quinta-feira, 20 de março de 2025

Estâncias Decassilábicas Lusitanas (abas, por Márcio Catunda). MESQUITA, Vianney. Palmácia: Arcádia Nova Palmaciana, 2024, 234 p.

 VIANNEY MESQUITA
PALMACIANO OURIVES DO VERBO
Márcio Catunda


A flexa deixa de pertencer ao arqueiro, quando abandona o arco. Entrementes, a palavra já não pertence a quem a profere, uma vez que passe pelos lábios (CHRISTIAN JOHANN HENRICH HEINE, poeta tedesco. Dusseldorf,13.12.1797; Paris, 17.01.1856). 

 

O exímio sonetista Vianney Mesquita é um ourives do verbo. O polimento com que ele cinzela a palavra é arte reservada a poucos buriladores da parole imaginária.

Provém da estirpe poética de Luís de Gôngora. Sua experiência na composição de decassilábicos portugueses remonta aos anos de 1970, tempo em que o conheci na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Nesses quarenta e tantos anos de amizade, aprecio seu esmero nas simetrias dos ritmos. Eis que o louvo pelo competente exercício estético da palavra, generosa ascese reservada aos hierofantes e oráculos. 

A destreza desse bardo brasileiro, cearense e palmaciano faz-se notar, especialmente, na transição dos quartetos, que fluem de maneira espontânea para se integrarem aos trísticos, sem que se perceba ruptura ou dissonância. Tudo é sonoro, precioso e lúdico, nas partículas sintagmáticas, compositivas do conjunto todo dos catorze versos. Essa conjunção métrica respira e brilha como um organismo vivo. 

A erudição ao serviço da espontaneidade, o léxico seleto e primoroso, as imagens sempre surpreendentes, eis a forma da impecável Poesia, na escorreita conjugação do significado e dos significantes. É assim que Vianney Mesquita nos faz, dando-nos esta dádiva de grandeza, que é.

Trabalho de recôndito monge visionário, o soneto do Árcade Novo Jovem Khrónos, da Arcádia Nova Palmaciana, é o acúmulo de todas as virtudes prosopopeicas do gênero, desde as provençais, rudimentares práticas dos catorze apolíneos, passando pelo Iluminismo de Dante Alighieri, até o denominado Modernismo, em que o soneto apenas se renovou parcialmente, mantendo, porém, intacta sua estrutura. 

Vianney Mesquita celebra as personagens mais clarividentes do Ceará e do Mundo. Sua erudição transpõe fronteiras de toda sorte.

De permeio, rende homenagens aos melhores amigos. Os poemas estão intercalados de notas esclarecedoras e cultos epigramas, que deleitam os leitores sedentos do conhecimento. 

O seu lúdico sonhar traslada-se, portanto, aos temas eternos e fraternos: as festas das amizades, em que os amigos são enaltecidos, mostrando o Humanismo que transforma em poesia o axioma de Cícero: “[desfrutamos melhor as benesses do gênio e da virtude, se os compartilharmos com os amigos mais próximos”]. 

Cumpre, ainda, evidenciar o fato de que estes sonetos adquirem sabor de epitalâmios, porquanto se motivam na celebração do Jubileu do casal Socorro Mesquita (também escritora) e Vianney. E essa é mais uma ocasião de alegria para os diletantes da leitura deste livro.

Vianney Mesquita é também um poeta místico, um devoto da mais elevada espiritualidade. Essa condição o qualifica ao nível de expressão de filosofia moral (vide as peças Cordialidade, Ode à Discrição, Proveito do Silêncio, Perigo da Fama e outros), fundado em doutrinas de mestres da estirpe de Tácito, Juvenal, Pascal, Diderot, Benjamim Franklin et alii.       

Em todos os aspectos, nos sentidos denotativo e conotativo, os conjuntos poéticos de VM ressoam nos níveis fônico e semântico, uma oitava acima da poesia média contemporânea, e põem em realce em seus corolários os ideais mais belos. 

O cotidiano é elevado ao plano metafísico. A sátira e a paródia assumem ares de elegante estesia. Nas lúdicas conceições literárias deste vate, tudo se reveste de uma sublimidade melódica e de uma expressão verbal intensa e brilhante.

Feliz o leitor que adentre o mundo deslumbrante das páginas deste livro! 

Márcio Catunda

Genebra, 14 de maio de 2024.



Nota da Redação

Mesmo sem ser fração do livro comentado pelo escritor brasileiro-cearense, o intelectual e diplomata Márcio Catunda, e a fim de o leitor alcançar por completo seu entendimento, transferimos para cá este decassílabo português de VM. 

Verbo Justo

Vianney Mesquita

 

Palavra solta! Nem cavalo a galope é capaz de alcançá-la. Cuidado, pois, com o que proferes!

(Provérbio chim) 

Desconvém desprezar o verbo justo,
Tampouco bendizer a logorreia.
Más dicções derruem a panaceia,
Malsãs mezinhas para um mal vetusto.
 
Frase dissolta, sem nexo robusto,
A endentação da lógica debreia,
Ao corromper as intenções da ideia
De liberar um bem já tão angusto.
 
Concedamos, então, tino às palavras,
Dando azo a tenções sob hábeis lavras
De límpidas linguais águas hissope.
 
Soltemos, pois, as intenções escravas
E arremessemos o ilogismo às favas,
Cedendo ensejo ao pégaso em galope!
 

***

Auxílio para a Decodificação o Soneto

 Primeiro quarteto 

Visando a se proferir algo racional, no âmbito da lógica discursiva, é inconveniente deixar de empregar alocuções justas, pois é preferível abandonar as expressões inúteis, sem sentido – as chamadas logorreias. Isto porque estas desconsideram o pretenso remédio, a panaceia, para todos os males, no caso, uma falsa mezinha contra um mal antigo.

Segundo quarteto 

Em continuidade, divisa-se a noção de que palavreado descomposto, dissolvido (dissolto), não tem ligação vigorosa, vocábulo a vocábulo, de sorte que a engrenagem (endentação) da lógica, da ideação racional, sobra desconectada, corrompendo as intenções ideativas produzidas para deixar livre um bem, hoje, já tão estreito, de tal modo constrito.

Primeiro terceto 

Então, deve-se conceder razão, ideias racionais, às palavras, para que, sob o prisma linguístico, sejam elas, poeticamente, um aspersor dos líquens da Língua Portuguesa (hissope) com vistas a refrescar quem fala e escreve.

Segundo terceto

De tal modo, a ideia é de que as intenções escravizadas pela idiossincrasia das dicções mal formuladas sejam libertas, abandonando-se o ilogismo e concedendo oportunidade a que o cavalo do provérbio chinês, expresso na cabeça do soneto, a epígrafe (bem como os leitores), alcance o que intentam exprimir as noções expressas.

sexta-feira, 14 de março de 2025

ARTIGO - Saudade da Lucidez (RMR)

SAUDADES
DA LUCIDEZ
Parte 1
Rui Martinho Rodrigues*

 

A lucidez e o sentido das palavras 

A chamada polarização das sociedades ameaça provocar graves rupturas nas instituições políticas e jurídicas; igrejas; partidos; amizades e famílias. Trata-se de um desafio com que se depara o processo comunicativo, sem o qual não há sociedade. Não pode haver sociedade sem que os seus integrantes tenham um mínimo de comunicação entre si. Emissor e receptor de mensagens precisam ter um código comum para que haja entendimento entre eles. A desordem cognitiva ameaça as relações sociais quando o sentido das palavras se torna enigmático. 

Thomas Kuhn (1922 – 1996), na obra Estrutura das revoluções científicas, descreve a incomunicabilidade dos paradigmas de ciência. Fala como físico e como historiador da ciência. Pontifica ainda como filósofo da ciência, na condição de expoente da escola do racionalismo pós-crítico. Enfatiza que as grandes inovações científicas nunca foram reconhecidas pela comunidade científica. Galileu Galilei (1564 – 1642), quase condenado à fogueira, não é exceção, é um caso típico. Giordano Bruno (1548 – 1600), filósofo, matemático e teólogo, não teve a sorte de Galileu, foi imolado por defender, entre outras coisas, o heliocentrismo. 

Não se trata de um fenômeno dos séculos XVI e XVII, supostamente em razão de resquícios do medievalismo. Na Antiguidade Clássica Sócrates (470 a.C. – 439 a.C.) foi condenado a morte por difundir ideias que no jargão de hoje seriam rotuladas como “fake news”, desinformação, desordem informacional ou atentado às instituições democráticas. Nos dias de Galileu eram “heresias”. Louis Pasteur (1822 – 1895), cientista contemporâneo, por pouco não foi internado em um manicômio. Escapou por ser amigo de médicos e por ser manso e pacífico, que ensejou um diagnóstico com o significado equivalente a louco manso.

Sigmund Freud (1856 – 1939) foi expulso do Conselho de Medicina de Viena por motivos semelhantes aos que levaram Sócrates e Giordano Bruno, Galileu e Pasteur a severa condenação pelos seus pares: ferir a ética médica. Por tudo isso e muito mais, o físico alemão, Max Planck (1858 – 1948), chegou a dizer que a Física só cresce quando morre uma geração de físicos. Thomas Kuhn chegou a aludir a irracionalidade na ciência.

O fracasso de cientistas inovadores, quando tentaram explicar as descobertas inovadoras aos seus pares, se deu no debate com pessoas inteligentes e estudiosas. Mas, por melhores que fossem as explicações dadas, as barreiras não foram superadas, senão pelas gerações seguintes. A incomunicabilidade gerou – e também foi causada – por diversos fatores, entre os quais a barreira semântica que separa diferentes paradigmas de ciência. Maior é a discrepância de significado atribuído às palavras no campo da política, das doutrinas sociais, principalmente quando envolve de juízo de valor. 

O conflito de interesses e a leitura da realidade feita com “óculos” de paradigmas incompatíveis explicam a incomunicabilidade descrita. Teorias são lentes que condicionam a leitura da realidade. Rubem Alves (1933 – 1914) fez analogia com um pescador que achava só haver, em um certo lago, peixes pequenos. Usou anzol diminuto e só pegou peixes minúsculos. Considerou provada a “teoria” dos peixes pequenos e atribuiu ignorância ou má fé a quem dele discordava. Hoje os críticos da tese dos peixes pequenos seriam “terraplanista”. As palavras têm sentidos diferentes nos paradigmas divergentes. 

A falha na comunicação enseja conflito. Pescadores de águas turvas semeiam a belicosidade encorajados, entre outras coisas, pela interpretação da História que atribui aos conflitos o motor das transformações que impulsionam o processo civilizatório. Trata-se de entendimento que despreza os fatos. A Primeira Revolução Verde, ao semear para colher depois, foi uma solução criativa para o problema da produção de alimento. Invenção ou criatividade, não o conflito, promove o avanço da civilização. A Segunda Revolução Verde foi a irrigação. Darcy Ribeiro (1922 – 1997), na obra O processo civilizatório, menciona estas duas revoluções. 

Vishal Mangalwadi (1949 – vivo), na obra O livro que fez o seu mundo, lembra que o moinho de grãos era conhecido dos asiáticos, mas não teve o seu uso difundido porque não havia sensibilidade em face da labuta desgastante com os pilões. Não faltou conflito na Ásia, mas faltou criatividade. Nem foi a atividade bélica que promoveu, no Ocidente, a adoção do moinho em substituição aos pilões. Tampouco foi a falta de engenhosidade dos povos asiáticos e africanos que obstaculou o desenvolvimento técnico. Não faltou conflito em todos os continentes. 

Foi a ética protetora do trabalho, inspirada na tradição judaico-cristã, que estimulou a técnica e suavizou o trabalho. Max Weber, na Obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, mostrou que os puritanos da primeira imigração dos EUA, condenavam ociosidade, gastos supérfluos e entesouramento. Isso forçou o investimento produtivo e, somada à defesa da liberdade de pesquisa, promoveu a técnica e alavancou a produtividade. A citada obra de Weber refuta a doutrina segundo a qual a organização das forças produtivas é a infraestrutura que determina toda a cultura e a organização social. E serve para infirmar a tese do conflito como motor do processo civilizatório.

quarta-feira, 12 de março de 2025

SONETO - Plural Excêntrico (VM)

 

 PLURAL EXCÊNTRICO
Vianney Mesquita*

 

 

O erro exige perdão; castigo, o crime.

(Manuel Maria Barbosa de Bocage, poeta neoclássico (arcadismo) português. Setúbal, 15.09.1765; Lisboa, 21.12.1805)

 

  

 

A nós nos assemelham esquisitos
Embora tachem-nos de radicais,
Desde a portuga regra alguns plurais
Desconformam-se, contudo, expeditos.
 
Os ares-condicionados, ditos
Imperativamente, são assaz
Via alterosas normas, mui reais,
Bem liberalizados de interditos.
 
Da balaustrada, entanto, os corrimões,
Deviam ser apenas corrimãos:
Incongruentes às mãos de Camões.
 
Malgrado nossas meras ilusões,
Linguais defesos postos nos desvãos.
São motos, pois, de penas e perdões.
 

 Observações

Há no âmbito da Língua Portuguesa, dentre outras espécies, o registro de plurais que achamos estranhos, como, exempli gratia, o de corrimão, o qual admite esquisitamente como correto, além de corrimãos (por onde a pessoa, na subida e na descida, apoia as mãos), a palavra corrimões (como se amparasse as “mões”). 

De tal modo, eles não se configuram como diligentes, prontos, expeditos, mas são havidos legais e certos pelas regras gramaticais, isto é, recebem a certificação. Não está incorreto o mencionado no soneto ares-condicionados, mais de um ar-condicionado, que, de aparelho de ar-condicionado, virou um substantivo – ar-condicionado. Estranho, sem dúvida. 

No mesmo passo, vem corrimões, comentado há pouco, onde “não cabem as mãos de Camões”, como se fosse corrimão onde se pusessem as “mões”, isto é, há incongruência no “acerto”.

De tal sorte, estando, no nosso modo de ver, embora sob esse emprego nos desvãos da LP, proibido de proibir, embora sob a tacha de radicais, conforme a citação da parêmia de Bocage, fechamos o poema como motivos de perdão para o erro e castigo para o crime. 

  

 

domingo, 12 de janeiro de 2025

NOTA ACADÊMICA - Primeira Reunião Virtual da ACLJ 2025

PRIMEIRA REUNIÃO
VIRTUAL DA ACLJ
2025 

Participaram da primeira reunião virtual da ACLJ deste ano os confrades Aluísio Gurgel do Amaral Júnior, Dmitry Sidorenko (de São Petersburgo, na Rússia), Stênio Pimentel Gomes (do Rio de Janeiro), Pedro Bezerra de Araújo, Reginaldo Vasconcelos, Sávio Queiroz Costa e Vicente Alencar.

 

Durante o encontro Aluísio apresentou um poema de sua autoria sobre “o nada”. Pedro, por sua vez, também fez a leitura de um texto seu, que trata sobre... “o texto”, e Reginaldo disse de cor o poema do poeta cearense Paula Ney, “A Fortaleza”, em homenagem ao Dmitry, apaixonado pela nossa cidade, autor de um livro de memórias intitulado “De Khabarovsk a Fortaleza”.

Depois de animadíssima prosa, a reunião teve a sua fase solene quando Aluísio informou o falecimento da poetisa Vera Maia, sepultada na manhã de hoje, sua ex-colega na magistratura cearense.

 

O anúncio fúnebre trouxe à baila que Vera, antes de Juíza de Direito, moça belíssima, foi Miss Ceará, em 1963 – segundo frisou o Sávio.

Vicente registrou também que, há cerca de cinco anos, prefaciou um livro de poemas da Vera Maia, intitulado "RECADO – Crônicas e Poesias". 

Por fim, Reginaldo lembrou que, na noite de 27 de janeiro de 2019, Vera participou de um sarau no jardim da Tenda Árabe – o dito Largo da Poesia – cujo registro em vídeo está abaixo.

Esta reunião virtual foi dedicada à memória da poetisa Vera Maria Barros Maia.

 

O encontro virtual foi administrado pela Jô, que também é a autora do vídeo do sarau. 

  

ARTIGO - Precisamos Resgatar o Prestígio do STF (CA)