quarta-feira, 8 de julho de 2026

CRÔNICA - Mais Coisas ue Loisas (AG)

 MAIS COISAS
QUE LOISAS
Aluísio Gurgel*

 

Dançar colado 

Quem não se encostou todo num juvenil corpo feminino enquanto Michael Jackson cantava One Day in your Life no começo da década de setenta jamais vai poder entender o que quero dizer. É uma espécie de Futuro do Pretérito Composto do Indicativo. Ele é usado pra falar de algo que não aconteceu, mas era esperado que acontecesse no passado. É o ninho ideal para as frustrações. Não vou nem continuar para não criar maiores expectativas. Mas vale.

Cuidado, Moreira! 

Ao reencontrar o amigo de infância Cláudio Montenegro na calçada do Palácio Coronado, ele me fez observar um velho embriagado que passou por nós se arrastando. “Lembra dele?” É claro que eu não lembrava. “O Moreira!” O único Moreira da nossa infância era um senhor que passava embriagado e nos divertia ao gritarmos: “cuidado, Moreira!” Daí ele se virava rapidamente fingindo ter um revólver em cada mão, bem ao estilo caubói e caíamos na gargalhada. “É ele mesmo”, me assegurou o Cláudio. Nem pensei direito. Quando dei por mim o berro já havia saído: cuidado, Moreira! O velho estancou, virou-se lentamente e levantou os antebraços sem pressa alguma. Em cada uma das mãos havia um revólver feito com as palmas e os dedos.


O que é 

Se o que sinto não for real então será o sonho mais lindo que já tive. E mesmo assim terá valido cada emoção despertada, cada sorriso contido e cada lágrima ensaiada. Tudo pode nunca ter passado de mero fruto da imaginação, mas resultou em algo imenso e verdadeiro que não tem mais como deixar de ser, porque simplesmente é.

 

As poses

Há distinção entre a pose para foto e a pose para pintura. A primeira é um acordo com o instante; a segunda, uma negociação demorada com a verdade. A fotografia aceita a aparência que conseguimos sustentar por um segundo. A pintura exige a expressão que permanece quando já não temos forças para representar. Talvez por isso os velhos retratos a óleo nos olhem de volta com tanta humanidade. Neles, não está apenas a pessoa que desejava ser vista, mas aquela que, vencida pelo tempo e pela paciência do pintor, permitiu ser encontrada.


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