ARTE, PODER E MÍDIA
Luciara de Aragão*
A
arte contemporânea, ou pós-moderna tem como característica principal a
subordinação do artista ao sistema da arte. A dimensão dessa crise se mostra de
modo inequívoco em todos os seus ângulos, independente de quaisquer teorias
humanísticas, dificultando o entendimento do público não especializado,
constatando o vazio de conteúdo e de significado numa pretensa arte de
vanguarda.
Podemos
considerar que, como quer John Berger em “Modos de Ver” (Martins Fontes, 1982),
em qualquer período, a arte “tende a servir aos interesses da classe dominante,
mas esta reflexão/provocação sobre a arte de nossos dias é “a antítese da
atitude modernista de resistência à ideia da mercantilização da obra de arte” (Luciano
Trigo, R.J.2009 “A Grande Feira”).
Ao
longo da História, está claro que a figura do artista sempre se ligou aos
interesses econômicos do seu tempo, mas perplexos e desencantados, observamos,
hoje, a distância entre as produções de vanguarda e a própria arte. A aliança
promovida entre o capitalismo e o Estado burocrático é voltada para a
maximização do lucro, a alienação artística e a atribuição de cotação diversa dos
artistas na contemporaneidade. O grande problema nesta relação reside na
domesticação da arte e no fato de que as grandes corporações investem numa
agenda que diz respeito somente ao seu “business
plan”. Não é novidade que as grandes corporações, patrocinadoras de arte,
investem na formação de coleções milionárias, favorecendo artistas, museus,
megaexposições cercadas de publicidade, elaborando a cotação dos próprios artistas
contemporâneos. Podemos considerar que este processo frutificou e se
profissionalizou, elevando os negócios de arte a um valor superior ao de qualquer
campanha publicitária paga.
A
tradicional figura de um museu, instituição conservadora tradicional, que
guarda e conserva o patrimônio ao longo do tempo, não representa mais a
relevância de outrora. A tônica agora é elaborar conexões com redes de produção
lucrativas e ágeis, todas voltadas para o lucro extraído do entretenimento das
massas.
Como
as grandes patrocinadoras da arte, as grandes corporações aproximam-se,
igualmente, da moda com as sofisticadas “maisons”,
similares às das grandes galerias. Elas aproximam a linguagem publicitária da
própria linguagem artística. Altos investimentos cercam a produção de filmes e
argumentos de publicidade voltados para a venda e a materialização do consumo
de artigos, produtos e serviços.
O
artista de nossos dias a isso se submete também, movido pela ideia da conquista
da fama e do reconhecimento pessoal do seu trabalho. Na contemporaneidade, ele
“precisa ser uma estrela: a fama é um índice de seu valor. Tanto quanto sua
produção artística propriamente dita, importa o seu desempenho como figura
pública capaz de chamar a atenção: é o artista como “performer” (Luciano Trigo,
Idem). O marketing do autor e obra
passou a ter uma importância vital para atrair a atenção da mídia e elaboração
da propaganda. Por adendo, o domínio de um agressivo corporativismo adicionado
a uma espécie de espírito de matilha, dominante na pequena fração da classe
artística engolida pelo sistema, está pronta para desqualificar qualquer
questionamento levantado.
Os
últimos trinta anos revelam a decadência artística assinalada por um desvio
evidente, uma falta de rumos, inovações e criatividade, em sua grande maioria,
submetidas ao mercado. Para esta constatação basta efetuarmos um rápido
retrospecto no enfoque histórico da arte, tão diversa de quando então era gerada
pelo formal e as elevadas ambições do espírito e vocação pessoal.
Uma
obra de arte digna deste nome, até a nossa evocada “modernidade”, um projeto
autêntico e moderno de arte, revelava a sua própria autonomia, face a sua exposição.
Pinturas da escola impressionista como as de Monet ou Renoir, fossem ou não
expostas, permaneceriam como uma inconteste prova de arte, independentemente do
local onde fossem expostas e seu valor intrínseco permaneceria imutável. Hoje,
isto não acontece com a arte contemporânea, pois o valor de um objeto dito
artístico está relacionado, em primeiro lugar ao local onde é exposto. Trata-se
do entendimento da arte, vinculada ao local da exposição. Deu-se, portanto, uma
inversão de valores. Antes, os museus e galerias se valorizaram pelas exposições
de artistas consagrados com obras que tinham valor por si mesmas. Ao revés, o
sistema corporativo de mercado adotado em nossos dias, faz com que os museus e
galerias, por eles cooptados, sejam os que determinam se este ou aquele artista
merece o reconhecimento de sua obra. São eles, em última instância, que
determinam o valor artístico e financeiro da obra, estabelecendo na
pós-modernidade, novos critérios de valorização e promovendo a consagração de
autores para sublinhar a atribuição do seu “status”. Naturalmente, o valor dado
a cada obra, não é o mesmo para todas as galerias e museus.

“O
Urinol”, concebido por Marcel Duchamp (1917), antiarte provocadora e feito para
não exposição e comercialização, traiu a sua própria antiarte, quando Duchamp
produz oito réplicas adquiridas por museus e colecionadores. Este aparente
sucesso mascara a subordinação ao mercado e ao cooperativismo das instituições,
subordinando e impondo ao artista a permanência no lugar mais baixo da produção
artística de nossos dias.
A redistribuição de papéis é coercitiva. Nesta malha
estão presos, além do próprio artista, curadores, críticos, promotores de arte,
imprensa e academias. As pressões exercidas sobre eles, inibe as reações do bom
senso e os coloca como meros expectadores a descritores de cores, formatos e
conteúdos num arremedo de crítica externa, tão séria para os historiadores. Não
se coloca em pauta, porém, a hermenêutica interna, com critérios de
qualificação/desqualificação, inovação, repetição, criatividade. O senso
crítico anestesiado estabelece significados mornos, dificultando-lhes a tarefa.
A falta de um ponto fixo onde se possa apoiar o autor da crítica na análise da
obra de arte, indo mais além do mero registro e do testemunho neutro é
inexistente.
A
inversão de valores é tamanha que, para atender à demanda do mercado por suas obras,
o artista britânico Damien Hirst administra um exército de operários,
assistentes, engenheiros, químicos e artesãos, considerando ser importante apenas
a ideia e não a sua execução. Uma arte dita conceitual, com instalações
monumentais. Não se espera mais por criação do artista. Basta a sua assinatura
na obra. Será isto legítimo, será verdadeiramente arte?
