamadas "jornadas de julho" (de 1917), na então Petrogrado. As manifestações de 1917, na Rússia, eram parte da dinâmica revolucionária que cresceu até explodir naquele ano. A guerra civil se prolongaria até 1921. 

A Revolução Francesa também seguiu um curso de radicalização. Os jacobinos, mais extremados, superam progressivamente os girondinos, mais moderados, até dominar a Assembleia. Instalou-se então reino do terror. Acontece, em certos casos, uma dinâmica moderada, como na Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra. 

O comedimento ocorre quando não prevalece a presunção demiúrgica de criar rapidamente e pelo uso da força um mundo novo e melhor, por meio do qual será criado também um novo homem. O hino da Internacional Socialista, em um de seus versos, fala na “luta final”. Não haveria mais luta certamente porque tudo seria resolvido depois da revolução. Sim, Yoshihiro Francis Fukuyama (1952 – vivo) não foi o primeiro a imaginar o fim da história. A construção de tão grande bem confere “legitimidade” a tudo, nos termos da ética teleológica. 

As nossas jornadas de junho inicialmente seguiram o caminho do comedimento. Manifestantes aplaudiam a polícia, não arrancavam uma flor, apoiavam os processos judiciais da Lava Java e queriam providências do Legislativo. A presidente foi destituída pelo Poder Legislativo conforme a lei, mas o Congresso limitou as sanções penais do impeachment, contrariando a lei 1.079/50. Tropeço feio. Ainda assim não houve radicalização. 

Tivemos eleições; a internet deu protagonismo ao povo; a mobilização política das massas se fez livremente; a desinformação deixou de ser monopólio da imprensa, que é concentrada em poucas empresas. Os profissionais de comunicação em geral são alinhados com o pensamento hegemônico, mas já não somos o país de pensamento unívoco. 

As divergências já não são epifenomenais; disputa personalista; ou rivalidade entre cooperativas de poder, conforme palavras de Linda Lewin (1941 – viva), também conhecidas como "panelinhas". Agora temos competição na desinformação. As condenações foram revogadas, muito dinheiro terá que ser devolvido aos que saquearam o erário. O Congresso teve significativa renovação de nomes, não de costumes. A radicalização substituiu a moderação. 

A Nova Hermenêutica Constitucional e a CF/88, que é analítica, programática, dirigente e principiológica, tornam tudo sujeito ao controle de constitucionalidade, porque todas as relações sociais, sejam elas civis ou políticas, foram constitucionalizadas. 

Esta foi a fórmula que transformou o STF no poder absoluto. Ignoramos a advertência de Lord John Dalberg-Acton (1834 – 1902): o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe de modo absoluto. O Legislativo está fragilizado pelos processos a cargo do STF, envolvendo parlamentares. 

O Executivo buscou apoio do “centrão” ou “centro democrático”. Trata-se de um grupo comparável aos girondinos, os moderados da Revolução Francesa, denominados “planície”, que eram pragmáticos e sem definição rígida do próprio ideário político. Os jacobinos, radicais, atraíram parte dos integrantes da “planície” e preponderaram, instalando o reino do terror. 

A falência múltipla de órgãos agravou-se e a dinâmica atual, no Brasil, é de radicalização, situação preocupante.

 

ARTIGO - Sob o Espectro de Fundo (VM)

 SOB O ESPECTRO DE FUNDO
QUANTO AO PRISMA DA FORMA
[Acerca de um livro da Dra. Lígia Barros Costa*]
Vianney Mesquita **

 

 

Quanto mais lemos, tanto mais nos instruímos, e quanto mais meditamos, tanto mais estamos em condição de afirmar que  nada sabemos. [Francois-Marie Arouet - VOLTAIRE. Paris, 21.11.1694 / 30.05.1778.

 

Sempre nutri e conservei particular afeição pelo ofício-arte da Enfermagem, com suas vinculações estritas aos diversos ramalhos das Ciências da Saúde. Na decorrência de misteres profissionais e acadêmicos, desde largo ciclo temporal, travo incessante contato com os agentes desta nobre carreira, nomeadamente no âmbito da Universidade, na posição de consultor para assuntos linguísticos, gramaticais, semânticos e estilísticos, em produções de sua colheita, como peças científicas stricto sensu. 

Nessa relação simbiôntica, aprendi cedo a lhes apreciar o esforço exitoso de pesquisas, com subido potencial metodológico, resultados esclarecedores e aplicação prática imediata, numa expressão categórica do acompanhamento do estado d’arte desta atividade sublime por eles abraçada. 

Conquanto não perfilhem temas do meu trato universitário, muita vez – como sucede agora – sou conduzido a escoliar a respeito de trabalhos de sua lavra, especialmente quando editam livros, quase sempre provenientes de textos-base dos seus relatórios finais de mestrado e doutorado. Evidentemente, como o “sapateiro não deve ir além das sandálias” [Ne sutor ultra crepidam], cinjo-me, de ordinário, a analisar, tão-só, a propriedade de termos e dicções, como disse, certa vez, Gilberto Freyre, na qualidade de “mero mata-mosquito da ordem gramatical”. 

Vez por outra, entretanto, o afouto sapateiro de Plínio, o Antigo [Caio Plínio Segundo], acha de querer ultrapassar o calçado mostrado na pintura de Apeles de Cós e adentrar matéria avessa à sua intimidade, submetendo-se ao risco de laborar no engano. 

Como, entretanto, a temática de ordem geral – penso – não é território reservado de ninguém, vale a parêmia escolástica consoante a qual o exame da Ciência não tem por objeto o saber particular – totum individuatum ineffabile est – ou seja, o todo individualizado é inexprimível, de modo a inexistir, em tese, o conhecimento privado. 

Assim, sob esta razão (talvez) evasiva, penetro astuciosa e perigosamente outros saberes, não sem o cuidado de me liberar de tautologias e expressar heresias, no senso popular do termo, haja vista o terreno sempre movediço das temáticas não dominadas por quem, sem tir-te nem guar-te, com a maior sem-cerimônia científica, tenta comunicar-se em seara estrangeira. 

Ao levar em conta, porém, o preparo insuficiente de escrevinhador deserdado de mais alargado saber ecumênico, sou continente nos meus comentários, parcimonioso nos rasantes por teores a este estranhos, de sorte a ser bem-sucedido nessas pequenas empresas a mim cometidas pelas inexcedíveis atenções de meus consulentes, às quais, humildemente, acedo. 

Todos esses arrodeios e ambages serviram de aprestar o canteiro da obra, a fim de expressar o fato de O Cuidado à Família em Atenção Primária, livro da Prof.a Dra. Lígia Barros Costa, docente da Universidade Federal do Ceará, membra atuante da fina-flor da Enfermagem no País, representar a oportunidade de o leitor abeberar-se de conhecimentos bem meditados a respeito do cuidado à saúde da família, na relação elastecida de refleti-la e cuidá-la, objetivando, não só, a ausência de doenças, como também a higidez e o bem-estar, entendimento hodierno de saúde. 

Sobre ser o compêndio bem escrito, tanto sob o espectro de fundo quanto jungido ao prisma da forma, diviso o maior proveito deste volume no ato de fazer convergir a chamada communis intellectus ao saber unificado parcialmente, este provindo da anterior como vertente natural da Ciência, não devendo o pesquisador, por hipótese alguma, fazer pouco caso de seu valor e serventia. 

A tarefa de relacionar os dois hemisférios de saberes procedida pela Autora objetiva – creio, com sucesso – valorizar, às derradeiras consequências, o ato de conceder atenção à família, de maneira afastada do biologicismo de ontem, praticado agora, sistêmica e holisticamente, privilegiando todas as instâncias da vida com o concurso desse grupo sociológico primário configurado na família.

 

Nota: Este é o texto-base das guarnições do livro, editado pelas Edições UFC, em 2008, de autoria da Prof.a. Dra. Lígia Barros Costa.



     

terça-feira, 31 de agosto de 2021

RESENHA - Reunião Virtual da ACLJ (30.08.2021)

 REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
   (30.08.2021)




PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira,  que teve duração de uma hora e meia, dez acadêmicos e um convidado especial. Compareceram ao grupo o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Bacharel em Direito e Especialista em Comércio Exterior Stênio Pimentel (Estado do Rio), o Agente Comercial Internacional Dennis Vasconcelos e o Marchand Sávio Queiroz Costa.

Estiveram presentes também o Juiz de Direito e Professor Aluísio Gurgel do Amaral Júnior, o Físico e Professor Wagner Coelho (Rio de Janeiro),  o Advogado e Pesquisador Sionista Adriano Vasconcelos (Fazenda Três Corações), o Jornalista Wilson Ibiapina (Brasília), o Procurador Federal Edmar Ribeiro, o Advogado Betoven Oliveira e o Poeta Paulo Ximenes.




 TEMAS ABORDADOS

Wilson Ibiapina abriu a reunião registrando a chuva em Brasília, depois de longa estiagem, e relatando que o cineasta cearense Mirton Venâncio, radicado em Brasília, está preparando um documentário sobre o grupo de artistas sônicos cearenses que se notabilizou nacionalmente como "Pessoal do Ceará", na década de 70.

Também anunciou que Ricardo Bezerra, o qual, assim como o próprio Ibiapina, foi uma das "eminências pardas" do Pessoal do Ceará, estaria organizando um obra com crônicas sobre o pensador mundano Augusto Pontes, que era um espécie de alter ego coletivo dos componentes daquele parnaso cearense.   

Na linha do tema sobre os artistas cearenses contemporâneos mais notáveis, Aluísio Gurgel lembrou de seu amigo Liduíno José Pitombeira de Oliveira, natural de Russas, PHD em harmonia e composição pela Universidade de Louisiana, nos EUA, e ocupante da Cadeira 28 da Academia Brasileira de Música, patroneada por Ernesto Nazareth.

Na sequência, comentou-se sobre as boas cachaças brasileiras, o destilado símbolo da nacionalidade brasileira, de que o confrade Altino Farias é o Embaixador no Ceará, e o Betoven registrou que sua irmã produz em seu alambique de Cascavel um dos bons rótulos locais — a cachaça Gole de Ouro — que ele prometeu trazer à Tenda Árabe, oportunamente, para degustação da confraria. Nesse clima das libações entre amigos, Sávio Queiroz abriu uma cerveja para levantar um brinde aos convivas: Saúde!  


    DEDICATÓRIA 



A sessão virtual da ACLJ realizada nesta segunda-feira foi dedicada ao jovem Geógrafo Cândido Henrique de Aguiar Bezerra, atual Superintendente do Iphan-Ce, em reconhecimento de seus esforços pelo tombamento e restauração do prédio do velho Iracema Plaza Hotel, da década de 50, um dos ícones arquitetônicos do Ceará, atualmente em estado de degradação absoluta, que o Município de Fortaleza declarou não compensar recuperar. 

Candido Henrique é sobrinho do nosso Membro Benemérito, o Político e Advogado  Ubiratan Aguiar, Ministro Emérito do Tribunal de Contas da União 
— sendo sobrinho também da mulher dele, Dona Terezita, filho da irmã de um e do irmão de outro, que são casados entre si. 

Ele se diz um Monarquista, o que sinaliza a sua sensibilidade política, o seu amor à tradição, e o seu apreço pela História do País.  

No referendo de 2005 o Brasil perdeu a oportunidade de adotar o parlamentarismo monárquico, e penetrar no seleto clube das 44 monarquias constitucionais, como o Reino Unido e o Japão, e de lá para cá vem sofrendo governos presidencialistas em que os titulares brincam de reis absolutos, comprando o Parlamento para o cometimento de arbitrariedades diversas, como duplicar o próprio patrimônio mandatício, ou enriquecer a si e o seu partido político com desvios de verbas do erário, através das "mais tenebrosas transações".
 

    

CRÔNICA - Peixes (TL)

 


REFLEXÃO - Monólogo de Uma Vida (PN)

 Monólogo de uma vida
Pierre Nadie*

 

     

– Vou-me embora de mim. 

– Como, se não inda te encontraste? 

– Não me suporto mais. 

– Que relação tens contigo? 

– De mim, nunca tive encontro comigo.

E já me vejo em desencontro. 

– Vê, tu és tu. Não consegues fugir de ti. 

– Por que te desencontras 

Se não buscaste encontrar-te? 

Existir não é bastante 

Para valer a pena viver 

É preciso te sentires 

Saber o conteúdo de ti 

É preciso te abraçares 

Plantar flores 

Não remover espinhos 

– Vê, a aurora está a vir 

Caça-te aos seus albores 

Cegos a olhos herméticos 

Não sejam aos teus 

Não te casse a vida 

Nem te deixes dela fugir. 

Não, não podes viver sem ti.