É
DE DAR DÓ
Reginaldo
Vasconcelos*
O País
está dividido entre um grande contingente de pessoas pragmáticas e lúcidas, e outra
massa humana, também numerosa, de indivíduos passionalmente alucinados, encantados
por um sonho dourado, imbuídos de uma pretensa causa épica, heroica e justa, cultuando
e seguindo cegamente uma liderança demiúrgica.
Cada um dos dois grupos é ainda amalgamado pelo espírito de corpo, pelo sentimento de manada – uma saborosa pulsão gregária natural do ser humano, que consiste em se sentir irmanado a outros de mesmo ideário, destino e paixão, compondo uma uníssona multidão, como se verifica na devoção futebolística.
Hoje eu tenho estimados parentes e amigos ideologicamente capturados pela horda mítica, que a princípio me inspiravam respeito democrático, o que me fazia abster de especular a cerebração controversa que portavam, focando as nossas relações em aspectos da vida e da memória, afetuosamente compartidos.
Na minha infância, quando alguma coisa me frustrava e eu me queria revoltar, minha mãe me indagava, repreensivamente: “Você está com pena de si mesmo!?” – o que me fazia abandonar a vertente queixosa e derrotista e adotar uma atitude proativa. Desde então introjetei que ser objeto de compaixão, de si ou de outrem, seria desonroso e aviltante.
Mas não nos compadecemos dele, que logo se revelou resignado ao desígnio de Deus e feliz com o copo da sua sorte quase cheio, com apenas dois dedos de ar abaixo da borda, margem suprida por seus muitos talentos e pelo carinho da família. Até porque os olhos de sua alma e da sua inteligência enxergam longe.
Mas hoje eu não consigo evitar o impulso indômito de devotar um profundo sentimento piedoso e solidário àqueles meus queridos amigos e parentes, ante a desdita de que foram acometidos: a cegueira intelectual aparentemente irreversível sobre os evidentes fatos históricos, bem como sobre a verdadeira índole de personalidades estrangeiras antigas e de personagens nacionais contemporâneos.
Parece que vão morrer e secar negando a luz, tateando nas trevas, aferrados ao equívoco, sem a graça de ter o vislumbre revelador da realidade que os cerca. É realmente de dar dó.



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