O DESPERDÍCIO
DA MADRUGADA
Valdester Cavalcante Pinto Jr.*
Não queiras ser amigo do
sono
para que a pobreza não te oprima.
(BÍBLIA. Provérbios, 20,13.)
QUARTETOS DO SONO
Vianney Mesquita
Senil sono soez, razão pretexta [ê],
Vetusta sorna cujo uso apresta
Segunda e terça e quarta e quinta e sexta,
Em cama, rede ou estrado bate a sesta.
No sabatino, ainda, o quase autista,
Desidioso e tardo, se contrasta
No concernente ao abstencionista
Averso ao tempo que aqueloutro gasta.
No domingo, inclusive, não malgasta –
Conquanto a aleia camarada insista –
O tempo em modorras dessa casta,
A fim de ignavos se omitir da lista.
Tranquila ideação a estória ilustra
Pois bom emprego temporal se exorta
E ao preguiçoso renitente frustra
Por não querer adentrar esta porta.
Sempre tão discretos na chegada e demasiado insolentes quando permanecem, os anos vão consumindo o sono aos poucos, como quem subtrai parcelas de uma dívida que jamais termina de ser paga. E, para tornar a velhice ainda mais pedagógica, algumas das mazelas que a vida foi acumulando pelo caminho descobrem, sabe-se lá por qual refinamento de crueldade, que a madrugada é o momento mais apropriado para reivindicar protagonismo.
É, então, que aquela antiga e civilizada sensação de acordar refeito sobra pertencendo a um passado remoto, provavelmente à mesma época em que os joelhos obedeciam sem protesto, as pernas não formulavam reivindicações trabalhistas e o corpo ainda não fazia questão de enviar, durante a alva, relatórios circunstanciados sobre suas pequenas e numerosas tragédias.
A aurora tornou-se, com efeito, o grande tribunal das preocupações. Deitado, no escuro, a pessoa acha de examinar problemas que, durante o dia, pareciam perfeitamente administráveis. À noite, porém, adquirem proporções épicas. Uma dificuldade qualquer se transforma numa crise existencial. Dúvida banal assume a (in)dignidade de enigma metafísico. Configura um ponto que não dá chance a soluções com urgência administrativa, um desfecho sem possibilidade de acontecer.
Existe, aliás, uma espécie de solenidade ridícula nesse procedimento. O cidadão fica o dia inteiro ocupado com coisas concretas e, quando chega – empós tanta demora – o momento de repousar, sua inteligência resolve se dedicar ao abstrato, improvável e absolutamente inútil. É como se o cérebro, depois de cumprir expediente, resolvesse abrir uma repartição clandestina durante o alvorecer, exclusivamente para protocolizar preocupações que ninguém solicitou.
O detalhe mais divertido — se nisso existe graça — é que, mesmo quando há solução, ela raramente se encontra às três da manhã. O período noturno ante solar não costuma produzir desenlaces, pois, quando muito, enseja versões mais sofisticadas dos problemas. É o expediente em que o cérebro trabalha horas extras exclusivamente para concluir que não sabe o que fazer.
E, como se isso não bastasse, costumeiramente, ainda mostra a descoberta como se representasse grande revelação.
“É preciso pensar nisso”.
Sim, é preciso; mas amanhã, uma vez tomado o café. Após uma noite de sono. Depois que a questão deixar de parecer o fim da civilização e voltar a ser o que sempre foi: um pequeno aborrecimento que ganhou dimensões monumentais porque encontrou um homem acordado às três da manhã.
O ofício, naturalmente, também presta sua generosa contribuição ao
martírio. Depois de um dia inteiro em pé, as pernas, que aparentemente
desenvolveram “consciência” própria, resolvem iniciar uma rebelião, quando o
restante do organismo suplica por tréguas. E lá vêm elas: inquietas,
impacientes, insubordinadas — como se tivessem passado o dia inteiro esperando
a hora de declarar guerra ao sono.
E assim se completa o espetáculo: o corpo quer dormir, as pernas intentam protestar e a cabeça, essa incansável funcionária pública da desgraça, decide convocar uma reunião extraordinária para discutir tudo o que não é passível de ser resolvido antes do amanhecer.
Não há pauta. Não há ata. Tampouco deliberação. Existem somente pensamentos propagando-se em círculos, com a respeitabilidade burocrática de uma repartição que funciona há décadas sem jamais ter produzido um resultado.
O caso, portanto, remansa em saber como explicar a esse velho que problemas verdadeiros ou imaginários, graves ou ridículos, urgentes ou absolutamente inúteis, precisam respeitar o horário comercial.
Problema algum deveria ter acesso à mente depois das dez da noite. Se for realmente importante, que espere o sol nascer. Se não tiver condição de aguardar, provavelmente, não é tão importante assim. Caso, todavia, continuar insistindo ao correr da matina, que ao menos tenha a decência de oferecer uma solução. Isto porque permanecer acordado para pensar em um problema sem resolução é uma espécie particularmente refinada de estupidez: uma ideia que só floresce depois da meia-noite e que, infelizmente, encontrou no velho seu mais fiel patrocinador.
Tente, entretanto, explicar isso a ele.
A pessoa anosa personagem desta croniqueta, naturalmente, não ouvirá. Estará ocupada demais, às 3h40 da manhã, resolvendo mentalmente a vida inteira — inclusive problemas que ainda não aconteceram, outros que já passaram e alguns que jamais existiram. Tudo isso, evidentemente, com a seriedade de quem acredita que o destino da humanidade depende de não conseguir dormir.
Essa constitui uma das mais curiosas perversidades da condição humana: receber uma mente capaz de imaginar o infinito e decidir empregá-la, no curso da antemanhã, para reconstituir uma conversa ocorrida há quinze anos, antecipar uma desgraça que jamais acontecerá, ou encontrar, pela décima segunda vez, uma solução para um problema que já deveria ter sido esquecido. Há quem chame isso de reflexão. Outros preferem nominar de prudência. A madrugada, mais honesta, sabe que muitas vezes não passa de desperdício intelectual com pretensões filosóficas.
É neste ambiente que reside a ironia maior: enquanto alguns passam
a noite tentando resolver dificuldades que não têm condição de afastar, outros
conseguem transformar a própria cabeça numa espécie de depósito de
quinquilharias mentais, onde se acumulam ressentimentos, hipóteses, temores,
lembranças, conjecturas e outras inutilidades cuidadosamente guardadas como se,
em algum momento, alguém viesse pagar bom preço por elas. Não vem. O amanhecer
chega, bem diferente para os entorpecidos insertos numa das epígrafes: a vida
continua e a maioria dessas preocupações revela, como fecho dessa estória, a
sua verdadeira importância: NENHUMA!

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