sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ARTIGO - Leitura Para a Liberdade (VM)


Leitura para a Liberdade
Ressocialização de Presos com Base em Livros
(Acerca de Projeto do Sociólogo Arnaldo Santos)
Vianney Mesquita*



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CRÔNICA - O Escândalo (RV)


O ESCÂNDALO
Reginaldo Vasconcelos*


Numa rota doméstica banal cai no mar o avião particular que transporta um dos homens mais visados da atualidade brasileira, o juiz que julgará centenas de componentes da cúpula da República, envolvidos no maior escândalo de corrupção da vida do País, um dos mais momentosos na História Universal.

Morre assim esse personagem de repente, dias antes de homologar delações feitas contra políticos poderosos, por portentosos empresários, e naturalmente o fato levanta fundadas suspeitas de atentado contra ele.

A lei das probabilidades aponta para a eventualidade de que figurões magoados com a cadeia por ele decretada, e tantos outros que estão caminhando na prancha rumo ao castigo e à desgraça, tenham contribuído de alguma maneira para o fato.   

A começar pelas hipóteses mais simples, de que algum sicário fanático das hostes criminosas tenha sabotado o avião, ou lhe dado orientações erradas a partir de uma torre de controle, ou que dinheiros imundos hajam rolado para financiar o perverso desatino.

O piloto era devidamente habilitado e por demais experiente na rota e no aparelho que voava, e este, se garante, era moderno e seguro, em perfeita ordem, com todas as revisões em dia, o que afastaria a possibilidade de falhas humanas e mecânicas.

Ressalva-se que chovia no momento, e que não havia um copiloto – mas contra isto há o argumento de que este seria útil, porém não necessário, tanto assim que não era obrigatório. Também se tem dito que chuva não derruba aviões, pois do contrário todos os dias cairiam vários em volta do Planeta. É voz comum que não havia vento – este sim, agudo perigo em momento de pouso e decolagem.

Então se revelam as gravações de bordo – ainda não trazidas a público – em que o piloto nada relataria de anormal no seu organismo, em seu psiquismo, ou na máquina que conduz. E, de súbito, CRECHE! – o parelho mergulha no mar, matando por traumatismo e afogamento os viajantes.

Mas se diz que o campo de pouso não é dotado de aparelhos, obrigando à operação visual, e o teto de voo estava baixo – mas isso não era fato novo naquela região, que nem por isso jamais foi interditada, e desde sempre é intensamente utilizada pelo tráfego privado.

Particularmente, eu não acredito no acaso, porque não aceito ser meramente casual a minha própria existência, desde o encontro fortuito em que um jovem casal cruzou olhares numa tarde dos anos 40 e pouco tempo depois resolveu fazer família.

Tudo pode ter acontecido com o avião de prefixo PR-SOM, semelhante ao PT-IOL do Banco do Nordeste, no qual por vezes eu sobrevoei o Estado do Rio. Tudo pode ter acontecido, menos um fato aleatório, independente do grave contexto humano em que ele incide, e das consequências sociais que ele provoca.

Quando o Voo 168 da Vasp colidiu com o Serra da Aratanha, em 1982, matando os 137 ocupantes, principalmente o nosso Chanceler Edson Queiroz, tão absurdo parecia o fato que muito se disse e até hoje há quem acredite em suicídio do piloto.

Sim. Todo dia um depressivo se mata em algum lugar, e nada obsta que um deles esteja eventualmente diante de um manche aviatório e resolva chocar este mundo, e se fazer acompanhar no outro mundo por um séquito de pessoas, somando a desgraça alheia à sua tragédia pessoal.

Certamente este não é o presente caso, tendo em vista o quadro absolutamente saldável em que o piloto Mazinho se encontrava, um homem feliz e querido de todos, profissional prestigiado e sem vocação a camicase, o qual foi tão vítima do acidente quanto os seus comorientes.  

Mas nada me demove da ideia de que as forças do mal que infelicitam o Brasil presentemente tenham se conjugado no éter para obumbrar os olhos lúcidos do inditoso aviador, e para fazer trepidar seu pulso firme, a fim de produzir o desastre e mover o escândalo.

É inevitável que venha o escândalo, mas ai daqueles por quem venha o escândalo”, segundo o Cristo advertiu.

 

ARTIGO - Trump é Direita ou Esquerda? (RMR)


TRUMP É DIREITA OU ESQUERDA?
Rui Martinho Rodrigues*


Donald Trump é contra a globalização, o livre comércio, o intervencionismo pelo qual os EUA se imiscuíram nos conflitos por toda parte. Disse que o Japão e a Coreia do Sul deveriam cuidar da própria defesa, fazendo suas próprias armas nucleares. Renunciou ao papel de polícia da proliferação nuclear. É protecionista. Pratica a intervenção nas decisões das empresas, coagindo montadoras de automóveis a mudar investimentos do México para os EUA. Adota teses mercantilistas do século XVII. É nacionalista. É esquerda?

Nacionalismo era coisa de direita. Com a guerra fria passou a coisa de esquerda, para servir de arma contra os EUA. O livre comércio e a globalização eram satanizados pela esquerda. Com o Brexit, Trump e assemelhados na Europa passaram a ser defendidos por quem os combatia. Agora, quem defende o livre comércio e a globalização é Xi Jinping, dirigente do Partido Comunista Chinês. A mudança não é da essência do nacionalismo. Este continua uma paixão irracional como qualquer outra. Já foi descrito como o último reduto dos canalhas. Mudou a exploração que se faz dele.

A determinação de dirigir a economia privada sempre foi uma prática da direita, que queria mandar sem estatizar; e da esquerda, que queria mandar estatizando. Hoje, a maior parte da esquerda já não quer estatizar, só quer mandar e trocar apoios por benesses, e mais alguma coisinha.

A renúncia ao papel de polícia do mundo subitamente deixou de ser uma reivindicação da esquerda. Agora é ameaça do Trump. O fim da pax americana é um lamento, anuncia o agravamento dos conflitos regionais.

Norberto Bobbio, na obra “Esquerda e direita”, admite a existência da dicotomia, depois de demonstrar que nenhuma bandeira política é exclusividade de um ou de outro agrupamento. Democratas, autoritários, totalitários, nacionalistas, cosmopolitas, românticos, tudo isso e muito mais estão dos dois lados.

Bobbio, porém, reafirma a existência dos dois polos. Não porque um defenda mais a liberdade e o outro a igualdade, nem afirma que um seja mais inclinado a uma Antropologia filosófica otimista e outra à pessimista, nem que um seja favorável aos oprimidos e outro contrário, pois isso seria uma falácia ad hominem, confundindo os diferentes caminhos para o mesmo objetivo com defesa e oposição em face da meta citada.

Bobbio reconhece a dicotomia, por ser, na prática, reconhecida. Não se importa com o fato de que as inúmeras bandeiras políticas não se dividem uniformemente em dois blocos. Quem é contra a pena de morte não é obrigado a ser a favor do aborto; nem quem é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo está obrigado a ser contrário a posse de um meio de defesa.

Getúlio e Peron eram direitistas. Depois de mortos foram transformados em esquerdistas. Nos anos trinta do Século XX os nossos intelectuais, em geral, eram direitistas. Subitamente converteram-se à esquerda. A dicotomia é falsa. O que existe é esquerdo-direitismo. Trump é isso, na versão populista. Passa por cima dos partidos e instituições. Comunica-se direto com as massas.




GLOSSÁRIO DE PARÊMIAS, ANEXINS E CURIOSIDADES LATINAS
(Letra B)
Seleção de Vianney Mesquita*


Balbus balbum intelligit.
Um gago entende outro gago; um semelhante procura outro; tais com tais.

Balnea via,Venus corrumpunt corpora mostra, Sed vitam faciunt balnea, vina Venus.
Os banhos, o vinho e Venus estragam o nosso corpo, mas é nos banhos, no vinho e em Venus que está a vida.

Barba non facit philosophum. (Plutarco, Disp. Conviv., 7, 6, 3).
O hábito não faz o monge. A barba não faz o filósofo. Pelas obras e não pela roupa é o homem conhecido.

Barbarus hic sum, quia non intelligor ulli. (Trist. Livro V, Epíst. 10, v. 37).
Aqui sou bárbaro, porque não sou entendido por ninguém. (Lamento doloroso de Públio Ovídio Nasão, no exílio).

Barba virile decus, et sine barba pecus.
A barba é ornamento viril, e quem não tem barba é ovelha.

Beati monoculi in terra caecorum.
Bem-aventurado, entre os cegos, quem possui um olho; em terra de cego quem tem olho é rei.

Beati mortui qui in Domino moriuntur.  (Apoc. CXIV, v. 13).
Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor, isto é, com a graça do Senhor.

Beati mundi corde, quoniam ipsi Deum videbunt (Sermão da Montanha. Mateus. Volume. 8).
Bem-aventurados os de coração puro, porque os verão a Deus.

Beati quicumque pugnantes pro pátria. (Xenofonte, De rei. Gest. Graec. Liv.2)..
Felizes os que combatem pela pátria.

Beati qui lugent, quoniam ipsi consolabuntur. (Sermão da Montanha, Mateus, V. 5).
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

Beatitudo in excelso est; sed volenti penetrabilis. (Sêneca, o Filósofo. Epíst. 65).
A bem-aventurança, apesar de estar em lugar muito elevado, pode chegar-lhe quem tenha vontade. (Bíblia).
Maior bem-aventurança é dar do que receber.

Beatus enim esse sine virtute nemo potest. (Cícero).
Porque ninguém pode ser feliz sem virtude.

Beatus venter qui te portavit.
Bendito o ventre que te gerou. (Como ironia, emprega-se esta saudação em referência a um pateta ou enfatuado).

Beatus vir, qui, non est stimulates in tristitia delicti.
Bem-aventurado aquele em quem o pecado não cravou o aguilhão da tristeza.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ARTIGO - Acidente Aéreo em Paraty (UG)


ACIDENTE AÉREO 
EM PARATY
MEU PONTO DE VISTA 
COMO AVIADOR
Ulysses Gaspar*



Tenho me deparado nos últimos dias, principalmente através das redes sociais, com insinuações de que o acidente aéreo que vitimou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki e mais quatro pessoas, teve um cunho de atentado.


Em um país como o nosso, no qual quase todo o meio político está envolto em corrupção e sob os holofotes da justiça, não é de se admirar que as pessoas pensem logo em tamanha barbaridade, nos remetendo, inclusive, às lembranças dos anos 80, quando, na Colômbia, um grupo denominado Cartel de Medellin, comandado por Pablo Emílio Escobar Gaviria, barbarizava com atentados, eliminando juízes e autoridades que se dispunham a investigá-los. Os atentados eram realizados de forma brutal e variavam de crimes “a bala”, até ações terroristas contra a aviação comercial.

Porém, analisando tecnicamente, tenho outra visão do acidente, mas me resguardo afirmando que qualquer conclusão nesse momento seria precipitada, pois o laudo final será emitido por uma comissão técnica do CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) e um grupo da Polícia Federal especializado neste tipo de investigação.

Eu sou piloto comercial e estive na ativa de 1984 a 1995, quando, por opção, troquei a aviação por outras atividades empresariais. Nesse período em que atuei como piloto comercial tive oportunidade de voar em várias aeronaves, inclusive um avião modelo Carajá, no qual voei aproximadamente 1500 horas.

O Carajá é uma aeronave turbo hélice tão moderna e sofisticada quanto o King Air c-90 que se acidentou com o ministro. As duas aeronaves pertencem à mesma categoria, ou seja, voam  praticamente com a mesma velocidade de cruzeiro e autonomia de voo, tendo o sistema de avionics (equipamentos eletrônicos de navegação) muito semelhantes.


Operei nesse período em modernos aeródromos, equipados com os mais sofisticados sistemas de aproximação por instrumento, que, associados aos avançados sistemas de navegação das modernas aeronaves, torna a aproximação e o pouso nesses aeroportos uma tarefa muito segura e precisa.

A aeronave que transportava o ministro e as outras vítimas dispunha dessa aparelhagem tecnológica e avançada. O piloto tinha qualificação técnica e muita experiência, tanto no equipamento, quanto no conhecimento da região, porém o aeródromo não dispunha de nenhum recurso tecnológico para a operação. Chovia muito no local, o teto (base das nuvens) estava muito baixo, pois as nuvens estavam bastante carregadas.



O piloto precisava fazer uma aproximação visual, ou seja, todo o procedimento de separação vertical, lateral e pouso mantendo referências e contatos visuais com o solo. Segundo testemunhas, o avião fez curvas de 180 graus com baixa altura e com grande inclinação lateral, isso porque, conforme acima mencionado, o teto estava muito baixo.

Além disso, é bom frisar que neste momento de aproximação a aeronave se encontra geralmente em baixa velocidade, ficando muito próximo de um fenômeno técnico chamado stoll (condição em que a aeronave perde por completo a sustentação). Vale salientar que curvas de grande inclinação lateral também aproximam a aeronave do fenômeno stoll

Portanto, com base no meu conhecimento técnico, nas condições adversas meteorológicas da região no momento do acidente e no depoimento de algumas testemunhas do acontecido, suponho que o comandante tenha tido uma desorientação espacial, levando a aeronave à condição de stoll, provocando, consequentemente, o choque com o mar. 

Cabe aqui mais uma opinião: este tipo de aeronave é fabricada com duplo comando, ou seja, para ser operada por dois tripulantes, porém as regras de voo visual a homologa para voar com um só piloto, situação que acho muito perigosa, pois em uma cabine existe muito equipamento para ser supervisionado por um só tripulante, o que, acrescido a condições meteorológicas adversas, torna o voo muito vulnerável. Aguardemos o laudo final do CENIPA para averiguarmos se estou no rumo certo.



sábado, 21 de janeiro de 2017

NOTA ACADÊMICA - Visita à Unifor


ACADEMIA CEARENSE
DE
LITERATURA E JORNALISMO
VISITA
COLEÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS
DO CHANCELER AIRTON QUEIROZ
NO
ESPAÇO CULTURAL
DA
UNIVERSIDADE DE FORTALEZA




Na noite de ontem, 20 de janeiro de 2017, uma comissão de acadêmicos da ACLJ, dentre os mais interessados em artes plásticas, participou da segunda visita guiada da nossa Instituição à Coleção Airton Queiroz, no Espaço Cultural Unifor, a primeira delas realizada no ano de 2013.



Compunham o grupo visitante (da direita para a esquerda):
 
O bibliófilo José Augusto Bezerra, Presidente Emérito da Academia Cearense de Letras e Membro Benemérito da ACLJ;


O marchand de artes plástica Sávio Queiroz Costa, primo do Chanceler Airton Queiroz, que por seu turno é nosso Membro Benemérito;


O jornalista e radialista Vicente Alencar, Membro Titular da ACLJ e da Academia de Letras e Artes do Nordeste - Alane;


O jornalista, sociólogo, apresentador de televisão e analista político Arnaldo Santos, Membro Titular Fundador da ACLJ;


O jornalista, advogado e artista plástico Reginaldo Vasconcelos, Presidente da ACLJ;

 
O Prof. Rui Martinho Rodrigues, jurista, mestre em sociologia, cientista político e historiador, Presidente Emérito da ACLJ;


O Prof. Geraldo Jesuino, escritor, artista plástico, editor, Membro Titular Fundador da ACLJ e da Alane






O cronista e blogueiro Altino Farias, empresário e engenheiro civil, mantenedor de uma galeria de arte na Aldeota, Membro Titular Fundador da ACLJ;



O advogado e pesquisador do sionismo Adriano Vasconcelos, Membro Titular e Fundador da ACLJ.






O grupo de acadêmicos foi recebido pelo Prof. Thiago Braga, Chefe da Divisão de Arte, Cultura e Eventos da Unifor, e acompanhado durante a visita por três eficientes monitores, as jovens Domingas e Rachel, e o estudante do curso de jornalismo Rodrigo Costa, neto do ilustre jornalista Sérgio Costa.









A visita teve o aspecto atípico de que os visitantes apresentavam detalhes de seus conhecimentos e de sua experiência pessoal em relação a cada uma das valiosas peças de artes plásticas do acervo que lhes era apresentada, a propósito ou em acréscimo ao que informavam os monitores.

Por exemplo, o termo técnico “arrependimento”, enfatizado pelo acadêmico Sávio Queiroz, relativamente a imagens realizadas originalmente pelos pintores, que desistiam delas e pintavam outras sobrepostas, na mesma tela, sendo que, com o tempo, sombras das pinceladas anteriores tornam-se perceptíveis na obra definitiva.

Como também a observação feita sobre os traços judaístas em obras de mestres do passado de ascendência judaica, como Marc Chagall, tema do interesse e de conhecimento mais profundo do acadêmico Adriano Vasconcelos, estudioso da cultura, da história, da língua e principalmente da diáspora do povo de Israel, atingindo inclusive o Brasil e particularmente o Ceará.

Bem assim o comentário sobre o processo íntimo de observação de obras de arte, de caráter personalíssimo, feito pelo acadêmico Reginaldo Vasconcelos, notadamente a arte abstrata, que cada um deve interpretar à sua maneira. Reginaldo narrou a indagação feita certa feita por um comandante militar, em relação à escultura que ele fez para o quartel, denominada “Poesia Bélica de Penedo”.

Não é através de uma análise cartesiana dos seus elementos que se aprecia um quadro, uma escultura ou  uma instalação artística, mas das sensações que o conjunto provoque na espírito do observador, que deve manter a mente livre para absorver, de forma gestáltica, os seus componentes semióticos.

Nesse diapasão, a monitora Rachel pediu que cada um dos acadêmicos visitantes desse a sua interpretação da pintura “Un Petit Mouton”, de Miguel Barceló, para colher as interpretações mais variadas.

Alguém achou que fosse a reprodução de um bordado, outro que seriam espumas marinhas, enquanto a Arnaldo Santos a imagem lhe pareceu reproduzir areias de uma duna em movimento. Na verdade, segundo o título em francês, o autor se teria inspirado na brancura da lã de um carneiro.

Mais interessante, Rachel transmitiu a informação de que as figuras gordas das obras figurativistas de Fernando Botero Angulo, grande artista plástico colombiano, teriam sido todas elas inspiradas no corpo da doméstica que lhe servia de ama em sua infância. 

Isso suscitou o trecho do livro de memórias do acadêmico Reginaldo Vasconcelos, intitulado "Personagem", o qual, sem saber ainda desse detalhe histórico sobre Botero, usa os traços boterísticos para descrever uma antiga empregada da família, quando ele próprio era menino, coincidentemente.

A ACLJ agradece o convite da Reitoria da Unifor, que mandou uma van conduzir a comissão de acadêmicos no Espaço Tenda Árabe, sob os auspícios da Magnífica Reitora Fátima Veras, acadêmica honorária da instituição, pela prestimosa diligência da sua assessora direta, a Profa. Cristina Praça. 

Agradece ainda ao Vice-Reitor de Extensão da Unifor Randal Pompeu e sua equipe, e principalmente ao Chanceler Airton Queiroz, grande benfeitor das artes plásticas no Ceará, detentor da Dignidade de Membro Benemérito, a casta acadêmica mais elevada na ACLJ.

A ACLJ, com o incentivo e o apoio de seus Membros Beneméritos, vem compondo a sua Galeria Pictórica dos Patronos Perpétuos, retratando grandes nomes do jornalismo, da educação, das belas-artes e do beletrismo cearenses do passado, que ao ser concluída será objeto de exposições itinerantes em diversos espaços culturais e estudantis de Fortaleza.

  

INSPIRAÇÃO DE BOTERO

No mesmo período, um ou dois anos à frente – talvez fosse o tempo em que minha mãe dava aulas na escola de datilografia de minha avó – ficavam em nossa casa durante as tardes duas caboclas, uma delas encarregada dos serviços domésticos, a outra cuidadora de crianças, meu irmão Adriano e o primo Áttila, que eu, aos sete anos, já sou considerado independente. 
A primeira, mais madura, passada dos vinte, uma matrona mameluca, corpulenta, cinturada, pernas grossas, busto e quadris fartos. Esta medrara nas areias do Mucuripe, na colônia de pescadores, criada com os frutos do mar do Rostro Hermoso. Tinha longa cabeleira ondulada de cigana. A outra, mais jovem, mais magra, mais morena, oriunda dos cajueirais pré-sertanejos, ou dos pés-de-serra próximos, exuberavam no decote do vestido os peitos grandes. 
Tomei-me de paixão pela mais velha, que enchia os meus sentidos de delícia – as formas rotundas de Botero, o cabelo bem untado com óleo do coco, a voz meiga, o perfume barato, que a mim rescendia à melhor fragrância de Paris. Não lembro mais o nome dela, mas lembro o nome do bairro exposto na legenda do ônibus que a levava todo dia – Varjota – das primeiras palavras que li, na euforia alfabética pueril. 
Certo dia as duas iniciaram uma brincadeira corporal, que consistia em tentar levantar o vestido uma da outra, sendo que somente eu havia em casa, a quem pudesse interessar a exibição. Se o jogo consistia em cada uma buscar revelar as intimidades feminis da oponente, entre correrias, risos e gritinhos, eu era a somente plateia e portanto a meta única da lúdica impudicícia. 
Por fim, a mais jovem e mais frágil perdeu a peleja porque a outra lhe puxou o decote e fez entrever uma das mamas, comemorando em seguida com ofegante gargalhada. A perdedora sentou-se contrafeita, quase chorosa, mas em seguida, como para desvalorizar a vitória da outra ou demonstrar superação, baixou as alças do próprio vestido e me apresentou o busto inteiro, os dois pomos mais claros de fremente gelatina, enfeitados pelo chocolate dos mamilos.

Excerto do Capítulo “Súcucos diversos”,
do livro autobiográfico “Personagem”, de

Reginaldo Vasconcelos