Academia Cearense de Literatura e Jornalismo
Dia 06/12/2023 – Palácio da Luz
EGÍDIO SERPA
Aqui estou eu, 80 anos, três meses e seis dias depois de um parto natural que me trouxe à luz do mundo na mesma e vizinha Messejana que pariu, também, o maior romancista brasileiro – José de Alencar. Ninguém, na história deste país, escreveu como ele.
Sou o primogênito de uma família de 13 irmãos, 12 dos quais vivos, vários deles testemunhando este momento rico para mim e para eles. Meu pai, José Oriá Serpa, foi construtor, uma profissão regulamentada por Getúlio Vargas; minha mãe, Maria Alice Saraiva Serpa, que viveu 100 anos, foi uma orgulhosa portadora do que, até recentemente, se chamava de prendas domésticas.
Nasci vocacionado para o jornalismo. Aos 13 anos, redigi e editei à mão, em duplas folhas pautadas de papel almaço, as três únicas edições do “Sempre Alerta”, o jornalzinho de minha escola – o Ginásio Municipal Presidente Vargas, na geografia messejanense.
Em maio de 1959, aos 16 anos, iniciei minha carreira de repórter na Rádio Dragão do Mar, cobrindo as sessões da Câmara de Vereadores, cujos pálidos discursos eu transformava em impactantes notícias. No texto da primeira delas, por completo desconhecimento, agredi a gramática: usei a vírgula para separar o sujeito do predicado.
Desde então, tropeçando nas dificuldades próprias de uma profissão desafiadora, que exige, primeiro, o domínio do idioma, investi na leitura, que me ensinou a identificar a urgência e a distinguir a prioridade; e que me levou a conhecer a França, Espanha, Portugal, Alemanha, Japão, China, Austrália e Estados Unidos bem antes de, fisicamente, viajar até lá.
Os clássicos da literatura nacional e estrangeira, aliados à experiência da vida, ensinaram-me a desatrelar o joio do trigo, a repelir os maus e a eleger os bons amigos, graças aos quais e ao meu próprio esforço, frequentei, de modo longevo, a redação dos grandes jornais brasileiros.
É por causa da graça de Deus e do estímulo de um milhão de amigos que sou o que sou, que estou onde estou, que cheguei aonde cheguei, respeitando pronomes e advérbios. São os meus amigos – homens e mulheres com os quais a benção divina me presenteou – que me incentivam a prosseguir.
Quando hoje, juntamente com meus queridos colegas Sabino Henrique e Fernando Maia, presentes aqui, e Regina Marshall, levada ao céu por merecimento, recebo, talvez por exibir agora a braçadeira de octogenário, a Medalha Benemérito Ivens Dias Branco – exemplo de trabalhador criativo, um homem a quem a indústria e a economia cearenses muito devem – olho pelo retrovisor de minhas mais de seis décadas dedicadas ao jornalismo e agradeço a chance que Deus me deu de ter convivido com os melhores da imprensa do Ceará e do país, maravilhosa experiência com a qual, muito feliz, sigo convivendo.
No jornal O Estado, onde ingressei em 1960, sob o comando de Carlos D’Alge, fiz de tudo – por uma semana, escrevi o horóscopo, mesmo sabendo, como sei até hoje, que a astrologia não é ciência, mas adivinhação. Ciência é a astronomia.
Sempre com carteira assinada, fui repórter empregado de O Povo, Gazeta de Notícias, O Cruzeiro, Folha de São Paulo, Jornal dos Sports, Diário de Pernambuco, Jornal do Brasil, TV Manchete, TV Verde Mares e Diário do Nordeste.
Bem, este é um espaço acadêmico, razão por que devo ser breve e, mais do que isto, objetivo. Assim, digo para os meus colegas mais jovens: primeiro, tratem de ser corretos desde menino, pois é nesse tempo que se forma o caráter moral do futuro profissional; segundo, entendam como primícias que as consequências só vêm depois, lição que só aprendi quando me tornei cinquentenário.
Por isto, cometi graves erros e grandes pecados.
A bondade infinita de Deus, e só ela, perdoou-me, mas esse perdão veio apenas depois de eu haver cumprido severas e longas penitências que me tornaram um homem melhor, um profissional mais responsável, um marido mais fiel e apaixonado, um pai provedor, mas um avô, como todos os avôs e avós, deseducador dos netos.
Pergunto a mim mesmo o que fiz para merecer tamanha e honrosa distinção dos imortais desta Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. E encontro a resposta no primeiro dos três parágrafos com os quais este ateneu expõe sua Missão Institucional. Ele diz o seguinte:
“Congregar 40 literatos e jornalistas cearenses, não necessariamente os melhores, desde que alguns sejam ótimos e que todos sejam bons, e que nenhum deles se possa apontar entre os piores”.
Massageado pela magnanimidade estatutária deste sodalício, rejubila-se o meu ego com a certeza de que faz bem às pessoas o que fiz e sigo fazendo na vida profissional, no convívio familiar e na relação com os amigos.
De quando em vez, recebo mensagens elogiosas de leitores e teleouvintes, dos quais também vem o que posso denominar de crítica construtiva, aquela que informa, esclarece e orienta. Para mim, essa crítica é o Selo de Qualidade, é o Grau de Investimento de uma agência de risco a respeito do meu trabalho.
Agradeço, penhorado, esta homenagem, que recebo em boa e agradável companhia. Com efeito, Fernando Maia e Sabino Henrique e a inesquecível Regina Marshall, trio que conheci na segunda metade do século passado, são, como eu, jornalistas por vocação.
Eu e Maia prosseguimos na batalha diária de coletar e transmitir informações; Sabino Henrique, mais inteligente, descobriu alternativas, enveredou por elas, progrediu, mas mantém o pé nesta nossa maravilhosa profissão. Regina Marshall foi a repórter que excitou a sociedade cearense, revelando a intimidade de ricos e famosos e publicando os fuxicos da época, sendo, por isto mesmo, muito lida, da Aldeota ao Bom Jardim.
Amigos da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo: este momento tem relevante importância para mim, para minha mulher Helena, ausente daqui porque se recupera de uma extensa cirurgia no joelho; para meus quatro filhos Serpinha, repórter da TV Verdes Mares, do Diário do Nordeste e do O Globo, chamado por Deus aos 24 anos de idade, Guido, Manuela e Guilherme; para os meus quatro netos Letícia, graduada em jornalismo, Sophia Maria, Ayrton e Samuel, aos quais, cotidianamente, é dedicado todo o meu esforço físico e mental no exercício de minha atividade profissional. Amo-os como Deus nos ama. Com eles, divido a alegria desta noite.
Aos beneméritos e aos que integram esta Academia Cearense de Cultura e Jornalismo, a todos os que nos prestigiaram com sua presença, dedico o meu mais profundo sentimento de gratidão.
Obrigado!