quarta-feira, 8 de julho de 2026

CRÔNICA - Serenata Para A Filha do Prefeito (GT)

 SERENATA PARA
A FILHA DO PREFEITO
George Tabatinga*

 

Na década de setenta, um grupo de jovens na cidade de Batalha, ao Norte do Piauí, reunia-se todas as noites para ouvir boa música, beber uns goles de serrana – a cachaça da Serra Grande – e tocar serenatas às namoradas e paqueras, na madrugada do mês de julho. 

Naquela noite a tarefa era desafiante. Afinal de contas, a filha do prefeito tinha pedido uma serenata, e ainda explicou ao violonista o local exato do seu quarto, com janela para o beco que levava ao famoso lugar chamado Recanto, uma praça pequena em forma de triângulo, a alguns metros dali. 

Os seresteiros escolheram o banco da Praça da Matriz em frente à casa da jovem a ser homenageada. O repertório incluía alguns clássicos da seresta antiga, mas predominavam os sucessos da Jovem Guarda, especialmente os da fase romântica, como “Custe o que custar”, “Nada tenho a perder”, entre outros. No entanto, não podia faltar “Namoradinha de um amigo meu”. 

A cachaça não era das melhores. Se pelo menos fosse uma “manipulada” – aguardente sob infusão de fruta ou casca de madeira aromática, também chamada “lasca-de-pau” – mas descia assim mesmo, sem tira-gosto, todas das noites. 

Finalizado o ensaio das canções escolhidas – normalmente três, como nas alvoradas – partiram o violonista e seu amigo dileto para o compromisso assumido. O muro era alto, mas foi escalado pelo tocador e cantor, com a ajuda do parceiro. 

Ao final do toque, retornaram ao banco onde os demais já tinham bebido mais uma rodada de cachaça “em refém da moça”, expressão muito usado pelos jovens batalhenses naquele tempo, em roda de amigos, quando o assunto era mulher. Também o ato de derramar um pouco da dose e oferecer ao santo, assim como repetir a frase “tomarei esta dose para aliviar os malefícios da vida e queira Deus não me venham malefícios maiores”, faziam parte do modismo da época. 

Enquanto se preparavam para mais uma serenata, um dos jovens alertou: “Lá vem o prefeito. E agora? Vamos logo embora!”. E resmungou: “Eu disse que não iria dar certo”. O pai da donzela, com passadas rápidas, aproximou-se do grupo de jovens, vestindo ceroula branca – uma indumentária masculina para dormir, tipo pijama, muito usada pelas gerações antigas. 

Ninguém ousou evadir-se do local, por medo ou respeito à autoridade daquele senhor sessentão que fora acordado no melhor momento do sono. “Se queriam fazer uma serenata à minha filha, deviam ter se dirigido ao quarto dela e não ao meu!”. 

Deu meia volta e retornou, sem mais delongas. Deve ter percebido que aqueles jovens eram ordeiros e com boas intenções, ou, quem sabe, lhe tenha dado saudades das serenatas ao som do saxofone do Patim e do violão do Eliomar, na época de ouro dos grandes músicos batalhenses. 

Querida Ana Lúcia, você certamente está dando risadas, lembrando de tudo isso que relato, enquanto rezamos por sua alma e aguardamos a nossa vez de alcançar a vida eterna.


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