DISCURSO
DO PRESIDENTE
REGINALDO
VASCONCELOS
AGA
2022
Caro Dr. José Augusto Bezerra, Presidente Emérito da Academia Cearense de Letras, em nome de quem eu cumprimento os demais componentes da Mesa de Honra, os confrades Cândido Albuquerque, Rui Martinho Rodrigues e Luciara Aragão e Igor Queiroz Barroso, nosso Membro Benemérito;
Ilustre
Presidente da Fiec, empresário Ricardo Cavalcante, que hoje senta entre nós na
ACLJ como Membro Benemérito, para nossa honra e júbilo, proposto e eleito por
sua disponibilidade para com a nossa Confraria, além de seus muitos méritos
administrativos à frente da entidade de classe que preside, e das virtudes
humanitárias que demonstrou durante a pandemia, colaborando institucionalmente
com o Governo do Estado e com a UFC, o qual saúdo, extensivamente às demais
autoridades aqui presentes;
Prezada
Liduína Lessa, consorte do saudoso Evaldo Gouveia; Queridos artistas sônicos,
Raimundo Fagner Cândido Lopes, Fausto Nilo Costa Júnior, e José Ednardo Soares
Costa Sousa, nomes que eu pronuncio com reverência especial; Cara Vannick
Belchior.
Os
quatro Maestros – Poty Fontenele, César Barreto, Marcus Vinícius e Marcelo
Melo, e demais músicos entre nós.
Cumprimento
especialmente o Sr. Ricardo Martins Soares, oficial da reserva do Exército
Brasileiro, o meu mais novo amigo, porque é recente, e o meu amigo mais velho,
pelos seus 93 anos de idade.
Demais
confrades e confreiras, seus familiares, nossos convidados.
Minhas
Senhoras e Meus Senhores.
No opúsculo de filosofia aplicada intitulado Eutimia, que escrevi há alguns anos,
durante as comemorações dos 40 anos da Unifor, eu identifico todas as 11 razões
pelas quais uma pessoa pode enxergar em outra pessoa um ente superior ou
especial.
Em última análise, todos temos a mesma essência existencial e a mesma
experiência: as puerilidades da infância, os conflitos da adolescência, as
paixões juvenis, em seguida a profissão, os casamentos, a prole, os louros da
maturidade – enfim, todos somos ontologicamente semelhantes.
Mas
alguns predicados nos fazem distinguir seus detentores com reverência especial
– um deles a beleza física acentuada; ou a superior e notória inteligência.
Muitas vezes, os dotes místicos que se lhes possam atribuir.
Claro,
nenhum de nós fica impassível diante de uma jovem sílfide linda, ou de um adônis donairoso. Quem não se alumbraria ao defrontar um Einstein, um Stephen Hawking,
uma Tereza de Calcutá, um Mahatma Gandhi, um Dalai Lama, um João Paulo II?
Mas
a fecundidade lírica dos artistas é o fator de devoção listado no livro que
quero frisar aqui e agora. A capacidade de produzir beleza, de colocar tijolos
no edifício do lirismo universal, o dom de gerar deslumbramento e enlevo com o
advento de sua obra.
Pois
é aos detentores do fenômeno estético, que dominam o mistério da sublimidade
poética e sonora, aqui representados pelo Ednardo, pelo Fausto, pelo Fagner e pelo Belchior, é
a eles que dirijo daqui a minha homenagem, e sei que o faço em nome de toda a
nossa Confraria, de todo o Ceará, de todo o País, do mundo todo.
Especialmente
emocionado ainda porque lhes concederemos uma láurea cujo paraninfo é o Evaldo
Gouveia, o nosso Evaldo Gouveia, aquela figura ímpar que mesmo com noventa anos
de vida e de convívio nos deixou a sensação frustrante de que ainda não deveria
ter-se ido.
Frequentava
as nossas reuniões neste auditório assiduamente, comparecia à Tenda Árabe
sempre que convidado, com a sua Liduína. Passou conosco em família o último
natal do meu saudoso pai – “quer ver eu ir, me puxe!”, como gostava de dizer.
Sim,
era gênio, mas não era santo. Era um homem, e eu, como seu amigo e advogado,
sei, como ninguém, que ele era meio quizilento. Mas não era mau. Certa vez
ganhamos uma ação em que ele seria indenizado em valor nada desprezível, já
bloqueado em conta – mas, na hora de executar a sentença, ele fez um acordo
bonançoso. Foi generoso, foi magnânimo, perdoou a parte vencida.
Dentre
os aqui agraciados, o primeiro dos três que conheci foi o Ednardo, quando ele
se apresentou no Festival da Costa do Sol, na Praia da Tabuba, em 1976. Ele foi
preso ainda no palco, porque reclamara da polícia, por ela estar reprimindo a
moçada acampada na praia para acompanhar o festival – eu inclusive.
O
jovem oficial responsável pelo policiamento e pela prisão, por acaso era um
cunhado meu, e eu fui um dos que tentaram interceder pela liberação imediata do
Ednardo. Depois as belas canções do Ednardo, seus maracatus, Longarinas, Pavão Misterioso, assim como a obra dos demais, passaram a compor o tema
musical da nossa geração – que se intrigava com as suas referências sobre a morte
precoce, “me poupa do vexame de morrer tão moço”, ou, em outra canção, “porque
cantar parece com não morrer”.
Depois
conheci o Raimundo Fagner, nós todos ainda meninos, em show realizado no Teatro
José de Alencar. Um banquinho e um violão, uma boina de feltro, uma garrafa de
cachaça num cantinho do proscênio.
A
música que mais me marcou nesse show do Fagner foi uma composição do Belchior –
“eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”.
Mas,
em Fagner, o que mais nos maravilhava e nos maravilha é a interpretação – a voz
rascante, o canto enfático, os melismas arabescos. Assim ele acrescenta graça
extra e imprime sua personalidade em todas as canções que interpreta.
E
a vigorosa paixão juvenil que o Fagner nos transmitia e nos inspirava, como no
verso “mas se o astro vagabundo, na verdade vai chegar, não quero ver o fim do
mundo, vou dormir no teu jardim”; ou em “fosse
paixão, frenesi, doce ilusão, moça bela. A solidão mora aqui, e a cidade é sem
fim, qual a tua janela?”.
Já
o Fausto Nilo, presente como autor ou coautor em tantos desses belos poemas
musicais, eu só conheci pessoalmente quando o entrevistei na FGF TV, alguns
anos atrás. Mas o que dele se comentava naquela época era a sua relação poética
com o azul, já presente no seu segundo prenome, Nilo, e no imóvel da família em
sua cidade natal, e que por isso muitas das suas letras de música seriam assinaladas
com o nome dessa cor. Será?
O
Belchior eu não conheci pessoalmente, a não ser uma vez no Aeroporto Pinto
Martins, eu indo de automóvel apanhar alguém, ele chegando de viagem, em pé na
calçada do saguão, com o seu cachimbo e uma pequena toalha no pescoço. O mais
que sei sobre ele é de ouvir dizer pelos amigos comuns, notadamente o Wilson
Ibiapina.
Concluindo,
parabenizar a nossa Academia pelos seu décimo primeiro aniversário, tempo
transcorrido com grandes êxitos bem registrados, atravessando a pandemia sem nenhuma
perda humana, mas sempre lembrando dos queridos confrades que, nesse período de
onze anos, cumpriram o seu ciclo sobre a terra e entraram para a imortalidade literária.
Antecipando
ainda congratulações natalícias ao Benemérito Beto Studart, que estará com
idade nova nesta próxima sexta-feira – e que, inclusive, merecidamente, acaba
de ser brindado com a distinção de representante da coletividade junto à Academia
Cearense de Letras, pelo seu Presidente Lúcio Alcântara, e se consagrou Doutor
Honoris Causa da Universidade Federal, eleito pelo Conselho Universitário, proposto
pelo Magnífico Reitor Cândido Albuquerque.
Mas
eu vou finalizar a minha fala dizendo um singelo poema “tudo a ver”, que compus
recentemente, ellerizando um pouco – e ellerizar é um neologismo interno da
nossa Academia, que significa o vezo de tentar explicar racionalmente uma
poesia – hábito do nosso confrade Humberto Ellery.
Havia
morrido Evaldo Gouveia, um pouco antes dele Roberto Martins Rodrigues, mais
atrás Edilmar Norões, e certo dia me bateu uma profunda nostalgia de tantos
amigos queridos que se foram, de modo que me assomou uma vontade lírica de
morrer.
Mas
aí eu me lembrei das mulheres da minha vida, tantas e tão queridas, e decidi
que pelo menos por elas a vida sempre vale a pena. Então nasceu o poema, que
faz citações à canção Estrada de Santana, do Petrúcio Maia, gravada pelo Fagner
há muitos anos.
Sem
nenhum trocadilhismo, peço-lhes para despir o poema de qualquer conotação
erótica, pois quando nele articulo os verbos querer e amar me refiro ao mais
puro querer bem.
QUERERES
Quero
querer todas aquelas que me queiram,
o
querer solar de amar e amar e amar e amar.
Viver
para querê-las como os beija-flores querem as flores,
para
beijar, beijar, beijar, beijar.
Para
encantá-las como o concriz encanta e diz,
no
seu cantar
e
no matiz ruivo do amarelo.
Quero
viver para querer seres gentis,
olhos
falantes, bocas silentes,
feminis
modos de dizer e de calar...
e
de amar, amar, amar, amar.
Mas
o querer lunar que me faz gris me quer matar.
Quer
me levar pela Estrada de Santana
com
Petrúcio, Belchior, Ricardo, Evaldo...
Quero,
sim, cavalgar Pégaso ao luar,
espantar
curiangos assim,
passar
o Cemitério do Alecrim,
voar,
voar, voar, voar.
Querer
deixar a vida por um triz,
como
prediz a Natureza, morrer, flanar,
e
festejar no Infinito.
Bailar,
bailar, bailar, bailar.