domingo, 5 de março de 2017

CRÔNICA - O Marxismo e o Jumentinhos (HE)


O MARXISMO
E OS
JUMENTINHOS
Humberto Ellery*


Em 2013 o  Luciano Cavalcante me pediu que contribuísse na elaboração do livro “História Urbana e Imobiliária de Fortaleza – biografia sintética de uma cidade”.

O lançamento do livro fez parte das comemorações dos 30 anos de sua vibrante empresa, bem como de sua vitoriosa carreira de empreendedor. Encomendou a feitura do livro aos brilhantes Lira Neto e Cláudia Albuquerque. Minha contribuição se restringiu a contar a história do surgimento do Bairro Ellery, que vi nascer do sítio em que passei minha infância.

Ontem foi a vez do Juarez Leitão fazer-me a mesma solicitação, uma vez que está a escrever um livro em que fatos importantes ocorreram naquele bairro tão querido.

Saudosista que sou, principalmente de uma infância tão feliz, acordei hoje pensando naquele período em que “eu era feliz e nem sabia”. Lembrei com muito carinho dos jumentinhos que faziam o trabalho pesado do sítio.

Era uma tropa de uns oito ou dez animais, muito bem tratados, inclusive todos eram chamados pelo nome: Meia-noite, Cambota, Camelo, Branquinha, Cambraia...  É comovedora a docilidade, a obediência e a disposição para o trabalho desses “nossos irmãos”.

Mourejavam de sol a sol sem escolher o que fazer. Mansamente cumpriam os afazeres que determinávamos, fosse puxando carroça, carregando enormes cargas de capim, levando latões de água para irrigar as plantações, ou até  servindo de montaria nas nossas brincadeiras de Cowboy.

Nunca reclamavam, jamais percebi em nenhum deles qualquer atitude agressiva. Nós realmente recebíamos de cada qual de acordo com suas capacidades. Em compensação nós retribuíamos a cada qual de acordo com suas necessidades. Recebiam toda a alimentação que precisavam: capim, milho, ração, macaxeira, banana (adoravam bananas). 

Recebiam também vermífugos e atendimento veterinário. Só não tinham mesmo era liberdade. Não podiam escolher o que fazer, nem como fazer, nem onde fazer. Era tudo determinado por nós. Não podiam também sair do sítio para ir onde lhes desse na telha, pois o sítio era cercado. Inclusive, ao fim do dia eram confinados em um cercado para que não fugissem, ou fossem roubados.

Como eu acabei de reler a “Crítica ao Programa de Gotha”, carta que Karl Marx enviou aos camaradas da Social Democracia alemã (publicada por Engels quase oito anos depois da sua morte), a analogia da vida dos jumentinhos com o teor da carta surgiu espontaneamente.

Embora seja apenas uma carta, muito pouco face às cerca de 70 obras, entre livros, teses, cartas que Marx escreveu (um espetacular monumento à estupidez), ouso afirmar que se trata de um dos mais importantes documentos sobre o Marxismo, pois, de toda a sua vasta produção intelectual, nessa carta ele dá a  mais pormenorizada descrição de Comunismo.

Segundo o seu pensar, depois que o Socialismo cumprir a sua missão pela luta de classes, destruídos o Capitalismo e os capitalistas, quando os trabalhadores irão perder seus grilhões, surgirá o alvorecer radioso do Comunismo, onde de cada qual será exigido  segundo sua capacidade, e a cada qual será dado segundo sua necessidade.

Assim como os jumentinhos jamais reclamaram da sua total falta de Liberdade, também o povo não vai precisar dela. Afinal, os comunistas não sentem falta nem da liberdade de pensar, pois pensam todos de forma exatamente igual, naquela velha opinião formada sobre tudo.

sábado, 4 de março de 2017

GLOSSÁRIO - Curiosidades Latinas - 7 (VM)


GLOSSÁRIO DE PARÊMIAS, ANEXINS E CURIOSIDADES LATINAS (7)

                        Seleção: Antônio Carlos Campolina
                        Comentários: Vianney Mesquita*


A Editoria deste periódico eletrônico informa que, desde esta edição e até o seu fecho, as matérias do bloco serão selecionadas pelo Professor mineiro acima indicado (Foto), natural de Ubá-MG, docente de Latim, autor de livros e outros trabalhos acerca do ensino da Língua do Lácio, trazendo, no ensejo oportuno, comentários do acadêmico Vianney Mesquita.

O Professor Campolina costuma sempre, todos os anos, vir ao Ceará ministrar cursos de língua e literatura em instituições do Ensino Superior do Estado, de Fortaleza e outros municípios, estando, coincidentemente, no momento, na Cidade de Viçosa do Ceará (Foto), desenvolvendo palestras e ministrando aulas em cidades da serra da Ibiapaba.

Hoje o Mestre ubaense está hospedado na residência do juiz de Direito, (colega do citado VM na antiga Escola Industrial de Fortaleza) Dr. Olyntho Franklin Gadelha (Foto).

Causa cessant, cessat  effectus
Cessada a causa, cessado também o efeito.

Causa cognoscitur ab  effectum
Pelo efeito se conhece a causa.

Causa debet praecedere effectum
A causa deve preceder ao efeito.
Causa principalis semper  attendi  debet
À causa principal sempre se deve atender.

Cavedum est  ne  maior  poena  quam  culpa  sit
Deve-se tomar cuidado a fim de que a pena não seja maior do que a culpa.

Cedent arma togae
Que as armas cedam à toga.

Communes sunt omnia necessitatis tempore       
As coisas são comuns em tempo de necessidade.

Compensatio vim solutionis  habet.
A compensação tem força de solução.

Concedens unum ex pluribus, videtur caetera  omnia denegare
Concedendo-se apenas uma de várias coisas, entende-se haver denegado todas as outras.

Confessio est probatio omnibus melior
A confissão é a melhor das provas.

Confessio spontanea minuit delictum et poenam
A confissão espontânea diminui o delito e a pena.

Confessus pro indicato habetur
A confissão é tida como coisa julgada.

Conscientia mille testes.
A consciência vale por mil testemunhas


CRÔNICA - Carnavais D'outrora (PT)


Carnavais d’Outrora
Paulo Tadeu*


Quem vê a animação da orla marítima no Ciclo Folclórico Carnavalesco não imagina que, na Fortaleza de outrora, as praias eram praticamente desabitadas. A hoje animadíssima praia de Iracema era a praia do Peixe. Pelo nome, vê-se que ali era local para pescadores, com suas bucólicas colônias no branco areal das dunas, com o vento assobiando nos telhados das casinhas ornadas pelo coqueiral.
Era uma época em que a sociedade não havia descoberto o charme de morar em uma casa com vista para o mar. Alguns ricaços faziam lá suas chácaras para veraneio.   E estas, geralmente, não tinham frente para o mar. Veja-se, por exemplo, a Vila Morena, o tradicional e boêmio Estoril. O mesmo acontecia com os clubes elegantes, a exemplo de Náutico, Iate e Ideal.



Eram muitos os clubes, tanto filiados ao Interclubes, entidade que agregava os grêmios elegantes, como as agremiações ligadas à União dos Clubes Sociais Suburbanos que animavam os carnavais nos bairros. A Associação dos Cronistas Sociais e Carnavalescos, com os profissionais dos jornais e das emissoras de rádio, percorria cada um, compondo a Corte de Sua Majestade o Rei Momo “Primeiro e Único” ao lado da Rainha e suas princesas, em um cortejo anunciado pelo clarim do corneteiro real.





Na praia havia muitos clubes, cada um fazendo animadíssimos bailes carnavalescos, cabendo aos cronistas proclamarem o mais animado e concorrido da temporada. As tradicionais marchinhas, marchas-rancho, o samba e o frevo comandavam os blocos de clubes, formados por grupos de amigos e componentes familiares que se apresentavam com seus belos estandartes e usavam criativas fantasias, geralmente confeccionadas em seda, cetim, lamê e paetês. 


Muitos abusavam da estamparia, destacando-se tecidos ornados com bolas, que, no conjunto, davam um ar de muita alegria e comunicação.  Os blocos de clube competiam internamente no quesito animação, cujos vencedores eram proclamados na noitada da terça-feira momina.

Havia o Comercial Clube, o Centro Massapeense, Centro Quixadaense, Clube do Médico, Diários, Associação Atlética Banco do Brasil, Clube de Regatas Barra do Ceará  (este, na  gestão da prefeita Luizianne Lins, foi adaptado  para   CUCA Che Guevara).

Fora da orla marítima, destacavam-se as festas mominas do Clube Líbano Brasileiro, do Ceará Country Club e  Clube Iracema. Bem mais distante, na rua Barão do Rio Branco, quase esquina com a avenida Treze de Maio, reinava o Maguari Esporte Clube com seus  inolvidáveis  carnavais.

No subúrbio, as festas eram no Romeu Martins, Vila União, Cotonifício Leite Barbosa, Iassocial, Menfis, Keops Club, Santa Cruz, SECAI, Clube Recreativo Aerolândia, Clube Recreativo e Educacional Mocidade de Aparecida – CREMA, Internacional, Renascença, Grêmio dos Ferroviários, Espaço Clube, Tiradentes, Tiro e Linha, Terra e Mar, Feirantes, Patinação Clube e o Fortaleza.

Fortaleza era a “Cidade dos Clubes”. A animação reinava também nas chamadas “pensões altas”, as boates do Centro, bem como do Arraial Moura Brasil: Curral, Cinza e Oitão Preto; e no Farol.

Hoje os foliões estão nas barracas de praia e nos distintos polos organizados pela Secultfor.

Outros tempos, novas atrações. E viva Momo!


sexta-feira, 3 de março de 2017

NOTA LITERÁRIA - Ricardo Guilherme Publica Livro de Contos


 RICARDO GUILHERME
PUBLICA LIVRO DE CONTOS


Ricardo Guilherme é membro fundador da ACLJ – e uma academia cearense de literatura e jornalismo, instalada em 2011, teria que contar com ele no seu grupo inaugural, pela sua grande importância na imprensa e nas letras coetâneas no Estado.


Ele tomou posse mas permaneceu distante (excentricidade dos gênios?), comunicou o extravio da própria pelerine ritual (displicência dos líricos?), requereu se lhe concedesse a sublimação acadêmica (idiossincrasia dos doutos?), transitando para o título de Honorário.   


Trata-se de um dos maiores intelectuais contemporâneos no Ceará, com intensa militância na poesia, no teatro, no jornalismo, na pesquisa, no rádio, na televisão, no cinema, na literatura, no magistério superior.

No teatro, Ricardo Guilherme escreve, atua, dirige, ensina – premiado em 1987 pela UNESCO; na literatura ele produz crônicas, contos e poemas, e foi premiado pelo Ministério da Cultura, em 1970, por pesquisa e publicação sobre a história do teatro cearense.

Vate inspirado, Ricardo integrou o Clube dos Poetas Cearenses, nos anos 60; jornalista, ele teve reportagens nacional e internacionalmente premiadas, tendo funcionado longamente na Rádio Universitária e na TV Ceará (emissoras de que foi fundador), apresentando programas culturais e de entrevistas.

Agora tira do prelo e nos envia, ainda quente, exemplar de um ótimo livro de contos que em breve lançará – OUTROS TANTOS DE TANTA ESTRADA – todo vazado em linguagem Guimarães-roseana, com as ousadias neológicas do estilo.

A obra traz 27 prosas curtas cheias de espírito, de sensualidade e de lirismo, tudo acondicionado em 170 páginas, trabalho primorosamente produzido pela Editora Substânsia.

“Quando tudo principiou, um dia desimaculei seu corpo, e nos imantamos como antes a nós nunca houvera sucedido.

Ela se deu e me teve e, então, nos percorremos devassando os ermos. Foi bonito. Daí em diante, ficamos impreteríveis um ao outro.

Seu impudor contradizia a imaturidade numa aptidão quase sem fim para o incêndio. Eu me delongava que era para a afoita mais se espraiar.

A solidão de nós dois se queria cada vez mais sozinha. A gente se ilhava num um-pro-outro infinito” (Excerto do conto O Caminho da Volta – p.49).

Consulta-nos o editor Talles Azigon se esta ACLJ poderia organizar e promover a noite de autógrafos do livro, no Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras e de suas tantas afiliadas, e nós anuímos, obviamente. Elegeremos uma data na agenda da ACL e comunicaremos ao leitorado deste Blog.
    

quarta-feira, 1 de março de 2017

CRÔNICA - Delação Premiada - 2ª Fase (RV)


DELAÇÃO PREMIADA
(Segunda Fase)
Reginaldo Vasconcelos*


Delato ainda as políticas de governo que vêm sucateando as Forças Armadas, reduzindo suas verbas e desprestigiando os seus componentes. Aliás, grande economia se faria com segurança e saúde públicas se todo o universo de adolescentes do País fosse compulsoriamente submetido ao serviço militar durante três anos, entre os 15 e os 18.




Nos quarteis os jovens conheceriam a disciplina, teriam noções de civismo, e tomariam consciência da cidadania e do dever patriótico, ganhando formação digna e canalizando as energias para o estudo, o trabalho e a prática de esportes, e para os demais valores nacionais – em detrimento do ócio deletério, das exacerbadas paixões futebolísticas, da formação de gangues territoriais, do consumo de drogas, do pichamento de bens públicos e privados, de outras formas de delinquência juvenil.

Entra ainda na minha delação a pós-mentira presentemente consagrada e politicamente incorreta, segundo a qual a pessoa tenha a prerrogativa de escolher o sexo gamético a que pertence, assumindo uma “identidade social de gênero”, ainda que divergente de sua anatomia natural. Ora, o gênero a que todos pertencemos é o gênero humano, e o sexo de cada um é aquele que a biologia definiu, o mesmo que o obstetra informa à mãe gestante: “é homem”; “é mulher”.

Por exemplo, o grande astrônomo alemão seiscentista Johannes Kepler se identificava com os caninos, chegando mesmo a latir para estranhos e uivar para a lua cheia. Analogicamente, uns e outros podem se sentir homem ou mulher, e se comportarem como tal, sem que o sejam realmente, sem demérito e sem reproche. Vive la libertè! Mas ninguém tem o direito de invadir o sexo oposto, e achar que convence o mundo do que não é, na presunção de que a vontade vença a lógica. Não. Vive la diference.

Enfim, delato os teóricos socialistas que, no seu devaneio ideológico, jamais se imaginam como meros integrantes da comuna, mas somente como destacados ícones das hostes, guardando para si os devidos privilégios dos déspotas. Isso porque os homens nascem para competir, se diferenciar e prosperar, não para se igualar e dividir de forma gratuita o que conquistam honestamente.

Já as suas massas de manobra aspiram sempre a um nivelamento por cima, dividindo consigo a patrimônio dos mais ricos – nunca descer do padrão econômico habitual para socializar a pobreza e a miséria – denunciando assim, no seu âmago, a ideologia da inveja.

A última delação que faço cita tacitamente toda a política eleitoral, revelando que a corrupção é a mola propulsora da República, como também declarou Nelma Kodama,  doleira presa pela Operação Lava Jato. Ninguém contrata com o Governo, em suas três esferas, sem “molhar a mão” de alguém – salvo os casos de que não se tenham provas – esse é um grande segredo de polichinelo.

Veremos ao final da grande devassa federal da Lava Jato que são raríssimas exceções os que vão para a política para servir ao povo e representa-lo com altruísmo e honestidade, pois a grande maioria se candidata e se elege para se locupletar do poder estatal e dos dinheiros públicos.

CRÔNICA - Geraldo-Cacete (VM)


GERALDO-CACETE
(Crônica para a História da Televisão Cearense)
Vianney Mesquita*


O sábio avalia o ignorante porque já foi ignorante. O ignorante, no entanto, não pode avaliar o sábio, uma vez que jamais foi sábio. [SADI DE SHIRAZ, poeta persa (iraniano); Shiraz, 1210-1291].
         

Indicado e conduzido pela Prof.a. Docente-Livre Adísia Sá até o Prof. Dr. Carlos d’Alge – aos quais sou eviternamente agradecido - fiquei na TV Educativa do Ceará – Canal 5, onde d’Alge era superintendente, de outubro de 1976 até fevereiro de 2005, quando fui acometido de infarto agudo do miocárdio, do que resultou aposentadoria.

Nessa época, não se cogitava em concurso público, especialmente para fundações sob o regime de CLT, de sorte que ali entrei (como todo o mundo entrava) pela janela – até porque não havia portas, somente compostas pela marcenaria reparadora da Constituição Cidadã em 1988. Ali exerci a função de redator, como jornalista profissional, operando na feitura dos telejornais, ao dividir o regime de trabalho de 40 horas semanais com o magistério da Universidade Federal do Ceará, sobrando 20 horas para dedicar à Emissora.

Nos seus começos (7 de março de 1974), a TV Educativa do Ceará – inaugurada por César Cals de Oliveira Filho, chefe do “Governo da Confiança” - pertencia à Fundação Educacional do Estado do Ceará – FUNEDUCE, da qual era parte, também, a UECE. Na sequência histórica, entretanto, essa Instituição foi bipartida, ensejando duas entidades em regime fundacional – a Fundação de Teleducação do Ceará – FUNTELC e a Fundação Universidade Estadual do Ceará – UECE, conforme sucede até o momento. Em 1993, no Governo de Ciro Ferreira Gomes, a então TV Educativa mudou a denominação-fantasia para TV Ceará - Canal 5, pertencente à mencionada FUNTELC, numa como homenagem à TV Ceará – Canal 2, que houvera se desconstituído.

No tempo relatado, o público da TV Educativa – Canal 5 – hoje chamado de stakeholders pela Ciência da Administração – era de duas seções, configurando, primeiramente, a equipe da Pedagogia, com os então chamados professores-autores (os quais preparavam as teleaulas) e seu grupo de apoio, com vistas ao ensino a distância.

Este era a “fina flor”, a “aristocracia”, a “nata” da Estação, os donos da situação, constituído por docentes, a maior parte compartindo seu ofício com o magistério na UECE, uma parcela absolutamente separada socialmente, pois sequer (em tese) se dirigia aos demais, somente os olhava à sorrelfa - a não ser quando a comunicação era vinculada a tratos profissionais. Era a vera câmara da Rainha Elizabeth II tupiniquim.

O outro segmento – evidentemente, sem fazer referência aos componentes das diretorias e seus funcionários – era formado pelo pessoal técnico, a maior parte do qual procedente da então desativada TV Ceará – Canal 2 (Rede Tupi de Televisão), a primeira televisão do Estado, inaugurada em 1960.

Essa, pois, era a turma do papoco, em geral e com muitas exceções (e isto se impõe que eu relate), deselegante, grosseira, mal-acostumada com a bagunça, pornográfica, semiapedeuta, produtora de comportamentos aos quais eu não era afeito, moleque e com aqueles vezos da ambiência teatral, em que tudo se afigurava natural, mesmo que certas condutas resultassem desrespeitosas, exceto, evidentemente, os caracteres de pessoas cujos procedimentos, conquanto insertas na dita esfera, eram vazados na decência e inseridos nos perfis da urbanidade.

Extraio nesta história modelos dessas restrições – e por isso dois deles estão aqui na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Pinço, pois, o Ricardo Guilherme, uma das maiores inteligências que já tive a dita de deparar, autor teatral de escol, ainda hoje a pleno emprego, o qual veio a ser meu aluno na UFC (também o foi Ary Sherlock) e, algumas vezes, até me ajudou a ministrar conteúdos ligados ao Jornalismo, Cinema e Teatro (conforme o fez, também, o enorme Guilherme Neto), desde que se lhe aprestou o uso da razão.

Outro é Amaro Penna, o Peninha, músico, violonista, compositor, gente, na escorreita expressão da palavra, hoje também detentor de título de imortal da ACLJ, consoante sucede com o mencionado Prof. Ricardo Guilherme.

Vêm, ainda, na sua maior parte, vinculados ao Departamento de Telejornalismo, Alcyon Lemos e Maia Ferreira, hoje, amigos de minha intimidade, Oliveira Filho, jornalista, ator de novelas radiofônicas e advogado; Godofredo Pereira de Sousa, meu compadre, jornalista e professor da UFC; Everardo Sobreira, radialista da melhor felpa, advogado de elevado nível e docente da UFC; Heraldo Meneses; e tantos outros. Um destes é o moradanovense Sebastião Belmino Barbosa Evangelista, móvel deste escrito, meu amigo, moleque “safado”, incontinenti nas piadas, decentes ou não, meu contemporâneo no Curso de História da UECE e irmão do Marcos Belmino, o Ponhonhon (falecido), e que hoje ainda é capaz de “fazer hora” até com o juiz Sérgio Moro.

A trupe a que ora me refiro era o segmento intervalar, digamos assim, do ajuntamento pedagógico, configurado nos professores-autores do ensino a distância, em relação ao bloco do segundo tempo da TV do intelectual guaiubense Manuel Eduardo Pinheiro Campos (Manuelito, Manecão) – a raça do papoco, há pouco referida.

De tal modo, conquanto não privassem os jornalistas da total benquerença dos adeptos de Jean-Jacques Rousseau e Lev Semenovith Vygotsky (muitos dos quais de araque, do Paraguai ou Roscoff), não os aborreciam, conforme acontecia (salvante, evidentemente, as muitas exceções) com a camada de técnicos, auxiliares e tantos profissionais arrolados pela legislação do radialismo nacional, provindos da Televisão do Indiozinho, da qual os tuxauas paulofreireanos guardavam o devido afastamento.

O Seu Geraldo, que a canalha logo apelidou de Geraldo-Cacete, procedia do interior do Ceará e era o vigia noturno da TV Educativa. Ele sempre portava um pedaço de pau, quando de suas andanças pelos lados de fora da Emissora. Era interessante nas suas conversas matutas e todo mundo caçoava dele, quando, por exemplo, ao atender ao telefone, saudava o cliente, dizendo:

– “ALÔ! É DA CANAL CINCO!”.

De certa feita, ele criticava os noticiários sobre as navegações interplanetárias dos soviéticos e estadunidenses, ao exprimir como mentiras a ideia de que o homem jamais foi à Lua, como era consabido pelo Mundo inteiro, em especial com a visita da Apollo Onze ao Satélite terrestre, em 20.07.1969, por Neil Armstrong e Edwin Aldrin.

A este pensamento expresso, o Sebastião Belmino observou:

– Deixa de ser besta, Geraldo, que o homem não quer mais saber de ir à Lua; ele vai agora é ao Sol!

Enraivecido, então, o Geraldo-Cacete disse de imediato:

– Só se for pra tocar fogo com o Sol naqueles avião véi deles!

A isto, pois, o Belmino ajuntou:

– Geraldo, tu é de lascar! Os astronautas não vão “de dia”, que eles não são abestados! Eles vão é “de noite!”

O Geraldo, então, respondeu, convencido:


– AH, SENDO ASSIM, EU FICO CALADO!



COMENTÁRIO:

Lendo “Geraldo-Cacete (Crônica para a História da Televisão Cearense)”, de Vianney Mesquita, lembro que eu tive o programa “Pense!”, na TV União, em 2005. Cheguei até a gravar dois programas em Paris: um, com o escultor brasileiro Jaildo Marinho, na Torre Eiffel e Museu do Louvre; outro, com a escultora francesa Roseline Granet, em seu atelier.

Totonho Laprovítera.

CRÔNICA - Delação Premiada - 1ª Fase (RV)


DELAÇÃO PREMIADA
(Primeira Fase)
Reginaldo Vasconcelos*


Então eu falo. Eu entrego. Vou dizer tudo que sei, contanto que o rolo compressor dos politicamente corretos e dos implacáveis militantes dos “direitos humanos” (e demais fascistas disfarçados) não me lancem nas masmorras medievas modernosas das mídias sociais. 

Vou delatar os falsos ícones da ética social e da moralidade pública, que se consideram intocáveis, mas que são os “sepulcros caiados” da República. Mas não direi nenhuma novidade. Como no caso da Operação Lava Jato, eu apernas gritarei que o rei está nu, como todos sabem, mas não dizem. 

O primeiro vilão que cito é a pós-verdade, a falsa verdade, a mentira que se institucionaliza no País, na crença do povo, na legislação proposta e promulgada por políticos de má cepa, eleitos pela grande falsidade do escrutínio universal, que nivela os cidadãos lúcidos a todos os simples, os tolos, os desinformados, os apaixonados, os mal-intencionados, os absolutamente iludíveis pela propaganda eleitoral.

O voto secreto e obrigatório, método falsamente tido como símbolo das virtudes democráticas, não configura de fato a representação legítima dos mais elevados interesses da Nação, como a res publica pressupõe. A começar pelo fato de que a metade mais um não estão certos, necessariamente, e que a sua opinião não deveria esmagar o entendimento e a vontade da outra metade menos um.


A maioria muita vez está errada, e a experiência já mostrou, e vem mostrando no Brasil, diante de um Congresso vergonhoso e de um Executivo ridículo que se elegeu recentemente, e que tem nomeado Ministros as figuras mais esdrúxulas, figurinhas carimbadas da delinquência política na República brasileira.

É preciso delatar, em seguida, os absurdos da lei brasileira, que muito justamente proíbe discriminação social, a não ser em razão de grau de escolaridade ou de cabedal econômico. É notório que os mais doutos e os mais ricos podem mais, e portanto nem todos são iguais perante a lei.

Os incultos e os pobres são maiorias, mas as minorias não se podem preterir, constranger ou molestar, em função da categoria sexual a que pertençam, religião que professem, etnia de que procedam, ou qualquer outra condição pessoal especial que ostentem os indivíduos, e eu não trago aqui notícia-crime contra quem, nesse particular, infrinja a norma. 

Entretanto, delato as patrulhas ideológicas que invadem a intimidade psíquica das pessoas e das massas para censurar sentimentos e impor convicções, como se a democracia fosse uma via de mão única, que não é, e o direito de pensamento e expressão tivesse um campo proibido, que não tem.

Se cada um no País tem franquia para ser homem ou mulher, branco ou preto, nacional ou estrangeiro, católico ou muçulmano, judeu ou cigano, ninguém está obrigado a gostar do que deplora, conviver com o que lhe desagrada, aplaudir o que desaprova – até porque todo cidadão tem direito de ser idiota – este sim, um grande postulado democrático. 

Então, ninguém pode ser rotulado de machista ou racista, nem “diagnosticado” de xenófobo ou de homofóbico, pois apreciar isso ou aquilo não é distorção de caráter nem tem vezo patológico, pois é uma livre prerrogativa cidadã – desde que não se agrida, de forma alguma, a esfera jurídica dos antípodas.      

No campo do Direito de Família, por seu turno, cito nesta delação que filho biológico insuspeitado, havido no passado por descuido em relação eventual, criado sem perfilhação afetiva do pai, que apareça de repente na vida deste, não deveria realmente ter direito a um quinhão do patrimônio sucessório, parelho ao dos irmãos tidos e criados de forma intencional e consciente, se a família constituída não quisesse. Bastaria pensão alimentícia, observado entre as partes o binômico necessidade-possibilidade financeira.

Do mesmo modo que filho adotivo não é filho de verdade, e jamais o será, pois o preito afetivo não tem o condão se revogar a biologia e a genética. Pode o filho adotado receber todo o carinho e atenção dos adotantes, e adquirir os mesmos direitos sucessórios dos demais filhos, sem que por isso possa hastear a mentira legalmente tolerada de que seja consanguíneo, porque a verdade é soberana, ou deveria sê-lo.

Nessa mesma vibe, casais de homens ou de mulheres podem adotar quantos quiserem, mas não têm filhos de verdade entre si – nem se pode ter dois pais varões, ou duas mães viragos, ao contrário do que a lei tem admitido. A mera vontade das pessoas, ou a aclamação social, ou mesmo o esquizofrênico abono legal, nada disso pode alterar a pragmática realidade.


Na área do Direito Criminal, é preciso denunciar que a grande massa delinquente encarcerada não deveria ter  direito aos benefícios da Lei Penal, mas sim às prerrogativas que a mesma lei prevê para os acometidos de doenças psíquico-sociais, as chamadas “sociopatias”, que os levam a condutas ilícitas, de forma compulsiva, reiterada, profissional.

Assim diagnosticados, deveriam os bandidos perigosos, violentos, contumazes, ser imediata e completamente  segregados, por “medida de segurança” e não em caráter punitivo, para que, primeiramente, ficasse a sociedade, sem delongas processuais, protegida de sua sanha e perversão.

Seriam internos ainda para que se submetessem a tratamento psiquiátrico especial, por tempo indeterminado, sem possibilidade de penalidade alternativa, de liberdade provisória, de saída temporária, de progressão de regime – dependentes apenas de alta médico-legal, exarada por junta de especialistas forenses – se e quando fossem tidos por “curados”, portanto perfeitamente aptos ao convívio social.

A grande mentira ideológica que delato acima, em síntese, é a errática concepção hiperurbana de que as pessoas já nasçam cumuladas de direitos sociais, sem qualquer implícita obrigação de prestar contrapartidas. Todos os indivíduos devem receber do Estado idênticas oportunidades, que devem então aproveitar. Em não o fazendo, ficam por conta da caridade pública, do altruísmo espontâneo e da previdência social.

Essa equação torta que prescreve direitos divinos a todos, sem o correspondente em obrigações, não está escrita nas estrelas, pois a verdade ontológica que norteia a grande lei universal é a justiça do mérito. É preciso fazer por onde merecer a cidadania e os benefícios sociais, pela dignidade e pelo esforço pessoal, independentemente da classe econômica a que pertença.


CRÔNICA - Hébio Viu o Mar (WI)


HÉBIO VIU O MAR
Wilson Ibiapina*


A televisão perde um bom editor de imagens, o Hébio Lacerda.

Ele começou na Rede Globo em Brasília, ao lado do Wellington Borges e do Valdimir. Tinha dois vícios: fumava feito caipora e jogava no bicho diariamente. A diabetes lhe pegou pelo pé, cortando, também, seu sonho de ganhar um bom dinheiro no jogo para conhecer o mundo.

O Oceano Atlântico banha a costa brasileira de norte a sul. Mas o Hébio Lacerda, que era do interior, mudou-se para Brasília ainda menino, onde cresceu sem nunca ter visto o mar.

Quando trabalhávamos na mesma empresa, cheguei a convencer o Toninho Drummond, editor regional, a colocá-lo na equipe que foi ao Peru, cobrir viagem do Presidente Figueiredo. Foi sua primeira viagem internacional. Ficava deslumbrado com tudo que via.


Em Lima, depois de editar e mandar o material para o Brasil, fomos mostrar o mar ao Hébio. O Álvaro Pereira estava junto. “Hébio, esse é o Pacifico. Pacifico, conheça o Hébio”. Um privilegio de poucos brasileiros. Não sei se depois ele chegou a molhar os pés no Atlântico.