domingo, 1 de dezembro de 2024

POESIA - Pobre de Mim (RV) X Poema em Linha Reta (FP)

 POEMA EM LINHA RETA
Fernando Pessoa*
(Pelo heterônimo Álvaro de Campos)
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
 
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe  todos eles príncipes – na vida...

 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
 
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.





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POBRE DE MIM
Reginaldo Vasconcelos*
(Contraponto)
 
Pobre de mim,
Que já surpreendo os traços avitos no meu rosto.
Como as minhas, a exata e querida mão do meu saudoso avô paterno, aquelas falangetas que o alcatrão do tabaco já tingira de ouro velho, na lembrança indelével que eu interno.
 
Feliz de mim,
Que tenho vivido com galhardia tantos anos,
Que não fugi dos desafios sinuosos que o mundo propôs,
Que tenho triunfado ufano das grandes tentações da improbidade, da sereia da ilicitude, dos mais sórdidos complôs.
 
Pobre de mim,
Que tenho perdido amigos a mancheias para a morte, e que não tenho solidariamente morrido, e que não busquei a fortuna financeira a qualquer preço e com afinco, tantas vezes me arriscando a vir a comer com os cães e a dormir com os gatos sobre o zinco.
 
Feliz de mim,
Que não tenho que fazer coro com o poema de Pessoa, e que me inscrevo entre os “príncipes” de que o poeta faz escárnio, porque não tenho devido sem pagar, nem me deixado trair, e que os socos recebidos tenho todos revidado, ao belo e ao feio, ao pobre e ao rico, ao califa ou ao grão-vizir.
 
Pobre de mim,
Que não tenho podido entender todos os homens que encontrei, 
Que não me foi dado socorrer todas as almas que bordejaram a minha sorte, amar todas as filhas de Zeus, produzir o poema perfeito, salvar a pátria amada dos iníquos filhos seus.
 
Pobre de mim.  



POESIA - Soneto Decassilábico Português, com Rimas Encadeadas (VM)

 A PINDAÍBA E O DIALE
Vianney Mesquita*

 

Para que serve o dinheiro? Quem o não tem não possui coragem; quem o tem guarda preocupações; aquele que o reteve por um tempo protege saudades. (FRIEDRICK von LOGAU, poeta polaco. Brochoci, 1604; Legnica, 1655).   


 

Em certo tempo, aquando eu alisara,
Escorregara em lisa economia,
 Na história lia o quanto analisara,
Verificara o quão ocorria.
 
Hoje, na via a ver como restara,
Não com a rara visão da prataria,
Eu ouvia as razões do que me azara
Tal azo, para mim, já não valia.
 
Em fantasia expressa nesta via,
Entendia: a pecúnia é o Encardido
E o sortido efeito passageiro.
 
Ora, ligeiro e agudo, todavia,
Se um dia alguém quiser o Escurecido,
Basta, escondido, quedar sem dinheiro!



 



 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

POESIA - Soneto Decassílabo Português, com rimas encadeadas (VM)

 

SURRA PERENE
Vianney Mesquita*

 

 

Se a cada um tratássemos segundo o que merece, quem evitaria as chicotadas? [William SHAKSPEARE]

 

 

Sobre um colega contou-me um amigo
Ao desabrigo, sob intensa lenha,
A própria senha é agravo, seu jazigo,
Velho impetigo de peia ferrenha.
 
Qual uma duenha, mulher do castigo,
De enlace antigo, mas nunca foi prenha
Dele; e desdenha, feito um inimigo,
Míngua do abrigo a inditosa nênia.
 
Peço vênia, então para o que digo:
Assim me ligo e na intenção prossigo
A mais da precisão que se desenha.
 
Convém se tenha ideal consigo
– Como instigo – forrando o raparigo,
Ao se implantar a Lei José da Penha.




Comentário: 

De forma poética e burlesca, o Prof. Vianney aborda um dos temas mais complexos da vida moderna nacional, qual seja o transbordo da bem intencionada Lei Maria da Penha para pontuais injustiças contra a classe masculina – além de eventualmente causar o refluxo mais violento do agressor repreendido. 

É verdade que a violência doméstica contra mulheres precisa de forte contenção jurídica. Todavia, a Lei nº 11.340/2006 não tem prevenido que companheiros e maridos violentos, uma vez reprimidos por quaisquer agressões cometidas, constrangidos pela medida protetiva de distanciamento da família, terminem por assassinar suas mulheres. 

Por outro lado, a lei não leva em conta aspectos vitimológicos importantes, algumas vezes punindo injustamente maridos ingênuos, companheiros apaixonados – desamados, mal tratados, traídos – enfim presos ou proibidos de se aproximar de sua prole amadíssima em razão de falsas acusações de suas mulheres, cuja simples palavra acusatória faz prova absoluta. 

Reginaldo Vasconcelos


terça-feira, 19 de novembro de 2024

NOTA LITERÁRIA - Solenidade na Alece Pelo Dia da Literatura Cearense

 SOLENIDADE NA ALECE 
PELO DIA DA 
LITERATURA CEARENSE


A Assembleia Legislativa do Estado do Ceará promoveu, no Plenário 13 de Maio, neste 18 de novembro, uma sessão solene comemorativa ao dia consagrado à literatura cearense, dia 17 de novembro – aniversário de nascimento da jornalista e escritora Rachel de Queiroz.

A solenidade, proposta e capitaneada pela médica Silvana Oliveira de Sousa, Deputada Estadual politicamente nominada Dra. Silvana, contou com a presença de várias das entidades literárias de Fortaleza, das quais alguns integrantes receberam láureas de honra ao mérito literário.



Compuseram a mesa, além da Deputada Dra. Silvana, Marcos Praxedes, da Academia Mundial de Letras, Reginaldo Vasconcelos, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, Regis Frota, da Academia Cearense de Cinema, Elinalva de Oliveira, da Academia Feminina de Letras do Ceará e Fernanda Quinderé, da Academia Fortalezense de Letras – seus respectivos presidentes – e o vice-presidente da Academia Cearense de Letras, Juarez Leitão. 

Foram agraciados o jornalista, poeta, linguista e professor Luciano Maia e o músico, cantor, compositor e memorialista, César Barreto, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. 

Também laureados os seguintes intelectuais cearenses: Elinalva Oliveira, Magno Ponte, Fernanda Quinderé, Ivan Ary Júnior, Irapuã Aguiar, Pedro Henrique Saraiva Leão (in memoriam), Francisco Alves Pereira, Tereza Norma Sampaio Caracas (in memoriam), Dagoberto Sousa, Rosane Guerra, Osmar Diógenes, Hugo Facó Fernandes Moura, Juliana Cavalcante, Haroldo da Silva Abreu, Révia Herculano, Francisco Ribeiro e Tereza Porto.

 

Destaque especial para o escritor, poeta, bibliófilo, teólogo, folclorista, homem telúrico, de origem e alma sertanejas, um dos mais importantes intelectuais do nosso tempo, que, sendo Assessor Parlamentar da Dra. Silvana, é sempre o artífice dos eventos de inspiração da Deputada, dos quais os dois personificam, aristotelicamente, corpo e alma.                   

POESIA - Versos Decassílabos Portugueses, de Vianney Mesquita, e Decodificação em prosa, da autoria de Sousa Nunes (VM)

 AGNOSTICISMO
Vianney Mesquita*

 

 Sábio sem crença é árvore sem fruto (Anônimo).

 

 

Dos incréus retêm-se os prognósticos
Provenientes de súditos cépticos,
Devaneios pessoais, organolépticos,
Esquisitices próprias de agnósticos.
 
De mil versos ateus sobram acrósticos
Sob os quais se retardam, catalécticos ...
Coisas à-toa de padrões patéticos
Irreligiosos, infiéis [...] pernósticos.
 
Na supradita inscrição inserta -
Sem autoria, porém, que a estreme -
É manifesto o raciocínio arguto,
 
Porquanto a supra ideação concerta
Um brocardo de tão vera episteme:
Douto descrido é vegetal sem fruto.
 
  

DECODIFICAÇÃO
 Sousa Nunes



A SABEDORIA é a única riqueza que os ladrões não conseguem levar [BENJAMIN FRANKLIN, polígrafo estado-unidense). 


Estesia das Estrofes 

Belíssimo é este soneto do escritor Vianney Mesquita. O equilíbrio e a justeza das palavras concedem a medida exata do domínio máximo desse vernaculista amante cioso da nossa Língua Portuguesa. Concordo plenamente com a leitura do AGNOSTICISMO. 

Quando me deleito com as obras desse autor, avulta, por contraste, a pobreza que hoje observo em jornais e livros, tanto em teor quanto em continente. Não é à-toa que o escritor, polímata e diplomata cearense Márcio Catunda Ferreira Gomes (Genebra – Suíça) expressou, nas abas de Estâncias Decassilábicas Lusitanas, de V.M., (Palmácia, Arcádia Nova Palmaciana, 2024), que o escritor sob escólio é um “... ourives do verbo. O polimento com que ele cinzela a palavra é arte reservada a poucos buriladores da parole imaginária”. 

O soneto Agnosticismo denota uma reflexão sobre a condição dos descrentes, especialmente agnósticos, por meio de uma linguagem formal e erudita. Vazado em versos decassilábicos, que alternam rimas ricas e emparelhadas, revela o autor uma destreza tanto em estética quanto em argumentação.

A obra segue uma lógica crítica e filosófica, intercalando termos sofisticados e referências eruditas para provocar uma discussão sobre a falta de fé e suas implicações. 

Título e Tema 

O título, Agnosticismo, sugere desde o início que o poema se propõe examinar a posição de dúvida ou indiferença quanto à existência de uma verdade transcendental. A peça, no entanto, ultrapassa uma análise meramente descritiva dessa posição filosófica e posiciona-se criticamente diante dela. 

A epígrafe, Sábio sem crença é árvore sem fruto, funciona como um eixo norteador do poema, reforçando uma crítica à descrença por meio da metáfora da esterilidade. 

Linguagem e Estilo 

As estrofes são densas em termos de linguagem, o que reflete o papel de sua crítica. Há um emprego deliberado de palavras sofisticadas e sonoramente marcantes, como organolépticos, cataléticos e pernósticos, que não apenas servem para enriquecer o campo lexical do poema, mas também revelam o lastro cultural do produtor, em favor de uma sutil ironia. 

O exagero desses termos sublinha o caráter frívolo e vazio que o autor atribui às reflexões dos incrédulos. O uso de palavras e expressões pouco usuais também remete ao que o soneto critica: um distanciamento da simplicidade e da fé, como se o próprio léxico complexo fosse uma metáfora para a esterilidade intelectual. 

Estrutura Argumentativa 

A crítica aos agnósticos

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

NOTA SOCIAL - ACLJ Visita Adísia Sá

 ACLJ VISITA
ADÍSIA SÁ

 

Os acadêmicos Reginaldo Vasconcelos e Arnaldo Santos, da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, no dia 08 deste mês, visitaram a Profa. Adísia Sá, ícone do jornalismo Cearense, Membro Honorário da ACLJ, para felicitá-la pelo seu aniversário de 95 anos, transcorrido no dia 07.

Aproveitaram a oportunidade para ouvi-la sobre o seu colega de trabalho, o falecido jornalista e político Dorian Sampaio, cuja biografia está sendo produzida, por iniciativa da família deste, sob a chancela da ACLJ. Ela fez questão de registrar que Dorian era marcado pela qualidade de bom amigo dos amigos, assim como de um incômodo inimigo. 

Frisou ainda que, bem apessoado e muito galante, o velho amigo apreciava demais um “rabo de saia” – expressão que se usava, com eufemismo, para referir às mulheres que fossem passíveis de serem cortejadas por conquistadores amorosos. De fato, como se apura pela leitura de sua obra jornalística, grande cronista que era, Dorian Sampaio primava por temas idílicos  e lascivos. 

Em suma, apesar da idade avançada, Adísia Sá se afigurou lúcida e feliz, falando de si mesma como pessoa tão temperamental como teria sido o seu saudoso pai, homem irascível e violento – mas que, assim como ela, logo se mostrava arrependido de suas atitudes bruscas – e quando ele era grosseiro com as suas filhas ia em lágrimas implorar que o perdoassem. 

Curioso que os dois amigos e confrades que, naquela manhã, tão afetuosamente, com ela se congratulavam e lhe ouviam a confissão do seu espírito indômito e estouvado, eram dois dos que, no princípio das suas carreiras jornalísticas, foram vítimas de suas invectivas, como líder sindical intransigente que era ela  mas que tornaram-se depois seus admiradores e granjearam a sua amizade e a sua estima – uma bela crônica sobre as ironias do destino.      

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Resenha da Reunião Virtual de 10.11.2024

REUNIÃO VIRTUAL DA ACLJ
 (10.11.2024)

 


PARTICIPANTES

Compareceram sete acadêmicos à conferência virtual deste domingo, que teve duração de 90 minutos, e que teve o foco principal na 2ª Assembleia Geral Ordinária de 2024. 

Estiveram presentes o Jornalista e Advogado Reginaldo Vasconcelos, o Médico e Latinista Pedro Bezerra de Araújo, o Especialista em Câmbio e Comércio Exterior Stenio Pimentel (Rio de Janeiro-RJ), o Empresário Carlos Rubens Alencar, o Músico e Cronista George Tabatinga, o Advogado Adriano Vasconcelos e o Advogado Aluísio Gurgel Júnior   todos Membros Titulares da ACLJ.

Justificaram ausência o Artista Sônico César Barreto, o Agente de Exportação Dennis Clark e a Profa. Luciara Aragão.

TEMAS ABORDADOS

Na reunião virtual da ACLJ deste domingo  após os assuntos vicinais relativos aos fatos recentes da vida de cada qual, sua experiência e o seu extrato filosófico, leitura de poemas e de crônicas,  tratou-se principalmente das démarches para a Assembleia do dia 04. 


DEDICATÓRIA

A reunião deste domingo, dia 10 de novembro de 2024, por aclamação do grupo virtualmente reunido, foi dedicada à estreia do confrade eleito Carlos Rubens, que recebeu as boas vindas.