segunda-feira, 26 de junho de 2017

ARTIGO - O Ladrão e o Porco (RMR)


O LADRÃO
DO PORCO
Rui Martinho Rodrigues*


As redes sociais exercem um saliente papel político. Nelas, todavia, campeia a desinformação. A internet está cheia de matérias sobre o julgamento da chapa Dilma-Temer. O caso do ladrão do porco é emblemático do que se passa nos novos meios de comunicação, assim como nos tradicionais, que emitem análises não muito diferentes daquele caso referido.

Alguém viu um ladrão entrar numa casa e o “denunciou” à polícia. Os policiais, ao chegar ao local da ocorrência, já encontraram o homem na rua, levando um porco. Preso pelo roubo do porco, o ladrão indagou:

– Como vocês souberam que eu estava aqui? – alguém viu você invadir a casa e fez a denúncia – foi a resposta.

O ladrão redarguiu:

– Então, vocês não podem me prender pelo roubo do porco, porque o objeto da “denúncia” foi invasão de domicílio.

Os policiais então passaram a espancá-lo, advertindo-o de que a polícia não é o TSE.

O grande público não percebe que quem chamou a polícia, no caso do ladrão do porco, não fez denúncia, mas uma notícia-crime. Esta não limita a investigação policial, porque não é ação penal, não gera acusação perante o Judiciário, nem, necessariamente, um inquérito policial (IP).

Deve gerar algum procedimento que poderá levar ao mencionado IP. Preso com o porco (simples procedimento), o ladrão será objeto de IP, que deverá buscar todos os fatos relacionados com o caso. Ao concluí-lo a autoridade policial poderá apontar a existência (materialidade) de um ou mais crimes e a respectiva autoria, encaminhando o resultado das investigações para o Ministério Público (MP).

Este poderá se mostrar insatisfeito com o IP e devolvê-lo para novas investigações; como poderá, com base nele, formular, agora sim, denúncia ao Judiciário, que poderá considerar que não existem provas suficientes, arquivando o caso; ou poderá aceitar a denúncia e iniciar uma ação penal.

Aí será preciso cuidar dos limites do objeto da ação. Não é possível que um réu seja processado por coisas diferentes em momentos distintos da ação penal. Isso violaria a defesa, que não saberia do que se defender.

Então, não cabe a analogia entre o caso do ladrão do porco e o polêmico julgamento do TSE. Leigos, formadores de opinião e até juristas de alto coturno parecem não distinguir entre coisas tão diferentes.

domingo, 25 de junho de 2017

RESENHA - Programa Dimensão Total (25.06.17)


PROGRAMA
DIMENSÃO TOTAL
25.06.17



Dimensão Total é um programa radiofônico semanal de debates, do Jornalista Ronald Machado, pela Rádio Assunção Cearense, na sintonia AM 620 ou pela Web, aos domingos, entre 10 e 12 horas, tendo como assistente de estúdio o radialista e produtor executivo Alexandre Maia.



O Jornalista Ronald Machado abriu o programa deste domingo, dia 25 de junho, fazendo uma homenagem aos festejos São João, que decorreram no dia de ontem, fazendo a técnica rodar a canção Aproveita Gente, de Luiz Gonzaga. 

Na sequencia Ronald consultou a mesa sobre a situação política do Presidente Michel Temer. 




A respeito disso, o Delegado de Polícia Federal aposentado Cesar Bertozi, vice-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Nordeste e Secretário da Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, falou de suas preocupações, que são as mesmas de sua categoria.

Ele teme que prosperem as evidentes tentativas de enfraquecer a instituição policial, por parte da elite política, toda ela envolvida nas investigações da Operação Lava Jato.

Mas Bertozi se disse um pouco mais tranquilo com o fato de que o grande desgaste público sofrido pelo atual governo vai afastando a possibilidade de que se façam mudanças da direção do Órgão, visando desvirtuar o seu trabalho, que tem total apoio da população. 

Em seguida a advogada e psicanalista Rossana Brasil Copf reclamou da imobilidade da população brasileira nesse momento, que não está indo à ruas protestar contra os atuais descalabros da política.




O segundo tema proposto foi a Parada Gay, que a cada ano se afigura maior, e o Advogado Roberto Pires foi o primeiro a se pronunciar a respeito, defendendo que aceitar a orientação sexual das pessoas seria um sinal de avanço civilizatório da sociedade. 

A Dra. Rossana corroborou esse pensamento, acrescentando que o Ceará seria um dos Estados mais "homofóbicos" da Federação, ao que o Dr. Roberto acrescentou o registro dos casos recentes do espancamento e assassinato de travestir em Fortaleza.

O advogado e economista José Maria Philomeno reforçou a ideia, frisando que as famílias têm aceitado melhor os seus integrantes que eventualmente manifestem comportamento homoxessual, bem como as decisões do Supremo Tribunal Federal a favor do casamento gay, antecipando-se ao Poder Legislativo.

Marcelo Salgado, Professor do Curso de Direito da Unifor, lembrou que a partir dos anos 80 a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexalidade do rol das doenças, até então considerada transtorno mental. E que, por conta disso, a partir do Código Internacional de Doenças nº 10 (CID-10), os gays começaram a ter direitos reconhecidos. 

Voltando ao tema político, José Maria Philomeno comentou a diferença que ainda se pode estabelecer entre os governos Dilma e Temer, pois aquela, quando sofreu o impeachment, não contava mais com base parlamentar, enquanto este ainda tem alguma força no Congresso, que lhe dá um mínimo de sustentação, apoiadores dos quais deverá ficar refém até 2018, pressionado a fazer negociatas.

O Prof. Marcelo se manifestou descrente de que Temer alcance o final do seu mantado tampão, tendo em vistar ter mentido, o que estaria muito bem configurado nas gravações de Wesley Batista, e que tem tido derrotas no Congresso em relação às reformas que tenda empreender. 

José Maria fez o interessante comentário de que o desejo da população seria dar um reset em todo o mundo político brasileiro, e em toda a legislação, para reformatar a República, como se faz com um computador irremediavelmente infectado e corrompido. 

O jurista Djalma Pinto acrescentou que o Brasil formou uma geração de predadores do dinheiro público, infiltrados em todos os partidos  políticos, e apontou os tais dos marqueteiros como uma das grandes pragas das campanhas eleitorais. 

A propósito disso, Marcelo apresentou os números de uma pesquisa que fez sobre os valores vultosos destinados a agencias de publicidade pelos principais candidatos a prefeito de Fortaleza nas última eleições, o derrotado Capitão Wagner e o Vitorioso Roberto Cláudio. José Maria lembrou que o Senador Romero Juca tem um projeto de Emenda Constitucional para a criação de um fundo eleitoral, visando tirar dinheiro do erário para as campanhas.

Por telefone, o radialista Vicente Alencar se reportou sobre o Ministro Armando Falcão, político cearense que gozou de grande poder durante os governos militares, que teria instituído a propaganda política no rádio e na televisão, que hoje é instrumento da enganação que envolve as massas. 

Em seguida, na mesma ligação telefônica, Vicente louvou a Assembleia Geral Extraordinária em que foi outorgada a Comenda Benemérito Ivens Dias Branco a cinco radialistas cearenses, que tinham a honra da audiência do paraninfo da Comenda – Paulo Oliveira, Tom Barros, Moreira Brito, Roberto Ribeiro e o próprio Vicente Alencar.



José Maria Philomeno, que compareceu à solenidade, corroborou as palavras de Vicente Alencar, enquanto Djalma Pinto, que também é Membro Titular da ACLJ, manifestou congratulações aos agraciados, notadamente Tom Barros, que foi seu colega de faculdade. Roberto Pires, por seu turno, lembrou que Ronald Machado também já foi alvo de homenagem pela ACLJ, em outra oportunidade, no seu caso o título de Mérito Jornalístico, na categoria "Veteranos".



Rossana Copf, que pertence à Comissão de Políticas Contra as Drogas da OAB, protestou contra a festa de São João promovida este ano pela "Nova CAACE", que é a caixa de previdência dos advogados, a qual teve patrocínio de marcas de bebidas, o que seria um contrassenso, em se tratando de instituição dedicada à saúde. E indagou a opinião da mesa a respeito.

Marcelo começou dizendo que não reconhece esse epíteto de "nova", quando a CAACE é uma sigla exata do nome constante nos seus estatutos, e portanto não pode adotar apelidos com finalidade eleitoral, visando a campanha para a presidência da entidade. E reforçou o entendimento de que não poderia ter o seu nome relacionado a uma marca de bebida alcoólica, por meio de patrocínio, a que José Maria também tachou de antiético. Roberto Pires também considerou inadmissível esse patrocínio.

Por fim se comentou, com ampla participação da mesa, a deflagração antecipada da campanha eleitoral de 2018, no momento em que o Brasil não consegue enxergar o horizonte do que poderá ocorrer na política já no dia seguinte, muito menos na semana que vem, que se dirá no próximo ano.  

POESIA - Antes, Agora e Depois (VM)


ANTES, AGORA E DEPOIS
(Tríptico Poético)
Vianney Mesquita**
  

1 - A N T E S – TRIBULAÇÃO


O ano tem 365 angústias; o dia 24 desencantos; a hora 60 inquietações. (JOSÉ MARIA VIGIL - intelectual eclético mexicano. Guadalajara-Já, 11.10.1829; México–DF, 18.02.1909).


Trepasso, agora, quadra angustiante,
De corpo e alma em desditosa sorte,
Num sofrer desmedido e lancinante,
Em constante rogar que a noite aporte.

Quando se esvai o aperto por um instante,
Tendo somente a inércia por consorte
E a noturna quimera feita amante,
Ao Criador chego a pedir a morte.

Encurto-me, então, ao desprestígio,
E, ante a desdita expressa no fastígio,
Como um inseto na concha me enrusto.

Até não sei quando esta dor prossegue.
Por que, também, est’ânsia me persegue,
De mim fazendo eterno ser angusto?

Fortaleza-CE, 12 de fevereiro de 1971.


A G O R A – OTIMISTA


Colho rosas dos espinhos, retiro ouro da terra e extraio pérolas das ostras. (SÃO JERÔNIMO sacerdote ilírio, tradutor da Bíblia. Estridão, 342; Belém, 420).


Não cabe em mim ventura tão imensa
De privar do milagre da existência,
Dádiva de Deus, fortuna densa,
Sem explicação plausível na Ciência.

Desfruto meu viver na plenitude,
Ao desenhar castelos, fazer planos,
Converto a senescência em juventude...
Decerto, viverei mais de cem anos.

E assim, descortinando a humana essência,
Bem fundo guardo em minha consciência
O sempre me haver bem com minha gente.

Quando Ele me tirar a vida, então,
“Arrepender-se-á” da decisão
E acederá que eu viva novamente.

Fortaleza, 27 de agosto de 2010.


3 DEPOIS – Futuro Enigmático


Se o passado, que já se foi, está além do nosso conhecimento, como ousaremos conhecer o futuro, que ainda não veio? (GEORGE BERNARD SHAW – literato, dramaturgo e jornalista irlandês. Dublin, 26.07.1856; Ayot St. Lawrence – UK, 02.11.1950).


Naqueles vinte e oito pés escritos
(Ventura, e sofrimento não perjuro).
São, pois, os dois sonetos contraditos,
Quanto a ontem, a agora e ao futuro.

Não prediz um poeta nascituro,
Tanto de ardor e inspiração estritos,
Absolutamente nada do obscuro
Dos devires somente ao Pai restritos.

Antevê-los, assim, resta impossível.
E a quem não é profeta é infactível
Dos celestes intentos conhecer.

Pela crença, entretanto, inquebrantável,
Nos prodígios do Alto Inigualável,
Feliz eternalmente eu hei de ser. 

Fortaleza, 05 de junho de 2017.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

CRÔNICA - Guerra é Guerra (HE)


GUERRA É GUERRA
Humberto Ellery*


Para quem gosta, como eu, de ler sobre as guerras em geral, a Segunda Grande Guerra em particular, está assistindo agora à utilização de diversas táticas empregadas no monstruoso conflito em plena arena política brasileira.

Afinal, Carl von Clausevitz dizia que a guerra “é a continuação da Política”, conceito que Michel Foucault inverteu para “a Política é a guerra continuada por outros meios”. Já o Cardeal Richelieu dizia que a guerra era a última razão dos reis, frase que impressionou tanto o Rei Luís XIV que ele mandou imprimir nos canhões de seu exército “ULTIMA RATIO REGUM”.

Analisando friamente a razia promovida pelo General Janot (não confundir com o General Junot, comandante das tropas napoleônicas na invasão de Portugal) vemos que o janota começou com uma Blitzkrieg, uma tática militar que consiste em utilizar forças de alta mobilidade.



Trata-se dos esquadrões Panzer (abreviação de panzerkampfwagen), em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tenham tempo de organizar sua defesa, contando com o apoio aéreo dos Stuka (Junker JU 87) da Luftwaffe, e a ocupação do terreno pela infantaria.

Essa tática foi desenvolvida pelo brilhante general Erich von Manstein e aperfeiçoada por Heinz Guderian (na minha opinião, o mais talentoso dos generais do Hitler). Seguindo milimetricamente o seu plano diabólico, o janota tratou de atacar simultaneamente seus dois inimigos, o Temer e o Aécio.

Por que o Aécio? Ora, o espião infiltrado (quinta coluna) Joesley Safadão já deixou isso bem claro, quando apontou o Temer com o número 1 e o Aécio com o numero 2. Caso derrubassem somente o Temer, o Aécio seria o mais forte candidato a ser eleito indiretamente pelo Congresso, e o candidato deles é o Lula; portanto, era necessário destruir também o numero 2.

Alguma coisa deu errado com a blitzkrieg desencadeada, e assim como as tropas inglesas conseguiram fazer a tormentosa retirada de Dunquerque, para desespero do Hitler, o Temer, mesmo atingido em cheio, ainda resiste.

Como “nas guerras a primeira vítima é a Verdade”, segundo Sêneca, os guerreiros se aliaram à Rede Globo para repetir o que fizeram com o Ibsen Pinheiro, com o casal Shimada da Escola Base de São Paulo, também na edição do debate Collor/Lula em 89, e otras cositas mas.

Quem tiver interesse pelas mentiras globais que vá pesquisar, o que eu já sei é suficiente para me dar engulho. Mas não se diga que eles (o Janot, o Fachin e a prima Carminha) não têm espírito esportivo, pois o Fachin está demonstrando um talento formidável na modalidade Corrida com Barreiras, de matar de inveja o campeão olímpico e recordista mundial, o americano Aries Merritt.

Observemos que a Constituição Federal determina que o relator de uma denúncia seja escolhido por sorteio (desde que o assunto já não esteja sendo examinado por um determinado ministro, como era o caso). Não é problema. O Fachin pula por cima da CF/88 e se auto outorga o cargo de Relator (que o STF, numa decisão previsivelmente corporativista, aprovou).

A CF/88 não permite também que seja utilizada prova ilícita (gravação clandestina) em processos, mas o Fachin pula por riba de novo e utiliza uma gravação que não foi sequer periciada! O Regimento Interno do STF determina que a homologação de uma delação contra o Presidente da República seja feita pelo Pleno. Mas o Fachin pula mais essa barreira e faz, ele mesmo, a homologação, monocraticamente... É um verdadeiro Campeão.

O Janota agora anunciou que vai “fatiar” a denúncia contra o Temer e transformá-la em três ou quatro denuncias diferentes, que serão encaminhadas em ondas de ataque. Essa tática chama-se Fogo de Barragem, método criado pelo exército britânico na Segunda Guerra dos Boêres, bastante empregada depois nas Primeira e Segunda Guerras Mundiais, que consiste em fogo de artilharia em larga escala, com disparos feitos numa cadência contínua.

Seu objetivo é criar uma barragem de fogo para impedir ou dificultar o deslocamento do inimigo; sua utilização é vista mais como um método neutralizante que destruidor. Na Canção da Artilharia ficam bem claros esses objetivos: “Com seus tiros de tempo ou de percussão / Às fileiras inimigas levo a morte, a confusão”.

Diante de tantas ilegalidades, injustiças, mentiras e ódio destilados por essa tropa de cretinos, ainda tem gente que me pergunta por que estou do lado do Temer! Não sou Artilheiro, sou marinheiro, estou mais para o “Cisne Branco que em noite de lua vai navegando num lago azul ...” Mas quero concluir com as estrofes finais da emocionante Canção do Artilheiro:

Se é mister um esforço derradeiro
E fazer do seu corpo uma trincheira
Abraçado ao canhão morre o artilheiro
Em defesa da Pátria e da Bandeira
O mais alto valor de uma nação
Vibra n´alma do soldado,
ruge n´alma do canhão.



Com um forte abraço a meus amigos artilheiros e marinheiros.





COMENTÁRIO:

A análise política do Ellery, pela forma e pelo conteúdo, se coloca no topo de tudo que se escreve sobre o momento históricos que estamos atravessando. Parabéns pelo texto.

Rui Martinho Rodrigues


NOTA FÚNEBRE - Wanda Palhano


NOTA DE PESAR
FALECIMENTO DA BENEMÉRITA
WANDA PALHANO


A presidente do jornal O Estado, Wanda Palhano, 3º Membro Benemérito da ACLJ, morreu nesta quarta-feira, dia 21, aos 84 anos, em Fortaleza. Ela estava internada no hospital Monte Klinikum e teve uma parada cardiorrespiratória.

A jornalista, que era também advogada, foi a primeira mulher cearense a ocupar o cargo de procuradora-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Foi ainda Procuradora Federal e a primeira Conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE).

Wanda era natural do Paraná e veio para o Ceará ainda criança. A jornalista presidia o jornal O Estado desde 1996. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília e em Administração Pública pela Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Os que fazem a ACLJ manifestam à família Palhano o seu profundo pesar pelo passamento da confreira, que além de grande profissional do Jornalismo e do Direito que se revelou ao longo da vida, Wanda foi um ícone da elegância feminina, durante a juventude, nos salões da sociedade cearense.

Por isso, por  toda a vida, ela era sempre referida como "Bela Wanda", por seu amigo Olavo de Alencar Dutra, grande intelectual cearense radicado do Rio de Janeiro, onde faleceu na década de 90, Patrono Perpétuo da Cadeira de nº 7 da ACLJ.





Wanda Palhano foi convidada para compor o grupo inaugural da ACLJ, em 2011, tendo sido diplomada titular de uma das suas cadeiras, porém, por questões de saúde, não chegou a tomar posse. Em razão disso, foi sublimada à dignidade de Membro Benemérito. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CRÔNICA - Heureca! (RV)


HEURECA!
Reginaldo Vasconcelos*


Heureca, Mourão!

De vez em quando as confusões do Mundo carecem de uma mente serena que deslinde as suas mais imbricadas conjunturas. Um mar de porquês, indagando e respondendo as questões parciais de uma realidade evidente, mas multifacetada, a exigir uma visão panorâmica e uma conclusão clara de causas e efeitos teologicamente contemplados.

Por exemplo, anos atrás, suscitou-se a polêmica sobre a adoção de catracas automáticas nos ônibus e autoatendimento nos postos de combustíveis brasileiros, porque, pretensamente, esses avanços tecnológicos seriam nefastos ao mercado de trabalho.

Como assim? – me consultava intimamente, eu que fora bancário, e que vira com alegria a penosa função de caixa-executivo ser facilitada e reduzida pelos caixas eletrônicos, e que, viajando pelo mundo, constatara a comodidade que representava para toda a sociedade a substituição de falíveis e extenuantes funções humanas pelas máquinas.

Até que um proficiente e jovem pensador, Antônio Mourão Cavalcante, pontificando a respeito em entrevista na TV, explicou tudo com a simplicidade lúcida do momento do arrebol. Cada salto evolutivo no campo tecnológico sacrifica uma geração profissional, que, perdendo a expertise longamente acumulada, precisa se recolocar no mercado assimilando novas ciências e aprendendo novas técnicas – dizia ele.

Contudo, a projeção sociológica desse processo é positiva e auspiciosa, pois o seu resultado finalístico é o seguinte: no futuro as pessoas vão trabalhar menos, sem perda de renda, incorporando à sua produção remunerada as simplificações tecnológicas.

De fato, agora digo eu, os cavalariços do passado, v.g., que eram condenados a duríssimas funções com as alimárias e as tralhas necessárias, e que ficaram sem chão com o advento do automóvel, são sucedidos hoje por aqueles que se dedicam, com muito mais conforto, à engenharia e à mecânica automotivas.


Eureca, Bruno Reis!

Pois bem. Vinha eu atarantado com a atual crise brasileira – um incêndio de denúncias; a revelação cotidiana de crimes praticados por homens públicos; a prática generalizada de delitos financeiros perpetrados pelos próceres da República; empresas privadas agindo em conluio com governos para desfalcar verbas do erário; juízes supremos comprometidos com políticos e empresários.

Tentava eu traduzir essa babel de informações, resumir essa ópera bufa, ordenar o caos vigente, racionalizar as contradições evidentes. Deduzi então que, afinal, parecia haver uma ética intestina ao mundo político-administrativo brasileiro, não só tacitamente consentida pela estrutura jurídica nacional, mas até necessária ao funcionamento da máquina cênica que faz mover o Leviatã.

Tal ética de que eu suspeitei permitiria aos políticos práticas heterodoxas, do ponto de vista das normas aplicáveis aos cidadãos comuns, e que seriam essenciais ao mecanismo eleitoral, que é considerado o maior ícone da democracia e da república. Todos faziam, todos sabiam, todos calavam. Um grande segredo de polichinelo.

Então, como eu ouvira Mourão no caso antigo, assisto agora a uma entrevista pela Globo News, com a jornalista Mirian Leitão e o Professor Bruno Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Com grande bravura intelectual afirmou aquele cientista político que o Judiciário Federal anda considerando cada revelação da Operação Lava Jato como um desvio de conduta isolado e episódico, para processar e prender o protagonista, tratando esses eventos delitivos como pertencessem ao “varejo” criminal. Segundo ele, um erro crasso.

Pensa ele que, na verdade, tirante os excessos e os casos de enriquecimento pessoal, todos os demais delitos se circunscrevem às transgressões praticadas no “atacado”, inerentes às cartorárias estruturas político-partidárias brasileiras. O resultado desse equívoco gigantesco do Judiciário – ele avalia – será a produção de um grande número de mártires do nosso mundo político-administrativo, eventualmente alvejados agora pela devassa federal, sem que isso resolva a questão nem solucione a essência do problema.

Isso porque esses políticos e empresários hoje escorraçados tendem a ser sucedidos por outros iguais, depois de concluída a Operação Lava Jato, que terão a mesma índole e as mesmas condutas, porém muitas vezes obtendo melhor sorte – do mesmo modo que, passado o Mensalão, tudo voltou a ser como dantes no quartel de Abrantes.


E então, concorde com ele, eu concluo que a única solução seria alterar o sistema de governo, já que o tal do “presidencialismo de coalizão” somente funciona aplicando-se aquela ética espúria que eu mesmo intuíra funcionar, um pacto informal que admite e até exige negociatas e conchavos – as tais das “tenebrosas transações” a que se referiu Chico Buarque, e a que aludiu o Cazuza quando reclamou em uma canção: “Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual o teu negócio, o nome do teu sócio... confia em mim!”.

    

ARTIGO - Cherchez la Femme (HE)


CHERCHEZ LA FEMME*
Humberto Ellery**



Estamos vivendo dias muito estranhos. Alguém pode querer classificar o que pretendo demonstrar como fazendo parte das  chamadas “teorias conspiratórias”, para assim levar ao deboche e à desmoralização o que pretendo expor.

Acontece que essas tais teorias são voláteis, intangíveis, porque se baseiam em fofocas e denuncias em off, sem a devida identificação dos autores. O que pretendo trazer a lume prende-se a fatos que estão sendo vilmente esfregados em nossas faces diariamente, e eu citarei os nomes dos bois.

Há muitos anos campeia em nosso País um conceito, completamente absurdo, de que todo político é ladrão, de que são todos “farinha do mesmo saco”.  Não pretendo polemizar com os que pensam assim, pois não vou “jogar pérolas aos porcos”.

Vou somente lembrar fatos que alguns órgãos da nossa imprensa, seja pela ânsia de vender jornais (afinal, como dizia Adlai Stevenson, a função da imprensa é separar o joio do trigo, e publicar o joio), seja por motivos meramente eleitoreiros, outros ainda por motivos inconfessáveis (cherchez la femme) estão jogando lama no ventilador, e tentando transformar a atividade política, a mais nobre das atividades públicas (mesmo contaminada por muitos farsantes) em uma atividade abominável.

A razia que o MPF está promovendo contra a classe política em geral, e o Presidente Temer em particular, é mais que injusta, é asquerosa. O Procurador Geral Rodrigo Janot, mancomunado com o Ministro Edson Fachin e  com o auxílio luxuoso da Rede Globo, expuseram à execração pública mais de quatrocentos políticos com a publicação da tal lista, independentemente de terem cometido crimes ou não, um verdadeiro index politicorum proibitorum.

Como colocar no mesmo saco um Jarbas Vasconcelos junto a um Renan Calheiros?; um Roberto Freire junto a um Romero Jucá?; um Aldo Rebello junto a um Eduardo Cunha?. A ideia é nivelar por baixo, porque se todos são ladrões, então viva o Lula.

Alguns dias depois da fatídica publicação o Ministro Fachin mandou retirar da lista vários nomes, por falta de provas. Por que então não checou antes? Não posso crer em distração ou em descuido. É claro que isso foi de caso pensado. Claro que essa notícia, com os nomes dos excluídos,  não teve o mesmo destaque pela imprensa, e, mesmo assim, o estrago já estava feito.

Hoje a Rede Globo se superou, colocou na capa de sua revista Época, em letras pequenas, dentro de um quadro, “Entrevista exclusiva com Joesley Batista” e, em letras garrafais, tomando toda a capa, as palavras do criminoso impune de 245 crimes, promovido a oráculo da verdade: “TEMER É O CHEFE DA QUADRILHA  MAIS PERIGOSA DO BRASIL”.

A mim se afigura nitidamente uma campanha para derrubar o Temer, que estabilizou os fundamentos da economia, moralizou a Petrobras, o Banco Central, o Tesouro Nacional e, principalmente o BNDES (de que a Rede Globo é a maior devedora) fitando certamente a volta da roubalheira que ali imperou, e multiplicou em pouco tempo a fortuna do bandido/açougueiro mais de quarenta vezes, passando de um faturamento de 4 bilhões de reais em 2004 para 183 bilhões em 2016, período em que o PT mandou e desmandou.

E o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil é o Temer, que até um ano atrás era um vice-presidente sem nenhuma força política?

Seria cômico, se não fosse trágico!


* Cherchez la femme: Expressão do francês que significa literalmente procure a mulher, mas que se usa no sentido de procure a raiz do problema.