domingo, 22 de junho de 2014

CRÔNICA (VM) - CARTA AO ESCRITOR

JUAZEIRO É UM MUNDO, 
DO ESCRITOR RENATO CASIMIRO*
Vianney Mesquita**


O mundo criado não passa de meros parênteses na eternidade. (Thomas Alexander Browne. *Londres,06.08.1826; South Yarra – Melbourne, Victoria, Austrália, 11.03.1915).


Fortaleza-CE, 7 de novembro de 1997
Prof. Renato Casimiro, amigo.
Pax Domini, sit semper vobiscum.

Li, com inusitada satisfação, suas linhas acerca do culto e belo Cariri, no Juazeiro é um Mundo, Coleção Mossoroense, 1997.

Folgo com saber que você cultua memórias com as letras de um sentimento real, absolutamente verdadeiro. Evoco, por exemplo, quando ainda fedelho dado a bacorejar a história, a conhecida affaire patrocinada por Wilson Roriz, a que esse cronista se reporta com rara felicidade, pondo a ressalto as informações relevantes e valorizando eventos aparentemente sem importância.
Apreciei, sobremaneira, a correção e a clareza do seu texto cristalino, com o fausto linguístico de quem privou da companhia do marlhesense Marcelino José Bento Champagnat, como ocorreu comigo (só em relação à educação marial – ad Jesus per Mariam), noutra ambiência – no Juvenato São José, naqueles cariris dos anos cinquenta (Missão Velha), pescado e conduzido pelo Irmão Joachim, que catava meninos por todo o orbe cearense (Irmão Louis Joachim, no século Antonin Émile Cayard).

Aliás, os Maristas ainda pontilham o mundo com aquela instrução francesa de qualidade, um pouco menos no Brasil, ex-vi de uma relação simbiôntica de democracia e permissividade. Sem dúvida, entretanto, com o concurso de nacionais como o prezado amigo, portador de apreciados predicativos morais e intelectuais, haveremos de atravessar o Rubicão algum dia.

Você é escritor de fôlego intenso e nos está devendo é um número monográfico – como uma história eclesiástica de Juazeiro do Norte, por exemplo – em que exteriorize todo o vigor de quem, propedeuticamente, conviveu com Dom Bosco, antes de adentrar universidades, percorrendo todos os estádios formais de reciclagem e especialização, até o pós-doutoramento (Em 2014, Renato Casimiro já não deve o objeto desta cobrança, pois pagou com juros e pesada correção, com a publicação de livros massudos em continente e  espessos em teores).

Não cogito em assacar críticas à sua temática mista de crônicas, histórias e lérias, expressas em Juazeiro é um Mundo, cujas restrições principais são de continente, pois com muitos defeitos de natureza editorial e estética. Não é bom o papel, é sofrível a impressão. Há sérios problemas de revisão, as páginas se soltam porque a cola é ruim e a brochura é inconsútil... e uma porção de imperfeições que um escriba como você não merece.

No que mais interessa, contudo, o continente é salvo pelo conteúdo. Pior teria ocorrido, como sucede a miúdo, caso houvesse se registrado o contrário: verdadeiro sepulcro caiado, expediente muito utilizado pelos medíocres, useiros e vezeiros engabeladores do leitor.

Deixo de evasivas, porém, para transmitir-lhe sinceros emboras por esta publicação fruto do seu labor de espírito, o que admira na sua condição de homem de ciência e de pesquisa básica. O conhecimento, muita vez, nos ensina a sermos frios, desprovidos de coração, avessos a vigílias imateriais, não afeiçoados à apreciação do belo-útil. Todas as pessoas precisamos manifestar expressões d’alma, pois responsáveis por quem cativamos – para evocar Antoine de Saint Exupéry. E eu, desse cativeiro não pretendo alforria, caudatário que sou, de ora em vante, dos seus escritos, um bem-aventurado leitor de Juazeiro é um mundo.

A vida é curta e nos encontramos tão pouco!
É uma pena!
Grande abraço.
V.M.


(Ligeiramente modificado de Fermento na Massa do Texto. Sobral: Edições UVA, 2001)


** Renato Casimiro 
Escritor, Pesquisador, Historiador, Memorialista



*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista

NOTA (VA) - BNH

50 ANOS DO FINADO BNH
Vicente Alencar *

O Brasil é, sem nenhum favor, um país criativo, de gente ativa, mas, em muitos momentos, sem maior identificação para com sua pátria, ou mesmo uma maior responsabilidade cidadã.

Agora, neste 21 de junho,  seria uma data redonda para nosso país, se não tivesse havido, há 28 anos, a sua extirpação do calendário nacional, sem maiores explicações.

Estamos falando dos 50 anos do finado Banco Nacional de Habitação, o portentoso BNH, que tanto bem produziu à população brasileira, realizando um trabalho de profundidade, no difícil e espinhoso caminho de proporcionar moradia para o povo.

Criado em momento de crescimento de um Brasil novo e moderno, quando as portas se abriam para um horizonte cada dia mais brilhante, o BNH acabou ficando pelo caminho, graças à irresponsabilidade política e a má administração.

O Banco Nacional de habitação foi a principal instituição federal de desenvolvimento urbano, na história do Brasil. Gestor do FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, da formulação e implantação do Sistema Financeiro de Habitação - SFH e do Sistema Financeiro de Saneamento - SFS. 

O Banco foi extinto através do Decreto Lei nº 2.291, de 21 de novembro de 1986 (Governo José Sarney), sendo incorporado à Caixa Econômica federal, que o sucedeu em todos os seus Direitos e Obrigações, sobretudo na gestão do fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

* Vicente Alencar
Presidente da União Brasileira de Trovadores - UBT Fortaleza.
1º Vice-Presidente da ALMECE - Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará.
Secretário Geral da Academia Fortalezense de Letras.
Membro Titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, ocupante da Cadeira nº 27.

sábado, 21 de junho de 2014

ARTIGO (RMR) - DESIGUALDADE SOCIAL


A QUERELA DA DESIGUALDADE
Rui Martinho Rodrigues*


A desigualdade entre os homens é um importante problema político, jurídico, social e econômico. Este último aspecto é hoje o nosso foco. A parcela mais rica da população vem abocanhando uma fatia cada vez maior da totalidade da riqueza do mundo, do PIB de muitos países.

Como um jogo de soma zero, cada vez que a porção do PIB entregue aos ricos cresce, a parcela dos pobres diminui. Indignamo-nos diante do crescente abismo entre ricos e pobres, na forma de uma marcha perversa e insensata. Antevemos consequências sociais e políticas preocupantes.

Por outro lado, os pobres se enredam cada mais no consumismo. Consomem aparelhos de telefonia móvel, condicionadores de ar, automóveis, enquanto frequentam academias de ginástica e compram tantos outros bens, serviços e utilidades... quero dizer, quinquilharias.

Mas, alimentos serão quinquilharias? A pandemia de obesidade sinaliza que a fome já não é o grande problema. Apesar dos dois grandes males, a pobreza crescente e o consumismo, os pobres estão vivendo mais, estão se escolarizando mais, conforme se depreende do declínio das taxas de analfabetismo e do crescimento dos anos de escolaridade média.

Isso tudo é uma tendência secular, que cada vez mais se difunde pelo mundo. Segundo consta, só na China 400 milhões saíram da famosa “linha da pobreza”, na Índia mais 200 milhões. Até no Brasil seriam algumas dezenas de milhões, os que ultrapassaram a dita linha.

O aparente paradoxo dos pobres que ficam cada vez mais pobres, desfrutando, porém, de cada vez mais conforto e utilidades, num mundo em que os ricos acumulam parcelas crescentes da riqueza dos povos. A contradição é apenas aparente. A riqueza material não é um jogo de soma zero. A pobreza só é crescente quando comparada com a riqueza dos mais ricos. A pobreza em termos absolutos, na forma de bens e serviços, quer sejam eles essenciais ou supérfluos, não diminui de um lado quando a riqueza cresce do outro.

Mas não nos interessa que os pobres estejam tendo mais conforto e escolaridade, vivendo mais, tendo mais acesso às utilidades. Caso não tivessem acesso a tais coisas chamaríamos a isso pauperização. Ficaríamos indignados do mesmo jeito. Mas agora os pobres estão desfrutando cada vez mais de muitas coisas. Só nos resta a indignação diante da pobreza relativa, que resulta da comparação entre ricos e pobres.

Não se pense que quem se preocupa com o que o outro tem, ao invés de se preocupar com os seus próprios haveres, chegando a esquecer das novas aquisições na sua lista de desfrute, é invejoso. Não somos invejosos. Não estimulamos, não exploramos a inveja. Somos justos. Queremos igualdade.

Por isso negamos a melhoria dos indicadores de qualidade de vida e denunciamos a pauperização. Temos Dulcineia para defender. Temos moinho de vento para combater. Temos teorias, digo, temos pangaré para montar e combater. Só assim poderemos dizer: olhe mamãe, com eu sou sábio, corajoso e... justo!


*Rui Martinho Rodrigues
Professor e Advogado
Presidente da ACLJ
Titular de sua Cadeira de nº 10

sexta-feira, 20 de junho de 2014

ARTIGO (RV) - LETRAS DE HINOS

Hinos de instituições e de países têm sempre letras ufanistas, com expressões de exagerada devoção, como um roteiro de videoclipe, com recortes sobre a história e o ambiente físico da entidade exaltada, bem como a valentia do universo humano que ela contém.

Esse esforço de colocar em alguns minutos de fala cantada todo o espírito de um determinado grupo humano, ou de determinada latitude do Planeta,  não raro produz uma espécie de “samba do crioulo doido”.

O hino da ACLJ, por exemplo, refere inicialmente à Grécia Antiga, berço da cultura clássica ocidental, de onde advém a palavra “academia” e o espírito acadêmico (Platão - 387 a.C.).
Em seguida o nosso hino alude ao iluminismo europeu, mais centralizado na França do Século XVIII, onde nasceram as primeiras confrarias literárias, e já faz um link para a Academia Cearense de Letras – a primeira do Brasil, concluindo o roteiro com o advento da ACLJ.
 

Os hinos nacionais, recorrentemente, falam em “inimigos”, muitos deles aludem à morte, ao sangue, ao medo, à vitória, à liberdade, cada um deles empenhado em destacar a valentia e as glórias do povo e as belezas do território, com inspiração nos conflitos da colonização, e no espírito da Revolução Francesa.

 

E a letra do hino brasileiro, composto pelo escritor e poeta fluminense Joaquim Osório Duque-Estrada, não foge a esse padrão. Vai abaixo a essência do que expressa o autor, desfeitas as inversões e gongorismos, exame oportuno nesse tempo de campeonato mundial no Brasil, em que a plateia nacional resolveu cantar à capela, até o fim, o nosso panegírico oficial.


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As mansas margens do Riacho Ipiranga ouviram o grito vibrante do nosso povo heroico (O grito “Independência ou Morte”, de D. Pedro I). E, naquele momento, o sol do Brasil brilhou no céu, simbolizando a liberdade. 

Se o Brasil conseguiu essa conquista, se igualando a Portugal, os brasileiros desafiam a própria morte, em defesa da liberdade do País. Um raio de amor e de esperança desceu à terra naquele instante, enquanto brilhava no céu a constelação do Cruzeiro do Sul. O futuro do Brasil será tão grande quanto o seu território (em oposição ao pequeno Portugal).

 A amada pátria Brasileira é uma boa mãe, e por isso ela é adorada pelos seus nacionais, mais que todas as outras nações do mundo. O Brasil brilha no centro da América, com sua bela natureza, seu mar e seu céu, iluminado pelo sol do novo continente americano. 

A natureza do Brasil é mais bonita do que a das outras nações, e a vida no Brasil desperta mais amor nas pessoas. A bandeira do Brasil, cheia de estrelas, é símbolo de amor eterno, e o seu verde-amarelo lembra as vitórias do passado, e indica paz para o futuro.

Mas se houver necessidade de fazer a guerra, os brasileiros não terão medo do inimigo, e lutarão. 




*Reginaldo Vasconcelos
Advogado e Jornalista
Titular da Cadeira de nº 20 da ACLJ
  

quinta-feira, 19 de junho de 2014

CRÔNICA (RKGC)

AVIDEZ POR LIVROS
Régis Kennedy Gondim Cruz*

Bendito o que semeia livros a mancheia.  E manda o povo pensar! (Antônio Frederico de CASTRO ALVES).

CAETANO Emanuel Viana Teles VELOSO, em uma de suas belas canções, intitulada Língua, teve a felicidade de, em certo trecho, exprimir a alegria sentida quando sua língua “roçava a Língua de Luís de Camões”.

Ora, como bom nordestino, sobretudo cearense, ouso parafrasear o Artista baiano, ao dizer do deleite experimentado, no ensejo em que acrescento ao meu frugal vocabulário termos recobrados e reinseridos no vernáculo português pelo eterno pescador dos diamantes vocabulares, Vianney Mesquita, apreciado redator nesse blog. São verbos e nomes (substantivos e adjetivos) a concederem graça, beleza e, em especial, diversidade aos seus escritos, cuja leitura é procedida pelos mais distintos leitores.

Não raro, em suas sempre surpreendentes composições literárias em diversificados gêneros, seu público ledor depara unidades de ideias – palavras e expressões – de abrangência e significados incomensuráveis, mas que, exatamente em razão da aparente complexidade dos termos, como se não houvesse dicionários e outros livros de referência, são preguiçosamente deixados de fora, conquanto, muitas vezes, lembrados e, lamentavelmente, evitados.

Escrever bem solicita amor e entrega, como na oportunidade em que a pessoa gera um filho.

Vianney Mesquita, ao fazê-lo, dedica-se plenamente ao que executa, pois sabe que livros são objetos transcendentes, capazes de serenar o corpo e ascender o espírito anímico, pacientando, então, a alma.

Suas matérias periódicas, no entanto, não me bastam, pois padeço da monstruosa sombra da gula por alimento escrito.

Portanto, Professor, livros a mancheia...
*Régis Kennedy Gondim Cruz 
Docente da rede pública estadual do Ceará e 
municipal de Fortaleza


NOTA ACADÊMICA

VSM ANIVERSARIA E 
MARCOS ANDRÉ RECEBE CIDADANIA CEARENSE



Marcos André, filho do Engenho Civil Manfredo Cássio de Aguiar Borges, que é cearense de Sobral, e da pernambucana Maria Eudiméa Fradique de Lucena, (hoje Dona Mariinha Borges), nasceu na terra de sua mãe, mas a família veio viver no Ceará, com ele ainda menino.  
 
Em vez de seguir as ciências exatas de seu pai, um dos maiores especialistas brasileiros em recursos hídricos, Marquinho (como é tratado pelos íntimos) preferiu cursar jornalismo, resgatando a vocação do avô paterno, Arthur da Silveira Borges, valente jornalista sobralense, e cedo se iniciou na profissão, atuando em diversas empresas locais de comunicação.

Mas ainda muito jovem associou-se a dois amigos e fundou a VSM, agência de propaganda especializada em promover a comunicação interna de grandes corporações, pioneira no Ceará nesse específico seguimento.

A VSM, que completa agora 25 anos de exitosa atuação no mercado, recebeu, na noite do último dia 29 de maio, uma homenagem na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, por iniciativa do Deputado Sarto Nogueira e do Vice-Presidente da Casa, Deputado Tin Gomes, pelos relevantes serviços prestados ao mundo corporativo alencarino.


A VSM atende contas como Centro Universitário Estácio, Consórcio Novo Náutico, Consórcio Shopping Parangaba, Cooperativa da Construção Civil do Ceará (Coopercon), Dias de Sousa Construções, Ecofor, Expar Incorporações, Fujita, Galvani, Holding do Grupo Marquise.

Atende ainda Inni Soluções Empresariais, Lógico Construções, Marquise Incorporações, Marquise Infraestrutura, Mercurius Engenharia, MRV Engenharia, PB Construções, Prefeitura Municipal de Fortaleza, Prefeitura Municipal de São Gonçalo (Complexo Portuário do Pecém), Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Ceará (Sinduscon), TGA Engenharia e Sinalizações, UCI Cinema.

Já atendeu também, contas tais como Votorantim, Citibank (Citigroup), Petrobras, Listel, Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Metrô de Fortaleza, ARCE –Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Estado do Ceará e diversas secretarias do Governo do Estado do Ceará e Ministérios do Governo Federal.

Durante a mesma solenidade, a Assembleia Legislativa outorgou a Marcos André Borges, hoje o presidente e único dono da VSM, o título de Cidadão Cearense, mais do que merecido diploma a quem vem dedicando a sua vida profissional e familiar a este Estado.

Marcos André, casado com a jornalista Karla, com quem houve duas lindas filhas, ainda infantas, é Membro Titular da ACLJ, fundador da Cadeira de nº 40, cujo Patrono Perpétuo é o saudoso jornalista Blanchard Girão. Seu pai, Cássio Borges, é Membro Honorário Emérito da nossa confraria, dos mais assíduos e atuantes.

A ACLJ foi representada na solenidade pelos acadêmicos Edilmar Norões, Hermann Hesse, Roberto Moreira e Reginaldo Vasconcelos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

APRECIAÇÃO LITERÁRIA (VM)

PALAVRAS QUE ENSINAM
Vianney Mesquita*


A verdadeira facilidade de escrever provém da arte e não do acaso, assim como são os que aprendem a dançar os que mais graciosamente se movem. (Alexander Pope .*Londres, 21.05.1688; Twickenham, 30.05.1744).


Disponho-me, publicamente, feito apreciador inconteste dos escritos firmados pela maioria dos colaboradores de academiacearense.blogspot.com.br, sítio instituído em ditosa ocasião pela Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, logo em seus alvores, em abril de 2011.

Com assentimento e aplauso do Presidente, intelectual Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, esta iluminada ideia adveio do acadêmico, advogado e escritor Reginaldo Vasconcelos, a quem venero e respeito, pelo fato de ser pajem de tantos predicados, coluna a estear, na qualidade de secretário-executivo, em particular, a parte adjetiva da Corporação, na qual se inserta, entre dezenas de providências a si cometidas, a gestão do “blog” onde debulho as notas lidas no ensejo.

Neste comenos, todavia, fui estimulado pela ocorrência de haver lido, no dia catorze do mês fluente, aqui no periódico eletrônico extensor de nossas intenções, um escrito do acadêmico adiante nominado, de inusitada feitura, conquanto seja eu conhecedor, ao longo de trinta e tantos anos, de suas bem-afortunadas produções, do que é exemplo o livro Como Abraços, publicado em maio recém-passado, todas dispostas sob a cobertura das notações correntes.

Tenciono, pois, aduzindo razões, mencionar a qualidade e o alcanço literários nos textos do professor, jornalista, artista plástico, editor e escritor Geraldo Jesuino, desde o prefácio de meu primeiro livro, Sobre Livros – aspectos da editoração acadêmica (1984), os quais o leitor terá a ensancha de cotejar, ao decodificar o que está expresso em Rogério Bessa do Brasil...e do Mundo de Hoje, antelóquio quase tocaio de Poesia do Brasil e do Mundo de Hoje.

Por ordem de lugar, convém, de forma inaugural, atentar-se para o fato de que o Prof. Dr. Rogério Bessa, docente e estudioso da Ciência de Charles Sanders Peirce (10.09.1839 – 19.04.1914) e de outros teores afins a este complicado ramo das ciências glossológicas, é ensaísta celebrado nesse mister, poeta de fino veio, a incursionar, com mansidão e sem percalços, pelas ambages da Poética, consoante o procede também, no percurso de trânsito desembaraçado, por outras searas de que ousou e usou cuidar em sua autorizada produção literária, na Ciência quanto na Literatura.

É de necessidade, ainda, considerar na devida conta o fato de que, na poesia - a respeito da qual GJ faz consentâneas glosas, tendo sob escopo uma produção de RB - há certas munificências inadmitidas em língua-prosa, como as sentenças começadas por clíticos, determinadas elisões, próteses e outros tropos de adição e subtração, por exemplo. E isto - tome tento o leitor - se torna um calhau a mais no pedregulho, para quem, não aparelhado dos necessários utensílios intelectuais, se afoitar em comentários atinentes a temas desta espécie, submetendo-se à ameaça de, quase à certeza, desandar pela sandice e desabar no abismo da ingenuidade para, alfim, descansar no lodo da asneira.

Em adição, releva dizer, há o risco de quem assim procede conduzir ao engano aqueles receptores postados no seu nível, até mesmo em degrau abaixo, os quais, pela fé do carvoeiro (1), vão reproduzir a torto e a direito as falácias vistas, ouvidas e/ou lidas, num rosário interminável de transferência das intenções equívocas, tal representa o poderio imenso da comunicação, nomeadamente se repassadas por veículos de propagação massiva, jamais os de ondas de Hertz e rede mundial de computadores.

As produções de Geraldo Jesuino sucedem adversas às trivialidades peculiares aos estilos terra-a-terra, fogem do sem-sal e do desimportante, pois conferem valor ao emprego, ricamente diversificado, de todas as classes de palavras, mormente dos verbos, com as mui variadas acepções, desde os nomes (substantivos e adjetivos) às interjeições, e em suas significações plurais sob o permisso de uma língua magnificamente polissêmica e sincrítica (2).

Seu estro de poeta e artista plástico vai buscar – porquanto lhes conhece os caminhos – as acepções compadecidas a cada evento, a fim de conceder aos seus torneios a justeza gramatical e a acomodação estilística, conferindo ao escrito o estatuto de peça literária deleitosa e única, como a exprimir isto é meu, sou o autor, de sorte que, mesmo sem sua chancela imprimida, saberá o bom leitor ser de sua colheita o trabalho que tiver a ventura de deparar para consumir.

GJ não aceita, não é partidário, da ideia lindeira dos 500 ou 600 vocábulos, limitando-se o repertório da Língua Portuguesa, exclusivamente para facilitar a descodificação por parte daquele circunstante não aprestado convenientemente a ter habilidade de recepção. Em assim procedendo, o que acrescenta o escritor ao cabedal dos recebedores? Qual o contributo novo da peça, passível de conduzir à melhoria da recepção do lado de audiências mais desprovidas? Que pedagogia exerceu o autor de uma obra de repertório tão restrito? – Evidentemente, quase nenhum, pois prossegue instalada a mesmice, continua a usança, tem curso perene a rotina...
 
Isto Geraldo Jesuino logra denegar, quando emprega a Língua na sua admiranda extensibilidade, sem, todavia, carecer mostrar-se arrogante e inalcançável sob o espectro literário, conquanto – e tal já se depreendeu - seja exigível do contingente ledor boa circunstância de leitura; e, não o sabendo, eis a ocasião para, assentado numa escrita escorreita, correta e elevada, procurar apreender significados vocabulares e identificar significações estilísticas, a fim de alcançar o patim de bom leitor, ao exceder o portal da mera condição de alfabetizado e, em consequência, habitar o estádio de pronto descodificador.

Penso ser fácil verificar, mesmo o público menos atilado, os expedientes escriturais dele característicos, com vistas a conformar, a modo de estilo, as grandezas procedentes da atividade plástica que amanha e cultua às necessidades expressivas da Literatura. Assim, exercita dúplice estese, a redundar em mais donaire para sua prosa, e, de tal maneira, aferra sujeito a objeto da relação comunicacional, do começo ao remate, nas duas pontas do discurso.

É notório no produto literoestético de GJ o cuidado com a intervenção de terceiros, aos quais invita para convalidar ou falsear conceitos e, a igual do que operam os produtores convictos, caso as ideias mencionadas se mostrem confusas sob algum ângulo, ele recorre às notações de rodapé, para, sendo preciso, esclarecê-las e até falsear mensagens, como fez, v.g., em Rogério do Brasil ..., ao desabonar um neologismo não dicionarizado, malgrado haja aproveitado uma ideia de seu autor (nota 3).

De efeito, sem dúvida alguma, resulta falaz a intenção de liberar os textos da aplicação, quando couber, de quaisquer expedientes oferecidos pela Língua Portuguesa, a fim de deixá-los mais leves, sob o prisma da recepção, para os leitores menos aprovisionados intelectualmente, pois a estes cumpre é buscar a apreensão de conteúdos; apelar para as obras lexicográficas, o exame da Gramática, compulsar manuais de estilo e demais produções de referência, a fim de evoluírem, mesmo na autodidaxia caseira, para um patamar de leitura e decodificação condizente com o atual estado d’arte do conhecimento.

Não há de o escritor se esforçar a fim de, sem pedagogia alguma e abrindo mão da habilidade obtida em incessantes leituras e experimentos em laboratórios e lugares de prova, nas escolas e no recesso dos lares, muita vez, em altas horas da madrugada, a fim de nivelar sua escrita ao rés do chão, para ceder, rasteiramente, suas compreensões para quem não tenciona evoluir como bom decodificador de mensagens. Saber é muito bom. Aprender, porém, é penoso...

Daí por que prezo por demais escritos inteligentes, cultos e bem expressos como os de Geraldo Jesuino, distinguido, neste passo, no antelóquio do citado livro de José Rogério Fontenele Bessa, denotativo de seus aviamentos intelectivos e artísticos, pois, na realidade, pontificam como palavras que ensinam.

N O T A S

1 Fé do carvoeiro. Crença arraigada, a qual não aceita qualquer argumento em contrário. Advém desta historieta: o Demo, em disfarce de eremita, entrou na cabana de um carvoeiro a quem indagou: - “em que acreditas?” –“Creio no que acredita a Santa Madre Igreja”. –“E o que crê a Santa Igreja?” – “Crê o que creio”. Então, o carvoeiro se fechou em copas, ficando enganado o Demônio.

2 “Polissemia. Multiplicidade de sentidos de uma palavra ou locução (p.ex. , prato ‘vasilha’, ‘comida’ ‘iguaria’, ‘receptáculo de balança’, ,’instrumento musical etc; pé-de-moleque ‘doce’, ‘tipo de calçamento’. (HOUAISS;  SALLES VILLAR. São Paulo: Objetiva, 2005).
3 Síncrise. O mesmo que antítese – Contraste por demais nítido.

*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista

terça-feira, 17 de junho de 2014

CRÔNICA (WI)

UM PORTUGUÊS BEM BRASILEIRO
Wilson Ibiapina*


A Glenn Miller Army Force Band tinha como missão, durante a Segunda Grande Guerra, entreter as tropas americanas. Numa passagem por Lisboa, a banda da Força Aérea dos Estados Unidos se exibiu no Rossio. O som  era de  melodias como Chatanooga Choo-Choo, In The Mood, Moonlight Serenade e A String of Pearls (Um Colar de Pérolas: “Ela balançava / O colar/ De pérolas numa esquina / Os postes refletiam / As luzes na água / E o colar arrebentou / E as pérolas / Caíram / Rolando...).

Os portugueses não resistiram e saíram dançando em praça pública; Foi nesse clima que o jovem Ruy Diniz Netto tirou para dançar a menina-moça Maria Luíza, que acabara de conhecer. O romantismo tomou conta da noite e do casal que só se separou agora, no dia primeiro de junho, quando Ruy Diniz Netto morreu, aos 88 anos, vítima de enfisema pulmonar.

O destino determinou que Ruy virasse brasileiro. E lá se vem ele conhecer a antiga colônia. Uma viagem de navio da Europa para o Brasil. De Lisboa para Porto Alegre, no início da década de 50, Ruy Diniz Netto conheceu a família Betarso, dona da Livraria do Globo e da Editora Globo, durante essa viagem. Ele foi em seguida convidado para trabalhar como relações públicas e divulgador das duas empresas, e também para colaborar com a Revista do Globo.
Gaúcho honorário, Ruy Diniz colaborou com o Correio do Povo nos anos 1950 e 1960 e era apaixonado pela literatura de Erico Veríssimo. No livro “A Globo da Rua da Praia”, José Otávio Bertaso conta que foi Ruy Diniz, quando era chefe de vendas da editora, quem sugeriu a seu pai, Henrique Bertaso, que fosse realizada uma feira que reunisse livreiros e editores, na Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre. A  ideia de Ruy era  levar bancas com publicações para o Centro de Porto Alegre e oferecê-las à população com descontos. Foi nessa época que conheceu o jornalista Abdias Silva, um piauiense que saiu de Campo Maior, e também foi bater em Porto Alegre.
Ruy contou-me um dia que ficou encantado quando teve a noção exata do tamanho do Brasil. Em Portugal, contava ele, pegava um avião para o Porto e o voo durava uma dose de uísque. Na primeira viagem que fez da capital gaúcha para Manaus, ficou surpreso. Pediu um uísque, deu uma volta pelo avião, uma segunda dose, uma terceira, e nada de chegar. Teve que sentar, mandar suspender a bebida e esperar o término do voo. Um país continental que ele soube explorar.

Depois de anos morando em Porto Alegre, como jornalista, voltou para Portugal por um período. Em 1975, Ruy Diniz Netto ingressou na carreira diplomática e foi nomeado como adido cultural da Embaixada de Portugal em Brasília. O trabalho que fez para entrosar os dois países suplantou o de muitos embaixadores.

Alegre, culto, amigo, cordial, conseguiu fazer amizade com jornalistas, políticos, empresários e intelectuais. Aproximou os brasileiros de sua terra com promoções culturais que envolveram grandes nomes das artes, da cultura e da música.  Apresentou-nos Mário Soares e José Saramago, muito antes dos dois deflagrarem suas carreiras na política e na literatura.
Ruy Diniz estava sempre  pronto para atender a qualquer convite. De blazer, lenço no pescoço, circulava com elegância e desenvoltura pelos salões de Brasília, fazendo amigos, “vendendo” a imagem de Portugal.

Um dia, quando aguardava no aeroporto de Brasília a missão que vinha preparar a visita do então presidente português, Mário Soares, teve seu carro roubado no estacionamento. Dias depois, recebeu um telefonema dizendo que o carro dele estava no estacionamento da Polícia de Goiânia, mas tinha que pagar uma taxa. Foi lá, pagou e resgatou a velha Mercedes.

Contou-me essa história quando, um dia, levava a Edilma e eu de sua casa no Estoril para Lisboa, nesse mesmo automóvel. Disse que nunca denunciou à Polícia nem contou para a imprensa para não criar problema para a imagem do país que ele adotara como segunda pátria.
  
Queixou-se, também, de nunca ter sido lembrado pela Embaixada do Brasil em Lisboa nas festas do Sete de Setembro e em outras datas que eram lá comemoradas. Toninho Drummond, quando lhe contei, prometeu conversar com o nosso representante diplomático em Lisboa para incluí-lo na agenda de eventos. Não deu mais tempo.

Ruy ficou em Brasília até 1992, quando se aposentou e retornou à sua pátria. Nunca esqueceu o Brasil e os amigos. Sua filha Suzana, que nasceu no Brasil, disse-me que pouco antes de morrer conversou com ele. Relembraram histórias envolvendo Ari Cunha, Abdias Silva, Rangel Cavalcanti, Egidio Serpa, Toninho Drummond, Walter Galvani, Célia Ribeiro, Alberto André, Maurício Rosenblatt e Erico Veríssimo – e muitos outros amigos de Brasília e de Porto Alegre que”marcaram os dias mais felizes de sua vida.”



*Wilson Ibiapina
Jornalista
Diretor da Sucursal do Sistema Verdes Mares de Comunicação
em Brasília - DF
Titular da Cadeira de nº 39 da ACLJ