sábado, 18 de janeiro de 2014

ARTIGO

ESCORPIÕES DA POLÍTICA
Paulo Maria de Aragão *

Foi lamentável que Ulysses Guimarães ao concorrer às eleições presidenciais diretas, em 1989, tenha amargado derrota para Collor de Mello, Lula da Silva, Leonel Brizola, Mário Covas, Paulo Maluf e Guilherme Afif, permanecendo na 6ª colocação entre seus concorrentes.

Agora, por ocasião das recentes comemorações dos 25 anos da Constituição Federal, o “Senhor das Diretas”, um dos políticos de mais rica biografia do país, teve ainda a memória maculada por um erro histórico. A paciência tem limites. Lula comparou o timoneiro da redemocratização a José Sarney, de atuação coadjuvante, a quem qualificara em 1988, num discurso em Aracaju, “o grande ladrão da Nova República”.

Ora, a ingratidão política atingiu Churchill, Charles de Gaulle e outros notáveis homens. Não estranhável, posto que sacripantas ao se entranharem no poder metamorfoseiam-se em busca de regatear oportunidades, sob o dizer de que “a política é dinâmica”. Um sofisma grosseiro! É estúpido e perverte a autêntica dinâmica da ciência política, tendo por compromisso a construção do bem comum, o útil a uma boa causa.

Nesse contexto, as fábulas são preciosas para avaliar e, quiçá, exprimir a conduta humana. Sempre atual tem-se a do escorpião, que, com astúcia, dizia querer alcançar a outra margem do rio e que por não saber nadar, implorava ajuda a uma rã que coaxava por ali.

Temerosa, por não confiar no peçonhento, relutava em atendê-lo. Tamanha foi a súplica que a rã, persuadida, resolveu transportá-lo no dorso. Ao final da travessia, seguro de seu objetivo, fulminou-a com a mortal picada. A rãzinha, agonizando, replicava: “Por que me traíste?”. Para dele ouvir a fria e impiedosa sentença: “Este é meu caráter, este é o meu caráter”.

Muitos protagonistas da política são comparáveis ao peçonhento da fábula. Prometem e não cumprem.  Por instinto, atraiçoam suas vítimas. Assim, rãs e escorpiões são partícipes deste teatro real; aquelas sacrificadas por estes para alcançar a margem do poder, atraídos pelas benesses do Estado provedor de cargos, verbas e espúrias mordomias. Assim, recusam a qualquer utilitária vocação e comprometem a política e a história deste país.  


*Paulo Maria de Aragão
Advogado e Professor
membro do Conselho Estadual da OAB-CE
Titular da Cadeira nº37 da ACLJ

sábado, 11 de janeiro de 2014

RECENSÃO


Escolástica:

NÃO HÁ CIÊNCIA DO SABER PARTICULAR
Vianney Mesquita*


A ciência é uma esplêndida decoração para a sala superior do homem, se ele possuiu no rés do chão uma boa dose de bom senso (HOLMES, Oliver Wendell. Cambridge -Mass., 29.08.1809 – Boston – Mass. 07.10.1894).






Sob a óptica do espectador menos devotado à análise dos procedimentos do trato científico, pode afigurar-se inacreditável, minimamente arrebatador, o fato de ser possível a vinculação racional em vertentes de aparências dessemelhantes, de origens tão supostamente díspares, como nessa comprovada pela Professora Maria da Graça Holanda Martins, autora do volume sob exame.

Reporto-me à obra O Homem – nas abordagens mecanicista e humanista da Administração e no Humanismo de inspiração cristã (Fortaleza, Imprece), editada em excepcional ocasião, propícia a excitar, ainda mais, a já efervescente reflexão, felizmente em voga na atualidade de ambiência da nossa Academia.

Isto porque – e ela, de sobra, conhece este suposto – o exame da ciência não tem por objeto o saber particular, pois é inexequível reunir em insulado conceito, estabelecer somente numa lei o ror de detalhes e situações particulares, constitutivos do ser ou do fato individual: De individuo nulla scientia – ensina a velha, revisada tantas vezes e, em muitos pontos, ainda, acreditada Escolástica.

Neste debate, eminentemente interdisciplinar, a dita Pesquisadora não perde o foco, portanto, das grandes ligações da realidade do ser, e deixa de sujeitar-se ao risco de reduzir a visão a um apoucado domínio da técnica, em virtude do desdobramento dos objetos, o qual conduziu a discussão da ciência a uma gradual especialização.

A Autora demonstra, com efeito, no seu substancial e bibliograficamente bem forrado escrito, o caráter extensivo, a feição horizontal e o perfil encadeado do saber ordenado, ao hospedar para arguir, sob o mesmo pálio argumentativo, o tema da Administração Científica e da Teoria da Burocracia, com base na conceição de homem esposada nas abordagens mecanicista e humanista desta ciência-técnica, para saber se - e até onde - a ideação de humano, nesses dois sistemas, converge ou diverge para a homovisão do Humanismo de inspiração cristã.

Conforme já se dessume, a despeito da postiça falta de identidade temática, os assuntos são passíveis de avaliação, entretanto solicitam a necessária diligência intelectiva, a exigir do estudioso o apuro intelectivo preciso para fruir de juízos absolutamente racionais, a fim de podê-los partilhar com a universalidade, pois vazados no caminhar sereno pelas sistematizações sob ordem metodológica, acumuladas pela riqueza do conhecimento em depósito.

Esses aprestos intelectuais, evidentemente, a Professora Graça Martins detém sobejamente, porquanto os resultados deste seu ensaio podem ser socializados, haja vista representar manancial de fé, do lado de quem, por toda a vida, mourejou em bancos e laboratórios idôneos e fez da existência ateliê de raciocínio, forja de experimento e terreno para testes.

Conquanto se mostre a mim possível antecipar os proveitos da investigação sob glosa, vi por bem a isto não proceder, para não baldar o interesse do provável consulente do livro, tampouco frustrar a sofreguidão daquele leitor mais vexado, cuja necessidade orgânico-psíquica o levará a consumir, com rapidez, todo o teor do curto e substancioso esforço investigativo.

De passagem, no entanto, me cumpre chamar a atenção para o sortimento interdisciplinar do escrito, porquanto reúne o entendimento profuso, quase inusitado, de vários gradis do conhecimento ordenado – Administração, Humanismo, Filosofia, Religião, Trabalhismo, entre outros – concedendo horizontalidade ao feito científico, conjunção de procedimentos múltiplos, significativos da parêmia escolástica Omne individuum ineffabile ou “O todo individualizado é inexprimível”.

Inexiste, por conseguinte, em tese, o saber particular: Non datur scientia de individuo.


*Vianney Mesquita
Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

ARTIGO

AÇUDE CASTANHEIRO NO VALE DO JAGUARIBE
Por Cássio Borges*



No auge das discussões em torno da construção ou não da Barragem do Castanhão, no ano de 1986, o DNOCS foi acusado de ser “contra” a referida obra, motivado por “ciúme” dos seus técnicos às incursões do Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS em sua tradicional e exclusiva área de atuação no semiárido nordestino, uma repetição da situação atual às mesmas pretensões da CODEVASF - Companhia de Desenvolvimento do Vale do Rio São Francisco.

Era o início de uma luta do tipo “vale-tudo” para minimizar uma questão  até então vista sob o prisma “sócio/econômico/ambiental” e transformá-la numa tese “político-partidária”. Para isso, mobilizou-se a opinião pública com avassaladora propaganda e marketing  na mídia (nunca visto), para persuadir a opinião pública, leiga em assuntos de engenharia, à aprovação desta mega barragem  no Estado do Ceará.

Desde então, criou-se  um clima eufórico favorável  à construção desse empreendimento que tinha como objetivo principal a implantação de 75.000 hectares de irrigação na Chapada do Apodi. Naquela ocasião, entre outros argumentos falaciosos para justificar essa  obra,  diziam “tratar-se de uma reivindicação de 80 anos da população cearense”, numa ardilosa referência a um acidente geográfico, denominado, Boqueirão do Cunha mapeado pelo geólogo Roderic Crandell, em 1911, a serviço do IFOCS - Inspectoria Federal de Obras Contra as Secas, quando foi publicado o primeiro mapa geológico da região nordestina.

Até o ano de 1985, quando a Barragem do Castanhão surgiu no cenário cearense, o DNOCS jamais havia previsto qualquer  reservatório de acumulação no Boqueirão do  Cunha. Até então,  não existia nenhuma bibliografia, seja do DNOCS ou da SUDENE, ou de qualquer outra entidade federal ou estadual que fizesse referência  a qualquer  obra de açudagem no referido local indicada pelo DNOS (não confundir com o DNOCS). 

Ademais, o DNOS, com sede no Rio de Janeiro, não tinha nenhuma experiência em questões do semiárido nordestino e acabou sendo extinto no governo de Collor de Melo.

A prova mais evidente do que acima foi dito é o que se vê no ESTUDO GERAL DE BASE DO VALE DO JAGUARIBE (12 volumes),  no tomo POLÍTICA DAS ÁGUAS, publicado pelo GRUPO DE ESTUDOS DO VALE DO JAGUARIBE-GVJ/SUDENE, em 1967 (considerado a bíblia do Vale do Rio Jaguaribe), cujo trecho do Capítulo II transcrevo a seguir:  
                                      
“Os açudes Orós, Banabuiú e Castanheiro constituirão a estrutura básica do sistema de regularização do potencial hidráulico do Vale do Jaguaribe e assegurariam um descarga utilizável de 34,5 m3/segundo, permitindo a irrigação de 72.500 há efetivamente  irrigados. Essa  estrutura deverá ser complementada por uma série de obras interanuais que permitirão irrigar 140.000 hectares.”                  
                           

Pelo visto, ao contrário do que diziam os seus idealizadores e promotores, não é verdade que o açude Castanhão se “constituiu” numa reivindicação de 80 anos da  população cearense.

Deste estudo da SUDENE tiram-se as seguintes  conclusões:

1) O Açude Castanheiro, no Rio Salgado, afluente principal do Rio Jaguaribe por sua margem direita, estaria na cota do RN= 239m e teria uma área  de abrangência sobre o Vale do Jaguaribe bem maior do que a do Açude Castanhão, na cota 50m, próximo do litoral; 

2) O Castanheiro ficaria distante cerca de 326 km do mar (pelo talvegue do rio), enquanto o Castanhão está, de fato, a apenas 150km;  

3) Caso a opção fosse pela construção do açude Castanheiro  esse teria uma largura de apenas 40 metros de comprimento, enquanto o  Castanhão foi construído  (pasmem!) com 10.500 metros;

4) No Castanheiro praticamente não haveria  espelho de evaporação exposto ao sol;
 
5) O Açude Castanhão não acrescentou um só centímetro à perenização do Rio Jaguaribe, pelo  contrário, “destruiu” ou   “inutilizou” com a inundação de sua imensa bacia  hidráulica 70 km da regularização de vazões promovidas pelo açude Orós e 40 km da perenização  promovida pelo Açude Riacho do Sangue.

Por fim, é  lamentável  que  os 10.000 hectares de férteis solos  da Planície de Icó, referido nos estudos do DNOCS e da SUDENE , ficarão sem possibilidade de utilização porque é uma área sujeita a inundações periódicas, problema que seria solucionado pelo Açude Castanheiro. Além disso, sua irrigação dependeria principalmente das águas acumuladas nesse reservatório. 

Os açudes Orós, Banabuiú e Castanheiro, considerados “Obras Chaves” ou “Barragens Mães” do Vale do Jaguaribe, teriam também, entre outras,  a importante função de amortecer as enchentes em toda aquela importante Região do Estado do Ceará, conforme enfatiza o  citado estudo da SUDENE.

* Cássio Borges
 Engenheiro Civil 
    Especialização em recursos hídricos e barragens 
  Membro Honorário da ACLJ


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CRÔNICA

Enfim, sou privilegiado e rico... Nada mais.
Por Fernando Dantas*

Na vida, realmente, só existem duas situações nas quais ficamos mais ricos ao gastarmos nosso suado dinheiro, ganho neste país. A primeira é quando viajamos. Como é bom viajar! Conhecer novas culturas, novos locais, fazer amizades fora de nossa zona de conforto. Apreciar sabores da culinária e das bebidas das terras que conhecemos. Guardar na memória – e nas fotos – os momentos únicos vivenciados, sozinhos ou acompanhados.

A segunda situação em que gastamos nosso tempo concentrado – pois é assim que definiria o dinheiro – é quando estudamos e ampliamos a nossa cultura. Através da leitura, dos novos conhecimentos adquiridos nos bancos escolares, conseguimos também dar asas à liberdade e voar em uma viagem. Esta, às vezes preliminarmente onírica, mas que se for perseguida torna-se real.

Eu me sinto privilegiado por ter descoberto desde cedo que as viagens e os estudos nos tornam mais ricos e livres. As viagens são profundas. Elas começam logo cedo ao nascermos e sairmos do ventre materno para conhecer a luz e este mundo. Viagens não são apenas as que fazemos para conhecer cidades, estados, países. Viagens fazem parte de nossa história de vida e que nos remetem às histórias de vida.

Nessas  idas e vindas de viagens de vida, houve o momento de decidir o que fazer como labor. A família queria Medicina. Mas a paixão pelas ciências humanas e sociais falaram mais alto. Decidi-me por duas profissões irmãs siamesas. Direito e Jornalismo. Ou seria Jornalismo e Direito?  

No princípio fui questionado porque desejara fazer duas faculdades. E os leigos em escolhas na vida ainda insinuavam que elas não se completam, e que deveria eu fazer apenas uma delas. Outros ainda tinham a visão de que o Direito se relacionava apenas à advocacia ou à magistratura. Alguns viam o jornalismo apenas como instrumento de divulgação dos  fatos do cotidiano. Como estavam enganados! Desafiei e segui em frente, amando os dois cursos escolhidos e concluídos.

Já nos bancos acadêmicos descobri premissas básicas que unem as duas profissões, e divergem de seus conceitos formais: de que quem faz Direito não precisa,  necessariamente, advogar,  e de que quem faz jornalismo não se obriga a somente divulgar os fatos do cotidiano. No Brasil, as duas profissões se fundem, em seus valores e características.

Em um passado não muito distante, eram os rábulas e advogados militantes que escreviam nos tabloides da época. São dois profissionais que se obrigam a ter que labutar com, pelo menos, dois lados, duas opiniões, duas situações de um antagonismo, entre fatos jurídicos ou jornalísticos. A eterna busca da verdade... se é que ela existe. Uma coisa é certa, em relação a estas duas ciências humanas: elas ajudaram-me a ter uma visão mais crítica da vida, das artes, da política, da justiça, enfim, da sociedade e suas mazelas.

Os anos passaram. As aulas na faculdade terminaram. Comigo ficaram as lembranças de mestres e colegas, além do aprendizado. A viagem prosseguiu. E ao longo da viagem da vida não esperamos por coincidências ou reencontros. Mas estes acontecem. E às vezes de forma inusitada e alegremente, o que me leva a perceber o quanto sou privilegiado.

Senti-me lisonjeado quando em 2010, um amigo do curso de Direito, que também é  advogado e jornalista, convidou-me a ser um dos fundadores da mais nova academia literária do Ceará, a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a ACLJ, estabelecida em 4 de maio de 2011 na ACI – Associação Cearense de Imprensa. Para alguns mais críticos não poderia eu estar em uma academia literária com alguns notáveis, com notáveis histórias de vida.

Mas desde o princípio soube dos propósitos modernos e inclusivos da nova academia, que em 2014  completa seu terceiro ano de existência. Uma academia que não buscou apenas incluir escritores de livros, mas acadêmicos que expressam suas visões de vida das mais diversas formas, e nos mais diversos veículos como o rádio, a televisão e a internet. Uma academia que valoriza mais as expressões de pensamentos que as formas como estas são divulgadas. A mensagem se tornou o mais importante.

Convite aceito, sinto-me privilegiado, sim,  por pertencer à Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, e me orgulho de ser jornalista e advogado, ocupando a cadeira de número 19, cujo patrono é o jornalista Demócrito Dummar, que antes de ser guindado a comandante maior do Sistema O Povo de Comunicação, passou pelos bancos universitários  da Faculdade de Direito da UFC.

E a minha certeza de ser um privilegiado se ampliou. Não de forma soberba, mas de forma respeitosa e com orgulho de integrar um grupo seleto. E o meu orgulho e reverência para com alguns de seus integrantes se tornaram fato concreto. Cheguei à conclusão da razão de ser mesmo um privilegiado nesta academia: foi na nossa ACLJ que tive a oportunidade de reencontrar seres de minha história de vida, aprendizados  e viagens.

Tenho como confrades pessoas que foram importantes em minha formação acadêmica no Direito e no Jornalismo. Nos assentos da Academia tive a satisfação de perceber que agora estava a caminhar novamente com dois professores de meu curso de Jornalismo, e com dois professores de meu curso de Direito. O mais interessante é que, em momentos distintos, tirei fotos com uma dupla formada por um professor de cada curso. Mestres com os quais tenho passos na aprendizagem de minha viagem por esta vida.
  
A primeira foto é mais descontraída. Nela, ao meu lado direito tenho o jornalista e professor Geraldo Jesuíno da Costa, que ocupa a cadeira de número 32, cujo patrono perpétuo é Raimundo Girão. Falar de Geraldo Jesuíno é motivo de orgulho. Homem simples, amante dos livros e das artes gráficas. Com ele pude conhecer de perto, e na prática, as artes gráficas na Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, onde estagiei.

Este professor foi o meu orientador e maior incentivador para terminar minha monografia do curso de Jornalismo, que concluí em  apenas quinze dias.  Ao lado esquerdo tenho a satisfação de ter o magistrado  e professor Aluísio Gurgel do Amaral Júnior, que ocupa a cadeira de número 14, cujo patrono perpétuo é Aluísio Gurgel do Amaral.

Aluísio foi um professor do curso de Direito que nos mostrou que além da formalidade jurídica, por baixo de uma toga existe um ser humano. E no caso dele um ser humano amante das artes e da boa música. Aluísio chegou a nos mostrar seus dotes melódicos ao som dos acordes do violão após as aulas de Direito na faculdade.

Já a segunda foto é um pouco mais formal, pois estamos com as vestes talares de nossa ACLJ. Como na primeira, coincidentemente, tenho um professor de Jornalismo ao meu lado direito, e um do Curso de Direito ao meu lado esquerdo. Pelo Jornalismo tenho a ilustre figura do jornalista e professor Vianney Campos de Mesquita, ocupante da cadeira de número 22, cujo patrono perpétuo é José Rebouças Macambira.

Vianney foi o professor que nos acolheu bem no curso de Jornalismo da UFC – Universidade Federal do Ceará. Foi através do mestre Vianney Mesquita que conhecemos como seria nosso curso, ao longo de quatro anos. Destacamos ainda que com ele viajamos e conhecemos  a estrutura da universidade fora de Fortaleza, chegando a conhecer a bela cidade de Sobral. Ainda na faculdade Vianney Mesquita incentivava seus alunos a escreverem artigos e a se interessarem em ser autores de obras acadêmicas, bem antes da conclusão do curso.

Já ao meu lado esquerdo, na segunda foto, tenho o advogado e Professor Paulo Maria de Aragão. Paulinho, como o chamo carinhosamente,  iniciou-me na paixão pelo Direito do Trabalho, para mim, ramo jurídico de fundamental importância na vida,  e  nas relações sociais do cidadão.

Paulo Aragão soube entender as vezes em que eu chegava atrasado na sua aula no primeiro horário da UNIFOR – Universidade de Fortaleza. O atraso ocorria porque eu saía dos estúdios da televisão em que trabalhava, direto para a sala de aula. Ao adentrar a sala logo escutava o velho bordão do professor: “Repórter, chegou?” Essa sua compreensão se deve ao fato de que ele também, no passado, exerceu atividades jornalísticas na redação.
  
Aqui eu  agradeço a estes mestres com carinho e respeito por poder, novamente, na viagem da vida, estar ao seu lado. Por isto sou um acadêmico da ACLJ privilegiado. Enfim, sou privilegiado e rico... Nada mais.

*Fernando Dantas
Jornalista e Advogado
Titular da Cadeira de
nº 19 da ACLJ 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

RESENHA

A FILOSOFIA E A EVOLUÇÃO DA GEOGRAFIA, CONSOANTE   O ENGENHEIRO-GEÓGRAFO PROF. CAIO LÓSSIO BOTELHO
Por Vianney Mesquita*


Não chegaremos a ser filósofos, embora tenhamos lido todos os raciocínios de Platão e de Aristóteles, se não pudermos emitir um juízo firme sobre as questões propostas, porque, neste caso, há de parecer, não aprendemos ciência, mas simples história (EPITECTO – Sec. I, filósofo estoico, nascido na Frígia - Ásia Menor).

1. Razões Preliminares


CAIO
Nosso amigo e ex-professor, engenheiro-geógrafo Caio Lóssio Botelho, docente da Universidade Estadual do Ceará e ensaísta de nomeada no terreno das Ciências Corológicas, ora vive com a doença de Alzheimer, sendo tratado com o máximo desvelo por sua mulher e colega de ofício, Professora Maria José Rondon Régis Botelho.

Interdito de escrever, em razão de enfermidade tão iníqua, esse docente interrompe a dignificante carreira de analista, ao correr de mais de quarenta anos, registando no seu imobilizado autoral 23 livros na grade do conjunto de conhecimentos pinçado para estudar, fato a se lamentar, pois se pressupunha tivesse um percurso produtivo bem maior. Havemos de nos contentar, porém, com os propósitos advindos do Alto.

Em duas ou três oportunidades, ele nos concedeu o deleite de comentar produtos seus, o primeiro dos quais assentou em "A Filosofia e o Processo Evolutivo da Geografia", a público em 1987. Acerca desse ensaio, publicamos, em 1989, o texto "A Filosofia Conexa à Geografia", feito capítulo do livro de nossa assinatura, intitulado "Impressões - Estudos de Literatura e Comunicação". (Fortaleza, Edições Agora, 1989, p.23).

Em homenagem a esse especialista no trato do saber geográfico, reproduzimos, no ensejo, com as modificações naturalmente demandadas pelo tempo, consumidor desapiedado, o escrito-base mencionado, com a intenção, também, de atender à diacronia da língua, isto é, sua descrição ou de parte desta, ao longo de sua história, com as mudanças por ela admitidas.

2. A Geografia e os Sistemas Científicos e Filosóficos

Margina ao conhecimento da massa, pelo menos no nosso meio, a existência de esforço ensaístico com o objetivo de vincular, de maneira didática, a Geografia aos sistemas científicos e pressupostos filosóficos, mostrando-se a relação de causa e efeito dessa prestigiosa ramificação do saber ordenado.

BACON
"Vere scire per causa scire" - exprimiu com razão de sobra Francis Bacon (Londres, 22.01.1561; Highgate, 09.04.1626). O conhecimento somente é verdadeiro, de certeza relativa, quando sucede pelas causas.

Daí a preocupação do Professor Botelho (Juazeiro do Norte-CE, 19.04.1933), na sua efervescência produtiva constante, com estabelecer esse necessário liame dialético da Geografia com as sistematizações da Ciência e os ditames da Epistemologia, ao demonstrar este saber qual aquele oriundo do conhecimento, denominado pelo “pai” do darwinismo social, Herbert Spencer (1820-1903, Derby-UK; Brighton-UK), “conhecimento parcialmente unificado”, operando mediante relações.

Ipso facto, não há dúvidas a respeito do argumento de a Geografia, restando explicada por via das relações de causalidade, se enfileirar na aleia das matérias científicamente disciplinadas.

Com a edição de “A Filosofia e o Processo Evolutivo da Geografia”, em Português preciso, com o jargão ligeiramente amatado para facilitar o entendimento e alcançar o maior número de leitores, nosso Autor está no extremo moderno da preocupação especulativa de inserir esta matéria no terreno dos sistemas científicos. Na outra borda, por primeiro, tomou essa providência Bernardo Varenius (Hannover-Alemanha, 1622; Leide, Holanda, 1650), na sua “Geografia Geral ”(1650), secundado, anos à frente, por Imamnuel Kant (Konigsberg, 22.04.1724-12.02;1804).

KANT
Sem pretender, por inoportuno e descabido, trazer adições à completa proposição do livro de Caio Lóssio Botelho, a si bastado no âmbito do seu objetivo, não custa repetir o fato de, num grande lapso - centenas de anos - se poder assinalar a ideia de a Geografia, a despeito dos estudos de Varenius e Kant, não denotar, então, noções claras sobre os fatos a serem expressos para caracterizar países e regiões. Tal era o objetivo fundamental do estudo geográfico da época, ao lado dos cuidados com a forma e a dimensão da Terra.

3. Esboço Histórico

HUMBOLDT
Neste salteado escorço histórico, afoutamente empreendido com suporte no volume sob comento, encontramos, coetaneamente e em Berlim, Alexander von Humboldt (Berlim, 14.09.1769-06.05.1859) e Carl Ritter (Quedlinburg-Alemanha, 07.08.1779; Berlim, 28.09.1859) – ambos fartamente mencionados na obra ora sob relação, com origem no terceiro quartel dos Oitocentos. Esses sistematizadores alemães imprimiram maior consistência às teorias antes avençadas pelo gênio da Varenius (viveu apenas 28 anos) e a percuciência de Kant.

Na relembrança das magistrais preleções do Professor Paulo Othon Sidou, nos tempos de maré alta do ensino secundário, idos de 1961, na então Escola Técnica Federal do Ceará, temos ainda bem nítidas suas palavras professorais a respeito das expedições humboldtianas e sua farta produção investigativa na seara geográfica. Foi Alexander von Humboldt a introduzir no léxico particular da Geografia e acrescer à descrição, antes enciclopédica, qualitativa e assistemática da Geografia popular, a exposição adredemente relacionada com os fenômenos observados na qualidade de ouvidor habitual da Natureza.

Do próprio Caio Lóssio Botelho, de quem tivemos a ventura de ser escolar, mesmo por breve período e na mesma excepcional Escola Técnica Federal do Ceará, ouvimos referências por demais lúcidas e precisas a respeito de Humboldt e, notadamente, acerca de Carl Ritter, célebre “Pai da Conexidade e Analogia”, de linha determinista, escola também do multirreferenciado Humboldt, bem assim de Frederick Ratzel (Karlsruhe – Alemanha, 30.08.1844; Lago Starnberg, Alemanha, 09.08.1904), o segundo imprimindo ênfase à relação homem-meio na valorização da Antropogeografia, sob a influência dos evolucionistas.

VIDAL DE LA BLACH
No âmbito da evolução da Geografia de mãos dadas com a Teoria da Ciência, o livro privilegia explicações acerca da não menos famosa Escola Possibilista ou Pruricausalista, encabeçada por Paul Marie Vidal de la Blache (Pézenas, Heraude-FR, 22.01.1845; Tanaris-sur-mer provence-Alpes-Côte d’Azur-FR, 05.04.1918), à qual se filiaram, com ligeiras disparidades de pensamento, Jean Brunhes (Tolouse-FR, 25.10.1869; Bologne-Billancourt-FR 25.08.1930) e Emmanuel de Martonne (Chabris-Indre-FR, 01.04.1873; Sceaux, 24.07.1955).

Entrementes, ainda em França, rivalizavam em escolas Raoul Blanchard (Orleans-FR, 04.09.1877; Paris, 24.03.1965) e Camille Vallaux; Blanchard no terreno da Geomorfologia e Vallaux (Vendôme Kerhuan-FR; Finisterre-ESP.--.—1945), no campo da metodologia.

Armazenamos, ainda bastante viva, a divisa “A natureza dá as cartas e o homem faz o jogo”, moto central da Escola Pluricausalista, de Paulo Marie Vidal de la Blache.

4. Sistemática Funcionalista

Bem mais moderna é a tendência Sistemática Funcionalista, vigorante nos Estados Unidos, representada, entre outros, pelo geógrafo inglês de nascimento Bryan Joe Lobley Berry (Sedgley-Staffordshire-UK, 16.02.1934), a primeira escola a empregar indicadores da então novel ciência da Informática.

A este Círculo geográfico, propiciador da ascensão de várias dissidências, máxime nos
MARX E ENGELS
Estados Unidos, contrapôs-se a Escola Radical Marxista, ao divisar a Geografia como subordinada ao poder político, expressando íntima relação entre esta e a ideologia marxista, em Antônio Gramsci (Ales-IT, 22.01.1891; Roma, 27.04.1937), Karl Heinrich Marx (Treveri-AL, 05.05.1813; Londres, 14.03.1883) e Friedrich Engels (Wuppertal-AL., 25.11.1820; Londres, 05.08.1895).

O livro do Professor Caio Lóssio Botelho comenta, ainda, a filosofia de vários outros pendores das Ciências Corológicas no Mundo, demonstrando em todo o seu curso as relações da Geografia com a Filosofia e a Teoria Científica, apondo a disciplina de Elisée Jean-Jacques Reclus na devida conta dos mais desavisados como procedimento sério, verdadeiro, inatacável sob o prisma do seu método.

5. A Modo de Remate

Alegrou-nos, sobremodo, esse renovado contato com os estudos da Policiência da Terra, procedidos com sofreguidão na nossa juvenilidade e largados, compulsoriamente, ex-vi de uma trilha diversa, contingentemente escolhida – o Jornalismo e o magistério acadêmico.

DELGADO DE CARVALHO
A releitura, sob óptica moderna, deste livro do Dr. Caio, no ideário da Ciência de Carlos Miguel Delgado de Carvalho (Paris, 04.11.1884; Rio de Janeiro, --.—1980), aliada a nossa melhor prontidão intelectual de hoje, fazem-nos renascer o espírito de curiosidade e respeito pela mais relevante Ciência Corológica, ao termos de relacioná-la, para conhecê-la, mesmo em superfície, a quase todos os esgalhos do conhecimento, este, aliás, differentia specifica  da relação homem-espécie inferior.

Experimentarão os jovens destes tempos a oportunidade, não ensaiada por nós, de fazer convívio com o sistema ordenado da Geografia, antes estudada nos estabelecimentos de ensino brasileiros na base do bom senso e da opinião comum, alheia a uma vinculação epistemológica a lhe imprimir caráter de feito da Ciência, e, por isso mesmo, de verdade e certeza.

A dimensão intelectual do autor dessa obra, dirigida aos iniciados nos misteres da especialidade tratada, dignifica a inteligência brasileira e enche de honra a Terra Cearense, e ainda é acompanhada de um propedêudico e conforme comentário do cientista polivalente coestaduano Francisco Alves de Andrade (Mombaça-CE, 21.11.1913; Fortaleza, 06.10.2001), ataviando superfluamente o valor do livro.

ARAGO
É a súmula de muitos pensamentos, o sumo do entendimento de várias correntes enfeixado num escrito didaticamente perfeito, produto de longa prática magisterial do seu escritor.

Para o homem obstinado, cientificamente teimoso, feito o Professor Caio Lóssio Botelho, poucas coisas se lhe afiguram impossíveis, como esta façanha ora empreendida.

Tenhamos todos em linha de conta as sapientes palavras de Françoise Jean Dominique Arago, físico, astrônomo e político francês (Estagel, 26.12.1786; Paris, 02.10.1853):


“Quem, fora das Matemáticas puras, pronuncia a palavra impossível é falho de prudência”.

*Vianney Mesquita
(Docente da UFC, jornalista e escritor.
Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da
Academia Cearense de Literatura e Jornalismo).

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

LÍNGUA DE CAMÕES


                             
OS MIL PECADOS QUE SE COMETEM CONTRA A LÍNGUA
Por Márcia Siqueira*

A nível de Brasil, o texto acadêmico anda um horror. Quem escreve, enquanto professor ou pesquisador universitário, não está sabendo colocar as questões segundo as boas regras do Português. Ao invés de trabalhar em cima do significado preciso das palavras, adota um neologismo. As incorreções perpassam todo o texto e, nas mal traçadas linhas, o resultado desvela que o autor não é tão erudito quanto quer fazer parecer.

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Teste de atenção: encontre nas linhas acima pelo menos sete modismos que invadiram a escrita acadêmica nos últimos tempos.

Se o parágrafo passasse pela crítica do jornalista Vianney Mesquita, certamente seria reprovado. Professor [...] da Universidade Federal do Ceará, Mesquita trabalha há 20 anos na revisão de teses e trabalhos acadêmicos e se diz alarmado com a qualidade dos textos que lê.

Segundo ele, manias, chavões e toda sorte de impropriedades estão agredindo a norma culta da língua. E ainda podem dificultar as traduções, essenciais para a difusão da Ciência.

Na avaliação do Professor, não é só na literatura que os autores podem exercer o próprio estilo. [...]  o texto científico também permite que se escreva de modo particular e elegante – ensina. Isso significa respeitar cinco princípios básicos: correção, clareza, precisão, simplicidade e precisão. É justamente aí que começam os problemas. Em boa parte dos textos científicos, o pensamento dá voltas, sem comunicar. Palavras difíceis – e mal empregadas – dificultam ainda mais o trabalho do leitor.

CREDO !

Muitos autores simulam preciosismo na escrita para fingir uma erudição que não possuem – acusa Vianney Mesquita.

O resultado é nefasto para a Língua Portuguesa. Segundo o Professor, parte da responsabilidade por esses deslizes cabe aos tradutores que, na lei do menor esforço, preferem inventar palavras que acabam repetidas por docentes e alunos. Toda a universidade é afetada pela "doença”, mas os sintomas aparecem mais em áreas como Ciências Sociais e Educação.

Neologismos sem função, estrangeirismos, lógicas invertidas, frases feitas e  as chamadas “muletas” do discurso são as falhas mais encontradas por Vianney Mesquita.

Em parceria com o Prof. Dr. José Anchieta Esmeraldo Barreto, ex-reitor da U.F.C., ele lançou o livro A Escrita Acadêmica – acertos e desacertos, nas livrarias a partir do dia 15.

Além das dicas para a correção do texto acadêmico, o material é uma coletânea divertida das bobagens que os dois já corrigiram. São erros grosseiros, como o de um estudante de mestrado que confessou, na abertura da sua dissertação, ter entrado no assunto “como Judas entrou no Credo”. Na verdade, foi Pilatos, lembra Mesquita, lavando as mãos.


DESCULPE O VEXAME

Confira algumas recomendações para melhorar seu texto:

Mostre seu trabalho a um colega e aceite sugestões para melhorá-lo. Lembre-se: a vaidade é inimiga da clareza.

Confira se o texto transmite seu pensamento de modo correto e preciso. Evite exageros.

Tenha sempre à mão um bom dicionário. Consulte-o sempre que tiver dúvidas.

Tente ser fiel ao seu estilo. Seja criativo, mas respeite a língua.

Se preciso, recorra a um especialista. Com o tempo e tomando consciência dos próprios erros, será mais fácil livrar-se deles.
 

*Márcia Siqueira
Jornalista e escritora mineira.
(Matéria publicada no Estado de Minas,
Belo Horizonte, citando Vianney Mesquita,
Titular da Cadeira de nº 22 da ACLJ).

CRÔNICA

ESTÃO CHAMANDO NOSSA TURMA
Por Wilson Ibiapina*


Num domingo, pela manhã, o telefone tocou em minha casa. Era o Tozim, direto de Ubajara. Fiquei contente com a ligação. Era um amigo de infância que eu não via havia mais de 40 anos. Nos cumprimentamos, e ainda surpreso perguntei como foi lembrar de mim, depois de tanto tempo. 

– Foi o Florival que sugeriu ligar pra você. Estou precisando de um som para animar as festas que promovo na Serra, e o Florival disse que você pode mandar um.

Não só comprei o desejado som como saí de Brasília e fui até à Serra da Ibiapaba fazer a entrega pessoalmente. A viagem de Fortaleza até Ubajara foi feita na camioneta do Rubens Soares Costa. Cunha Júnior nos acompanhou.

Durante a viagem fui lembrando da figura do Tozim. Ainda adolescente, de férias em Ubajara, gostava de ouvir o som do bumbo da banda  do município. Bum!!... Bum!!!  Era o Tozim chamando os músicos para o ensaio da banda. O som ecoava por toda a pequena cidade. Tozim tocava tarol. 

No dia de uma dessas convocações, o Expedito, membro da banda, jogava sinuca no bar do Pedro. Como ele fez que não ouvia a chamada, perguntei se ele não iria ao ensaio.  E ele, sem soltar o taco nem olhar para mim, disse que estava doente, com os lábios inchados de picada de abelha, e que não iria. Até hoje não entendo a desculpa. Expedito tocava pratos na banda.

Tozim, exímio baterista, era irmão do João Benício, saxofonista, filhos de seu Valentim. Ele jogava no time da cidade formado pelo Florival Miranda, o dono da bola e das camisas. Quando não era escalado, Tozim chorava feito criança. 

Nesse tempo,  um  outro programa que fazíamos era invadir os sítios que ficavam na periferia da cidade para roubar mangas, jacas, goiabas, e chupar cana, quebrada no pé, para desgosto dos proprietários. Geralmente éramos perseguidos pelos empregados dos sítios, que usavam espingardas com tiro de sal. Barriga cheia, e depois dessa carreira, fugíamos para o banho de rio. Água gelada, que só a coragem e a audácia da idade nos faziam enfrentar com a maior naturalidade. Da turma, restam poucos. 

Já se foram o Gregório Aragão, o Dário Cunha, o Dário Macedo, o George e o Lincoln Vasconcelos; o Versiani e o Pedro Chico; Toinho do seu Chico Pinto e Salustiano, que diziam que era ladrão em outras cidades, e se refugiava em Ubajara.

Agora, o Rubens liga para informar que o Tozim também se foi. O Florival conta que ultimamente ele trabalhava como empresário de bandas. Uma delas, a banda Ases do Planalto, do Zequinha do seu Gabriel. Usava o som que lhe dei para movimentar as festas.


Ia tudo bem até que um dia levou um tombo, quebrou uma perna, e ficou meses numa cama, e depois andando de muletas. Fez promessa para São Francisco. Estava com 73 anos de idade quando viajou a Canindé. A emoção foi grande. Foi traído pelo coração logo que saiu da igreja. Florival garante que ele morreu sem dever nada a ninguém. Até a promessa ele pagou.

     *Wilson Ibiapina
             Jornalista
     Sucursal de Brasília
 do Sistema Verdes Mares
     Titular da Cadeira
      de nº 39 da ACLJ