domingo, 21 de outubro de 2018

CRÔNICA - Fábulas, Manchetes Históricas e Versão Tupiniquim (VM)


FÁBULAS
Manchetes Históricas e
Versão Tupiniquim
Vianney Mesquita*



Os escritores superficiais, como as toupeiras, julgam frequentemente ser profundos, quando estão, no entanto, demasiadamente perto da superfície. (WILLIAM SHENSTONE, poeta e paisagista inglês. Helesowen – UK, 18.11.1714 – 11.02.1763).


As fábulas revestem uma ordem textual literária, narração alegórica, em língua prosa ou em versos, cujos protagonistas são animais transfigurados em pessoas (in anima nobili), com falas, costumes e outros haveres humanos. Em geral, são produzidas para crianças e dotadas, no seu término, de fundo moral e teor instrutivo.


O vocábulo tem étimo latino e regista narrativa muito extensa e rica, radicada no sânscrito – grupo de línguas e dialetos indo-áricos antigos do norte da Índia, sendo o védico e o sânscrito de conteúdo clássico os mais conhecidos, de onde procedem as fábulas indianas, popularizadas pela tradução árabe do século VIII, e que a tradição atribui a autores lendários, como Pilpay e Lochman (HOUAISS; VILLAR SALLES. Dicionário... São Paulo: Objetiva, 2005).

Essas produções remontam, por intermédio de uma versão pélvi (língua iraniana derivada do antigo persa), a um original sanscrítico – o Pantchatantra (os cinco livros), obra de Vixenu Sharma (indiano nascido na Caxemira), uma das mais antigas coleções de fábulas do Mundo.

Como se pode verificar na imensa quantidade de vertentes librárias sob domínio público, de libérrima e gratuita compulsação – hoje, também, em suportes eletrônicos – o gênero fabular tem curso na maioria das literaturas mundiais e, em grande parte, abrange repetições, modificadas, aumentadas, transpostas de lugar, com base na possível produção de Esopo, fabulista grego (séc. VII e VI a.C.), de existência sublendária, na expressão dessa vertente, “[...] gago, feio e corcunda, porém, com o espírito engenhoso e sutil”. (LELLO & LELLO. Lello Universal – Dicionário... Porto: 1983, p. 886).

 Esopo é admitido como o criador da fábula, a quem se adjudicou um conjunto de pequenas estórias, nas quais os bichos (in anima vili) desempenham papéis que fazem sentido do ponto de vista da moralidade, pois tomam o lugar de seres humanizados e, assim, destes experienciam os dramas comuns.

 De bom alvitre é informar, de pronto, que a maioria dos produtores de estórias de tal natureza (senão todos) acompanhou o Pai grego das fábulas, quer em traslados servis, ao jeito de pasticho, ou em configurações estilísticas, conforme, verbi gratia, o dito recurso à personificação e a recorrência aos procedimentos animalescos, ao modo como se passou com o mais celebrado fabulista de todos os tempos – a superar Esopo em esplendidez e fama – Jean de La Fontaine.

Há muitos deles, de várias nacionalidades, no panteão da história (uns bem mais), como Caio Júlio Fedro, macedônio autor de A Serpente Fabulosa, A Garganta da Serpente e A Raposa e as Uvas – esta é a mais conhecida – no entanto, suas peças envolvem enredos que conformam sucessões das primitivas ideações esopianas, segundo ocorre com muitos outros cultivadores desse estalão literário, sempre na trilha inaugurada pelo Escravo de Xanto.

Alegoristas famosos, da grandiosidade de Jean de La Fontaine (móvel principal desses comentários – também continuador de Esopo), são Hesíodo de Ascra (O Gavião e o Rouxinol), François de Salignac de la Moth – Fenelon –  (Fábulas), Charles Perrault (O Gato de Botas e A Gata Borralheira), Isaac Benserade (Soneto de Jó, Cleópatra, Balé dos Provérbios – e outros balés, Fábulas de Esopo em Quadras).


Aditam-se, ainda, Manuel Maria Barbosa du Bocage (obra variada em sonetos e outros gêneros), Filinto Elísio (pseudônimo do padre Manuel Francisco do Nascimento – Obras Completas), João Curvo Semedo (tradutor de La Fontaine, autor de Observações Médicas, Tratado da Peste e sua Preparação e Virtudes), João Batista da Silva Leitão de Almeida Garret (Helena, Folhas Caídas, Mérope), José Feliciano de Castilho de Barreto e Noronha (A União Ibérica por um Português), Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (A Estância do Fado, O Nome, Ode Pindárica a Wellington) e tantos outros esópicos, na Europa, Américas e, decerto (desconhecemos), nos outros três continentes.

É conveniente, também, referenciar, por ser propício o instante, os Irmãos (germanos e germânicos) Jacob Ludwig Carl Grimm (Hanau, 04.01.1785; Berlim, 20.09.1863) e Wilhelm Carl Grimm (Hanau, 24.02.1786; Berlim, 16.12.1859), eméritos narradores de textos fabulares, de projeção internacional desde suas primeiras produções, configuradas em A Bela Adormecida no Bosque, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, O Lobo e as Sete Crianças, Gato e Rato em Companhia, O Pássaro de Ouro, O Piolho e a Pulga etc.

Entre os brasileiros, contabiliza-se, sob o espectro da História Literária mundial e no romaneio dos mais célebres compositores em língua portuguesa, o carioca Joaquim José Teixeira (Rio de Janeiro, 27.08.1811 – 01.01.1885), cuja criação principal é, no âmbito fabular, A Coruja Mestra de Canto, composta em verso de arte menor (pés heptassilábicos – sete acentos), havendo publicado, também, entre muitos outros escritos, o livro La Fontaine e suas Fábulas. Tem ressalto, ainda, no nosso País, o Padre José Joaquim Correia de Almeida, mineiro de Barbacena (1820-1905), que escreveu Puerilidades de um Micróbio, Produções da Caducidade e Decrepitude Metromaníaca.

O escritor multifário e eclético José Bento Monteiro Lobato, entretanto, é o mais conhecido no País, haja vista seus produtos multíplices, incluindo apólogos. Lobato nasceu em Taubaté (18.04.1882), num distrito hoje desmembrado desse município paulista e alçado a sede municipal com o nome de Monteiro Lobato, de menos de cinco mil habitantes, e foi a óbito em São Paulo, em 4 de julho de 1948. Urupês é seu livro magno, ao contar, dentre muitas publicações, com Fábulas do Marquês de Rabicó, O Gato Félix, Cidades Mortas et reliqua.

Em harmonia com a própria confinação da História, feito precursor de Jean de La Fontaine (mencionado no desfecho destas curtas quanto despretensiosas notas) em França e durante a Renascença, está demarcado na literatura o fato de haver operado neste ofício Clément Marot (Cahors, 23.11.1493; Turim, 12.09.1544), fabulador admirável, que fez, também, rondós, baladas e madrigais. Deixou, para influenciar o Fabulista Champanhês, os trabalhos O Templo de Cupido, O Diálogo, Baladas, Loas e Epigramas.

Mathurin Régnier (Chartres, 21.12.1573; Rouen, 22.10.1613), outra ascendência escritural do Cantor de A Lebre e a Tartaruga, foi um poeta satirista dotado de excelente veio, com vida boêmia, devasso e meio chegado à licenciosidade. Para a posteridade, legou epístolas e elegias, havendo, também, trazido consideráveis influxos aos ardis literários do Metafórico da Champanha.


Experimentamos, neste passo, a oportunidade salutar de encaminhar o encerramento do texto, referindo-nos, superficialmente, ao francês Jean de La Fontaine, nascido na região champanhesa, em Château-Thierry, a 8 de julho de 1621, com óbito em 13 de abril de 1695, em Paris.

La Fontaine é o mais renomeado herdeiro e continuador da narração esópica no mundo, ao transportar, por via das citadas influições de Marot e Régnier, as ideias inaugurais do calibre fabular para o ambiente lítero-poético de todas as regiões, como extraordinário inventor-narrador de joias personificadas por aves, mamíferos insetos etc. e densas de recheio moralizador, bem assim de outros produtos de castas artísticas diversificadas.

Resultados de suas aproximações, na Ile de France (área metropolitana de Paris), com intelectuais da dimensão de Nicolas Boileau-Despréaux, Pierre Corneille, Marie de Rabutin Chantal (Madame de Sevigné), Jean-Baptiste Poquelin (Moliére) e Jean-Baptiste Racine, foram seus dois primeiros rebentos – o poema Adônis e a comédia Clyméne.

A celebridade, entretanto, somente se foi proporcionando, à medida que compunha contos e fábulas, de início, pastichando Giovanni Boccaccio (1313-1375) e Ludovico Ariosto (1474-1533), e, depois, em narrações de estórias fabulares dirigidas à família de Luís XIV. Com a fabricação multímoda dos mais variados perfis genéricos, de que se destaca o caráter licencioso, mas – diz a crítica – inocente, deitou ferro no auge da fama, com edições de alevantado valor estético, singular recepção leitora e acolhimento sob os maiores aplausos dos analistas.

Seu principal, apesar de repartir com Esopo os dividendos, pois resulta de circunstância imitativa, foi A Cigarra e a Formiga (no original, O Gafanhoto...), atribuído ao Grego e pelo Francês recontado, mote para a conclusão desta crônica, ao nos reportar a um novo autor fontaine-esopiano, o bem aceito cronista satírico cearense Assis Martins, frequentador costumário dos media jornalísticos de Fortaleza, cuja graça embasa o remate do escrito agora relatado.

Da colheita literária lafontaineana, no contexto de múltiplas edições, estão Os Amores de Psique e Cupido, A Lebre e a Tartaruga, O Lobo e o Cordeiro, O Leão e o Rato, Fábulas Escolhidas Postas em Verso e Elegia às Ninfas do Sena etc. etc.


A divisa temática da magnum opus esopo-lafontaineana descansa nas razões exprimidas na sequência, por meio de uma tradução de Manuel Maria Barbosa du Bocage, em verso de arte menor (redondilhos maiores) e livre menção pelos leitores, a fim de introduzir a anedota-fábula de Assis Martins, com versos da nossa lavra.

***

Tendo a cigarra em cantigas/Passado todo o verão/Achou-se em penúria extrema/Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha/Que trincasse, a tagarela/Foi valer-se da formiga,/Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,/Pois tinha riqueza e brio,/Algum grão com que manter-se/Té voltar o aceso estio.

“Amiga”, diz a cigarra,/-“Prometo, à fé d’animal,/Pagar-vos antes d’agosto/Os juros e o principal”.

A formiga nunca empresta,/Nunca dá, por isso junta./”No verão em que lidavas?” /À pedinte ela perta.

Responde a outra: “Eu cantava Noite e dia, a toda a hora.”/Oh! Bravo!”, torna a formiga. /Cantavas? Pois dança agora!”


***

Nosso cronista Assis Martins sugere a vingança da cigarra por não haver obtido o empréstimo. Louvado na versão dele em prosa, produzimos esses decassilábicos portugueses e estrofes de dez versos satíricos, bem assim com proposta indecorosa da formiga, conforme vem.

Ao retornar de refeição batuta,
Sábado quente, três horas da tarde
A cigarra, em exortação covarde,
Caçoou da formiga em sua labuta,
Pois prosseguia, na eterna luta,
Ao armazenar bens para o futuro
Porque o devir resta bastante escuro
E não há ninguém que lhe garanta,
Se o seu labor eterno não suplanta,
Sem trabalho livrar-se do esconjuro.

– Tu devias não ser abestalhada,
Debaixo de transpiração imensa
E, no lugar de uma peleja intensa,
Podias, como eu, – tão bem trajada –
De viola no saco, maquiada,
Receber dos rapazes galanteios,
Fazer nos salões saracoteios,
Assentir em asserções decorosas,
Recebendo ramalhos de rosas
Sob elogios empinar os seios.

– Estou indo à Europa-Continente
Entoar e valsar nos bailes chics,
Perambular em férteis piqueniques,
Em urbes grandes de vida ridente,
De movimento lépido e crescente;
Andar por vinhas, birras e alambiques,
A degustar porções espirituosas
Extasiar-me em gozos envolventes
Dos carrilhões fruir os sons dolentes
E dos vergéis as plantas olorosas.

– Pretendo ir à ínclita Lisboa,
Londres, Madrid, São Petesburgo e Praga;
Porto, Coimbra, Azeitão e Braga,
(Região linda; lá minh ‘alma voa,
Aquinhoada de tamanha loa).
Pretendo ir à Budapeste nobre
(Onde imenso donaire se descobre)
A Bucareste, Atenas, Barcelona
Valença, Sevilha, Tarragona [...]
Vamos comigo, formiguinha pobre!

A Formiga, então, se exasperou,
Por completo perdeu a esportiva.
E, em manifestação volitiva,
Mui revoltadamente retrucou,
Ao expressar que o tradutor errou
Quando a catalogou como cigarra,
Que não tange viola nem guitarra,
Pois, enfim, era um mero gafanhoto,
Mal-ajambrado, fedorento e roto
E na história ficou, porque na marra!

“– Jamais irei a uma viagem dessas
Em companhia assim tão sem futuro.
Prefiro em minha terra dar o duro
Para da vida honrar as promessas.”
Procurou saber, no entanto, às pressas
Se ela não ia à França (não condiz!),
Tampouco a Cálcis, Atenas e Skyes.
Ao que respondeu incontinenti:
– “Claro que sim, pois, evidentemente,
– “Não tem sentido Europa sem Paris”.

Com efeito, bem menos agastada,
Desculpou-se a Formiga à circunstante.
Na condução desta conversa avante,
Insistiu, veramente interessada,
Se Atenas estava programada.
Então, como Deus é do Mundo o arquê,
Para a viagem, atenção! Porque –
Sem tentar fazer qualquer mise-en-scène,
Caso encontre Esopo e La Fontaine
Podem ir vocês três pra pequepê.



https://drive.google.com/file/d/10wHvURiUFvPW9TAJgMBzraqYWsRpvq_N/view?usp=sharing

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

ARTIGO - Areia Movediça (RV)


AREIA MOVEDIÇA
Reginaldo Vasconcelos*


A disputa pela Presidência da República entrou para o campo do patético nesse segundo turno da campanha eleitoral. Os dois candidatos passaram a agressões pessoais as mais descabidas – um, tratado como “cara de poste”, o outro tachado de “despreparado” – quando o que está em questão são os distintos projetos de governo que as duas vertentes representam.

Ora, qualquer candidato que fosse apresentado pelo PT traria consigo a política que caracteriza o último grupo no poder, assim como o outro é apenas a ponta de lança do estamento militar e das forças auxiliares, que a partir da prisão de Lula da Silva aproveitaram para reagir ao desprestígio que têm sofrido desde a restauração do regime democrático – o qual catalizou em torno de si todas as forças moralistas da Nação. 

Agora ambos os candidatos entraram a descaracterizar os projetos que haviam apresentado ao registrar as candidaturas – o petista, para tentar reduzir a rejeição e angariar votos da direita; o militar, para garantir os votos já conquistados e neutralizar as medidas mais antipáticas que pretende implementar.

Mas isso é um esforço inglório, porque o recuo de ambas as partes pode afugentar os seus próprios eleitores, que anseiam pelas medidas mais rigorosas agora renegadas, e que ingenuamente acreditem que elas foram mesmo abandonadas.

Por outro lado, não vão atrair os mais astutos da corrente oposta, que certamente intuem que aquelas políticas renegadas serão respectivamente retomadas por aquele que conquistar o cargo, pois é óbvio que esses recuos são meramente eleitoreiros.

A propaganda petista não percebe que os dois eleitorados estão devidamente consolidados, pois são formados por votantes conscientes do que preferem, absolutamente iniludíveis e  irredutíveis em suas posições já definidas.


Assim, quando o candidato da esquerda exibe, por exemplo, o seu opositor dizendo de forma jocosa “vamos fuzilar a petralhada”, brandindo uma metralhadora, em um dos seus gestos mais insensatos, isso só incomoda a “petralhada”, enquanto faz exultarem os eleitores da direita, os quais apreciam essas bravatas e exatamente por isso votam nele.

Por fim, o candidato de esquerda apresenta em sua propaganda terríveis cenas de tortura, que remontam a mais de 50 anos, atribuindo-as ao adversário, por ser ele militar e ter defendido a atuação enérgica das Forças Armadas durante o período revolucionário.

Mas ao expor as referidas cenas o candidato não se adverte de que as antigas vítimas da repressão talvez não tenham chegado a mil – e os milhões de eleitores estão atualmente acossados pelas centenas de milhares de inocentes atingidos pelo crime durante os últimos 15 anos.

Como se atribui responsabilidade pela criminalidade desvairada e impune aos últimos Governos Federais, que o candidato de esquerda representa, a simpatia do público é mais pela sociedade atual que pelos supliciados em passado tão remoto.

Ademais, todo marqueteiro sabe que atacar o opositor nas eleições é sempre uma política suicida, segundo a psicologia das massas, porque as pechas lançadas revertem em parte contra quem as articulou, em efeito bumerangue. No caso presente, como os ataques são mútuos, as intenções de votos se mantêm inalteradas. 

Então o PT partiu para fazer o mea culpa pelos dislates cometidos, que são notórios. Essa providência, que poderia ter algum efeito flutuador, se tomada a tempo, torna-se agora um pesado lastro de chumbo que mais afoga o candidato.

Já no último fôlego, o candidato petista tenta então dividir a vaga com uma frente suprapartidária, ou, recorrendo ao  “tapetão”, entregá-la ao  “apoiador crítico” Ciro Gomes, para pelo menos tentar atingir o objetivo maior da candidatura, que seria indultar Lula da Silva.

Enfim, têm-se a nítida impressão de que aquele que sobreviver a essa eleição não o fará pelos méritos próprios, mas pelos deméritos do outro – e, como se diz no futebol, às vezes um time ganha porque jogou bem, e às vezes ganha porque o adversário jogou mal. Será certamente esse o caso, seja quem for aquele que venha afinal a ser eleito.

Se Bolsonaro permanece no círculo de fogo, que ele e sua equipe alimentam com as suas declarações extremamente polêmicas e absurdamente irrefletidas, Haddad parece estar num poço de areia movediça, em que quanto mais a pessoa se debate mais afunda, mais naufraga. Triste Brasil! / Ó quão dessemelhante – parafraseando Gregório de Mattos e Caetano Veloso. 



ARTIGO - A Revanche do Sagrado (RMR)


A REVANCHE DO SAGRADO
Rui Martinho Rodrigues*


O Iluminismo desqualificava o sagrado. Uma razão unívoca, apta a oferecer todas as explicações, demonstrável até a saciedade era o arrimo da proposta de subsunção de tudo a uma lógica que aqui chamaremos analogicamente de “omnívora”.

Os sucessos das ciências da natureza, exibindo previsões precisas, antecipando datas de eclipses e passagens de cometas, embasando gigantesco desenvolvimento tecnológico, encorajou o otimismo e a arrogância cientificista do iluminismo.

As ciências da cultura chegaram a copiar a física. Auguste Comte (1798 – 1857) é o exemplo clássico desta tendência. Paradoxalmente, porém, o pensador positivista, adiando a concretização do estado positivo (etapa evolutiva na qual chegaríamos do domínio pleno da razão “omnívora”), recuou e transformou o positivismo na religião da humanidade.

Comte era pacifista, internacionalista e ateu, mas fundou uma religião cujos cultos começavam com um hino de guerra que também era o hino nacional da França. A razão por ele defendida tão ardorosamente estava prenhe de contradições, apesar de não invocar a “senhora de costumes cognoscitivos fáceis”, como Lucio Colletti (1924 – 2001) denominava a dialética.

A pós-modernidade trouxe o que Leszec Kolakowski (1927 – 2009) reconheceu como a revanche do sagrado sobre o profano ou, para outros, pós-secularização. A clareza das ideias requer a explicitação do sentido em que empregamos as palavras. Falar do sagrado, profano, secularização é falar de religião e do que dela se distingue. Thomas O’dea (1915 1974), ateu, foi feliz ao expressar o que seja religião, indo além da etimologia latina (religare), situando o fenômeno religioso como uma busca por superação da finitude, da radicalidade e da totalidade. A pós-secularização deriva do reconhecimento das limitações da razão que se supunha “omnívora”, capaz de devorar todos os problemas e explicar tudo.

Revelou-se, assim, a mera instrumentalidade da razão que Galileu (1564 – 1642) descreveu como esforço de explicação das relações entre coisas, sem nenhuma reflexão sobre o estatuto ôntico das mesmas, sem pretensão à ontologia, sem propor o dever ser, sem perquirir sobre o sentido dos fenômenos, tratando de juízos de fato, não de valor.

O desprezo pelo sagrado já não reina absoluto. Narrativas havidas como científicas estão cheias de proposições da esfera do dever ser, campo no qual o conhecimento não tem a consistência das ciências da natureza, não é capaz de fazer vaticínios tão precisos quanto os da Física. Utopias apresentadas como ciência foram reprovadas no exame da história entendida como fato, embora tenham resiliência no âmbito da História, que é o campo de estudo e da reflexão sobre os fatos.

A revanche do sagrado e o abalo das narrativas das ciências da cultura reintroduziram a temática religiosa na política. O acesso aos bens e serviços que imunizaram o proletariado contra o canto de sereia revolucionário. Os arautos da reengenharia da sociedade e do homem não esmorecem diante dos próprios fracassos.

Embora lhes falte uma ciência exata, querem empreender uma reengenharia. Desprezam a volição do homem que pretendem transformar. Desclassificam toda resistência que encontram como ignorância ou maldade. A substituição do proletariado como massa de manobra se fez pela convocação dos que sofrem discriminações odiosas e dos que sentem mais agudamente o mal-estar em face dos limites impostos pela vida civilizada, conforme o famoso opúsculo de Freud (1856 – 1939). A luta revolucionária migrou para o campo da cultura.

Buscando aparentar virtude, seguindo o conselho de Maquiavel (1469 – 1527) e a prática dos fariseus, a reengenharia social e antropológica desfralda bandeiras de defesa das minorias. Não vacila em agredir os conceitos da moral conservadora, desqualificando-os como preconceito, ignorância, fobia e fascismo, sem abrir mão, paradoxalmente, do relativismo cognitivo e axiológico e querendo implantar uma censura.

Atribuir ódio ao outro é a tendência de quem se enche de ódio em face da resistência ao projeto de dominação oculto sob o manto da solidariedade e da liberdade. O sofisma consiste em transferir o ônus da solidariedade para o Estado, cujo financiamento é atribuído a terceiros e propor a quimérica igualdade de ser, para o que precisa suprimir a liberdade de expressão e de agir.

Entre os gregos havia a deusa da Bem-Aventurança ou da Mentira, para os seus críticos, que oferecia desfrute sem esforço. Hoje a deusa da mentira propõe o mesmo, desqualificando a superação das dificuldades existenciais pela via do esforço como injustiça. A revanche do sagrado se ergue contra o neofarisaísmo e desperta ódio.

Publicado no jornal on line focus.jor e no blog da ACLJ
Em 10 de outubro de 2018.





quinta-feira, 18 de outubro de 2018

NOTA ACADÊMICA - Desagravo ao Professor e Jornalista Oswald Barroso

Desagravo ao Professor 
Jornalista
Oswald Barroso



O acadêmico Arnaldo Santos recebeu e relatou a denúncia de que o Prof. Oswald Barroso, da Universidade Estadual do Ceará, foi repreendido pelo Coordenador do Curso, por ter ele preparado e ministrado uma aula sobre “a música nos anos de chumbo”. 

O Prof. Oswald é jornalista, mas o episódio ocorreu enquanto ele estava em off, no exercício do magistério, de modo que o caso não feriu a liberdade de imprensa, cujo bem jurídico é a mais ampla informação da sociedade, mas a liberdade de expressão, uma prerrogativa pessoal constitucionalmente garantida. 

Com mais veras no meio universitário, em que todas as abordagens científicas, históricas e filosóficas são cabíveis, estando os professores do ensino superior dotados de imunidade para transmitir seu conhecimento técnico, bem como expor ao alunado a sua experiência, o seu pensamento e a sua visão de mundo, de modo a estimular a reflexão e o raciocínio.

O tema da aula, “a música nos anos de chumbo”, foi sobremaneira pertinente, pois a música popular brasileira viveu uma fase riquíssima durante os governos militares, marcada pelas letras de protesto contra a repressão às manifestações culturais mais genuínas – e assim entendeu a Reitoria da Uece, que muito corretamente absteve-se de censurar o seu Professor.

Não seria em razão de suas dores que os momentos políticos históricos mais tristes devam ser sepultados e esquecidos. Pelo contrário, precisam ser lembrados aos estudantes, para que direcionem bem as energias juvenis para a apreensão do conhecimento científico e para a plena compreensão dos saberes humanísticos, de modo que não se repitam os mesmos erros – que eles não se deixem envolver por causas inglórias e não se exponham às agruras dantescas do idealismo heroico e das aventuras messiânicas.   

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

NOTA ACADÊMICA - Reunião na Tenda Árabe

REUNIÃO 
NA 
 TENDA ÁRABE


Na noite da última terça-feira (16.10.18) reuniram-se na Tenda Árabe os acadêmicos Vicente Alencar, Reginaldo Vasconcelos, Adriano Jorge, Altino Farias, Cássio Borges  e Rui Martinho Rodrigues.
 

Convocados e ausentes os confrades Arnaldo Santos, Humberto Ellery e Paulo Ximenes, por causas não reveladas.   

O tema central da reunião foi a solenidade de outorga do título Homem do Ano no Ceará em 2018, no Palácio da Luz,  na noite do dia 06 de dezembro próximo, ao Engenheiro Ângelo Guerra,  e da Comenda Destaque Cearense ao Ministro Ubiratan Aguiar e ao Administrador Romildo Rolim.

Tratou-se ainda da chapa única da nova Diretoria da ACLJ, que tomará posse a partir de 01 de janeiro de 2019. Vários nomes foram aventados para assumir a Presidência durante o próximo biênio.

Foi ainda agendada uma palestra do Engenheiro Cássio Borges sobre os erros e acertos da hidrologia no Ceará, com a participação de Rui Martinho Rodrigues, que fará  as pertinentes inquirições ao palestrante sobre a matéria, a qual ambos dominam.  

Também se abordou o projeto do belo Fardão Acadêmico que a ACLJ adotará em 2019 inicialmente a Decúria Diretiva. 

O fardão de inspiração militar é uma tradição da Academia Brasileira de Letras, que, em sua homenagem, nós adotaremos.

A nossa pelerine  a pequena beca ritual indumentária de evocação monarquista, assumida pela magistratura no mundo todo, continuará em uso, até que todos os  titulares da ACLJ se tenham disposto a vergar o Fardão nas nossas solenidades oficiais. 

A experiência gastronômica desta vez foi uma deliciosa massa chinesa, preparada ao molho de soja,  com carnes e legumes, o Yakisoba ("macarrão frito").

O  prato pertence ao repertório da cozinha internacional da família do Presidente Reginaldo Vasconcelos, transmitido  pela culinarista Yeh Yu Ping, sua filha oriental. 

terça-feira, 16 de outubro de 2018

SONETO DECASSILÁBICO PORTUGUÊS - Amigo Insigne (VM)


 AMIGO INSIGNE
Vianney Mesquita*



Queres livrar-te de certos importunos que te chamam amigo? Pede-lhes um serviço que lhes não lisonjeie a vaidade. (Niccoló Tommaséo – linguista e poeta católico croata. Sîbenik, 9-10-1807; Florença, 1.5.1874).



De africano deserto as aridezes,
Ideia remontante à Pré-História,
De vez arranco imagem vexatória,
A fim de ensejar as altivezes.

Ouço, então, notícia admonitória
Para arredar ideações soezes
– Descaramentos e desfaçatezes –
Raendo as ruas de uma trajetória.


Volvo a lembrança aos umbrais da glória
E, como a força da jaculatória,
De um ser imenso atraio as lucidezes.

Assim, solfejo o canto da vitória,
Pois este é meu amigo (sem vanglória!):
José Dilson Vasconcelos Meneses.







ARTIGO - A Incomunicabilidade dos Paradigmas (RMR)



A INCOMUNICABILIDADE
DOS PARADIGMAS
Rui Martinho Rodrigues* 


Inovações científicas profundas não são compreendidas pela comunidade científica. Incomunicabilidade dos paradigmas é como Thomas Kuhn (1922 – 1996) designou este fenômeno. Não só Galileu (1564 – 1642) enfrentou resistência ao divergir do pensamento dominante entre eruditos. Giordano Bruno (1548 – 1600) foi sacrificado. 

A modernidade deixou de queimar na fogueira, mas continuou “queimando” em sentido figurado. Freud (1856 – 1939) foi expulso do Conselho de Medicina; Pasteur (1822 – 1895) só não foi internado em algum manicômio por ter amizades que o trataram com tolerância.
  

Max Planck (1858 – 1947) disse que a Física só cresce quando morre uma geração de físicos. Isso apesar das leis da Física não dizerem como o universo deveria ser, mas como ele é, sem aludir a nenhum sentido valorativo ao que é descrito ou explicado, permanecendo fora das discussões desse jaez.

As ciências da cultura não guardam tão escrupulosamente a separação entre o ser e o dever ser. Nelas temos o sentido da ação do sujeito, pois estudam fenômenos movidos por sujeitos. Começa um conflito: existe ação voluntária? Ou somos o reflexo de infraestruturas e superestruturas sociais, culturais, políticas, econômicas, combinadas com fatores genéticos? Não havendo ação voluntária somos todos inimputáveis. Tal determinismo convida à inação. Quem esgrime o argumento determinista, porém, enaltece a prática do ativismo, contrária aos determinismos. A coerência pode ser dolorosa.

A irracionalidade erudita, descrita por Kuhn como a incomunicabilidade dos paradigmas, com a concordância de Gastou Bachelard (1884 – 1962), que aludia aos obstáculos epistemológicos, guarda relação com a crença arraigada nas próprias referências teóricas, havidas como científicas. Karl Popper (1902 – 1994), porém, ressaltava que a ciência cresce corrigindo seus desacertos, deixando de registrar que isso só acontece após a troca de gerações. Tivemos, nas ciências da natureza, quatro modelos de átomos em apenas duzentos anos, atestando a abundância de erros e suas correções.

O sentido subjetivo da ação voluntaria, ressaltado por Weber (1864 – 1920), enseja aparência de virtude, conforme conselho de Maquiavel (1469 – 1527). A percepção distorcida pelos obstáculos epistemológicos, pela incomunicabilidade dos paradigmas e pelo prazer de sentir-se virtuoso (dizendo: espelho meu, espelho meu, quem é mais virtuoso do que eu?), leva as ciências da cultura ao ópio dos intelectuais, de que falava Raymond Aron (1905 – 1983).

A mistura de juízo de valor e juízo de realidade leva ao falso laicismo das religiões políticas. O desprezo pela reserva do possível, sempre presente no voluntarismo político, autêntico concurso de virtude aparente, é sinal de recaída confessional ou de demagogia.

A elasticidade semântica de quem confunde social democracia com comunismo escandaliza certos “virtuosos”. Mas confundir fascismo com liberalismo passa despercebido – embora liberais queiram limitar o poder do Estado, prezem as liberdades individuais, repudiem a tese do conflito como motor da história se oponham às éticas teleológicas e não formem partidos de convicção, mas de interesse.

A agressão que transforma categorias teóricas em insultos guarda relação com os obstáculos epistemológicos, com a incomunicabilidade dos paradigmas, com a inocência instrumentalizada, com as táticas inescrupulosas de campanha e com a hipocrisia de quem deseja parecer virtuoso ou ser admitido na comunidade intelectual, aderindo à irracionalidade dos prisioneiros de paradigmas, até para ser aprovado em concursos.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ARTIGO - O Soerguimento do DNOCS (OC)


O SOERGUIMENTO DO DNOCS


Otamar de Carvalho*

Enviado por Cássio Borges**






[Publicado na Revista Conviver Nordeste Semiárido. V. I n. 6 – (2009), Fortaleza: DNOCS/ BNB – ETENE (O Século do DNOCS)]


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https://drive.google.com/open?id=1lq2AcUH1kYZBoFQMlaAUOul39z-ZgSd-







domingo, 14 de outubro de 2018

ENSAIO - A Chave Dezessete (RV)


A CHAVE DEZESSETE
Reginaldo Vasconcelos*



UMA HISTORINHA VERÍDICA NADA-A-VER

O amigo ia se casar em Estado vizinho e nós fomos de camioneta assistir à solenidade. Fomos, testemunhamos, apadrinhamos, lançamos arroz sobre o casal, e no final da tarde partimos de volta pela estrada.

Veículo novo, asfalto bom, boa conversa, até que ao cair da noite, enquanto ameaçava chover, o motor a diesel da camioneta rateou. No mesmo momento o celular chama de casa, e de lá a mãe indaga se a viagem corre bem.

Mentimos, mas apelamos: “Está tudo bem. Mas, por via das dúvidas, acenda uma vela e peça proteção ao santo de sua confiança”. Logo em seguida o carro engasgou de vez e fomos para o acostamento.

Noite escura, chuvinha fina. Mulher e criança acenando na margem da estrada, pedindo socorro aos que passavam, em nome da família – os homens no escuro, arma de fogo ensarilhada, para o caso de atrairmos algum assaltante oportunista.

Até que um raro carro parou, e na cidade mais próxima contratamos um mecânico. Havia ar no sistema, ele “sangrou” o motor e nós saímos do prego, agora conhecendo o problema, mas sem saber a sua causa.

O carro pifava a cada lombada, na entrada de cada cidade, e em cada uma delas tínhamos que acordar um mecânico para fazer a tal sangria. Após vários episódios, aprendemos a fazê-lo, mas não tínhamos a chave de boca adequada aos ditos “bicos de injeção”.

Após uma longa negociação com o vigia de um posto de combustíveis, compramos, a peso de ouro, uma velha chave de boca de 17 milímetros, e viemos nós mesmos fazendo a operação para o motor ressuscitar, a cada quebra-molas, a cada passagem de nível, a  cada catabil. Ao todo, paramos 17 vezes – a última delas já na madrugada, na chegada ao nosso destino.   

No outro dia soubemos a causa daquele defeito mecânico intermitente: o hábito de admitir combustível no tanque além do volume recomendado forçou e fraturou a peça que suga o diesel, conhecida como “pescador”. Por isso, a cada vez que uma lombada agitava o líquido, expunha a fratura e o motor “pegava ar”.

A HISTÓRIA VERÍDICA TUDO-A-VER

Pois bem. Assim como no caso narrado com a chave 17, uma velha ferramenta adquirida no escuro, para nos dar uma chance de conduzir a família a um porto seguro – a saída para um País que está em pane é recorrer à fé cristã, à autotutela, apostando na esperança como a única saída.  

Não é questão de opinião pessoal: é insensato quem tenha certeza de que o Governo Bolsonaro será bom, porque, logicamente, sobre isso realmente pairam dúvidas. Ponto.

Porém, é absolutamente lúcido quem tenha certeza de que a continuação da era petista será ruim, pois a experiência mostra que, quanto a isso, sensatamente, não pode restar dúvida nenhuma.

De Lula a Temer, com a Dilma de permeio, o Brasil afundou em corrupção. As grandes empresas estatais quase quebraram, a violência cresceu e a economia naufragou, diante da crise fiscal e do descrédito dos mercados – e até o candidato da esquerda já fez de público essa autocrítica.    

Não. Não estou expressando posição política nem convicção ideológica – nem medo, nem ódio – estou falando de evidência lógica, pela mais objetiva experiência jornalística, falando de uma constatação fática já registrada pela História.

O problema é que a lógica cartesiana não é componente da paixão política, nem da cegueira ideológica. Aliás, a paixão e a razão são naturalmente antagônicas. Os que insistem em confrontar os fatos óbvios e pragmáticos o fazem por pulsões deletérias aos interesses nacionais.

É claro que entre a certeza do fracasso e a dúvida de sucesso, esta última deve prevalecer em nome da esperança e do otimismo  como possibilidade, como aposta, como alternativa – aquilo que em Direito se denomina “risco permitido” e em economia se chama “risco calculado”.

Defender uma bandeira rota porque à sua sombra se obteve algum proveito pessoal, e execrar uma legenda nova com base em ranços políticos do passado – ou para defender eldorados quiméricos intelectualmente concebidos, embora inviáveis na prática – é desprezar a cidadania de forma nada patriótica, destituído de genuíno espírito público.