sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

POEMA (VA)

PASSADO
Vicente Alencar*


O dia despede-se,
os últimos raios do sol
desaparecem em sinfonia.

As saudades aumentam
como se fosse possível
crescerem ainda mais.

É mais uma noite
que começa, levando-me

a outras inesquecíveis.

* Vicente Alencar
Presidente da União Brasileira de Trovadores - UBT Fortaleza.
1º Vice-Presidente da ALMECE - Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará.
Secretário Geral da Academia Fortalezense de Letras.
 Titular da Cadeira nº 27 da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NOTA FÚNEBRE


Morreu neste dia 22 de dezembro em Fortaleza, aos 89 anos, o jornalista e cantor cearense João Guilherme da Silva Neto, ou simplesmente o Velho Guiba, para os amigos, Patrono Perpétuo da Cadeira de nº 25 da ACLJ, cujo titular fundador é o advogado José Lindival de Freiras Júnior.

Guilherme Neto foi procurado há quatro anos para integrar o grupo inaugural da ACLJ, mas então se constatou que uma doença senil lhe suprimira a memória inteiramente, incapacitando-o de tomar posse como Acadêmico Titular.

Assim, Guilherme foi um dos dois únicos jornalistas cearenses a integrar ainda em vida o rol dos nossos Patronos Perpétuos, sendo o último deles a falecer, tendo sido Armando Vasconcelos, acometido de enfermidade semelhante,  o primeiro dos dois a nos deixar, em 2011.

Desde os anos 40, e por mais de seis décadas, Guilherme exerceu as mais diversas funções em rádio, televisão, jornal e publicidade, tendo se notabilizado entre os grandes cronistas cearenses, gênero da literatura ligeira e jornalística em que brilharam os conterrâneos José Martiniano de Alencar (1829-1877), Carlos Cavalcante, de pseudônimo Caio Cid (1904-1972), Ciro Colares da Penha (1923-2002) e o médico Airton Monte (1949-2012).  

Guilherme começou como cantor na antiga emissora de rádio PRE-9, tornando-se ídolo em programas de auditório, nos quais lançou repertórios dos compositores locais Lauro Maia, Mozart Brandão, Aliardo Freitas e Luís Assunção.
 
Na década de 1950, depois de uma passagem como assistente de direção da Rádio Tamandaré, de Recife, voltou a Fortaleza para dirigir a Ceará Rádio Clube, tarefa que lhe foi confiada pela direção dos Diários e Emissoras Associados do Brasil, empresa à época comandada por Almeida Castro, João Calmon e Paulo Cabral de Araújo, em nome do empreendedor Assis Chateaubriand.

No período compreendido entre 1954 e 1960, na pioneira emissora PRE-9, fez-se autor de inúmeros textos do radioteatro. Em novembro de 1960, surgiu a Televisão no Estado do Ceará e Guilherme Neto foi escolhido para dirigir a equipe de implantação do novo veículo de comunicação: a TV Ceará Canal 2.

No final da década 60 – depois que o sistema de rede nacional de TV, por intermédio do vídeo-tape, concentrou no Rio e em São Paulo os centros de produção de televisão – Guilherme Neto tornou-se editor e diretor comercial, respectivamente, dos jornais Unitário e Correio do Ceará.

No início da década de 70 Guilherme Neto voltou  à direção da TV Ceará Canal 2, e a sua gestão foi marcada por três acontecimentos históricos para a televisão cearense: a implantação do sistema de transmissão em cores, a edição do primeiro telejornal vespertino e a realização de dois programas de variedades na TV, apresentados por Gonzaga Vasconcelos e Augusto Borges, em que foram lançados em âmbito local os integrantes do "Pessoal do Ceará" - Belchior, Fagner, Ednardo, Rodger Rogério. 
 
Em 1974 surgiu a Televisão Educativa Canal 5 e, outra vez, Guilherme Neto foi convocado para coordenar artisticamente mais uma emissora.

Na década 80 – quando a Universidade Federal do Ceará decidiu criar a Rádio Universitária – novamente Guilherme Neto, assumindo a direção artística da então nova emissora FM, integrou-se à equipe fundadora.  

Guilherme Neto era tio e mentor do grande jornalista, poeta, radialista, ator, dramaturgo, apresentador de TV e professor de teatro Ricardo Guilherme, membro da ACLJ. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

ARTIGO (RMR)

UMA SITUAÇÃO DECISIVA
Rui Martinho Rodrigues*

A sucessão de escândalos começou produzindo um choque. Processos se arrastaram por anos. Acumularam-se denúncias. Condenados viraram heróis e a rotina banalizou o mal. Até o grande terremoto do petrolão, de proporções inéditas, cujos contornos ainda não estão definidos nem o alcance pode ser estimado. A atenção dos brasileiros despertou novamente. Agora vale o dístico jocoso, do falecido jornalista carioca Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: “restauremos a moralidade ou locupletemo-nos todos”.

Caso os rios de dinheiro desviados resultem na punição de gente graúda o Macunaíma poderá moderar seu apetite transgressor. Mas, se alguns empresários forem severamente punidos, enquanto políticos saem como heróis submetidos a penas infinitamente mais leves, como no caso mensalão, prevalecerá a segunda parte do brocardo irreverente: “... locupletemo-nos todos”. Caso não sejam afastados da vida pública líderes alçados à condição de lenda viva; ou guindados às altas esferas da República, o “baixo clero” da burocracia se sentirá legitimado para as práticas mais desenfreadas de atentados ao erário.

Os empresários, sujeitos às práticas extorsivas, na forma do art. 316, do CPB, crime cometido pelo agente do Estado que, valendo-se desta condição, exige aquilo que não é devido (concussão), reagirão evadindo divisas.

Até as pedras sabem que ninguém negocia com o poder público se não “recompensar” os agentes do Estado. A moralidade, nos tempos de outrora, até podia ser relativizada. Os desvios de fundos transferiam para esfera privada, muito mais dinâmica, recursos que assim adquiriam maior eficiência na produção de riqueza.

Hoje a situação é outra. Os dinheiros desviados do erário logo são transferidos para contas no exterior. Assim, além de nenhuma contribuição para a dinamização da economia, há um agravamento dos fluxos financeiros internacionais.

Obras intermináveis e menos investimentos são outros inconvenientes da corrupção. No caso da estatal do petróleo, além da perda de dividendo dos acionistas, o que inclui a União e outros entes públicos, temos a queda da arrecadação de tributos e dos investimentos.

A perda de crédito decorrente do abalo sofrido pela empresa lesionada, que somada a queda de preços do petróleo, tendem a limitar severamente uma parcela ponderável do total de investimentos da economia brasileira.

As trocas internacionais da nossa economia, no âmbito do petróleo e derivados, apesar do mito da autossuficiência do Brasil, no tocante ao referido bem, continuam deficitárias. A queda dos investimentos no setor aludido deverá retardar realizações extremamente necessárias. Acrescente-se que os níveis de investimento, no Brasil como um todo, já se encontram abaixo do tolerável desde um longo tempo. 

A falta de representatividade política poderá sofrer sério agravamento se o Ministério Público, auxiliado pela Polícia Federal, juntamente com o Judiciário, não obtiver êxito no cumprimento da sua missão constitucional. As instituições jurídicas e políticas poderão restar seriamente abaladas.


*Rui Martinho Rodrigues
Professor – Advogado
Historiador - Cientista Político
Presidente da ACLJ
Titular de sua Cadeira de nº 10

POESIA RELIGIOSA ( Lucas, 2, 1-14)


O NASCIMENTO DE JESUS (1)
Vianney Mesquita (2)



Factum est autem in diebus illis exiit edictum a Caesare Augusto, ut describeretur universus orbis.

O arauto do Imperador/O pergaminho descerra,/Com o fim de anunciar/A ordem que o edito encerra,/Mandando recensear/Os habitantes da Terra.

Naqueles dias saiu um edito por parte de Cesar Augusto, para ser recenseada toda a Terra.

De muito recenseamento/Foi Augusto ordenador./E do Lácio império imenso,/Sendo da Síria o gestor,/Quirino geriu o censo/Como seu governador.

Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino Governador da Síria.

Era costume do povo/Apresentar-se à contagem/Cada qual em sua cidade,/ Sem problema de estalagem,/Com pouca dificuldade,/ Evitando-se viagem.

E iam todos recensear-se, cada qual à sua própria cidade.

Nessa primeira estatística,/ Com José foi diferente:/ Tinha que, de Nazaré - / Pois de David procedente - / Ir até Belém, que é /Onde o Rei se faz semente.

Ora, José subiu também da Galileia, de Nazaré, até a Judeia, a cidade de David chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David,...

Sendo cepa de David,/ José empregou a ideia/ De, com a esposa Maria,/Ir a Belém da Judeia,/ Onde se recensearia/ Cidadão da Galileia.

...a fim de recensear-se com Maria, sua esposa, que se achava grávida.

Nessa vilegiatura,/ Em dias de descansar,/ Quando em Belém se encontrava/ E estando o prazo a findar,/ Eis que a Virgem delivrava,/ Vendo o Pequeno aflorar.

E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de Ela dar à luz, e teve o seu Filho primogênito,...

Envolveu o Nato em pano/ E não achando hospedagem,/ Recostou-se à manjedoura,/ De animais a albergagem/ Que a Humanidade entesoura/ Em tão ditosa passagem. 

...que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver para eles lugar na hospedaria.

Havia na região/ Alguns apascentadores,/ Os quais no chão pernoitavam,/ Como é mister dos pastores,/ Que depois se transformavam/ Em fiéis adoradores.

Na mesma região, havia uns pastores, que pernoitavam nos campos e faziam a guarda noturna do seu rebanho.

Porque o Anjo do Senhor,/ Juntamente à sua glória,/ Cercou-os de muita luz,/ Diz São Lucas na História/ Da Bíblia, que nos conduz/ E não nos sai da memória.

Apareceu-lhes então o Anjo do Senhor e a glória do Senhor cercou-os de luz,...

Temerosos de início,/ Mas a seguir se acalmaram./ Disse o Anjo: – não temais – / E, atentos, escutaram/ Uma narração veraz/ Que nunca mais deslembraram.

...e eles tiveram muito medo. Disse-lhes o Anjo: Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria para todo o povo:

Falou ele: - nasceu hoje/ O Messias, Salvador,/ Em Belém lá na Judeia,/ Dos homens o Redentor,/ Cuja obra giganteia/ Enche a Terra de louvor.

Nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador que é o Messias Senhor!

Servir-vos-á de sinal/ Um sucesso inusitado:/ Em panos encontrareis/ Um Menino circundado,/ A quem vós adorareis,/ Pois traz o Verbo Encarnado.

Isto vos servirá de sinal: encontrareis o Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.

Louvando a Deus, num repente,/ Os contingentes sagrados,/ Anjos como iluminuras,/ Em telas ricas ornados,/ Deram glórias nas alturas/ E paz aos homens amados. 

De súbito, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra entre os homens do seu agrado.

Após esse Nascimento,/ Mudou o placard da partida,/ Transformou-se o coração,/ Transmudou-se a nossa lida,/ Que agora tem por missão/ As glórias da outra vida.

Não há nada nesta estrofe, a não ser ilações lógicas de qualquer crente acerca do nascimento, vida, paixão e morte de Jesus Cristo, que esteja explícito na Sagrada Escritura.

(1) Extraído de ... E o Verbo se Fez Carne – textos bíblicos em versos (Sobral: Edições UVA, 2004), com Nihil Obstat de Dom José Antônio Aparecido Tosi Marques, arcebispo metropolitano de Fortaleza, datado de 27 de setembro de 2003.

(2) Os escritos em corpo menor e recuados representam a letra exata do Evangelho de São Lucas, de 2, 1-14, que o poeta transferiu com fidelidade verbal para a grade métrica das sextilhas com versos de sete sílabas – seis estrofes isossilábicas e heterorrímicas no sistema de rimas ABCBCB.




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

APRECIAÇÃO LITERÁRIA (VM)

Beleza e Forma Inusitadas
nos Versos do Conterrâneo
José Rebouças Macambira,
meu Patrono na Academia
(Segunda Parte)
Vianney Mesquita*


Um soneto impecável vale, sozinho, um grande poema. (Nicholas Boileau Despréaux, crítico literário e poeta. *Paris, 01.11.1636; 13.03.1711).


Vida e Obra de Zé Rebouças

Ao retomar o tema, recorro neste lance a Raimundo Girão e Maria da Conceição Sousa (Dicionário da Literatura Cearense, de onde também, honrosamente, sou verbete), para validar o registro consoante o qual JRM, havendo nascido em 17 de novembro de 1917 (+Fortaleza, 17.01.1992), foi bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da UFC, bem como licenciado e bacharel em Letras Neolatinas pela precitada Faculdade Católica de Filosofia. Atuou como regente de Linguistica (UFC), professor de Grego, Latim e Francês no Liceu do Ceará e docente de Língua Latina no Colégio Municipal Filgueiras Lima.

Diversamente de outros palmacianos de seu tempo, conforme expressei há pouco, teve larga produção literocientífica – o que o ajudou a acessar a Academia Cearense de Letras, como detentor da Cadeira 39, cujo patrono é o Visconde de Saboia, bem como assentar-se na Cátedra de número 15 da Academia Cearense da Língua Portuguesa (patroneada por Joaquim Matoso Câmara Junior e hoje ocupada pela imortal Professora Doutora Maria Elias Soares, da Universidade Federal do Ceará), onde o encontrei em 1988, quando assumi a Cadeira de número 37 daquele sodalício, protegida pelo filósofo e gramático Estêvão Cruz.

Publicou Estrutura do Vernáculo (1986); Estrutura Morfossintática do Português (1978); A Estrutura da Oração Reduzida (1971); Gênese e Desenvolvimento da Interrogação Latina (1951); Estrutura Musical do Verso (1977); Diátese Verbal (1979); Fonologia do Português e Musa de Aquém e de Além (ambos de 1981) – de onde pincei o soneto logo mais reproduzido e comentado.

José Rebouças Macambira é, sob o prisma da história de nossa terra, o escritor nascido em Palmácia com o maior quantitativo de publicações de excepcional qualidade conteudística, convindo acrescer, no entanto, o fato de que tal informação é válida somente entre aqueles já postados em plano distinto da existência corporal, pois há hoje quem o supere, na extensão de edições librárias, também de cariz literário e teor acadêmico, com chancela de casas publicadoras. Esse autor palmaciano já cuida, para edição até maio de 2015, dos originais de Retirados do Etagére – Notas de Crítica.

JRM, como mestre da Língua Portuguesa e emérito ensaísta no terreno da Ciência de Ferdinand de Saussure, Roland Barthes e Rogério Bessa, foi e continua bem recepcionado, apreciado em todo o Ceará culto, transpondo até os lindes do Brasil.

No começo dos anos 1960, já era eu admirante da forma poética do soneto, em especial de Augusto dos Anjos, dos escritores do chamado mal do século e parnasianos em geral, como Raimundo da Mota Azevedo Correia, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, Antônio Mariano Alberto de Oliveira e Vicente Augusto de Carvalho.

CONTINUA EM 26.12.2014  - (José Fernandes Sampaio, o Zé Sampaio)




*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista

POEMA (VA)

PALAVRAS
Vicente Alencar*

Abertas ao mundo
são tuas palavras.
Elas passeiam em todas
as direções.
Elas me conquistam
pela beleza das mensagens.
Elas estão comigo
pois me envolvem
durante todos os minutos.
Elas me trazem uma tranquilidade
pela sabedoria do amor.
Abertas ao mundo
são tuas palavras.
Desde que tomei conhecimento
uma a uma, de todas elas.
me envolvi completamente.
E tudo mudou,
tudo se alterou para melhor.
E descubro-me feliz!


* Vicente Alencar
Associação Brasileira de Jornalistas Poetas
Correio Cearense
Presidente da União Brasileira de Trovadores  
Fortaleza
1º Vice-Presidente da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará
Secretário Geral da Academia Fortalezense de Letras
 Titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo

domingo, 21 de dezembro de 2014

CONTO (RV)

FELIZ E EM PAZ
Reginaldo Vasconcelos*

Era médico, fizera o juramento de Hipócrates, vinha de uma família tradicional de nordestinos, com pai honrado e tios padres. Foi nomeado por parente político da Capital para o departamento responsável por assuntos funerários.

Médicos geralmente cuidam da saúde e da vida, mas também da doença e da morte, e a ele coube tratar dos assuntos de Tânato na burocracia da cidade.

E não se pense que os trabalhos funestos, no âmbito do serviço público, sejam lúgubres e mortiços, silenciosos e parados, pois os defuntos e suas exéquias movem um mundo de interesses, movimentam negócios, geram fortunas e inspiram uma gama de atividades ilegais. 

Atestados de óbitos, exatas causa mortis, erros médicos e crimes, hospitais e cartórios,  traslados e enterros, necropsias e legistas, embalsamentos e velórios, flores e missas, cemitérios e crematórios, processos de inventário, tudo isso agita escritórios e empresas, demandando tarifas e controles, autorizações e alvarás. 

O jovem médico logo percebeu que o seu birô funcional era um campo fértil para propostas escusas de favorecimentos e propinas. E decidiu que não se corromperia por nada, que, para burlar as leis, empresários e profissionais corruptos teriam que pisar no seu cadáver. Que honraria a confiança de quem o nomeou, o bom nome da família, os conselhos de seu pai.

A primeira provação lhe veio quando o dono de uma rede de agências funerárias quis abrir um complexo para velórios de luxo no melhor bairro da metrópole, e lhe propôs rica porcentagem no rendimento do negócio, se lhe aprovasse a papelada. “Eu já estava para deferir o seu caso, mas diante dessa sua oferta vou repensar a conveniência”. 

Depois, quando um outro teve alvará aprovado, e em sinal de gratidão descabida lhe enfiou no bolso do paletó um maço de notas alentado. “O senhor retire o dinheiro daí, ou eu revogo o documento”. E, assim, por cerca de um lustro, foram muitas investidas e muitas respostas refratárias, as leis e as posturas do município inteiramente preservadas.

Até que uma moça apareceu angustiada com o drama de não conseguir exumar e remover os restos mortais do avô, inumados havia décadas em um cemitério de subúrbio, que estava ameaçado por obra pública. Pretendia ela que os despojos do velho querido fossem transferidos para o jazigo da família, na sua cidade natal, para ficar ao lado dos demais defuntos do mesmo clã a que pertencia.

Para fazer essa operação simples era preciso vencer uma burocracia impeditiva, pois se lhe requeria documentação antiga que não mais existia ou ninguém sabia onde estava. E se aproximava o dia em que a máquina do governo revolveria o campo santo para ampliação de uma via pública, relegando o conteúdo das velhas tumbas abandonadas à vala comum dos indigentes. 

O diretor do departamento se apaixonou pela causa, perdeu o sono, imaginou soluções viáveis, mas nada podia fazer sem fraudar o regramento oficial, traindo o seu propósito de exação profissional absoluta. Instalou-se o dilema moral, diante do justo e do ilegal.

Então, vencido pelo coração, chamou a moça à puridade e lhe propôs o pacto de que doravante nunca os dois se terem visto. Que ela fosse à necrópole em horas mortas, gratificasse um coveiro, e promovesse a transferência do morto por sua própria conta e risco. E ele, para por seu turno ficar em paz, procurou se esquecer daquele caso. 

Passados anos, reencontrou aquela neta devotada que lhe contou o desfecho da história. Levara consigo, na sua bagagem de mão, a bordo de um ônibus coletivo, ao repouso eterno na sua cidade de origem, o crânio em uma frasqueira e o demais esqueleto em uma maleta  os ossos do próprio avô que, enfim, segundo ela, jazia agora feliz e em paz. 


*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ

APRECIAÇÃO LITERÁRIA (VM)



Beleza e Forma Inusitadas
nos Versos do Conterrâneo
José Rebouças Macambira,
meu Patrono na Academia
(Primeira Parte)
Vianney Mesquita*

Um soneto impecável vale, sozinho, um grande poema. (Nicholas Boileau Despréaux, crítico literário e poeta. *Paris, 01.11.1636; 13.03.1711).


Inseridos como embaixadores da manifestação intelectual e atuação docente, científica, cultural, artística, jornalística, médica, literária e demais gêneros de expressão de saber e erudição, mormente em registros escritos, há, no sortimento autêntico da minha cidade de nascimento – Palmácia-CE - diversos nomes de pessoas que se sobressaem e edificam história.

Não mais na terrena dimensão, repousam, entre outros, por exemplo, em distância temporal mais recuada, Maria Amélia Perdigão Sampaio, Maria Dolores Sampaio de Oliveira, Maria de Lourdes Campos de Mesquita, Sildácio de Matos Rocha, Maria Giselda Coelho Teixeira, José Rebouças Macambira, Vicente de Paulo Sampaio Rocha e Eunice Carvalho Leite, na seara do magistério – elementar, secundário ou superior; como também José Carlos Campos, no metro e no enredo histórico da Cidade, tendo sido vizinho imediato, à direita, da residência de Vicente Pinto de Mesquita e Maria de Lourdes Campos de Mesquita, dos quais procedo, à Av. Francisco de Queirós Lima, número 11 – Vila Campos – Palmácia-CE.

Acresce fazer referência aos sacerdotes católicos Padre Pedro Perdigão Sampaio, o qual exerceu vários cargos na Arquidiocese de Fortaleza, e Monsenhor Gumercindo Sampaio, também partes relevantes da história do Município, o segundo feito mestre (Latim) do Seminário Arquidiocesano de Fortaleza (como foi também o Padre Perdigão), cuja principal característica era mandar copiar, às centenas, as palavras latinas que o seminarista escrevia erradamente, tendo por vezo, ainda, qual a celebrada figura aracatiense de Castorina Chaves Pinto, impor apelidos aos seminaristas logo que admitidos ao Seminário (o meu era Cangulo).

Em sua maioria, estes e aqueles não mencionados aqui, decerto por falta de meios, sejam financeiros ou técnicos, não deixaram herdade escrita, salvante o patrono perpétuo na Cadeira número 22 (por mim ocupada na condição de membro titular vitalício), Professor José Rebouças Macambira, e o Prof. Vicente de Paulo Sampaio Rocha, ambos também docentes do Ensino Superior (UFC e Faculdade Católica de Filosofia, esta antecessora da UECE Universidade Estadual do Ceará).

Vicente Sampaio editou o livro Português nosso de cada dia (com Rosimir Espíndola Sampaio) e o volume Dicionário de Etimologia, Pronúncia e Termos Jurídicos, lente que era do Colégio Estadual do Ceará, o glorioso Liceu, das disciplinas Língua Portuguesa e Castelão. Macambira, por sua vez, deixou aos pósteros obra mais vasta, porquanto, atuante da Universidade Federal do Ceará, tinha à disposição a Imprensa Universitária dessa instituição e meios mais à mão para levar à luz seu produto editorial.

Autores de Hoje

Fazendo parênteses, expresso a ideia de que, noutro lance que se me asar, pretendo remeter-me aos palmacianos ilustres de hoje no terreno das atividades culturais e científicas comentadas como introdução a este texto respeitante a Rebouças Macambira, até porque a maioria descende em linha reta das pessoas aqui mencionadas, como, por exemplo, o professor universitário, jornalista, folclorista e administrador Paulo Tadeu Sampaio de Oliveira, originário de Dona Maria Amélia Perdigão Sampaio (neto); os Coelhos Teixeiras, procedentes da Professora Maria Giselda Coelho Teixeira e de João Teixeira Filho; os Campos de Mesquita (doze), oriundos de Maria de Lourdes Campos de Mesquita e Vicente Pinto de Mesquita; o Prof. José Walter Rebouças Macambira, irmão colaço de José Rebouças Macambira; o poeta cordelista Helder Campos, de Carlos e Irene Campos; e outros mais, como a Professora Iolanda Campelo de Andrade Sampaio, Paulo Rubens e Maria Ignez Sampaio Rocha, médicos filhos de Maria Florinda Sampaio Rocha e Francisco Hildebrando Rocha, e Margarida, assistente social, da linha germana dos dois. Também evoco, no momento, o nome de Antônio Rodrigues Uchoa (médico em Aracati), bem assim, o de Antônio Carlos Sampaio de Oliveira (Carlito), escritor, a igual do que ocorre com José Hermínio Muniz (Rocildo) e Junior Holanda.

CONTINUA EM 24.12.2014  - (Vida e Obra de Zé Rebouças)

*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista

PROSA POÉTICA (PX)

DOCES LEMBRANÇAS

Paulo Ximenes*

Tão calma aquela rua.
Rua? Beco largo. Pavimentado.
Não passava bonde, não passava carro.
Passava nada.
Só os vendedores de peixe,
de fígado gordo e
de cuscuz paulista.
As amendoeiras-da-praia
arqueavam-se soberbas
sobre os ladrilhos das calçadas
e os regavam com as suas sombras frescas.
Os passarinhos pendiam dos galhos
e vinham trotear no chão.
Via-se até a linha do mar
com a cor plúmbea dos seus navios,
ponteando o horizonte,
do meio do calçamento...
Tão doces eram aquelas seriguelas
vermelhas de novembro,
suculentas, enormes,
 – o tesouro do quintal!
Meio dia.
Almoço manso.
Meu pai trazia frutas e batida
da Serra Grande.
A criadagem se avexava
no serviço.
Cabia à minha mãe conclamar:
“O almoço está na mesa!”
Todos tomavam assento.
Camisas abotoadas,
cabelos penteados,
mãos limpas.
"Havia um sino para chamar a copeira".
Saciada a fome, vinha a cesta. E aí, 
tremeluziam os meus diamantes maiores:

A rede branca do meu pai
e o terço azul da minha mãe...

Meu pai deitado, os cabelos brancos,
semi-ondulados,
aos ventos da varanda, e 
ao alcance das mãos santas
da minha mãe,
delicioso cafuné,
compactuado com um terço
rezado em sussurro...
A rede e o terço.
O terço e a rede. 
Tão pertinhos um do outro,
que ainda hoje
não consigo vê-los separados.

(Do livro Anotações de um ex-Sócio do Náutico)

*Paulo Ximenes
Cronista e Poeta
Titular da Cadeira de nº 12 da ACLJ