segunda-feira, 15 de março de 2021

ARTIGO - Quem É Que Manda (RV)

 QUEM É QUE MANDA
Reginaldo Vasconcelos*

 

O problema do Brasil é a tradição malsã de se ungir e adorar o governante da vez como líder sagrado, dono do erário, promotor supremo dos destinos sociais – e cada um deles alimenta essa ilusão popular, e dela se aproveita. 

A grande massa ignara, que compõe a maioria, inaugura esse culto deífico pelos deãos da edilidade, pelos suseranos regionais, muitas vezes blasonados por um nome de família, que exercem ascendência hipnótica sobre o povo, e este lhe devota paixão incondicional – para que aqueles se adonem de mandatos sucessivos. 

São os burgomestres matutos, os prefeitos dos sertões incultos, e os governadores, que compõem a base eleitoral dos demais aventureiros que pululam pelos estamentos da República, granjeando e manipulando, para a sua fazenda pessoal e para o seu grupo político, favores imerecidos e verbas destinadas a obras públicas. 

Os simples do povo e mesmo o povo esclarecido não têm presente a evidência clara de que as máquinas administrativas das três esferas de governo não produzem riqueza – não criam, não plantam, não colhem, não especificam na indústria, não descobrem e não inventam na ciência, não distribuem no comércio. Apenas manipulam verbas públicas que arrecadam. 

A economia e as finanças de um País dependem do que a iniciativa privada empreende em seus negócios, do que os empresários e os seus empregados edificam, do que os seus executivos e operários concretizam – promovendo o progresso tecnológico, ampliando o mercado de trabalho, promovendo segurança alimentar, auferindo justo lucro e recolhendo tributos para os cofres estatais implementarem suas políticas sociais. 

Servidores públicos – sejam os convocados, os concursados, os nomeados ou os eleitos – militares, juízes, fiscais, policiais, barnabés, governantes, parlamentares, burocratas em geral – todos eles são dispensados da labuta ingente e dos riscos intrínsecos de quem poupa, investe, empreende, concorre, produz e concretiza os bens da vida. 

Todo o setor público se constitui de pessoas assalariadas, sustentadas por quem de fato movimenta a economia e paga impostos, apenas para que elas cuidem dos interesses comuns da coletividade que lhes remunera – e, portanto, a coletividade é a origem e o destino do poder. 

As três funções republicanas – a executiva, a legislativa e a judiciária – não são “poderes” de fato, ao contrário do que se tem o vezo de entender. As três funções são compostas por servidores do povo, assalariados pelo suor daqueles que trabalham e que produzem, e, portanto, não podem aqueles oprimir os seus verdadeiros provedores e mentores. 

O marxismo se funda exatamente na inversão dessa lógica, pretendendo que o Estado deva escravizar e amordaçar a cidadania, transformando todos os que trabalham e produzem em seus obedientes servidores, enquanto os tiranetes do governo despótico se eternizam no poder e se louvam de ser seus protetores paternais.

Presentemente o Presidente Bolsonaro está insinuando que o povo ganhe as ruas para manifestar sua revolta, a fim de legitimar a aplicação da norma constitucional que autoriza as Forças Armadas a restaurarem a lei e a ordem nacionais – evitando assim que ele seja considerado um ditador, ao acionar os militares contra um Supremo Tribunal que extrapola das suas constitucionais obrigações. 

Se eu pudesse dar uma sugestão ao Presidente o dissuadiria desse método arcaico de valorizar arriscadas manifestações físicas como panelaço e passeata, gritaria e quebra-quebra, greve, protesto, carreata, enfrentamento policial, bloqueio de vias. 

Hoje em dia o mundo virtual é o termômetro perfeito para medir a insatisfação e a vontade populares – a mesma força democrática que levou Bolsonaro à Presidência – e já há evidência de que a maioria esmagadora das pessoas de bom-senso apoiaria essa medida radical, até pelas pesquisas recentes que avaliam positivamente o seu governo. 

Para solucionar o problema, Bolsonaro deveria então reunir uma plêiade de grandes juristas nacionais independentes, de velhos professores de Direito, de advogados de escol, pincipalmente de constitucionalistas consagrados, bem como de associações de magistrados e de membros do Ministério Público. 

Assim, colher desse cabido de sumidades a constatação jurídico-científica de que os atuais componentes daquele tribunal (nomeados e não concursados, oriundos da advocacia com raras exceções, que não têm mandato concedido pelo povo, politicamente endividados com quem os nomeou) não estão honrando a sua função de guardiões da Carta Magna da República. 

Então, com base nesse documento democrático  um parecer tecnicamente fundamentado  sem violência e sem trauma, após “comunicar” ao Congresso, tomar a medida administrativa que se afigure necessária. 

Às Forças Armadas caberia apenas, com base no art. 142 da Constituição Federal, eventualmente, conter as minorias revoltosas e dissuadir reações violentas dos grumos sociais espúrios com interesses contrariados.

       

sexta-feira, 12 de março de 2021

CRÔNICA - "Quem Não Está Comigo Está Contra Mim" (PN)

 “QUEM NÃO ESTÁ COMIGO
ESTÁ CONTRA MIM”
Pierre Nadie*

 

São Gregório Magno nos exorta que precisamos ser simples nas obras e retos na fé. Em nosso interior – sentimentos, emoções e pensamentos – devemos cultivar a retidão da fé, no amor e na caridade, que Jesus Cristo nos ensinou. 

Quando as obras, que a gente pratica, são de Deus, mas nossa intenção é o elogio, os aplausos, o reconhecimento, ou inda o “mero” humanismo, laboramos em duplicidade, mesmo que a compaixão nos impulsione. 

Nós não podemos contentar-nos com rótulos de cristãos, senão com adesão sincera da mente e do espírito e com “atitudes interiores” e gestos exteriores. 


A autêntica teologia católica é incisiva: ou estamos com Jesus Cristo ou estamos contra Ele: “Qui non est Mecum, adversum Me est; et qui non colligit Mecum, dispergit” (Lc 11, 23).
 

Não há meio termo e Deus vomita o morno. As verdades da nossa fé são imutáveis e atuais. Sempre: “Os céus e a terra passarão, mas minha Palavra não passará” (Mt 24,35). 

O outro é nosso irmão, merece apoio, compaixão, misericórdia, pelo Santíssimo Nome de Jesus. É em Seu Nome e pelos Seus ensinamentos que nos devemos amar uns aos outros. É Jesus, que humaniza o nosso humanismo e fá-lo adentrar o divino. 

E o temor de ofender a Deus ganha sentido e dimensão cristã,  exclusivamente, no amor e na paz de Jesus Cristo, presente, real e verdadeiramente, na Eucaristia, mistério salvífico que sustenta e anima a Igreja. 

O cristão entra no Evangelho, deixa-se impregnar pelo Espírito e a Palavra torna-se vida de sua vida. καιρός (kairós)! 

Atualizar, sim, a nossa vida, porém, conforme os ditames da Palavra.


POEMA - A Dona do Corpo (ES)

 

terça-feira, 9 de março de 2021

NOTA ACADÊMICA - Sarau Virtual da ACLJ (08.03.2021)

 SARAU VIRTUAL DA ACLJ
(08.03.2021)

   

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promovia, nas noites de terça-feira, na casa de bebidas finas Embaixada da Cachaça, um poetry slam, consistente em um pequeno sarau de poesias, prosa poética e performances musicais acústicas ao vivo, segundo uma prática que começou nos EUA e se difundiu pelo Planeta.


   
Mas essa rotina cultural saudável foi interrompida pela pandemia de Covid-19, e então o grupo de habitués passou a se reunir virtualmente nas noites de segunda-feira, em que acadêmicos, artistas, intelectuais e poetas em geral, frequentadores daquele reduto boêmio e cultural, matam a saudade e mitigam a carência de convívio, mantendo em atividade a ACLJ, apesar do isolamento social obrigatório.




PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira, que teve duração de uma hora e meia, 13 participantes. Compareceram ao grupo virtual  Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, Professor Doutor Rui Martinho Rodrigues, o Professor e Procurador Federal Edmar Ribeiro, o Engenheiro, comerciante e Blogueiro Altino Farias, o Professor e Físico Wagner Coelho, o Engenheiro e antigo Oficial de Marinha Humberto Ellery. 
 
Compareceram também  o Jornalista e Sociólogo Arnaldo Santos, o Marchand Sávio Queiroz Costa, o Advogado e Sionista Adriano Vasconcelos, Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior, o Bibliófilo José Augusto Bezerra, o Professor e Pesquisador em agronomia Luiz Rego de Morais Filho, e o Advogado e Professor Cândido Albuquerque, Magnífico Reitor da UFC.  

Justificou ausência  por compromissos profissionais; a Atriz, Psicoterapeuta, Escritora e Poetisa Karla Karenina, que se encontra em São Paulo



TEMA DE ABERTURA

O Presidente Reginaldo Vasconcelos abriu os trabalhos dizendo um poema do poeta romeno Mihai Eminescu,  traduzido para o português pelo nosso confrade Luciano Maia, que foi musicado e gravado pelo sambista brasileiro Martinho da Vila, intitulado "Dentre Centenas de Mastros".




Depois de receber as boas-vindas, após várias semanas em que não pode comparecer às reuniões virtuais da ACLJ, que suspendeu as sessões até que tivesse notícia da sua recuperação de Covid-19, o acadêmico Edmar Ribeiro recitou o poema "Leda Serenidade Deleitosa", de Luiz Vaz de Camões. 

ASSUNTOS ABORDADOS
 
Falou-se sobre cinema, notadamente a peça cinegráfica brasileira "A Cidade Invisível",  do produtor Carlos Saldanha,  que faz um contraponto entre a modernidade e a tradição, misturando folclore brasileiro com suspense. 

O assunto foi trazido pelo Acadêmico Luiz Rego, que reside no Estado do Rio, e quis saber sobre quem são as grandes autoridades atuais em folclore nordestino, no resgate das histórias infantis. 

José Augusto Bezerra lembrou que o confrade Lúcio Alcântara, atual presidente da Academia Cearense de Letras, nutre interesse por esse tema do folclore, e Arnaldo Santos informou que o Professor Gilmar de Carvalho é o maior experto local em literatura de cordel, xilogravura e reisados.   

A conversa derivou para o problema do politicamente correto exacerbado, com participação de Reginaldo Vasconcelos e Cândido Albuquerque, notadamente na tentativa de se censurar obra infantil do escritor Monteiro Lobato.

Ele foi inquinado de racismo há alguns anos, quando, em seu tempo, sua obra fabular, na verdade, era antirracista, pois quando o contexto cultural era adverso ele criou uma doméstica negra que era tratada de tia pelas crianças brancas da família, descrita como pessoa de elevada qualidade moral, xingada por uma boneca mau-caráter e doidivanas que ela mesma confeccionara com tecido.

Adriano Vasconcelos lembrou o absurdo do que se está denominando "capacitismo", um conceito novo para condenar quem procure ajudar deficientes, sem lhes consultar se querem ajuda. Wagner Coelho, por seu turno, pontuou sobre uma tese modernosa americana que tenta provar e conclui que a matemática é racista.

Finalmente falou-se no problema das bibliotecas e as viúvas, que muitas vezes vendem as obras literárias reunidas ao longo da vida pelos maridos intelectuais, logo após a sua morte, ou, pior ainda, relegam os livros a um quarto de despejo e permitem que eles se degradem, como aconteceu com o acervo precioso do Barão de Studart, salvado em parte pelo Prefeito Raimundo Girão e restaurado por iniciativa do confrade José Augusto Bezerra, quando presidiu o Instituto do Ceará.

Falou-se finalmente sobre a fidelidade que as peças dramatúrgicas guardam, notadamente as cinegráficas, em relação às obras literárias que pretendem reproduzir  abordando-se o caso específico da série Memorial de Maria Moura, realizada pela TV Globo, que não agradou a autora Rachel de Queiroz contrastando com o caso do Auto da Compadecida, cujo autor Ariano Suassuna apreciou. 

José Augusto Bezerra, que é o guardião oficial do acervo documental da Rachel de Queiroz, pontuou que ela elogiou o esforço que os atores desprenderam na execução do vídeo, mas pareceu-lhe ter fugido à ambiência regional que ela imprimiu à trama e aos personagens, vividos por atores sudestinos. 

Cândido Albuquerque pontuou com o fenômeno de que cada leitor constrói na mente à sua maneira o cenário e o clima que o autor delineou em sua obra, imaginação que nem sempre coincide com o quatro pictórico imaginário que o próprio escritor quer descrever, sendo portanto muito difícil que, ao transferir a trama para outra linguagem gráfica, as imagens vão coincidir perfeitamente.  

Ao final Sávio Queiroz apresentou documentos epistolares recebidos por sua saudosa mãe ao longo da vida, Dona Wanda Queiroz Costa (1928-2011), que foi braço direito do seu irmão Edson Queiroz na presidência do grupo empresarial que ele fundou, e foi grande incentivadora das artes no Ceará. 

Mensagens recebidas de personalidades do Estado  cartões, missivas, peças preciosas da memória familiar que Sávio guarda com desvelo, que muito oportunamente apresentou como homenagem às mulheres, no dia que lhes é internacionalmente consagrado.   

DEDICATÓRIA

A sessão virtual da ACLJ realizada nesta segunda-feira, dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher, foi dedicada a duas grandes representantes da classe feminina cearense.

A essa classe pertencem as mães e as sogras de nós todos, as nossas filhas e esposas, as nossas confreiras e amigas, o heroico pelotão de médicas e enfermeiras que trabalham na linha de frente contra a Covid-19.

As homenageadas da vez são, in memoriam, a Executiva do Grupo Edson Queiroz, Dona Wanda Queiroz Costa, e a Jornalista e Escritora Rachel de Queiroz, ambas lembradas com admiração e carinho ao longo desse colóquio virtual.

 


ARTIGO - As Ferrovias (RMR)

 AS FERROVIAS
Rui Martinho Rodrigues* 

 

Mudanças dificilmente representam rupturas radicais. Convivem com permanências. Ferrovias constituíram um marco histórico importante. Fizeram parte das características da segunda Revolução Industrial, no âmbito dos transportes. 

O motor de combustão interna deu impulso ao transporte rodoviário. A abertura de canais interligando rios e até oceanos e a construção de eclusas que permitiram a navegação vencer obstáculos como cachoeiras potencializaram o transporte marítimo e fluvial. A aviação seduziu as pessoas no transporte nas médias e longas distâncias. Mas as ferrovias continuaram respondendo por grande parcela da movimentação de cargas e de pessoal. 

A vantagem das rodovias é receber e entregar na porta. Mas as longas distância diluem o custo do frete da origem para a estação e da estação para o destino. O Brasil, com grande território, é um convite aos trens. Grandes cidades ensejam o transporte de grandes volumes entre elas. Isso também temos. 

Minérios, grãos e outras cargas pesadas e volumosas tornam viável as ferrovias. Antes do crescimento do transporte rodoviário tivemos o domínio da navegação de cabotagem. Frei Vicente de Salvador (Vicente Rodrigues, 1564 – 1638), disse, nos primórdios da colonização, que vivíamos agarrados ao litoral, como caranguejos. Até hoje as nossas principais cidades são próximas do litoral. 

A nossa marinha mercante perdeu dezenas de navios na Segunda Guerra Mundial. A navegação foi duramente atingida. O Governo Vargas iniciou um esforço de construção de rodovias. A marinha mercante não se recuperou das perdas. O caminhão passou a reinar. Ferrovias foram negligenciadas. O choque do petróleo não nos despertou para a necessidade de investir em ferrovias ou no transporte marítimo e fluvial. 

Teorias conspiratórias diziam que assim o era por influência de grandes empresas multinacionais petrolíferas e fabricantes de caminhões. As forças políticas que criticavam o abandono das ferrovias chegaram ao poder e o exerceram durante muito tempo com o apoio de ampla base parlamentar, obtida por meios bastante persuasivos. O modal ferroviário continuou abandonado. A Ferrovia Norte-Sul, iniciada no Governo Sarney, só agora está sendo concluída. A navegação de cabotagem não teve melhor atenção. Tampouco as hidrovias receberam os investimentos que merecem. 

Como a vida é paradoxal, agora, quando estamos atravessando grave recessão e a legislação ambiental é mais rigorosa, estamos vendo a conclusão da ferrovia retrocitada e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste avança celeremente. A cabotagem está sendo objeto de iniciativas que poderão revigorá-la e o modal rodoviário continua a merecer investimentos. 

As pontes rodoviárias sobre o Jaguaribe, em Aracati, que estava em obras desde o século passado, ficou pronta sem novos aditivos. O mesmo se deu com a ponte sobre o Rio São Francisco, na BR-101, obra igualmente maior de vinte anos. Simultaneamente a maior ponte ferroviária do continente teve início e conclusão em menos de dois anos, sobre o São Francisco, parte das obras da Ferrovia Oeste-Leste. 

A vida é um sistema de vasos comunicantes. O setor financeiro, onde os juros mais baixos da série histórica proporcionaram, em 2020, uma economia de cem bilhões de reais ao erário, terão contribuído para o salto observado no setor de transportes? O impacto das condenações de políticos de alto coturno e grandes empresários das empreiteiras seria outro fator favorável ao inesperado desempenho do setor, que durante tantos anos andou tão mal?


segunda-feira, 8 de março de 2021

CRÔNICA - O Marinheiro e o Oceano (RV)

 O MARINHEIRO E O OCEANO

Reginaldo Vasconcelos*



A visão que tenho da mulher, na minha ótica masculina, tem evoluído no tempo, desde que me entendi como pessoa. Nascido e criado durante o ocaso do obscurantismo milenar – segunda metade do Século XX – experimentei a grande transição cultural que promoveu a igualdade essencial do ser humano.

Mas ainda conheci a mulher encastelada no status de ser especial, sujeita a estritos deveres morais, quando distinguida pelo destino para ser esposa ou freira, ou relegada à condição de pária social, se destinada a suprir os instintos poligâmicos da espécie, nesse caso impiedosamente rotulada de “mulher desonesta.

Para o menino que fui não havia distinção: filho de uma mãe recatada, vivendo numa prole sem irmãs, a mulher para mim, toda ela, era sempre um ente fabuloso, magnífico, intangível. Fossem as professoras, as domésticas, as meninas da vizinhança, todas eram objeto da minha adoração apaixonada. E principalmente as prostitutas, quando a elas tive acesso na transição da puberdade, causavam-se uma pletora de ternura e encantamento. Éramos como o observador e a montanha verdejante.

Depois, na aurora boreal dos hormônios, sob a virilidade solar da juventude, a essa condição de ser etéreo  e  angelical  da  mulher  – da qual jamais a demiti – somei a de fetiche sensual, fonte aparentemente inesgotável de carinho e de prazer. Galgaram, então, as moças, no meu conceito, o altar votivo do mais enlevado culto erótico, sem perderem a sua deidade, sempre alvo do maior respeito e da maior reverência. Era então o observador na montanha dominando o vale fértil.

Hoje, além de semideusa da estética superior do Universo, na sublimidade intrínseca de sua condição ontológica, e de insuperável objeto tátil e lúdico de deleite, a mulher assume ante os meus olhos a função suprema de companheira imprescindível, alicerce indispensável da estrutura masculina, arcabouço e argamassa do edifício da família.

A mulher se me afigura hoje o complemento essencial do macho, que sem ela não existe como tal, porque sem ela se vai delir moralmente como qualquer criança solitária, perdida no caos da orfandade. Na maturidade concluo enfim que tenho vivido em função da mulher, a princípio cativo de seus encantos  como o zangão em torno da abelha rainha  hoje servo absoluto de sua majestade, sempre a serviço de sua nobre alma, em troca de um simples olhar seu de aprovação, ou de um sorriso, ou de um gesto de confiança, ou de um suspiro de prazer que me conceda. Somos agora como o marinheiro e o oceano.

NOTA: Escrito e publicado originalmente no dia 08.03.2005 Dia Internacional da Mulher.



Crônica dedicada a Dona Estefânia, a Dona Tatá e a Dona Jaci (todas elas in memoriam). 

À Graça, à Fana, à Thiena, à Júlia e à Iva. 

À Vólia e à Jô. 

À Dona Célia, à Ana Paula e à Ana Sofia. Na pessoa delas, a todas as mulheres do Universo.


CRÔNICA - Freud Não Explica (HE)

 FREUD NÃO EXPLICA
Humberto Ellery*

 

Afinal, o que querem as mulheres? (Sigmund Freud) 

 

Hoje, dia 8 de março, comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Viva! 

Começo lembrando que Freud, o Pai da Psicanálise, o primeiro gênio a perscrutar a alma humana em bases científicas, teve uma paciente de apenas 15 anos, Ida Bauer, que estava acometida de acessos de tosse e dificuldades de falar. 

Em plena Viena do século XIX, o Psicanalista diagnosticou que o nervosismo e a afasia da jovem eram fruto do desejo sexual inconsciente da moçoila, por um amigo da família que a assediava, e a incapacidade do pai em protegê-la. 

Inconformada, por não  admitir que estava vivenciando um claro processo histérico, Ida rejeitou a interpretação de Freud e abandonou o tratamento. Posteriormente Ida enfrentou o próprio pai, o que levou ao desaparecimento dos sintomas. 

O Pai da Psicanálise formulou então a famosa pergunta, até hoje sem resposta: “Afinal, o que querem as mulheres?”. Olha, Freud, eu sei, mas não digo! 

Outro grande pensador, Arthur Schopenhauer, afirmou uma estupidez respondida por ele próprio: “A mulher é um ser de cabelos longos e ideias curtas”. Ora, ele mesmo desqualificou a estupidez ao afirmar: “Todas as pessoas tomam os limites do próprio campo de visão pelos limites do mundo”. 

 E é verdade, ele tomou os limites do seu campo de visão pelos limites do mundo. É muito provável que as mulheres de sua vida, de seu campo de visão, tenham sido mulheres de ideias curtas. É, seu Arthur, viver dói! É dele a frase: “Quem deseja sofre; quem vive deseja; viver dói”. 

Mais condenável é a afirmação de Friedrich Nietzsche: “A mulher é considerada profunda, por quê? Porque nela jamais se chega ao fundo; a mulher nem sequer é superficial”. 

Olha aqui, meu caro Nietzsche, quando você disse que “Deus está morto” eu defendi seu postulado, percebi que na sua A Gaia Ciência você criou uma metáfora interessante, quando colocou a frase na boca de um louco gritando num mercado (Mas isso é assunto para um ensaio, talvez até um workshop, não para um artigo despretensioso como este). 

Perdoo essa sua indefensável misoginia porque ela não se coaduna com sua filosofia, cujos aspectos principais são voltados para a Liberdade absoluta, a ruptura com valores pré-estabelecidos e o abandono de todos os preconceitos. 

Mas eu hoje quero falar de Mulheres e de Amor, e as mães simbolizam para mim essas duas maravilhas. A minha irmã Angélica (juntamente com meus outros irmãos) costumava dizer que eu era o “queridinho da mamãe”, o filho favorito. Nunca aceitei isso porque o amor de minha mãe era infinito, em seu coração cabíamos todos nós, indistintamente. 

 Eu apenas era mais matreiro, sabia escolher o momento certo para lhe pedir o que eu queria, que nunca me era negado, além de adotar uma política de convivência absolutamente “puxassaquista”. Até hoje procuro ser agradável, galanteador, amorável, sou, na verdade, o que o Odorico Paraguaçu chama “puxassaquista militante”. 

Nunca tive a preocupação de esconder meu amor, escamotear meus sentimentos, nunca segui a recomendação de disfarçar meu amor para que a pessoa amada não se sinta tão segura de si e passe a espezinhar-me. Nunca. Mesmo porque a quantidade de Amor que carrego comigo é tanta, que tenho a impressão que se resolvesse guardá-lo todo dentro de mim eu morreria sufocado. 

Já me aconteceu de uma namorada me perguntar se eu a amava mesmo, de verdade. Fiquei bem sério e respondi peremptório: “Não”. Ela me olhou desconsolada, com um meio sorriso sem graça em seu rosto. Deixei passarem alguns segundos e completei: “O que eu sinto por você não é mais amor, está em um patamar mais elevado. Eu sou mesmo é louco por você”. Ela me abraçou e se derreteu toda (era o que eu queria). 

Mas, afinal, o que querem as mulheres? Não pensem vocês que basta as tratarem como rainhas. Isso qualquer escravo sabe fazer. O importante é fazerem-nas se sentirem como Rainhas. 

Entendeu, Freud?

Mulheres da minha vida: Beijo-lhes as mãos.


ARTIGO - A Criança e os Sapatos (RMR)

 A CRIANÇA
E OS SAPATOS
Rui Matinho Rodrigues*

 

Quando a criança não sabe qual é o lado direito nem o esquerdo, no sentido de orientação espacial, sempre calça o sapato não adequado ao pé. A nossa história é marcada por escolhas que o tempo tem revelado equivocadas. José Bonifácio de Andrada e Silva (1773 – 1838), em brilhante representação, conclamou os constituintes da Assembleia que estava elaborando a nossa primeira Constituição a extinguir o escravismo, dizendo que tal prática era um cancro que ameaçava os fundamentos da nação. Não foi ouvido. Fizeram a escolha errada. 

Francisco de Assis Chateubriand Bandeira de Melo (1892 – 1968) defendeu o desenvolvimento da siderurgia pelo capital estrangeiro, considerando que além de não termos capital também não tínhamos técnica. Foi derrotado pelos “nacionalistas” que obtiveram apoio do então presidente Arthur Bernardes (1875 – 1955), conforme relato de Fernando de Morais (1946 – vivo), na obra “Chatô: o Rei do Brasil”. A escolha retardou por duas décadas a siderurgia brasileira. 

A disputa entre Roberto Cochrane Simonsen (1889 – 1948) e Eugênio Gudin Filho (1886 – 1986), sobre a qual já escrevemos, terminou com a vitória do primeiro e rendendo inflação, patrimonialismo potencializado na forma de corrupção sistêmica e industrialização com produtos ruins e caros. Os asiáticos, que escolheram recepcionar o capital estrangeiro; optaram pela propensão a poupar, ao invés da nossa escolha pela propensão a consumir; e elegeram uma educação de qualidade, significando isso desenvolvimento cognitivo, em lugar da sensibilização do bem descrita por Pascal Bernardin na obra “Maquiavel Pedagogo”, que predomina no ocidente e é aplicado no Brasil de forma degradada. 

A Ásia, na parte leste, tornou-se o que é agora. Nós somos o que somos, na companhia da América espanhola. A Argentina chegou a ser um país rico. Optou pela retórica socialmente virtuosa e por mais de setenta anos tem perseverado no erro. Nem a destruição do país trouxe a lucidez de volta. Isaiah Berlin (1909 – 1997), na obra “Ideias políticas na era romântica” discorreu sobre a atitude de quem desafia os fatos em nome do inconformismo. Trata-se do titanismo, um traço romântico que pode produzir cegueira. 

A incapacidade de calçar o sapato adequado ao pé, como dito, é própria das crianças. Elas, porém, aprendem com a experiência. Macunaíma parece não aprender com os fatos, não fechar a portar nem depois de roubado. A grande mortalidade e a enorme quantidade de sequelados não modificou a imprudência de motociclistas. Assim também o paradoxo da fundada desconfiança nos políticos conviver com a confiança ingênua no controle da economia, da cultura e das relações sociais pelo Estado, apesar do reconhecimento da deplorável conduta dos dirigentes da máquina estatal. 

A justiça é um exemplo do paradoxo aludido. Assoberbada por cem milhões de processos de uma sociedade querelante e super regulamentada; com a celeridade tolhida por procedimentos processuais que lembram a obra de Franz Kafka (1883 – 1924) “O processo”, essa justiça é preferida pelos cidadãos, que desprezam as soluções extrajudiciais, como a negociação, a renúncia, a mediação ou a arbitragem. 

A incomunicabilidade e a cegueira dos paradigmas é a explicação de Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996), na obra “A estrutura das revoluções científicas” para a perseverança em erros, até que a ruptura ocorre quando as “anomalias”, realidades contrárias ao paradigma, se tornam muito numerosas causando a sua queda e possibilitando o avanço da ciência. Tal não ocorre entre nós.

terça-feira, 2 de março de 2021

NOTA ACADÊMICA - Sarau Virtual da ACLJ (01.03.2021)

  SARAU VIRTUAL DA ACLJ
(01.03.2021)

   

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) promovia, nas noites de terça-feira, na casa de bebidas finas Embaixada da Cachaça, um poetry slam, consistente em um pequeno sarau de poesias, prosa poética e performances musicais acústicas ao vivo, segundo uma prática que começou nos EUA e se difundiu pelo Planeta.


   
Mas essa rotina cultural saudável foi interrompida pela pandemia de Covid-19, e então o grupo de habitués passou a se reunir virtualmente nas noites de terça-feira, em que acadêmicos, artistas, intelectuais e poetas em geral, frequentadores daquele reduto boêmio e cultural, matam a saudade e mitigam a carência de convívio, mantendo em atividade a ACLJ, apesar do isolamento social obrigatório.




PARTICIPANTES

Estiveram reunidos na conferência virtual desta segunda-feira, que teve duração de uma hora e meia, 10 participantes. Compareceram ao grupo virtual  o político e ambientalista João Pedro Gurgel e o Juiz de Direito Aluísio Gurgel do Amaral Júnior.

Compareceram também o Agente Comercial Internacional Dennis Vasconcelos,  Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Professor e Pesquisador em agronomia Luiz Rego de Morais Filho, o Marchand Sávio Queiroz Costa, o Especialista em Comércio Exterior Stênio Pimentel, o Poeta Paulo Ximenes, o Engenheiro e antigo Oficial de Marinha Humberto Ellery, e o Professor Doutor Rui Martinho Rodrigues.  

Justificaram ausência o Jornalista e Sociólogo Arnaldo Santos, por compromissos profissionais; a Atriz, Psicoterapeuta, Escritora e Poetisa Karla Karenina, que se encontra em São Paulo; o Bibliófilo José Augusto Bezerra, surpreendido pelo novo dia da reunião, e o Professor e Procurador Federal Edmar Ribeiro, por ainda se estar restabelecendo de Covid-19. 


TEMA DE ABERTURA

O Presidente Reginaldo Vasconcelos abriu os trabalhos tratando sobre a transição da ACLJ em ABLJ, que deverá ocorrer em 04 de maio, e sobre a explanação detalhada a respeito desse processo, inserido no II Census Ad Lustrum  da ACLJ, em seus décimo aniversário.  

ASSUNTOS ABORDADOS
 
Falou-se  do falecimento de pessoas da sociedade cearense, e se lamentou os dois infausto, o do advogado aposentado Kleber Arraes e o do empresário Luiz Cidrão – o primeiro, vítima de latrocínio e o segundo de Covid 19, ambos conhecidos de diversos participantes da reunião – Ellery, Reginaldo, Sávio, Dennis, Aluísio. 

Disseram poemas do poeta Paulo Ximenes Reginaldo Vasconcelos e Aluísio Gurgel, Dennis leu duas crônicas suas, Stênio Pimentel disse um poema de Júlio Mario Salusse, "O Cisne", que trouxe ao Rui Martinho Rodrigues a lembrança de seu pai, que o apreciava e sabia de cor

João Pedro Gurgel leu um artigo de sua lavra e Luiz Rego faz leituras da imprensa. Stênio consultou ao grupo se alguém sabia na íntegra a letra do hino do extinto e saudoso Colégio Castelo Branco, e Aluísio Gurgel a conhecia e forneceu aos interessado.  Reginaldo encerrou o encontro dizendo um poema do poeta e jornalista cearense Paula Ney.  

DEDICATÓRIA


A sessão virtual da ACLJ realizada nesta segunda-feira, dia 01 de março, foi dedicada à  Associação de Médicos pela Vida, com sede em Recife, que, na terça-feira passada, fez publicar um manifesto, assinado por 2.122 profissionais de saúde da linha de frente no combate à Covid 19. 

O documento ocupou meia página de pelo menos 8 jornais de vários Estados brasileiros, como O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de Minas, Jornal do Commercio, Zero Hora, Jornal Correio, Correio Braziliense e O Povo. 

Foi direcionado à sociedade brasileira, aos médicos, órgãos de imprensa, aos Conselhos Regionais de Medicina e ao Conselho Federal de Medicina, a favor do tratamento precoce da Covid 19, combatido por interesses econômicos e políticos. 

A Associação de Médicos pela Vida é contra o entendimento de que o coquetel de medicamentos profiláticos não seja eficaz e tenha efeitos colaterais indesejáveis – contra toda a evidência científica e contra a sua experiência no tratamento da doença, pois tais remédios têm evitado muitas mortes, impedindo que o vírus evolua, causando a fase inflamatória.