quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

CRÔNICA - O Livro (RV)


O LIVRO
Reginaldo Vasconcelos*


Acabei de ler um livro que ganhei de um grande amigo, leitura que fiz com muito vagar, algumas páginas antes de me recolher a cada noite. Cheguei à última folha do livro na véspera do natal, e então fui alcançado por uma nostalgia inesperada, ao devolver à indiferença da estante os inúmeros personagens com que convivi, e os ambientes oníricos em que eles se inseriam.

Na confraternização natalina, família reunida, aquela sensação de desalento repetiu-se. Percebi que estávamos depositando na estante da vida um elenco bem maior de benquerenças, de tantos integrantes das gerações antigas que não foram contados desta vez.

As duas derradeiras matriarcas se foram nos últimos meses, e então descobrimos que elas ainda detinham a representação viva da parentela mais antiga, que se vinha reduzindo a cada ano. A partida das duas fechou o primeiro tomo da família, convertendo o que era a doce alegria da dita "noite feliz" em taninos de saudade e de esperança.

Assim, a história real que vínhamos escrevendo havia anos terminou abruptamente entre os sinos de Noel  com final feliz, é verdade, pois o longo roteiro da nossa vida não passou por dores e tragédias. Todos os atores que povoaram a saga que escrevemos por meio século se retiraram do palco da vida sob aplausos efusivos, sem nenhum trauma maior, com as suas metas cumpridas e com as suas falas concluídas.

Há cinquenta anos a velha casa avoenga da Avenida Dom Manuel se enchia de odores de baunilha, que dimanavam da cozinha, trescalando ainda o cheiro das fornadas de peru e pernil, hálito culinário dos doces e assados que venciam o comprido corredor e atingiam a copa, de soalho marchetado com faixas de madeiras, uma preta e outra amarela, piso que cheirava ao querosene e à cera Cachopa da recente lustração.

Minha avó, filha de carioca e neta de inglês, se mantinha sempre a meio metro da mesa da cozinha e a dois metros do fogão, de onde apenas estimulava a criada para as tarefas triviais, que esta conhecia bem, enquanto a despensa somente o meu avô supria e administrava.

Mas nas festas de fim de ano, e só então, Dona Jurema Dowsley metia literalmente a mão na massa, para espalhar farinha de trigo sobre o mármore e elaborar os seus pasteizinhos, que eram o único item de seu caderno de receitas, fórmula ágrafa que somente no natal ela punha em prática e que foi com ela para o além.

Avós, pais, tios, amigos mais chegados, muitas vezes os hóspedes vira-mundos que não faltavam na família, as respectivas consortes. Era da sala de visitas para a larga calçada que corria a cervejada, uísque para os que preferiam, algum vinho para as mulheres, os homens discutindo os problemas do mundo em tão alto volume que pareciam estar brigando. Os meninos corríamos agitados entre a "gente-grande", excitados com a expectativa dos presentes esperados. 


Sem mais os avós, desfeito o ninho original, as festivas reuniões de família se passaram para os domínios do  Tio Osiris – para o sítio, para a fazenda – ou para os espaços da minha casa na Avenida Desembargador Moreira. Por fim, nas últimas décadas, para o meu endereço atual, que ainda foi frequentado a cada natal por um grande elenco dos antigos.

Mas todos os adultos daquele ambiente já se despediram do mundo, salvo algumas mulheres, que são sempre mais longevas. A terceira leva, a que pertenço, toma a dianteira na fila, já a páginas tantas do romance da existência, faltando poucos capítulos para alcançar a contracapa. Fechou-se um ciclo. Filhos adultos e sobrinhos, netos e sobrinhos-netos, já rascunham para o futuro um novo volume de memórias.



CONVITE - Ensaios Sobre o Cinema Moderno

ENSAIOS SOBRE O CINEMA MODERNO

Regis Frota Araujo, da Academia Cearense de Cinema, convida para o lançamento de seu mais recente livro sobre a cinematografia brasileira. 


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

CRÔNICA NOELINA - Noite de Natal (KK)


NOITE DE NATAL

Karla Karenina*


Hoje será noite de Natal?!
Dia do simbólico nascimento do Cristo?
Eu nunca entendia porque as pessoas se referiam ao
mestre como menino. Nunca havia mesmo parado para pensar, mas achava 
meio bobo quando as pessoas se referiam a ele como se ainda fosse uma criança. 
Não associava o salvador das almas ao “Menino Jesus”.
Para mim, a mensagem do homem em nada se associava ao bebê na manjedoura.
A imagem poética de uma família de sofredores em algum lugar distante e dissociado da minha realidade, sempre me remetia a tristes fantasias! Jesus na minha imaginação de criança sempre foi triste! Não era uma noite feliz, como contraditoriamente, se entoavam nos cânticos natalinos.
Hoje é Natal?
Ruas enfeitadas, cheias de brilho, luzes 
e cores enquanto os verdadeiros meninos e homens de famílias
de sofredores padecem em  manjedouras não tão diferentes de há 2 mil anos.
Hoje é Natal e não tenho nada a comemorar em volta de mesas cheias de comida e vazias em 
real significado. Casas cheias de hipocrisia em nome do homem que caminhava nas ruas entre os miseráveis. Nunca entenderam sua vida e martírio?!
Não. Não é uma noite feliz para mim a tal noite de Natal.
A cada ano menos semelhança percebo com a noite de nascimento do Cristo.
O dia é destinado aos shoppings e à superficialidade... nada mudou. Quando em vez, alguns 
grupos de pessoas arrecadam alimentos, roupas, brinquedos em benefício dos que nada tem o tempo todo.   Bela iniciativa como consolo ou atenuante da disparidade de condições de se fazer uma festa nos moldes capitalistas: a mensagem da solidariedade…pois bem, ainda há quem se mobilize para tal; menos mal.
Mas os seguidores do Cristo tem outras idéias o ano inteiro, todos os anos! 
Ideias bem diferentes das do “mestre”. A noite de Natal é mais uma noite. Mas uma 
noite enfeitada, farta, colorida, teatral… Sim, teatral! Famílias perfeitas de comercial 
de margarina, roupas e sapatos novos, perus, textos para serem lidos e orações proferidas...festa 
em família! Amigo secreto, elogios... a árvore montada cheia de presentes em baixo...para as crianças a história do Papai Noel (???) ...
Nesse dia se envia mensagens lindas, se deseja tudo de melhor e poucos dias depois outra festa 
e mais luzes, mais comida, bebida, fogos para a virada de um ano velho para um novo, tudo de novo. (muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender)...
Não. Não é uma noite feliz!
A essa hora lá no Maranhão pessoas tiveram destroçadas por tratores suas lavouras, suas casas derrubadas por ordem judicial; Crianças feridas e senis nos asilos; Meninos sem dignidade e sem país seguram fuzis nos becos; Mães sozinhas saem pra trabalhar com o coração na mão deixando os filhos sozinhos em casa; Pessoas solitárias se jogam para a morte por não suportar o vazio na alma; Homens são executados por seus pares nas penitenciárias... 
Aí está o Cristo!
Ele não é mais um menino na manjedoura há muito tempo!!! Ele já voltou milhares de vezes! E continuamos esperando o quê para amadurecer a nossa “Humanidade”? Não, não tem nada de feliz nessa noite no mundo.
Enquanto um de nós estiver triste, o mestre estará triste! Contudo, ainda terá esperança. 
Sim, o mestre sempre volta no coração daquele que se fizer verdadeiramente inteiro para o amor universal e para isso não será necessário representar nenhum papel em nenhum espetáculo cheio de luzes, fantasias, pratos sofisticados e nem orações jogadas ao vento! Não será mais preciso uma noite dita feliz! Todas as noites serão verdadeiras e felizes em qualquer cenário dentro do ser mais profundo! Sim, é lá que mora a nossa criança! E só ela pode entender o que é o verdadeiro amor! Então, quando despertarmos para essa 
criança, serão noites de Natal!


domingo, 23 de dezembro de 2018

CRÔNICA - O Palhaço (RV)

O PALHAÇO
Reginaldo Vasconcelos*

Estava de passagem na cidade sertaneja em que a família tem origem, sentado à mesa de uma sorveteria, na esquina da rua principal, tomando um refrigério contra a canícula da tarde que findara, quando passou pelo outro lado da calçada, descendo placidamente a rua na hora angelus, um homem usando calças frouxas até o meio das canelas, de cetim quadriculado como um tabuleiro de xadrez, vermelho e amarelo, suspensórios cruzados nas costas sobre a camiseta, sapatos longos e meiões verdes.

Aquele ponto da rua não é bem iluminado, por conta das lâmpadas amarelas, da cordilheira de sobrados que produzem sombras e da arborização frondosa. Então, como quem quer decifrar a inusitada figura que divisa, apurei a vista na direção daquele transeunte bizarro que flanava mansamente, sem chamar atenção de ninguém, e sem parecer querer fazê-lo.

Ele, que marchava de cabeça baixa, notou a minha mirada, então me olhou com simpatia, mas com seriedade, quando então percebi o nariz vermelho e a pintura característica no seu rosto. “É o palhaço...”, ele disse docemente, como a me tranquilizar, fazendo, com o polegar, sinal de positivo. Ainda meio impactado, assenti levemente com a cabeça, sem lhe responder o gesto amável.

O rapaz voltou o rosto para o chão e continuou o seu caminho, contrastando a alegria circense da sua indumentária com a tristeza do seu passo, enquanto enternecido eu o fitava pelas costas, a diminuir paulatinamente na perspectiva daquela rua antiga, exatamente onde eu mesmo aprendi a andar, há mais de meio século.

Eu sei que as cidades pequenas têm lá suas figuras emblemáticas – o prefeito, o juiz, o padre, o delegado, a prostituta rainha, o doido de rua – mas o palhaço municipal era novidade absoluta para mim.

Primeiro senti um imenso remorso de não ter correspondido efusivamente ao seu gesto amistoso – o homem grave, grisalhaz e barbicundo, que ele percebeu ser forasteiro, e certamente imaginou miudamente fosse a encarnação ou o fantasma de um dos muitos velhos do passado da cidade – e então apresentou as suas credenciais de ninguendade: “É o palhaço...”.

Depois fiquei filosofando sobre a imunidade absoluta a que os palhaços têm direito, em qualquer lugar do mundo, enchendo a vida de ledice e de brandura, somente superados pelo prestígio dos bombeiros sapadores, a categoria que mais se aproxima da classe sublime dos anjos, a salvar os inditosos e a resgatar os nossos cadáveres nos infaustos do destino. Refleti que, se todas as cidades têm seus corpos de bombeiros, deveria cada uma ter o seu palhaço oficial, que andasse pelas ruas proclamando aos visitantes que o município é feliz e o povo é de muito boa paz.



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

PRESENTE DE NATAL - Evaldo Gouveia e a Canção da Academia


EVALDO GOUVEIA
TOCA E SOLFEJA
A CANÇÃO DA ACADEMIA



ACIONE O LINK ABAIXO PARA OUVIR







CÂNTICO CEARENSE

CANÇÃO DA ACADEMIA CEARENSE
DE LITERATURA E JORNALISMO
Música de Evaldo Gouveia
Letra de Reginaldo Vasconcelos
  

Da velha cruz de Pinzon no Rostro Hermoso
perene sopra a brisa, cálido verão

Das dunas que as jangadas contemplam do mar
aos vaqueiros que desbravam o sertão.

Este é o meu Ceará, terra de Patativa e Alencar
de alegria sem par, gente que se engrandece na dor

Em cada lavrador um saltimbanco ou um trovador,
mamulengo ou cordel, negro maracatu

Jaguaribe, Icó; Quixadá, Iguatu; Juazeiro, Ipu; Fortaleza do amor,

Aqui chove estro e inspiração, nasce a flor,
poema em prosa e verso abrasador.

Deu no jornal, se publicou, que a nossa casa de literatos tem vigor.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

ARTIGO - Delinquência Judiciária (DJ)


 DELINQUÊNCIA
JUDICIÁRIA
Reginaldo Vasconcelos*


De fato, reza a Constituição Federal, no inciso cinquenta e sete de seu artigo quinto, que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Foi nesse preceito que se baseou o Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, para atender ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), expedindo uma liminar para conceder liberdade imediata ao ex-presidente Lula da Silva. Sim, digo eu, “não me venham com chorumelas”. A nova política está chegando para proscrever a hipocrisia e a “pós-verdade” da vida pública brasileira. Nenhum de nós é idiota. 

De fato, o objetivo do empedernido partido marxista que impetrou a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) não era a liberdade de mais de cem mil presos sofrendo execução provisória da pena, por condenação em segunda instância, em todo o Brasil, pois a pretensão processual do partido era somente o esganiçado grito de “Lula livre” – e até as pedras sabem disso.

Destarte, a decisão de Marco Aurélio teve escopo muito mais político que jurídico – até porque, apenas para firmar posição em controvérsia de entendimento entre ele e outros vogais, não iria o Ministro atropelar jurisprudência recente do Plenário, afrontando a pauta que fora definida havia apenas dois dias, pelo Presidente do Pretório.

Dias Toffoli marcara o julgamento definitivo da questão para o próximo mês de abril, de modo que cometeu um verdadeiro acinte institucional o Ministro Marco Aurélio, ato de manifesta delinquência judiciária. Mais grave ainda, fazendo a manobra espúria de exarar decisão monocrática na undécima hora, antes do recesso da Justiça, como para manietar opositores – alegando na imprensa não se preocupar com a repercussão negativa e as consequências de seu ato, por já estar próximo da sua aposentadoria.

No mérito, a Constituição Federal é uma baliza, não é um grilhão, de modo que cabe ao Supremo Tribunal analisar e interpretar as disposições constitucionais, considerando a presente realidade nacional, e levando em conta a reserva do possível, para aplicar a norma de forma proativa – pois para entender a literalidade dos artigos da Carta Magna qualquer leigo estará apto.

Cada preceito constitucional e legal positivado, que é imutável, contém uma norma, e é precisamente esta norma ali contida que precisa ser apreendida e aplicada pelos magistrados com a necessária temperança, à luz da realidade fática, para que não se procedam injustiças, teratologias e aporias jurídicas com base na interpretação rasa da norma. 

Claro. Por exemplo, a Constituição Federal, logo em seu artigo sexto, impõe que “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados, o que também não é e nem poderia ser aplicado ao pé da letra, porque a literalidade do artigo não se compadece com a realidade das finanças públicas nacionais.

Sim, a Constituição e o Código Penal dizem que ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado, deixando em aberto que o trânsito em julgado já se consolida na segunda instância da Justiça, o que acontece quando o tribunal competente confirma a sentença do juízo singular.

Não existe “terceira instância”. Estando a culpa formada, de acordo com o quadro fático e jurídico escrutinado nas duas únicas instâncias, “noventa e nove por cento” da ação penal está definida, restando ao réu recorrer aos Tribunais Superiores, mesmo com pouquíssima chance de que seja possível alterar algum detalhe do julgado.

Esse é um esforço extremo, exclusivamente para o exame de questões de Direito – a exata classificação do crime ou a dosimetria da pena, por exemplo – que não terá o condão de elidir o que já foi apurado anteriormente nos autos. E esse “um por cento” que ainda resta para o fim do processo já justifica a execução provisória da pena – é o que o plenário do STF concluiu, em 2016.

Todos sabemos que muitas vezes esses recursos aos Tribunais Superiores são meramente protelatórios, e se acumulam nas pautas dos elevados pretórios, levando o trânsito em julgado definitivo das sentenças penais para as calendas, demorando décadas – o que favorece flagrantemente a impunidade dos culpados, fazendo com que o crime compense e recompense o criminoso, depois de tão arduamente perseguido pelos estamentos da Justiça.

   

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

REUNIÃO NA TENDA ÁRABE - MOMENTO LITERÁRIO (18.12.18)

REUNIÃO 
NA 
 TENDA ÁRABE
E MOMENTO LITERÁRIO
DA EMBAIXADA


Na noite da última terça-feira (18.12.18), reuniram-se na Tenda Árabe os acadêmicos Arnaldo Santos, Altino Farias, Rui Martinho Rodrigues, Humberto Ellery, Vicente Alencar, Paulo Ximenes, Reginaldo Vasconcelos e Geraldo Amâncio, que se fez acompanhar de seu filho, também poeta, Geikio Alcântara Amâncio.

Sendo essa a última reunião informal da ACLJ antes do natal, Arnaldo Santos gravou uma mensagem noelina dirigida aos confrades, no vídeo abaixo, extensivamente a todo o leitorado deste Blog.






A experiência gastronômica desta vez foi um creme de galinha, especialidade da culinarista Vólia Uliânova, prato evocativo do período natalino no cardápio da família Vasconcelos.

Seguiu-se à reunião a sessão de leitura de poesia e de prosa poética, o “Momento Literário da Embaixada da Cachaça”.




Esta prática artística e performática, internacionalmente designada como poetry slam,  nasceu em Chicago, na Green Mill Tavern, em meados dos anos 80, por inciativa do escritor Marc Kelly Smith, disseminando-se por todo o país e depois pela Europa, e por outras partes do mundo. A palavra inglesa slam refere a poesia produzida para ser lida em público.


Roberto Paiva, cliente da casa, sempre presente entre os leitores, abriu a sessão de leituras com um de seus poemas, seguido por  Altino Farias, que leu uma de suas crônicas burlescas.


Na sequência, o imortal da ACL e da ACLJ Luciano Maia leu um belo poema do  poeta armênio  Daniel Verujan, traduzido por ele, denominado Cruz de Espigas, terminando por dizer de memória, a pedido, um belíssimo poema seu, Pacto, de seu livro “Autobiografia Lírica”: 

“(...) Vai poesia, / Adentra a noite e o sono dos meus pais / e pede-lhes, por Deus, ainda uma benção. / Beija as suas frontes cheias de saudade. / Diz-lhes que eu aprendi mal a lição / copiada no meu caderno Avante / e até as pedras choram meu destino. (...). 

Em seguida, o poeta Paulo Ximenes disse uma das suas peças líricas, em que ele registra a sua admiração intelectual por Luciano, exaltando a prodigiosa verve do confrade.

Humberto Ellery declamou um belo poema de sua autoria, Romeu Duarte fez leitura de uma outra peça do livro “Autobiografia Lírica”, Vicente Alencar também leu peça lírica autoral, assim como Sérgio Simonetti.

O poeta, repentista e literato de cordel, Geraldo Amâncio, por seu turno, disse alguns versos do enigmático Zé Limeira, dito o Poeta do Absurdo, versejador paraibano da década de 50, do qual se questiona a existência física, que Amâncio confirma – embora considerando a possibilidade da exploração de seu nome e de seu estilo por outros rapsodos. 

Uma anônima e elgante cliente da Embaixada animou-se a participar, dizendo de cor o Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes, agraciada com uma chuva de aplausos dos poetas presentes e do grupo de jovens que a acompanhava. 





O acadêmico Sávio Queiroz, furtando-se de leituras e de declamações, fez um belo discurso filosófico tratando das refeições que enlevam o espírito – para além de alimentar o corpo nutrindo a alma dos gourmets, antes de cumprir a sua trajetória natural pelo trato digestivo. 



Da sua experiência pessoal de ex-obeso, quando então mais valia a quantidade, Sávio fez uma ode à seletividade alimentar, ao poder divino dos alimentos mais puros e carinhosamente elaborados. 

E citou um certo peixe frito recém-pescado que degustou recentemente na fazenda de um amigo, que o fez perceber a virtude do manjar que, segundo a Mitologia, aos deuses do Olimpo era servido. 

Por fim, Reginaldo Vasconcelos leu uma de suas crônicas, da série Do Prazer e da Morte, de seu livro O Passado Não Passa, performance registrada no vídeo abaixo.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

NOTA JORNALÍSTICA - Rumos Nordestinos

RUMOS NORDESTINOS

A Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (ACLJ) prepara um documento de altíssimo nível técnico, elaborado por uma equipe multidisciplinar de cientistas locais, tendo à frente o seu Membro Efetivo Fundador, o engenheiro e jornalista Manfredo Cássio de Aguiar Borges. O trabalho será entregue em Brasília, com a intermediação da futura Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a quem se pedirá uma audiência.

O nosso confrade Cássio Borges, especialista em hidrologia, reuniu grandes paredros da inteligência cearense para a produção desse trabalho, que receberá o título de “SUGESTÕES PARA O FORTALECIMENTO DAS INSTITUIÇÕES DE DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE DO BRASIL”.

O referido dossiê pretende ser uma contribuição ao Governo Bolsonaro, que toma posse em 1º de janeiro do próximo ano, cumprindo o compromisso de adotar critérios técnicos na formação do Ministério e na composição de suas equipes, abandonando os conchavos políticos deletérios adotados por governos anteriores.

O novo presidente promete mudar as políticas sociais populistas de domesticação da pobreza para a fidelização eleitoral, e a lógica perversa de dar proteção a interesses econômicos pessoais, privilegiando capitães de empresas desonestos, condutas administrativas que levaram o País à bancarrota.

Tendo em vista estas novas diretrizes governamentais, e levando em conta que a vontade política das novas forças decisórias precisará se inspirar na realidade de cada quadrante deste país continental, se faz necessário conhecer as especificidades nordestinas, seus potenciais econômicos e as suas necessidades regionais, em face dos seus aspectos mesológicos e de seu característico regime pluviométrico.
 
O alentado documento disseca em minudência a história, as características e as atribuições de instituições dedicadas aos problemas e ao progresso nordestinos, como, por exemplo, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e o Banco do Nordeste do Brasil (BNB). A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), dentre outras, também é objeto do estudo.

Por fim, escrutinadas todas essas instituições, são sugeridas as ações necessárias para a sua manutenção, a sua reestruturação, a sua revitalização, operando a correção de rumos na direção do enxugamento e da racionalização de sua governança.

Das reuniões, que se realizam para a elaboração do mencionado documento, em espaço cedido pela empresa VSM, do confrade Marcos André Borges, participam o Dr. José Maria Marques de Carvalho, especialista em agronomia do BNB (autor da primeira minuta) e o Engenheiro Cássio Borges (que idealizou a iniciativa).


Com eles, na imagem, o Agrônomo Flávio Viriato Saboia, Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Ceará (Faec), o Dr. José Nicácio de Oliveira, também do staff de técnicos do BNB, Reginaldo Vasconcelos, Presidente da ACLJ, e o Dr. Antônio Eduardo Segundo, um dos grandes especialistas em recursos hídricos do Dnocs.    

ARTIGO - Tempos Estranhos (RMR)


TEMPOS ESTRANHOS
Rui Martinho Rodrigues*



Vivemos tempos estranhos: suicídio, depressão, dependência química e criminalidade em alta. Temos os Centros de Atenção Psicossocial; assistência do SUS, que com todos os defeitos foi um avanço; férias, que eram privilégio de poucos, agora universais; seguro desemprego, bolsas; pensão da Lei Orgânica de Assistência Social.

Temos órgãos de segurança dotados de helicópteros, máquinas que permitem interceptar grande número de telefones simultaneamente; serviços de escuta das transmissões de rádio dos criminosos; armas modernas; laboratórios de polícia técnica; novas leis encarceradoras; registros indeléveis de transações bancárias; Direito premial estimulando colaboração de réus; controle de armas; recrutamento, seleção e treinamento de policiais melhores que no passado. Invocamos desigualdade, ausência do Estado, má qualidade dos serviços públicos, que são alegações verdadeiras. Mas, passamos ao largo da comparação com o passado. Incomodaria o discurso virtuoso. Fatores objetivos são considerados.

A subjetividade, porém, é difícil de ser alcançada por políticas públicas. Restringimos objetivamente o acesso às armas, oferecemos alguma assistência social e os meios aludidos de combate ao crime. Tudo em vão. Civilizações morrem ou se deixam dominar quando desacreditam dos seus mitos e valores, perdendo suas referências. Quando os bárbaros invadiram Roma o Império já estava derrotado. Ele mesmo se destruiu. Judeus, porém, não perderam a identidade, nem passando dois milênios sem território nacional, porque preservaram os seus valores, mitos, referências.

O Ocidente é uma mistura da tradição grega, hebraica e Romana. A grega permitiu o crescimento da Filosofia e da ciência. Os romanos nos transmitiram a tradição jurídica e o pragmatismo. Os hebreus nos deram valores, humanizaram o nosso mundo. O habeas corpus, governo autorizado pelos governados, organizações políticas cujos comandos partem dos cidadãos e dirijam-se ao Estado, impondo obrigações ao destinatário, são exemplos do legado da mistura destas tradições. O povo o desfrutou de bens e serviços. A mortalidade infantil e o analfabetismo caíram. Aumentou a escolaridade. Protegeram-se as minorias.

O grego contribui criando e desfazendo conhecimentos e valores, impulsionando pela crítica a inovação. A maldição de Sísifo que desfaz é desestabilizadora. A velocidade atual da difusão da crítica não deixa tempo para a consolidação de formas e conteúdos formadores do sínolo, essência do ser, segundo a metafísica de Aristóteles (384a.c. – 322a.c). Rompe o equilíbrio entre diacronia e sincronia, destrói a estabilidade identitária.

Metamorfose contínua, sem identidade, não reconhece a si mesma. É crise psicológica, social e política. É anomia. É caos. Leis encarceradoras, treinamento e equipamento de policiais, desarmamento civil, registros e controles são inúteis diante do niilismo, do relativismo laxista e hedonismo de uma civilização sem referências, sem mitos e sem identidade.


domingo, 16 de dezembro de 2018

CRÔNICA - A Tal da Bossa Nova (TL)


A TAL DA BOSSA NOVA
Totonho Laprovitera



Em Natal, Chiquinho e Gera convidaram para o Carnatal os seguintes amigos: Luiz, Cid, Elias, Eliseu, Marcílio, Mário, Valdim e eu. Todos, com as respectivas consortes.

Na viagem, o animado grupo já fazia a base para enfrentar a micareta. Os brincantes chegaram animadíssimos e hospedaram-se num pequeno apart-hotel, na praia de Ponta Negra. Dos dez apartamentos do estabelecimento, o grupo ocupou nove, pois Eliseu acolheu-se na casa do primo Zé Plínio. À noite, no saguão do Cavernas, quando se preparavam para zarpar rumo à festa, o jornal da televisão noticiou o falecimento de Tom Jobim.

–     Não é possível, morreu?! – exclamou Valder, soltando o cigarro e, aflito, esmurrando a mesa.

– Quem morreu, Valdim? – procurou saber Gera.

– Meu amigo Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim...

– E era teu amigo? – perguntou Luiz.

– Mais do papai, desde o tempo da Guanabara... Bebiam juntos no Veloso e, por último, na Cobal.

– Taí, que eu não sabia  – eu disse.

– É, como dizia meu velho dileto Vinícius...

– Que Vinícius? – inquiriu Elias.

– O de Moraes.

Vinícius de Moraes?

– O próprio. Lembro bem: “A bênção, maestro Antônio Carlos Jobim / Parceiro e amigo querido / Que viajastes tantas canções comigo / E ainda há tantas a viajar.”

– Quer dizer que ele também era teu amigo? – interrogou Mário.

– Esse é que era mesmo. Uma vez a gente se encontrou num bar em Recife e ele até ofereceu um poema pra mim e pra Gláucia.

– Valdim, eu não sabia que você era entrosado com esse pessoal... – comentou Cid.

– Tudo começou com o João Gilberto. Imagina que quando eu, ainda criancinha, ia passar férias na casa do papai, lá na Guanabara, ele e a turma toda apareciam pra bater aquele papo. Quando já era tarde, eles pediam permissão para tocar violão e cantar. Papai deixava, desde que fosse baixinho, pois eu já estava dormindo e ele não queria que me acordassem. E não sei se por coincidência ou não, mas foi nessa época que apareceu a tal da Bossa Nova.





COMENTÁRIO

Há fatos curiosos nas entrelinhas da História que uma isolada testemunha, ou mesmo um solitário protagonista revela de repente, como o advento da Bossa Nova ter relação com o sono infantil do “Valder”, incógnita personagem do Totonho Laprovitera em sua crônica.

Dia desses eu estava dizendo que o título da banda Mastruz com Leite, do ex-árbitro de futebol Emanuel Gurgel,  foi inspirado por minha sogra, recentemente falecida centenária, a qual produzia e enviava mastruz com leite para as contusões do filho que jogava Ceará – segundo conta o próprio fundador e dono daquela banda de forró.

Em outro exemplo, o nosso confrade Humberto Ellery conta que o título do programa da TV Globo “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, tão bem aplicado, foi despretensiosamente sugerido por ele ao Paulo Lustosa, seu cunhado, que então era Presidente do Sebrae.

De fato, já ouvi dizer que a maneira suave de se tocar a Bossa Nova, que caracteriza o estilo musical fundado pelo João Gilberto, deve-se ao fato de que ela nasceu e teve os seus primeiros ensaios nos apartamentos residenciais do Rio de Janeiro  naquela época a cidade-estado denominada Guanabara, que era o Distrito Federal – o que condiz perfeitamente com a narrativa do Totonho.

Reginaldo Vasconcelos