terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

CRÔNICA - Mesa de Bar (PX)

 Mesa de Bar
 Paulo Ximenes*

  

“Mesa de bar não é lugar apropriado para a resolução dos problemas do mundo, nem para o desfile de azedumes pessoais. Ao contrário, ela foi desenhada para o trato das amenidades, para os que reverenciam as amizades, deixam ascender a poesia e os bons fluidos, e viajam com a música para onde ela for”.

 

 

A propósito desta amolada orientação aos navegantes, devo detalhar que eu a confeccionei em uma grande folha de papel cartolina, tecida com pincel atômico (no tom vermelho mais aberrante que pude encontrar) e a afixei afrontosamente na porta de um frequentado bar nas cercanias da cidade de Campos Sales, Estado do Ceará, pelos idos de 1995, com a aquiescência do seu proprietário.

  

Aquilo não foi uma gaiatice fortuita. Apesar dos muitos deleites em que ali vivi, devo confessar que atravessei também uns bons maus bocados. Muitos dos seus incautos frequentadores andavam se esquivando da correta destinação a que se prestam os bares: julgando-se conhecedores dos homens e do mundo, entre baforadas de cigarros, doses de cachaça e ares professorais, levantavam polêmicas de toda a sorte, quando não traziam na ponta da língua elucidações para quaisquer dúvidas que porventura ali surgissem. Sabichões de plantão, donos absolutos da verdade.

  

Já outros se davam ao desplante de transformar uma mesa de bar numa extensão enfadonha das suas atividades laborais; outros faziam pior: passavam a exigir atenção pupilar, enquanto revelavam detalhadamente seus doridos queixumes, tim-tim por tim-tim, impondo aos demais arcar com a tortura daquela audição... 

 

O leitor acha que a coisa não poderia desandar ainda mais um pouquinho? Saiba então que presenciei alguns fanfarrões sob o efeito da “marvada” com os dedos em riste e a voz nas alturas, acelerados pela reles divergência de opiniões ou até pelas discussões do mundo do futebol, arvorando um clima de afrontamento ao sossego. 

  

Avacalhava-se naquela forma, a passos largos, o sagrado fito da nossa serena tenda do ócio – eu queria crer que a finalidade de um bar fosse justamente pôr água fria na fervura da vida – e eu já estava que não podia mais. Concedo agora que talvez eu tenha sido menos sutil do que eles, ao fazer a emenda maior que o soneto.

  

Passado algum tempo, por motivos imperiosos, saí da cidade. Segundo a informação dos que por lá ficaram, por mais uns três anos permaneceu a desbotada cartolina no mesmíssimo local, prestando relevantes serviços aos boêmios. As letras se desbotaram, a cartolina sumiu, o tempo passou e aquilo foi uma ousadia que já não me acompanha mais.


 

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