Um pouco baço
Sávio Queiroz Costa*
Outro dia me peguei olhando para um copo. Não havia nada de especial nele. Era um copo desses comuns, de vidro grosso, sobrevivente de quedas, lavagens apressadas e muitos almoços sem importância.
Um copo honesto. Cumpria sua função com a serenidade das coisas que já entenderam o mundo. Mas não brilhava.
Fiquei algum tempo com ele na mão, girando-o contra
a luz, como se procurasse um defeito que justificasse aquilo. Não havia trinca,
não havia sujeira. Ainda assim, o brilho tinha ido embora. Pensei: ficou
baço.
E, como acontece com certas palavras, essa não se satisfez em ficar apenas no copo.
Fiquei algum tempo com ele na mão, girando-o contra a luz, como se procurasse um defeito que justificasse aquilo. Não havia trinca, não havia sujeira. Ainda assim, o brilho tinha ido embora. Pensei: ficou baço.
E, como acontece com certas palavras, essa não se satisfez em ficar apenas no copo. Há coisas que, com o tempo, não se quebram – o que seria até mais fácil de lidar. Elas apenas deixam de reluzir. Continuam ali, inteiras, funcionais, até confiáveis. Mas já não devolvem a luz com o mesmo entusiasmo. Como se tivessem aprendido alguma coisa que nós ainda não sabemos bem o quê. Talvez seja isso o envelhecimento em sua forma mais discreta.
Não o corpo, que esse se encarrega de dar sinais mais evidentes. Nem a memória, que vez ou outra tropeça para nos lembrar da sua existência. Falo de algo mais sutil. Uma espécie de ajuste fino entre o que esperamos e o que aceitamos.
A juventude, ao que parece, é luminosa por excesso. Tudo brilha demais, às vezes até sem necessidade. Há um desperdício de intensidade nas coisas – um exagero de brilho que beira a imprudência. A gente se espanta com facilidade, se entusiasma por pouco, acredita com uma confiança que hoje nos pareceria quase irresponsável.
Depois isso passa.
Não de repente – nunca de repente. Vai diminuindo aos poucos, como a luz de uma tarde que não chega a escurecer, mas também já não é dia pleno. O mundo não perde a graça, mas perde um pouco do brilho. E, curiosamente, isso não chega a ser uma perda. É uma troca.
Ganha-se em nitidez o que se perde em brilho. As coisas ficam mais claras – ainda que menos luminosas. A gente passa a enxergar melhor, embora com menos encantamento. E talvez haja uma certa paz nisso, uma economia de espanto que torna a vida mais habitável.
Os objetos sabem disso há mais tempo.
O móvel antigo que já não reluz, mas sustenta tudo. A faca que perdeu o polimento, mas corta melhor do que nunca. O copo – sempre ele – que já não brilha, mas permanece firme, presente, suficiente.
As pessoas, suspeito, aprendem com os objetos. Não deixam de rir, nem de se interessar pelas coisas. Apenas já não precisam que tudo cintile o tempo todo. Há uma espécie de descanso no olhar. Uma maneira mais tranquila de atravessar os dias, como quem não precisa mais confirmar a cada instante que a vida está acontecendo. E está. Só que sem o mesmo brilho.
De vez em quando, é verdade, bate uma certa saudade daquela luz mais intensa – quase imprudente – que iluminava tudo. Mas logo passa. Porque também havia cansaço ali, um excesso difícil de sustentar por muito tempo.
O copo continuava na minha mão. Coloquei-o de volta sobre a mesa com um cuidado que ele certamente não exigia. Fiquei olhando mais um pouco, agora sem tentar entender. Apenas aceitando.
E me ocorreu, sem qualquer drama, que talvez não haja nada de errado nisso.
Nem no copo.
Nem no tempo.
Nem em nós.
Talvez o brilho não desapareça, apenas se recolha.
Fica mais discreto.
Menos exibido.
Quase íntimo.
E é por isso que, quando a gente se reconhece – assim, de repente – em alguma coisa ligeiramente opaca, não chega a ser uma perda.
É só o tempo, com sua delicadeza um pouco irônica,
nos ensinando a brilhar para dentro.

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