domingo, 27 de setembro de 2026

CRÔNICA - Menininha (MJS)

 MENININHA
Maria Josefina da Silva* 

 

Sentada de pernas cruzadas, na posição de Buda, está ela. Menina, linda, se olhando no espelho, absorta em seus pensamentos... Olha-se no espelho com leveza, pega um pincel de maquiagem e passa suavemente nos olhos, na face, na testa. Sacode os cabelos para o lado, se admira. Só ela e seus pensamentos. 

Deve estar imaginando as mais belas histórias a serem vividas, e pensa: “Como serei quando ficar moça? Com quem vou namorar? Vou me casar? Ter filhos? E o que vou ser? E ali, perdida em devaneios infantis, está ela. Imóvel. O mundo parado ao seu redor. Só ela e o tempo imaginário. Só ela e seus sonhos.

(Crédito: Rhei Gauthier/PublicDomainPictures.net)  

De longe, quieta para não ser notada e não perturbar aquele momento mágico, estou eu. Emociona-me ver a cena. Recuo no tempo de forma abrupta. Vou lá para uma infância bem diferente da que ela vive. Vejo-me na menininha, naquilo que não vivi, nos sonhos que não tive, nos projetos tímidos de uma vida restrita a um mundo tão pequeno... 

Meu coração chora pelo que não tive, mas que deixou saudade. Pelo sofrimento imposto por um mundo duro, e que cedo me trouxe a dor. Meu coração chora pelos sonhos frustrados diante da realidade limitante e autolimitada. 

(Crédito: Rhei Gauthier/PublicDomainPictures.net) 

Recuo no tempo e me vejo sentada, como aquela menininha, agora refazendo o que deixei para trás e que me era tão precioso. Preciosos foram os momentos de liberdade de brincar sem medo nas ruas, de correr loucamente na chuva, até ficar com os dedos engelhados, os lábios roxos e o corpo tremendo de frio. De fugir para a casa dos vizinhos e comer por lá mesmo, pois não podia perder a brincadeira. 

Recuo no tempo e vejo aquela menininha já “moça feita”. Agora sentada na penteadeira, ficando bela para encantar o menino que faz bater mais forte seu coração e provocar calor no rosto. Aí eu me pergunto: “Será que ainda é assim? Faz tanto tempo... tudo mudou tanto... E aí fico melancólica, pensando que se perdeu muito da beleza e do encanto da vida. 

Fico imaginando como quando for adulta. Conhecerá o amor e sofrerá por ele. Sempre se sofre por amor! Sempre! Mas... sem amor não se vive. E me pego desejando que ela encontre um amor sereno, doce, amigo e antigo. Protetor e parceiro. 

Envolta em meus devaneios, nem percebo que agora é a doce menininha que olha para mim, surpresa pela minha presença e pela minha aparente ausência... Ela pergunta: “Você está bem?” Eu respondo: “Bem como nunca estive antes”. Agradeço a ela pela “viagem”.


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