domingo, 24 de maio de 2020

CRÔNICA - Onde Está Deus? (JPG)


Onde está Deus?
João Pedro Gurgel*

Estamos tão atônitos, tão perdidos querendo encontrar um sinal de cima, que esquecemos de olhar para os milagres que acontecem ao nosso lado.

Eu vejo Deus na mãe que não desistiu do filho. No paciente curado. No sorriso de uma criança. Na doçura no olhar de quem tem 4 patas.

Eu vejo Deus de olhos fechados. Por que, no escuro, eu consigo ouvir melhor o silêncio que só Deus faria. E é preciso ouvir o silêncio para aprender a si ouvir melhor.

Eu vejo Deus quando ninguém mais vê porque talvez Deus não queira ser visto. Não Lhe satisfaz caridade por holofotes. Deus não vai aparecer em manchete de TV porque às vezes notícias ruins rendem mais. Mas Deus é a boa notícia.

Eu vejo Deus no bem. E tudo de bom que há de vencer. Eu vejo Deus no amanhecer. Eu vejo Deus no entardecer. Eu vejo Deus no anoitecer.

E você? Onde vê Deus?


sexta-feira, 22 de maio de 2020

CRÔNICA - Máscara e Mascarados (AF)


MÁSCARAS E 
MASCARADOS
Altino Farias*




MÁSCARAS I

Na minha infância, anos 60, brincamos muito de bang-bang. Revólveres à cintura, era tiro para tudo que é lado. O bandido, com um lenço cobrindo o rosto, sempre levava a pior, tombando morto ao final do tiroteio. Esse era o combinado, nem sempre cumprido pelo fora da lei. Hoje tá difícil, não há mais armas para vender, e brincadeiras “violentas” só no videogame.


MÁSCARAS II

Início dos anos 60, nossa família fez um passeio a uma pequena localidade, famosa na região por suas fontes de águas minerais puríssimas. Lá havia um balneário muito simples, com uma piscina de água corrente, que reservava um horário só para mulheres. Como papai não conhecia esse detalhe, fomos todos conhecer a casa. Chegamos exatamente no horário em que o mulherio estava bem à vontade, e foi um alvoroço danado, com jovens e senhoras correndo em busca de abrigo. O curioso é que a maioria escondeu o rosto ao invés de proteger as partes. Tem lógica, se não se sabe quem é, o resto pouco importa.


MÁSCARAS III

Uma verdadeira legião de super-heróis povoa os sonhos de crianças e adolescentes desde os anos 50. Benfeitores da humanidade escondem-se atrás de uma máscara para preservar suas identidades e, assim, continuarem suas lutas contra o mal e salvar o planeta mais uma vez.


MÁSCARAS IV


Mais de 50 anos depois, a lógica daquele balneário dos anos 60 está cada vez mais em voga, com muita gente se exibindo na internet, ao vivo e em fotos, em variadas e extravagantes performances sexuais, porém sem mostrar o rosto, ou com a identidade protegida por uma máscara, qual os heróis das estórias em quadrinho e aquelas mulheres do balneário.


MÁSCARAS V

Ao longo de toda a história da humanidade pessoas se escondem atrás de máscaras, por mil e um motivos, desde uma simples timidez até para praticar uma sórdida traição, passando por um drible meio inocente, ou necessário, na sociedade e seus valores recheados de hipocrisia.


MÁSCARAS VI

Hoje, a própria máscara é a heroína. No rosto de pessoas comuns, é a grande e decisiva arma contra a propagação do vírus que veio para mudar nossas vidas. Saúde a todos... E não esqueçam suas máscaras!


Em 21/05/2020, ano da pandemia do coronavírus.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

A MELHOR POSTAGEM DO DIA - Personalidades Cearenses (TL) Como Uma Onda (DV)


Nesta terça-feira, dia 19 de maio, empataram duas postagens no Grupo de Whatsapp da ACLJ  na primeira colocação para o Oscar do melhor clipe do dia, encaminhadas pelos confrades Totonho Laprovitera e Dennis Vasconcelos. 




Totonho Laprovitera*

A primeira delas é um vídeo produzido e apresentado pela jornalista Márcia Travessoni, denominado "Minuto do Bem", que reúne virtualmente várias personalidades cearenses, algumas cantores profissionais, outras não, cantando a canção "Como é Grande o Meu Amor Por Você", de Roberto Carlos, com a participação do próprio Totonho Laprovitera.        








 Dennis Vasconcelos*

A segunda é  um vídeo produzido e apresentado por professores e empregados da Fundação Educacional Machado de Assis (Fema), do Rio Grande do Sul, virtualmente reunidos, cantando a canção "Como Uma Onda", do artista sônico Lulu Santos, postada pelo Dennis Vasconcelos

CRÔNICA - Enquanto Houver Sol (ES)

ENQUANTO
HOUVER SOL
Edmar Santos*


TITÃS – “Enquanto Houver Sol” é uma música da banda de rock Titãs, presente no décimo primeiro disco da banda e cantada por Sérgio Britto.










(https://pt.wikipedia.org/wiki/Enquanto_Houver_Sol)



/Quando não houver desejo/
/Quando não restar nem mesmo dor/
/Ainda há de haver desejo/
/Em cada um de nós/
/Aonde Deus colocou/
(...)

Deus colocou nossos desejos dentro de nós, numa caixa de insatisfação; nela eles se multiplicam inúmeras vezes, e jamais podemos fartá-los, portanto: “ainda há de haver desejos” enquanto vida houver. Sempre!

No entanto é preciso que os queiramos desejar, ainda que não consigamos, em toda a nossa trajetória de vida, satisfazê-los. Muitos nem são mesmo para esse fim, ou por não os merecermos, ou por não serem benéficos.

Desejamos apenas por desejar... o desejo é como um propulsor de vida, que nos faz entrar em movimento. São sempre úteis para gerar, por eles, ideias de se viver, pois a certeza do fim, neste plano, já nos é imanente. Ideia de Deus: Sempre há solução.

/Quando não houver saída/
/Quando não houver mais solução/
/Ainda há de haver saída/

A saída está no correto entendimento de nossas possibilidades, das possibilidades de nossa vivência no mundo. A música em referência nos invoca a entender que, partindo de nossa finitude, “nenhuma ideia vale uma vida”, pois quando tendemos a alimentar ideações de finalizar uma vida por nossa própria vontade, seja de quem for, estamos interferindo deliberadamente nos propósitos da ideação original – O Altíssimo – que objetivou algo.

Ainda que não percebamos, há mais vida nos aguardando à frente; seja nesse ou em outro plano.  Não nos cabe acelerar o processo, e se o fazemos a responsabilidade e consequências serão apenas nossas. Cultivemos a esperança.

Desesperançar é ser gente grande ao extremo. É cristalizar-se pelas percepções que se colhe do mundo exterior: desamor, desemprego, inveja, materialismo, apegos exagerados, falsas alegrias, etc. A manutenção da vida está no esperançar a simplicidade das coisas pelo nosso próprio olhar. Como o abraço de uma criança a outra, que sempre é livre de preconceitos e de intenções subliminares.

Infantilizar-se nem sempre quer dizer se tornar infantil, mas, em certa medida, é adotar o espírito livre do jeito de ser e de olhar da criança. Sejamos simples como os pequeninos, que esperam em nós, os crescidos, amor e cuidado; oferendo alegria e sorriso em troca. E vida!

/Ainda há de haver esperança/
/Em cada um de nós/
/Algo de uma criança/

Crianças sadias não param os pés quando dormem. Os pés em movimento sempre desenham um caminho, seja de ida, seja de volta. Seguir sozinho não significa, exatamente, não ter ninguém; significa, sim, possibilidade de encontros.

Os Titãs exaltam o movimento, o romper da inércia para um caminhar vivendo, ainda que solo; mas o desenhar da estrada está no fazimento do percurso. A agulha norteadora é o dedão do pé. Para aonde ele apontar o caminho do sol da vida, é para lá o norte a ser seguido.

/Quando não houver caminho/
/Mesmo sem amor, sem direção/
/A sós ninguém está sozinho/
/É caminhando/
/Que se faz o caminho/

O caminho do sol simboliza para nós o nascer de um novo dia: “/Enquanto houver sol / Ainda haverá/”. Ele simboliza essa oportunidade de sairmos da inação corpórea do ato de dormir, para nos lançarmos na cinética dos movimentos de execução dos afazeres diários, viver o mundo, no mundo, com suas alegrias e tristezas que nos atingem.

Emoções que nos alcançam e que nos influenciam à medida da valoração que destinamos a cada uma delas. Às vezes erramos por valorar demais o que nem tem tanto brilho assim; nos faltou a simplicidade do olhar das crianças na avaliação. Era simples ouro de tolo, de brilho falso. Foi apenas um engano. “/Enquanto houver sol / Ainda haverá/”. Acorde, que o sol já vem!



terça-feira, 19 de maio de 2020

A MELHOR POSTAGEM DO DIA - Artistas de Rua (AC)



Nesta segunda-feira, dia 18 de maio, a melhor postagem no Grupo de Whatsapp da ACLJ  foi postada pelo Antonino Carvalho



Antonino Carvalho*

      
O Oscar vai para um clipe da Ciberoteca, em que artistas de rua tocam a canção "O Bom, o Mau e o Feio", tema de uma western americano, incluindo criativos recursos instrumentais, principalmente um serrote excepcionalmente afinado. 


segunda-feira, 18 de maio de 2020

A MELHOR POSTAGEM DO DIA - Comunicado ao Governo (LA) - Fotografias Históricas (N)


Neste domingo, dia 17 de maio, empataram duas postagens no Grupo de Whatsapp da ACLJ  na primeira colocação para o Oscar do melhor clipe do dia, encaminhadas pelos confrades Luciara Aragão e Nirez. 




Luciara Aragão*

A primeira delas é um comunicado dirigido ao Governador Camilo Santana, gravado em vídeo pelo Movavi Vídeo Editor, produzido pelo médico e empresário Marcos Uetti,  que oferece ao Governo do Estado em comodato o seu Hospital Campos Elísios, de Maracanau, recém inaugurado e fechado em razão da pandemia de Covid-19, para reforço do Sistema de Saúde Pública estadual, com a única condição de que sejam aproveitados o corpo de funcionários e as empresas que lhe prestavam serviços, que tiveram os contratos rescindidos com a paralisação das atividades. A postagem é da confreira Luciara Aragão.        




 Nirez*

A segunda é um galeria de fotos históricas, sequenciadas em arquivo PDF, a que se poderá ter acesso acionando o link abaixo. A  postagem foi realizada pelo musicófilo e pesquisador Nirez.  




domingo, 17 de maio de 2020

CRÔNICA - Animal Farm (HE)


ANIMAL FARM
Humberto Ellery*



O escritor George Orwell criou uma fábula para criticar o Poder, que se converteu em peça de cinema de animação, em que são muito claras as referências ao sistema soviético que se estabeleceu na Rússia no tempo do Stalin. No Brasil foi intitulada “A Revolução dos Bichos”, pois Orwell ambientou a fábula numa granja, quando os bichos, comandados pelo porco Major, se insurgiram contra os homens que os exploravam.

Vitoriosos, os bichos assumiram o poder e passaram a gerenciar a granja, já sob as ordens do porco Napoleão (Stalin), depois da morte do porco Major. Com o banimento do porco Snowball (Trotski), a Revolução degenerou numa tirania ainda pior que a dos humanos, com expurgos, a instituição de um “estado policialesco”, a deturpação da História. Com o passar dos dias, os animais começaram a caminhar sobre duas patas e a ficar cada vez mais parecidos com os diabólicos humanos. 

Sem querer traçar um paralelo com a fábula, apenas um pequeno detalhe me ocorreu em relação ao momento atual da nossa política. Refiro-me aos Generais que ascenderam ao Poder junto com o Bolsonaro. Quando eu votei nele (argh!) no 2º turno, achei que os Generais poderiam exercer uma influência positiva no (des)Governo do “Mito”, pois sempre os vi como homens equilibrados, verazes e independentes.

Minha decepção com os “três porquinhos”, Braga Neto, Ramos e Heleno se deu quando resolveram mentir descaradamente durante o Inquérito sobre a pretendida interferência do Bolsonaro na PF. 

Esquecendo o “script”, pois certamente combinaram antes, deram versões conflitantes sobre o episódio, a ponto do “Mito” ter corrigido o porquinho Ramos dizendo que ele se enganou.  O General disse ao Delegado não lembrar de vários fatos importantes, mas “lembrou” que quando o Bolsonaro falou em Segurança lançou um olhar ao “porquinho” Heleno. É muito descaramento! 

Mutatis mutandis, os três porquinhos estão ficando cada vez mais parecidos com o “Mito”!



COMENTÁRIO

Não vá pensar o leitor desavisado que o culto Humberto Ellery, um dos mais ilustrados integrantes da ACLJ, não esteja ele entendendo o que se passa no País, em relação à perseguição que se faz contra o Presidente Bolsonaro, notadamente sobre o episódio em que o ingrato ex-ministro Sérgio Moro faz uma denúncia vazia, por motivo de vindita, contra o seu recente benfeitor, que o guindou a Ministro de Estado e o nomearia  Ministro do Supremo Tribunal.

Não. Ellery entende perfeitamente o que se passa, mercê de seu grande descortino e de sua inteligência excepcional. Ele apenas se recusa a admitir a realidade, acometido por aquilo que Martinho Rodrigues chama “a cegueira dos paradigmas”. O ódio pessoal que Ellery desenvolveu em relação a Bolsonaro, que já se percebe na passionalidade da sua retórica, lhe impede de enxergar o óbvio.

Jair Bolsonaro, que é Presidente da República, eleito e empossado segundo os mais rígidos preceitos democráticos, sendo, portanto, o Comandante em Chefe das Forças Armadas Nacionais, e que, por conseguinte, segundo os cânones do Direito Romano, é também o Primeiro Magistrado da República, quis mudar peças no tabuleiro de xadrez de sua Polícia Federal, na intenção de otimizá-la. Só isso.

E fê-lo por lhe parecer oportuno, conveniente e necessário, nos parâmetros administrativos da discricionariedade, e a sua elevada posição de dignitário máximo da Nação lhe confere fé-pública para decidir e realizar. Ele não estava obrigado a explicar as causas, nem tinha que dar satisfação a nenhum Ministro de Estado, muito menos aos integrantes dos outros Poderes da República.

Sérgio Moro, este sim, fez ilações graves em âmbito nacional, atribuindo motivos ilícitos à presumida intenção do Presidente, citou fatos e pessoas de um pretenso quadro probatório, e o Procurador da República ficou na obrigação de abrir um competente inquérito junto ao Supremo Tribunal. O STF, por seu turno, assim provocado, se viu no dever institucional de mandar ouvir testemunhas e examinar o escopo fático.

Mas não há um fato típico determinado, uma razão específica para a pretensa conduta ilícita do Presidente da República. Não há indicação do inquérito federal em que ele pretendesse interferir. Então, o que houve, da parte de Moro, foi um ato que se subsume às três modalidades de crimes contra honra – a injúria, a difamação e a calúnia. Só que esta última, a calúnia, impõe que se conceda ao acusador a “exceção da verdade”, que é o direito de tentar provar o alegado.

Portanto, na verdade, as ouvidas de pessoas e a análise do tal vídeo da reunião do Governo não buscam um crime do Presidente, que se presume inocente até trânsito em julgado, mas, na verdade, tecnicamente, representam a oportunidade, que a lei concede ao acusador, de tentar provar os fatos da sua invectiva  antes de que seja ele denunciado e condenado por crimes de calúnia e de denunciação caluniosa.

Portanto, quem está com o rabo na ratoeira se chama Sérgio Fernando Moro. Jair Bolsonaro é a vítima, é o caluniado, que espera tranquilamente seja evidenciado não ter cometido ilícito algum, para então assumir o polo ativo e fazer punir o autor do fato. 

Ficar discutindo o que foi dito no vídeo, e dele o teor exato (que é evidente), a partir de detalhes desimportantes que aqui e acolá são deslembrados por quem participou da reunião e foi ouvido, tomando isso por "contradições", é querer concorrer com o fabulismo de George Orwell.       

Reginaldo Vasconcelos


sexta-feira, 15 de maio de 2020

A MELHOR POSTAGEM DO DIA - Paris Parada (AA) - Vivaldi em Vozes (N)


Nesta quinta-feira empataram duas postagens no Grupo de Whatsapp da ACLJ  na primeira colocação para o Oscar do melhor clipe do dia, encaminhadas pelos confrades Alana Alencar e Nirez. 


Alana Alencar*

A primeira delas é um clipe anônimo que apresenta cenas urbanas de uma Paris erma, em tempos de pandemia, com uma famosa cançoneta francesa de fundo musical, postada pela poetisa Alana Alencar.        





 Nirez*

A segunda é um clipe, aparentemente israelense, em que quatro vocalistas executam magistralmente, em coro, emulando os instrumentos musicais, o Concerto nº 1 em Mi Menor (A Primavera) do arranjo para violino e orquestra denominado "As Quatro Estações", do compositor italiano Antonio Vivaldi,  postado pelo musicófilo Nirez.  



quinta-feira, 14 de maio de 2020

ARTIGO - A Grande Tormenta (RMR)


A GRANDE TORMENTA
Rui Martinho Rodrigues*



Temos uma crise sanitária, a economia mundial não vinha bem, e o impacto da pandemia nas atividades econômicas é arrasador. A arrecadação dos governos cai e os gastos públicos crescem. O mundo acordou para a dependência de bens industriais da China e a globalização perde apoios.

O nacionalismo e o protecionismo ganham força e a substituição de importações está sendo exumada, algo semelhante ao mercantilismo, que reunia a busca de balança comercial favorável, monopólios e protecionismo. O nacionalismo revigorado e o protecionismo potencializam conflitos internacionais.

O rearranjo da divisão internacional do trabalho levou a Índia a esforçar-se atualmente por atrair mil empresas da China para o seu território. O Japão destinou bilhões de dólares para ajudar empresas que queiram ser repatriadas.

O governo Trump já estimulava essa política. A União Europeia cogita estabelecer barreiras contra produtos chineses. Protecionismo lembra custos mais altos e a realocação de fábricas exige investimentos, desviando-os de outros objetivos. Consumidor e contribuinte pagarão a conta. Disputas comerciais agravam as relações e aprofundam a dispendiosa corrida armentista.

Mortes, sistemas de saúde colapsados, isolamento social por tempo incerto e novas ondas de propagação do vírus exigem a intervenção do Leviatã. É preciso socorrer autônomos, desempregados e empresas, investir em serviços de saúde e controlar a mobilidade de pessoas. Tudo isso será temporários? Surgem suspeitas de que haverá adiamento da vigência de tais medidas por tempo indeterminado. Os meios de controle na era digital superam a ficção de George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950), “1984”. A internet das coisas e a tecnologia 5G ensejam controles inimagináveis.

O desequilíbrio de forças entre os cidadãos e o Estado afasta a possibilidade de resistência aos Poderes ilegítimos. A crença no Leviatã como agente da História para aperfeiçoar a sociedade e o homem por meio de uma reengenharia social e antropológica, que exige violência para ser imposta, tem os apoiadores de sempre, entusiasmados com o controle crescente dos cidadãos pelo Poder Central, que imaginam poder controlar.

Trata-se da herança de Platão (428/427 – 348/347), (da “República”, apesar do arrependimento deste autor, expresso na obra “As leis”, pouco divulgada); reforçado por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831), ideólogo do rei absolutista da Prússia; e pelo entendimento da obra de Karl Heinch Marx (1818 – 1883), por Karl Raymond Popper (1902 – 1994), que os três autores inimigos da sociedade aberta.

Perigos como terrorismo, crime organizado e novas ondas da atual e de novas pandemias se somam aos temores das décadas mais recentes sobre desequilíbrio ambiental, encorajando os adeptos de mais controles.

A supressão da moeda física começa a se tornar realidade, em nome da prevenção de agentes infecciosos em cédulas contaminadas, para fins de controle do crime organizado e do financiamento do terrorismo. Até o prosaico argumento da facilitação de troco é desculpa para mais controles, inclusive os supranacionais.

O neocolonialismo se insinua nestas discussões. O Grande irmão orwelliano é uma realidade, não uma possibilidade. A complexidade do mundo, os cidadãos desnorteados e o bem contido nas propostas de controle, dando aparente legitimidade ao totalitarismo, se mostram muito fortes. Já se disse que nada acontece na política sem que antes aconteça na literatura. Desde o Século XX a ficção só produziu distopias. O momento é preocupante.


segunda-feira, 11 de maio de 2020

CRÔNICA - Sou Francisco (TL)

SOU FRANCISCO
Totonho Laprovitera

“Até a morte, tudo é vida”  (Miguel de Cervantes)


Humilde, Francisco fizera voto de pobreza e devotava um grande amor a todos os seres vivos, em especial aos animais. Amava e protegia as criações de Deus.

Poucos anos antes de morrer, Francisco começou a sofrer dos olhos. A doença lhe causava fortes dores e a visão toldou. Com as pálpebras inchadas por irritação e infecção, sentia os olhos se rasgando. A luz o incomodava e a cada dia sua visão ficava pior.

Ao tomarem conhecimento de um novo tratamento de doenças dos olhos, os amigos levaram Francisco ao médico. Utilizando-se da prática da cauterização, o doutor pegou um instrumento de ferro, acendeu o fogo e o colocou para esquentar até incandescer. Aí, explicou ao Francisco como seria o procedimento. Já encarnado, o ferro em brasa queimaria a carne do rosto de Francisco, das bochechas às sobrancelhas. Seriam abertas as veias das têmporas, na esperança de acabar com a infecção que lhe custava a visão e o levaria à cegueira.

Enquanto o ferro ardia, Francisco deixou todos abismados. Com a voz fraca, quase cochichando, pigarreou e disse: “Meu irmão fogo, és nobre e útil entre todas as criaturas do Altíssimo. Sê bondoso comigo nesta hora. Durante muito tempo te amei. Rogo ao nosso Criador que te fez para que tempere teu calor a fim de que eu possa suportar” – e, com o Sinal da Cruz, benzeu o fogo.

Arrepiados com o doloroso método, um a um, os amigos se mandaram. Francisco ficou sozinho com o médico. Ferrado, a queimadura se espalhou das orelhas aos supercílios. A aplicação do cautério escancarou as veias. Quando os companheiros voltaram à sala médica, depararam com Francisco, bem calmo e sem reclamar daquele sofrimento.

Apesar da ineficiência do procedimento, a fé de Francisco nos dá o exemplo de como tolerar dor, com quietude e coragem.

Pois bem. Sobre dores e superações, de fato, o que mais nos aflige é o enfrentamento da morte. A respeito de surtos, epidemias, pandemias e endemias, contarei algumas passagens ocorridas em meu percurso de existência e vivências.

Em 1961 aconteceu um surto de poliomielite. A paralisia infantil, como também era chamada, maltratou muitas crianças. Daquela época, das que escaparam do pior, hoje adultas, várias sobreviventes ainda convivem com as suas sequelas. Mas, graças a Deus, chegou a prevenção à poliomielite através da vacina do doutor Albert Sabin, médico e pesquisador, referência mundial na ciência.

Lembro da campanha de erradicação da varíola em 1966. Naquele tempo eu era criança, cursava o primário, e enfrentei no colégio uma enorme fila para receber a vacina. Mais que a peste negra, tuberculose e até mesmo a AIDS, a varíola atacou a humanidade de forma cruel. Perversa, era a principal causa de mortes no Brasil, desde o seu descobrimento. Dessa vacinação, guardo uma marca em meu braço direito.

Em 1972 aconteceu a vacinação antissarampo, mas dela não tenho muitas lembranças. Sei que a doença se espalhava pelo ar e era uma infecção viral grave para crianças pequenas. Mas de fácil prevenção por meio de vacina.

Já em 1975, o surto de meningite buliu com a Cidade. Perigosamente mortal, foi a pior que já houve no País! Sucedeu um pouco antes da chegada da vacina e, em seu auge, nas férias escolares, até banho de piscina foi proibido nos clubes. A temível meningite meningocócica obrigava o isolamento dos pacientes para evitar a proliferação da bactéria.

Dessa época, parece que eu estou é vendo, a pistola com vidrinho de cabeça pra baixo pregado nela, disparando o antivírus no povo de manga arregaçada, fazendo fila em cobra no Center Um, o primeiro shopping center de Fortaleza.

Em 1977 eu peguei uma catapora de lascar! Muito magro, só a grade – eu pesava 54 Kg,  com o sabonete na mão  vestido em meu pijama em que só cabia uma única listra, a doença me tomou o corpo inteiro, tacando bolhas até no solado dos meus pés.

Não foi o meu caso, mas naquela época as famílias numerosas costumavam ajuntar os filhos em uma só alcova para que todos pegassem a doença de uma vez só e, deste modo, o tratamento ser único, facilitando os cuidados dos infectados.

Como tudo na vida tem um lado bom, a catapora me valeu de aprendizado de humildade. Na certeza da fragilidade da carne, elevei o espírito que nos faz melhor.

Em 1981 eu peguei hepatite B e fiquei coisa de um mês e pouco acamado. Amarelo empombado, fora de combate, nunca repousei tanto nem comi tanto doce na vida. Passava o dia assistindo à televisão, lendo de tudo e desenhando deitado – um grande exercício artístico. Viajando muito pela imaginação, como risquei e alcancei universos...

Desde o início da epidemia da AIDS no Brasil, em 1982, perdemos muita gente boa e querida. Os infectados não tinham chance e, na maioria das vezes, morriam desesperados. Acho que não só aqui, mas no mundo inteiro, foi uma porrada na vida!

A síndrome se valia da desumana mistura de medo, ignorância e preconceito aos aflitos viventes. Sobre esse juízo, certa vez ouvi o seguinte. Ao ser avisada de que um convidado soropositivo iria chegar para o almoço, uma ingênua de pés descalços disse ao patrão: “Chega, que eu vou já calçar minha alpragata!”

Sobre Aids, eu concluo que dela se cuida com coragem, saber e afeto.

Em 1999 teve a vacinação contra a gripe para a população a partir dos 65 anos. Mas aí só ouvi falar, porque eu não me enquadrava na faixa etária.

Em 2006 entrou em campo o rotavírus, que dava uma diarreia lascada, diziam os que não se vacinaram contra ele. Segundo um conhecido boêmio, o rotavírus é danado para atacar os habituais bebedores de rum.

2011 foi a vez da vacinação da influenza. Tenho quase certeza de que foi desde aí que eu comecei a me vacinar contra gripe.

Pois é, dessas mazelas que contei, só não falei de quando tive papeira – “Menino, não pula, senão ela desce!” – porque só me lembro de tê-la tido quando ainda tenho a sensação do pano amarrando o queixo e com o nó dado acima do quengo.
Mas agora, vou dizer do isolamento social que tenho vivido nesta pandemia da Covid-19.

Eu nunca imaginei viver tempos com ares de Terceira Guerra Mundial, como estou agora sendo enquadrado pelo coronavírus. Esse nojento, que causa dor de cabeça, dor no corpo, indisposição, febre, náusea e, quando se agrava, terríveis complicações respiratórias.

Como prevenção, lavamos as mãos com frequência, evitamos tocar o rosto e ter contato próximo com pessoas que não estejam bem. Não coçar os olhos, nariz ou boca sem estar com as mãos limpas, tudo bem; agora, ficar em casa e isolado socialmente, aí requer um exercício de solidão que só a Mãe Arte nos provém. A arte é igual ao bem. É boa pra quem a faz e pra quem a recebe também. E só vale a pena se compartilhada for.

Meus dias de casa têm sido sossegados. Quando se acende o dia, acordo, agradeço a vida ao meu bom Deus. Escovo os dentes, tomo café com pão, engulo meus remédios, e me abanco à divina mesa de trabalho, altar em que sonho as crenças de minhas artes. Leio, pesquiso, escrevo, desenho e pinto. Merendo notícias – as boas, de preferência – e sigo a navegar e voar mares, céus e universos.

Trabalhando, chega-me a inspiração com a paisagem da natureza simples dos humildes, fortes pela pureza de suas almas. Respiro o amor da minha família, dos amigos, enfim, de quem veio ao mundo para ser feliz. No almoço, reflito sobre o valor do alimento e penso na fome dos desvalidos, com a sede do fim das desigualdades do mundo. Tiro meu cochilo de meia hora e desperto para o meu ofício de cometer mais arte.

Palmilho as imagens, bulo em vídeos, anuncio os meus rebentos. Na Hora do Angelus assisto às laives, embalo-me nas redes sociais, desprezo as distâncias geográficas e espio a lua cheia pela janela do meu quarto crescente. Tomo banho, janto, escovo os dentes e na boca da madrugada eu me deito. Na velha fianga de algodão cru, assisto à películas e leio meus pensamentos bem escrivinhados. Durmo para sonhar com a esperança de tempos melhores. Tenho fé! Sou Francisco!

No mais,
Inquilino sou da terra,
prego sempre contra a guerra,
desconjuro o satanás.
Pois só Deus é que permite,
quem quiser que acredite,
o mundo viver em paz!