NÃO
TENHO NADA
A
VER COM ISSO
Reginaldo Vasconcelos*
Não tenho nada a ver com isso. Nada “disso que está aí” me diz respeito. Autorreferente, ninguém me representa. Nasci, me criei e envelheci nessa mixórdia, em que se pretende fazer crer, em que se deseja acreditar em conspícua gravidade moral e nobreza de intenções, quando as únicas coisas sérias realmente neste país são o carnaval e o futebol. O resto é baderna, é mentira, enganação, concupiscência (algo tão feio e disforme como este seu designativo idiomático, que nenhuma outra língua do Planeta pode traduzir corretamente).
Bem, mesmo o futebol e o carnaval têm sido conspurcados e vilipendiados pela anarquia institucional que grassa e reina neste mundo de meu Deus, em que o Brasil é uma piada de mau gosto, onde só se costuma ser levado a sério quando Momo está reinando, quando as fantasias de palhaço e as bundas nuas nos remetem à realidade anárquica nacional. Montesquieu há muito tempo se revira no túmulo e se pudesse rasgaria seus tratados sobre a tripartição de poderes que engendrou, enquanto os gregos e romanos que repousam nos mausoléus da História pasmam com o que se tem feito de suas puras concepções de democracia e de república.
Em menino eu pensava erradamente que a molecagem dos garotos de então, os quais (fossem criados na rua ou nos mais conceituados educandários clericais) saltavam muros para fugir das aulas, para penetrar nas festas, para furtar pomares, e por qualquer nonada espancavam-se nas calçadas e nos pátios de colégios, e se sodomizavam uns aos outros em mutualidade combinada, ou em troca por alguma prenda – pensava eu incorrendo em crasso equívoco que essas condutas fossem privativas da infância masculina da minha época.
Qual nada, desde sempre, e inclusive atualmente, o mundo adulto pratica iniquidades semelhantes, sob os seus ternos vistosos e em seus discursos empolados – enganando, traindo, furtando, espancando, condenando e até matando pessoas inocentes, com o agravante de que atraíram para o seu covil imundo de negociata, politicagem e bandidagem as mulheres, que nos seus belos penteados e “taieres” elegantes pensam ter conquistado a liberdade pessoal e o paraíso terrestre, quando apenas somaram às suas nobres funções naturais e biológicas a estiva cruenta das obrigações funcionais – horários, expedientes, metas, chefias, patrões...
Aliás, a ética dos meninos que fomos só execrava a covardia, gravíssimo atentado à hombridade pessoal, de tal sorte que, quando insultado por um pirralho menor, para evitar a pecha de covarde, se lhe mandava chamar o irmão mais velho para a briga. Pela mesma razão, em mulher não se batia “nem com uma flor”, conforme o jargão daquele tempo, assim como a maior ofensa possível era malferir a moral da mãe do outro com impropérios. Hoje, enquanto a legislação se esforça para proteger o universo feminino da sanha dos homens, cada vez mais são elas estupradas, violentadas, agredidas e mortas por amantes e maridos.
O que o mundo infantil não percebia e não percebe é a gravidade das dores, das tragédias físicas, das doenças e das mortes; é a infelicidade de ter filhos com deficiências incuráveis; é a seriedade, a importância e a pungência das salas de cirurgia, das amputações e das camas de hospitais; são as angústias dos tribunais e a tortura do cárcere, seja merecido, seja injusto; é a abordagem tenebrosa dos facinorosos armados que empestam e predam a sociedade impunemente – razões pelas quais a minha avó aconselhava os netos chorosos a guardarem suas lágrimas para os sofrimentos do futuro.
Os delinquentes adultos de todos os tipos e matizes – de pichadores de muros a banqueiros desonestos, a falsos magistrados, a políticos mistificadores e corruptos, a bandidos sanguinários – decidem estes viver à margem da grandeza dos artistas inspirados, que colorem o mundo, embelezam a vida e enlevam as almas; à margem do mérito dos doutores que fazem ciência para que se produzam remédios, aviões, automóveis, computadores e aparelhos celulares; à margem da existência de grandes e pequenos empresários que se associam para dar empregos e produzir riquezas em geral; à margem da importância dos que enfrentam realmente chão de fábrica ou solo rude de plantar e criar, e assim alimentar a humanidade.
Eu apenas vejo, acompanho, sofro, lamento, denuncio. Mas, pessoalmente, de fato, não tenho, nunca tive e jamais terei nada a ver com isso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário