terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ARTIGO - Um Governo de Juízes (RMR)


UM GOVERNO DE JUÍZES
Rui Martinho Rodrigues*



O STF, por decisão monocrática de um dos seus ministros, mandou que o Congresso repita a apreciação do projeto de lei contra a corrupção. O plenário do Pretório Excelso ditou o procedimento interno da Câmara dos Deputados, quando da apreciação da admissibilidade do impeachment, rasgando o Regulamento Interno da Câmara dos Deputados. Agindo como legislador supletivo do Congresso, o STF legislou sobre os mais diversos temas, valendo-se da “interpretação conforme” e da “interpretação evolutiva”, pela qual o judiciário diz que se deve ler, nos textos legais, algo completamente diferente do que está escrito.

A segurança jurídica que se dane.
Nos EUA a Suprema Corte andou se metendo a governar. A História denominou o fenômeno como “governo de juízes”. O Presidente Franklin Roosevelt resolveu o problema nomeando mais quatro integrantes para o citado tribunal. Mudou com isso o entendimento da casa. No Brasil tal solução não é possível. A CF/88 tornou o número de ministros do STF cláusula pétrea.

O Congresso se encontra fragilizado pelos escândalos que atiraram lama sobre os poderes Legislativo e Executivo. A presença do contraditório no Parlamento leva ao exercício da autocrítica, o que é muito bom, mas contribui para fragiliza-lo.

O Judiciário é campeão de corporativismo. Não lava a roupa suja em público. O povo pensa que o Poder de toga é o mais puro de todos. Não seria muita coisa levar vantagem na comparação com os poderes políticos. Mas tal superioridade moral é duvidosa.

Temos um tenentismo de toga e uma sociedade cheia de justa revolta contra a impunidade, pensando que o judiciário é mais puro dos poderes, disposta a apoia-lo não só no que concerne ao exercício da sua competência, mas até na usurpação da função legislativa, na judicialização da política e das relações sociais, com o sacrifício da liberdade negocial.

Sim, a publicização do Direito Civil tende a restringir o campo da licitude. Neste o cidadão não é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, podendo decidir livremente por meio da negociação entre sujeitos capazes.

A venda de sentenças e de voto nos colegiados, ou decisões monocráticas nos tribunais estão no horizonte da judicialização da política e da vida civil, ao lado da partidarização criada pelo ativismo judicial. Mas democracia é o governo das leis, não dos homens, quer sejam eles togados ou não.

Saímos do garantismo extremado para a persecução penal sem limites. Primeiro queríamos apenar pessoas antes do trânsito em julgado de sentença condenatória, quando houvesse condenação em segunda instância. Depois se passou a defender a restrição de direitos quando a denúncia formulada pelo Ministério Público fosse aceita como apta para justificar a instauração de um processo penal, sem esperar o resultado do dito processo. 

Passou-se, mais tarde, a querer que a denúncia seja suficiente para aplicação de pena de restrição de direitos. Agora se pretende que a simples menção pelos réus seja suficiente para impedir cidadãos de exercer direitos políticos.


POEMA - Minha Alma (VA)


MINHA ALMA
Vicente Alencar*

A tarde vagueia solitária
e eu
me dou conta de que estou triste.
Os meus reclamos,
os meus anseios,
os meus desejos,
não são ouvidos,
não são atendidos,
não se realizam.

Muitas vezes o amor
é feito de esperas.
Mas,
não pode ser tanto assim.
Minha alma vagueia inconformada,

sem encontrar a tua.


CONVITE - Os Longes (LM)





domingo, 19 de fevereiro de 2017

RESENHA - Programa Dimensão Total (19.02.17)


PROGRAMA
DIMENSÃO TOTAL
19.02.17


Dimensão Total é um programa radiofônico de debates do Jornalista Ronald Machado, pela Rádio Assunção de Fortaleza, na sintonia AM 620 ou pela Web, aos domingos, entre 10 e 12 horas, apresentado por Reginaldo Vasconcelos.



O tema musical de abertura do programa de 19 de fevereiro foi a música intitulada “Cauim”, que se constitui em uma loa de maracatu da lavra do compositor cearense Ednardo, autor de canções célebres e nacionalmente consagradas, em ritmo maracatuqueiro, como “Pavão Misterioso” e “Longarinas”.

“Rainha preta do maracatu / nesse teu rosto de falso negrume / morre de gozo na renda do sol / no pano feito pelos fios d’água / nesse véu de noiva / Bica do Ipu.                (Cauim – Ednardo)

Cauim foi um projeto cultural que Ednardo produziu, filmando e musicando o tema da formação étnica cearense, em 1978, com a participação de grandes músicos nordestinos, em trabalho totalmente acústico, convertido para DVD em 2001.

O primeiro convidado a se pronunciar foi o Professor de História Francisco José Barbosa da Silva, Presidente do Maracatu Rei de Paus, o mais antigo do Estado, apresentando-se, ininterruptamente, em todos os carnavais desde 1954, portanto há 63 anos.




Diante de uma corrente de pensamento entre os carnavalescos locais que pretende descaracterizar o maracatu pintado cearense, interpretando-o como manifestação de racismo, o Professor Francisco José disse que maracatu é arte pura, na verdade um teatro musical, que nada tem a ver com preconceito racial.




O apresentador Reginaldo Vasconcelos fez então a leitura de um depoimento a respeito, do Professor Ricardo Guilherme – jornalista, pesquisador, poeta, escritor, dramaturgo, ator, apresentador de TV, membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo:

“Tenho na ancestralidade o sangue negro que, pelo processo histórico, em contato com outras etnias, se fez morenidade.

Eu me orgulho dessas raízes culturais e o maracatu – ao explicitar o negrume – me sintoniza com a história, não apenas minha, mas do Ceará, do Brasil.

Negrume não é incômodo ou problema para mim. É reconhecimento, pertencimento, afirmação identitária, transgressão contra o racismo”.

E  o professor Francisco José abordou ainda a carência de verbas prefeitorais para o carnaval, bem como os critérios políticos adotados pela Secretaria da Cultural na classificação das agremiações carnavalescas, com base na qual é quantificada a subvenção a cada uma.




A convidada especial do programa, Dra. Socorro França, Secretária de Justiça e Cidadania do Estado, falou sobre a sua disposição de humanizar ainda mais a administração penitenciária no Ceará – dando continuidade ao trabalho exitoso que já vinha sendo desenvolvido pelos seus antecessores.

A propósito disso, o jornalista e sociólogo Arnaldo Santos pontificou com muita propriedade sobre a atenção que merecem os detentos, tendo em vista que a grande maioria deles traz o estigma do abandono da sociedade, desde quando, ainda no ventre de suas mães, faltaram a elas os cuidados médicos pré-natais.




Depois, aqueles que se tornaram delinquentes foram abandonados novamente diante da falta de creches, mais à frente a carência de ensino de qualidade, em seguida a indigência do saneamento público em seu bairro, a má qualidade do atendimento básico de saúde, e assim por diante.

Nesse mesmo diapasão sequenciou o advogado Djalma Pinto, exemplificando com uma mulher humilde que, entrevistada, revelou como evitou que seus filhos delinquissem, pelos rigores de sua educação, dizendo que jamais foi dormir sem que eles já estivessem em casa.

Em seguida o também advogado Roberto Pires falou sobre o mau emprego de verbas públicas por políticos, sobre as carências do sistema penal brasileiro.

Conversou-se também, com participação de todos, e justas colocações da Dra. Socorro França, sobre a necessidade de se aplicarem mais penas alternativas, a partir das audiências de custódia, notadamente nos delitos de menor potencial ofensivo, principalmente as tornozeleiras eletrônicas, que se prestam muito bem ao monitoramento de presos provisórios – não obstante o fato de que alguns conseguem burlar as regras de seu uso.


Ao final, o Prof. Rui Martinho Rodrigues debateu com os Drs. Roberto Pires e Djalma Pinto sobre a extensão das prisões preventivas impostas aos indiciados na Operação Lava Jato, e sobre outras restrições que se impõem aos que são apenas referidos em delações premiadas, achando aquele que estão sendo feridos o princípio da presunção de inocência, da dignidade da pessoa humana, do devido processo legal, enquanto estes consideraram que o rigorismo em curso é cabível, em face da excepcionalidade dos escândalos recentes, revelando delitos da elite política e empresarial em escala nunca vista.

Por último se abordou ainda o fim do foro especial por prerrogativa de função, alguns achando que ele representa um privilégio descabido, outros considerando que ele está desvirtuado.

O Prof. Rui Martinho Rodrigues citou palavras de Fernando Collor de Mello, com quem se entrevistou pessoalmente certa vez, o qual contou de seu calvário ao ter que responder centenas de ações judiciais relativas ao seu mandato, nas mais diversas secções judiciárias do País, pois, como ex-presidente da República, perdera o foro especial.





Como adendo, em resposta a indagação telefônica de um ouvinte do programa, o Prof. Rui entendeu que foi acertada a recente decisão do STF, que abriu um precedente para que presidiários tenham ação indenizatória contra o Estado, em razão das precárias e degradantes condições das nossas penitenciárias.

DISCURSO - Augusto Bezerra


Discurso de despedida
do Presidente da
ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS
 José Augusto Bezerra
na posse da nova Diretoria

Prezados Acadêmico novo Presidente da ACL, Ubiratan Aguiar; Prefeito Da Cidade de Fortaleza, Roberto Cláudio; Representante do TCU, Ministro Augusto Sherman Cavalcante; Presidente de Honra Perpétuo da Academia de Letras de Brasília - José Carlos Gentili; Vice-Presidente do Tribunal de Contas do Estado – Rholden Queiroz; Presidente do Tribunal de Contas dos Municípios – Domingos Filho; demais autoridades ilustres, membros da Diretoria 2017/2018 da ACL, confrades, esposas, e convidados:

É com emoção que hoje deixo algumas palavras, especialmente  para  os nobres confrades, que testemunham o último momento dessa jornada que fizemos juntos.

No meu discurso de posse como Presidente falei que, na antiguidade, as comunidades se reuniam nos portos para desejar boa sorte às tripulações que embarcavam, para viagens importantes. Pediam às Divindades que abençoassem os que iam navegar por mares desconhecidos. Foi o que fizemos. Sequer olhamos para saber se havia nuvens carregadas no horizonte. Pedimos ajuda a Deus e trabalhamos, diuturnamente, com as mãos e os corações
.
Quando os navios voltavam, aquelas mesmas pessoas agradeciam por terem os homens vencido desafios e voltado ao porto seguro. É a hora, portanto, da nossa gratidão. Não importa hoje o que tenhamos feito. Poder entregar, com o dever cumprido, o leme desta nau a uma nova tripulação, briosa, honrada e cheia de talentos, é a nossa maior vitória.

Subo ao alto do convés desse navio imaginário e, lá de cima, olho para o passado. Descortino, por entre as brumas, os homens que lutaram por nossa Academia. Especialmente, posso ver melhor, porque estão mais próximos, os dois últimos Presidentes. Na realidade, estão aqui, entre nós... Murilo Martins, nosso Presidente de Honra, e Pedro Henrique Saraiva Leão, que me convenceu a aceitar a missão que hoje concluo, grandes intelectuais e amigos, em nome dos quais reverencio todo o passado desta gloriosa Instituição.

Na presente gestão, demos prioridade a harmonia entre os Acadêmicos e a transparência nas nossas ações. Fizemos alguns jantares só para conversarmos e nos conhecermos melhor. Providenciamos relatórios mensais para manter todos a par do nosso dia a dia. Solenidades como a dos 120 anos e a da Reinauguração do Palácio da Luz. Inaugurações da Biblioteca, do Jardim dos Poetas e entrega da Medalha de Benemérito a todos os confrades. Aniversários da entidade, posse de novos Acadêmicos, distintivos da ACL, lançamentos da importante Revista da Academia Cearense de Letras, livros inéditos publicados e realizações de magníficos Ciclos de Conferências. Tantas outras coisas para recordar. Não arbitrei nenhuma divergência neste período e a união foi nossa marca, demonstrada pela escolha do Novo Príncipe dos Poetas, Linhares Filho, entre tantos nomes de escol, sem divisões e por unanimidade.


Alguns não puderam aqui chegar, mas semelhantemente aos cometas deixaram rastros luminosos. Nesse caso, uma poeira incandescente, de saudade e poesia: Barros Pinho, Francisco Carvalho, Artur Eduardo Benevides e José Telles. Deram-nos de presente, ao partirem, seus sucessores, os novos imortais e amigos: Ernando Uchôa, Lourdinha Leite Barbosa, Durval Ayres Filho e Flávio Leitão. Assim, como reverenciamos o legado do passado, agora nos inclinamos ante a responsabilidade do presente, nas figuras dos atuais Acadêmicos, guardiões de mais de um século de história deste radiante Templo da Cultura.

O projeto de reforma do Palácio da Luz está realizado e entregamos de volta à sociedade, esta significativa obra, com auditórios climatizados; salão de honra; Secretaria; Presidência com sala de reuniões; iluminação excelente; magnífica biblioteca; cinco banheiros, inclusive com acessibilidade aos deficientes; entradas, recriada pela Sena Madureira e reformada pela Rua do Rosário; um Jardim dos poetas; uma importante subestação elétrica; o nome externo, acendendo à noite, e muito mais. Tudo mantendo as linhas originais desse prédio, um dos ícones da nossa história.

A Praça, onde habitavam muitas famílias desabrigadas e era um local de risco, foi reformada pela Prefeitura. As famílias deslocadas para abrigos, o quadrilátero iluminado, e implantada uma cabine de segurança 24 horas. Placas alusivas, no interior do Palácio, registram nossa gratidão aos que nos apoiaram. Lembramos também o apoio de voluntários, empresas e pessoas que chegaram em boa hora, inclusive Acadêmicos. Tudo foi pago em dia. As prestações de contas já feitas, algumas aprovadas com elogio, e um razoável saldo em caixa.

Os quadros históricos e peças coloniais que pertenciam ao Palácio estão restaurados, alguns antes de nós. Outros quadros e peças novas foram doados por terceiros, conforme plaquetes ao lado deles. Tudo isto foi feito, embora com sacrifício, sem se deixar de cumprir nenhuma das atividades culturais tradicionais da instituição e, havendo sido muitas outras acrescentadas, conforme relatório cultural 2013/2017, enviado aos Acadêmicos.

Agradeço as instituições culturais congêneres, tanto as mais antigas como as mais novas, que muito nos ajudaram, aos arquitetos e engenheiros que nos orientaram, pois tudo aqui foi feito profissionalmente. Agradeço ao Olímpio Rocha, administrador dos projetos da ACL junto aos órgãos oficiais e especialmente agradeço aos nossos diletos funcionários, que se desdobraram por todos esses quatro anos, sem medir esforços, para atingirmos cada etapa dos objetivos previstos. Agradeço infinitamente a minha esposa Bernadete e a minha família, pois vocês são o alfa e o ômega na minha existência.

Finalmente, podemos entender que estamos no instante da chegada, mas também no da partida. Até este ponto, do alto daquele convés, podíamos olhar para trás, mas agora precisamos vislumbrar o adiante. Ao nos virarmos para observar, sentimos a brisa batendo nas costas e compreendemos que o mesmo vento que nos empurrou até aqui, continua a soprar, inexoravelmente, para frente.

Ao lado deste famoso painel de Raimundo Cela, em que pintou a liberdade e o amor, posso ver a nova Diretoria da ACL, novamente escolhida por unanimidade, liderada pelo insigne Confrade Ubiratan Aguiar, um poeta, advogado e homem público, que saindo da cidade de Cedro, em nosso interior, chegou aos mais altos cargos no Brasil, por seus próprios méritos. Um verdadeiro líder, muito respeitado nos mais longínquos recantos do país, tem como forte colaboradora, a primeira mulher Vice-Presidente da ACL, gestora e literata completa, Angela Gutiérrez, e toda uma diretoria carinhosamente escolhida para essa viagem no tempo. Não esquecendo de registrar que ao lado de um grande Presidente tem sempre uma grande Primeira Dama e aqui não sendo diferente, devemos dar relevo a sua querida e carismática esposa, Terezita Aguiar.

Por entre as brumas dos tempos que entreolhamos, vimos, mesmo dentro do navio, as pegadas dos que já passaram e os pés dos que estão passando, mas não conseguimos ver as marcas dos que irão passar.

Estes caminhos, os que assumem, terão eles mesmos de construir. Estarão em locais e situações que hoje só podemos visitar em nossas imaginações.

Porém, o olhar do adeus é o mais compenetrado. Ainda vê no passado as nossas pegadas e no presente os nossos pés, mas no futuro vislumbra os nossos sonhos e sabe que se não os abandonarmos, eles nunca nos abandonarão.

Queridos confrades novos dirigentes, é uma honra passar a administração da ACL as suas mãos. Contem sempre conosco, boa sorte e que Deus os abençoe!

Obrigado.


José Augusto Bezerra/Fevereiro 2017.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

NOTAS JORNALÍSTICAS - Ubiratan e Nirez


UBIRATAN 
TOMA POSSE
NA ACL 

Na noite de ontem (16.02), no auditório maior do Palácio da Luz, o poeta Ubiratan Aguiar tomou posse na Presidência da Academia Cearense de Letras (ACL) para o triênio 2017-2019, sucedendo ao escritor e bibliófilo José Augusto Bezerra.

Aliás, superar a magnífica gestão de Augusto Bezerra será um severo desafio para Ubiratan Aguiar, que foi político e hoje é advogado, foi Ministro do Tribunal de Contas da União, de que esteve à frente, e detém o título de seu Presidente-Emérito.

A solenidade foi muito concorrida, com a presença de todo colégio acadêmico da ACL, integrantes de outras instituições literárias, um grande número de convidados e várias autoridades, dentre elas o Prefeito Roberto Cláudio.

O ponto alto do evento foi o comovido discurso de despedida do Presidente Augusto Bezerra, seguido pelo pronunciamento de posse do Presidente que assumia, ambos aplaudidos de forma intensa e demorada.

Representaram a ACLJ na solenidade o seu Presidente Emérito Rui Martinho Rodrigues, o Presidente Reginaldo Vasconcelos, o Secretário-Geral Vicente Alencar, que atuou como Mestre de Cerimônia, o Membro Titular Fundador Arnaldo Santos, além do Membro Benemérito Descartes Gadelha e do Membro Honorário Amaro Pena.

Na imagem, as duas Primeiras-Damas, Bernadeth Bezerra e Teresita Aguiar, elegantes e felizes.    







EXPOSIÇÃO 
ACERVO NIREZ 

O colecionador e antigófilo Nirez, 83 anos, pesquisador e memoriólogo, radialista e musicófilo, obriga-nos a elaborar neologismos para definir, com exatidão e propriedade, o que ele é, e o que ele faz. Aliás ela faz grandes proezas. Aos 80 ele saltou de paraquedas sobre a cidade em que nasceu, que ama, e cujo passado ele registra.

Membro emérito da ACLJ, ex-diretor do Museu da Imagem e do Som do Ceará, Miguel Ângelo de Azevedo é filho de Otacílio de Azevedo – poeta, desenhista e pintor, imortal da Academia Cearense de Letras – e da poetiza Tereza de Azevedo, que também são pais de outro acadêmico renomado, Sânzio de Azevedo, e do astrônomo Rubens de Azevedo, falecido em 2008.

Miguel Ângelo adquiriu o cognome com o qual se tornou célebre – Nirez – pela corruptela infantil que seus irmãos pequenos faziam da palavra “inglês”, o apelido original que seu próprio pai lhe atribuíra, encontrando nele alguma característica que lembrava os tantos britânicos ilustres que naquele tempo residiam na cidade. 

Nirez está expondo uma mostra do seu precioso e imenso acervo, com fotografias antigas de Fortaleza magnificamente conservadas, rótulos de produtos antigos e aparelhos eletrônicos arcaicos, como máquinas fotográficas, aparelhos de rádio e engenhos fonográficos.

O acervo Nirez é o paraíso dos saudosistas cearenses, porque conserva documentos e imagens da nossa capital desde o princípio do Século XX, passando pelos anos 30 e 50, o que possibilita que se conheça a evolução da cidade em seu aspecto físico, ante o descaso histórico dos dirigentes municipais com o nosso patrimônio arquitetônico. 

A Exposição Arquivo Nirez, no prédio histórico da Alfândega, na Praia de Iracema, atualmente Caixa Cultural de Fortaleza, foi aberta ontem (16.02) e ficará aberta à visitação até o dia 16 de abril, de terça a sábado, das 10 às 20 horas, e, aos domingos, das 12 às 19 horas, com entrada gratuita. Vale muito a pena conferir.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

CRÔNICA - Pega-Varetas (RV)


PEGA-VARETAS
Reginaldo Vasconcelos*


Acreditei em Fernando Henrique Cardoso até que ele deu um jeito de duplicar o próprio patrimônio mandatício, patrocinando a Emenda Constitucional que permitiu a sua própria reeleição. Independentemente de ser contra ou a favor da possibilidade de recandidatura de executivo, é obvio que ela não deveria valer para quem a instituiu.

Quando Lula da Silva foi eleito a vez primeira todos exultamos, acreditando que enfim se combateria a corrupção, o nepotismo, o marajalato no serviço público, que Collor de Mello, sob profunda "reserva mental", prometera falsamente que faria. Pessoalmente, acreditei que Lula tentaria moralizar a República – mas não me convencera de que conseguiria.

Em face dessa minha suspicácia sobre a capacidade de Lula de fazer a faxina político-administrativa necessária e prometida pelo partido que fundara, conversei com o meu amigo Artur da Távora, velho jornalista e então Senador da República, sobre as minhas crenças e sobre as meus receios em relação ao futuro do País dali avante.

Lembro que lhe manifestei a minha preocupação com Marisa Letícia, que sabia eu ser uma pessoa de origem muito humilde, e que por isso mesmo iria sofrer muito o fracasso do marido, pois é muito melhor permanecer no solo que ser guindado ao topo da palmeira social, para ser arrancado de lá, voltando violentamente ao rés do chão.

Mas, como visto, Lula nem tentou moralizar coisa nenhuma, centrando-se em implementar boas políticas sociais de melhoramento econômico das faixas mais humildes, com uma melhor distribuição de renda, mas sem conseguir promover a sua real evolução intelectual. A escola pública foi universalizada, mas não melhorou em qualidade de ensino.

Essas duas circunstâncias – a promoção de um melhor padrão de vida para a pobreza, deixando de investir pesado em educação de qualidade (ao contrário do que fizeram os países asiáticos para se desenvolverem), foi se revelando a fórmula mágica para manter os partidos do Governo no poder.

Conquistando a maioria carente do povo por meio de políticas paternalistas, sem procurar dotá-lo de descortino para exercer o genuíno espírito crítico, se perpetuariam no poder por meio do escrutínio universal – assim imaginavam. E tal estratégia funcionou por 15 anos – mas por fim implodiu, matando finalmente de aneurisma a inditosa “Galega” de Lula, cujo calvário eu previra anos atrás.

O resultado de tudo isso é a profunda crise econômica que vivemos, a falência de muitos estados federados, o desmantelo ético deflagrado, o império absoluto da sociopatia na vida brasileira. As vísceras da Nação expostas ao mundo, trazendo descrédito e desprezo, vergonha para todos nós ante o estrangeiro.

A desmoralização das grandes empresas estatais, como a Petrobrás, o BNDES, o BNB, o Banco do Brasil – por fim,  o estabelecimento definitivo do estado paralelo no País, por meio do empoderamento do crime organizado estabelecido nos presídios, enquanto as polícias militares se aquartelam e se amotinam.

No Palácio do Governo o Presidente, ele mesmo suspeito de ilícitos, não consegue nomear ministros probos, no sensível pega-varetas de delações à Operação Lava Jato da Justiça Federal, que traz a lume, não uma série de delitos isolados, mas a corrupção sistêmica e generalizada que alimentava o processo eleitoral e enriquecia os políticos brasileiros, que se mancomunavam com as grandes empreiteiras.

Diz-se que houve um “golpe parlamentar” contra a Presidente da República que foi alvo de um impeachment, sem considerar que ela vinha de uma dinastia política hegemônica de uma década e meia, formada por uma grande coalizão de apoiadores desonestos – que enfim a abandonaram ou se voltaram contra ela – e o fizeram quando ela precisou praticar um evidente “estelionato eleitoral”, vencendo a reeleição com base numa plataforma falsa e insustentável.

Fala-se que o PSDB, grande antagonista do então partido do Governo, e que perdera a eleição presidencial, seria o artífice da derrocada posterior da candidata vencedora. Contudo, como no jogo de futebol há o time que perde porque o outro vence (por jogar bem), e o time que ganha porque o outro perdeu (por jogar mal), o PT não soçobrou por ação do adversário, mas pelos erros dele mesmo, que o levaram a perder sua base política no Congresso.

Alguém saberia dizer por que Michel Temer era o Vice-Presidente por duas legislaturas do PT? Creio que a razão é ambidestra. Dilma o queria lá para garantir o apoio do maior partido do Congresso, a que ele pertence, tendo em vista aprovação de todas as matérias de interesse do Governo; e, na outra mão, ele queria estar lá para garantir que os seus correligionários obtivessem benesses, assaltando as verbas públicas – dentre eles Eduardo Cunha, hoje demonizado e encarcerado.

Agora o País vai à deriva, de déu em déu, com a cúpula da política toda ela fustigada pela cavalaria implacável dos pretores federais. Mas, a esta altura, trabalhar contra as instituições, tão enfraquecidas, e contra os poderes constituídos, que estão em frangalhos, é trabalhar contra o País. Naufragamos, e não podemos abandonar a precária tábua de flutuação, se não temos nenhuma outra à vista. Temos que seguir em frente.  O “Fora Temer” é a volta ao nada. Não há mais para onde voltar. Que Deus se apiade de nossas almas!